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quarta-feira, 1 de abril de 2026

MERKEL: PODER, PRUDÊNCIA E ANTECIPAÇÃO POLÍTICA

 


ANGELA MERKEL: A CHANCELER E SEU MUNDO

STEFAN KORNELIUS

EDITORA nVERSOS – 1ª ED. 2015

288 páginas

Stefan Kornelius no traz uma biografia política de Angela Merkel. No início do livro são apresentados alguns fatos de sua infância e de sua vida durante 35 anos na RDA, a Alemanha oriental, e os efeitos que essa experiência teve sobre sua formação, principalmente no que se refere à questão da liberdade.  

Merkel era filha de um pastor protestante que, junto com sua esposa e mãe de Angela, soube preservar na intimidade de sua casa, a portas fechadas uma liberdade de pensamento. Porém, do outro lado da porta, era preciso se fazer de inocente e saber dissimular para não se tornar alvo de perseguição política.

No início de sua carreira política no Ocidente, após a queda do muro de Berlim, Angela encontra dificuldades para compreender o pensamento ocidental. Aos poucos, contudo, vai se entrosando, embora sempre guarde para si o valor máximo da liberdade.

O livro trata dos dois primeiros períodos de seu governo, tendo sido publicado antes do terceiro. Nele aparecem questões centrais da política internacional, como a guerra do Iraque, a invasão da Líbia e, sobretudo, a crise do euro. Kornelius mostra também o estilo de governo de Merkel: sempre cauteloso, passo a passo, sem lances intuitivos ou emocionais, marcado por uma postura extremamente analítica e racional.

São descritos ainda seus encontros e negociações com os governos da Rússia, da China e dos Estados Unidos, bem como sua aliança com a França durante a crise do euro, parceria que posteriormente se enfraqueceu com a mudança de presidente francês.

Somos apresentados, assim, a uma mulher que foi considerada a mais poderosa do mundo e, se não do mundo, certamente da Europa. Embora não se apoie na intuição, Merkel possui um senso de análise que a leva a antecipar crises futuras, inclusive aquelas que hoje se desenham nas tensões entre Rússia, Estados Unidos e China.


Stefan Kornelius nasceu em 1965. É um jornalista alemão. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

DO SUJEITO DISCIPLINAR AO SUJEITO DO DESEMPENHO

 

SOCIEDADE DO CANSAÇO

BYUNG-CHUL HAN

VOZES NOBILIS – 1ª ED. – 2024

128 páginas

Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han propõe uma leitura contundente das formas contemporâneas de dominação, deslocando o foco da repressão externa para a exploração internalizada. Já não vivemos, segundo o autor, sob o paradigma da disciplina, da proibição ou da negatividade, mas sob um regime de excesso: excesso de estímulos, de desempenho, de positividade e de exigência de produtividade.

Han descreve uma sociedade que não precisa mais impor limites pela força, porque os sujeitos passaram a se autoexplorar. O imperativo do “poder tudo” substitui o “não pode”, transformando a liberdade em um dispositivo de controle. O sujeito do desempenho acredita agir por vontade própria, quando na verdade está inteiramente capturado por uma lógica que exige eficiência permanente, flexibilidade absoluta e disponibilidade contínua. O resultado não é a emancipação, mas o esgotamento.

A partir desse diagnóstico, o autor relaciona o aumento de patologias psíquicas — como depressão, burnout e transtornos de ansiedade — a esse modelo social. O cansaço que marca nossa época não é apenas físico, mas existencial. Trata-se de um cansaço que corrói o desejo, empobrece a experiência e elimina o espaço da contemplação, do ócio e da negatividade, elementos fundamentais para qualquer forma de pensamento crítico.

Um dos pontos centrais do livro é a crítica à positividade compulsória. Ao eliminar o conflito, a alteridade e o limite, a sociedade do desempenho produz sujeitos isolados, incapazes de estabelecer relações verdadeiramente políticas. Tudo se torna projeto individual, inclusive o fracasso. A responsabilidade pelo esgotamento é deslocada do sistema para o indivíduo, que passa a se perceber como insuficiente, nunca produtivo o bastante.

Embora o livro seja breve, sua força está na capacidade de nomear sensações difusas do presente. O cansaço generalizado, a sensação de inadequação permanente e a dificuldade de sustentar a atenção encontram aqui uma interpretação filosófica que revela suas raízes estruturais. Ao mesmo tempo, a leitura suscita questões importantes: até que ponto esse diagnóstico não corre o risco de universalizar uma experiência que é atravessada por desigualdades de classe, gênero e raça? Quem pode, de fato, adoecer de cansaço em uma sociedade marcada por precariedade extrema?

Sociedade do Cansaço não oferece soluções fáceis. Sua contribuição está menos em indicar saídas e mais em interromper a naturalização do esgotamento como destino individual. Ao revelar a violência silenciosa da positividade e da autoexploração, Han nos convida a repensar o valor do limite, da pausa e da recusa, gestos cada vez mais raros, mas talvez indispensáveis, em um mundo que não sabe mais descansar.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coreia do Sul, em 1959. É um filósofo e ensaista sul-coreano. 


A MORTE COMO POLÍTICA

 


NECROPOLÍTICA

ACHILLE MBEMBE

N-1 EDIÇÕES – 1ª ED. – 2018

80 páginas

Em Necropolítica, Achille Mbembe, propõe um deslocamento radical da reflexão política contemporânea ao perguntar não apenas quem governa, mas quem tem o poder de decidir sobre a vida e, sobretudo, sobre a morte. Partindo e tensionando o conceito de biopolítica, Mbembe mostra que, em muitos contextos, o exercício do poder se manifesta principalmente como a capacidade de expor populações inteiras à morte, ao abandono e à violência contínua.

O autor localiza as origens da necropolítica na experiência colonial e escravista, entendendo o colonialismo como um laboratório de técnicas de dominação extrema. Nas colônias, o direito não protegia a vida, mas organizava a morte; certos corpos eram desde sempre matáveis, descartáveis, reduzidos a uma existência precária. A modernidade política, frequentemente celebrada como espaço de direitos e cidadania, revela assim seu lado mais sombrio, sustentado por regimes de exceção permanentes aplicados a populações racializadas.

Mbembe amplia essa análise ao observar como essas lógicas se atualizam no presente. Estados, milícias, forças paramilitares e até estruturas econômicas exercem poder necropolítico ao controlar territórios, corpos e mobilidades, criando zonas onde a vida é suspensa. Campos de refugiados, favelas, prisões, fronteiras militarizadas e territórios ocupados tornam-se espaços onde a morte não é um acidente, mas uma possibilidade sempre iminente, administrada politicamente.

Um dos aspectos mais perturbadores do livro é a articulação entre soberania, violência e racismo. A raça aparece como um operador central da necropolítica, definindo quais vidas merecem luto e proteção e quais podem ser eliminadas sem escândalo. Nesse sentido, Mbembe mostra que o racismo não é um desvio do sistema democrático, mas um de seus mecanismos constitutivos, sobretudo quando articulado à lógica colonial e capitalista.

Necropolítica exige uma leitura atenta e desconfortável. Não se trata de um texto introdutório ou conciliador, mas de uma intervenção teórica que obriga o leitor a confrontar a violência estrutural que sustenta o mundo contemporâneo. Em contextos como o brasileiro, marcados por genocídio da população negra, encarceramento em massa e militarização dos territórios pobres, o conceito de necropolítica revela sua potência explicativa e sua urgência ética.

O livro não oferece respostas fáceis nem caminhos de redenção. Sua força está em nomear o indizível, em tornar visível aquilo que o discurso político dominante tenta naturalizar ou ocultar. Ler Mbembe é reconhecer que, para muitos, a morte não é exceção, mas condição permanente, e que qualquer projeto político verdadeiramente emancipatório precisa começar por esse reconhecimento.


Achille Mbembe nasceu em Centro, Camarões, em 1957. É um filósofo, cientista político, historiador e professor camaronês. 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

O QUE É LIBERDADE? ENTRE SOCIALISMO, DEMOCRACIA E CAPITALISMO

 

LIVRE: VIRANDO ADULTA NO FIM DA HISTÓRIA

LEA YPI

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

304 páginas


PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ALBÂNIA 

Em Livre: Virando Adulta no Fim da História, Lea Ypi constrói uma autobiografia profundamente atravessada pela história política da Albânia, acompanhando sua infância sob o regime socialista, a queda desse sistema, a guerra civil que se seguiu e, por fim, sua partida definitiva do país. Trata-se de um livro especialmente instigante também por seu cenário: a Albânia é um ponto quase cego da história europeia, apesar de ter sido apresentada, durante certo período, como modelo exemplar do socialismo/comunismo, o que torna a narrativa ainda mais potente ao deslocar o leitor de referências já cristalizadas.

Ypi relata uma infância aparentemente harmoniosa, marcada pela vida familiar, pela escola e pela rotina cotidiana. Para a criança que foi, tudo parecia funcionar de modo coerente e seguro, sem grandes motivos para questionamento. As fissuras surgiam apenas nas conversas entre adultos, fragmentos de falas que ela não conseguia compreender, mas que anunciavam algo silenciado. Somente após a queda do regime ela descobre a história real de sua família e compreende o silêncio que a cercava; um silêncio construído como forma de proteção, tanto dela quanto da própria família.

A partir dessa experiência, o livro avança para uma reflexão mais ampla sobre a ideia de liberdade. Ypi questiona se ela realmente existe nas democracias liberais, no capitalismo e no sistema neoliberal, mostrando como a coerção nem sempre é visível e como a liberdade pode operar como uma ilusão eficaz justamente por ser naturalizada e internalizada. Não se trata apenas de regimes políticos distintos, mas de formas diferentes de produzir obediência, adesão e consentimento.

A leitura provoca inevitáveis deslocamentos e ressonâncias com o contexto brasileiro. É impossível não pensar no silêncio que recai sobre a escravização e sobre a ditadura militar, silêncios que produzem a ignorância política que atravessa o presente. Assim como Lea, também crescemos acreditando no que nos foi ensinado na escola e na família, sem acesso às camadas ocultas da história e às violências que estruturaram o país.

O livro também conduz a uma reflexão sobre o eurocentrismo que nos legou uma ideologia branca, racista e patriarcal, ainda profundamente operante. Muitos continuam a pensar os povos indígenas como seres do passado, indolentes ou preguiçosos, e os negros como inferiores ou, pior, como inimigos sociais — imagens que seguem legitimando violências cotidianas amplamente visíveis no noticiário. A permanência dessas hierarquias revela o quanto a chamada liberdade democrática convive com formas profundas de exclusão e desumanização.

Por fim, o livro nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: qual é, afinal, a diferença? No Brasil, a palavra “comunismo” ainda provoca pânico, enquanto as formas de manipulação e coerção do sistema vigente passam quase despercebidas. Livre nos convida a percorrer o caminho inverso: se o capitalismo se apresenta como o oposto do comunismo, em que medida eles também se aproximam? Sabemos bem no que diferem, mas raramente nos perguntamos no que são semelhantes. É nesse espaço de reflexão, entre memória, silenciamento e ideologia, que o livro se inscreve com força.

Lea Ypi nasceu em 1979, em Tirana na Albânia. É escritora e professora de teoria política e filosofia. 



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

MAQUIAVEL E A POLÍTICA FEMININA


 

PRINCESAS DE MAQUIAVEL – POR MAIS MULHERES NA POLÍTICA

JULIANA FRATINI (ORG.)

MATRIX EDITORA – 1ª ED. – 2021

208 páginas

Princesas de Maquiavel, organizado por Juliana Fratini, inicia-se com uma analogia ao clássico O Príncipe, de Maquiavel, escrito para um príncipe homem, transportando suas reflexões para o universo feminino e político, daí o título.

O livro reúne depoimentos de mulheres na política que relatam as dificuldades enfrentadas, incluindo o machismo e a violência política direcionada a elas. Também abordam iniciativas voltadas para aumentar a participação feminina, destacando a solidariedade e a sororidade entre mulheres na política. Além disso, a obra evidencia conquistas concretas dessas mulheres, como leis aprovadas, projetos implementados e outras realizações que transformam o cenário político.

Princesas de Maquiavel é uma leitura instigante que combina reflexão teórica, experiência prática e inspiração, mostrando a força, a determinação e a importância da presença feminina na política contemporânea.


Juliana Fratini é uma cientista política brasileira.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A PERIFERIA E O DESLOCAMENTO DO OLHAR

 

AMANHÃ VAI SER MAIOR: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual

ROSANA PINHEIRO-MACHADO

PLANETA – 1ª ED. – 2019

216 páginas

Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado, é um retrato rigoroso, ao mesmo tempo sensível e crítico, do Brasil recente. A autora acompanha o percurso que vai dos movimentos de rua de 2013 até a eleição de Jair Bolsonaro, construindo não apenas uma narrativa dos acontecimentos, mas um diagnóstico profundo das fraturas sociais, políticas e simbólicas que atravessam o país. O livro responde a muitas dúvidas ao oferecer uma leitura que foge tanto da simplificação moral quanto da análise apressada, permitindo compreender processos que, à primeira vista, parecem contraditórios ou incompreensíveis.

Um de seus maiores méritos está em iluminar a periferia e a classe trabalhadora a partir de dentro, explicando por que parcelas significativas desses grupos votaram em Bolsonaro. Em vez de julgamentos fáceis, a autora revela frustrações acumuladas, expectativas frustradas e ressentimentos construídos ao longo do tempo, mostrando como escolhas políticas são moldadas por experiências concretas de vida, insegurança material e sensação de abandono. Nesse percurso, o livro também explicita os erros cometidos pelo PT em relação aos trabalhadores que constituíam sua base histórica, evidenciando o distanciamento progressivo entre o partido e o cotidiano dessas populações, tanto no plano material quanto no simbólico.

A leitura provoca um deslocamento necessário: somos levados a confrontar o quanto nossas opiniões costumam ser formadas a partir de vivências pessoais limitadas e das narrativas oferecidas pela mídia, frequentemente incapazes de abarcar a complexidade social do país. Ao dar visibilidade a realidades pouco escutadas, Amanhã vai ser maior amplia nossa compreensão do Brasil e do povo brasileiro, exigindo empatia, escuta e revisão de certezas. Trata-se, assim, de um livro fundamental para quem deseja compreender o presente para além da indignação ou da polarização rasa, lembrando que não há possibilidade de futuro sem um entendimento profundo das raízes da crise que vivemos.


Rosana Pinheiro-Machado é uma antropóloga brasileira. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

DEMOCRACIA: FRÁGIL, IMPERFEITA, NECESSÁRIA

 


COMO AS DEMOCRACIAS MORREM

STEVEN LEVITSKYDANIEL ZIBLATT

ZAHAR – 1ª ED. - 2018

272 páginas 

Gostaria de recomendar este livro. Diante do que vemos acontecer no mundo, com a ascensão, em diversos países, tanto da extrema direita quanto da extrema esquerda, trata-se de uma leitura fundamental para compreendermos que as democracias já não terminam, necessariamente, por meio de golpes militares ou invasões externas. Hoje, muitas vezes, elas se desfazem a partir de dentro, utilizando o próprio processo democrático como instrumento de sua corrosão.

Os autores analisam a eleição de Donald Trump, cujo desfecho, felizmente, ocorreu dentro dos marcos democráticos, mas também examinam outros contextos contemporâneos, como Hungria, Turquia e Venezuela. Além disso, recorrem a exemplos históricos mais explícitos de ruptura institucional, como as ditaduras de Augusto Pinochet, no Chile, e de Alberto Fujimori, no Peru, mostrando diferentes caminhos que conduzem ao autoritarismo.

O ponto central do livro é revelar como líderes eleitos legitimamente passam a enfraquecer gradualmente as instituições, minar a confiança nas regras do jogo democrático e normalizar práticas autoritárias, até que a democracia permaneça apenas como forma, esvaziada de conteúdo. Não se trata de um colapso súbito, mas de um processo lento, muitas vezes aceito ou naturalizado pela sociedade.

Como dizia Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais. Ainda não conhecemos um sistema melhor e, justamente por isso, vale a pena defendê-la. Em tempos como os atuais, este livro se mostra não apenas relevante, mas necessário, pois nos ajuda a reconhecer os sinais do enfraquecimento democrático antes que seja tarde demais.


Steven Levitsky nasceu em Ithaca, Nova Iorque, em 1968. É um cientista político estadunidense.

Daniel Ziblatt nasceu em 1972. É um cientista político estadunidense. 


 


AFETOS, CRENÇAS E A TRANSFORMAÇÃO DO ELEITORADO BRASILEIRO

 


BIOGRAFIA DO ABISMO

FELIPE NUNESTHOMAS TRAUMANN

HARPERCOLLINS BRASIL – 1ª ED. 2023

240 páginas 

Felipe Nunes e Thomas Traumann fazem uma análise aprofundada do que ocorreu com o eleitorado brasileiro a partir de 2013 e de como se deu a mudança nos critérios que passaram a orientar o voto. Ao examinarem diversas eleições, identificam tanto os padrões anteriores quanto as transformações ocorridas e também aquilo que, apesar de tudo, permaneceu.

O ponto central do livro é a mudança de uma escolha eleitoral que antes se orientava majoritariamente por questões públicas — como saúde, segurança, educação e, sobretudo, economia — para uma lógica mais privada, marcada por valores morais e crenças pessoais. O voto deixa de ser predominantemente racional e passa a ser afetivo, movido por paixões.

Mas o que levou a essa transformação? É isso que os autores buscam compreender ao longo do livro. Por que uma parcela significativa dos brasileiros se deslocou para a direita, muitas vezes de forma radical, a ponto de apoiar soluções autoritárias e se posicionar contra a democracia?

Os pesquisadores analisam como a intolerância se intensificou a tal ponto que o adversário político — com quem ainda seria possível dialogar — passa a ser visto como inimigo a ser eliminado. Esse clima se infiltra nas relações familiares, nas escolhas cotidianas após as eleições, nas decisões de consumo, na preferência por marcas, lojas e fabricantes. Chega também às escolas, onde o debate deixa de ser sobre formação e passa a girar em torno do controle ideológico do que os professores ensinam, classificados como progressistas ou conservadores. O resultado é o aumento da violência simbólica e concreta, do ódio e da polarização extrema.

Ao final, os autores tentam apontar caminhos possíveis para enfrentar esse cenário, mas sem qualquer otimismo ingênuo: deixam claro que não se trata de algo que será resolvido rapidamente. O percurso é longo e complexo.

Li este livro buscando compreender melhor o Brasil atual, marcado por uma divisão profunda de ideias e posições, pela exacerbação dos preconceitos e do racismo. Trata-se de uma obra inteiramente baseada em pesquisas, sem tomar partido ideológico, que se propõe a refletir com honestidade o cenário encontrado.


Felipe Nunes é Ph.D. em Ciências Políticas

Thomas Traumann nasceu em Rolândia – PR em 1967. É um jornalista, consultor e pesquisador.





terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

UM VÍNCULO MARCADO PELA FILOSOFIA E PELO NAZISMO

 



HANNAH ARENDT E MARTIN HEIDEGGER: História de um amor

ANTONIA GRUNENBERG

PERSPECTIVA – 1ª ED. 2019

416 páginas 

Neste livro, Antonia Grunenberg reconstrói a relação entre Hannah Arendt e Martin Heidegger desde o início até o fim, acompanhando não apenas o vínculo afetivo entre ambos, mas também o contexto intelectual da filosofia alemã do período. O leitor é conduzido a um momento em que Heidegger se tornava uma referência central, atraindo estudantes de várias partes da Europa e estabelecendo diálogos intensos com outros filósofos, entre eles Karl Jaspers — grande amigo de Arendt e, por um tempo, também ligado a Heidegger, até que essa amizade se deteriorasse em razão do envolvimento deste com o nazismo.

O livro deixa claro que, embora Heidegger tenha exercido profunda influência sobre a formação intelectual de Arendt, ela nunca permaneceu à sua sombra. Ao contrário, afasta-se, constrói seu próprio universo conceitual e elabora uma filosofia singular — ainda que recusasse essa denominação, preferindo se definir como cientista política. Em Arendt, pensar nunca foi um exercício abstrato desligado do mundo, mas uma atividade intrinsecamente vinculada à experiência histórica e à vida pública.

Grunenberg permite compreender, ainda que parcialmente, o modo como o pensamento de ambos se desenvolveu e como Heidegger se envolveu com o regime nazista. É possível perceber suas expectativas em relação ao movimento e a frustração subsequente, ao constatar que os nazistas não estavam interessados no pensamento, mas no controle. Ainda assim, Heidegger jamais reconheceu publicamente a gravidade desse erro, o que lhe custou críticas severas e o afastamento de muitos admiradores.

Arendt, por sua vez, desloca-se do pensamento puro para a ação e para a vida. Judia, viveu a perseguição nazista, foi obrigada ao exílio e acabou se estabelecendo nos Estados Unidos com o marido, onde permaneceu até o fim de sua vida. Dotada de um espírito analítico agudo, estava à frente de muitos de seus contemporâneos e continua sendo. Até hoje, Eichmann em Jerusalém provoca incompreensões, ataques e rejeições, tendo lhe rendido críticas duras, desafetos e a perda de amizades. Para Arendt, isso era particularmente doloroso, pois sempre insistiu na distinção entre obra e pessoa: critiquem o pensamento, não o indivíduo em sua esfera pessoal.

Hannah Arendt e Martin Heidegger: História de um amor é uma leitura instigante para quem se interessa por filosofia e política, mas também para quem deseja compreender como afetos, escolhas éticas e contextos históricos atravessam — e por vezes comprometem — o pensamento.


Antonia Grunenberg nasceu em 1944. É uma cientista política alemã, pesquisadora do totalitarismo e especialista no pensamento político de Hannah Arendt.