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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

 


LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

ZIAUDDIN YOUSAFZAI E LOUISE CARPENTER

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2019

168 páginas

Muitos já leram “Eu sou Malala”, o relato da jovem paquistanesa que levou um tiro do Talibã por estudar e sobreviveu.  Menos conhecida é a versão de seu pai, Ziauddin Yousafzai, apresentada neste livro escrito em colaboração com Louise Carpenter

A obra acompanha a trajetória de Ziauddin, sua infância no Paquistão e sua formação pessoal, ao mesmo tempo em que narra sua atuação como pai de Malala e seu compromisso com a educação das meninas. Sua história é um contraponto à imagem frequentemente simplificada de sociedades marcadas por estruturas patriarcais, ao apresentar a figura de um homem que se opõe ativamente às restrições impostas às mulheres, inclusive dentro de sua própria família.

Ziauddin defende desde cedo que as meninas e sua filha devem ter os mesmos direitos à educação e às mesmas oportunidades que são oferecidos aos meninos, o que o coloca em conflito com normas sociais e políticas locais, principalmente no contexto de ascensão do Talibã no Paquistão.

A compreensão de Ziauddin sobre a igualdade de gênero foi se construindo ao longo do tempo. Ele demorou para compreender o quanto essa opressão sobre as mulheres podia ser maléfica na própria família. Em suas palavras: “Quando apliquei o princípio básico da igualdade de gêneros à minha própria família, minha vida mudou. A vida da minha esposa mudou. A vida da minha filha mudou. A vida de meus filhos mudou”.

Se Malala falou muito do pai em seu livro, aqui podemos ouvir a narrativa do próprio Ziauddin em suas palavras. A escritora e jornalista Louise Carpenter organiza esse testemunho em forma de narrativa biográfica, articulando memória pessoal e contexto histórico.  

Ao invés de cortar as asas de sua filha e esposa, este pai fez o contrário, ele permitiu que elas mantivessem suas asas e voassem, mesmo dentro de uma sociedade que tolheu as mulheres e as trata como seres inferiores.

 

Ziauddin Yousafzai nasceu em Shangla, Paquistão, em 1969. É um empresário e ativista educacional, mais conhecido como sendo o pai de Malala Yousafzai.

Louise Carpenter nasceu em Duns, Escócia, Reino Unido em 1970. É uma escritora e jornalista escocesa. 




quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A VOZ COMO TERRITÓRIO POLÍTICO

 


ERGUER A VOZ: PENSAR COMO FEMINISTA, PENSAR COMO NEGRA

BELL HOOKS

EDITORA ELEFANTE – 1ª ED. – 2019

380 páginas

Em Erguer a Voz, bell hooks parte da própria experiência para mostrar que falar e, sobretudo, ser ouvida, nunca foi um gesto neutro. A voz, para mulheres negras, é um território de disputa política, atravessado pelo racismo institucional, pelo sexismo e pela lógica da supremacia branca que estrutura a sociedade e, de modo particular, os espaços de produção do saber.

A leitura do livro é transformadora porque desloca o olhar: não se trata apenas de identificar opressões externas, mas de reconhecer como elas se reproduzem cotidianamente, inclusive entre nós. hooks nos convida a um exercício radical de autorreflexão, revelando o quanto mulheres, mesmo aquelas comprometidas com projetos emancipatórios, podem estar implicadas na manutenção do patriarcado e do machismo, seja pelo silêncio, pela adaptação ou pela reprodução de hierarquias aprendidas.

Ao discutir o ambiente universitário, a autora expõe como a academia, longe de ser um espaço neutro, frequentemente reforça relações de dominação. O conhecimento legitimado, os corpos autorizados a falar e os modos “aceitáveis” de expressão obedecem a uma lógica excludente que marginaliza vozes dissidentes. Erguer a voz, nesse contexto, não é apenas falar mais alto, mas desafiar as estruturas que determinam quem pode falar e quem deve permanecer em silêncio.

O livro ensina que a educação pode ser um espaço de libertação, desde que atravesse o desconforto, a escuta crítica e a disposição para rever privilégios. hooks insiste que transformar a universidade, e a sociedade, passa necessariamente pela disposição de confrontar o racismo estrutural, a supremacia branca e o patriarcado, não como abstrações, mas como práticas cotidianas que atravessam nossas relações, afetos e modos de pensar.

Erguer a Voz é, assim, um chamado ético e político. Um convite para falar, mas também para escutar. Para ensinar, mas sobretudo para aprender. E, talvez o mais difícil, para reconhecer que a transformação coletiva começa por um trabalho profundo e contínuo sobre nós mesmas.


bell hooks nasceu em Hopkinsville, Kentucky, EUA, em 1952 e faleceu em Berea, Kentucky, EUA, em 2021. Foi uma teórica feminista, professora, artista e ativista antirracista


TIAMAT E O APAGAMENTO DO FEMININO

 

ENUMA ELISH: O POEMA MESOPOTÂMICO DA CRIAÇÃO

Tradução: Sueli Maria de Regino

EBOOK – 1ª ED. – 2019

64 páginas

Em Enuma Elish: o poema mesopotâmico da criação, encontramos não apenas um mito cosmogônico, mas um texto profundamente político, que narra a origem do mundo ao mesmo tempo em que legitima uma nova ordem de poder. Diferente de mitologias centradas na geração da vida como processo relacional, o Enuma Elish funda o cosmos a partir da violência, do conflito e da vitória de um deus masculino sobre uma potência feminina primordial.

A narrativa apresenta Tiamat, divindade associada às águas caóticas e à matriz originária da vida, como ameaça que precisa ser eliminada. Sua derrota por Marduk não é apenas um episódio mítico, mas um gesto fundador: o mundo nasce do esquartejamento do corpo feminino, reorganizado segundo uma lógica hierárquica, centralizada e soberana. A criação, aqui, não é gestação nem continuidade, mas dominação e controle.

O poema reflete e legitima a transição histórica para sociedades estatais e patriarcais na Mesopotâmia. Ao elevar Marduk à condição de deus supremo, o Enuma Elish consagra uma estrutura de poder vertical, militarizada e masculina, na qual a ordem só se estabelece mediante a supressão do feminino caótico. O mito funciona, assim, como narrativa de fundação do Estado, da soberania e da autoridade central, naturalizando a violência como princípio organizador do mundo.

Há, nesse sentido, uma ruptura simbólica fundamental em relação a mitologias mais antigas, nas quais o feminino aparece como fonte da vida, da fertilidade e da continuidade cósmica. No Enuma Elish, o feminino deixa de ser potência criadora e passa a ser ameaça a ser vencida. Essa inversão não é apenas teológica, mas profundamente política e cultural, marcando o início de um imaginário que associa ordem à masculinidade e caos à feminilidade.

A leitura do poema hoje permite reconhecer como certos fundamentos do pensamento ocidental — a separação violenta entre natureza e cultura, a legitimação da guerra, a hierarquização dos corpos — encontram raízes antigas. O mito não explica apenas como o mundo foi criado, mas como uma determinada forma de poder passou a se apresentar como inevitável e sagrada.

Ler o Enuma Elish é confrontar o nascimento simbólico de uma civilização fundada na vitória, na exclusão e no silenciamento do princípio feminino. É perceber que a história da criação também é uma história de apagamentos — e que compreender esses mitos é essencial para questionar as estruturas que ainda hoje organizam nossas formas de pensar o mundo, o poder e o sagrado.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EUFRÁSIA: PIONEIRA NA BOLSA DE VALORES

 

#QUERO SER EUFRÁSIA

MARIANA RIBEIRO

EBOOK - 2019

72 páginas

#Quero Ser Eufrásia, de Mariana Ribeiro, apresenta a extraordinária trajetória de Eufrásia Teixeira Leite, uma das primeiras mulheres brasileiras a operar na Bolsa de Valores, no século XIX. Nascida em Vassouras, no Rio de Janeiro, Eufrásia desafiou convenções de uma época em que a educação feminina se restringia a português, matemática rudimentar, história, línguas e tarefas domésticas. Graças ao incentivo do pai, ela recebeu conhecimentos financeiros que se mostrariam fundamentais para gerir a herança da família.

Após a morte dos pais e o acidente de sua irmã, que a impedia de se casar, Eufrásia mudou-se para Paris, onde iniciou sua carreira de investimentos. Atuou nas principais bolsas de valores, incluindo Paris, Brasil, Nova York e Londres, negociando em diversas moedas, alcançando grande sucesso e tornando-se milionária.

Eufrásia foi noiva de Joaquim Nabuco, mas o relacionamento terminou devido à diferença de leis entre Brasil e França: no Brasil, a herança da mulher passava automaticamente à gerência do marido, enquanto na França isso não ocorria, e Nabuco recusou-se a casar fora do país. Eufrásia jamais se casou, mantendo sua independência financeira e pessoal.

Sua vida extraordinária comprova que mulheres são igualmente capazes de gerir finanças e atuar na bolsa de valores, desafiando preconceitos históricos e mostrando que competência e ousadia não têm gênero.


O NASCIMENTO DO #METOO COMO MOVIMENTO GLOBAL

 


ELA DISSE: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo

JODI KANTOR – MEGAN TWOHEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2019

376 páginas 

O livro evidencia como esse silêncio era sustentado por um machismo estrutural profundamente enraizado. As mulheres abusadas tinham medo de falar porque sabiam que, ao denunciarem, seriam desacreditadas. A sociedade tende a questionar as vítimas: afirma que mentiram, que consentiram, que “permitiram”, ou que não deveriam estar naquele lugar, frequentemente uma suíte de hotel, cenário recorrente dos abusos, já que Weinstein costumava convocar as mulheres para supostas reuniões de trabalho nesses espaços.

As duas jornalistas precisaram construir um vínculo de confiança extremamente delicado com as mulheres envolvidas. Inicialmente, muitas aceitaram falar apenas sob sigilo absoluto. Aos poucos, porém, uma, depois outra, decidiu autorizar a publicação de seus relatos. Foi esse gesto de coragem que deu o impulso decisivo ao movimento #MeToo.

A partir da publicação da reportagem, mais mulheres começaram a se manifestar. Amparadas umas nas outras, romperam o silêncio e denunciaram abusos que haviam sido naturalizados, ocultados ou negados por décadas. O livro mostra com clareza não apenas a importância do jornalismo investigativo, mas também como a escuta, o cuidado e a persistência podem criar condições para que a verdade venha à tona.

Na verdade, o #MeToo foi iniciado por Tarana Burke em 2006, mas tornou-se um símbolo a partir das denúncias contra Harvey Weinstein, em 2017.


Jodi Kantor nasceu em Nova Iorque em 1975. É uma jornalista estadunidense.

Megan Twohey nasceu em Washington D.C. É uma jornalista estadunidense. 


 


PESQUISADORES INDÍGENAS E OS LIMITES DA ACADEMIA OCIDENTAL

 

DESCOLONIZANDO METODOLOGIAS: PESQUISA E POVOS INDÍGENAS

LINDA TUHIWAI SMITH

EDITORA UFPR – 2019

239 páginas

Linda Tuhiwai Smith (Ngāti Awa e Ngāti Porou, Māori) é uma estudiosa da educação e uma crítica contundente do colonialismo persistente no ensino e na pesquisa acadêmica.

O livro aborda a pesquisa acadêmica realizada sobre povos indígenas, com ênfase nas pesquisas conduzidas junto aos Māori da Nova Zelândia. Na primeira parte, a autora faz uma crítica ao Iluminismo e ao pensamento ocidental, argumentando que eles não podem, nem devem, ser aplicados de forma universal a pesquisas que envolvem outras culturas. A arrogância epistêmica que sustenta a ideia de que apenas a pesquisa ocidental é objetiva, imparcial e verdadeiramente científica cria enormes dificuldades para pesquisadores indígenas. Mesmo aqueles formados dentro da tradição acadêmica ocidental enfrentam obstáculos significativos e, quando não seguem estritamente suas normas metodológicas, muitas vezes sequer são ouvidos.

Na segunda parte, Smith demonstra o que é fundamental para uma pesquisa indígena: o que pode e deve ser feito, quais são os limites, as dificuldades e os obstáculos. Apresenta, ainda, um exemplo concreto da Nova Zelândia que vem funcionando de maneira respeitosa e produtiva, mostrando que outras formas de pesquisa são possíveis.

A autora enfatiza a posição indígena em relação às pesquisas e aos pesquisadores. Muitos povos resistem à pesquisa acadêmica porque, historicamente, ela foi feita sobre eles, mas nunca para eles. Essas pesquisas não lhes trouxeram benefícios concretos. Encontrei essa mesma situação ao ler o livro sobre a cosmopolítica do cuidado da pesquisadora Nathalia Dothling, realizado com mulheres quilombolas em Santa Catarina: a desconfiança em relação aos pesquisadores e a falta de crédito concedido a estudos que não produzem nenhum retorno para a comunidade pesquisada.

Além disso, há todo um conjunto de rituais e protocolos a serem respeitados, de acordo com a cultura de cada povo: com quem falar primeiro, os rituais de hospitalidade, as formas de demonstrar respeito e, sobretudo, a construção de confiança. Esses elementos são ignorados pelas metodologias tradicionais.

Os povos indígenas estão cansados de ser apenas objetos de pesquisa. Eles querem ser sujeitos do processo, desejam pesquisas que lhes tragam benefícios reais, que sejam úteis para enfrentar suas próprias questões e desafios.

Outro problema central apontado por Smith é que, ao se aplicar exclusivamente uma epistemologia e uma metodologia ocidentais, não se consegue adentrar verdadeiramente a cultura do outro. O resultado disso são inúmeras publicações que acabam produzindo ideologias, muitas vezes nefastas, sobre esses povos, gerando visões racializadas, distorcidas e falsas.


Linda Tuhiwai Smith nasceu em 1950 na Nova Zelândia. Faz parte dos povos indígenas Ngati Awa e Ngati Porou iwi. É uma professora. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

RESSIGNIFICAR O LUGAR DAS MULHERES

 


MULHERES, MITOS E DEUSAS

O feminino através dos tempos

MARTHA ROBLES

GOYA – 2ª ED. – 2019

448 páginas

Através de temas: as origens, tragédias, amor, fadas, rainhas, caminho de Deus até o nosso tempo, Robles traça perfis de mulheres ressignificando o papel dessas mulheres no mundo e com isso o papel feminino.

Ela também faz uma análise dos mitos, das lendas e dos arquétipos construídos sobre a mulher, o que serviu para reafirmar o machismo, o patriarcado e até mesmo a misoginia.

Li o livro no início do meu percurso no estudo das mulheres e além de tudo que aprendi com ele também encontrei mulheres das quais nunca tinha ouvido falar e que se tornaram importantes em meus estudos como María Zambrano.

Em Mulheres, Mitos e Deusas: O feminino através dos tempos, Martha Robles percorre uma vasta constelação de temas — as origens, as tragédias, o amor, as fadas, as rainhas, o caminho de Deus até o nosso tempo — para traçar perfis de mulheres que atravessam a história, a mitologia e a literatura. Ao fazê-lo, a autora não apenas apresenta essas figuras, mas ressignifica seus papéis, recolocando o feminino no centro de narrativas que tradicionalmente o relegaram à margem.

O livro se constrói como uma leitura crítica dos mitos, lendas e arquétipos associados às mulheres, revelando como essas construções simbólicas foram usadas para reafirmar o machismo, o patriarcado e, muitas vezes, a misoginia. Robles mostra que o mito nunca é neutro: ele educa, disciplina e naturaliza hierarquias. Ao revisitar essas narrativas, a autora desmonta imagens cristalizadas e abre espaço para interpretações que devolvem complexidade, potência e ambiguidade às figuras femininas.

Minha leitura deste livro ocorreu no início do meu percurso nos estudos sobre as mulheres, o que torna sua importância ainda maior. Além do vasto aprendizado que ele proporcionou, encontrei ali mulheres das quais nunca tinha ouvido falar e que se tornaram referências fundamentais em meus estudos posteriores, como María Zambrano. Nesse sentido, Mulheres, Mitos e Deusas não é apenas uma obra de consulta ou reflexão, mas um livro formador, capaz de abrir caminhos, despertar perguntas e inaugurar percursos intelectuais duradouros.


Martha Robles nasceu em 1948. É Socióloga e escritora mexicana. 


SALEM ALÉM DO MITO

 

AS BRUXAS: INTRIGA, TRAIÇÃO E HISTERIA EM SALEM

STACY SCHIFF

ZAHAR – 1ª ED. – 2019

323 páginas

Em As Bruxas: Intriga, Traição e Histeria em Salem, Stacy Schiff revisita um dos episódios mais conhecidos, e ao mesmo tempo mais mal compreendidos, da história colonial norte-americana: os julgamentos das chamadas “bruxas” de Salem, ocorridos em 1692. Longe de uma narrativa folclórica ou sensacionalista, a autora constrói um relato minucioso, quase clínico, sobre como uma comunidade inteira foi capturada por um sistema de acusações, delações e punições legitimadas pelo discurso religioso, jurídico e moral.

O grande mérito do livro está em mostrar que Salem não foi um surto isolado de irracionalidade, mas o resultado de uma confluência de interesses políticos, rivalidades familiares, tensões econômicas, disputas territoriais e uma teologia profundamente misógina. A histeria coletiva não nasce do nada: ela é produzida, alimentada e organizada por instituições que se apresentam como guardiãs da ordem.

Schiff reconstrói o cotidiano da vila, os laços entre seus habitantes e o funcionamento do tribunal com uma precisão impressionante. O leitor percebe como boatos se transformam em provas, como o medo ganha estatuto jurídico e como a palavra de meninas adolescentes passa a valer mais do que qualquer evidência material, desde que confirme o que o poder já deseja ouvir. A acusação de bruxaria funciona, assim, como um dispositivo eficaz de eliminação social.

Embora o livro não seja explicitamente feminista, a leitura revela, de forma contundente, que a maioria das vítimas era composta por mulheres: mulheres que falavam demais, que herdavam terras, que não se encaixavam nos papéis esperados, que viviam à margem ou que simplesmente incomodavam. Salem expõe um mecanismo recorrente da história: quando a ordem patriarcal se sente ameaçada, ela transforma mulheres em perigo moral.

O termo “histeria”, presente no subtítulo, não é usado de forma leviana. Ele aponta para um processo de patologização do dissenso, no qual o sofrimento psíquico, a pobreza, o trauma e até a imaginação são convertidos em crime. A bruxa não é apenas a mulher que supostamente pactua com o demônio, mas aquela cuja existência foge ao controle.

A escrita de Stacy Schiff é elegante, rigorosa e acessível, sem abrir mão da complexidade histórica. Seu texto evita julgamentos anacrônicos, mas não abdica de uma posição ética clara diante da violência cometida. Ao final, Salem aparece menos como uma exceção e mais como um espelho perturbador de sociedades que preferem perseguir indivíduos a enfrentar suas próprias contradições.

As Bruxas é, portanto, uma leitura fundamental não apenas para compreender o passado, mas para reconhecer os ecos de Salem no presente: nos pânicos morais, nas campanhas de difamação, na criminalização do feminino, do diferente e do indomável. Um livro que nos lembra que a fogueira pode mudar de forma, mas raramente desaparece.


Stacy Schiff nasceu em Adams, Massachusetts, EUA, em 1961. É uma escritora estadunidense. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

TRABALHO, CORPO E DISCIPLINAMENTO DAS MULHERES


 

MULHERES E CAÇA ÀS BRUXAS

SILVIA FEDERICI

BOITEMPO – 1ª ED. – 2019

160 páginas


Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici, é uma leitura que provoca raiva e indignação, não em relação à autora, mas ao processo histórico que ela expõe com clareza e contundência. O livro desmonta a ideia, ainda muito difundida, de que a caça às bruxas pertence à Idade Média, mostrando que ela se intensifica, na verdade, no início da Idade Moderna, em estreita relação com a formação do capitalismo e com as transformações impostas pela Revolução Industrial.

Federici inicia sua análise pelo cercamento das terras comunais na Inglaterra. Durante séculos, populações pobres cultivaram essas terras de forma coletiva, garantindo sua subsistência. Com os cercamentos, esse direito foi abruptamente retirado. As fábricas precisavam de mão de obra, e os homens foram forçados a migrar para o trabalho industrial. As mulheres, porém, reagiram. Arrancavam cercas, continuavam a plantar e mantinham práticas comunitárias baseadas no respeito à natureza e no apoio mútuo. Essa resistência feminina tornou-se um obstáculo direto ao novo modelo econômico que se pretendia impor.

O livro mostra como essa autonomia feminina precisava ser destruída. Federici dedica um capítulo especialmente revelador ao termo gossip, hoje traduzido como fofoca, mas que originalmente designava a amizade entre mulheres, a sororidade, a rede de apoio feminino. Esse sentido foi deliberadamente deturpado para deslegitimar os vínculos entre mulheres e promover sua fragmentação. Mulheres que eram independentes, que se reuniam, conversavam, bebiam juntas nas tavernas, representavam uma ameaça. Temia-se também sua sexualidade e seu poder de sedução, vistos como forças capazes de desestabilizar a ordem masculina. A solução encontrada foi brutal: acusá-las de bruxaria, levá-las à fogueira, instaurar o terror como forma de disciplinamento social. O objetivo era claro: empurrar as mulheres de volta para o espaço doméstico, fazê-las procriar mão de obra e garantir a reprodução cotidiana do trabalhador, fornecendo comida, cuidado e roupas.

O mais perturbador, contudo, é perceber que esse processo não pertence apenas ao passado. Federici demonstra que a caça às bruxas continua existindo em diversos lugares do mundo, especialmente na Índia e em países da África. Na Índia, as acusações estão frequentemente ligadas à questão do dote; na África, à disputa por terras. As principais vítimas são mulheres idosas que ainda detêm pequenos pedaços de terra e mantêm práticas agrícolas baseadas em conhecimentos ancestrais. São perseguidas e assassinadas, muitas vezes por jovens interessados em se apropriar dessas terras. Em Gana, existe inclusive um “campo de bruxas”, para onde mulheres fogem em busca de alguma forma precária de proteção. O silêncio e a escassa reação diante dessas violências tornam tudo ainda mais revoltante. É daí que nasce a raiva e a indignação que o livro provoca — sentimentos que não paralisam, mas exigem reflexão, denúncia e posicionamento.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


O COTIDIANO COMO ESPAÇO DA VIOLÊNCIA RACIAL


 

MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO: Episódios de racismo cotidiano

GRADA KILOMBA

COBOGÓ – 1ª ED. – 2019

249 páginas

Grada Kilomba nasceu em Lisboa e realizou seu doutorado em Berlim. Memórias da Plantação é fruto direto dessa pesquisa acadêmica, mas está longe de se limitar a um texto universitário: trata-se de uma obra que articula teoria, experiência, escuta e denúncia, rompendo com as formas tradicionais de produção do conhecimento.

Logo no início, Kilomba relata os inúmeros obstáculos enfrentados ao chegar à Alemanha para se inscrever no doutorado. Os entraves burocráticos, as exigências excessivas e os constrangimentos sucessivos não aparecem como coincidências, mas como estratégias veladas de exclusão. Ela era a única mulher negra de sua turma — na verdade, a única pessoa negra — e essa solidão racial atravessa toda a narrativa.

Para desenvolver sua pesquisa, Kilomba entrevista mulheres negras, e o livro se estrutura sobretudo a partir do relato de duas delas. São histórias de racismo cotidiano, marcado não por grandes explosões de violência explícita, mas por gestos, palavras, silêncios e “normalidades” que tentam se apresentar como inofensivas. Justamente por isso, são tão devastadoras.

Uma das entrevistadas tem mãe branca, que frequentemente ameniza ou relativiza os episódios de racismo vividos pela filha. Esse ponto é crucial: o apagamento da violência, quando vem de quem deveria proteger, aprofunda o trauma. Aos poucos, o livro revela como essas experiências repetidas produzem marcas psíquicas profundas, ainda que socialmente desautorizadas como sofrimento legítimo.

O trecho em que Kilomba aborda diretamente o trauma é um dos pontos mais fortes da obra. A conscientização de ser negra em uma sociedade estruturada pela branquitude aparece como um processo doloroso, mas também político. Kilomba desmonta a suposta normalidade do racismo e explicita como ele se reproduz justamente por não ser nomeado.

Nesse movimento, ela também dirige uma crítica incisiva ao feminismo ocidental, que frequentemente se mostra incapaz de lidar com o racismo de forma estrutural. O livro evidencia como o racismo é genderizado e como mulheres negras são sistematicamente excluídas das narrativas feministas hegemônicas, mesmo quando o discurso é de igualdade.

Um dos aportes teóricos mais importantes do livro é a análise do processo de descolonização do sujeito branco racista, articulado por meio dos mecanismos do ego. Kilomba descreve uma sequência recorrente: primeiro, a negação (“não somos racistas”); depois, a culpa, que tenta justificar ou suavizar o racismo; em seguida, a vergonha, marcada pelo olhar do outro; o reconhecimento da própria branquitude e do racismo estrutural; e, finalmente, a reparação — entendida não como gesto simbólico, mas como compromisso ativo com a transformação.

Memórias da Plantação é um livro necessário, perturbador e profundamente político. Ele nos obriga a abandonar o conforto da neutralidade e a reconhecer que o racismo não é um desvio da norma: ele é a própria norma, enquanto não for enfrentado.


Grada Kilomba nasceu em Lisboa, Portugal, em 1968. É psicóloga, teórica e artista interdisciplinar. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

FEMINICÍDIO E CULPABILIZAÇÃO DA MULHER

 

MULHERES EMPILHADAS

PATRÍCIA MELO

LEYA - 2019

240 páginas

Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo, constrói pela ficção um retrato duro e necessário da vida de mulheres reais atravessadas pela violência doméstica, psicológica e, em muitos casos, pelo feminicídio. O romance expõe não apenas a violência em si, mas também os mecanismos de culpabilização da mulher, tanto no plano social quanto no jurídico, revelando como essas estruturas contribuem para a repetição e a naturalização da brutalidade.

A narrativa acompanha uma jovem advogada que deixa São Paulo e segue para o Acre para assistir a julgamentos de feminicídio. O estado aparece como um território marcado por índices alarmantes de mortes de mulheres cometidas por companheiros, ex-companheiros ou homens movidos por misoginia explícita. O deslocamento geográfico é também um deslocamento de consciência: ao se aproximar dessas histórias, a protagonista se confronta com a extensão da violência e com a fragilidade das respostas institucionais.

Paralelamente, o livro incorpora um mito indígena e seus rituais ligados às mulheres, criando uma camada simbólica que dialoga com a narrativa principal. Essa dimensão mítica não suaviza a violência, mas a aprofunda, estabelecendo conexões entre passado, ancestralidade e o presente brutal. Aos poucos, a protagonista reconhece que ela própria vive uma relação marcada pela violência, compreendendo que um tapa não tem justificativa, não é exceção, nem acidente, mas sinal claro de um ciclo que tende a se agravar.

O romance intercala a ficção com notícias reais de mulheres assassinadas por seus companheiros, rompendo qualquer possibilidade de distanciamento confortável por parte do leitor. Essa estratégia reforça o caráter político do livro, que se recusa a tratar o feminicídio como estatística ou exceção. Mulheres empilhadas é uma leitura incômoda, urgente e necessária. Um livro que toda mulher deveria ler, não como alerta abstrato, mas como reconhecimento de uma realidade que insiste em se repetir.


Patrícia Melo nasceu em Assis em 1962. É uma escritora, roteirista, dramaturga e artista plástica brasileira. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E FORÇA DAS MULHERES


 

RASTROS DE RESISTÊNCIA: Histórias de luta e liberdade do povo negro

ALE SANTOS

PANDA BOOKS – 1ª ED. – 2019

136 páginas

AUDIOLIVRO

Rastros de Resistência, de Ale Santos, recupera diversas histórias de luta e resistência do povo negro no Brasil e na África. O livro apresenta relatos sobre personagens e eventos pouco conhecidos, revelando trajetórias que foram apagadas da história oficial. Para quem, como eu, ainda desconhecia muitas dessas histórias, a obra é um importante instrumento de conhecimento e valorização da memória negra.

O autor aborda reinos africanos que existiam antes da colonização e que foram apagados das narrativas históricas dominantes, resgatando figuras centrais, como líderes, rainhas e guerreiras, cuja força e coragem inspiram as lutas atuais. Seguindo a linha de pensamento de Léonora Miano, que afirma ser necessário reavivar a história, especialmente a das mulheres, Santos cumpre um papel essencial ao trazer à tona memórias esquecidas, mostrando como o passado fortalece as lutas presentes.

O audiobook é complementado por um PDF com imagens e quadros que retratam tanto o racismo quanto os grandes líderes e heroínas negras, proporcionando uma experiência completa de aprendizado e reflexão.


Alexandre de Oliveira Silva Santos mais conhecido como Ale Santos nasceu em Cruzeiro – SP, em 1986. É um escritor, roteirista, ativista brasileiro. 


A PERIFERIA E O DESLOCAMENTO DO OLHAR

 

AMANHÃ VAI SER MAIOR: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual

ROSANA PINHEIRO-MACHADO

PLANETA – 1ª ED. – 2019

216 páginas

Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado, é um retrato rigoroso, ao mesmo tempo sensível e crítico, do Brasil recente. A autora acompanha o percurso que vai dos movimentos de rua de 2013 até a eleição de Jair Bolsonaro, construindo não apenas uma narrativa dos acontecimentos, mas um diagnóstico profundo das fraturas sociais, políticas e simbólicas que atravessam o país. O livro responde a muitas dúvidas ao oferecer uma leitura que foge tanto da simplificação moral quanto da análise apressada, permitindo compreender processos que, à primeira vista, parecem contraditórios ou incompreensíveis.

Um de seus maiores méritos está em iluminar a periferia e a classe trabalhadora a partir de dentro, explicando por que parcelas significativas desses grupos votaram em Bolsonaro. Em vez de julgamentos fáceis, a autora revela frustrações acumuladas, expectativas frustradas e ressentimentos construídos ao longo do tempo, mostrando como escolhas políticas são moldadas por experiências concretas de vida, insegurança material e sensação de abandono. Nesse percurso, o livro também explicita os erros cometidos pelo PT em relação aos trabalhadores que constituíam sua base histórica, evidenciando o distanciamento progressivo entre o partido e o cotidiano dessas populações, tanto no plano material quanto no simbólico.

A leitura provoca um deslocamento necessário: somos levados a confrontar o quanto nossas opiniões costumam ser formadas a partir de vivências pessoais limitadas e das narrativas oferecidas pela mídia, frequentemente incapazes de abarcar a complexidade social do país. Ao dar visibilidade a realidades pouco escutadas, Amanhã vai ser maior amplia nossa compreensão do Brasil e do povo brasileiro, exigindo empatia, escuta e revisão de certezas. Trata-se, assim, de um livro fundamental para quem deseja compreender o presente para além da indignação ou da polarização rasa, lembrando que não há possibilidade de futuro sem um entendimento profundo das raízes da crise que vivemos.


Rosana Pinheiro-Machado é uma antropóloga brasileira. 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

ENTRE A PÓLIS E O PENSAMENTO: COMO ATENAS MOLDOU O OCIDENTE

 


A ASCENSÃO DE ATENAS

A História da maior civilização do mundo

ANTHONY EVERITT

CRÍTICA – 2019

488 páginas 

Mais um título da minha lista dedicada à História — desta vez, voltado à Grécia Antiga, com ênfase em Atenas. Em A Ascensão de Atenas, Anthony Everitt acompanha o percurso dessa cidade-estado desde sua formação até o apogeu no período de Péricles, sem deixar de abordar, com igual atenção, os fatores que levaram ao seu declínio.

Atenas, embora tivesse cerca de duzentos mil habitantes, tornou-se um dos maiores centros culturais do Ocidente. O livro evidencia como, em um espaço relativamente pequeno, se produziram transformações decisivas no pensamento político, filosófico, literário e artístico que ainda hoje moldam nossa forma de compreender o mundo.

Everitt nos conduz pela atuação dos estadistas, pela construção da democracia ateniense, pelo surgimento dos grandes filósofos e pela força do teatro — tragédias e comédias como formas de reflexão coletiva sobre a pólis, o poder, o destino e a condição humana. Ao longo da leitura, torna-se possível compreender como os gregos pensavam, quais eram seus valores e de que modo interpretavam a vida, a política e a guerra.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é o contraste que se delineia entre o pensamento grego e o persa, especialmente no contexto das guerras médicas. Essa contraposição ajuda a perceber que Atenas se definiu não apenas por suas realizações internas, mas também pelo confronto com outras formas de organização política e cultural.

Embora a Grécia não se resumisse a Atenas — e o livro mencione diversas outras cidades-estados, sobretudo no contexto de conflitos, rivalidades e alianças —, o foco no pensamento ateniense se justifica. É justamente essa herança que prevaleceu no Ocidente e que continua a influenciar, direta ou indiretamente, nossas ideias sobre democracia, cidadania e cultura.

Nesse sentido, A Ascensão de Atenas atendeu plenamente às minhas expectativas: é uma leitura sólida, acessível e instigante, que permite compreender não apenas os fatos históricos, mas o modo como uma civilização pensou a si mesma e, ao fazê-lo, acabou por nos ensinar a pensar também.


Anthony Everitt nasceu em 1940. É um acadêmico britânico. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A HERANÇA DE BEAUVOIR REVISITADA POR JULIA KRISTEVA

 


BEAUVOIR PRESENTE

JULIA KRISTEVA

EDIÇÕES SESC – 1ª ED. 2019

128 páginas 


Em Beauvoir Presente, Julia Kristeva nos oferece uma reflexão apaixonada sobre a obra, a vida e a presença intelectual de Simone de Beauvoir, atravessando literatura, filosofia e feminismo. O livro não é apenas uma homenagem, mas uma tentativa de pensar Beauvoir como força viva, cujo pensamento continua a interrogar nossa relação com o corpo, a linguagem e a política de gênero.

Kristeva destaca a singularidade de Beauvoir: sua capacidade de articular experiência pessoal e análise teórica, transformando vivências femininas em conceitos universais sobre liberdade, opressão e alteridade. Ao revisitar O Segundo Sexo e outros textos, Kristeva ressalta a atenção de Beauvoir às tensões entre biologia, cultura e existência, mostrando que a filosofia feminista não pode ser dissociada da vida concreta das mulheres.

O livro também dialoga com a própria trajetória de Kristeva, apontando como Beauvoir permanece um ponto de referência para pensar o sujeito feminino, a escrita e a criação. A autora propõe que a obra de Beauvoir continua presente não apenas em debates acadêmicos, mas na maneira como as mulheres contemporâneas se reconhecem e se afirmam, desafiando normas patriarcais e construindo identidades complexas.

Um dos méritos de Beauvoir Presente é explorar a atualidade do pensamento de Beauvoir, mostrando que os dilemas da emancipação feminina — autonomia, sexualidade, ética e responsabilidade social — permanecem urgentes. Kristeva evidencia que a filosofia de Beauvoir não se limita ao contexto histórico do século XX, mas se estende ao nosso tempo, inspirando reflexão crítica sobre gênero, poder e criatividade.

A escrita é densa, mas poética, e reflete o diálogo entre duas grandes pensadoras: uma revisita a obra da outra, e ambas nos lembram que a filosofia se faz também na experiência vivida, na atenção às relações humanas e na coragem de enfrentar estruturas de opressão. Beauvoir Presente é, assim, leitura essencial para quem deseja compreender a continuidade do feminismo intelectual e a relevância da obra de Beauvoir no mundo contemporâneo.


Julia Kristeva nasceu em Sliven, Bulgária, em 1941 e possui cidadania francesa. É uma filósofa, linguista, crítica literária e psicanalista.