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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A OPRESSÃO E AS HUMILHAÇÕES AOS PALESTINOS

 


VIAGEM À PALESTINA: PRISÃO A CÉU ABERTO

ADRIANA MABILIA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2013

224 páginas

Viagem à Palestina: Prisão a Céu Aberto, de Adriana Mabilia, aprofunda a compreensão sobre o complexo conflito entre Israel e Palestina, mostrando que, embora ambos os lados tenham suas reivindicações e dores, a pressão psicológica e as humilhações impostas aos palestinos para que abandonem suas casas e terras é terrível e desumana. A ideia de que os israelenses teriam direito à terra devido a seus antepassados é questionada: nenhum país pode reivindicar território apenas pelo fato de ancestrais terem vivido ali. Judeus, palestinos e árabes têm raízes na região, mas o tratado que criou o Estado de Israel não foi respeitado, e a disputa permanece marcada por injustiças históricas.

O foco do livro está na vida das mulheres palestinas, mostrando como elas enfrentam e resistem às condições de guerra, à falta de liberdade de locomoção, à perda de maridos e filhos, e aos bombardeios, como os realizados em Gaza. Mesmo diante da destruição, a criatividade e a resiliência dessas mulheres se destacam. Um exemplo marcante citado por Mabilia é o de duas engenheiras palestinas que, diante da proibição israelense de levar materiais de construção para reconstruir casas, criaram tijolos a partir dos escombros e das cinzas, demonstrando inteligência, amor e capacidade de resistência diante da opressão.

O livro nos convida a refletir sobre o impacto humano do conflito e sobre a força das mulheres em meio a situações extremas, ressaltando como a resistência, a criatividade e a solidariedade se tornam ferramentas essenciais para sobreviver e reconstruir vidas.

Este livro foi escrito muito antes do que está ocorrendo atualmente: a destruição e extermínio do povo em Gaza.


Adriana Mabilia é uma jornalista brasileira e editora internacional, especialista em assuntos do “Oriente Médio”. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A GUERRA VISTA A PARTIR DAS MULHERES


 

GRITOS DA GUERRA: O CONFLITO RÚSSIA – UCRÂNIA NA VOZ DAS MULHERES QUE SOFREM

GUSTAVO GUMIERO

REFERÊNCIA – 1ª ED. – 2023

176 págs.

AUDIOBOOK

Ouvi este audiobook sobre a guerra na Ucrânia a partir da experiência das mulheres. São três depoimentos de mulheres cujas vidas foram profundamente alteradas pelo conflito: algumas tiveram de deixar o país, outras não conseguem retornar, e há aquelas que permanecem enfrentando diretamente a guerra. Como em todos os conflitos armados, mulheres, crianças e idosos aparecem como os grupos mais afetados.

Além dos relatos, o autor apresenta um panorama histórico da Ucrânia, oferecendo elementos para compreender a complexidade do conflito. E essa complexidade é central. Se nos guiarmos exclusivamente pelas informações da mídia ocidental, teremos uma compreensão parcial e limitada da guerra.

O conflito é frequentemente descrito como uma guerra por procuração, isto é, um embate indireto entre grandes potências, sobretudo Estados Unidos e Rússia, travado em território ucraniano. A partir dessa leitura, o autor interpreta as recentes tentativas de negociação, como os diálogos entre Donald Trump e Vladimir Putin, como um reconhecimento tardio de que o conflito poderia ter sido tratado diplomaticamente antes de sua escalada.

A própria Ucrânia é apresentada como um país internamente diverso e marcado por tensões identitárias. Há ucranianos fortemente ocidentalizados, que se veem como europeus, embora nem sempre sejam plenamente reconhecidos como tal pela Europa Ocidental, onde persistem hierarquias implícitas entre povos. Essa ambiguidade se reflete, por exemplo, nas políticas de acolhimento: enquanto mulheres ucranianas brancas encontraram maior abertura, pessoas negras foram barradas, revelando o racismo estrutural também presente nas crises humanitárias.

O livro lembra ainda que a Ucrânia abriga múltiplas identidades: ucranianos russófonos, comunidades gregas e populações judaicas, o que desmonta qualquer leitura simplista do país como um bloco homogêneo.

Gritos da guerra não pretende encerrar o debate, mas abrir escutas. Ao colocar as mulheres no centro da narrativa, o audiobook desloca o foco da geopolítica abstrata para a experiência concreta da perda, do deslocamento e da sobrevivência, lembrando que, por trás de qualquer guerra, há vidas cotidianas profundamente afetadas.

Gustavo Gumiero é um sociólogo brasileiro. 




domingo, 15 de fevereiro de 2026

RESISTÊNCIA, COLABORACIONISMO E HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


 

UMA MULHER SEM IMPORTÂNCIA

A história secreta da espiã americana mais perigosa da Segunda Guerra Mundial

SONIA PURNELL

PLANETA – 1ª ED. – 2021

416 páginas


Uma Mulher Sem Importância, de Sonia Purnell, narra a extraordinária trajetória de Virginia Hall, uma mulher de coragem e determinação incomuns. Nascida nos Estados Unidos em uma família de posses, seu destino parecia ser o casamento conforme os desejos de sua mãe, mas Hall aspirava a muito mais. Com o apoio do pai, foi estudar na Europa e sonhava em tornar-se diplomata em uma época em que tal carreira era praticamente inacessível às mulheres.

Um revés inesperado ocorreu na Turquia, quando, em um acidente de caça, Hall disparou acidentalmente no próprio pé, necessitando de amputação acima do joelho devido a uma gangrena. A partir daí, passou a usar uma perna mecânica, carinhosamente apelidada de Cuthbert, sem que isso diminuísse sua determinação.

Com o estourar da Segunda Guerra Mundial, Hall ingressou na SOE, o serviço secreto britânico, e atuou como espiã na França, país que amava como uma segunda pátria. Lá, desempenhou um trabalho imenso com a resistência: treinando combatentes, fornecendo armas, elaborando planos de resgate para prisioneiros e promovendo sabotagens contra os alemães. Apesar de sua coragem e eficácia, jamais recebeu o reconhecimento que merecia durante a vida, muitas vezes devido ao machismo que impedia que suas realizações fossem vistas como equivalentes às dos homens, mesmo quando as superava.

Após a guerra, Virginia Hall trabalhou na recém-criada CIA nos Estados Unidos, novamente enfrentando o silêncio e a falta de reconhecimento. Considerada uma das maiores inimigas do Terceiro Reich, foi procurada incansavelmente, mas nunca capturada, embora tenha perdido amigos e companheiros, especialmente devido ao agente duplo Robert Alesch.

O livro de Purnell não só celebra a vida desta mulher extraordinária, mas também oferece um retrato detalhado da resistência francesa, do colaboracionismo e do contexto de Vichy e do governo de Pétain, proporcionando uma compreensão profunda do período histórico e da luta de indivíduos excepcionais contra o totalitarismo.


Sonia Purnell é uma jornalista e escritora inglesa. 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

VIVER SOB BOMBAS SEM ENTENDER A GUERRA

 

O DIÁRIO DE ZLATA: A VIDA DE UMA MENINA NA GUERRA

ZLATA FILIPOVIC

SEGUINTE – 1ª ED. 1994

200 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - BÓSNIA HERZEGOVINA 


Abril de 1992 marca uma ruptura definitiva na vida de Zlata Filipovic. No início de seu diário, ela nos apresenta uma infância comum: escola, amigas, viagens, família, programas de televisão, filmes. Uma vida cotidiana de uma menina de onze anos em Sarajevo. Pouco a pouco, tudo isso se desfaz. Zlata é obrigada a abrir mão da infância e dos sonhos diante da eclosão da guerra.

Com o acirramento das divisões nacionalistas, inicia-se a guerra civil na Bósnia, que duraria até 1995 e deixaria o país devastado. A minoria sérvia não aceita a independência da Bósnia-Herzegovina; quando ela se concretiza, começam os bombardeios a Sarajevo e a outras cidades. A guerra passa a fazer parte do dia a dia, transformando radicalmente a experiência de viver.

Zlata chama os políticos de “moleques” e escreve sobre “eles” — figuras distantes, que ela sequer sabe quem são, mas que decidem tudo. Para ela, esses “eles” não pensam em ninguém: apenas destroem e matam. Matam idosos, crianças e adultos; destroem prédios, casas e patrimônios históricos. Ao longo do diário, Zlata se pergunta repetidamente por quê. Por que a guerra? Por que essas decisões recaem sobre pessoas que nada têm a ver com disputas políticas ou nacionalistas?

E é justamente aí que o diário revela sua força. A guerra, vista do ponto de vista de quem vive nela, é dor, morte, destruição e fome. No caso de Zlata, é também a perda da infância. Ela não compreende política, estratégias militares ou disputas territoriais, mas sente no corpo e na vida as consequências dessas decisões.

O livro é curto e escrito por uma criança, mas isso não o torna menos poderoso. Pelo contrário: é um retrato direto, honesto e profundamente humano da guerra. Um testemunho das perdas, do medo e da sobrevivência cotidiana. A voz de uma menina que não fala de ideologias, mas revela, com clareza devastadora, o que a política faz quando se transforma em violência.


                                      Zlata Filipovic nasceu em Sarajevo, Bósnia, em 1980.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

UMA JOVEM, UM NAUFRÁGIO E O DIREITO DE EXISTIR

 


UMA ESPERANÇA MAIS FORTE QUE O MAR

A jornada de Doaa Al Zamel

MELISSA FLEMING

ROCCO – 1ª ED. 2017

272 páginas 

Esta é a história de Doaa Al Zamel, uma jovem síria que tem sua vida brutalmente alterada em função das guerras. Tudo começa na Síria, onde sua família vivia em relativa paz, apesar das dificuldades, até que eclode a Primavera Árabe e se inicia a guerra no país — conflito que, até hoje, persiste. Diante das ameaças constantes às suas vidas e do risco real de estupro das meninas, seu pai decide partir, e a família se refugia no Egito, que inicialmente os recebe bem.

A vida não é fácil, mas ainda assim é melhor do que na Síria. Isso muda quando começam as agitações no Egito para depor o presidente — o que de fato ocorre — e, a partir daí, os sírios passam a ser desprezados e atacados. É nesse contexto que Doaa conhece Bassem, com quem fica noiva. Sem qualquer perspectiva de uma vida digna, decidem tentar a Europa e embarcam no horror que são as travessias pelo Mediterrâneo, promovidas por contrabandistas.

Doaa tinha medo da água e não sabia nadar. Após o naufrágio provocado pela colisão com outro barco, confesso que não há palavras que consigam exprimir o horror e o pavor que ela viveu.

De qualquer maneira, é um livro que recomendo fortemente, sobretudo àqueles que não conseguem compreender por que há tantos refugiados, por que se arriscam nessas travessias e por que levam consigo crianças e idosos. É um livro que os que se posicionam contra refugiados deveriam ler. Talvez, lendo no calor de suas casas, confortáveis, com uma xícara de café ou chá à frente, consigam refletir sobre o terror que esta jovem enfrentou.

Além do relato do ponto de vista dos refugiados, o livro também explica como os países agem, como é difícil pedir asilo ou refúgio e como os sistemas de acolhimento são excludentes. Doaa, mesmo sendo considerada uma heroína, ainda assim precisou lutar para poder permanecer na Suécia e conseguir levar sua família.

Vale a leitura!!


                                        Doaa Al Zamel nasceu em Daraa, Síria. É uma refugiada



Melissa Fleming é jornalista, escritora e funcionária das Nações Unidas , Diretora de Comunicações do Alto Comissariado das Nações Unidas para refugiados - ACNUR 


DUAS VITÓRIAS, UM CORPO EM MOVIMENTO E A TRAVESSIA DO EXÍLIO

 


NUJEEN: A incrível jornada de uma garota que fugiu da guerra na Síria em uma

Cadeira de rodas.

NUJEEN MUSTAFA CHRISTINA LAMB

UNIVERSO DOS LIVROS – 1ª ED. 2017

240 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - SÍRIA 

Nujeen é uma jovem síria que percorreu quilômetros para escapar da guerra. Detalhe: em uma cadeira de rodas. Ela conta no livro todo esse percurso feito ao lado da irmã — em alguns momentos, também com outros parentes. Enquanto narra a travessia, tece comentários sobre a guerra na Síria, relembra o período em que ainda havia paz e vivia com sua família, e relata o momento em que o Estado Islâmico entra no país, com as atrocidades cometidas.

Seu olhar é o de uma adolescente: gosta de ver televisão e de ler, atividades que se tornaram algumas de suas poucas opções devido à deficiência — Nujeen não consegue andar. Foi assim, sobretudo por meio de filmes e, principalmente, de uma série americana, que aprendeu inglês.

Após chegar à Alemanha, ela precisa finalmente enfrentar sua deficiência, incentivada pelos professores, por sua guardiã e também por sua irmã, que foi um exemplo de amor durante todo o percurso, empurrando a cadeira. Precisa sair do comodismo no qual estava instalada e começar a frequentar a escola, fazer exercícios e ser acompanhada por um médico. Na Síria, Nujeen era uma pessoa isolada do convívio social fora do círculo familiar; isso muda em sua nova vida, onde precisou aceitar que não podia permanecer confinada em casa, apenas vendo TV ou navegando na internet.

Penso que, para Nujeen, houve duas vitórias: a primeira, conseguir chegar à Alemanha; a segunda, confrontar sua própria condição e aprender a aceitá-la — não como uma vítima, mas como alguém que aprende a viver com ela. Antes, acredito que estivesse bastante acomodada, pois não se movia nem para pegar algo ou até mesmo para pentear os cabelos, tarefas que passou a realizar a partir de então, o que foi, inclusive, um alívio para sua irmã.

Por outro lado, como acabei de ler a história de Doaa no livro Uma esperança mais forte que o mar, confesso que gostei mais do relato de Doaa. Mas é preciso considerar que aqui temos uma adolescente de 16 anos, enquanto Doaa, embora jovem, passou por uma situação extremamente dramática: o naufrágio e a sobrevivência por quatro dias e quatro noites no mar.

Ainda assim, os dois livros devem ser lidos. Em ambos, compreendemos por que tantos sírios são obrigados a deixar suas casas, seus lares e seus pais para buscar uma nova chance de vida — a possibilidade de viver com liberdade e com “normalidade”, como diz Nujeen.


                      Nujeen Mustafa nasceu em Kobani, Síria. É uma refugiada síria curdo e ativista 



                  Christina Lamb nasceu em Londres em 1965. É uma jornalista e escritora britânica.