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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ


 

FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ

ANDREZA JORGE

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2023

248 páginas


Li Andreza Jorge quando estudava para escrever meu TCC sobre a Ética do Cuidado, procurando compreender o cuidado dentro da realidade brasileira. 

A autora escreve sobre as mulheres do Complexo da Maré, conjunto de favelas localizado na zona norte do Rio de Janeiro, e sobre o projeto de dança Mulheres ao Vento. Ao longo da obra, faz uma crítica a um feminismo que não inclui em suas pautas as vivências de mulheres faveladas.

Como meu interesse de leitura estava voltado para a ética do cuidado, o que mais me chamou a atenção foi a forma como essas mulheres se organizam para cuidar dos filhos e, ao mesmo tempo, trabalhar. Andreza Jorge descreve uma maternidade marcada pela vigilância constante. Os perigos são muitos, e as mães convivem diariamente com o medo, pois, em determinados momentos, nem mesmo deixar um filho na escola é seguro.

Ao mesmo tempo, a autora mostra a existência de redes de apoio fundamentais para a sobrevivência dessas famílias. As mulheres cuidam dos filhos umas das outras, tornando possível que possam trabalhar, principalmente como empregadas domésticas ou cuidadoras, as duas profissões mais comuns entre elas. Há uma responsabilidade coletiva, em que o cuidado deixa de ser uma tarefa exclusivamente individual.  

As mulheres que vivem nas favelas ainda enfrentam outras dificuldades, como o preconceito geográfico, o racismo institucional e a desigualdade no acesso ao saneamento básico e à segurança pública.  Em uma entrevista de emprego, por exemplo, dizer que mora em uma favela pode reduzir significativamente suas oportunidades. Da mesma forma, situações de violência, como tiroteios, frequentemente impedem que cheguem ao trabalho ou que enviem seus filhos à escola. Soma-se a isso o constante aliciamento de jovens pelo narcotráfico nas proximidades das escolas e das comunidades.   

O número de filhos mortos pela violência nas favelas é alarmante, e o sofrimento dessas mães muitas vezes permanece invisível para a sociedade. Nesse contexto, Andreza Jorge destaca a importância das formas coletivas de organização, dos feminismos comunitários e das redes de cuidado construídas pelas mulheres das favelas, diferenciando-as de perspectivas mais centradas na emancipação individual.

Segundo Jorge “o ato de cuidar do outro se afasta do lugar de passividade construído na mirada colonial e assume um papel central de manutenção da vida em expansão, da insistência e persistência do viver dessas mulheres e seus pares”. (pg. 186)

Para quem não conhece essa realidade, é difícil imaginar a vida dessas mulheres e como elas se organizam. A importância desse livro é tornar visível uma realidade frequentemente ignorada, mostrando que, mesmo em meio à violência, ao preconceito e às desigualdades, essas mulheres constroem coletivamente formas de resistência, cuidado e possibilidade de vida.  


Andreza Jorge atua há mais de quinze anos em projetos sociais voltados para os temas de gênero, relações étnico-raciais, diversidade e sexualidade no Complexo da Maré. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

ESCREVER COMO ALERTA E RESPONSABILIDADE

 

O ACERTO DE CONTAS DE UMA MÃE

SUE KLEBOLD

VERUS – 1ª ED. – 2016

430 páginas

 

O acerto de contas de uma mãe, de Sue Klebold, é um livro que todos os pais, mães e responsáveis por crianças e adolescentes deveriam ler. Diante de um massacre, a reação mais comum é tentar transformar os autores em monstros, psicóticos ou produtos evidentes de lares negligentes e abusivos. Essa explicação simplificadora funciona como uma zona de conforto: se o mal está sempre fora, então dentro de casa estamos seguros. O livro desmonta exatamente essa ilusão e, é por isso que ele é tão perturbador e necessário, sobretudo num contexto atual em que a violência em escolas, a ansiedade, a depressão e o suicídio entre jovens se tornam cada vez mais presentes.

O massacre da escola de Columbine, ocorrido em 1999, marcou profundamente os Estados Unidos e introduziu no debate público o termo bullying, ainda que este não possa ser apontado como causa direta do ocorrido. Dois adolescentes, Eric Harris e Dylan Klebold, entraram na escola e assassinaram treze pessoas, ferindo muitas outras, algumas com sequelas permanentes. Sue Klebold escreve a partir do lugar mais difícil possível: ela é a mãe de Dylan. O livro não é um tributo ao filho, tampouco uma tentativa de justificá-lo. É um alerta doloroso, escrito por alguém que amava profundamente seu filho e que jamais imaginou que ele fosse capaz de tal violência.

Sue e Tom, o pai, eram pais presentes, atentos, amorosos e responsáveis. Viviam numa família de classe média, estruturada, que valorizava a convivência, os rituais familiares, o diálogo e também os limites. Dylan era visto como um adolescente alegre, carinhoso, companheiro, alguém que brincava, ria e se mostrava afetuoso. A pergunta que atravessa todo o livro é justamente essa: como alguém criado nesse ambiente pôde cometer algo tão devastador? A resposta que Sue constrói ao longo dos anos é inquietante: seu filho sofria de depressão profunda e conseguia camuflá-la de maneira quase perfeita, algo que nem mesmo profissionais conseguiram identificar. Ele carregava uma dor imensa e um vazio constante, e em determinado momento passou a desejar a própria morte, embora não tivesse coragem de se suicidar.

Eric, por outro lado, era visto como um jovem problemático, agressivo, tomado pelo ódio. Seus pais buscavam ajuda psiquiátrica e terapêutica, tentando contê-lo e compreendê-lo. Quando esses dois adolescentes se unem — um desejando matar, o outro desejando morrer —, o resultado é a tragédia que se conhece. Sue deixa claro que não havia, da parte dela, qualquer conhecimento prévio de que algo assim pudesse ocorrer. Ela percebia que algo não estava bem, mas não possuía ferramentas para reconhecer os sinais da depressão em adolescentes, tão diferentes dos sintomas em adultos.

Após o massacre, o livro acompanha o que vem depois: o luto impensável de perder um filho, somado ao peso de ser mãe de um assassino. A exposição midiática, as acusações, o ódio direcionado à família, as ameaças, o isolamento forçado dentro da própria casa, que de lar se transforma em um espaço de medo. Ao mesmo tempo, Sue relata os gestos de solidariedade, a ajuda de amigos, vizinhos e de outras famílias que também haviam perdido filhos ou enfrentado situações semelhantes. Seu casamento, após trinta anos, não resiste a tamanha devastação. Ainda assim, Sue Klebold escolhe transformar sua dor em responsabilidade pública, escrevendo este livro para alertar outros pais, para que possam reconhecer sinais, falar sobre saúde mental e talvez evitar que outras tragédias aconteçam.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A MATERNIDADE NEGRA SOB O RACISMO ESTRUTURAL

 

MATERNIDADE TEM COR?

Narrativas de mulheres negras sobre maternidade

LUARA PAULA VIEIRA BAIA

APPRIS – 1ª ED. - 2021

173 páginas

Maternidade tem cor? apresenta a pesquisa de Luara Paula Vieira Baia sobre a experiência da maternidade vivida por mulheres negras. É um livro necessário e cuja leitura recomendo fortemente.

Em uma sociedade que ainda sacraliza a maternidade, como se ela fosse a realização máxima de toda mulher, pouco se fala sobre os percalços, ambivalências e sofrimentos que ela pode trazer. Questionar essa idealização já é, muitas vezes, visto como heresia. No entanto, quando o foco recai sobre a maternidade das mulheres negras, a questão se torna ainda mais profunda, séria e dolorosa.

Mesmo diante do amor intenso por seus filhos e filhas, essas mulheres vivem a maternidade sob a constante tensão de criar crianças negras em uma sociedade estruturalmente racista. Há muito pouco escrito sobre a maternidade das mulheres negras; o que prevalece é a ideia de uma maternidade universal, como se todas as mulheres maternas vivessem a mesma experiência.

Mas o que significa ser mãe quando se é uma mulher negra? Durante o período da escravização, essas mulheres pariram filhos que eram tratados como propriedade, destinados a ampliar a mão de obra escravizada. Seus filhos eram frequentemente arrancados de seus braços. Elas não eram reconhecidas como mães, mas reduzidas a corpos reprodutores, a “fêmeas” que produziam trabalhadores.

E hoje? O que significa ser mãe quando se sabe que seu filho é um alvo vivo da violência policial? As estatísticas sobre a morte de jovens negros confirmam esse medo cotidiano. Ou quando uma filha precisa ser constantemente fortalecida em sua autoestima para sobreviver ao racismo e à discriminação? Essas mães desenvolvem estratégias de proteção, são pragmáticas na defesa de seus filhos e no ensino de como sobreviver em uma sociedade hostil. São preocupações que mães brancas, em geral, não enfrentam, somadas, ainda, às angústias comuns a toda maternidade.

O livro mostra que essa realidade não se restringe às periferias, favelas ou comunidades, onde a violência é ainda mais explícita. Trata-se também de mulheres negras de classe média, com nível superior e relativa estabilidade financeira. Como mulher branca e mãe, não posso imaginar plenamente o que significa ser uma mãe negra. Mas posso, sim, escutar, sentir e reconhecer a dor, o medo e a permanência de uma condição social que insiste em negar a essas mulheres o direito pleno de serem mães.

Nas narrativas que a autora reúne, emerge a percepção de uma maternidade constantemente ameaçada, vigiada e interrompida. Ainda que haja alegrias, vínculos profundos de amor e a maternidade se constitua como um ato de resistência, o livro não romantiza essa experiência. Algumas mães, inclusive, negam a existência do racismo — talvez como estratégia de sobrevivência.

Trata-se de uma obra impactante, que desestabiliza certezas, rompe com a noção de maternidade universal e nos obriga a pensar sobre raça, gênero, cuidado e violência estrutural no Brasil.


Luara Paula Vieira Baia possui licenciatura e bacharelado em Ciências Sociais


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Maternidade, culpa e o direito de escolher

 


CONTRA OS FILHOS

Lina Meruane 

Editora Todavia - 1ª ed. 2018

176 páginas 


Lina Meruane é uma escritora chilena. Este é o segundo livro dela que leio; o primeiro foi Sangue nos Olhos. Aqui, trata-se de um ensaio cáustico, crítico, que muitos vão considerar polêmico, pois aborda a maternidade — ou, mais precisamente, a não maternidade.

A autora se posiciona contra o atual “império dos filhos”. Faz alertas importantes sobre como a ideologia da maternidade, tão idealizada, acaba se transformando em imposição sobre as mulheres, e como aquelas que não aceitam esse destino quase sempre são atravessadas pela culpa.

Ela levanta questões às quais todas nós, mulheres, deveríamos prestar atenção. Fala da questão do cuidado, tão em voga hoje; da responsabilidade do pai; e também dos filhos contemporâneos que se impõem sobre os pais. Em um dos capítulos, Meruane se debruça sobre as escritoras e as diferenças entre aquelas que têm filhos e as que não têm, evocando Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

O livro também levanta a questão do capitalismo e de quanto esse sistema precisa que as mulheres permaneçam no lar e procriem, mostrando o quanto ele se sustenta nessa lógica. Além disso, a autora apresenta modelos de maternidade contemporânea — as supermães, as mães neoliberais e as mães ecológicas —, o que torna a leitura ainda mais interessante.

Se há tantos discursos em defesa da maternidade, sempre idealizada, mas sem oferecer respaldo para que uma mulher possa ter filhos sem deixar de ser mulher, profissional ou estudante, louvo a iniciativa de Meruane em sair em defesa daquelas que não querem ser mães. Isso é um direito de cada mulher: fazer sua escolha livremente, sem cobranças, imposições, culpas ou arrependimentos. Recomendo a leitura também a todos e todas que se interessam pelo tema do cuidado.



Lina Meruane nasceu em Santiago, Chile, em 1970. É professora e escritora.