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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: ENTENDENDO O HAMAS E POR QUE ISSO É IMPORTANTE


 

ENTENDENDO O HAMAS E POR QUE ISSO É IMPORTANTE

HELENA COBBAN – RAMI G. KHOURI

AUTONOMIA LITERÁRIA – 1ª ED. – 2025

264 páginas

Uma curiosidade que muitos têm é como os palestinos de Gaza enxergam o Hamas após o que está ocorrendo. O livro procura responder a essa questão ao apresentar diversas perspectivas de pessoas que vivem, estudam ou conhecem a realidade palestina.

A obra não busca apoiar nem demonizar o Hamas, mas compreender sua origem, seus objetivos e sua atuação. Segundo os autores, há muito desconhecimento atuando no mundo e narrativas que nem sempre correspondem à realidade e sua complexidade. Para ilustrar essa questão o livro compara diferentes movimentos classificados como terroristas em distintos contextos históricos, lembrando que, durante muitos anos, o movimento de Nelson Mandela e ele próprio foram considerados terroristas pelo regime do apartheid. Também distingue organizações como o ISIS, o EL e a Al-Qaeda, argumentando que possuem origens, objetivos e formas de atuação distintas.  O livro procura mostrar as diferenças entre estes grupos.

Para os autores o que diferencia o Hamas é o fato de ser uma luta de libertação de um território ocupado. Gaza é uma prisão a céu aberto. Reconhecem que o grupo praticou atos terroristas, mas questionam se essa definição, por si só, é suficiente para compreender sua história e seu papel político. O livro convida o leitor a refletir sobre como diferentes povos reagem diante de situações de ocupação, restrições à liberdade de circulação e perda de autonomia.

Um ponto que me chamou a atenção e eu desconhecia por completo foi a abordagem sobre as mulheres. Um discurso bastante difundido no Ocidente apresenta as mulheres da região apenas como vítimas passivas e oprimidas.  O livro, entretanto, mostra um quadro mais complexo e afirma que, dentro de uma sociedade conservadora e patriarcal, o Hamas defende os direitos das mulheres, incentivando seu acesso à educação superior e sua participação na vida pública. Ainda lembram que, após a vitória eleitoral do Hamas em 2006, antes do golpe praticado para depô-los, as mulheres ocuparam cargos no governo de Gaza.

Baseado em entrevistas com pessoas da região, pesquisadores e conhecedores da realidade palestina, o livro apresenta uma perspectiva pouco difundida no Ocidente. Independentemente da posição do leitor sobre o tema, trata-se de uma leitura que amplia o debate e permite conhecer argumentos que raramente chegam ao público, possibilitando que cada um forme suas próprias conclusões.


Helena Cobban nasceu em 1952 nos Estados Unidos. É uma pesquisadora anglo-americana de relações internacionais com interesses específicos no “Oriente Médio”, no sistema internacional e na justiça transicional.


Rami G. Khouri nasceu em 1948 em Nova Iorque, EUA. É um jornalista jordaniano-americano de origem palestina. É de uma família árabe-palestina cristã. 


quarta-feira, 24 de junho de 2026

LIVRO: A INSUBMISSA


 

A INSUBMISSA

CRISTINA PERI ROSSI

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

208 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – URUGUAI


Rossi inicia relatando sua infância, seu amor incondicional pela mãe e o ódio nutrido pelo pai, mais fruto do que dizia sua mãe – “você é igual ao seu pai”, do que pela violência e poder que ele exercia sobre a família. Essa frase dita pela mãe afetava a menininha que queria “se casar com a mãe”, uma vez que conhecia o desprezo da mãe pelo marido.

Ela contraiu tuberculose quando pequena e foi para o campo, para a casa dos tios-avôs. A liberdade, o espaço vasto, os animais e os avós que a protegiam e compreendiam marcaram Rossi. De minha parte, chamou-me a atenção a presença britânica no Uruguai, o que me levou a pesquisar e descobrir que, após a Guerra da Cisplatina, os britânicos transformaram o país em uma espécie de “colônia informal”.

A história familiar é cercada de mistérios e silêncios. Rossi levará anos para saber o que aconteceu com seus bisavôs e avós. A história de sua bisavó, extremamente apaixonada pelo marido a ponto de ignorar completamente o lugar onde vivia, e com isso não se preocupar em aprender o idioma ou fazer amizades. Que diante da inevitável morte do amado ainda jovem, a levou ao suicídio, é a razão do silêncio dos filhos que não a perdoaram pelo abandono deles ainda crianças. Anos depois, Rossi irá se ver em uma situação semelhante em Barcelona, na Espanha, quando estava no exílio, o que a levará a compreender melhor os sentimentos de sua bisavó.

Há um relato sobre um quadro que está na sala de visitas da casa da família que me chamou a atenção. Primeiro, Rossi descreve a cena que está no quadro para, em seguida, refletir sobre ela. São homens elegantemente vestidos em um bosque e, entre eles, sentada de lado no chão, uma mulher completamente nua. Suponho tratar-se do quadro “Le déjeuner sur l’herbe” (Almoço sobre a relva), de Édouard Manet. Rossi percebe que os homens, brancos e ricos, estão vestidos com requinte (de fraque), enquanto a mulher provavelmente pobre, pode ser despida. Ou seja, é uma objetificação da mulher e uma percepção das diferenças sociais e econômicas.

Rossi constrói uma autobiografia de formação, relatando não apenas eventos de sua infância e adolescência, mas também os efeitos que eles terão posteriormente em sua vida adulta. Em outros momentos, revela descobertas feitas muitos anos depois, quando compreendeu a própria ignorância infantil diante de determinados acontecimentos. É explicito sua rebeldia a determinados costumes e tradições, sobretudo aqueles impostos às meninas.  

Fico sempre com uma impressão um tanto ambígua diante de relatos autobiográficos de infância. Senti isso ao ler Simone de Beauvoir em “Memórias de uma Moça Bem Comportada”. Muitas vezes encontramos crianças formulando pensamentos e análises que parecem sofisticados demais para a idade. A sensação que tenho é que é a adulta que está falando pela criança. Que uma criança se revolte contra proibições impostas às meninas, é perfeitamente plausível; o que me parece mais difícil é que ela seja capaz de analisa-las da forma como aparecem no relato. Acredito que, em muitos casos, é a mulher adulta interpretando retrospectivamente a criança que foi. Rossi, porém, evita isso na medida do possível. Frequentemente deixa claro que, à época, não compreendia o que estava acontecendo, preservando as dúvidas e perplexidades próprias da infância diante do comportamento dos adultos.  

Uma das partes do livro, que considerei uma das mais belas é a aquela quando ela descobre a paixão e o amor. Ela não entende o que lhe acontece; apenas sente. Ansiedade, expectativa, medo, necessidade da pessoa amada, ausência, desejo. Tudo surge antes da compreensão.  

O desejo move grande parte da escrita de Rossi. Em outro momento, ela descobre sua sexualidade e também a existência da homossexualidade, que na época, e ainda hoje, para muitas pessoas, era condenado, considerado algo “anormal”. “Somos monstros”, lhe diz uma amiga que compartilha da mesma orientação sexual.  É um pecado e mortal, e precisam mudar, se corrigir. Rossi, porém, recusará essa lógica.  

Ela tentou ler Freud na coleção de obras completas que seu tio possuía e confessa não ter entendido nada. Ainda assim, a presença da psicanálise é perceptível em seu relato.  Logo no início do livro, Rossi descreve seu amor pela mãe, seu objeto de desejo infantil, e a hostilidade dirigida ao pai. Uma leitura freudiana poderia identificar aí elementos do complexo de Édipo. Ela mudará de objeto, mas não redirecionará seu desejo ao outro sexo.

Seus relatos deixam claro que Rossi foi, desde pequena, um espírito livre, insubordinado às regras sociais e aos costumes que, segundo ela, funcionavam como mecanismos de coerção, restringindo a liberdade de escolha, de amar, de experimentar e de viver de acordo com os próprios desejos.  

O que admirei em Rossi é sua capacidade de preservar na escrita o universo infantil, sem permitir que sua consciência adulta dominasse a narrativa. É uma criança e não um “adulto em miniatura” que vemos vivenciar suas experiências dentro de sua perspectiva infantil.

Um bom exemplo é quando na festa de casamento de sua amiga Mabel ela dá uma rasteira no noivo. Ela sentiu ciúme e medo de perder alguém amado e agiu impulsivamente e até com crueldade, o que é típico na infância. Mas ela não analisa a situação, ela não possui ainda um vocabulário psicológico para explicar o que sentiu. Ela simplesmente estica a perna e derruba o homem. Rossi preserva isso, e somente depois, já adulta pode refletir sobre isso.

Percebemos o patriarcado e a situação das mulheres em toda a narrativa, inclusive de um episódio de abuso sexual que Rossi sofreu e que ao relatar à sua mãe recebe como resposta – “Esquece isso e nunca comente com ninguém!”, no entanto, a questão da menina não é essa, ela não elabora uma crítica do patriarcado, ela contesta as regras por lhe parecerem absurdas e injustas.

Ela é insubmissa desde a infância, resiste, luta pelo que deseja, mas dentro do universo infantil. Somente anos depois, já adulta, ela pode fazer a crítica ao patriarcado e analisar suas consequências. Mais do que uma simples autobiografia, A Insubmissa mostra como essa recusa em aceitar os papéis impostos às mulheres não foi uma conquista tardia, mas uma disposição que atravessa toda a vida de Cristina Peri Rossi.


Cristina Peri Rossi nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1941. É uma romancista, poetisa, tradutora e autora uruguaia. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar seu país por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, Espanha, onde vive até hoje.  


quinta-feira, 21 de maio de 2026

UM MUSEU DE LEMBRANÇAS PERDIDAS

 


O MUSEU DA RENDIÇÃO INCONDICIONAL

DUBRAVKA UGRESIC

CARAMBAIA – 1ª ED. – 2025

304 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – CROÁCIA

Sem sombra de dúvidas, o melhor livro que li nos últimos tempos. Não é um livro que agradará a todos, principalmente aos que gostam de histórias com começo, meio e fim. A escrita de Ugresic é fragmentada, uma colagem de pedaços, uma junção de pequenos panos - não tecidos como uma colcha de retalhos, mas unidos de alguma forma.

A autora é uma exilada da antiga Iugoslávia, mais especificamente do território que atualmente corresponde à Croácia. Viveu em Berlim, passou um tempo nos Estados Unidos, e acabou fixando residência na Holanda. Precisou deixar a Croácia em 1993 devido às suas declarações contra o nacionalismo croata e sérvio.

Vivendo no exílio, Ugresic tenta recuperar memórias, recusa-se ao apagamento da história, aquilo que os nacionalismos desejam e produzem. Houve uma destruição não apenas material, mas também mental. Ela se recusa a se adaptar ou se acomodar, como muitos fazem diante de regimes autoritários para sobreviver.

Da mesma forma que sua vida, vivida em países diferentes, sem uma casa para chamar de sua, apenas uma mala com o que lhe restou, ela reúne fragmentos, como em um museu, ou como no estômago da Morsa que encontramos logo no início do livro. Objetos, fotografias, lembranças, amigos, relatos, família. É o não-lugar por excelência, sobretudo um não-lugar interior.

Longe dos livros atuais sobre traumas – aquilo que às vezes chamo de “literatura da sofrência” -, a autora é realista, muitas vezes crua, mas há também um senso de humor e linguagem poética.

A solidão, a velhice, a tentativa de se recuperar interiormente de ter sido obrigada ao exílio, o ostracismo e o esforço para compreender o mundo em que agora se vive atravessam o livro. No meio disso, surgem as lembranças da família. O capítulo sobre os álbuns de fotografia é sensacional; os textos sobre arte e museus, assim como a lembrança da Condessa que costurava, um texto belíssimo. Há também um certo anjo que une as amigas que se encontravam e explica um pouco o destino de cada uma delas durante a guerra.

O título do livro refere-se a um museu que existiu de fato em Berlim até 1994: o Museu da rendição incondicional da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Mas Ugresic não se rende incondicionalmente. Ela parte, deixa seu país em guerra, mas isso também seria uma forma de rendição? Abandonar tudo?

Berlim, onde vivem muitos refugiados, é um lugar em que se ouve frequentemente a pergunta: “você é uma das nossas?”. Uma cidade que também foi dividida e depois reunificada, mas que colocou os alemães da antiga RDA na condição de “outros” dentro do próprio país, como aparece no livro que li anteriormente – “Eu vou, tu vais, ele vai”, de Jenny Erpenbeck.

O livro é como um sítio arqueológico: escavar, encontrar pequenos objetos e lembranças, trazê-los à tona no mundo em que se vive atualmente, talvez construir um museu particular de tudo isso. É como no estômago da Morsa: tudo ali, parece sem sentido, mas aos poucos cada objeto se une ao outro.

O que mais me tocou foi uma questão que também carrego comigo: boas lembranças são realmente algo bom? Ou doem? A irreversibilidade, o retorno impossível, a perda – tudo isso é irrecuperável, mas continua existindo. E dói.  

Olhar fotografias pode ser profundamente ambíguo. Elas preservam, mas também tornam irreversível a consciência da perda e do tempo. Talvez por isso Ugresic trate os objetos e as imagens quase como ruínas arqueológicas emocionais. 

Dubravka Ugresic nasceu em Kutina, Croácia, em 1949 e faleceu em Amsterdã, Países Baixos, em 2023. É uma escritora nascida na ex-Iugoslávia. 



quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE DITADURA, MISÉRIA E RESISTÊNCIA ESPIRITUAL

 

BANHO DE LUA

YANICK LAHENS

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025

239 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍSHAITI


Uma mulher morta, estendida em uma praia, revela seus pensamentos. Não sabemos o que lhe aconteceu nem quem é ela. Pessoas ao redor permanecem estupefatas, assustadas diante da violência sofrida pela jovem. Assim começa “Banho de Lua”, livro de Yanick Lahens, lembrando outras obras, como “A vontade e a fortuna” de Carlos Fuentes, que também se inicia com uma cabeça decepada refletindo sobre sua prípria morte.

Intercalados aos pensamentos da morta, acompanhamos a história de duas famílias: os Lafleur e os Mésidor. Os primeiros vivem em Baía Azul e carregam um ressentimento histórico contra os Mésidor, que se apropriaram das terras férteis ao redor. A vida dos Lafleur é marcada pela dureza: fome, secas e furacões que destroem tudo. Nesse contexto, ocorre o encontro entre uma jovem Lafleur e um homem maduro dos Mésidor. Ao contrário do que vemos em Romeu e Julieta, aqui os pais de Olméne não se opõem; e mesmo a contragosto, aceitam a relação.  

Aos poucos, nesse microuniverso familiar, desenrola-se a história macro do Haiti. Surge a ditadura de “Papa Doc” (François Duvalier) e o aliciamento de homens jovens para compor a milícia paramilitar que sustentava o regime. Um dos irmãos de Olméne adere a esse sistema, o que lhe confere a ilusão de superioridade sobre outros miseráveis.

Posteriormente, é o filho de “Papa Doc”, Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”, quem assume o poder, até ser deposto por uma revolta popular e camponesa. Contudo, mesmo com a queda do ditador, na muda substancialmente para os camponeses, que permanecem na miséria. O domínio das elites continua, assim como a exploração dos mais pobres. A autora não menciona diretamente os nomes dos ditadores, mas a descrição histórica e o período deixam claro de quem se trata.  

O livro também apresenta elementos do Vodu haitiano, tema sobre o qual eu nada sabia. Foi interessante perceber que, apesar das diferenças, há aspectos que lembram os encantados no Brasil e certas religiões afro-brasileiras. Trata-se de um culto aos ancestrais e a divindades, organizado em uma cosmologia própria. O pai de Olméne exerce um papel semelhante ao que chamaríamos de pai de santo. Surge ainda a figura do padre católico, contrário a esses rituais, embora consciente de sua incapacidade de impedi-los diante de tanta miséria e sofrimento. O sincretismo religioso também se faz presente, ainda que parcialmente como disfarce perante a vigilância católica, revelando uma convivência complexa entre crenças. 

                Yanick Lahens nasceu em Porto Príncipe, Haiti, em 1953. É uma escritora haitiana. 



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

OBRIGAÇÕES DE DAR, RECEBER E RETRIBUIR

 


ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas

MARCEL MAUSS

EDITORA VOZES – 1ª – 2025

144 páginas

Ensaio sobre a Dádiva, de Marcel Mauss, é um clássico da antropologia que analisa as práticas de troca e reciprocidade nas sociedades arcaicas, propondo uma compreensão profunda da economia, da moral e da sociabilidade humana. Mauss demonstra que a dádiva não é apenas um ato de generosidade, mas um mecanismo complexo que envolve obrigações, alianças e o fortalecimento de vínculos sociais.

O autor estuda diversas culturas, mostrando como a troca de presentes cria redes de poder e hierarquia, mas também estabelece deveres éticos e morais entre indivíduos e grupos. A dádiva, segundo Mauss, é inseparável de obrigações de dar, receber e retribuir, revelando que mesmo nas sociedades antigas, a interação social não é neutra, mas carregada de significado simbólico e social.

O livro provoca uma reflexão sobre como os sistemas econômicos modernos podem ter perdido a dimensão relacional e moral que caracteriza as trocas humanas. Mauss nos convida a enxergar a economia e a sociabilidade como elementos indissociáveis, revelando que a lógica da dádiva continua presente, ainda que de forma mais sutil, nas interações contemporâneas.


Marcel Mauss nasceu em Épinal, França, em 1872 e faleceu em Paris, em 1950. Foi um sociólogo e antropólogo francês. Era sobrinho de Émile Durkheim. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

UMA REGIÃO DECISIVA E POUCO CONHECIDA


 

EUROPA CENTRAL: A HISTÓRIA FASCINANTE DE UMA REGIÃO DECISIVA

JANAINA MARTINS CORDEIRO

CONTEXTO – 1ª ED. – 2025

256 páginas

É difícil encontrar livros que tratem especificamente da Europa Central. Diante dos acontecimentos atuais, muitas vezes nos vemos sem compreender plenamente o que está em curso justamente pelo desconhecimento da história dessa região. Nesse sentido, Europa Central: A história fascinante de uma região decisiva cumpre um papel importante.

O livro não se aprofunda em análises extensas, mas oferece um panorama geral consistente da região, desde o Império Austro-Húngaro até os dias atuais. A autora constrói uma espécie de cronologia comentada, destacando os principais acontecimentos históricos, acompanhados de observações sobre a mentalidade dos povos da região, os efeitos da stalinização e as consequências deixadas após o fim da União Soviética.

Mesmo sendo um livro de caráter mais paradidático, foi uma leitura da qual aprendi muito, justamente porque essa parte da Europa costuma ser pouco abordada. Aprendemos bastante sobre a Europa Ocidental, sobre a Segunda Guerra Mundial a partir da Alemanha e dos países do norte europeu, mas a Europa Central aparece frequentemente como se estivesse à margem desses processos, como se não tivesse sido uma das regiões mais duramente atingidas pelos conflitos.

Na Primeira Guerra Mundial, por exemplo, costuma-se mencionar apenas o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro em Sarajevo, como se esse evento resumisse a participação da região no conflito. No entanto, a Europa Central sofreu profundamente com a guerra, suas rupturas políticas, deslocamentos populacionais e redefinições territoriais — aspectos que o livro ajuda a recolocar em perspectiva.

Vale a leitura, sobretudo para quem deseja compreender melhor a complexidade histórica dessa região decisiva e frequentemente esquecida.

                            Janaina Martins Cordeiro é professora de História Contemporânea



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Ana Terra — fundação violenta, amor interditado e a força que permanece


ANA TERRA

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2025

112 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE 

Ana Terra é uma dessas personagens que ficam. Mesmo quando os detalhes da trama se embaralham com o tempo, o que permanece é a imagem de uma mulher forte, atravessada pela violência da fundação do Brasil, sobrevivendo onde tudo parece conspirar contra ela. O que me marcou na leitura foi justamente isso: a força de Ana, o amor vivido com o indígena e a brutalidade com que esse amor é interrompido.

Ana vive em um território de fronteira — geográfica e simbólica. A terra ainda não é “Brasil” no sentido pleno, é espaço de disputa, de violência, de apagamento. Seu amor com o indígena (Pedro Missioneiro) carrega essa tensão desde o início: não é apenas um amor proibido no plano familiar, mas um amor impossível dentro da lógica colonial. Ele representa o outro que deve ser eliminado, não apenas rejeitado.

A morte do indígena — assassinato cometido pelos homens da família — é um dos momentos mais duros da narrativa. Não se trata apenas de um crime passional ou moral, mas de um gesto fundador: o patriarcado e o colonialismo se afirmam juntos, eliminando o corpo indígena e silenciando o desejo feminino. Ana não é consultada, não é escutada, não é considerada. Seu amor é tratado como desvio, vergonha, ameaça.

E, ainda assim, ela permanece. Violentada pela história, pela família, pelas condições materiais, Ana Terra não desaparece. Ela cria o filho, sustenta a vida, atravessa o tempo. Sua força não é heroica no sentido épico, mas resistente, silenciosa, cotidiana. É a força das mulheres que ficam quando os homens matam, partem ou morrem.

É impossível não ler Ana Terra como uma metáfora da própria formação do sul do Brasil, uma formação marcada pela expulsão dos indígenas, pela dominação masculina e pela naturalização da violência como método de organização social. Ana carrega no corpo e na memória essa história, tornando-se uma espécie de testemunha involuntária da fundação do mundo que virá depois.

Reler Ana Terra pela lembrança é perceber que Érico Veríssimo construiu ali uma personagem que escapa do tempo. Ana não é apenas uma mulher forte; ela é o ponto de tensão entre amor e violência, entre vida e morte, entre o que poderia ter sido e o que foi imposto. E talvez seja por isso que ela continue sendo lembrada — não como figura dócil, mas como presença que resiste à tentativa de apagamento.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O LADO HUMANO DO CONFLITO ALÉM DOS DISCURSOS


 

UCRÂNIA:  DIÁRIO DE UMA GUERRA

ANDREI KURKOV

CARAMBAIA – 1ª ED. 2025

392 páginas 


Este livro é o diário de guerra da Ucrânia escrito pelo autor ucraniano Andrei Kurkov.

O diário inicia-se pouco antes do começo da guerra e vai até o início de 2024. Muitas coisas aconteceram depois, mas trata-se de um livro que traz ricas informações sobre o povo ucraniano, sua história e, obviamente, sobre a guerra e tudo o que ela provoca na população civil. Há aquilo que, se é possível dizer assim, surge como “bom” em meio ao horror — a solidariedade, a generosidade, a determinação e a persistência — mas também a destruição, o medo, a fuga deixando para trás tudo o que se tem, as mortes e o luto.

Li recentemente o diário de um palestino em Gaza. São contextos distintos, mas em ambos se mantém o horror da guerra: a destruição, as mortes, o luto, e também a generosidade e a solidariedade. Em Gaza, não há para onde escapar, não existe sequer uma zona um pouco mais segura, como no caso da Ucrânia, onde o oeste do país ainda oferece algum refúgio. Em Gaza, trata-se de uma limpeza étnica. Ainda assim, há muitos pontos em comum no plano humano: as reações, os sentimentos, as perdas.

O autor é russo de nascimento, mas posiciona-se a favor do Ocidente. Entre seus amigos e conhecidos, há também muitos pró-Rússia. É notório que a Ucrânia é um país multiétnico: russos e ucranianos conviviam muito bem, casavam-se entre si, a grande maioria das famílias é mista e praticamente todos falam as duas línguas. Aqui temos o ponto de vista de quem está vivendo a guerra, independentemente das disputas geopolíticas ou dos posicionamentos ocidentais ou russos. Apesar de todos terem suas opiniões, o que se revela é o cotidiano da guerra, as lembranças de um tempo de democracia e também do período soviético, e um desejo profundo de liberdade, autonomia e democracia.

Infelizmente, a guerra trouxe consigo o ódio aos russos, motivado por experiências reais: casas destruídas, familiares mortos, aldeias e cidades bombardeadas, plantações perdidas, territórios invadidos. E isso é um fato, seja sob uma perspectiva pró-Ocidente ou pró-Rússia: trata-se de uma invasão. Antes havia respeito e liberdade para seguir tradições russas ou ucranianas, algo que aos poucos vem sendo proibido, como o ensino da língua russa nas escolas, o que, no entanto, não impede que o povo continue falando-a no cotidiano.


Andrei Kurkov nasceu em Budogoshch, Rússia, em 1961. É um romancista ucraniano


QUANDO CONTROLAR O PASSADO SE TORNA UM PROJETO DE PODER

 

APAGANDO A HISTÓRIA: Como os Fascistas Reescrevem o Passado Para Controlar o Futuro

JASON STANLEY

 L&PM – 1ª ED. 2025

224 páginas 


Apagando a História, de Jason Stanley, e Quem tem medo do gênero?, de Judith Butler, ajudam a compreender o que está acontecendo no mundo contemporâneo, especialmente diante do retorno de Trump nos Estados Unidos, de seus ataques às universidades e do empenho da extrema direita contra a teoria crítica da raça, a teoria de gênero, a história das mulheres e os cursos que abordam a sexualidade.

Ao estabelecer paralelos com o período de 1930 a 1945 na Europa — marcado pela ascensão do fascismo e do nazismo —, Stanley demonstra como a história é apagada e substituída por uma nova narrativa. Em geral, trata-se da construção de um mito nacionalista e de “tradições culturais” que devem ser celebradas como orgulho da nação. Um dos objetivos centrais desse processo é destruir conquistas e direitos relacionados à classe, ao gênero, à sexualidade e à raça.

Nesse contexto, todo espírito crítico passa a ser desencorajado. Não se trata mais de pensar, mas de aceitar, ou engolir, aquilo que esses regimes impõem como verdade. O ataque principal recai sobre a educação e as universidades: controla-se o que é ensinado e como é ensinado, moldando subjetividades e apagando conflitos históricos.

Jason Stanley expõe com clareza o perigo real representado pelos ataques da direita autoritária à educação. Identifica suas principais táticas, seus financiadores e traça as raízes intelectuais desse projeto político, mostrando que não se trata de episódios isolados, mas de uma estratégia deliberada de controle do presente por meio da manipulação do passado.


Jason Stanley nasceu em Syracuse em 1969. É um filósofo estudioso do neofascismo, particularmente nos EUA. 


UMA OUTRA LEITURA DA DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

 

A DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

MARÍA-MILAGROS RIVERA GARRETAS

GINNA – 1ª ED. 2025

272 páginas 

Estou profundamente impactada por este livro. María-Milagros Rivera Garretas, filósofa espanhola, desenvolve aqui uma teoria da diferença sexual na história que se coloca antes, e não contra a teoria de gênero. Sem nada de reacionário, ela sustenta que mulheres e homens são diferentes, pensam de maneiras diferentes, e que essa diferença deve ser valorizada e incorporada aos estudos da história das mulheres.

Um dos pontos centrais de sua reflexão é a revalorização da língua materna — aquela que aprendemos com nossas mães. Tradicionalmente, essa língua foi classificada como semiótica, enquanto a língua fálica seria considerada a verdadeiramente simbólica. María-Milagros recusa essa hierarquia: para ela, a língua materna é simbólica. Em lugar do Nome do Pai, consagrado por Lacan, ela propõe o Nome da Mãe.

Não há aqui nenhum essencialismo — muito pelo contrário. Não se trata de uma “natureza feminina”, e a autora inclui explicitamente as mulheres trans em sua reflexão. Ao mesmo tempo, defende que os homens também precisam reencontrar sua masculinidade na língua da mãe, nessa primeira língua que nos constitui e, paradoxalmente, nos liberta.

María-Milagros aponta exemplos históricos dessa língua materna viva e atuante: as trovadoras (trobairitz), as mulheres cátaras, as místicas, as beguinas e as preciosas que conduziam salões literários. Espaços em que, por meio da palavra, rompiam as fronteiras entre o público e o privado.

Sua crítica à teoria de gênero não é uma negação, mas um deslocamento. Para ela, ao focar prioritariamente nas relações de poder, a teoria de gênero acaba deixando de lado algo fundamental: as próprias relações — e o amor. Não o amor romântico, mas um amor em um sentido muito mais amplo, quase esquecido entre nós. Hoje, falar de amor parece difícil, ou até ridículo, para alguns.

Eu mesma vinha me perguntando: em que momento os sexos deixaram de se amar? Quando os homens passaram a odiar as mulheres? Evidentemente, não todos. Mas basta olhar para a semana passada e para o horror das mulheres mortas ou agredidas. Este livro chegou como uma luva — e ainda estou digerindo. Há muito a aprender.

Sempre me perguntei se existia uma linguagem que não fosse fálica. María-Milagros está me respondendo.



María-Milagros Rivera Garretas nasceu em Bilbao, Espanha, em 1947. É historiadora.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Violência, prisão e apagamento do povo palestino

 


NA SOMBRA DO HOLOCAUSTO: GENOCÍDIO EM GAZA

LAYAN KHAYED; NOURA ERAKAT ET ALL

Contrabando Editorial – 2025

224 páginas

Este livro reúne textos de diversos autores e autoras. Um de seus capítulos centrais trata da violação sistemática dos direitos humanos na Palestina após 7 de outubro de 2023, descrevendo o tratamento dado aos palestinos nas prisões israelenses, incluindo violência contra crianças, violência de gênero, abusos sexuais e assédio.

Outro capítulo apresenta uma entrevista com Layan Khayed, ativista e dirigente estudantil da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia. Há também um texto dedicado ao caso do brasileiro-palestino Islam Hamad, preso por Israel.

A segunda parte do livro é composta por ensaios sobre a questão palestino-israelense. Um deles me chamou particularmente a atenção por formular uma pergunta incômoda e pouco debatida: por que a classe trabalhadora israelense não é uma aliada?

Nos últimos tempos — e especialmente agora, com Trump novamente no governo dos Estados Unidos e suas posições explícitas, mas também em função da guerra na Ucrânia — passei a buscar com mais atenção o chamado “outro lado”. Ou seja, sair do meu mundo fechado, ocidental. Tenho percebido muitas coisas que antes não via ou não compreendia, e esse deslocamento tem sido, ao mesmo tempo, difícil e profundamente formador.

Infelizmente, quando não se lê em inglês, nós aqui ficamos muito defasados em termos de informação. Soma-se a isso o alto custo dos livros importados, o que nos limita ainda mais. Aos poucos, no entanto, surgem traduções, edições em eBook mais acessíveis e também o recurso aos jornais internacionais, ainda que muitas vezes mediado por traduções automáticas.

Considero fundamental escutar sempre mais de uma narrativa. Do contrário, ficamos à mercê de um discurso único. Isso não significa ausência de espírito crítico — pelo contrário. É preciso exercê-lo em relação a todos os lados. Ainda assim, confesso que muito do que eu pensava ou acreditava tem mudado. Posso não concordar ou não gostar — afinal, minha formação é ocidental —, mas posso tentar compreender melhor. Ultrapassar preconceitos, ideias pré-concebidas e ideologias que estruturam o nosso Ocidente.

Muito do que palestinos vêm escrevendo há décadas começa agora a se tornar visível para nós. Um exemplo é o capítulo que trata da chamada “Solução Sinai”. Ora, é exatamente isso que ouvimos recentemente de Trump, com sua ideia de uma “riviera palestina” e a expulsão dos palestinos para o Egito e a Jordânia.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026


 

Autobiografia do Algodão 

Cristina Rivera Garza 

Editora Autêntica Contemporânea - 1ª ed. 2025. 

336 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - MÉXICO 

Cristina Rivera Garza nos brinda com “Autobiografia do algodão”, um livro que não foi escrito para ressuscitar a história de seus avós e de suas lutas na fronteira do México com os EUA, mas para reescrevê-la. Sua escrita é híbrida, ela trabalha o algodão como organismo, matéria-prima e metáfora.

É uma autobiografia escrita no coletivo, não se trata de mais uma autobiografia focada no eu individual, e a pergunta é quem sou eu? E não o que me fizeram? Só aqui já temos algo precioso, pois ela foge de um certo vitimismo, mas vai em busca de suas origens, de suas raízes e que acabam demonstrando aspectos próprios dela, que ela assume com orgulho.

A história de sua família (particular) se encontra, se dá dentro do macropolítico (a história do algodão no capitalismo agrícola). O algodão e a terra são personagens dessa história particular, mas também da história de todos ali. Esse duplo movimento entre o particular e o social-político se dá porque as histórias de família na América Latina nunca estão separadas da história do colonialismo. Os corpos e memórias se organizam na escala do latifúndio, da migração, da violência econômica, e não apenas na esfera doméstica.

 Garza faz uso na escrita de documentos, registros históricos, telegramas. Mescla a ficção com a não ficção, com pitadas de realismo mágico, uma defesa do meio ambiente que é algo moderno, se baseia em um livro escrito por alguém que esteve presente nos acontecimentos, e as histórias contadas por familiares. O “eu” aparece de modo fraturado, poroso, às vezes investigativo, às vezes melancólico.

A fronteira é personagem, o rio Bravo, que divide o território na geografia política, mas que na verdade une. Durante muito tempo pensei no Oceano Atlântico como separando o Brasil da Europa, eu no Brasil, a família toda da Europa, até que me dei conta que ele unia os dois continentes. Garza traz Glória Anzaldúa, que também vivenciou esta fronteira, só que do lado de lá. A planta, o algodão, atravessa a fronteira, mas o corpo que a colhe nem sempre pode. Há um momento em que ela se refere às nuvens, que também não são barradas pela fronteira e seus controles.

A história da greve dos trabalhadores do algodão e a cidade ou vila onde ocorreu foram apagados da história, e com isso se apagou também a história dessas famílias. Se apagou a memória, ela nem sabia que era indígena, seus pais pouco falavam da família.



Cristina Rivera Garza nasceu em Heroica Matamoros, México, em 1964. Autora de novelas, contos, poesias e livros de não-ficção. É docente no Colégio de Artes Liberais e Ciências Sociais da Universidade Houston.