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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

CONJUGAR O MUNDO A PARTIR DO CUIDADO, DA ESCUTA E DA DESOBEDIÊNCIA FEMINISTA

 


ESPERANÇA FEMINISTA

DEBORA DINIZIVONE GEBARA

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. 2022

280 páginas 

Um livro magnífico, um dos mais belos que li nos últimos tempos sobre o feminismo. As autoras selecionam alguns verbos — como escutar, falar, compartilhar, entre outros — e, a partir de cada um deles, tecem reflexões sobre como compreendem a conjugação desses verbos à luz de uma esperança feminista.

Débora nos traz suas experiências: como saiu de um lugar de mulher branca privilegiada para a compreensão das muitas outras mulheres que vivem realidades distintas. Mostra como passou a perceber o quanto o sistema patriarcal estava entranhado em seus pensamentos, atitudes e ideias, e como aprendeu a estranhar o patriarcado. Seu texto sobre o verbo escutar é belíssimo.

Ivone dispensa apresentações. Ela é sensacional. Com uma veia profundamente poética, vai conjugando os verbos, sempre desobedecendo ao que não considera correto, sempre nos convidando a pensar para além do lugar comum.

E se, no princípio, era o verbo, talvez o que precisemos hoje seja aprender a conjugá-lo com amor, solidariedade e sororidade — sabendo, antes de tudo, ouvir, para depois falar.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora, ensaísta e documentarista brasileira.


Ivone Gebara nasceu em São Paulo em 1944. É uma freira católica, filósofa e teóloga feminista brasileira. 


 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CIÊNCIA, GÊNERO E DESIGUALDADE EM TEMPOS DE EPIDEMIA

 


ZIKA: Do sertão nordestino à ameaça global

DEBORA DINIZ

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2016

192 páginas 

Em Zika: Do sertão nordestino à ameaça global, Debora Diniz nos leva ao centro da epidemia de Zika que assolou o Brasil em 2016, expondo o sofrimento das mulheres grávidas e de suas famílias, bem como a complexa resposta da ciência e do Estado diante de crises sanitárias.

O livro mostra que, muitas vezes, os protagonistas silenciosos da investigação científica são esquecidos: médicos e médicas na linha de frente — “na beira do leito”, como Diniz define — são quem geralmente identifica os primeiros sinais antes que a ciência formal confirme os casos. No Nordeste, um grupo de profissionais locais foi pioneiro no diagnóstico da epidemia. E, entre eles, uma médica do Cariri foi a primeira a perceber a relação entre o vírus Zika e a microcefalia fetal. Apesar de seu trabalho decisivo e do envio das amostras à Fiocruz, seu nome desapareceu da história oficial, enquanto o crédito ficou para um pesquisador homem de instituição estatal. Este episódio evidencia, mais uma vez, como os feitos das mulheres são apagados na ciência e na memória institucional.

Outro ponto crucial levantado por Diniz é a forma como a resposta à epidemia se concentrou no vetor — o mosquito transmissor — ignorando as mulheres afetadas. O aconselhamento oficial se limitava à abstinência sexual, sem oferecer anticoncepção adequada ou legalizar a interrupção da gravidez em casos de risco comprovado. Para as mulheres que carregavam fetos com diagnóstico de microcefalia, a dor física e psicológica era imensa. Muitas precisaram lutar sozinhas para garantir cuidados adequados, transporte frequente a centros de reabilitação e o sustento de suas famílias, quase sem apoio do Estado. Somente em 2020 foi aprovada a lei que garante pensão vitalícia para crianças afetadas, evidenciando o atraso e a negligência da política pública.

Diniz também problematiza a desigualdade social implícita na resposta à epidemia. Mulheres pobres do Nordeste enfrentaram quase quatro anos de luta isoladas, enquanto mães de classes média e alta provavelmente teriam recebido apoio profissional e financeiro. A obra questiona a responsabilidade do Estado: a epidemia se agravou onde há falta de saneamento básico, lixo acumulado e controle epidemiológico insuficiente.

Zika: Do sertão nordestino à ameaça global é mais do que um relato científico ou social: é um alerta sobre desigualdade, gênero, ciência e memória institucional. É também um testemunho da coragem de mulheres e médicos que, muitas vezes invisibilizados, fizeram a diferença e salvaram vidas.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora e documentarista.