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segunda-feira, 29 de junho de 2026

LIVRO: SEJA HOMEM: A MASCULINIDADE DESMASCARADA

 

SEJA HOMEM: A MASCULINIDADE DESMASCARADA

J J BOLA

DUBLINENSE – 2ª ED. – 2020

176 páginas

O livro inicia com um relato do autor caminhando pelas ruas de Londres e o costume dos homens congoleses de se darem as mãos ao andarem juntos, comportamento que constrange em uma cidade como Londres onde isso é visto como algo feminizado. A partir dessa experiência, J.J. Bola inicia uma reflexão sobre como as normas culturais moldam a percepção da masculinidade.

Com uma linguagem simples, entrelaçando memórias, costumes culturais, exemplos e estatísticas, o autor analisa o universo masculino construído pelo patriarcado e machismo e o quanto isso produz sofrimento para os próprios homens.

A urgência em redefinir o que seja a masculinidade está presente no livro, assim como o desmascaramento de diversos mitos que atingem os homens. Expressões como: “homens não choram, não mostram vulnerabilidade, não demonstram fraquezas” são apresentadas como normas culturais que limitam a experiência masculina e reforçam estruturas patriarcais.  

O autor evidencia como esses padrões não afetam apenas as relações entre homens e mulheres, mas também as relações entre os próprios homens, influenciando comportamentos e socialização.

Um livro extremamente importante que deve ser lido principalmente pelos homens, mas também pelas mulheres, uma vez que são elas quem educam os filhos ainda dentro das regras patriarcais.

 

J J Bola nasceu em Kinshasa, República Democrática do Congo, em 1986. É um escritor e educador congolês radicado em Londres, Reino Unido


quarta-feira, 10 de junho de 2026

LIVRO: ELES TE PEGARAM TAMBÉM

 

ELES TE PEGARAM TAMBÉM

FUTHI NTSHINGILA

DUBLINENSE – 1ª ED. – 2026

224 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ÁFRICA DO SUL

Hans é um ex-policial que vive em uma casa de repouso, atormentado pelas lembranças das crueldades que cometeu a serviço do governo. É quando chega uma nova enfermeira para cuidar dele: Zoé.

Zoé cresceu enfrentado a violência e o racismo da África do Sul. Ela começa a contar sua história e a de sua família para Hans.

Com a pandemia, que podemos supor ser a Covid -19, Zoé fica confinada na casa de repouso. A partir desse momento, ela passa a revelar maiores detalhes sobre sua vida para Hans, e esse finalmente tomará coragem para contar a sua.

É através desses relatos e memórias que vamos conhecendo a história da África do Sul.

As lembranças de ambos abordam o período da guerra entre britânicos e os bôeres (colonos de origem neerlandesa, flamenga, francesa e alemã), também chamados de africâneres, que já ocupavam o território que agora os britânicos (Tommies) cobiçam devido aos minérios.

Hans pertence a uma família bôer, enquanto Zoé é uma mulher negra que deixou o país para estudar em Londres e depois retorna. Ele nunca falou a ninguém sobre tudo que fez e acaba se abrindo com ela.

É através dos relatos dos dois que se evidencia, de forma brutal, o racismo que imperou na África do Sul, culminando no apartheid e, depois de muita luta, na libertação de Mandela, que viria a assumir a presidência do país.

O título do livro se refere a uma frase de Kristina, uma mulher negra que criou Hans. Ao perceber que ele havia mudado e se tornado como o pai, ela diz: – “Eles te pegaram também!”, referindo-se à crença na superioridade racial e ao racismo.

O que mais me tocou foi o contraste das memórias de Hans e Zoé, cada um de um lado, o quanto Hans criado por mulheres foi capturado pelo pai com sua ideologia racista e de superioridade se transformando no monstro que foi, mas ao mesmo tempo algo ficou nele que o levou a se torturar na velhice.

A ideologia nunca consegue apagar completamente a memória afetiva. Ela pode sufoca-la, deformá-la, reinterpreta-la, mas nem sempre destruí-la. A velhice de Hans parece revelar justamente esse resto que sobreviveu. Como se o menino criado por mulheres continuasse existindo sob as camadas de racismo, violência e fanatismo que ele incorporou.

Já Zoé, vítima desse racismo, a questão não é esquecer, mas conseguir continuar vivendo sem que a violência defina completamente quem é. É uma recuperação da própria humanidade.

Ao alternar as memórias de Hans e Zoé, Futhi Ntshingila constrói uma narrativa sobre racismo, violência e pertencimento, mas também sobre a possibilidade de reconhecimento, arrependimento e redenção.


Futhi Ntshingila nasceu em Pietermaritzburg, África do Sul, em 1974. É uma escritora sul-africana. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA, SILÊNCIO E HERANÇA MORAL NO PÓS-GUERRA ALEMÃO

 


À SOMBRA DO MEU IRMÃO

As marcas do nazismo e do pós-guerra na história de uma família alemã

UWE TIMM

DUBLINENSE – 1ª ED. - 2014

160 páginas 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Uwe Timm era apenas uma criança. O irmão mais velho, ao contrário, alistou-se na SS e morreu jovem no front. No pós-guerra, esse irmão ausente transforma-se no ídolo silencioso da família — um herói congelado no tempo, protegido pela morte e pela recusa coletiva de olhar para o que o nazismo realmente foi.

Já adulto, Timm sente a necessidade de compreender. Não para absolver, mas para entender como isso foi possível. Ele parte então para uma investigação íntima: relê obsessivamente o diário do irmão, revisita cartas enviadas do front na Ucrânia, busca indícios de humanidade, dúvida, culpa. Não encontra. O que emerge é uma normalidade perturbadora, uma ausência quase total de empatia pelo sofrimento alheio.

Um dos momentos mais chocantes do livro está no contraste entre dois relatos. Em uma carta, já no final da guerra, o irmão se diz horrorizado com o bombardeio de Hamburgo pelos aliados — um crime contra civis, mulheres, crianças e idosos. Em outra passagem, descreve com orgulho a destruição dos fornos de uma aldeia ucraniana: os tijolos seriam usados para permitir a passagem dos tanques na lama. Não há qualquer reflexão sobre o que isso significaria para a população local: a perda do meio de cozinhar, de se aquecer no inverno rigoroso, a morte provável de idosos, mulheres e crianças. Para Timm, essa assimetria moral é devastadora: quando a violência atinge “os nossos”, é crime; quando atinge “os outros”, é feito de guerra.

O livro inteiro é atravessado por essa busca dolorosa de compreensão. Como pessoas comuns, capazes de afeto na vida cotidiana, podem perder completamente a capacidade de reconhecer o outro como humano? Como a guerra produz essa anestesia moral? E, talvez mais inquietante: como o pós-guerra permitiu que tantas famílias alemãs se colocassem apenas como vítimas, desviando o olhar dos crimes cometidos em seu nome?

Há também uma dimensão íntima e familiar profunda. Por que esse irmão mais velho permaneceu como ideal do pai, enquanto o caçula, que não matou ninguém, que era apenas uma criança durante o regime nazista, jamais ocupou o mesmo lugar? A pergunta atravessa o texto sem nunca se resolver plenamente, porque o que está em jogo não é apenas uma rivalidade fraterna, mas o peso simbólico do silêncio, da negação e da herança moral não elaborada.

À Sombra do Meu Irmão é um livro incômodo e necessário. Ele mostra como é fácil não querer ver, não querer saber, não reconhecer os próprios erros — e ainda transferir a culpa para os outros. Em tempos de radicalizações e revisionismos, a leitura se impõe como um alerta: a barbárie não nasce apenas de monstros, mas de pessoas comuns que aceitam calar. E esquecer que quem iniciou a guerra foi Hitler e que o esquecimento nunca é neutro.


Uwe Timm nasceu em Bad Kreuznach, Alemanha, em 1940. É um escritor alemão