Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE A LUCIDEZ HISTÓRICA E OS LIMITES DO MARXISMO

 

ERIC HOBSBAWM: UMA VIDA NA HISTÓRIA

RICHARD J. EVANS

CRÍTICA – 1ª ED. – 2021

728 páginas


Em primeiro lugar, lamento os erros de revisão do livro: são pequenos erros de grafia e ausência de algumas palavras, que não comprometem a leitura, mas são perceptíveis. 

O livro trata da vida do historiador marxista Eric Hobsbawn, autor de várias obras conhecidas, como a trilogia das Eras e "Era dos Extremos". A narrativa percorre sua infância, adolescência, todo o período da Segunda Guerra Mundial, sua vida acadêmica e seu percurso intelectual. O que considerei mais interessante e importante nesta leitura foi:

- Informações curtas, mas relevantes, sobre o Congo Belga, a invasão de Praga e da Hungria e alguns governos do Reino Unido. Sua visão inicial sobre a América Latina mostra-se um pouco ilusória, algo que ele corrige posteriormente. Como muitos intelectuais de esquerda de sua época, também nutriu certa ilusão em relação à União Soviética, mas Eric percebeu rapidamente suas contradições. Foi sempre comunista, embora nunca ortodoxo. 

- Sobre a vida acadêmica: os preconceitos, as competições, os debates e as críticas. Eric foi durante muito tempo um outsider na academia britânica, e o reconhecimento por seu trabalho e pesquisas veio tardiamente. Nunca conseguiu ocupar uma cátedra em Cambridge ou Oxford. 

- É curioso como um homem considerado feio - algo dito inclusive por sua irmã no livro - atraia tantas mulheres. 

- Hobsbawm teve o mérito de incluir as mulheres em "A Era dos Impérios"; no entanto, mostrou-se incapaz de reconhecer plenamente a participação feminina na história. Mesmo sendo amigo de Michelle Perrot e conhecendo Joan Scott, ele afirmava que o feminismo não era compatível com o marxismo e não enxergava nas mulheres um papel relevante na história dos trabalhadores. É preciso considerar que, naquele momento, os estudos sobre mulheres ainda estavam em consolidação, e talvez hoje ele revisasse algumas dessas posições. De fato, parte do feminismo inglês de sua época possuía um viés burguês e a luta das mulheres trabalhadoras nem sempre estava contemplado nesse movimento. 

No fundo, Hobsbawm parecia um burguês em seu estilo de vida, mas dotado de uma visão histórica perspicaz. 



Richard J. Evans nasceu em Woodford, Reino Unido em 1947. É um historiador com foco na história da Alemanha. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

UMA LEITURA NECESSÁRIA SOBRE AS ORIGENS DO MUNDO OCIDENTAL


 

SPQR: UMA HISTÓRIA DA ROMA ANTIGA

MARY BEARD

CRÍTICA – 3ª ED. - 2023

560 páginas 

Sempre que encontro um livro de história escrito por uma mulher — seja historiadora, arqueóloga ou pesquisadora — faço questão de escolhê-lo. Há nisso um gesto consciente: ler mulheres é também uma forma de enfrentar a longa tradição de apagamento feminino na produção do conhecimento. SPQR é um desses casos. Escrito por Mary Beard, uma das maiores estudiosas da Roma Antiga e de Pompeia, o livro se mostra uma leitura sólida, instigante e esclarecedora.

Esta obra dedicada a Roma foi particularmente interessante pela forma como Beard constrói sua narrativa. Ela parte da fundação da cidade, passando pelas lendas e mitos que cercam essa origem, sem tratá-los como meras curiosidades, mas como elementos constitutivos da identidade romana.

Um dos recursos centrais do livro é o uso dos discursos e cartas de Cícero, que permitem à autora se aproximar da maneira como os próprios romanos pensavam a si mesmos. Roma não aparece apenas como um império monumental visto de fora, mas como uma sociedade atravessada por conflitos, disputas políticas, contradições internas e estratégias de poder.

Ao longo da leitura, Beard nos ajuda a reconhecer o quanto do mundo romano permanece entre nós. Elementos da política, da linguagem, do direito e até de certos gestos institucionais contemporâneos encontram ali suas raízes. O livro também cumpre um papel importante ao desmistificar ideias cristalizadas sobre Roma, desmontando imagens simplificadas ou glorificadas demais do período.

É verdade que há muito pouco espaço dedicado às mulheres, um limite que não pode ser ignorado, ainda que em parte reflita a própria escassez de fontes produzidas por elas. Ainda assim, considero a leitura fundamental para compreender a cultura romana, seu pensamento, suas estruturas de poder e o funcionamento do antigo Império.

SPQR não é apenas uma história de Roma: é um convite a olhar criticamente para as origens de muitas das instituições que ainda organizam o mundo ocidental. Ler Roma com Mary Beard é, ao mesmo tempo, compreender o passado e interrogar o presente.


Mary Beard nasceu em Much Wenlock, Reino Unido, em 1955. É uma classicista 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

ENTRE A PÓLIS E O PENSAMENTO: COMO ATENAS MOLDOU O OCIDENTE

 


A ASCENSÃO DE ATENAS

A História da maior civilização do mundo

ANTHONY EVERITT

CRÍTICA – 2019

488 páginas 

Mais um título da minha lista dedicada à História — desta vez, voltado à Grécia Antiga, com ênfase em Atenas. Em A Ascensão de Atenas, Anthony Everitt acompanha o percurso dessa cidade-estado desde sua formação até o apogeu no período de Péricles, sem deixar de abordar, com igual atenção, os fatores que levaram ao seu declínio.

Atenas, embora tivesse cerca de duzentos mil habitantes, tornou-se um dos maiores centros culturais do Ocidente. O livro evidencia como, em um espaço relativamente pequeno, se produziram transformações decisivas no pensamento político, filosófico, literário e artístico que ainda hoje moldam nossa forma de compreender o mundo.

Everitt nos conduz pela atuação dos estadistas, pela construção da democracia ateniense, pelo surgimento dos grandes filósofos e pela força do teatro — tragédias e comédias como formas de reflexão coletiva sobre a pólis, o poder, o destino e a condição humana. Ao longo da leitura, torna-se possível compreender como os gregos pensavam, quais eram seus valores e de que modo interpretavam a vida, a política e a guerra.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é o contraste que se delineia entre o pensamento grego e o persa, especialmente no contexto das guerras médicas. Essa contraposição ajuda a perceber que Atenas se definiu não apenas por suas realizações internas, mas também pelo confronto com outras formas de organização política e cultural.

Embora a Grécia não se resumisse a Atenas — e o livro mencione diversas outras cidades-estados, sobretudo no contexto de conflitos, rivalidades e alianças —, o foco no pensamento ateniense se justifica. É justamente essa herança que prevaleceu no Ocidente e que continua a influenciar, direta ou indiretamente, nossas ideias sobre democracia, cidadania e cultura.

Nesse sentido, A Ascensão de Atenas atendeu plenamente às minhas expectativas: é uma leitura sólida, acessível e instigante, que permite compreender não apenas os fatos históricos, mas o modo como uma civilização pensou a si mesma e, ao fazê-lo, acabou por nos ensinar a pensar também.


Anthony Everitt nasceu em 1940. É um acadêmico britânico. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A HISTÓRIA PERSA CONTADA PARA ALÉM DO OLHAR GREGO

 

OS PERSAS: A ERA DOS GRANDES REIS

LLOYD LLEWELLYN-JONES

CRÍTICA – 1ª ED. - 2023

512 páginas

Todos nós aprendemos algo sobre os persas na escola. No entanto, até pouco tempo atrás, o que se tinha como referência eram, quase exclusivamente, as narrativas deixadas pelos gregos, justamente seus inimigos. Essa perspectiva unilateral moldou por séculos a imagem dos persas como bárbaros, despóticos e inferiores à civilização grega.

Lloyd Llewellyn-Jones, professor de história antiga e estudioso do Irã Antigo, propõe um deslocamento fundamental. Nesta obra, ele apresenta o Império Persa a partir das fontes originais persas, oferecendo uma história contada, finalmente, “do outro lado”. O resultado é um livro envolvente, acessível e extremamente informativo.

O autor concentra-se na dinastia aquemênida — Ciro, o Grande, Dario, Xerxes e seus sucessores — e encerra o volume com um capítulo dedicado ao Irã contemporâneo, estabelecendo pontes entre passado e presente. Para mim, um dos aspectos mais valiosos do livro é a atenção dada às mulheres, tema sobre o qual há uma carência notável de informações quando se trata da história persa.

Ao longo da leitura, torna-se evidente o quanto a história desse povo foi distorcida e o quanto suas contribuições foram fundamentais, inclusive para a formação do Ocidente. Um dos episódios mais impressionantes é o relato de mulheres que, diante da iminente derrota de Ciro em uma guerra, o confrontam e o acusam de covardia. Provocado por essas mulheres, Ciro retorna ao combate, vence a batalha e, segundo a tradição, jamais deixou de reconhecê-las por esse gesto.

Os persas: a era dos grandes reis não apenas corrige equívocos históricos, como também restitui complexidade a uma civilização que foi sistematicamente narrada pelos olhos de seus adversários. É uma leitura fundamental para quem deseja compreender o mundo antigo para além das versões consagradas e ouvir, finalmente, as vozes silenciadas da história.


Lloyd Llewellyn-Jones nasceu em Cefn Cribwr, País de Gales. É um professor de História Antiga.