FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ
BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2023
248 páginas
Li Andreza Jorge quando estudava
para escrever meu TCC sobre a Ética do Cuidado, procurando compreender o
cuidado dentro da realidade brasileira.
A autora escreve sobre as
mulheres do Complexo da Maré, conjunto de favelas localizado na zona norte do
Rio de Janeiro, e sobre o projeto de dança Mulheres ao Vento. Ao longo
da obra, faz uma crítica a um feminismo que não inclui em suas pautas as
vivências de mulheres faveladas.
Como meu interesse de leitura
estava voltado para a ética do cuidado, o que mais me chamou a atenção foi a
forma como essas mulheres se organizam para cuidar dos filhos e, ao mesmo
tempo, trabalhar. Andreza Jorge descreve uma maternidade marcada pela
vigilância constante. Os perigos são muitos, e as mães convivem diariamente com
o medo, pois, em determinados momentos, nem mesmo deixar um filho na escola é
seguro.
Ao mesmo tempo, a autora mostra a
existência de redes de apoio fundamentais para a sobrevivência dessas famílias.
As mulheres cuidam dos filhos umas das outras, tornando possível que possam
trabalhar, principalmente como empregadas domésticas ou cuidadoras, as duas
profissões mais comuns entre elas. Há uma responsabilidade coletiva, em que o
cuidado deixa de ser uma tarefa exclusivamente individual.
As mulheres que vivem nas favelas
ainda enfrentam outras dificuldades, como o preconceito geográfico, o racismo
institucional e a desigualdade no acesso ao saneamento básico e à segurança
pública. Em uma entrevista de emprego,
por exemplo, dizer que mora em uma favela pode reduzir significativamente suas
oportunidades. Da mesma forma, situações de violência, como tiroteios,
frequentemente impedem que cheguem ao trabalho ou que enviem seus filhos à
escola. Soma-se a isso o constante aliciamento de jovens pelo narcotráfico nas
proximidades das escolas e das comunidades.
O número de filhos mortos pela
violência nas favelas é alarmante, e o sofrimento dessas mães muitas vezes
permanece invisível para a sociedade. Nesse contexto, Andreza Jorge destaca a
importância das formas coletivas de organização, dos feminismos comunitários e
das redes de cuidado construídas pelas mulheres das favelas, diferenciando-as
de perspectivas mais centradas na emancipação individual.
Segundo Jorge “o ato de cuidar do
outro se afasta do lugar de passividade construído na mirada colonial e assume
um papel central de manutenção da vida em expansão, da insistência e
persistência do viver dessas mulheres e seus pares”. (pg. 186)
Para quem não conhece essa
realidade, é difícil imaginar a vida dessas mulheres e como elas se organizam.
A importância desse livro é tornar visível uma realidade frequentemente
ignorada, mostrando que, mesmo em meio à violência, ao preconceito e às
desigualdades, essas mulheres constroem coletivamente formas de resistência,
cuidado e possibilidade de vida.
Andreza Jorge
atua há mais de quinze anos em projetos sociais voltados para os temas de
gênero, relações étnico-raciais, diversidade e sexualidade no Complexo da Maré.


























