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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ


 

FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ

ANDREZA JORGE

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2023

248 páginas


Li Andreza Jorge quando estudava para escrever meu TCC sobre a Ética do Cuidado, procurando compreender o cuidado dentro da realidade brasileira. 

A autora escreve sobre as mulheres do Complexo da Maré, conjunto de favelas localizado na zona norte do Rio de Janeiro, e sobre o projeto de dança Mulheres ao Vento. Ao longo da obra, faz uma crítica a um feminismo que não inclui em suas pautas as vivências de mulheres faveladas.

Como meu interesse de leitura estava voltado para a ética do cuidado, o que mais me chamou a atenção foi a forma como essas mulheres se organizam para cuidar dos filhos e, ao mesmo tempo, trabalhar. Andreza Jorge descreve uma maternidade marcada pela vigilância constante. Os perigos são muitos, e as mães convivem diariamente com o medo, pois, em determinados momentos, nem mesmo deixar um filho na escola é seguro.

Ao mesmo tempo, a autora mostra a existência de redes de apoio fundamentais para a sobrevivência dessas famílias. As mulheres cuidam dos filhos umas das outras, tornando possível que possam trabalhar, principalmente como empregadas domésticas ou cuidadoras, as duas profissões mais comuns entre elas. Há uma responsabilidade coletiva, em que o cuidado deixa de ser uma tarefa exclusivamente individual.  

As mulheres que vivem nas favelas ainda enfrentam outras dificuldades, como o preconceito geográfico, o racismo institucional e a desigualdade no acesso ao saneamento básico e à segurança pública.  Em uma entrevista de emprego, por exemplo, dizer que mora em uma favela pode reduzir significativamente suas oportunidades. Da mesma forma, situações de violência, como tiroteios, frequentemente impedem que cheguem ao trabalho ou que enviem seus filhos à escola. Soma-se a isso o constante aliciamento de jovens pelo narcotráfico nas proximidades das escolas e das comunidades.   

O número de filhos mortos pela violência nas favelas é alarmante, e o sofrimento dessas mães muitas vezes permanece invisível para a sociedade. Nesse contexto, Andreza Jorge destaca a importância das formas coletivas de organização, dos feminismos comunitários e das redes de cuidado construídas pelas mulheres das favelas, diferenciando-as de perspectivas mais centradas na emancipação individual.

Segundo Jorge “o ato de cuidar do outro se afasta do lugar de passividade construído na mirada colonial e assume um papel central de manutenção da vida em expansão, da insistência e persistência do viver dessas mulheres e seus pares”. (pg. 186)

Para quem não conhece essa realidade, é difícil imaginar a vida dessas mulheres e como elas se organizam. A importância desse livro é tornar visível uma realidade frequentemente ignorada, mostrando que, mesmo em meio à violência, ao preconceito e às desigualdades, essas mulheres constroem coletivamente formas de resistência, cuidado e possibilidade de vida.  


Andreza Jorge atua há mais de quinze anos em projetos sociais voltados para os temas de gênero, relações étnico-raciais, diversidade e sexualidade no Complexo da Maré. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

UMA HISTÓRIA PLURAL DO FEMINISMO


 

FEMINISMOS: UMA HISTÓRIA GLOBAL

LUCY DELAP

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2022

336 páginas

Em Feminismos: uma história global, Lucy Delap propõe um deslocamento importante na forma de narrar a história do feminismo. Em vez de uma cronologia linear centrada na experiência europeia e norte-americana, o livro constrói uma história plural, atravessada por contextos culturais, políticos e sociais diversos, revelando o feminismo como um campo múltiplo, conflitivo e profundamente situado.

A obra percorre um amplo arco temporal, do século XVIII aos dias atuais, mas evita a narrativa clássica das “ondas” como eixo organizador exclusivo. Delap prefere estruturar o livro a partir de temas — direito ao voto, trabalho, reprodução, sexualidade, raça, classe, colonialismo, violência, ativismo — mostrando como essas questões emergem, reaparecem e se transformam em diferentes lugares do mundo. Com isso, o feminismo deixa de ser apresentado como um movimento homogêneo e passa a ser compreendido como uma constelação de lutas.

Um dos grandes méritos do livro está justamente em ampliar o mapa do feminismo. Delap nos conduz por experiências pouco conhecidas na América Latina, na África, no Oriente Médio e na Ásia, revelando como mulheres enfrentaram opressões específicas, muitas vezes em diálogo tenso com o feminismo europeu, outras vezes em confronto direto com ele. A noção de um feminismo universal é colocada em xeque, dando lugar a práticas feministas enraizadas em realidades locais.

O livro também não silencia os conflitos internos do movimento. As tensões entre feminismo branco e feminismos negros, entre classe média e mulheres trabalhadoras, entre agendas liberais e projetos radicalmente transformadores aparecem de forma clara. Delap mostra que o feminismo nunca foi um espaço consensual, mas um campo de disputas políticas e simbólicas, no qual exclusões e hierarquias também foram produzidas.

Outro aspecto relevante é a articulação entre feminismo e política institucional. O livro acompanha como as lutas feministas dialogaram com Estados, partidos, organismos internacionais e legislações, ora conquistando avanços significativos, ora sendo cooptadas, esvaziadas ou instrumentalizadas. O feminismo aparece, assim, como força transformadora, mas também vulnerável às dinâmicas do poder.

Sem idealizações, Delap reconhece os limites e contradições do feminismo ao longo da história. Ao mesmo tempo, evidencia sua capacidade de reinvenção contínua. Cada geração retoma questões antigas sob novas formas, confrontando desafios que se renovam: neoliberalismo, conservadorismos, fundamentalismos religiosos, crises democráticas.

Feminismos: uma história global é um livro fundamental para quem deseja compreender o feminismo para além de slogans ou narrativas simplificadoras. Ao revelar sua diversidade, seus conflitos e sua historicidade, a obra convida a pensar o feminismo não como identidade fixa, mas como prática política em permanente construção: sempre situada, sempre inacabada.


Lucy Delap é uma historiadora britânica especializada em Grã-Bretanha moderna, história de gênero e feminismo. 


A VOZ COMO TERRITÓRIO POLÍTICO

 


ERGUER A VOZ: PENSAR COMO FEMINISTA, PENSAR COMO NEGRA

BELL HOOKS

EDITORA ELEFANTE – 1ª ED. – 2019

380 páginas

Em Erguer a Voz, bell hooks parte da própria experiência para mostrar que falar e, sobretudo, ser ouvida, nunca foi um gesto neutro. A voz, para mulheres negras, é um território de disputa política, atravessado pelo racismo institucional, pelo sexismo e pela lógica da supremacia branca que estrutura a sociedade e, de modo particular, os espaços de produção do saber.

A leitura do livro é transformadora porque desloca o olhar: não se trata apenas de identificar opressões externas, mas de reconhecer como elas se reproduzem cotidianamente, inclusive entre nós. hooks nos convida a um exercício radical de autorreflexão, revelando o quanto mulheres, mesmo aquelas comprometidas com projetos emancipatórios, podem estar implicadas na manutenção do patriarcado e do machismo, seja pelo silêncio, pela adaptação ou pela reprodução de hierarquias aprendidas.

Ao discutir o ambiente universitário, a autora expõe como a academia, longe de ser um espaço neutro, frequentemente reforça relações de dominação. O conhecimento legitimado, os corpos autorizados a falar e os modos “aceitáveis” de expressão obedecem a uma lógica excludente que marginaliza vozes dissidentes. Erguer a voz, nesse contexto, não é apenas falar mais alto, mas desafiar as estruturas que determinam quem pode falar e quem deve permanecer em silêncio.

O livro ensina que a educação pode ser um espaço de libertação, desde que atravesse o desconforto, a escuta crítica e a disposição para rever privilégios. hooks insiste que transformar a universidade, e a sociedade, passa necessariamente pela disposição de confrontar o racismo estrutural, a supremacia branca e o patriarcado, não como abstrações, mas como práticas cotidianas que atravessam nossas relações, afetos e modos de pensar.

Erguer a Voz é, assim, um chamado ético e político. Um convite para falar, mas também para escutar. Para ensinar, mas sobretudo para aprender. E, talvez o mais difícil, para reconhecer que a transformação coletiva começa por um trabalho profundo e contínuo sobre nós mesmas.


bell hooks nasceu em Hopkinsville, Kentucky, EUA, em 1952 e faleceu em Berea, Kentucky, EUA, em 2021. Foi uma teórica feminista, professora, artista e ativista antirracista


O ARQUÉTIPO DA MULHER SELVAGEM

 

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.

CLARISSA PINKOLA ESTÉS

ROCCO – 1ª ED. – 1994

628 páginas

Em Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, Clarissa Pinkola Estés, constrói uma obra que atravessa psicologia, mitologia, folclore e espiritualidade para pensar o feminino a partir de uma dimensão arcaica, instintiva e simbólica. O livro propõe a recuperação daquilo que a autora chama de “mulher selvagem”, entendida não como figura primitiva ou desordenada, mas como fonte profunda de saber, intuição, criatividade e força vital.

A partir de mitos e contos tradicionais de diferentes culturas, Estés interpreta narrativas ancestrais como mapas psíquicos. Cada história funciona como um espelho simbólico das experiências femininas: perda, iniciação, ferida, silêncio, retorno e transformação. O lobo surge como metáfora central desse feminino instintivo: um ser que conhece os ciclos da vida, que vive em relação com o território, que sabe quando avançar e quando recolher-se. Correr com os lobos, nesse sentido, não é romper com a cultura, mas reconectar-se a um saber soterrado por séculos de repressão, moralização e domesticação do corpo e do desejo femininos.

O livro dialoga fortemente com a psicanálise junguiana, sobretudo com a noção de arquétipo, e propõe uma escuta atenta dos símbolos como linguagem da alma. No entanto, sua força não está apenas na teoria, mas na maneira como convoca a leitora a um processo de reconhecimento de si. Ao nomear feridas coletivas — como o silenciamento, a culpa, a perda da autonomia e o medo da própria potência —, Estés oferece imagens que auxiliam na reconstrução subjetiva e no resgate da integridade psíquica.

Ao mesmo tempo, Mulheres que correm com os lobos pode ser lido criticamente. Seu universalismo simbólico, ao falar de um arquétipo feminino comum, corre o risco de apagar diferenças históricas, culturais e materiais que atravessam as experiências das mulheres. Ainda assim, o livro permanece relevante como uma obra de escuta e cuidado, sobretudo em um mundo que continua exigindo das mulheres adaptação, docilidade e produtividade em detrimento da vitalidade e do desejo.

Mais do que um manual de autoajuda, o livro se apresenta como um percurso iniciático. Ele não promete respostas rápidas nem soluções fáceis, mas oferece narrativas que acompanham processos longos, dolorosos e, muitas vezes, solitários. Ler Clarissa Pinkola Estés é aceitar o convite para descer às camadas profundas da psique, reconhecer perdas e resgatar forças esquecidas. É um livro que fala de cura, mas não de uma cura pacificada: trata-se de uma cura que passa pelo enfrentamento, pela memória e pela reconciliação com aquilo que foi expulso da cultura dominante.


Clarissa Pinkola Estés nasceu em Gary, Indiana, EUA, em 1945. É uma psicóloga Junguiana


A OPRESSÃO E AS HUMILHAÇÕES AOS PALESTINOS

 


VIAGEM À PALESTINA: PRISÃO A CÉU ABERTO

ADRIANA MABILIA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2013

224 páginas

Viagem à Palestina: Prisão a Céu Aberto, de Adriana Mabilia, aprofunda a compreensão sobre o complexo conflito entre Israel e Palestina, mostrando que, embora ambos os lados tenham suas reivindicações e dores, a pressão psicológica e as humilhações impostas aos palestinos para que abandonem suas casas e terras é terrível e desumana. A ideia de que os israelenses teriam direito à terra devido a seus antepassados é questionada: nenhum país pode reivindicar território apenas pelo fato de ancestrais terem vivido ali. Judeus, palestinos e árabes têm raízes na região, mas o tratado que criou o Estado de Israel não foi respeitado, e a disputa permanece marcada por injustiças históricas.

O foco do livro está na vida das mulheres palestinas, mostrando como elas enfrentam e resistem às condições de guerra, à falta de liberdade de locomoção, à perda de maridos e filhos, e aos bombardeios, como os realizados em Gaza. Mesmo diante da destruição, a criatividade e a resiliência dessas mulheres se destacam. Um exemplo marcante citado por Mabilia é o de duas engenheiras palestinas que, diante da proibição israelense de levar materiais de construção para reconstruir casas, criaram tijolos a partir dos escombros e das cinzas, demonstrando inteligência, amor e capacidade de resistência diante da opressão.

O livro nos convida a refletir sobre o impacto humano do conflito e sobre a força das mulheres em meio a situações extremas, ressaltando como a resistência, a criatividade e a solidariedade se tornam ferramentas essenciais para sobreviver e reconstruir vidas.

Este livro foi escrito muito antes do que está ocorrendo atualmente: a destruição e extermínio do povo em Gaza.


Adriana Mabilia é uma jornalista brasileira e editora internacional, especialista em assuntos do “Oriente Médio”. 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NOS LARES CRISTÃOS


 

O GRITO DE EVA

A violência doméstica em lares cristãos

MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR

THOMAS NELSON BRASIL – 1ª ED. - 2021

178 páginas


O grito de Eva, de Marília de Camargo César, parte de uma constatação incômoda: o machismo atravessa todas as esferas do patriarcado — sociedade, política, família e também a religião. Existe a ilusão de que pessoas religiosas seriam, por definição, amorosas e incapazes de praticar violência, mas o livro demonstra que essa expectativa não corresponde à realidade. A autora reúne relatos de mulheres cristãs que, ao buscarem ajuda dentro de suas igrejas, acabam sendo aconselhadas a rezar mais, a compreender, a relevar, a suportar. Esse tipo de orientação, longe de proteger, contribui para a perpetuação da violência doméstica.

Ao mesmo tempo, o livro não constrói uma crítica simplista ou homogênea às lideranças religiosas. Há também depoimentos e reflexões de pastores que discordam dessas práticas e reconhecem a violência como algo incompatível com o cristianismo. Fica evidente que tudo depende da interpretação dos textos sagrados e, sobretudo, do que se deseja extrair deles. A Bíblia oferece ensinamentos, mas a leitura desses textos exige responsabilidade histórica e ética: é fundamental distinguir aquilo que pertence a um contexto social específico daquilo que pode ser compreendido como princípio válido para outros tempos.

A autora lembra que, no período em que muitos textos bíblicos foram escritos, a mulher não tinha voz, era socialmente submissa e confinada ao espaço doméstico. Nesse sentido, a atuação de Jesus aparece como profundamente disruptiva: ele escuta as mulheres, conversa com elas, as acolhe, rompendo com o status quo de uma sociedade patriarcal. Marília também chama atenção para o fato de que o Gênesis apresenta dois relatos da criação — o primeiro e o segundo — e que é apenas no segundo que surge Eva a partir da costela de Adão, distinção frequentemente ignorada em leituras literalistas.

Um ponto especialmente instigante é a reflexão sobre o silêncio de Adão diante da cena da maçã e da serpente. Por que, tendo ouvido Deus, ele não interveio, não recusou, não aconselhou Eva? Esse silenciamento masculino, raramente problematizado, desloca a responsabilidade exclusiva atribuída à mulher e revela como certas leituras bíblicas operam seletivamente para reforçar a culpa feminina.

Em relação à submissão, o livro oferece uma explicação mais ampla do conceito, mostrando que ele não se refere apenas às mulheres. O problema surge quando essa ideia é aplicada de forma unilateral, enfatizando a submissão feminina e silenciando as exigências éticas dirigidas aos homens. Essa leitura parcial sustenta relações abusivas e legitima violências que nada têm de sagradas.

O grito de Eva é, acima de tudo, um livro de orientação e encorajamento. Ele afirma, com clareza, que mulheres cristãs não precisam se submeter à violência física ou ao abuso psicológico para serem fiéis à sua fé. Elas merecem amor, dignidade e vida plena,  e tomar uma atitude diante da violência não significa ir contra os ensinamentos sagrados, mas, ao contrário, reafirmar o valor da própria vida.

                   Marília de Camargo César nasceu em São Paulo em 1964. É jornalista e escritora. 




DA PERDA À LUTA POR JUSTIÇA


 

HEROÍNAS DESTA HISTÓRIA:  Mulheres em busca de justiça por familiares mortos pela ditadura

CARLA BORGESTATIANA MERLINO (ORGS.)

AUTÊNTICA – 1ª ED. – 2020

400 páginas.


São décadas de silêncio rompido, seja por autoproteção, pela necessidade de seguir em frente ou por uma política deliberada de esquecimento que encobriu os crimes da ditadura civil-militar brasileira. Um silêncio que não foi natural, mas construído, sustentado e imposto. É nesse terreno que se inscrevem as histórias reunidas em Heroínas desta História, um livro atravessado por relatos de mães, esposas e familiares que estiveram à frente da luta contra o regime militar.

São mulheres que perderam filhos, maridos, irmãs e irmãos; mulheres que sofreram, resistiram e enfrentaram o Estado em busca de notícias, de corpos, de respostas e, muitas vezes, do direito mínimo a uma certidão de óbito. Aqui, a dor não paralisa: ela se transforma em ação política. O luto converte-se em denúncia, e a ausência vira insistência. Essas mulheres recusaram o apagamento e fizeram da busca por seus familiares uma luta pública contra a violência de Estado.

Algumas dessas trajetórias tornaram-se mais conhecidas por não terem se calado, como Clarice Herzog, Eunice Paiva ou Zuzu Angel, esta última brutalmente silenciada pelo próprio regime. Outras tantas permanecem desconhecidas do grande público, o que torna sua escuta ainda mais urgente. São mulheres simples ou de classe média, com trajetórias distintas, mas unidas pelo fato de terem sido empurradas para o centro da história por uma violência que atravessou suas vidas privadas.

O livro mostra como essas mulheres se tornaram protagonistas de nossa história recente, ainda marcada por lacunas, negações e disputas de memória. Ao reunir esses relatos, Heroínas desta História não se limita a narrar o passado: afirma a memória como gesto político e como responsabilidade coletiva. Este não é apenas um livro para ser lido, mas para ser escutado. Ele nos apresenta algumas dessas mulheres — cabe a nós, agora, ouvi-las.


LINGUAGEM, MEMÓRIA E ESCRITA

 

CADERNOS DA GUERRA E OUTROS TEXTOS

MARGUERITE DURAS

ESTAÇÃO LIBERDADE – 1ª ED. – 2009

384 páginas

Cadernos da Guerra e Outros Textos, de Marguerite Duras, reúne escritos que refletem sobre a experiência da guerra, da ocupação e da resistência, abordando os efeitos do conflito na vida individual e coletiva. A obra é marcada pelo estilo conciso, fragmentário e intimista de Duras, que combina memórias, testemunhos e reflexões filosóficas, revelando a dimensão humana da violência e da opressão.

O livro nos conduz pelo olhar sensível da autora sobre o cotidiano da guerra, os dilemas morais e éticos enfrentados por quem resiste, e a forma como a memória da violência molda a subjetividade. Duras explora temas como medo, perda, coragem e solidariedade, mostrando a tensão entre o ordinário e o extraordinário, a vida comum e o momento histórico extremo.

Além do contexto histórico, a obra provoca reflexões sobre linguagem, escrita e memória, revelando como os relatos literários podem capturar experiências traumáticas e oferecer compreensão sobre a condição humana. Cadernos da Guerra e Outros Textos é uma leitura intensa, que combina história, literatura e introspecção, convidando o leitor a refletir sobre os efeitos duradouros da guerra na vida pessoal e coletiva.


Marguerite Duras pseudônimo de Marguerite Donnadieu, nasceu em Saigon (atual Cidade de Ho Chi Minh) em 1914 e faleceu em Paris em 1996. Foi uma romancista, novelista, roteirista, diretora de cinema e dramaturga francesa


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EUFRÁSIA: PIONEIRA NA BOLSA DE VALORES

 

#QUERO SER EUFRÁSIA

MARIANA RIBEIRO

EBOOK - 2019

72 páginas

#Quero Ser Eufrásia, de Mariana Ribeiro, apresenta a extraordinária trajetória de Eufrásia Teixeira Leite, uma das primeiras mulheres brasileiras a operar na Bolsa de Valores, no século XIX. Nascida em Vassouras, no Rio de Janeiro, Eufrásia desafiou convenções de uma época em que a educação feminina se restringia a português, matemática rudimentar, história, línguas e tarefas domésticas. Graças ao incentivo do pai, ela recebeu conhecimentos financeiros que se mostrariam fundamentais para gerir a herança da família.

Após a morte dos pais e o acidente de sua irmã, que a impedia de se casar, Eufrásia mudou-se para Paris, onde iniciou sua carreira de investimentos. Atuou nas principais bolsas de valores, incluindo Paris, Brasil, Nova York e Londres, negociando em diversas moedas, alcançando grande sucesso e tornando-se milionária.

Eufrásia foi noiva de Joaquim Nabuco, mas o relacionamento terminou devido à diferença de leis entre Brasil e França: no Brasil, a herança da mulher passava automaticamente à gerência do marido, enquanto na França isso não ocorria, e Nabuco recusou-se a casar fora do país. Eufrásia jamais se casou, mantendo sua independência financeira e pessoal.

Sua vida extraordinária comprova que mulheres são igualmente capazes de gerir finanças e atuar na bolsa de valores, desafiando preconceitos históricos e mostrando que competência e ousadia não têm gênero.


UMA MULHER INTENSAMENTE VIVA

 


LOU ANDREAS-SALOMÉ

DORIAN ASTOR

L&PM – 1ª ED. – 2016

320 páginas

Dorian Astor nos apresenta um retrato amplo e sensível de Lou Andreas-Salomé, acompanhando sua trajetória da infância até a morte, bem como suas relações intelectuais e afetivas com figuras centrais do pensamento europeu, como Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke, Andreas — seu marido — e Sigmund Freud, além de muitas outras amizades que marcaram sua vida intelectual. Mais do que uma biografia factual, o livro constrói a imagem de uma mulher profundamente à frente de seu tempo, talvez até do nosso, que prezava a liberdade, a autonomia intelectual e uma relação afirmativa com a vida.

Lou aparece como uma pensadora que via, inclusive na dor e na tristeza, uma possibilidade de crescimento e de superação daquilo que paralisa. Nesse sentido, sua postura se opunha à noção freudiana de pulsão de morte: para ela, mesmo no sofrimento, é sempre a vida que pulsa, jamais a inércia ou a morte. Essa confiança radical na vitalidade atravessa tanto sua obra quanto suas escolhas pessoais.

Infelizmente, por decisão própria, Lou preservou rigorosamente sua vida privada. Grande parte de sua correspondência foi destruída por ela mesma e por seus interlocutores, a seu pedido, o que nos priva de um acesso mais amplo ao desenvolvimento de seu pensamento. Permanecem lacunas, ainda que seus romances e ensaios permitam traçar esse percurso de forma indireta, revelando muito de suas inquietações e elaborações interiores.

Lou Andreas-Salomé é mais uma entre tantas grandes mulheres pensadoras lembradas sobretudo por suas relações com homens consagrados, e não por sua própria produção intelectual. O mérito do livro de Dorian Astor está justamente em combater essa redução, mostrando que Lou jamais foi uma sombra ao lado desses homens, ao contrário, foi presença ativa, interlocutora respeitada e pensamento autônomo. Muito difamada, especialmente pela irmã de Nietzsche, talvez tenha sido essa experiência que a levou a valorizar tanto o silêncio e a privacidade, optando por não comentar publicamente sua amizade com o filósofo, exceto pelo que escreveu sobre sua obra e sua filosofia.

O autor também aborda a relação ambígua de Lou com o feminismo. Apesar de sua independência, liberdade de pensamento e vida pouco convencional, ela nunca se declarou feminista. Embora tivesse amigas engajadas nessas lutas, Lou acreditava que a verdadeira liberdade era essencialmente interna. Questões como o direito ao voto ou o trabalho feminino lhe pareciam externas, insuficientes para tocar o núcleo da emancipação individual.

O retrato que emerge é o de uma mulher vibrante, intensamente viva, brilhante em seus pensamentos, admirada e amada por muitos homens, mas que jamais abriu mão de sua independência. Uma figura que continua a desafiar categorias fáceis e a exigir leituras que não a reduzam, nem a expliquem apenas por suas relações.

Dorian Astor nasceu em Béziers, França, em 1973. É um filósofo e germanista francês especialista em Nietzsche. 



CONSCIÊNCIA FEMINISTA COMO PROCESSO HISTÓRICO

 

A CRIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA FEMINISTA

A luta de 1.200 anos das mulheres para libertar suas mentes do pensamento patriarcal

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

472 páginas

A Criação da Consciência Feminista é uma obra fundamental de Gerda Lerner, historiadora que teve papel decisivo na consolidação da História das Mulheres como campo acadêmico. Neste livro, Lerner investiga como, ao longo de séculos, mulheres foram lentamente construindo uma consciência de si enquanto grupo oprimido, apesar de viverem em sociedades estruturadas para silenciá-las, isolá-las e excluí-las da produção do conhecimento. O foco central não é apenas a opressão, mas o processo histórico pelo qual algumas mulheres conseguiram reconhecê-la, nomeá-la e, progressivamente, transformá-la em pensamento crítico e ação política.

A autora percorre um arco histórico que vai da Antiguidade ao século XIX, analisando textos, experiências religiosas, produções intelectuais e práticas sociais nas quais mulheres começaram a refletir sobre sua própria condição. Lerner demonstra que a exclusão das mulheres da educação formal e das instituições do saber não impediu completamente a produção de pensamento feminino, mas a tornou fragmentária, descontínua e muitas vezes invisibilizada. Um ponto central do livro é a ideia de que a consciência feminista não surge de forma espontânea ou individual, mas como resultado de processos coletivos, de transmissão entre mulheres e de momentos históricos específicos que permitiram brechas dentro da ordem patriarcal.

Ao longo da obra, Lerner também critica a historiografia tradicional por tratar a experiência masculina como universal, mostrando como isso distorce a compreensão da história como um todo. Ela sustenta que a consciência feminista nasce quando as mulheres passam a entender que sua condição não é natural nem imutável, mas histórica, e, portanto, passível de transformação. O livro não se propõe a narrar uma história linear do feminismo, mas a explicar as condições que tornaram possível o surgimento do pensamento feminista moderno. Trata-se de uma leitura clara, rigorosa e didática, essencial para quem deseja compreender as bases históricas do feminismo e o longo processo de construção da consciência das mulheres sobre si mesmas e sobre o mundo que as cerca.


Gerda Lerner nasceu em Viena, Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


O NASCIMENTO DO #METOO COMO MOVIMENTO GLOBAL

 


ELA DISSE: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo

JODI KANTOR – MEGAN TWOHEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2019

376 páginas 

O livro evidencia como esse silêncio era sustentado por um machismo estrutural profundamente enraizado. As mulheres abusadas tinham medo de falar porque sabiam que, ao denunciarem, seriam desacreditadas. A sociedade tende a questionar as vítimas: afirma que mentiram, que consentiram, que “permitiram”, ou que não deveriam estar naquele lugar, frequentemente uma suíte de hotel, cenário recorrente dos abusos, já que Weinstein costumava convocar as mulheres para supostas reuniões de trabalho nesses espaços.

As duas jornalistas precisaram construir um vínculo de confiança extremamente delicado com as mulheres envolvidas. Inicialmente, muitas aceitaram falar apenas sob sigilo absoluto. Aos poucos, porém, uma, depois outra, decidiu autorizar a publicação de seus relatos. Foi esse gesto de coragem que deu o impulso decisivo ao movimento #MeToo.

A partir da publicação da reportagem, mais mulheres começaram a se manifestar. Amparadas umas nas outras, romperam o silêncio e denunciaram abusos que haviam sido naturalizados, ocultados ou negados por décadas. O livro mostra com clareza não apenas a importância do jornalismo investigativo, mas também como a escuta, o cuidado e a persistência podem criar condições para que a verdade venha à tona.

Na verdade, o #MeToo foi iniciado por Tarana Burke em 2006, mas tornou-se um símbolo a partir das denúncias contra Harvey Weinstein, em 2017.


Jodi Kantor nasceu em Nova Iorque em 1975. É uma jornalista estadunidense.

Megan Twohey nasceu em Washington D.C. É uma jornalista estadunidense. 


 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CUIDADO: UM CONCEITO QUE NÃO É UNIVERSAL

 



COSMOPOLÍTICA DO CUIDADO

Percorrendo caminhos com mulheres líderes quilombolas

NATHALIA DOTHILING

CONTRACORRENTE – 1ª ED. – 2022

120 páginas


Este livro, resultado da pesquisa realizada pela autora em duas comunidades quilombolas situadas no estado de Santa Catarina, foi essencial para que eu percebesse que a noção de cuidado, tal como pensada por mulheres brancas, difere, e muito, daquela vivida por mulheres negras, quilombolas, faveladas e até mesmo por mulheres negras nos Estados Unidos.

Aqui, o foco recai sobre as mulheres quilombolas e sobre como elas compreendem o cuidado. A primeira diferença marcante é que o trabalho doméstico realizado nas casas de mulheres que as remuneram por esse serviço não é considerado, por elas, como cuidado. A esse trabalho elas dão outro nome: servir.

O cuidado, para essas mulheres, é aquilo que realizam em suas próprias casas, com seus filhos e no interior da comunidade. A alegria que sentem quando conseguem deixar o trabalho remunerado, geralmente mal pago e exaustivo, para dedicar-se ao cuidado do próprio lar é imensa. Há prazer e afeto nesse fazer, o que difere profundamente da experiência de muitas mulheres que realizam o trabalho doméstico por obrigação, dever ou por não haver outra pessoa que o faça.

Cozinhar, limpar, cuidar dos próprios filhos, dos filhos das vizinhas e dos idosos da comunidade constitui um trabalho de cuidado que, nesse contexto, não é desvalorizado, tampouco pelos homens. Pelo contrário, trata-se de uma atividade reconhecida e respeitada. O aspecto mais interessante é que são justamente essas mulheres cuidadoras que acabam assumindo posições de liderança. Elas se tornam lideranças comunitárias, responsáveis por resolver questões políticas, participar de reuniões com a prefeitura, lutar pelo reconhecimento do território e reivindicar melhores condições de trabalho e de vida para toda a comunidade.


Nathalia Dothiling é mestra em antropologia social


MULHERES QUILOMBOLAS E A LUTA PELO TERRITÓRIO


 

DEVIR QUILOMBA

MARILÉA DE ALMEIDA

EDITORA ELEFANTE - 2022

392 páginas

Baseado na pesquisa realizada por Mariléa de Almeida, o livro aborda os quilombos no estado do Rio de Janeiro, com foco especial no protagonismo feminino. São as práticas das mulheres quilombolas que estruturam a luta pelo território, a manutenção das tradições, dos cultos e a mobilização constante pelo direito à terra — um direito que frequentemente esbarra na burocracia governamental.

O livro mostra como são essas mulheres que sustentam a vida coletiva, articulam resistências e mantêm viva a memória ancestral. A entrada das igrejas neopentecostais nas comunidades quilombolas aparece como um elemento de tensão, produzindo impactos profundos nas formas tradicionais de organização e espiritualidade. Por isso, algumas mulheres defendem com firmeza a preservação do terreiro, entendido não apenas como espaço religioso, mas como lugar de identidade, memória e pertencimento.

A autora destaca ainda a importância das griottes, as contadoras de histórias, responsáveis pela transmissão oral do conhecimento, e das práticas culturais como o jongo, que articulam corpo, memória e resistência. O livro também aborda as dificuldades enfrentadas no acesso à educação formal e critica a ausência do ensino da história da África e da população negra nas escolas, evidenciando como o apagamento histórico reforça desigualdades e fragiliza identidades.


Mariléa de Almeida nasceu em Vassouras – RJ, em 1973. É doutora em História.