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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

TIAMAT E O APAGAMENTO DO FEMININO

 

ENUMA ELISH: O POEMA MESOPOTÂMICO DA CRIAÇÃO

Tradução: Sueli Maria de Regino

EBOOK – 1ª ED. – 2019

64 páginas

Em Enuma Elish: o poema mesopotâmico da criação, encontramos não apenas um mito cosmogônico, mas um texto profundamente político, que narra a origem do mundo ao mesmo tempo em que legitima uma nova ordem de poder. Diferente de mitologias centradas na geração da vida como processo relacional, o Enuma Elish funda o cosmos a partir da violência, do conflito e da vitória de um deus masculino sobre uma potência feminina primordial.

A narrativa apresenta Tiamat, divindade associada às águas caóticas e à matriz originária da vida, como ameaça que precisa ser eliminada. Sua derrota por Marduk não é apenas um episódio mítico, mas um gesto fundador: o mundo nasce do esquartejamento do corpo feminino, reorganizado segundo uma lógica hierárquica, centralizada e soberana. A criação, aqui, não é gestação nem continuidade, mas dominação e controle.

O poema reflete e legitima a transição histórica para sociedades estatais e patriarcais na Mesopotâmia. Ao elevar Marduk à condição de deus supremo, o Enuma Elish consagra uma estrutura de poder vertical, militarizada e masculina, na qual a ordem só se estabelece mediante a supressão do feminino caótico. O mito funciona, assim, como narrativa de fundação do Estado, da soberania e da autoridade central, naturalizando a violência como princípio organizador do mundo.

Há, nesse sentido, uma ruptura simbólica fundamental em relação a mitologias mais antigas, nas quais o feminino aparece como fonte da vida, da fertilidade e da continuidade cósmica. No Enuma Elish, o feminino deixa de ser potência criadora e passa a ser ameaça a ser vencida. Essa inversão não é apenas teológica, mas profundamente política e cultural, marcando o início de um imaginário que associa ordem à masculinidade e caos à feminilidade.

A leitura do poema hoje permite reconhecer como certos fundamentos do pensamento ocidental — a separação violenta entre natureza e cultura, a legitimação da guerra, a hierarquização dos corpos — encontram raízes antigas. O mito não explica apenas como o mundo foi criado, mas como uma determinada forma de poder passou a se apresentar como inevitável e sagrada.

Ler o Enuma Elish é confrontar o nascimento simbólico de uma civilização fundada na vitória, na exclusão e no silenciamento do princípio feminino. É perceber que a história da criação também é uma história de apagamentos — e que compreender esses mitos é essencial para questionar as estruturas que ainda hoje organizam nossas formas de pensar o mundo, o poder e o sagrado.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EUFRÁSIA: PIONEIRA NA BOLSA DE VALORES

 

#QUERO SER EUFRÁSIA

MARIANA RIBEIRO

EBOOK - 2019

72 páginas

#Quero Ser Eufrásia, de Mariana Ribeiro, apresenta a extraordinária trajetória de Eufrásia Teixeira Leite, uma das primeiras mulheres brasileiras a operar na Bolsa de Valores, no século XIX. Nascida em Vassouras, no Rio de Janeiro, Eufrásia desafiou convenções de uma época em que a educação feminina se restringia a português, matemática rudimentar, história, línguas e tarefas domésticas. Graças ao incentivo do pai, ela recebeu conhecimentos financeiros que se mostrariam fundamentais para gerir a herança da família.

Após a morte dos pais e o acidente de sua irmã, que a impedia de se casar, Eufrásia mudou-se para Paris, onde iniciou sua carreira de investimentos. Atuou nas principais bolsas de valores, incluindo Paris, Brasil, Nova York e Londres, negociando em diversas moedas, alcançando grande sucesso e tornando-se milionária.

Eufrásia foi noiva de Joaquim Nabuco, mas o relacionamento terminou devido à diferença de leis entre Brasil e França: no Brasil, a herança da mulher passava automaticamente à gerência do marido, enquanto na França isso não ocorria, e Nabuco recusou-se a casar fora do país. Eufrásia jamais se casou, mantendo sua independência financeira e pessoal.

Sua vida extraordinária comprova que mulheres são igualmente capazes de gerir finanças e atuar na bolsa de valores, desafiando preconceitos históricos e mostrando que competência e ousadia não têm gênero.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

O DESFECHO TRÁGICO: FEMINICÍDIO PREMEDITADO


 

PIMENTA NEVES: UMA REPORTAGEM

LUIZ OCTAVIO DE LIMA

INDEPENDENTLY PUBLISHED – 2013

295 páginas

Pimenta Neves: Uma Reportagem, de Luiz Octavio de Lima, relata o caso do assassinato da jornalista Sandra Gomide por Pimenta Neves, buscando compreender as motivações e circunstâncias que levaram a esse crime. O autor traça a trajetória de ambos desde a infância, passando pelas carreiras e pelo encontro que culminou na relação entre os dois.

O livro evidencia que Pimenta Neves apresentava problemas emocionais e psíquicos, refletidos em suas relações amorosas e profissionais, incluindo casos de estupro, assédio moral e sexual, e uma postura de onipotência sobre funcionários e colaboradores. Seu comportamento abusivo evoluía gradualmente, aumentando a gravidade das situações. Por outro lado, Sandra, em alguns momentos, assumia uma postura de autoridade nos ambientes de trabalho, aproveitando-se da proteção e influência que Pimenta exercia, mas isso jamais justifica o desfecho trágico.

Quando Sandra decide se afastar, Neves reage de maneira extrema, entrando em desespero, enquanto aqueles ao redor percebem sinais claros de perigo. Apesar de algumas tentativas isoladas de intervenção, medidas mais efetivas que poderiam ter evitado o assassinato não foram tomadas. Ele a mata com dois tiros, um nas costas e outro na cabeça.

O livro também analisa o processo judicial, os recursos que possibilitaram sua liberdade provisória e os impactos sobre a família da vítima. Mais uma vez, o feminicídio não recebeu a devida justiça, especialmente considerando o prestígio e a condição financeira do acusado. O assassinato não foi um ato passional impulsivo: foi premeditado, planejado e executado, ainda que se reconheça seu estado emocional instável.

A obra expõe a gravidade do feminicídio e a falha das instituições em proteger mulheres, oferecendo reflexão crítica sobre poder, violência e impunidade.


Luiz Octavio de Lima era um jornalista brasileiro que faleceu em São Paulo, em 2020. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

UMA RAINHA AFRICANA CONTRA A EXPANSÃO IMPERIAL ROMANA

 


CANDÁCIA AMANIRENAS: A MULHER QUE ENFRENTOU ROMA

JOSÉ MIGUEL

PUBLICAÇÃO PRÓPRIA – 1ª ED. – 2022

85 páginas

Este pequeno livro apresenta, de forma romanceada, a história de Amanirenas, a Candace que ousou enfrentar o Império Romano. O autor parte de fatos históricos comprovados e preenche as lacunas com diálogos e cenas imaginadas. Ainda que esse recurso — mesmo quando verossímil — nem sempre me agrade, a leitura se mostrou interessante justamente por permitir recriar a presença histórica de uma grande mulher quase ausente das narrativas clássicas.

Amanirenas foi uma rainha Candace do Império de Cuxe, governando entre o final do século I a.E.C. e o início do século I E.C. Nesse mesmo período, Otaviano Augusto consolidava seu poder em Roma após derrotar Cleópatra e anexar o Egito ao Império. O próximo passo de sua expansão era avançar sobre a Núbia — projeto que encontrou uma resistência inesperada.

O livro reconstrói o confronto entre Roma e Cuxe como um embate desigual apenas em aparência. Amanirenas surge como uma líder estrategista, corajosa e determinada, capaz de organizar a resistência militar e política contra uma das maiores potências da Antiguidade. A guerra durou cerca de três anos, e, contra todas as expectativas romanas, ela conseguiu deter o avanço do Império para o sul da África.

Mais do que uma narrativa de guerra, o texto chama atenção para a própria figura das Candaces — título feminino de poder, ainda pouco conhecido e pouco documentado. Justamente por termos tão poucas informações sobre essas rainhas, a leitura ganha valor: ela não substitui a pesquisa histórica, mas desperta interesse, curiosidade e desejo de saber mais sobre uma história africana que raramente ocupa espaço central nos livros.

Mesmo com as limitações do formato romanceado, Candácia Amanirenas cumpre um papel importante: retira do silêncio uma mulher que enfrentou Roma e venceu ao menos aquilo que mais sustenta os impérios: a ideia de que sua expansão é inevitável. Ao recuperar essa trajetória, o livro nos lembra que a Antiguidade não foi feita apenas de imperadores, mas também de mulheres africanas que governaram, lutaram e decidiram o destino de seus povos.


José Miguel nasceu no Rio de Janeiro. Escritor brasileiro