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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A REPRESSÃO DA IGREJA E A EMERGÊNCIA DO PATRIARCADO

 


AS DEUSAS, AS BRUXAS E A IGREJA

MARIA NAZARETH ALVIM DE BARROS

ROSA DOS TEMPOS – 2001

As Deusas, as Bruxas e a Igreja, de Maria Nazareth Alvim de Barros, investiga a complexa relação entre poder religioso, gênero e repressão histórica. O livro analisa como a Igreja, ao longo dos séculos, perseguiu figuras femininas que simbolizavam saberes, práticas religiosas e autonomia social, transformando mulheres em “bruxas” ou demonizando a espiritualidade feminina.

A autora traça paralelos entre cultos e mitologias antigas, nos quais deusas e mulheres possuíam posições centrais de poder e conhecimento, e a emergência de uma sociedade patriarcal sustentada por dogmas e punições religiosas. Ao estudar processos de caça às bruxas, perseguições e estigmatizações, o livro mostra como a repressão religiosa serviu para controlar a sexualidade, o saber e a liberdade das mulheres.

O livro também explora a persistência de estereótipos e a marginalização feminina na história, oferecendo uma reflexão crítica sobre os mecanismos de poder que ainda influenciam a sociedade contemporânea. É uma leitura essencial para compreender a violência simbólica e histórica contra as mulheres e o papel do patriarcado na construção da cultura ocidental.

Maria Nazareth Alvim de Barros tem formação em psicanálise e mestrado em literatura francesa. É palestrante.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

CONJUGAR O MUNDO A PARTIR DO CUIDADO, DA ESCUTA E DA DESOBEDIÊNCIA FEMINISTA

 


ESPERANÇA FEMINISTA

DEBORA DINIZIVONE GEBARA

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. 2022

280 páginas 

Um livro magnífico, um dos mais belos que li nos últimos tempos sobre o feminismo. As autoras selecionam alguns verbos — como escutar, falar, compartilhar, entre outros — e, a partir de cada um deles, tecem reflexões sobre como compreendem a conjugação desses verbos à luz de uma esperança feminista.

Débora nos traz suas experiências: como saiu de um lugar de mulher branca privilegiada para a compreensão das muitas outras mulheres que vivem realidades distintas. Mostra como passou a perceber o quanto o sistema patriarcal estava entranhado em seus pensamentos, atitudes e ideias, e como aprendeu a estranhar o patriarcado. Seu texto sobre o verbo escutar é belíssimo.

Ivone dispensa apresentações. Ela é sensacional. Com uma veia profundamente poética, vai conjugando os verbos, sempre desobedecendo ao que não considera correto, sempre nos convidando a pensar para além do lugar comum.

E se, no princípio, era o verbo, talvez o que precisemos hoje seja aprender a conjugá-lo com amor, solidariedade e sororidade — sabendo, antes de tudo, ouvir, para depois falar.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora, ensaísta e documentarista brasileira.


Ivone Gebara nasceu em São Paulo em 1944. É uma freira católica, filósofa e teóloga feminista brasileira. 


 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A PRÉ-HISTÓRIA CONTADA A PARTIR DAS MULHERES


 

O HOMEM PRÉ-HISTÓRICO TAMBÉM É MULHER

MARYLÈNE PATOU-MATHIS

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. - 2022

322 páginas 


Neste livro, encontramos a história da invisibilidade das mulheres, com ênfase na Pré-História. A autora desmonta muitos dos conceitos cristalizados sobre esse período — concepções profundamente masculinas, eurocêntricas e, em grande parte, não sustentadas por evidências científicas.

Patou-Mathis argumenta que essas interpretações derivam do olhar de quem produziu o conhecimento no século XIX: majoritariamente homens, arqueólogos e antropólogos incapazes de conceber outras formas de organização social que não aquelas que conheciam. Assim, qualquer esqueleto encontrado com armas era automaticamente classificado como masculino, ignorando que a maioria dessas armas não tinha finalidade bélica, mas estava ligada à caça e à subsistência.

Da mesma forma, consolidou-se a ideia de uma família pré-histórica nuclear e patriarcal, projetando sobre o passado modelos sociais muito posteriores. Pesquisas recentes, novas escavações em sítios arqueológicos e, sobretudo, os estudos conduzidos por mulheres arqueólogas e antropólogas vêm transformando radicalmente esse cenário, reescrevendo a história da humanidade a partir de evidências mais amplas e menos enviesadas.

 

 

Marylène Patou-Mathis nasceu em Paris, França, em 1955. É uma acadêmica francesa especializada em pré-história. 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

UMA MULHER NO SERTÃO, UMA HISTÓRIA PARA O MUNDO

 


NIÉDE GUIDON: UMA ARQUEÓLOGA NO SERTÃO

ADRIANA ABUJAMRA

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. – 2023

256 páginas 

Adriana Abujamra, jornalista de olhar sensível, nos presenteia com a biografia de Niéde Guidon, uma figura ainda pouco conhecida no Brasil, mas de importância colossal para a arqueologia mundial. Guidon é a descobridora e protetora do Parque Nacional Serra da Capivara, guardião de um dos maiores acervos de pinturas rupestres do país, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

A narrativa revela uma mulher de coragem, determinação e amor pelo trabalho. Niéde enfrentou adversidades enormes: a descrença de parte da comunidade científica, a falta de recursos e a quase inexistente valorização do Estado brasileiro. Mesmo assim, dedicou-se não apenas à preservação arqueológica, mas também à região e às pessoas que ali vivem, promovendo educação, saúde e oportunidades de emprego.

O livro nos permite compreender que Guidon não é apenas uma cientista preocupada com vestígios do passado: ela foi uma agente ativa no presente. Sua dedicação à Serra da Capivara, à história e à memória humanas vai muito além do registro de pinturas e artefatos. Adriana Abujamra destaca ainda o pioneirismo de Guidon na teoria sobre a chegada do ser humano às Américas, contrapondo-se à tradicional narrativa do homem de Clóvis. Guidon propôs e comprovou evidências de ocupação humana anterior, o que gerou intenso debate e resistência acadêmica, mas que posteriormente foi confirmado.

O livro é, acima de tudo, uma celebração da coragem intelectual e da força de uma mulher que não apenas descobriu a história, mas lutou para preservá-la e compartilhá-la, integrando ciência, cuidado social e ativismo ambiental. Ler a trajetória de Niéde Guidon é reconhecer que ciência, humanidade e ética podem caminhar juntas, mesmo em contextos adversos.



Adriana Abujamra é autora de perfis, reportagens e livros de não-ficção.