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sábado, 14 de fevereiro de 2026

UMA RAINHA AFRICANA CONTRA A EXPANSÃO IMPERIAL ROMANA

 


CANDÁCIA AMANIRENAS: A MULHER QUE ENFRENTOU ROMA

JOSÉ MIGUEL

PUBLICAÇÃO PRÓPRIA – 1ª ED. – 2022

85 páginas

Este pequeno livro apresenta, de forma romanceada, a história de Amanirenas, a Candace que ousou enfrentar o Império Romano. O autor parte de fatos históricos comprovados e preenche as lacunas com diálogos e cenas imaginadas. Ainda que esse recurso — mesmo quando verossímil — nem sempre me agrade, a leitura se mostrou interessante justamente por permitir recriar a presença histórica de uma grande mulher quase ausente das narrativas clássicas.

Amanirenas foi uma rainha Candace do Império de Cuxe, governando entre o final do século I a.E.C. e o início do século I E.C. Nesse mesmo período, Otaviano Augusto consolidava seu poder em Roma após derrotar Cleópatra e anexar o Egito ao Império. O próximo passo de sua expansão era avançar sobre a Núbia — projeto que encontrou uma resistência inesperada.

O livro reconstrói o confronto entre Roma e Cuxe como um embate desigual apenas em aparência. Amanirenas surge como uma líder estrategista, corajosa e determinada, capaz de organizar a resistência militar e política contra uma das maiores potências da Antiguidade. A guerra durou cerca de três anos, e, contra todas as expectativas romanas, ela conseguiu deter o avanço do Império para o sul da África.

Mais do que uma narrativa de guerra, o texto chama atenção para a própria figura das Candaces — título feminino de poder, ainda pouco conhecido e pouco documentado. Justamente por termos tão poucas informações sobre essas rainhas, a leitura ganha valor: ela não substitui a pesquisa histórica, mas desperta interesse, curiosidade e desejo de saber mais sobre uma história africana que raramente ocupa espaço central nos livros.

Mesmo com as limitações do formato romanceado, Candácia Amanirenas cumpre um papel importante: retira do silêncio uma mulher que enfrentou Roma e venceu ao menos aquilo que mais sustenta os impérios: a ideia de que sua expansão é inevitável. Ao recuperar essa trajetória, o livro nos lembra que a Antiguidade não foi feita apenas de imperadores, mas também de mulheres africanas que governaram, lutaram e decidiram o destino de seus povos.


José Miguel nasceu no Rio de Janeiro. Escritor brasileiro 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

MISTÉRIO, PODER E ERUDIÇÃO NA IDADE MÉDIA

 


O NOME DA ROSA

UMBERTO ECO

RECORD – 25ª ED. - 2019

592 páginas 

O Nome da Rosa é muito mais do que um romance policial ambientado na Idade Média; é uma obra que atravessa literatura, filosofia, história e semiologia. Umberto Eco nos transporta a 1327, a um mosteiro beneditino remoto, onde o jovem noviço Adso de Melk acompanha o franciscano Guilherme de Baskerville em uma investigação que mistura assassinatos, intrigas religiosas e debates intelectuais.

O livro fascina por sua densidade histórica e erudita. Eco recria minuciosamente a vida monástica, a política e os conflitos teológicos da época, mostrando o embate entre fé e razão, ortodoxia e heresia, autoridade e questionamento. Cada detalhe — desde a organização da biblioteca labiríntica até os rituais litúrgicos — serve não apenas para ambientar, mas para refletir sobre o poder do conhecimento e da interpretação.

A escrita de Eco exige atenção: sua prosa é rica, por vezes irônica, e repleta de referências filosóficas e literárias, das quais a obra se alimenta continuamente. O leitor é convidado a mergulhar em um labirinto de signos e significados, numa espécie de jogo intelectual que desafia tanto a curiosidade quanto a paciência.

Um dos aspectos mais marcantes é a reflexão sobre o conhecimento e a censura, sobre como a história, os livros e as ideias podem ser controlados, ocultados ou reinterpretados. O romance nos leva a pensar na relação entre linguagem, poder e verdade, questões ainda profundamente atuais.

Apesar de ser uma narrativa de mistério, O Nome da Rosa não se limita à trama investigativa. Ele se abre como ensaio histórico, tratado de filosofia e estudo literário, oferecendo ao leitor múltiplas camadas de interpretação. Ler Eco é, acima de tudo, um convite ao pensamento crítico, à reflexão sobre a construção da história e o valor do conhecimento.

Um clássico que transcende gêneros e tempos, exigente e generoso, capaz de fascinar leitores interessados tanto na história medieval quanto na natureza da própria leitura.


Umberto Eco nasceu em Alexandria, Itália, em 1932 e faleceu em Milão em 2016. Foi um escritor, filósofo, semiólogo, linguista e escritor italiano. 




O REINADO APAGADO DA MAIOR FARAÓ DO EGITO

 

FARAONA DE TEBAS: Hatchepsut, filha do sol.

FRANCIS FEVRE

MERCURYO – 1ª ED. - 1991

262 páginas 


Hatshepsut finalmente começa a ser colocada em seu devido lugar, após todas as tentativas sistemáticas de apagar seu nome e seu reinado da história do Egito. Considerada a maior faraó que o país teve, governou por cerca de 22 anos em um período marcado pela prosperidade, pela paz e pelo desenvolvimento. Durante muito tempo, esquecida, apagada e silenciada, conhecíamos sobretudo outras duas grandes figuras femininas do Egito: Nefertiti e Cleópatra.

Neste livro, o historiador Francis Fèvre reconstrói a vida de Hatshepsut desde o nascimento até sua morte. Embora se trate de um romance histórico, o autor evita colocar palavras diretamente em sua boca por meio de diálogos inventados. Em vez disso, constrói hipóteses baseadas em documentos, pesquisas, relatos históricos e, sobretudo, nos painéis esculpidos em Deir el-Bahari, o monumental templo funerário que a própria Hatshepsut mandou erguer.

O relato da expedição ao Punt é um dos pontos altos da obra. Nesse momento, o autor parece literalmente ler a história inscrita nas paredes de Deir el-Bahari e traduzi-la para o leitor — e é, de fato, desse registro que sua narrativa emerge.

Apesar de algumas observações do autor soarem hoje excessivamente patriarcais — o que pode ser compreendido se considerarmos o contexto em que o livro foi escrito, anterior ao movimento mais amplo de recuperação da história das mulheres —, a obra mantém seu mérito. Ainda assim, e talvez justamente por isso, a leitura valeu a pena.


Francis Fevre nasceu em Guenviller, França, em 1951. É um historiador especialista em sociedade antigas, especialmente o Egito. 


UTOPIA, DECEPÇÃO E VIOLÊNCIA POLÍTICA

 


O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

LEONARDO PADURA

BOITEMPO – 2ª ED. 2015

608 páginas

É um livro impressionante. O homem que amava os cachorros narra a história de Ramón Mercader, o assassino de Trotsky no México, e, em paralelo, a trajetória da própria vítima. Mas o romance é muito mais do que a reconstituição de um crime histórico. Ele é, sobretudo, uma reflexão profunda sobre o stalinismo e sobre a destruição de uma utopia.

Padura mostra como, naqueles anos, se instaurou uma fé cega em Stálin e no comunismo stalinista — algo muito distante do projeto comunista original. Essa fé foi construída por meio de mentiras sistemáticas, propaganda e manipulação, num mecanismo que guarda semelhanças inquietantes com o que ocorreu no nazismo de Hitler, especialmente na fabricação do antissemitismo. É impossível não traçar paralelos com o presente, quando a desinformação e as fake news continuam sendo instrumentos eficazes de controle.

Outro elemento central é o medo. Um medo profundo e paralisante. Posicionar-se contra Stálin significava, muitas vezes, a morte — não apenas para opositores declarados, mas também para qualquer um que ameaçasse, ainda que minimamente, o ego inflado do líder. O terror era parte estruturante do sistema.

Talvez o ponto mais forte do livro seja a descrição do fim de uma utopia compartilhada por toda uma geração. O sonho de uma sociedade mais justa, em oposição ao capitalismo predatório, foi sendo corrompido nas mãos de líderes que se revelaram ditadores: Stálin, Mao e, em certa medida, Fidel Castro, quando observamos a miséria, o controle e o medo que também marcaram Cuba.

Muitos se perguntam hoje como tantos intelectuais, escritores e artistas aderiram ao comunismo stalinista. Padura ajuda a compreender esse fenômeno ao mostrar que pouco se sabia, de fato, sobre o que ocorria dentro dos países comunistas. Para muitos, tratava-se da única alternativa possível contra a pobreza, a exploração e a miséria do trabalhador. As denúncias eram facilmente descartadas como invenções capitalistas ou fascistas.

Ao final da leitura, permanece uma sensação profunda de decepção, frustração e, em alguns casos, culpa. A figura do assassino de Trotsky encarna isso de forma trágica: um homem cuja vida foi conduzida por outros, transformado em instrumento de um ódio que não era verdadeiramente seu. Um ódio que, no fundo, era o ódio de Stálin por alguém que estivera na vanguarda da Revolução Russa, mas que, no momento de sua morte, já era um velho isolado e desacreditado — alvo de mentiras, como a falsa acusação de aliança com os nazistas, que nunca existiu.

É uma leitura fundamental tanto para compreender o stalinismo e esse período histórico quanto como alerta para o presente. Um livro que nos ensina a desconfiar de verdades absolutas, de líderes carismáticos e de tudo aquilo que se espalha sem mediação crítica, especialmente nas redes sociais.

Leonardo Padura Fuentes nasceu em Havana, Cuba, em 1955. É um escritor e jornalista cubano.




terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

FASCISMO, GUERRA E CAMPONESES

 


O REFÚGIO

VALERIO MASSIMO MANFREDI

ROCCO – 1ª ED. 2012

352 páginas 

O Refúgio narra a saga da família Bruni — Callisto, Clerice e seus nove filhos, sete homens e duas mulheres. Camponeses simples e trabalhadores, vivem como meeiros em uma propriedade rural, explorados pelos donos da terra, como tantos outros na Itália do início do século XX. Ainda assim, levam uma vida marcada pela solidariedade, pela hospitalidade e por uma certa alegria possível: recebem quem os procura, especialmente no inverno, oferecendo um prato de sopa quente e um lugar para dormir.

Após um dia exaustivo de trabalho no campo, a família se reúne no estábulo para contar histórias. Esses momentos de partilha e oralidade funcionam como um refúgio simbólico: um espaço de memória, afeto e pertencimento que sustenta a família diante das adversidades.

A vida segue seu curso até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, quando os filhos homens são enviados ao front. A guerra irrompe na rotina, altera destinos e impõe ausências definitivas. Após seu término, é preciso recomeçar, mas a paz é frágil. Surgem movimentos que questionam a exploração dos camponeses, e aqueles que ousam sonhar com mudança passam a ser perseguidos pelos camisas pretas, apoiadores do fascismo de Mussolini.

Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, a história se repete sob novas formas. A Itália, inicialmente aliada ao Eixo, muda de posição após a rendição e passa a ser atacada pelos alemães — os mesmos inimigos contra os quais seus soldados haviam lutado na Primeira Guerra. O território se transforma em campo de batalha, e a população civil, mais uma vez, paga o preço das decisões políticas.

Ao acompanhar a trajetória da família Bruni, Manfredi reconstrói a história da Itália a partir de baixo: pela vida dos camponeses, seus costumes, rituais, formas de resistência e sobrevivência. O Refúgio é um romance sensível e potente, que mostra como a grande História atravessa vidas comuns — e como, apesar de tudo, elas seguem buscando abrigo, sentido e continuidade.


Valerio Massimo Manfredi nasceu em Castelfranco Emilia, Itália, em 1943. É historiador, antropólogo, ensaísta, escritor e jornalista italiano. 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O OLHAR DE UMA MULHER SOBRE A INGLATERRA INDUSTRIAL


 

NORTE E SUL

ELIZABETH GASKELL

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2016

746 páginas 

Em Norte e Sul, Elizabeth Gaskell constrói um romance profundamente atento às transformações sociais provocadas pela Revolução Industrial na Inglaterra. A narrativa se organiza a partir do deslocamento de Margaret Hale, filha de um pastor, criada no interior, em contato com a natureza e com uma vida que parecia harmoniosa. A mudança para Milton, cidade industrial do Norte, impõe um choque radical entre dois mundos.

Milton é descrita como um espaço sufocante: o ar poluído pelo carvão, a fuligem que se deposita sobre tudo, o barulho constante das fábricas. A cidade não adoece apenas o ambiente, mas também os corpos. A mãe de Margaret, já fragilizada, sente de forma intensa os efeitos dessa atmosfera hostil. Ao redor, a miséria, a fome e as greves revelam o custo humano do progresso industrial.

Ao se aproximar de uma família de operários, Margaret passa a enxergar de perto as condições de vida da classe trabalhadora. A exploração, a instabilidade e o medo do desemprego se impõem como realidade cotidiana. O romance expõe, assim, as tensões entre patrões e trabalhadores, especialmente durante a greve geral que atravessa a narrativa.

É nesse cenário que surge John Thornton, proprietário da indústria, representante do capital e do poder econômico, mas também figura complexa, distante da caricatura do vilão. O envolvimento afetivo entre Margaret e Thornton não apaga o conflito de classes; ao contrário, torna-o ainda mais evidente. O amor não funciona como conciliação fácil, mas como campo de tensão ética e política.

Outros deslocamentos reforçam essa instabilidade. Frederick, o irmão de Margaret, vive no exílio após se envolver em um motim a bordo de um navio da Marinha, trazendo à tona o autoritarismo do Estado e o custo da dissidência. Quando Margaret retorna ao interior, percebe que a vida dos camponeses tampouco corresponde à idealização inicial: ali também há precariedade, dependência e silenciamento.

A herança que mais tarde recebe introduz uma reviravolta na trama, mas não dissolve as questões centrais do romance. O dinheiro não resolve magicamente os conflitos sociais; ele apenas desloca as posições de poder e evidencia suas contradições.

Em um contexto histórico em que as mulheres tinham pouquíssimo espaço para se expressar publicamente — quanto mais para denunciar injustiças — Elizabeth Gaskell faz da literatura um instrumento crítico. Seu romance dialoga com a tradição de Dickens na Inglaterra e de Zola na França, mas preserva uma singularidade: a atenção à mediação feminina, à escuta, ao cotidiano e às ambiguidades morais que atravessam tanto o Norte industrial quanto o Sul rural.

Norte e Sul é, assim, um romance que recusa simplificações. Não há mundo puro nem progresso sem custo. O que Gaskell oferece é uma leitura sensível e política de uma sociedade em transformação — e das vidas que são esmagadas ou rearranjadas por ela.



Elizabeth Gaskell nasceu em Chelsea, Londres em 1910 e faleceu em Holybourne, Reino Unido em 1865. Romancista e Contista britânica durante a era vitoriana