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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: GUERRA NA UCRÂNIA: OLHARES NÃO HEGEMÔNICOS

 

GUERRA NA UCRÂNIA: OLHARES NÃO HEGEMÔNICOS

SVETLANA RUSEISHVILI (Organizadora)

EdUFSCAR – 1ª ED. 2023

255 páginas

Este livro, organizado por Svetlana Ruseishvili, reúne diferentes artigos que analisam a Guerra da Ucrânia a partir de perspectivas variadas e, em grande parte, críticas aos olhares hegemônicos predominantes.

O que mais me chamou a atenção foi o artigo de Madina Tlostanova, “Pós-Socialista ≠ Pós-Colonial? Sobre o imaginário pós-soviético e a colonialidade global”. Eu já havia estudado teorias decoloniais, mas nunca havia encontrado uma discussão que se referisse diretamente a situação dos países que fizeram parte da União Soviética após sua dissolução.

A questão é complexa, uma vez que esses países passaram por diferentes formas de dominação ao longo do tempo, incluindo impérios como o Austro-Húngaro e, posteriormente, a própria estrutura soviética. A experiência desses países não pode ser facilmente enquadrada nas categorias tradicionais do pensamento pós-colonial.  

Tlostanova questiona, assim, até que ponto a teoria decolonial pode ser aplicada neste contexto. No caso da Ucrânia, por exemplo, há uma sobreposição linguística e cultural entre o russo e o ucraniano, além da permanência de elementos da mentalidade soviética em diferentes setores da sociedade.  

O artigo de Tlostanova me levou a pesquisar mais sobre o Leste Europeu, principalmente sobre as pessoas que ficaram nos países, mas também os da diáspora.

O livro traz diferentes abordagens sobre a guerra na Ucrânia, e justamente por isso é interessante e faz exatamente o que se propõe, ou seja, olhares diferentes sobre a guerra.

Eu pessoalmente só não concordei com um dos artigos, escrito por um autor austríaco, que traz uma visão muito eurocêntrica sobre a questão. Ainda assim, considero válido ler o que ele escreve, justamente para contrastá-la com as demais e formar uma compreensão mais ampla do debate.  

Svetlana Ruseishvili é doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo, mestre em Ciências Sociais pela École des Hautes Études em Sciences. Sociales (Paris) e graduada em Sociologia pela Universidade de Moscou Lomonossov




LIVRO: FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ


 

FEMINISMOS FAVELADOS: UMA EXPERIÊNCIA NO COMPLEXO DA MARÉ

ANDREZA JORGE

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2023

248 páginas


Li Andreza Jorge quando estudava para escrever meu TCC sobre a Ética do Cuidado, procurando compreender o cuidado dentro da realidade brasileira. 

A autora escreve sobre as mulheres do Complexo da Maré, conjunto de favelas localizado na zona norte do Rio de Janeiro, e sobre o projeto de dança Mulheres ao Vento. Ao longo da obra, faz uma crítica a um feminismo que não inclui em suas pautas as vivências de mulheres faveladas.

Como meu interesse de leitura estava voltado para a ética do cuidado, o que mais me chamou a atenção foi a forma como essas mulheres se organizam para cuidar dos filhos e, ao mesmo tempo, trabalhar. Andreza Jorge descreve uma maternidade marcada pela vigilância constante. Os perigos são muitos, e as mães convivem diariamente com o medo, pois, em determinados momentos, nem mesmo deixar um filho na escola é seguro.

Ao mesmo tempo, a autora mostra a existência de redes de apoio fundamentais para a sobrevivência dessas famílias. As mulheres cuidam dos filhos umas das outras, tornando possível que possam trabalhar, principalmente como empregadas domésticas ou cuidadoras, as duas profissões mais comuns entre elas. Há uma responsabilidade coletiva, em que o cuidado deixa de ser uma tarefa exclusivamente individual.  

As mulheres que vivem nas favelas ainda enfrentam outras dificuldades, como o preconceito geográfico, o racismo institucional e a desigualdade no acesso ao saneamento básico e à segurança pública.  Em uma entrevista de emprego, por exemplo, dizer que mora em uma favela pode reduzir significativamente suas oportunidades. Da mesma forma, situações de violência, como tiroteios, frequentemente impedem que cheguem ao trabalho ou que enviem seus filhos à escola. Soma-se a isso o constante aliciamento de jovens pelo narcotráfico nas proximidades das escolas e das comunidades.   

O número de filhos mortos pela violência nas favelas é alarmante, e o sofrimento dessas mães muitas vezes permanece invisível para a sociedade. Nesse contexto, Andreza Jorge destaca a importância das formas coletivas de organização, dos feminismos comunitários e das redes de cuidado construídas pelas mulheres das favelas, diferenciando-as de perspectivas mais centradas na emancipação individual.

Segundo Jorge “o ato de cuidar do outro se afasta do lugar de passividade construído na mirada colonial e assume um papel central de manutenção da vida em expansão, da insistência e persistência do viver dessas mulheres e seus pares”. (pg. 186)

Para quem não conhece essa realidade, é difícil imaginar a vida dessas mulheres e como elas se organizam. A importância desse livro é tornar visível uma realidade frequentemente ignorada, mostrando que, mesmo em meio à violência, ao preconceito e às desigualdades, essas mulheres constroem coletivamente formas de resistência, cuidado e possibilidade de vida.  


Andreza Jorge atua há mais de quinze anos em projetos sociais voltados para os temas de gênero, relações étnico-raciais, diversidade e sexualidade no Complexo da Maré. 


quarta-feira, 27 de maio de 2026

MULHERES SENEGALESAS ENTRE TRADIÇÃO E MODERNIDADE



UMA CARTA TÃO LONGA

MARIAMA BÂ

JANDAÍRA – 1ª ED. – 2023

160 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – SENEGAL 


Uma Carta tão longa, da escritora senegalesa Mariama Bâ, acompanha Ramatoulaye logo após a morte de seu marido, momento em que escreve uma longa carta à sua melhor amiga de infância, Aïssatou. Ao longo desta carta, na qual rememora sua vida e a de sua amiga, a autora discorre sobre os vários problemas enfrentados pelas mulheres senegalesas, os costumes e tradições, a religião e a poligamia.  

Se por um lado vemos Ramatoulaye se construindo em meio a tudo o que lhe acontece, muitas vezes decidindo conforme tradições e aquilo que aprendeu desde a infância, Aïssatou já surge como uma mulher diferente, que enfrenta o sistema e toma decisões em prol de si mesma, sem se preocupar tanto com a honra familiar e tradições senegalesas.

Ambas passaram pelo mesmo drama: maridos com os quais conviveram durante anos, construindo uma vida em comum, tendo filhos e partilhando tudo, decidem tomar uma segunda esposa, ou a “coesposa”, como são chamadas. No caso de Aïssatou, o casamento do marido foi resultado da vingança da sogra, que nunca aceitou a união do único filho homem com uma mulher de casta inferior. Durante anos ela planejou sua vingança até conseguir obrigá-lo a se casar com sua prima.

Aïssatou não aceitou a situação: pediu o divórcio, partiu com os filhos, estudou e foi morar nos Estados Unidos, conquistando estabilidade financeira. Já o marido de Ramatoylaye encantou-se por uma amiga de sua filha e fez de tudo para conquistá-la. A jovem o chamava de velho, mas acabou aceitando o casamento por imposição da mãe. Após isso, ele abandonou a primeira família.

Os filhos de Ramatoylaye revoltaram-se  e queriam que a mãe seguisse o exemplo de Aïssatou, porém ela escolheu permanecer onde estava, mantendo-se como primeira-esposa. Com a morte do marido surgem novos pretendentes. O primeiro é o irmão mais velho dele, que deseja casar-se com ela como segunda esposa, o que ela não aceitou. O segundo é o homem que se apaixonara por ela na juventude e que era o predileto de sua mãe; novamente ela não aceitou.

 Desde que Madou se casou com uma adolescente, Ramatoulaye passou a viver em solidão, tendo que lutar para manter os filhos. Ao mesmo tempo, relembra casos de outras mulheres que entraram em depressão, algo que ela própria tenta evitar. A amiga é sempre um suporte emocional para ela e exemplo, ainda que Ramatoulaye não siga exatamente o mesmo caminho.  

 O livro discute a situação feminina no Senegal. Quantas mulheres que são postas de lado após o segundo casamento do marido. Mas não apenas, é uma sociedade absolutamente patriarcal e muçulmana na qual a mulher tem pouco valor e é sempre colocada em segundo plano. O debate sobre política que Ramatoylaye tem com seu antigo apaixonado, um médico e político, evidencia isso de maneira muito clara.

A definição que a autora faz da depressão é feita de forma sensível e precisa. Mariama Bâ também desenvolve uma bela reflexão sobre o amor e a amizade. Através de relatos íntimos a autora constrói uma crítica social, principalmente sobre a condição das mulheres senegalesas. 

 

Mariama Bâ nasceu em Dacar, Senegal, em 1929 e faleceu na mesma localidade em 1981. Foi uma pioneira escritora e feminista senegalesa


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O SAGRADO COMO ESPELHO DO BRASIL


 

APARECIDA

A biografia da santa que perdeu a cabeça, tornou-se negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil

RODRIGO ALVAREZ

RECORD – 1ª ED. – 2023

256 páginas


Em Aparecida, Rodrigo Alvarez constrói uma biografia que escapa ao tom devocional tradicional para narrar a história de Nossa Senhora Aparecida como fenômeno religioso, político, social e cultural. A santa não aparece apenas como objeto de fé, mas como personagem atravessada por disputas de poder, violência simbólica, racismo e projetos de nação.

O ponto de partida do livro é conhecido, mas ganha densidade narrativa: a pequena imagem de terracota encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, no século XVIII, quebrada, escurecida pelo tempo e pela água. A partir daí, Alvarez reconstrói como essa imagem frágil se transforma na padroeira do Brasil, acompanhando as metamorfoses simbólicas que a cercam.

Um dos aspectos mais instigantes da obra é a atenção dada ao corpo da santa. Uma imagem que perde a cabeça, é recomposta, escurece, é roubada, restaurada, coroada e politicamente disputada. O livro mostra como cada uma dessas etapas produz sentidos distintos: a santa negra, a santa do povo, a santa nacional, a santa apropriada por projetos de poder. Nada disso é neutro.

Alvarez articula a devoção popular com o contexto histórico brasileiro: escravidão, Império, República, ditadura e democracia. Aparecida atravessa esses períodos como símbolo maleável, capaz de acolher tanto a fé dos pobres quanto os interesses das elites políticas e eclesiásticas. Presidentes, militares e governantes tentam se aproximar da santa, buscando legitimação simbólica por meio dela.

O livro também evidencia a tensão constante entre religiosidade popular e Igreja institucional. A devoção a Aparecida nasce fora dos grandes centros de poder e resiste às tentativas de controle absoluto. Mesmo quando institucionalizada, ela carrega marcas de insubordinação: uma santa negra em um país racista, uma devoção popular em uma estrutura hierárquica masculina, uma fé que não se deixa reduzir à doutrina.

Outro mérito do livro está em tratar o roubo da imagem, e sua posterior restauração, não apenas como episódio policial, mas como acontecimento simbólico. A violência contra a santa revela o quanto ela se tornou objeto de disputa e projeção. Restaurar Aparecida não é apenas recompor um objeto quebrado, mas decidir qual imagem, qual narrativa e qual Brasil se deseja preservar.

Sem idealizar a religião, Alvarez mantém um olhar crítico e jornalístico. Ele não transforma a santa em mito intocável, mas tampouco desqualifica a fé. O livro reconhece a força da devoção como experiência coletiva, afetiva e política, especialmente em um país marcado por desigualdades profundas e exclusões históricas.

Aparecida é, assim, menos uma biografia religiosa e mais um retrato do Brasil visto a partir de sua santa mais emblemática. Ao acompanhar a trajetória de uma imagem pequena, frágil e negra, o livro revela como o sagrado, no Brasil, nunca esteve separado da política, da raça, do gênero e da disputa por sentido. Aparecida não apenas conquistou o Brasil, ela expõe suas contradições.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

QUANDO A ACUMULAÇÃO PASSA PELO CORPO DAS MULHERES


 

CALIBÃ E A BRUXA – MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO

SILVIA FEDERICI

ELEFANTE – 2ª ED. – 2023

480 páginas


Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici propõe uma releitura radical da origem do capitalismo. Em vez de partir apenas das transformações econômicas ou do surgimento da indústria, a autora retorna ao período feudal, às lutas camponesas contra os senhores e às formas coletivas de vida que foram sistematicamente destruídas para que o capitalismo pudesse nascer. Essa perspectiva já desmonta um mito persistente: o de um campesinato servil, passivo e resignado. Ao contrário, havia resistência, e as mulheres ocupavam um lugar central nela.

A análise atravessa a Peste Negra, que dizimou cerca de um terço da população europeia, e chega ao início da acumulação capitalista. A escassez de mão de obra, agravada pela peste, revela um ponto decisivo: as mulheres, diante da miséria, controlavam o número de filhos. Esse controle do próprio corpo entra em choque direto com as necessidades do capital nascente, que precisava urgentemente de trabalhadores.

Na primeira fase da industrialização, mulheres e crianças são exploradas brutalmente, submetidas a jornadas de até 14 horas diárias nas fábricas. Quando essa exploração passa a ser restringida, não se trata de um gesto humanitário, mas de uma reconfiguração estratégica: surge então a ideologia da mulher do lar, destinada a parir futuros trabalhadores e a cuidar gratuitamente daqueles que já produzem. O trabalho feminino, antes múltiplo e socialmente integrado — nas guildas, nos campos, nas práticas comunitárias — é progressivamente deslegitimado.

É também o período dos cercamentos: a expropriação das terras comuns, transformadas em propriedade privada. Ao perderem o acesso à terra, os camponeses perdem sua subsistência. Nem todos aceitam o destino fabril, e cresce o número de mendigos, errantes e marginalizados. As mulheres, sobretudo viúvas, idosas e aquelas sem marido, são as mais vulneráveis. Sem meios de sobrevivência, tornam-se alvos fáceis da repressão.

É nesse contexto que a figura da bruxa ganha centralidade. Não por acaso, sua caricatura é a da mulher velha. Para domesticar as mulheres e quebrar sua autonomia, o terror torna-se política. Embora a Inquisição já existisse na Idade Média, é na Idade Moderna que a caça às bruxas atinge seu auge, e são as mulheres suas principais vítimas. Curandeiras e parteiras competiam com médicos homens; mulheres detinham saberes sobre contracepção e cuidados com o corpo; e, sobretudo, resistiam à expropriação de suas vidas e de seu trabalho.

Queimar mulheres nas fogueiras não foi um delírio religioso isolado, mas uma estratégia de disciplinamento social. Era preciso instaurar o medo para que elas abandonassem a luta, aceitassem o confinamento doméstico, o trabalho não remunerado e a função reprodutiva como destino natural. A violência extrema produziu obediência e lucros.

Federici demonstra que o capitalismo não se construiu apenas sobre a exploração do trabalho assalariado, mas também sobre a desvalorização sistemática do trabalho doméstico feminino, apresentado até hoje como expressão da “natureza” da mulher. Ao transformar cuidado, maternidade e trabalho do lar em obrigações invisíveis e gratuitas, o sistema garante sua própria reprodução.

Calibã e a Bruxa é um livro fundamental porque revela aquilo que a história oficial tentou apagar: o capitalismo nasceu da violência contra os corpos femininos, da destruição das formas comunitárias de vida e da separação radical entre produção e reprodução. Ler Federici é compreender que nada disso pertence apenas ao passado, e que o que hoje se chama “natural” é, na verdade, o resultado de uma longa história de terror, expropriação e silenciamento.

No entanto, faço uma crítica: o estudo concentra-se na Europa no mesmo período da escravização, o que não é abordado. Outro ponto é que a idealização da maternidade e do confinamento da mulher ao lar é exclusivo de mulheres da burguesia; as pobres continuaram a trabalhar nas fábricas.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A GUERRA VISTA A PARTIR DAS MULHERES


 

GRITOS DA GUERRA: O CONFLITO RÚSSIA – UCRÂNIA NA VOZ DAS MULHERES QUE SOFREM

GUSTAVO GUMIERO

REFERÊNCIA – 1ª ED. – 2023

176 págs.

AUDIOBOOK

Ouvi este audiobook sobre a guerra na Ucrânia a partir da experiência das mulheres. São três depoimentos de mulheres cujas vidas foram profundamente alteradas pelo conflito: algumas tiveram de deixar o país, outras não conseguem retornar, e há aquelas que permanecem enfrentando diretamente a guerra. Como em todos os conflitos armados, mulheres, crianças e idosos aparecem como os grupos mais afetados.

Além dos relatos, o autor apresenta um panorama histórico da Ucrânia, oferecendo elementos para compreender a complexidade do conflito. E essa complexidade é central. Se nos guiarmos exclusivamente pelas informações da mídia ocidental, teremos uma compreensão parcial e limitada da guerra.

O conflito é frequentemente descrito como uma guerra por procuração, isto é, um embate indireto entre grandes potências, sobretudo Estados Unidos e Rússia, travado em território ucraniano. A partir dessa leitura, o autor interpreta as recentes tentativas de negociação, como os diálogos entre Donald Trump e Vladimir Putin, como um reconhecimento tardio de que o conflito poderia ter sido tratado diplomaticamente antes de sua escalada.

A própria Ucrânia é apresentada como um país internamente diverso e marcado por tensões identitárias. Há ucranianos fortemente ocidentalizados, que se veem como europeus, embora nem sempre sejam plenamente reconhecidos como tal pela Europa Ocidental, onde persistem hierarquias implícitas entre povos. Essa ambiguidade se reflete, por exemplo, nas políticas de acolhimento: enquanto mulheres ucranianas brancas encontraram maior abertura, pessoas negras foram barradas, revelando o racismo estrutural também presente nas crises humanitárias.

O livro lembra ainda que a Ucrânia abriga múltiplas identidades: ucranianos russófonos, comunidades gregas e populações judaicas, o que desmonta qualquer leitura simplista do país como um bloco homogêneo.

Gritos da guerra não pretende encerrar o debate, mas abrir escutas. Ao colocar as mulheres no centro da narrativa, o audiobook desloca o foco da geopolítica abstrata para a experiência concreta da perda, do deslocamento e da sobrevivência, lembrando que, por trás de qualquer guerra, há vidas cotidianas profundamente afetadas.

Gustavo Gumiero é um sociólogo brasileiro. 




domingo, 15 de fevereiro de 2026

O DIVINO FEMININO NAS MITOLOGIAS DO MUNDO

 

DEUSAS: OS MISTÉRIOS DO DIVINO FEMININO

JOSEPH CAMPBELL

EDITADA POR SAFRON ROSSI

PALAS ATHENA – 1ª ED. – 2023

352 páginas

Deusas: Os Mistérios do Divino Feminino, de Joseph Campbell, explora a presença e o significado das deusas nas diversas culturas ao longo da história, destacando seu papel central nas tradições religiosas, mitológicas e espirituais. O livro analisa como o divino feminino foi representado, celebrado e, em muitos casos, reprimido ao longo do tempo, oferecendo uma perspectiva sobre o poder simbólico e social das figuras femininas sagradas.

Campbell investiga mitologias de diferentes partes do mundo, revelando padrões recorrentes e arquétipos femininos que refletem sabedoria, criatividade, força e transformação. O autor discute como a perda de reverência ao divino feminino, com a ascensão do patriarcado, impactou a cultura, a moral e as relações sociais, e sugere que recuperar o entendimento dessas forças pode enriquecer a vida pessoal e coletiva.

O livro convida o leitor a refletir sobre a relação entre mito, espiritualidade e gênero, mostrando que as deusas não são apenas figuras históricas ou religiosas, mas arquétipos vivos que inspiram identidade, poder e autonomia feminina. Campbell combina erudição, sensibilidade e insight mitológico, oferecendo uma obra acessível e profunda sobre a dimensão simbólica e cultural do feminino sagrado.


Joseph Campbell nasceu em White Plains, Nova Iorque, EUA, em 1904 e faleceu em 1987. Foi um mitólogo, conferencista, escritor e professor. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

AFETOS, CRENÇAS E A TRANSFORMAÇÃO DO ELEITORADO BRASILEIRO

 


BIOGRAFIA DO ABISMO

FELIPE NUNESTHOMAS TRAUMANN

HARPERCOLLINS BRASIL – 1ª ED. 2023

240 páginas 

Felipe Nunes e Thomas Traumann fazem uma análise aprofundada do que ocorreu com o eleitorado brasileiro a partir de 2013 e de como se deu a mudança nos critérios que passaram a orientar o voto. Ao examinarem diversas eleições, identificam tanto os padrões anteriores quanto as transformações ocorridas e também aquilo que, apesar de tudo, permaneceu.

O ponto central do livro é a mudança de uma escolha eleitoral que antes se orientava majoritariamente por questões públicas — como saúde, segurança, educação e, sobretudo, economia — para uma lógica mais privada, marcada por valores morais e crenças pessoais. O voto deixa de ser predominantemente racional e passa a ser afetivo, movido por paixões.

Mas o que levou a essa transformação? É isso que os autores buscam compreender ao longo do livro. Por que uma parcela significativa dos brasileiros se deslocou para a direita, muitas vezes de forma radical, a ponto de apoiar soluções autoritárias e se posicionar contra a democracia?

Os pesquisadores analisam como a intolerância se intensificou a tal ponto que o adversário político — com quem ainda seria possível dialogar — passa a ser visto como inimigo a ser eliminado. Esse clima se infiltra nas relações familiares, nas escolhas cotidianas após as eleições, nas decisões de consumo, na preferência por marcas, lojas e fabricantes. Chega também às escolas, onde o debate deixa de ser sobre formação e passa a girar em torno do controle ideológico do que os professores ensinam, classificados como progressistas ou conservadores. O resultado é o aumento da violência simbólica e concreta, do ódio e da polarização extrema.

Ao final, os autores tentam apontar caminhos possíveis para enfrentar esse cenário, mas sem qualquer otimismo ingênuo: deixam claro que não se trata de algo que será resolvido rapidamente. O percurso é longo e complexo.

Li este livro buscando compreender melhor o Brasil atual, marcado por uma divisão profunda de ideias e posições, pela exacerbação dos preconceitos e do racismo. Trata-se de uma obra inteiramente baseada em pesquisas, sem tomar partido ideológico, que se propõe a refletir com honestidade o cenário encontrado.


Felipe Nunes é Ph.D. em Ciências Políticas

Thomas Traumann nasceu em Rolândia – PR em 1967. É um jornalista, consultor e pesquisador.





UMA LEITURA NECESSÁRIA SOBRE AS ORIGENS DO MUNDO OCIDENTAL


 

SPQR: UMA HISTÓRIA DA ROMA ANTIGA

MARY BEARD

CRÍTICA – 3ª ED. - 2023

560 páginas 

Sempre que encontro um livro de história escrito por uma mulher — seja historiadora, arqueóloga ou pesquisadora — faço questão de escolhê-lo. Há nisso um gesto consciente: ler mulheres é também uma forma de enfrentar a longa tradição de apagamento feminino na produção do conhecimento. SPQR é um desses casos. Escrito por Mary Beard, uma das maiores estudiosas da Roma Antiga e de Pompeia, o livro se mostra uma leitura sólida, instigante e esclarecedora.

Esta obra dedicada a Roma foi particularmente interessante pela forma como Beard constrói sua narrativa. Ela parte da fundação da cidade, passando pelas lendas e mitos que cercam essa origem, sem tratá-los como meras curiosidades, mas como elementos constitutivos da identidade romana.

Um dos recursos centrais do livro é o uso dos discursos e cartas de Cícero, que permitem à autora se aproximar da maneira como os próprios romanos pensavam a si mesmos. Roma não aparece apenas como um império monumental visto de fora, mas como uma sociedade atravessada por conflitos, disputas políticas, contradições internas e estratégias de poder.

Ao longo da leitura, Beard nos ajuda a reconhecer o quanto do mundo romano permanece entre nós. Elementos da política, da linguagem, do direito e até de certos gestos institucionais contemporâneos encontram ali suas raízes. O livro também cumpre um papel importante ao desmistificar ideias cristalizadas sobre Roma, desmontando imagens simplificadas ou glorificadas demais do período.

É verdade que há muito pouco espaço dedicado às mulheres, um limite que não pode ser ignorado, ainda que em parte reflita a própria escassez de fontes produzidas por elas. Ainda assim, considero a leitura fundamental para compreender a cultura romana, seu pensamento, suas estruturas de poder e o funcionamento do antigo Império.

SPQR não é apenas uma história de Roma: é um convite a olhar criticamente para as origens de muitas das instituições que ainda organizam o mundo ocidental. Ler Roma com Mary Beard é, ao mesmo tempo, compreender o passado e interrogar o presente.


Mary Beard nasceu em Much Wenlock, Reino Unido, em 1955. É uma classicista 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

NOVAS LEITURAS PARA UM PERÍODO MAL COMPREENDIDO

 

HISTÓRIA DA IDADE MÉDIA: Mil anos de esplendores e misérias.

GEORGES MINOIS

EDITORA UNESP – 1ª ED. - 2023

578 páginas 

Depois do ensino médio e de algumas leituras marcantes — como o magistral O Nome da Rosa, de Umberto Eco — percebi que, para escrever a história das mulheres na Idade Média, seria necessário retomar o estudo desse período. Inclusive porque, a cada ano, novas descobertas são feitas: arquivos são abertos, documentos são finalmente liberados para consulta ou simplesmente encontrados. Paralelamente, a historiografia também se transforma. Hoje, ela já não é tão rígida e passa a considerar outras fontes, como biografias, memórias, cartas, diários, obras de arte e até mesmo a literatura da época.

Com isso, muitos historiadores passaram a incluir em seus estudos aqueles que antes eram tratados como “os outros”: mulheres, camponeses, pobres e também regiões fora do eixo estritamente europeu. Esse deslocamento do olhar altera profundamente a maneira como compreendemos a Idade Média.

O livro de Georges Minois tem o mérito de apresentar mil anos de história de forma sintetizada, sem perder a complexidade do período. Além disso, inclui o Oriente e sua influência sobre a Europa — e vice-versa — rompendo com a visão eurocêntrica que marcou por muito tempo o ensino da Idade Média. Não se trata mais da Idade Média exclusivamente europeia que aprendi na escola.

Outro ponto fundamental é que a narrativa histórica aqui não se limita a fatos, heróis ou vencedores. Minois se detém na mentalidade da época, explora a tensão entre fé e razão e examina as crises que atravessaram esse longo período. Epidemias, secas severas e fome aparecem como elementos estruturantes da vida medieval, e não como simples episódios marginais.

Essas informações foram particularmente importantes para complementar a leitura de Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici, sobretudo em aspectos que não são abordados por ela. O livro também inclui, ainda que de forma pontual, a presença de mulheres em seu relato — algo que até pouco tempo atrás era difícil de encontrar em obras de síntese sobre a Idade Média. Nesse sentido, a obra se mostra uma ferramenta valiosa tanto para estudos históricos quanto para reflexões críticas sobre gênero, poder e sociedade.


Georges Minois nasceu em Athis-Mons, França, em 1946. É um historiador francês. 


MATRIARCADO, MATRILINEARIDADE E A CRÍTICA AO EVOLUCIONISMO OCIDENTAL


 

A UNIDADE CULTURAL DA ÁFRICA NEGRA

Esferas do patriarcado e do matriarcado na Antiguidade Clássica

CHEIKH ANTA DIOP

EDITORA ANANSE – 2023.

238 páginas 


Cheikh Anta Diop foi um antropólogo e historiador senegalês. Cheguei a este livro a partir de meus estudos sobre as mulheres do Império Cuxe, buscando compreender as noções de matriarcado, matrilinearidade e matrifocalidade no continente africano.

Antes de tudo, é fundamental esclarecer que o conceito de matriarcado, tal como trabalhado por Diop, não corresponde à ideia ocidental de um sistema simplesmente inverso ao patriarcado, no qual haveria o domínio feminino e a subjugação do masculino. Diop demonstra a existência de dois polos culturais — dois reinos, um setentrional e outro meridional, norte e sul — sendo um de estrutura patriarcal e o outro de estrutura matriarcal. Nesse esquema, a África se insere majoritariamente no polo matriarcal.

O autor realiza uma análise crítica dos conceitos de matriarcado em Bachofen, Lewis Morgan e Engels. Os dois primeiros, segundo Diop, tratam o matriarcado como uma fase primitiva da humanidade, destinada a ser superada pelo patriarcado, visto como estágio civilizatório superior. Trata-se de uma visão claramente evolucionista. Engels, por sua vez, apropria-se dessas ideias para sustentar a possibilidade de que a família burguesa também possa evoluir para uma forma diferente e mais justa.

Diop rompe com essa leitura ao defender o matriarcado africano não como um estágio arcaico, mas como uma forma de organização social superior ao patriarcado, este último associado historicamente à guerra, à violência e às conquistas territoriais.

Com esse estudo, Diop se contrapõe frontalmente às concepções ocidentais que se pretendem universais e civilizatórias, mas que historicamente classificaram a África como inferior e selvagem. Ao contrário, ele demonstra o alto grau de civilização das sociedades africanas e aponta para um modelo social mais humano, relacional e sustentável. O autor apresenta ainda sua hipótese para explicar por que o norte se organizou de forma patriarcal e o sul de forma matriarcal, aprofundando uma leitura estrutural e histórica dessas diferenças.


Cheikh Anta Diop nasceu em Tiahitou, Senegal, em 1923 e faleceu em Dacar, Senegal, em 1986. Foi um historiador, antropólogo, físico e político senegalês. 


A HISTÓRIA PERSA CONTADA PARA ALÉM DO OLHAR GREGO

 

OS PERSAS: A ERA DOS GRANDES REIS

LLOYD LLEWELLYN-JONES

CRÍTICA – 1ª ED. - 2023

512 páginas

Todos nós aprendemos algo sobre os persas na escola. No entanto, até pouco tempo atrás, o que se tinha como referência eram, quase exclusivamente, as narrativas deixadas pelos gregos, justamente seus inimigos. Essa perspectiva unilateral moldou por séculos a imagem dos persas como bárbaros, despóticos e inferiores à civilização grega.

Lloyd Llewellyn-Jones, professor de história antiga e estudioso do Irã Antigo, propõe um deslocamento fundamental. Nesta obra, ele apresenta o Império Persa a partir das fontes originais persas, oferecendo uma história contada, finalmente, “do outro lado”. O resultado é um livro envolvente, acessível e extremamente informativo.

O autor concentra-se na dinastia aquemênida — Ciro, o Grande, Dario, Xerxes e seus sucessores — e encerra o volume com um capítulo dedicado ao Irã contemporâneo, estabelecendo pontes entre passado e presente. Para mim, um dos aspectos mais valiosos do livro é a atenção dada às mulheres, tema sobre o qual há uma carência notável de informações quando se trata da história persa.

Ao longo da leitura, torna-se evidente o quanto a história desse povo foi distorcida e o quanto suas contribuições foram fundamentais, inclusive para a formação do Ocidente. Um dos episódios mais impressionantes é o relato de mulheres que, diante da iminente derrota de Ciro em uma guerra, o confrontam e o acusam de covardia. Provocado por essas mulheres, Ciro retorna ao combate, vence a batalha e, segundo a tradição, jamais deixou de reconhecê-las por esse gesto.

Os persas: a era dos grandes reis não apenas corrige equívocos históricos, como também restitui complexidade a uma civilização que foi sistematicamente narrada pelos olhos de seus adversários. É uma leitura fundamental para quem deseja compreender o mundo antigo para além das versões consagradas e ouvir, finalmente, as vozes silenciadas da história.


Lloyd Llewellyn-Jones nasceu em Cefn Cribwr, País de Gales. É um professor de História Antiga. 


PROSPERIDADE, COLAPSO E AS LIÇÕES INCÔMODAS DA ANTIGUIDADE


 

1177: O ANO EM QUE A CIVILIZAÇÃO ENTROU EM COLAPSO

ERIC H. CLINE

AVIS RARA – 1ª ED. - 2023

224 páginas 


Ao estudar a Antiguidade, comecei a me perguntar como foi possível que civilizações inteiras — como a Mesopotâmia, a Assíria ou o Egito dos faraós — simplesmente desaparecessem. Não falo apenas de derrotas militares, conquistas ou mudanças de poder, mas do desaparecimento literal de grandes cidades, que deixam de existir e de ocupar qualquer lugar na história.

Este livro tenta responder a essa pergunta. Ainda hoje, arqueólogos e historiadores não conseguem afirmar com total certeza o que ocorreu no final da Idade do Bronze, mas há vestígios suficientes para levantar hipóteses bastante plausíveis. Eric H. Cline apresenta essas hipóteses com rigor e clareza, conduzindo o leitor por um período marcado tanto pela prosperidade quanto pela fragilidade.

Mais do que explicar um colapso, o autor reconstrói todo o panorama do final da Idade do Bronze e demonstra o quanto aquelas civilizações, cidades e povos estavam profundamente conectados entre si. Havia intensas redes de comércio, trocas diplomáticas e circulação de bens, ideias e tecnologias. A tese central de Cline é provocadora: muito antes da era contemporânea, já existia algo que podemos chamar, sem exagero, de globalização.

Foi um período de grande desenvolvimento, riqueza e interdependência — e justamente por isso vulnerável. Por volta de 1177 A.E.C., esse mundo entrou em colapso. O que aconteceu? É essa pergunta que atravessa o livro.

Ao final, 1177 deixa também um alerta inquietante para o presente. Ao mostrar que a extrema interdependência entre aqueles povos contribuiu para o colapso sistêmico, o autor sugere paralelos incômodos com o mundo atual. O fim da Idade do Bronze abriu caminho para uma nova era — a da Grécia Clássica —, mas não sem perdas profundas. A leitura convida a refletir sobre até que ponto sociedades altamente conectadas são também estruturalmente frágeis.


             Eric H. Cline nasceu em Washington D.C., EUA, em 1960. É historiador, arqueólogo e escritor


sábado, 7 de fevereiro de 2026

DESCOLONIZAÇÃO, GÊNERO E PODER EM UM PAÍS MARCADO PELA VIOLÊNCIA

 


PRETA E MULHER

TSITSI DANGAREMBGA

KAPULANA – 1ª ED. 2023

112 páginas 

É um livro pequeno — apenas 112 páginas —, mas de uma densidade impressionante. Em Preta e mulher, Tsitsi Dangarembga reúne três textos nos quais escreve sobre sua infância, sobre ser feminista no Zimbábue contemporâneo e sobre os processos de independência e descolonização do país.

O relato da infância é dilacerante — e essa palavra não é gratuita, é a forma como a própria autora se nomeia: dilacerada. Seus pais são enviados pelos colonizadores para estudar em Londres, e ela e o irmão mais velho são separados deles e encaminhados para lares adotivos da classe operária inglesa. No momento da entrega, as crianças são deixadas em uma “sala dos sonhos”, repleta de brinquedos que nunca haviam visto ou possuído. Quando retornam para buscá-las, Tsitsi está ansiosa para contar à mãe sobre os brinquedos, mas eles já não estão ali. Foram embora. A ausência se impõe com violência. A angústia se instala como experiência fundadora.

No texto sobre o feminismo no Zimbábue, Dangarembga expõe um cenário de profunda opressão. Lutar pelos direitos das mulheres é difícil em uma sociedade em que a misoginia é naturalizada e atravessa todas as classes sociais — nem mesmo as mulheres da elite escapam. Como escreve a autora:

“Ser feminista enquanto preta e mulher no Zimbábue é viver no epicentro do racismo estrutural e de um patriarcado estrutural militarizado brutal que cooptou partes significativas das instituições estatais”.

E ainda: “As mulheres passam por traumas baseados em gênero e sexo todos os dias.”

Há também uma reflexão importante sobre o patriarcado tradicional anterior à colonização, no qual as mulheres detinham formas reais de poder e reconhecimento — uma organização que foi profundamente desestruturada com a imposição colonial. Ao tratar da independência e da descolonização, Dangarembga oferece um panorama crítico de como esse processo se deu no Zimbábue e quais foram seus resultados concretos, longe das narrativas idealizadas.

Preta e mulher é um livro de escrita direta, dura e necessária. Um testemunho que articula corpo, memória, colonialismo e feminismo, e que nos obriga a encarar as continuidades da violência colonial no presente.



Tsitsi Dangarembga nasceu em Mutoko, Rodésia do Sul. É uma romancista, dramaturga e cineasta zimbabauana.