Mostrando postagens com marcador Appris. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Appris. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

MIGRAÇÃO E TRABALHO DOMÉSTICO

 


MULHER NORDESTINA EM SÃO PAULO

Identidade – Metamorfose – Emancipação

PAULA COATTI FERREIRA

APPRIS – 1ª ED. – 2022

160 páginas

Mulher nordestina em São Paulo, de Paula Coatti Ferreira, constrói um retrato sensível e ao mesmo tempo rigoroso da trajetória de uma mulher nordestina desde a infância e o início da vida adulta no Nordeste até sua migração para o Sudeste, onde trabalhará como empregada doméstica durante toda a vida, vindo a se aposentar no Guarujá, em São Paulo. A narrativa acompanha não apenas o deslocamento geográfico, mas sobretudo o processo subjetivo e social dessa mulher, marcado por rupturas, adaptações e resistências cotidianas.

O caminho de sua emancipação e de conquista de autonomia é longo e não se dá por grandes viradas, mas por pequenas etapas acumuladas ao longo do tempo. O estudo aparece como elemento central desse processo, funcionando como instrumento de ampliação de horizontes, fortalecimento da autoestima e possibilidade concreta de transformação. No entanto, o livro não romantiza esse percurso: a emancipação é apresentada como algo lento, frágil e constantemente tensionado pelas condições materiais da vida.

Ao mesmo tempo, a obra é um retrato contundente da experiência de mulheres nordestinas que migram para o Sudeste em busca de trabalho. Preconceito, racismo, pobreza e desigualdades estruturais atravessam essa trajetória, revelando como gênero, classe e origem regional se entrelaçam para produzir formas específicas de exclusão. Mulher nordestina em São Paulo dá visibilidade a vidas frequentemente invisibilizadas, convidando o leitor a reconhecer a complexidade dessas histórias e a força silenciosa que sustenta sua sobrevivência e transformação.


Paula Coatti Ferreira é doutora em psicologia e mestre em Teologia. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

CORPOS FEMININOS, TERRA E RESISTÊNCIA COLETIVA

 

APRENDIZADOS DA LUTA

Mulheres camponesas do Brasil e indígenas do México.

ISAURA ISABEL CONTE

APPRIS – 1ª ED. - 2018

287 páginas

Aprendizados da Luta é fruto de uma pesquisa de doutorado, mas está longe de ser um livro distante ou hermético. Pelo contrário: ele nos conduz diretamente ao chão da luta camponesa no sul do Brasil e das mulheres indígenas no México, aproximando contextos distintos e, ao mesmo tempo, revelando diferenças fundamentais. No centro da análise estão as mulheres — aquelas que historicamente sustentam a vida, mas raramente têm seu trabalho reconhecido como tal.

Isaura Isabel Conte mostra como são essas mulheres que assumem a linha de frente na defesa da terra, do trabalho cotidiano, sempre desqualificado como “ajuda”, e da sobrevivência de suas famílias. O principal adversário é o agronegócio, essa engrenagem que tudo engole e nada devolve em termos de justiça social ou alimentar.

Foi lendo este livro que passei a compreender de forma mais clara como o agronegócio funciona de fato: não para alimentar pessoas, mas para produzir commodities. Quando produz alimentos, o faz à base de agrotóxicos, visando quantidade e lucro, não qualidade ou saúde. O agronegócio aparece aqui como a atualização do velho latifúndio, da monocultura, da lógica da Casa-Grande & Senzala. Mudam os discursos, permanecem as estruturas. Os explorados de hoje são camponeses e povos indígenas.

A autora analisa também a tentativa sistemática de monopolização das sementes: sementes modificadas, transgênicas, que visam eliminar as sementes crioulas e aprisionar o pequeno agricultor a um sistema de dependência permanente. Mesmo aqueles que se associam ao agronegócio tornam-se reféns de uma lógica que só reconhece o lucro. O resultado é perverso: enquanto o agronegócio recebe incentivos e recursos abundantes, a agricultura familiar e agroecológica permanece abandonada. Seus produtos tornam-se mais caros, acessíveis sobretudo às classes mais altas, enquanto os mais pobres consomem alimentos contaminados por agrotóxicos.

Quando penso que o Brasil voltou a viver o que se chama, eufemisticamente, de “insegurança alimentar” até 2025, e que para mim tem nome claro: fome, o foco do agronegócio torna-se ainda mais evidente. Produz-se muito, exporta-se muito, mas não se alimenta o próprio povo.

Um dos pontos mais potentes do livro é a atenção dada à educação e à formação de grupos de mulheres. Esses espaços coletivos permitem que elas aprendam a falar, a ocupar a palavra, a perder a inibição e a desconstruir a ideia profundamente enraizada de que não podem — ou não devem — se manifestar. O machismo é forte e atravessa essas comunidades, mas também é enfrentado coletivamente, na luta por reconhecimento e respeito aos direitos das mulheres.

A produção feminina, majoritariamente agroecológica, segue sendo invisibilizada e desqualificada como “não produtiva”. No entanto, é justamente esse tipo de produção que responde pela maior parte dos alimentos que chegam à mesa. Essa contradição atravessa todo o livro e expõe a falácia do discurso hegemônico sobre produtividade.

Aprendizados da Luta valeu a leitura e mais do que isso: ensinou muito. É um livro que nos obriga a repensar o que entendemos por desenvolvimento, trabalho, alimento e justiça. E, sobretudo, a reconhecer que são as mulheres, mais uma vez, que sustentam a vida onde o sistema insiste em produzir morte.

Isaura Isabel Conte é doutora em educação.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A MATERNIDADE NEGRA SOB O RACISMO ESTRUTURAL

 

MATERNIDADE TEM COR?

Narrativas de mulheres negras sobre maternidade

LUARA PAULA VIEIRA BAIA

APPRIS – 1ª ED. - 2021

173 páginas

Maternidade tem cor? apresenta a pesquisa de Luara Paula Vieira Baia sobre a experiência da maternidade vivida por mulheres negras. É um livro necessário e cuja leitura recomendo fortemente.

Em uma sociedade que ainda sacraliza a maternidade, como se ela fosse a realização máxima de toda mulher, pouco se fala sobre os percalços, ambivalências e sofrimentos que ela pode trazer. Questionar essa idealização já é, muitas vezes, visto como heresia. No entanto, quando o foco recai sobre a maternidade das mulheres negras, a questão se torna ainda mais profunda, séria e dolorosa.

Mesmo diante do amor intenso por seus filhos e filhas, essas mulheres vivem a maternidade sob a constante tensão de criar crianças negras em uma sociedade estruturalmente racista. Há muito pouco escrito sobre a maternidade das mulheres negras; o que prevalece é a ideia de uma maternidade universal, como se todas as mulheres maternas vivessem a mesma experiência.

Mas o que significa ser mãe quando se é uma mulher negra? Durante o período da escravização, essas mulheres pariram filhos que eram tratados como propriedade, destinados a ampliar a mão de obra escravizada. Seus filhos eram frequentemente arrancados de seus braços. Elas não eram reconhecidas como mães, mas reduzidas a corpos reprodutores, a “fêmeas” que produziam trabalhadores.

E hoje? O que significa ser mãe quando se sabe que seu filho é um alvo vivo da violência policial? As estatísticas sobre a morte de jovens negros confirmam esse medo cotidiano. Ou quando uma filha precisa ser constantemente fortalecida em sua autoestima para sobreviver ao racismo e à discriminação? Essas mães desenvolvem estratégias de proteção, são pragmáticas na defesa de seus filhos e no ensino de como sobreviver em uma sociedade hostil. São preocupações que mães brancas, em geral, não enfrentam, somadas, ainda, às angústias comuns a toda maternidade.

O livro mostra que essa realidade não se restringe às periferias, favelas ou comunidades, onde a violência é ainda mais explícita. Trata-se também de mulheres negras de classe média, com nível superior e relativa estabilidade financeira. Como mulher branca e mãe, não posso imaginar plenamente o que significa ser uma mãe negra. Mas posso, sim, escutar, sentir e reconhecer a dor, o medo e a permanência de uma condição social que insiste em negar a essas mulheres o direito pleno de serem mães.

Nas narrativas que a autora reúne, emerge a percepção de uma maternidade constantemente ameaçada, vigiada e interrompida. Ainda que haja alegrias, vínculos profundos de amor e a maternidade se constitua como um ato de resistência, o livro não romantiza essa experiência. Algumas mães, inclusive, negam a existência do racismo — talvez como estratégia de sobrevivência.

Trata-se de uma obra impactante, que desestabiliza certezas, rompe com a noção de maternidade universal e nos obriga a pensar sobre raça, gênero, cuidado e violência estrutural no Brasil.


Luara Paula Vieira Baia possui licenciatura e bacharelado em Ciências Sociais