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terça-feira, 16 de junho de 2026

LIVRO: DETALHE MENOR


 

DETALHE MENOR

ADANIA SHIBLI

TODAVIA – 1ª ED. – 2021

112 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PALESTINA 


1949, um ano após a Nakba, um batalhão do exército de Israel monta acampamento no deserto de Neguev, próximo à fronteira com o Egito. Sua missão: encontrar árabes que ainda permaneciam na região.

Logo na primeira noite, o comandante é mordido por uma aranha, mas ele apenas trata a picada e continua suas rondas em busca dos árabes até que encontra um acampamento de beduínos. Os soldados matam todos, inclusive os camelos, mas uma menina e um cachorro sobrevivem e são levados para o acampamento, onde a menina é trancafiada em uma cabana. O comandante ordena que ninguém toque nela.

No entanto, o que se sucede é o contrário. A menina é estuprada e depois morta com sete tiros, sendo enterrada no deserto. O cachorro sobrevive e, depois de quase ser morto pelo comandante, foge uivando.

Esta é a primeira parte do livro, que é curto, mas extremamente impactante, doloroso e dilacerante. A escrita da autora é seca e repetitiva. Um bando de homens, soldados de Israel, que agem de modo automático. O comandante é retratado repetindo os mesmos movimentos dia após dia.

Fico com uma impressão de que o cachorro tem um papel fundamental na escrita da autora. O cão é simbólico; ele demonstra mais “humanidade” do que os soldados na narrativa. Além disso, por não ter sido morto, parece possuir um valor maior que a menina, uma vez que nenhum dos dois representava perigo imediato aos soldados ou ao comandante.

 O cachorro é um detalhe nesta parte da história, mas que a meu ver, representa muito mais do que o restante. Tanto é que a segunda parte, que se passa 25 anos depois, inicia com um cachorro uivando ao longe.

Uma palestina que vive na Palestina Ocupada, em Ramallah, lê um artigo em um jornal sobre o que aconteceu, e um “detalhe menor” chama sua atenção: a menina foi morta no dia de seu nascimento, 13 de agosto.

A notícia tece em volta dela, como uma aranha, uma teia que a prende e a faz desejar saber mais sobre o que aconteceu. Essa jovem traz em si mesma os efeitos traumáticos da ocupação: o medo, o estresse e a desorientação. Ao  mesmo tempo, porém, ela procura não se entregar e enfrentar todas as barreiras, sejam as psicológicas, sejam as reais, que precisa atravessar para passar de uma zona a outra controlada pelos israelenses e chegar ao local onde ocorreu o assassinato da menina beduína.

Ela persiste em sua busca. Deseja descobrir o outro lado da história, não apenas a narrada pelos soldados. No caminho, enquanto aguardava na fila para passar pela primeira barreira, uma menina que vende chicletes insiste muito para que ela compre. Ela não quer, mas acaba lhe dando dinheiro. A menina então joga duas caixas de chiclete no banco do carro e vai embora. Um pequeno detalhe. Um detalhe menor que irá definir o destino da jovem palestina em sua busca.

Adania Shibli constrói a narrativa de Detalhe Menor com uma escrita econômica, quase austera, mas de uma potência impressionante. Não há excesso, não há sentimentalismo, mas há uma violência que atravessa todas as páginas. Ao final, nos perguntamos quem tem o direito de ser lembrado e quem pode ser transformado em um simples detalhe menor.

O que me impressionou no romance não é apenas o que ele conta, mas como ele conta. A repetição obsessiva dos gestos do comandante, a ausência quase total de psicologização das personagens na primeira parte, a maneira como o espaço do deserto parece absorver tudo: a água, o sangue. A estrutura em espelho das duas partes, a recorrência da aranha, do cachorro, dos sons.

A autora não explica o horror; ela o faz operar na própria forma do texto. Quanto menos ela comenta, mais sentimos. O horror está na normalidade dos procedimentos. São os detalhes, elementos aparentemente insignificantes que estruturam toda a narrativa.

Um exemplo é o camelo morto com capim na boca. O animal estava simplesmente comendo. A vida cotidiana é interrompida de forma abrupta e absurda. Através dessa imagem a autora comunica mais do que muitas páginas de descrição sangrenta.

O mesmo ocorre com o estupro da menina. Sabemos o que aconteceu, mas Shibli não transforma a menina em espetáculo, não vamos consumir a cena. Isso é muito diferente de outras literaturas sobre violência, onde se transforma o sofrimento em objeto de observação.

Da mesma forma a reação automática dos soldados. O comandante que vivia repetindo gestos mecânicos, os soldados que obedeciam mecanicamente, a violência incorporada na rotina. No final, décadas depois, a resposta continua automática. Não há reflexão, não há reconhecimento da pessoa diante deles. Há apenas o reflexo condicionado de uma máquina que continua funcionando.


Adania Shibli nasceu na Palestina em 1974. É uma escritora palestina que deveria ter recebido o prêmio alemão Litprom na feira de Frankfurt, no entanto a premiação foi cancelada quando o diretor da premiação associou o evento ao “terror bárbaro do Hamas contra Israel”, conforme reportagem que consta no Le Diplomatique, o que gerou forte reação de escritores, editoras e organizações literárias que viram na decisão uma forma de silenciamento de uma voz palestina.

O livro Detalhe Menor, escrito originalmente em árabe, foi traduzido para mais de onze idiomas. Shibli domina vários idiomas, mas escrever em árabe, sua língua materna, também é uma forma de resistência. 




domingo, 22 de fevereiro de 2026

O QUE É LIBERDADE? ENTRE SOCIALISMO, DEMOCRACIA E CAPITALISMO

 

LIVRE: VIRANDO ADULTA NO FIM DA HISTÓRIA

LEA YPI

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

304 páginas


PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ALBÂNIA 

Em Livre: Virando Adulta no Fim da História, Lea Ypi constrói uma autobiografia profundamente atravessada pela história política da Albânia, acompanhando sua infância sob o regime socialista, a queda desse sistema, a guerra civil que se seguiu e, por fim, sua partida definitiva do país. Trata-se de um livro especialmente instigante também por seu cenário: a Albânia é um ponto quase cego da história europeia, apesar de ter sido apresentada, durante certo período, como modelo exemplar do socialismo/comunismo, o que torna a narrativa ainda mais potente ao deslocar o leitor de referências já cristalizadas.

Ypi relata uma infância aparentemente harmoniosa, marcada pela vida familiar, pela escola e pela rotina cotidiana. Para a criança que foi, tudo parecia funcionar de modo coerente e seguro, sem grandes motivos para questionamento. As fissuras surgiam apenas nas conversas entre adultos, fragmentos de falas que ela não conseguia compreender, mas que anunciavam algo silenciado. Somente após a queda do regime ela descobre a história real de sua família e compreende o silêncio que a cercava; um silêncio construído como forma de proteção, tanto dela quanto da própria família.

A partir dessa experiência, o livro avança para uma reflexão mais ampla sobre a ideia de liberdade. Ypi questiona se ela realmente existe nas democracias liberais, no capitalismo e no sistema neoliberal, mostrando como a coerção nem sempre é visível e como a liberdade pode operar como uma ilusão eficaz justamente por ser naturalizada e internalizada. Não se trata apenas de regimes políticos distintos, mas de formas diferentes de produzir obediência, adesão e consentimento.

A leitura provoca inevitáveis deslocamentos e ressonâncias com o contexto brasileiro. É impossível não pensar no silêncio que recai sobre a escravização e sobre a ditadura militar, silêncios que produzem a ignorância política que atravessa o presente. Assim como Lea, também crescemos acreditando no que nos foi ensinado na escola e na família, sem acesso às camadas ocultas da história e às violências que estruturaram o país.

O livro também conduz a uma reflexão sobre o eurocentrismo que nos legou uma ideologia branca, racista e patriarcal, ainda profundamente operante. Muitos continuam a pensar os povos indígenas como seres do passado, indolentes ou preguiçosos, e os negros como inferiores ou, pior, como inimigos sociais — imagens que seguem legitimando violências cotidianas amplamente visíveis no noticiário. A permanência dessas hierarquias revela o quanto a chamada liberdade democrática convive com formas profundas de exclusão e desumanização.

Por fim, o livro nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: qual é, afinal, a diferença? No Brasil, a palavra “comunismo” ainda provoca pânico, enquanto as formas de manipulação e coerção do sistema vigente passam quase despercebidas. Livre nos convida a percorrer o caminho inverso: se o capitalismo se apresenta como o oposto do comunismo, em que medida eles também se aproximam? Sabemos bem no que diferem, mas raramente nos perguntamos no que são semelhantes. É nesse espaço de reflexão, entre memória, silenciamento e ideologia, que o livro se inscreve com força.

Lea Ypi nasceu em 1979, em Tirana na Albânia. É escritora e professora de teoria política e filosofia. 



sábado, 7 de fevereiro de 2026

A PEDAGOGIA DO ÓDIO E A CRISE DA ÉTICA

 


JUVENTUDE SEM DEUS

ÖDÖN VON HORVÁTH

TODAVIA – 1ª ed. – 2024

176 páginas 

Juventude sem Deus foi o último livro lido em 2024 — e não poderia ser mais contundente como fechamento de um ano marcado por retrocessos e radicalizações. Ödön von Horváth, escritor nascido na atual Croácia, morreu tragicamente em 1938, em Paris, ao ser atingido por um galho durante uma tempestade. Sua morte precoce interrompeu uma obra que já se mostrava profundamente crítica e lúcida diante da ascensão do fascismo europeu.

O livro é curto, mas de uma densidade inquietante. Trata-se de uma narrativa escrita como advertência, quase um diagnóstico moral, sobre a Alemanha que se deixava seduzir pelo nazismo. A história é conduzida pelo ponto de vista de um professor que, ao corrigir redações escolares, se depara com uma frase brutal: “negros não são humanos”. Ao tentar corrigir o aluno e afirmar o óbvio — a humanidade comum —, o professor se vê transformado em inimigo.

A reação não vem apenas dos estudantes, mas sobretudo dos pais, que se mobilizam contra ele. Um abaixo-assinado pede sua expulsão da escola. A cena, embora situada nos anos 1930, soa assustadoramente atual: professores perseguidos por abordar temas considerados “ideológicos”, seja o marxismo, a história dos movimentos sociais, a sexualidade, as identidades de gênero ou qualquer assunto que desestabilize a moral conservadora. Horváth antecipa, com precisão quase profética, a lógica da censura travestida de defesa da família e da ordem.

Não por acaso, o livro foi proibido na Alemanha nazista e publicado inicialmente na Holanda. O pano de fundo da narrativa é a juventude hitlerista: jovens moldados pelo discurso radiofônico do regime, fascinados por armas, disciplina e obediência. O professor acompanha um grupo de alunos a um acampamento onde aprendem a atirar — e é nesse ambiente que ocorre um assassinato. A partir desse crime, a trama se adensa e coloca o protagonista em uma situação moralmente insustentável.

A culpa emerge como tema central. Não apenas a culpa individual ligada ao crime, mas uma culpa difusa, coletiva, que atravessa uma sociedade inteira. O professor vive uma crise de consciência diante de uma juventude que normaliza a violência, o racismo e a exclusão, e diante de um sistema que pune quem ainda tenta pensar criticamente. Sua fragilidade não é covardia: é o retrato de alguém que percebe, tarde demais, o quanto o mal se torna banal quando sustentado por instituições, famílias e discursos oficiais.

Juventude sem Deus não é apenas um romance sobre o nazismo; é um livro sobre o colapso ético de uma sociedade. Seu impacto reside justamente nisso: ele não aponta monstros isolados, mas mostra como o autoritarismo se instala no cotidiano, na escola, na linguagem, na formação dos jovens. Ler Horváth hoje é reconhecer que a história não se repete de forma idêntica, mas rima — e, muitas vezes, rima de forma perigosa.


Ödön von Horváth nasceu na Croácia, em 1901 e faleceu em Paris em 1938. Estudou teatro e se estabeleceu como dramaturgo em Berlim, onde escrevia peças que satirizavam e criticavam tanto a história alemã quanto o momento sociopolítico em que vivia.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Maternidade, culpa e o direito de escolher

 


CONTRA OS FILHOS

Lina Meruane 

Editora Todavia - 1ª ed. 2018

176 páginas 


Lina Meruane é uma escritora chilena. Este é o segundo livro dela que leio; o primeiro foi Sangue nos Olhos. Aqui, trata-se de um ensaio cáustico, crítico, que muitos vão considerar polêmico, pois aborda a maternidade — ou, mais precisamente, a não maternidade.

A autora se posiciona contra o atual “império dos filhos”. Faz alertas importantes sobre como a ideologia da maternidade, tão idealizada, acaba se transformando em imposição sobre as mulheres, e como aquelas que não aceitam esse destino quase sempre são atravessadas pela culpa.

Ela levanta questões às quais todas nós, mulheres, deveríamos prestar atenção. Fala da questão do cuidado, tão em voga hoje; da responsabilidade do pai; e também dos filhos contemporâneos que se impõem sobre os pais. Em um dos capítulos, Meruane se debruça sobre as escritoras e as diferenças entre aquelas que têm filhos e as que não têm, evocando Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

O livro também levanta a questão do capitalismo e de quanto esse sistema precisa que as mulheres permaneçam no lar e procriem, mostrando o quanto ele se sustenta nessa lógica. Além disso, a autora apresenta modelos de maternidade contemporânea — as supermães, as mães neoliberais e as mães ecológicas —, o que torna a leitura ainda mais interessante.

Se há tantos discursos em defesa da maternidade, sempre idealizada, mas sem oferecer respaldo para que uma mulher possa ter filhos sem deixar de ser mulher, profissional ou estudante, louvo a iniciativa de Meruane em sair em defesa daquelas que não querem ser mães. Isso é um direito de cada mulher: fazer sua escolha livremente, sem cobranças, imposições, culpas ou arrependimentos. Recomendo a leitura também a todos e todas que se interessam pelo tema do cuidado.



Lina Meruane nasceu em Santiago, Chile, em 1970. É professora e escritora.