sábado, 14 de fevereiro de 2026

DA FILOSOFIA AO ROMANCE GÓTICO: HERANÇAS FEMININAS SILENCIADAS

 


MULHERES EXTRAORDINÁRIAS: AS CRIADORAS E A CRIATURA

Mary Wollstonecraft & Mary Shelley

CHARLOTE GORDON

DARKSIDE BOOKS – 1ª ED. 2020

624 páginas 

Esta biografia propõe uma construção narrativa particularmente feliz: a vida de Mary Wollstonecraft e de Mary Shelley é apresentada em capítulos alternados. Esse recurso permite ao leitor perceber, com clareza e sensibilidade, a continuidade intelectual e ética entre mãe e filha — mesmo que Shelley jamais tenha conhecido Wollstonecraft, morta pouco após seu nascimento.

Mary Wollstonecraft foi uma pensadora radical para seu tempo. Defendeu os direitos das mulheres, sobretudo o direito à educação, algo praticamente impensável no final do século XVIII. Filósofa, escritora e intelectual pública, escreveu sobre educação, política e sociedade, questionando frontalmente a ordem patriarcal. Ainda assim, permanece à margem dos currículos de Filosofia até hoje, como se seu pensamento fosse um apêndice moral, e não filosofia propriamente dita.

Mary Shelley, por sua vez, viveu segundo seus próprios desejos, enfrentando as convenções sociais de forma direta. Fugiu aos 16 anos com o poeta Percy Shelley, escandalizando a sociedade da época. Sua vida foi marcada por perdas, dificuldades materiais, luto e isolamento — experiências que atravessam profundamente sua escrita.

O legado literário de Shelley é frequentemente reduzido a uma única obra. Frankenstein, seu livro mais conhecido, foi duramente criticado quando publicado, não apenas pelo conteúdo perturbador, mas por ter sido escrito por uma mulher. A “criatura” foi considerada monstruosa demais para ter nascido de mãos femininas, julgamento que diz mais sobre a sociedade do que sobre a obra.

Ao acompanhar essas duas trajetórias, o livro evidencia como mulheres que ousavam pensar, escrever e viver fora das normas eram punidas: pela família, pela sociedade e pelas instituições. A recusa às convenções significava, muitas vezes, exclusão, difamação e solidão. Ainda assim, tanto Wollstonecraft quanto Shelley persistiram, cada uma à sua maneira, abrindo caminhos que só muito mais tarde seriam reconhecidos.

Mulheres Extraordinárias é uma leitura que vale cada página. Mais do que uma biografia dupla, o livro constrói uma genealogia feminina do pensamento e da criação, mostrando o quanto as mulheres foram historicamente cerceadas e, apesar disso, produziram obras que atravessaram os séculos. É também um convite a repensar quem chamamos de “criadores” da cultura e quantas criadoras foram silenciadas nesse processo.


Charlote Gordon nasceu em St. Louis, Missouri, EUA. É uma escritora e professora de humanidades. 


MULHERES, TECNOLOGIA E O APAGAMENTO DA PRÉ-HISTÓRIA

 


SEXO INVISÍVEL: o verdadeiro papel da mulher na pré-história

OLGA SOFFERJ.M. ADOVASIOJAKE PAGE

RECORD – 1ª ED. - 2009

312 páginas 

Cheguei a este livro depois de já ter lido obras mais recentes sobre as mulheres no Paleolítico e no Neolítico, como O homem pré-histórico também é mulher e Lady Sapiens. Ainda assim, quando Sexo Invisível foi citado em um curso online sobre a história das mulheres, meu interesse foi imediato. Li e a leitura se mostrou relevante, apesar do tempo decorrido desde sua publicação.

É evidente que, por se tratar de um livro mais antigo, muitas descobertas arqueológicas e revisões teóricas ocorreram depois. Ainda assim, para quem se interessa pela reconstrução crítica da pré-história, a obra permanece valiosa, sobretudo por seu gesto fundador: questionar frontalmente a narrativa androcêntrica que dominou a arqueologia e a história por décadas.

Escrito por três pesquisadores, o livro trouxe para mim uma contribuição específica e decisiva: a ênfase nas pesquisas sobre fibras. O avanço tecnológico permitiu estudar vestígios de cestos, cordas e tecidos — materiais tradicionalmente desconsiderados por se deteriorarem mais rapidamente. Em determinados contextos arqueológicos, no entanto, esses objetos se preservaram parcialmente, revelando um universo técnico sofisticado, invisibilizado pela centralidade atribuída às armas e à caça.

Essa discussão imediatamente remete ao texto de A ficção como cesta: uma teoria, de Ursula Le Guin, no qual ela defende que o cesto — e não a lança — foi a grande invenção do período. Sem recipientes, não haveria como carregar, armazenar ou partilhar alimentos. Hoje, sabe-se que a base da alimentação humana na pré-história era composta majoritariamente por vegetais e pequenos animais, e não pelos grandes mamutes caçados esporadicamente, como insistiu o imaginário heroico masculino.

Foram as mulheres, segundo os autores, que desenvolveram o cesto, as cordas, os tecidos e, mais tarde, a agricultura. Tecnologias essenciais à sobrevivência, à sedentarização e à própria emergência daquilo que chamamos civilização. Ao recuperar essas práticas, Sexo Invisível devolve às mulheres um lugar central na história humana — um lugar que lhes foi sistematicamente negado.

O livro também evidencia como historiadores e arqueólogos do século XIX projetaram seus próprios valores sobre o passado, valorizando apenas aquilo que se alinhava a uma visão masculina de poder, força e conquista. O resultado foi uma narrativa profundamente distorcida, que reduziu o papel das mulheres a algo marginal ou inexistente.

Sexo Invisível não é apenas uma obra sobre a pré-história: é um exercício de crítica epistemológica. Ele nos obriga a perguntar não apenas quem fez a história, mas quem foi autorizado a ser visto como agente histórico. E essa pergunta segue sendo atual.


Olga Soffer nasceu em 1942. É antropóloga

James M. Adovasio nasceu em Youngstown, EUA, em 1944. É arqueólogo e especialista em artefatos perecíveis.

Jake Page nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1936. É um escritor. 


 




UMA LEITURA NECESSÁRIA SOBRE AS ORIGENS DO MUNDO OCIDENTAL


 

SPQR: UMA HISTÓRIA DA ROMA ANTIGA

MARY BEARD

CRÍTICA – 3ª ED. - 2023

560 páginas 

Sempre que encontro um livro de história escrito por uma mulher — seja historiadora, arqueóloga ou pesquisadora — faço questão de escolhê-lo. Há nisso um gesto consciente: ler mulheres é também uma forma de enfrentar a longa tradição de apagamento feminino na produção do conhecimento. SPQR é um desses casos. Escrito por Mary Beard, uma das maiores estudiosas da Roma Antiga e de Pompeia, o livro se mostra uma leitura sólida, instigante e esclarecedora.

Esta obra dedicada a Roma foi particularmente interessante pela forma como Beard constrói sua narrativa. Ela parte da fundação da cidade, passando pelas lendas e mitos que cercam essa origem, sem tratá-los como meras curiosidades, mas como elementos constitutivos da identidade romana.

Um dos recursos centrais do livro é o uso dos discursos e cartas de Cícero, que permitem à autora se aproximar da maneira como os próprios romanos pensavam a si mesmos. Roma não aparece apenas como um império monumental visto de fora, mas como uma sociedade atravessada por conflitos, disputas políticas, contradições internas e estratégias de poder.

Ao longo da leitura, Beard nos ajuda a reconhecer o quanto do mundo romano permanece entre nós. Elementos da política, da linguagem, do direito e até de certos gestos institucionais contemporâneos encontram ali suas raízes. O livro também cumpre um papel importante ao desmistificar ideias cristalizadas sobre Roma, desmontando imagens simplificadas ou glorificadas demais do período.

É verdade que há muito pouco espaço dedicado às mulheres, um limite que não pode ser ignorado, ainda que em parte reflita a própria escassez de fontes produzidas por elas. Ainda assim, considero a leitura fundamental para compreender a cultura romana, seu pensamento, suas estruturas de poder e o funcionamento do antigo Império.

SPQR não é apenas uma história de Roma: é um convite a olhar criticamente para as origens de muitas das instituições que ainda organizam o mundo ocidental. Ler Roma com Mary Beard é, ao mesmo tempo, compreender o passado e interrogar o presente.


Mary Beard nasceu em Much Wenlock, Reino Unido, em 1955. É uma classicista 


QUANDO DIVERSIDADE NÃO BASTA: A URGÊNCIA DA INCLUSÃO REAL

 


IMPERFEITOS: um relato íntimo de como a inclusão e a diversidade podem transformar vidas e impactar o mercado de trabalho

JULIE GOLDCHMIT

MAQUINARIA EDITORIAL – 1ª ED. – 2022

156 páginas 

Este livro é o relato da trajetória de Julie — uma jovem inteligente, capaz, dedicada e persistente. Costuma-se acrescentar a essa frase um “mas”: mas ela é autista. Esse “mas”, no entanto, revela mais sobre a sociedade do que sobre Julie. Ele denuncia a dificuldade coletiva de aceitar que pessoas são diferentes, inclusive aquelas consideradas “normais”. Tudo o que escapa ao padrão hegemônico tende a ser classificado como anormal, deficiente, doente ou problemático.

Julie teve algo fundamental: uma família que a acolheu sem vitimizá-la. Seus pais a protegeram quando necessário, mas sobretudo a incentivaram a seguir, a tentar, a não desistir, mesmo diante de obstáculos severos, da maldade humana e de crises intensas de ansiedade. Quando criança, ouviu de um médico que provavelmente nunca falaria nem andaria. Sua mãe simplesmente não aceitou esse veredicto e Julie falou, andou e construiu seu próprio caminho.

O período escolar foi particularmente difícil. As diferenças no ritmo de aprendizado e na forma de compreender o mundo a colocaram em constante tensão com um sistema educacional que, apesar do discurso de inclusão, raramente está preparado para lidar com a diversidade real. O bullying esteve presente, mas Julie conseguiu concluir o ensino médio. A faculdade, no entanto, foi descartada: um ambiente que exige autonomia plena e oferece pouca segurança não parecia, naquele momento, um espaço possível. A alternativa foi o mercado de trabalho.

É nesse ponto que o livro se torna especialmente incisivo. Julie relata, com clareza e honestidade, o abismo entre diversidade e inclusão. Muitas empresas afirmam valorizar a diversidade, mas não constroem condições reais para que pessoas diferentes permaneçam, cresçam e contribuam. Ela foi alvo da crueldade de uma chefe incapaz de compreender suas necessidades, mas também encontrou outra que a ensinou, a respeitou e reconheceu seu potencial.

Quando precisou deixar o emprego em um banco devido à mudança da sede, Julie enfrentou meses de busca por trabalho marcados pelo preconceito e pela incompreensão de recrutadores e departamentos de RH. A lógica das cotas — cumprir a exigência legal e encerrar o assunto — aparece como um dos grandes limites da inclusão contemporânea. Ainda assim, ela encontrou, finalmente, uma empresa que oferecia o que era essencial: estrutura, apoio, compreensão e uma verdadeira rede de acolhimento. Ali, pôde trabalhar de fato, contribuir, produzir, como sempre foi capaz de fazer.

Ao longo de sua trajetória, Julie encontrou pessoas generosas, amigas verdadeiras, mas também o que há de mais duro no preconceito humano. O livro intercala sua narrativa com apartes sobre legislações e reflexões a respeito de pessoas autistas e de pessoas com deficiências físicas e mentais, categorias que, muitas vezes, servem mais para limitar do que para compreender.

Imperfeitos nos lembra de algo fundamental: pessoas diferentes continuam sendo sujeitos de suas próprias vidas. São capazes de criar, trabalhar, estudar e produzir, desde que encontrem ambientes que não as violentem em nome da normalidade. Mais do que uma autobiografia, este é um livro que interpela o mercado de trabalho, as instituições e cada um de nós.


Julie Goldchmit é brasileira e assistente de marketing  


ENTRE CIDADES, DEUSES E MULHERES: O INÍCIO DA HISTÓRIA ESCRITA

 

BABILÔNIA

A Mesopotâmia e os nascimento da civilização

PAUL KRIWACZEK

ZAHAR – 1ª ED. - 2018

382 páginas 

O livro se inicia partindo do Iraque contemporâneo para, em seguida, mergulhar na longa duração da história mesopotâmica, desde cerca de 5.400 A.E.C. Esse movimento entre presente e passado não é apenas narrativo: ele nos lembra que a chamada “origem da civilização” não é um vestígio distante e morto, mas algo inscrito em territórios ainda hoje marcados por disputas, violência e apagamentos.

Paul Kriwaczek oferece uma grande quantidade de informações sobre a Mesopotâmia, os sumérios e, mais adiante, a Babilônia. O livro percorre o surgimento das cidades, da escrita, das leis, da administração e da religião, compondo um quadro amplo do que costumamos chamar de “nascimento da civilização”.

Um aspecto especialmente relevante, e ainda raro em muitas obras de história antiga, é a atenção dedicada às mulheres. Fiquei particularmente satisfeita ao encontrar referências consistentes a figuras femininas e à atuação das mulheres em diferentes contextos sociais e religiosos. Destaca-se a presença de Enheduana, filha de Sargão de Acádia, considerada a primeira autora conhecida da história, cuja produção literária e religiosa revela a centralidade do feminino no imaginário e na organização simbólica da época.

A deusa Inana (mais tarde Ishtar) também ocupa um lugar importante na narrativa, evidenciando a força das divindades femininas na Mesopotâmia e a complexidade de seus atributos — erotismo, guerra, fertilidade e poder. Além disso, o livro traz informações sobre mulheres assírias, ampliando o olhar para além das figuras mais conhecidas e mostrando que o feminino não estava ausente das estruturas sociais e políticas dessas civilizações.

Babilônia é, assim, uma leitura que contribui não apenas para compreender a Mesopotâmia como berço da civilização, mas também para questionar a ideia de que esse nascimento foi exclusivamente masculino. Ao incluir as mulheres — ainda que timidamente em alguns momentos, o livro aponta para uma historiografia que começa, finalmente, a reconhecer o que durante tanto tempo foi silenciado.


Paul Kriwaczek nasceu em Viena, Áustria, em 1937 e faleceu em Londres, em 2011. Foi um historiador que passou uma década trabalhando no Irã e no Afeganistão. 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

ENTRE A PÓLIS E O PENSAMENTO: COMO ATENAS MOLDOU O OCIDENTE

 


A ASCENSÃO DE ATENAS

A História da maior civilização do mundo

ANTHONY EVERITT

CRÍTICA – 2019

488 páginas 

Mais um título da minha lista dedicada à História — desta vez, voltado à Grécia Antiga, com ênfase em Atenas. Em A Ascensão de Atenas, Anthony Everitt acompanha o percurso dessa cidade-estado desde sua formação até o apogeu no período de Péricles, sem deixar de abordar, com igual atenção, os fatores que levaram ao seu declínio.

Atenas, embora tivesse cerca de duzentos mil habitantes, tornou-se um dos maiores centros culturais do Ocidente. O livro evidencia como, em um espaço relativamente pequeno, se produziram transformações decisivas no pensamento político, filosófico, literário e artístico que ainda hoje moldam nossa forma de compreender o mundo.

Everitt nos conduz pela atuação dos estadistas, pela construção da democracia ateniense, pelo surgimento dos grandes filósofos e pela força do teatro — tragédias e comédias como formas de reflexão coletiva sobre a pólis, o poder, o destino e a condição humana. Ao longo da leitura, torna-se possível compreender como os gregos pensavam, quais eram seus valores e de que modo interpretavam a vida, a política e a guerra.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é o contraste que se delineia entre o pensamento grego e o persa, especialmente no contexto das guerras médicas. Essa contraposição ajuda a perceber que Atenas se definiu não apenas por suas realizações internas, mas também pelo confronto com outras formas de organização política e cultural.

Embora a Grécia não se resumisse a Atenas — e o livro mencione diversas outras cidades-estados, sobretudo no contexto de conflitos, rivalidades e alianças —, o foco no pensamento ateniense se justifica. É justamente essa herança que prevaleceu no Ocidente e que continua a influenciar, direta ou indiretamente, nossas ideias sobre democracia, cidadania e cultura.

Nesse sentido, A Ascensão de Atenas atendeu plenamente às minhas expectativas: é uma leitura sólida, acessível e instigante, que permite compreender não apenas os fatos históricos, mas o modo como uma civilização pensou a si mesma e, ao fazê-lo, acabou por nos ensinar a pensar também.


Anthony Everitt nasceu em 1940. É um acadêmico britânico. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

NOVAS LEITURAS PARA UM PERÍODO MAL COMPREENDIDO

 

HISTÓRIA DA IDADE MÉDIA: Mil anos de esplendores e misérias.

GEORGES MINOIS

EDITORA UNESP – 1ª ED. - 2023

578 páginas 

Depois do ensino médio e de algumas leituras marcantes — como o magistral O Nome da Rosa, de Umberto Eco — percebi que, para escrever a história das mulheres na Idade Média, seria necessário retomar o estudo desse período. Inclusive porque, a cada ano, novas descobertas são feitas: arquivos são abertos, documentos são finalmente liberados para consulta ou simplesmente encontrados. Paralelamente, a historiografia também se transforma. Hoje, ela já não é tão rígida e passa a considerar outras fontes, como biografias, memórias, cartas, diários, obras de arte e até mesmo a literatura da época.

Com isso, muitos historiadores passaram a incluir em seus estudos aqueles que antes eram tratados como “os outros”: mulheres, camponeses, pobres e também regiões fora do eixo estritamente europeu. Esse deslocamento do olhar altera profundamente a maneira como compreendemos a Idade Média.

O livro de Georges Minois tem o mérito de apresentar mil anos de história de forma sintetizada, sem perder a complexidade do período. Além disso, inclui o Oriente e sua influência sobre a Europa — e vice-versa — rompendo com a visão eurocêntrica que marcou por muito tempo o ensino da Idade Média. Não se trata mais da Idade Média exclusivamente europeia que aprendi na escola.

Outro ponto fundamental é que a narrativa histórica aqui não se limita a fatos, heróis ou vencedores. Minois se detém na mentalidade da época, explora a tensão entre fé e razão e examina as crises que atravessaram esse longo período. Epidemias, secas severas e fome aparecem como elementos estruturantes da vida medieval, e não como simples episódios marginais.

Essas informações foram particularmente importantes para complementar a leitura de Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici, sobretudo em aspectos que não são abordados por ela. O livro também inclui, ainda que de forma pontual, a presença de mulheres em seu relato — algo que até pouco tempo atrás era difícil de encontrar em obras de síntese sobre a Idade Média. Nesse sentido, a obra se mostra uma ferramenta valiosa tanto para estudos históricos quanto para reflexões críticas sobre gênero, poder e sociedade.


Georges Minois nasceu em Athis-Mons, França, em 1946. É um historiador francês. 


A HERANÇA DE BEAUVOIR REVISITADA POR JULIA KRISTEVA

 


BEAUVOIR PRESENTE

JULIA KRISTEVA

EDIÇÕES SESC – 1ª ED. 2019

128 páginas 


Em Beauvoir Presente, Julia Kristeva nos oferece uma reflexão apaixonada sobre a obra, a vida e a presença intelectual de Simone de Beauvoir, atravessando literatura, filosofia e feminismo. O livro não é apenas uma homenagem, mas uma tentativa de pensar Beauvoir como força viva, cujo pensamento continua a interrogar nossa relação com o corpo, a linguagem e a política de gênero.

Kristeva destaca a singularidade de Beauvoir: sua capacidade de articular experiência pessoal e análise teórica, transformando vivências femininas em conceitos universais sobre liberdade, opressão e alteridade. Ao revisitar O Segundo Sexo e outros textos, Kristeva ressalta a atenção de Beauvoir às tensões entre biologia, cultura e existência, mostrando que a filosofia feminista não pode ser dissociada da vida concreta das mulheres.

O livro também dialoga com a própria trajetória de Kristeva, apontando como Beauvoir permanece um ponto de referência para pensar o sujeito feminino, a escrita e a criação. A autora propõe que a obra de Beauvoir continua presente não apenas em debates acadêmicos, mas na maneira como as mulheres contemporâneas se reconhecem e se afirmam, desafiando normas patriarcais e construindo identidades complexas.

Um dos méritos de Beauvoir Presente é explorar a atualidade do pensamento de Beauvoir, mostrando que os dilemas da emancipação feminina — autonomia, sexualidade, ética e responsabilidade social — permanecem urgentes. Kristeva evidencia que a filosofia de Beauvoir não se limita ao contexto histórico do século XX, mas se estende ao nosso tempo, inspirando reflexão crítica sobre gênero, poder e criatividade.

A escrita é densa, mas poética, e reflete o diálogo entre duas grandes pensadoras: uma revisita a obra da outra, e ambas nos lembram que a filosofia se faz também na experiência vivida, na atenção às relações humanas e na coragem de enfrentar estruturas de opressão. Beauvoir Presente é, assim, leitura essencial para quem deseja compreender a continuidade do feminismo intelectual e a relevância da obra de Beauvoir no mundo contemporâneo.


Julia Kristeva nasceu em Sliven, Bulgária, em 1941 e possui cidadania francesa. É uma filósofa, linguista, crítica literária e psicanalista. 


O RETRATO DA ALMA: MORAL, DESEJO E CONSCIÊNCIA

 


O RETRATO DE DORIAN GRAY

OSCAR WILDE

PENGUIN-COMPANHIA – 1ª ED. - 2012

264 páginas 

O Retrato de Dorian Gray é um mergulho fascinante na estética, na moralidade e na condição humana. Oscar Wilde constrói uma narrativa em que beleza, arte e ética se entrelaçam, desafiando o leitor a refletir sobre os limites entre aparência e essência, prazer e consciência.

A história gira em torno de Dorian Gray, jovem de beleza singular, cujo retrato passa a carregar os sinais do tempo e da corrupção de sua alma, enquanto ele permanece exteriormente inalterado. Wilde utiliza esse enredo para explorar questões filosóficas profundas: a sedução do hedonismo, o culto à beleza, a relação entre o indivíduo e a sociedade, e a tensão entre moralidade e desejo.

O livro é também um ensaio sobre artificialidade e natureza, sobre como as convenções sociais e os julgamentos estéticos moldam comportamentos, muitas vezes à custa da verdade interior. A escrita de Wilde é refinada, irônica e poética, repleta de aforismos que soam como sentenças universais, capazes de permanecer na mente do leitor muito depois da leitura.

Além disso, a obra problematiza a ideia de duplicidade: o que mostramos ao mundo e o que somos intimamente. Esse diálogo entre o visível e o invisível, o público e o privado, transforma o romance em um espelho literário da própria condição humana, com suas contradições e ambiguidades.

Mesmo sendo uma narrativa ambientada na sociedade vitoriana, os temas de Wilde permanecem surpreendentemente atuais: a obsessão com a aparência, o culto à juventude, a hipocrisia social e a constante tensão entre ética e prazer são questões que atravessam séculos.

O Retrato de Dorian Gray é, portanto, muito mais do que uma história sobre vaidade e decadência; é uma obra que desafia o leitor a encarar a profundidade da alma, a estética da vida e o preço das escolhas individuais.


Oscar Wilde nasceu em Westland Row, Dublin, Irlanda, em 1854 e faleceu em Paris, França, em 1900. Foi um escritor, poeta e dramaturgo irlandês. Foi preso acusado de homossexualismo em um dos primeiros julgamentos de celebridades da história moderna


MISTÉRIO, PODER E ERUDIÇÃO NA IDADE MÉDIA

 


O NOME DA ROSA

UMBERTO ECO

RECORD – 25ª ED. - 2019

592 páginas 

O Nome da Rosa é muito mais do que um romance policial ambientado na Idade Média; é uma obra que atravessa literatura, filosofia, história e semiologia. Umberto Eco nos transporta a 1327, a um mosteiro beneditino remoto, onde o jovem noviço Adso de Melk acompanha o franciscano Guilherme de Baskerville em uma investigação que mistura assassinatos, intrigas religiosas e debates intelectuais.

O livro fascina por sua densidade histórica e erudita. Eco recria minuciosamente a vida monástica, a política e os conflitos teológicos da época, mostrando o embate entre fé e razão, ortodoxia e heresia, autoridade e questionamento. Cada detalhe — desde a organização da biblioteca labiríntica até os rituais litúrgicos — serve não apenas para ambientar, mas para refletir sobre o poder do conhecimento e da interpretação.

A escrita de Eco exige atenção: sua prosa é rica, por vezes irônica, e repleta de referências filosóficas e literárias, das quais a obra se alimenta continuamente. O leitor é convidado a mergulhar em um labirinto de signos e significados, numa espécie de jogo intelectual que desafia tanto a curiosidade quanto a paciência.

Um dos aspectos mais marcantes é a reflexão sobre o conhecimento e a censura, sobre como a história, os livros e as ideias podem ser controlados, ocultados ou reinterpretados. O romance nos leva a pensar na relação entre linguagem, poder e verdade, questões ainda profundamente atuais.

Apesar de ser uma narrativa de mistério, O Nome da Rosa não se limita à trama investigativa. Ele se abre como ensaio histórico, tratado de filosofia e estudo literário, oferecendo ao leitor múltiplas camadas de interpretação. Ler Eco é, acima de tudo, um convite ao pensamento crítico, à reflexão sobre a construção da história e o valor do conhecimento.

Um clássico que transcende gêneros e tempos, exigente e generoso, capaz de fascinar leitores interessados tanto na história medieval quanto na natureza da própria leitura.


Umberto Eco nasceu em Alexandria, Itália, em 1932 e faleceu em Milão em 2016. Foi um escritor, filósofo, semiólogo, linguista e escritor italiano. 




NEUROSSEXISMO, CIÊNCIA E PODER

 


HOMENS NÃO SÃO DE MARTE MULHERES NÃO SÃO DE VÊNUS

Como a nossa mente, a sociedade e o neurossexismo criam a diferença entre os sexos

CORDELIA FINE

CULTRIX – 1ª ED. 2015

424 páginas 

Você provavelmente já viu o livro — ou o filme — Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus, que supostamente “provaria” a existência de diferenças sexuais no cérebro humano. A partir dessa ideia, constrói-se a narrativa de que os homens seriam mais racionais e lógicos, saberiam ler gráficos e dirigiriam melhor, enquanto as mulheres seriam mais emocionais, teriam maior empatia e facilidade para os relacionamentos, mas seriam péssimas motoristas, incapazes de interpretar dados ou lidar com números — e assim por diante.

Pois bem: a neurocientista e psicóloga Cordelia Fine, apoiada em inúmeras pesquisas científicas, desmonta esse mito pseudocientífico das diferenças cerebrais entre homens e mulheres.

É verdade que podem ser encontradas algumas diferenças, mas nenhuma que justifique desigualdades na capacidade intelectual entre os sexos. Matemática, física e ciência são igualmente possíveis para homens e mulheres; assim como empatia, cuidado com a casa, com os filhos e com os outros também o são. Não há predisposição biológica que determine essas divisões.

Mais uma vez, nos deparamos com uma pseudociência que tenta justificar a superioridade masculina a partir da biologia e da “natureza”. O mais preocupante é que muitas mulheres acabam acreditando nesses discursos e, por efeito social, passam a apresentar desempenho inferior em áreas consideradas masculinas. Ao mesmo tempo, muitos homens sequer se aventuram em campos vistos como femininos — e, quando o fazem, correm o risco de serem estigmatizados e feminizados pela sociedade.

Apesar de trazer uma grande quantidade de pesquisas e relatos — e embora a tradução por vezes me pareça um pouco truncada —, a leitura vale muito a pena.


Cordélia Fine nasceu em Toronto, Ontario, Canadá, em 1975. É uma psicóloga e Filósofa.


O IMPÉRIO AFRICANO QUE A HISTÓRIA TENTOU APAGAR

 


GRANDIOSOS ETÍOPES DO ANTIGO IMPÉRIO CUXITA

DRUSILLA DUNJEE HOUSTON

EDITORA ANANSE – 1ª - 2022

194 páginas 

Foi por este livro que iniciei meus estudos sobre o Império Cuxita. A partir dele, aprofundei-me em pesquisas mais extensas, recorrendo a teses e outras obras, o que se revelou extremamente instigante — sobretudo no que diz respeito à matrilinearidade, ao matrifocal e ao matriarcado, bem como às rainhas Candaces, um título que significava “rainha-mãe” e que não exigia, necessariamente, a maternidade biológica.

Drusilla Dunjee Houston foi autodidata e dedicou cerca de 25 anos de sua vida ao estudo dos etíopes antigos. Reuniu referências dispersas em inúmeros livros que mencionavam esse povo, ainda que apenas em uma frase, com o objetivo de demonstrar a existência de um vasto império que precedeu os gregos, persas, romanos e sumérios, integrou-se ao mundo egípcio e chegou até a Índia. Um império formado por povos africanos e negros.

Houston demonstra que muitas realizações tradicionalmente atribuídas às civilizações posteriores tiveram, na verdade, origem cuxita. Importante ressaltar que não se trata da Etiópia atual, mas de um reino cuja localização principal era a Núbia, território que hoje corresponde a partes do Egito e do Sudão.

Drusilla Dunjee Houston nasceu em Harpers Ferry, Virgínia Ocidental, EUA e faleceu em Phoenix, Arizona, EUA. Foi escritora, historiadora, jornalista, educadora estadunidense. 




O REINADO APAGADO DA MAIOR FARAÓ DO EGITO

 

FARAONA DE TEBAS: Hatchepsut, filha do sol.

FRANCIS FEVRE

MERCURYO – 1ª ED. - 1991

262 páginas 


Hatshepsut finalmente começa a ser colocada em seu devido lugar, após todas as tentativas sistemáticas de apagar seu nome e seu reinado da história do Egito. Considerada a maior faraó que o país teve, governou por cerca de 22 anos em um período marcado pela prosperidade, pela paz e pelo desenvolvimento. Durante muito tempo, esquecida, apagada e silenciada, conhecíamos sobretudo outras duas grandes figuras femininas do Egito: Nefertiti e Cleópatra.

Neste livro, o historiador Francis Fèvre reconstrói a vida de Hatshepsut desde o nascimento até sua morte. Embora se trate de um romance histórico, o autor evita colocar palavras diretamente em sua boca por meio de diálogos inventados. Em vez disso, constrói hipóteses baseadas em documentos, pesquisas, relatos históricos e, sobretudo, nos painéis esculpidos em Deir el-Bahari, o monumental templo funerário que a própria Hatshepsut mandou erguer.

O relato da expedição ao Punt é um dos pontos altos da obra. Nesse momento, o autor parece literalmente ler a história inscrita nas paredes de Deir el-Bahari e traduzi-la para o leitor — e é, de fato, desse registro que sua narrativa emerge.

Apesar de algumas observações do autor soarem hoje excessivamente patriarcais — o que pode ser compreendido se considerarmos o contexto em que o livro foi escrito, anterior ao movimento mais amplo de recuperação da história das mulheres —, a obra mantém seu mérito. Ainda assim, e talvez justamente por isso, a leitura valeu a pena.


Francis Fevre nasceu em Guenviller, França, em 1951. É um historiador especialista em sociedade antigas, especialmente o Egito. 


MATRIARCADO, MATRILINEARIDADE E A CRÍTICA AO EVOLUCIONISMO OCIDENTAL


 

A UNIDADE CULTURAL DA ÁFRICA NEGRA

Esferas do patriarcado e do matriarcado na Antiguidade Clássica

CHEIKH ANTA DIOP

EDITORA ANANSE – 2023.

238 páginas 


Cheikh Anta Diop foi um antropólogo e historiador senegalês. Cheguei a este livro a partir de meus estudos sobre as mulheres do Império Cuxe, buscando compreender as noções de matriarcado, matrilinearidade e matrifocalidade no continente africano.

Antes de tudo, é fundamental esclarecer que o conceito de matriarcado, tal como trabalhado por Diop, não corresponde à ideia ocidental de um sistema simplesmente inverso ao patriarcado, no qual haveria o domínio feminino e a subjugação do masculino. Diop demonstra a existência de dois polos culturais — dois reinos, um setentrional e outro meridional, norte e sul — sendo um de estrutura patriarcal e o outro de estrutura matriarcal. Nesse esquema, a África se insere majoritariamente no polo matriarcal.

O autor realiza uma análise crítica dos conceitos de matriarcado em Bachofen, Lewis Morgan e Engels. Os dois primeiros, segundo Diop, tratam o matriarcado como uma fase primitiva da humanidade, destinada a ser superada pelo patriarcado, visto como estágio civilizatório superior. Trata-se de uma visão claramente evolucionista. Engels, por sua vez, apropria-se dessas ideias para sustentar a possibilidade de que a família burguesa também possa evoluir para uma forma diferente e mais justa.

Diop rompe com essa leitura ao defender o matriarcado africano não como um estágio arcaico, mas como uma forma de organização social superior ao patriarcado, este último associado historicamente à guerra, à violência e às conquistas territoriais.

Com esse estudo, Diop se contrapõe frontalmente às concepções ocidentais que se pretendem universais e civilizatórias, mas que historicamente classificaram a África como inferior e selvagem. Ao contrário, ele demonstra o alto grau de civilização das sociedades africanas e aponta para um modelo social mais humano, relacional e sustentável. O autor apresenta ainda sua hipótese para explicar por que o norte se organizou de forma patriarcal e o sul de forma matriarcal, aprofundando uma leitura estrutural e histórica dessas diferenças.


Cheikh Anta Diop nasceu em Tiahitou, Senegal, em 1923 e faleceu em Dacar, Senegal, em 1986. Foi um historiador, antropólogo, físico e político senegalês. 


DIREITOS, PODER E PRESENÇA FEMININA NO EGITO DOS FARAÓS


 

A MULHER NO TEMPO DOS FARAÓS

CHRISTIANE DESROCHES NOBLECOURT

PAPIRUS - 2007

422 páginas 


Li outros livros sobre as mulheres egípcias e também sobre a história do Egito depois deste, mas sempre retorno a A Mulher no Tempo dos Faraós por considerá-lo o mais completo que encontrei sobre o tema.

Para quem se interessa pela história das mulheres no Antigo Egito, este é um livro fundamental. A arqueóloga Christiane Desroches Noblecourt foi especialista em Egito, dirigiu durante anos o setor egípcio do Museu do Louvre e participou de diversas escavações no país, o que confere ao livro um rigor e uma riqueza de detalhes notáveis.

A obra reúne informações sobre a mitologia egípcia com foco nas figuras femininas, aborda as esposas reais e as rainhas, as concubinas, as mulheres faraós e a complexa relação entre o faraó e a esposa real. Mas vai além: apresenta também dados preciosos sobre a vida cotidiana das mulheres, as leis e os direitos, o casamento, a educação, além de temas como a condição das viúvas e das prostitutas.


Christiane Desroches Noblecourt nasceu em Paris em 1913 e faleceu na mesma cidade em 2011. Foi uma egiptóloga.