QUANDO AS MONTANHAS CANTAM
NGUYEN PHAN QUÉ MAI
ALMA DOS LIVROS – 2024
360 páginas
A narrativa inicia-se em Hanoi, em
1972, durante a Guerra do Vietnã. Huong é uma menina que vive com sua avó, pois
sua mãe e seu pai estão lutando. As ofensivas estadunidenses aumentam e elas
fogem para as montanhas, de onde assistem Hanoi arder em chamas.
Quando finalmente podem retornar
à cidade, encontram sua casa totalmente destruída e decidem reerguê-la. É
durante essa reconstrução que a avó, Diju Lan, começa a lhe contar sua vida.
Voltamos ao período pós-Primeira
Guerra Mundial, quando o Vietnã estava sob domínio francês, em uma área
colonizada denominada Indochina. Os bisavós de Huong vivem em uma aldeia e são
prósperos e respeitados. Diju Lan é uma criança feliz ao lado de seu irmão. Com
a Segunda Guerra Mundial, surgem os japoneses, que invadem o Vietnã, trazendo o
horror e a Grande Fome. A avó assiste os pais serem assassinados: o pai, pelos
japoneses, e a mãe, por um homem cruel da aldeia durante a grande fome.
Diju Lan decide mudar de trabalho
para conseguir reerguer a casa e ter melhores condições de vida. Elas vivem no
norte do Vietnã e, portanto, sob um governo comunista. Quando deixa seu emprego
de professora, muito mal remunerado, e passa a viver do mercado negro, comercializando
produtos, é excluída da comunidade por seus vizinhos que não lhe dirigem mais a
palavra e proíbem os filhos de brincar com Huong. Para os comunistas, os
comerciantes faziam parte da pequena burguesia e eram indignos.
Diju Lan ignora os vizinhos, reconstrói
sua casa e passa a ter uma vida melhor. Uma noite, durante um temporal, alguém
bate à porta da casa. É a mãe de Huong que retorna da guerra, que já está em
seus momentos finais. Ela está destroçada por tudo o que viu e precisou fazer
para sobreviver.
Chamou-me a atenção um antigo
costume das mulheres de tingirem os dentes de preto, considerado um símbolo de
beleza, elegância e status social. Normalmente, o processo era realizado na
puberdade e, segundo Huong, era doloroso devido à mistura utilizada. Ela não
passou por isso.
A autora alterna o tempo presente
- o fim da guerra com os EUA e a reunificação do Vietnã sob um governo
comunista com todas as consequências que isso acarretou - e a história da
família contada pela avó, ambientada no período após a invasão japonesa e da Grande
Fome, quando os Viet Minh conseguiram libertar as aldeias dos japoneses. Os
Viet Minh eram um grupo guerrilheiro comunista e nacionalista que lutou contra
os japoneses e franceses que ocupavam seu território.
Vamos, aos poucos, conhecendo a
história do Vietnã, marcada por lutas, guerras, sofrimento e fome, mas também
somos apresentados à sua cultura, culinária, tradições e religiosidade,
especialmente ao culto aos ancestrais. O romance aborda ainda as dissidências
internas entre aqueles que defendiam uma democracia e os comunistas, bem como
as imposições dos comunistas e a vigilância exercida sobre a população, que
impunha um pensamento de inspiração stalinista. Era preciso eliminar a
burguesia e tudo que remetesse ao seu modo de vida, inclusive o comércio era
condenado, todos deveriam comprar apenas nos armazéns do governo.
Diju Lan conta para sua neta o
episódio da Reforma Agrária imposta pelos comunistas e o que sua família sofreu
com isso. Sempre foram generosos com todos na aldeia em que viviam, trabalharam
muito junto aos empregados e socorreram vários deles durante a Grande Fome. No
entanto, instigados pelos Viet Minh, aqueles que não possuíam terras ou
trabalho revoltaram-se contra os proprietários, inclusive muitos que haviam
sido ajudados pela família. Novamente, Diju Lan perde tudo e precisa fugir com
seus filhos, abandonando sua casa e sua história.
O relato sobre a guerra contra os
americanos, feito pelo tio de Huong, é dilacerante. O exército do Norte, para
chegar ao Sul, caminhou milhares de quilômetros em meio à selva vietnamita,
sofrendo bombardeios e perdendo inúmeras vidas. Ao mesmo tempo, temos a
revelação da extraordinária beleza do interior do país, como o complexo de
cavernas de Phong Nha-Ke Bang, atualmente um Parque Nacional e sítio de
Patrimônio Mundial Natural da Unesco.
Outro tio de Huong que fugiu para
não ser morto e se separou da família durante a Reforma Agrária, ao ser
finalmente encontrado relata um outro lado da história do Vietnã: o daqueles
que que fugiram para o Sul e tiveram que lutar contra seus próprios irmãos do Norte
durante a guerra com os EUA.
O livro traz uma história do Vietnã que raramente é contada e pouco documentada, narrada a partir de dentro do país e relatada pelos que viviam no Norte. Dispomos de inúmeros relatos sobre a Guerra do Vietnã sob o ponto de vista estadunidense, mas ler este livro é conhecer o outro lado da história e ouvir a voz daqueles que habitavam o Vietnã e sofreram desde a colonização francesa, passando pela invasão japonesa, até a guerra e a reunificação do país, com todas as consequências que isto acarretou para o povo vietnamita.
Algumas observações:
Um aspecto que também me chamou a
atenção foi a descrição da Reforma Agrária. No romance, não são apenas os grandes
proprietários que se tornam alvo da violência, mas também aqueles que possuíam
pequenas propriedades ou haviam conseguido alguma estabilidade econômica. Os
primeiros a aderirem ao processo de perseguição são justamente muitos dos que
não possuíam terras ou estavam desempregados, inclusive várias pessoas que sido
ajudadas pela família de Diju Lan, e ainda assim, participam ativamente das
humilhações, da violência e das execuções públicas.
Essa passagem remete a um
fenômeno recorrente da história. Como observou Gustave Le Bon ao analisar o
comportamento das multidões, o indivíduo, quando inserido em uma turba, pode
agir de forma muito diferente daquela que teria isoladamente. Ao mesmo tempo, o
romance sugere algo igualmente humano e infelizmente recorrente: momentos de
ruptura política e social frequentemente liberam ressentimentos antigos,
invejas, rivalidades e desejos de vingança pessoal que encontram justificativa
em uma causa coletiva. Situações semelhantes aparecem em diversos contextos
históricos, como nos relatos sobre a Segunda Guerra Mundial, quando antigos
vizinhos denunciavam judeus à Gestapo não apenas por convicção ideológica, mas
também movidos por interesses pessoais, inveja ou acertos de contas. O romance
mostra com sensibilidade como as grandes transformações históricas também
revelam as zonas mais sombrias das relações humanas.
O livro aborda diferentes
períodos históricos do Vietnã:
- A colonização francesa
- A ocupação japonesa durante a
Segunda Guerra Mundial
- A Grande Fome de 1944 a 1945
- A guerra contra a França
- A Reforma Agrária no Norte, com
julgamentos públicos, execuções, confiscos de terras e campanhas de denúncias
- A divisão do país
- A Guerra do Vietnã
- A reunificação em 1975
- Os campos de reeducação, a coletivização da economia, o controle ideológico e a vigilância sobre a população.
Nguyen
Phan Qué Mai nasceu no Vietname do Norte em 1973. É uma poetisa e
romancista vietnamita.


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