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quarta-feira, 1 de abril de 2026

O DIA EM QUE TUDO FOI ARRASTADO

 

ARRASTADOS: OS BASTIDORES DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE BRUMADINHO

O maior desastre humanitário do Brasil

DANIELA ARBEX

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2022

328 páginas

“QUANDO A VIDA HUMANA ENTRA NO CÁLCULO DO LUCRO.”

O livro de Daniela Arbex traz depoimentos e detalhes da investigação efetuada após a tragédia. Os sobreviventes são conhecidos, assim como seu salvamento para quem acompanhou os acontecimentos pela televisão na época, mas no livro ouvimos deles próprios o que sentiram e pensaram no exato momento. Também acompanhamos o drama das famílias e parentes em busca de informações e, finalmente, o enfrentamento da realidade da morte de seus entes queridos.

O novo neste livro é acompanhar também os bombeiros: o que sentiram, como agiram, e conhecer toda a estratégia montada para o resgate, inclusive o trabalho do IML (Instituto Médico Legal) e as ações da própria população.  Seguimos, assim, o pós-tragédia, que além de toda a dor do luto revelou outras fraturas.

 As ações indenizatórias da Vale provocaram situações conflituosas entre os moradores. Surgiram abusos de pessoas que nada tinham a ver com a tragédia, ao mesmo tempo em que apareceram movimentos de resistência e reivindicação. Os laços sociais foram rompidos. Houve a perda do lugar, do pertencimento, de ser parte de algo ou de algum lugar. Permanece a pergunta daqueles que perderam tudo - casa, familiares, história – como seguir vivendo?

O livro também expõe as depressões, a angústia, mas igualmente a força de enfrentar tudo isso.

A narrativa termina com o resultado da investigação:  o levantamento de provas de que a Vale sabia que a barragem poderia romper a qualquer momento. A empresa chegou inclusive a calcular quanto teria de gastar em indenizações. Ainda assim, seu lucro continuaria maior – eis o ponto.

E, de fato, se no primeiro momento houve uma queda nas ações na bolsa de valores, ao final do ano a empresa fechou em alta e com lucro.

Duas tragédias - as duas maiores do Brasil: esta, humanitária; a outra, ecológica. em Mariana. E o que foi feito?

Mariana Nunca Mais.... Brumadinho Nunca mais....????


Daniela Arbex nasceu em Juiz de Fora – MG, em 1973. É uma jornalista e documentarista brasileira, dedica-se à defesa dos direitos humanos


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

UMA HISTÓRIA PLURAL DO FEMINISMO


 

FEMINISMOS: UMA HISTÓRIA GLOBAL

LUCY DELAP

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2022

336 páginas

Em Feminismos: uma história global, Lucy Delap propõe um deslocamento importante na forma de narrar a história do feminismo. Em vez de uma cronologia linear centrada na experiência europeia e norte-americana, o livro constrói uma história plural, atravessada por contextos culturais, políticos e sociais diversos, revelando o feminismo como um campo múltiplo, conflitivo e profundamente situado.

A obra percorre um amplo arco temporal, do século XVIII aos dias atuais, mas evita a narrativa clássica das “ondas” como eixo organizador exclusivo. Delap prefere estruturar o livro a partir de temas — direito ao voto, trabalho, reprodução, sexualidade, raça, classe, colonialismo, violência, ativismo — mostrando como essas questões emergem, reaparecem e se transformam em diferentes lugares do mundo. Com isso, o feminismo deixa de ser apresentado como um movimento homogêneo e passa a ser compreendido como uma constelação de lutas.

Um dos grandes méritos do livro está justamente em ampliar o mapa do feminismo. Delap nos conduz por experiências pouco conhecidas na América Latina, na África, no Oriente Médio e na Ásia, revelando como mulheres enfrentaram opressões específicas, muitas vezes em diálogo tenso com o feminismo europeu, outras vezes em confronto direto com ele. A noção de um feminismo universal é colocada em xeque, dando lugar a práticas feministas enraizadas em realidades locais.

O livro também não silencia os conflitos internos do movimento. As tensões entre feminismo branco e feminismos negros, entre classe média e mulheres trabalhadoras, entre agendas liberais e projetos radicalmente transformadores aparecem de forma clara. Delap mostra que o feminismo nunca foi um espaço consensual, mas um campo de disputas políticas e simbólicas, no qual exclusões e hierarquias também foram produzidas.

Outro aspecto relevante é a articulação entre feminismo e política institucional. O livro acompanha como as lutas feministas dialogaram com Estados, partidos, organismos internacionais e legislações, ora conquistando avanços significativos, ora sendo cooptadas, esvaziadas ou instrumentalizadas. O feminismo aparece, assim, como força transformadora, mas também vulnerável às dinâmicas do poder.

Sem idealizações, Delap reconhece os limites e contradições do feminismo ao longo da história. Ao mesmo tempo, evidencia sua capacidade de reinvenção contínua. Cada geração retoma questões antigas sob novas formas, confrontando desafios que se renovam: neoliberalismo, conservadorismos, fundamentalismos religiosos, crises democráticas.

Feminismos: uma história global é um livro fundamental para quem deseja compreender o feminismo para além de slogans ou narrativas simplificadoras. Ao revelar sua diversidade, seus conflitos e sua historicidade, a obra convida a pensar o feminismo não como identidade fixa, mas como prática política em permanente construção: sempre situada, sempre inacabada.


Lucy Delap é uma historiadora britânica especializada em Grã-Bretanha moderna, história de gênero e feminismo. 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

O QUE É LIBERDADE? ENTRE SOCIALISMO, DEMOCRACIA E CAPITALISMO

 

LIVRE: VIRANDO ADULTA NO FIM DA HISTÓRIA

LEA YPI

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

304 páginas


PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ALBÂNIA 

Em Livre: Virando Adulta no Fim da História, Lea Ypi constrói uma autobiografia profundamente atravessada pela história política da Albânia, acompanhando sua infância sob o regime socialista, a queda desse sistema, a guerra civil que se seguiu e, por fim, sua partida definitiva do país. Trata-se de um livro especialmente instigante também por seu cenário: a Albânia é um ponto quase cego da história europeia, apesar de ter sido apresentada, durante certo período, como modelo exemplar do socialismo/comunismo, o que torna a narrativa ainda mais potente ao deslocar o leitor de referências já cristalizadas.

Ypi relata uma infância aparentemente harmoniosa, marcada pela vida familiar, pela escola e pela rotina cotidiana. Para a criança que foi, tudo parecia funcionar de modo coerente e seguro, sem grandes motivos para questionamento. As fissuras surgiam apenas nas conversas entre adultos, fragmentos de falas que ela não conseguia compreender, mas que anunciavam algo silenciado. Somente após a queda do regime ela descobre a história real de sua família e compreende o silêncio que a cercava; um silêncio construído como forma de proteção, tanto dela quanto da própria família.

A partir dessa experiência, o livro avança para uma reflexão mais ampla sobre a ideia de liberdade. Ypi questiona se ela realmente existe nas democracias liberais, no capitalismo e no sistema neoliberal, mostrando como a coerção nem sempre é visível e como a liberdade pode operar como uma ilusão eficaz justamente por ser naturalizada e internalizada. Não se trata apenas de regimes políticos distintos, mas de formas diferentes de produzir obediência, adesão e consentimento.

A leitura provoca inevitáveis deslocamentos e ressonâncias com o contexto brasileiro. É impossível não pensar no silêncio que recai sobre a escravização e sobre a ditadura militar, silêncios que produzem a ignorância política que atravessa o presente. Assim como Lea, também crescemos acreditando no que nos foi ensinado na escola e na família, sem acesso às camadas ocultas da história e às violências que estruturaram o país.

O livro também conduz a uma reflexão sobre o eurocentrismo que nos legou uma ideologia branca, racista e patriarcal, ainda profundamente operante. Muitos continuam a pensar os povos indígenas como seres do passado, indolentes ou preguiçosos, e os negros como inferiores ou, pior, como inimigos sociais — imagens que seguem legitimando violências cotidianas amplamente visíveis no noticiário. A permanência dessas hierarquias revela o quanto a chamada liberdade democrática convive com formas profundas de exclusão e desumanização.

Por fim, o livro nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: qual é, afinal, a diferença? No Brasil, a palavra “comunismo” ainda provoca pânico, enquanto as formas de manipulação e coerção do sistema vigente passam quase despercebidas. Livre nos convida a percorrer o caminho inverso: se o capitalismo se apresenta como o oposto do comunismo, em que medida eles também se aproximam? Sabemos bem no que diferem, mas raramente nos perguntamos no que são semelhantes. É nesse espaço de reflexão, entre memória, silenciamento e ideologia, que o livro se inscreve com força.

Lea Ypi nasceu em 1979, em Tirana na Albânia. É escritora e professora de teoria política e filosofia. 



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

CONSCIÊNCIA FEMINISTA COMO PROCESSO HISTÓRICO

 

A CRIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA FEMINISTA

A luta de 1.200 anos das mulheres para libertar suas mentes do pensamento patriarcal

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

472 páginas

A Criação da Consciência Feminista é uma obra fundamental de Gerda Lerner, historiadora que teve papel decisivo na consolidação da História das Mulheres como campo acadêmico. Neste livro, Lerner investiga como, ao longo de séculos, mulheres foram lentamente construindo uma consciência de si enquanto grupo oprimido, apesar de viverem em sociedades estruturadas para silenciá-las, isolá-las e excluí-las da produção do conhecimento. O foco central não é apenas a opressão, mas o processo histórico pelo qual algumas mulheres conseguiram reconhecê-la, nomeá-la e, progressivamente, transformá-la em pensamento crítico e ação política.

A autora percorre um arco histórico que vai da Antiguidade ao século XIX, analisando textos, experiências religiosas, produções intelectuais e práticas sociais nas quais mulheres começaram a refletir sobre sua própria condição. Lerner demonstra que a exclusão das mulheres da educação formal e das instituições do saber não impediu completamente a produção de pensamento feminino, mas a tornou fragmentária, descontínua e muitas vezes invisibilizada. Um ponto central do livro é a ideia de que a consciência feminista não surge de forma espontânea ou individual, mas como resultado de processos coletivos, de transmissão entre mulheres e de momentos históricos específicos que permitiram brechas dentro da ordem patriarcal.

Ao longo da obra, Lerner também critica a historiografia tradicional por tratar a experiência masculina como universal, mostrando como isso distorce a compreensão da história como um todo. Ela sustenta que a consciência feminista nasce quando as mulheres passam a entender que sua condição não é natural nem imutável, mas histórica, e, portanto, passível de transformação. O livro não se propõe a narrar uma história linear do feminismo, mas a explicar as condições que tornaram possível o surgimento do pensamento feminista moderno. Trata-se de uma leitura clara, rigorosa e didática, essencial para quem deseja compreender as bases históricas do feminismo e o longo processo de construção da consciência das mulheres sobre si mesmas e sobre o mundo que as cerca.


Gerda Lerner nasceu em Viena, Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CUIDADO: UM CONCEITO QUE NÃO É UNIVERSAL

 



COSMOPOLÍTICA DO CUIDADO

Percorrendo caminhos com mulheres líderes quilombolas

NATHALIA DOTHILING

CONTRACORRENTE – 1ª ED. – 2022

120 páginas


Este livro, resultado da pesquisa realizada pela autora em duas comunidades quilombolas situadas no estado de Santa Catarina, foi essencial para que eu percebesse que a noção de cuidado, tal como pensada por mulheres brancas, difere, e muito, daquela vivida por mulheres negras, quilombolas, faveladas e até mesmo por mulheres negras nos Estados Unidos.

Aqui, o foco recai sobre as mulheres quilombolas e sobre como elas compreendem o cuidado. A primeira diferença marcante é que o trabalho doméstico realizado nas casas de mulheres que as remuneram por esse serviço não é considerado, por elas, como cuidado. A esse trabalho elas dão outro nome: servir.

O cuidado, para essas mulheres, é aquilo que realizam em suas próprias casas, com seus filhos e no interior da comunidade. A alegria que sentem quando conseguem deixar o trabalho remunerado, geralmente mal pago e exaustivo, para dedicar-se ao cuidado do próprio lar é imensa. Há prazer e afeto nesse fazer, o que difere profundamente da experiência de muitas mulheres que realizam o trabalho doméstico por obrigação, dever ou por não haver outra pessoa que o faça.

Cozinhar, limpar, cuidar dos próprios filhos, dos filhos das vizinhas e dos idosos da comunidade constitui um trabalho de cuidado que, nesse contexto, não é desvalorizado, tampouco pelos homens. Pelo contrário, trata-se de uma atividade reconhecida e respeitada. O aspecto mais interessante é que são justamente essas mulheres cuidadoras que acabam assumindo posições de liderança. Elas se tornam lideranças comunitárias, responsáveis por resolver questões políticas, participar de reuniões com a prefeitura, lutar pelo reconhecimento do território e reivindicar melhores condições de trabalho e de vida para toda a comunidade.


Nathalia Dothiling é mestra em antropologia social


MULHERES QUILOMBOLAS E A LUTA PELO TERRITÓRIO


 

DEVIR QUILOMBA

MARILÉA DE ALMEIDA

EDITORA ELEFANTE - 2022

392 páginas

Baseado na pesquisa realizada por Mariléa de Almeida, o livro aborda os quilombos no estado do Rio de Janeiro, com foco especial no protagonismo feminino. São as práticas das mulheres quilombolas que estruturam a luta pelo território, a manutenção das tradições, dos cultos e a mobilização constante pelo direito à terra — um direito que frequentemente esbarra na burocracia governamental.

O livro mostra como são essas mulheres que sustentam a vida coletiva, articulam resistências e mantêm viva a memória ancestral. A entrada das igrejas neopentecostais nas comunidades quilombolas aparece como um elemento de tensão, produzindo impactos profundos nas formas tradicionais de organização e espiritualidade. Por isso, algumas mulheres defendem com firmeza a preservação do terreiro, entendido não apenas como espaço religioso, mas como lugar de identidade, memória e pertencimento.

A autora destaca ainda a importância das griottes, as contadoras de histórias, responsáveis pela transmissão oral do conhecimento, e das práticas culturais como o jongo, que articulam corpo, memória e resistência. O livro também aborda as dificuldades enfrentadas no acesso à educação formal e critica a ausência do ensino da história da África e da população negra nas escolas, evidenciando como o apagamento histórico reforça desigualdades e fragiliza identidades.


Mariléa de Almeida nasceu em Vassouras – RJ, em 1973. É doutora em História. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COMPREENDER O RACISMO ESTRUTURAL


 

RACISMO BRASILEIRO: UMA HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DO PAÍS

YNAÊ LOPES DOS SANTOS

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

336 páginas

Racismo brasileiro: uma história da formação do país, de Ynaê Lopes dos Santos, conduz o leitor por um amplo e rigoroso percurso da história do racismo no Brasil, iniciando muito antes da invasão portuguesa e estendido até os dias atuais. A autora demonstra que o racismo não é um desvio pontual ou uma herança mal resolvida, mas um elemento estruturante da formação política, social e econômica do país.

O livro percorre o processo de escravização, a organização do sistema colonial, a chamada abolição e o destino das pessoas negras que, embora formalmente libertas, jamais foram incluídas na sociedade como cidadãs plenas. Ynaê evidencia como a ausência de políticas de integração após a abolição não foi um erro, mas um projeto, responsável por manter desigualdades profundas e persistentes. Nesse contexto, a autora analisa o ideal de embranquecimento e o papel do racismo científico, mostrando como essas teorias foram mobilizadas para justificar hierarquias raciais e orientar políticas de Estado.

Ao avançar no tempo, o livro revela as permanências dessas estruturas racistas no Brasil contemporâneo, conectando passado e presente de forma clara e contundente. A análise alcança acontecimentos recentes, como o assassinato de Marielle Franco, evidenciando como a violência racial segue operando no centro da vida política do país. Longe de oferecer uma narrativa linear ou conciliadora, Ynaê Lopes dos Santos constrói um texto que exige enfrentamento histórico e político.

Racismo brasileiro é uma leitura imprescindível para quem deseja compreender o país para além dos mitos da cordialidade e da democracia racial. Ao explicitar as raízes históricas do racismo estrutural, o livro fornece ferramentas fundamentais para entender o Brasil e suas desigualdades, tornando-se uma obra essencial para a reflexão crítica sobre nossa história e nosso presente.


Ynaê Lopes dos Santos nasceu em São Paulo em 1982. É historiadora e escritora. 


MIGRAÇÃO E TRABALHO DOMÉSTICO

 


MULHER NORDESTINA EM SÃO PAULO

Identidade – Metamorfose – Emancipação

PAULA COATTI FERREIRA

APPRIS – 1ª ED. – 2022

160 páginas

Mulher nordestina em São Paulo, de Paula Coatti Ferreira, constrói um retrato sensível e ao mesmo tempo rigoroso da trajetória de uma mulher nordestina desde a infância e o início da vida adulta no Nordeste até sua migração para o Sudeste, onde trabalhará como empregada doméstica durante toda a vida, vindo a se aposentar no Guarujá, em São Paulo. A narrativa acompanha não apenas o deslocamento geográfico, mas sobretudo o processo subjetivo e social dessa mulher, marcado por rupturas, adaptações e resistências cotidianas.

O caminho de sua emancipação e de conquista de autonomia é longo e não se dá por grandes viradas, mas por pequenas etapas acumuladas ao longo do tempo. O estudo aparece como elemento central desse processo, funcionando como instrumento de ampliação de horizontes, fortalecimento da autoestima e possibilidade concreta de transformação. No entanto, o livro não romantiza esse percurso: a emancipação é apresentada como algo lento, frágil e constantemente tensionado pelas condições materiais da vida.

Ao mesmo tempo, a obra é um retrato contundente da experiência de mulheres nordestinas que migram para o Sudeste em busca de trabalho. Preconceito, racismo, pobreza e desigualdades estruturais atravessam essa trajetória, revelando como gênero, classe e origem regional se entrelaçam para produzir formas específicas de exclusão. Mulher nordestina em São Paulo dá visibilidade a vidas frequentemente invisibilizadas, convidando o leitor a reconhecer a complexidade dessas histórias e a força silenciosa que sustenta sua sobrevivência e transformação.


Paula Coatti Ferreira é doutora em psicologia e mestre em Teologia. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

REESCREVER HOMERO A PARTIR DO SILÊNCIO


 

MULHERES DE TROIA

PAT BARKER

EXCELSIOR – 1ª ED. – 2022

267 páginas

Mulheres de Troia, de Pat Barker, é a continuação de O silêncio das mulheres. Embora possa ser lido de forma independente, a leitura em sequência aprofunda significativamente a compreensão das personagens e dos acontecimentos, ainda que a autora retome, em alguns momentos, fatos centrais do livro anterior para situar o leitor. Aqui, a guerra já terminou: os gregos venceram, Troia caiu, todos os homens e meninos estão mortos, e as mulheres sobreviventes foram transformadas em escravas.

Briseida, agora casada com Álcimo conforme determinação de Aquiles, está grávida do herói morto. O filho de Aquiles assume a liderança dos guerreiros do pai, mas, apesar de seus esforços para se igualar a ele, revela-se uma figura marcada pela insuficiência e pela insegurança. A narrativa se expande e passa a dar voz não apenas a Briseida e às personagens femininas já conhecidas, mas também a Hécuba, rainha de Troia e viúva de Príamo, a Andrômaca, viúva de Heitor, a Cassandra, filha de Príamo, além de outras mulheres troianas agora submetidas à escravidão sob o domínio dos reis gregos.

Com o fim da guerra, todos desejam retornar para casa, mas os deuses não permitem. Um vento persistente impede que os navios sejam lançados ao mar, obrigando os gregos a permanecerem nos acampamentos. O tempo se arrasta, a irritação cresce, e a tensão se acumula, tornando evidente que algo terá de ser sacrificado para apaziguar os deuses e permitir o retorno. Nesse cenário suspenso entre a vitória e a punição, Pat Barker aprofunda as consequências morais, psicológicas e simbólicas da guerra, especialmente para aqueles que não empunharam armas, mas pagaram o preço mais alto.

A releitura do clássico homérico, agora a partir das mulheres silenciadas pela tradição épica, é especialmente potente. Barker não projeta uma voz contemporânea sobre o passado; ao contrário, constrói essas narrativas dentro do contexto histórico e simbólico da época, o que torna ainda mais perturbador o contraste entre heroísmo masculino e sofrimento feminino. Mulheres de Troia não apenas revisita Homero, mas interroga o próprio modo como a história da guerra foi contada, lembrando que toda vitória carrega, em sua base, uma multidão de vozes caladas.


Pat Barker nasceu em Thornaby-on-Tees, Reino Unido, em 1943. Escritora e romancista inglesa. 


FICÇÃO COMO GESTO CRÍTICO


 

O SILÊNCIO DAS MULHERES

PAT BARKER

EXCELSIOR – 1ª ED. – 2022

304 páginas

O silêncio das mulheres, de Pat Barker, é uma releitura potente da Ilíada, de Homero, que respeita os principais eixos do relato épico, mas rompe com o silêncio imposto às mulheres na tradição clássica. Na obra original, elas aparecem de forma marginal, muitas vezes apenas mencionadas, quando não responsabilizadas pelos conflitos masculinos. Barker desloca esse olhar e traz para o centro aquelas que sempre estiveram à margem da narrativa heroica.

O livro é particularmente instigante porque enfrenta um desafio delicado: como dar voz a mulheres de um tempo que não é o nosso, sem projetar sobre elas uma consciência contemporânea? A autora resolve essa tensão com grande precisão. Em nenhum momento a leitura soa anacrônica. As mulheres não são retiradas de seu contexto histórico, nem há uma denúncia explícita ou didática das violências naturalizadas pela guerra. O fato de que, após a vitória de um lado, as mulheres do outro sejam escravizadas e usadas como objetos sexuais é apresentado como parte da ordem do mundo narrado, sem suavizações, mas também sem julgamentos externos.

A história se concentra em Briseida, tomada como prêmio de guerra por Aquiles e posteriormente arrancada dele por Agamenon, quando este é obrigado a devolver Criseida ao pai. Esse gesto desencadeia a ira de Aquiles e sua recusa em continuar lutando. A partir desse ponto conhecido da tradição homérica, Barker constrói uma narrativa que se detém no cotidiano das mulheres escravizadas pela guerra: algumas antigas rainhas, como a própria Briseida, outras mulheres comuns. O livro acompanha o que fazem, como ocupam o tempo, o que dizem entre si, como sobrevivem física e emocionalmente à derrota e à perda de tudo o que as definia.

Trata-se de uma obra de ficção, de literatura, e é justamente aí que reside sua força. Ao reler um mito fundador do Ocidente a partir das vozes silenciadas, Pat Barker realiza um gesto semelhante ao de Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano, ao retornar a um tempo distante sem violentá-lo com categorias do presente. O silêncio das mulheres não corrige Homero, mas revela aquilo que sua narrativa deixou à sombra  e, ao fazê-lo, amplia de maneira decisiva nossa forma de ler a guerra, o heroísmo e a história.


Pat Barker nasceu em Thornaby-on-Tees, Reino Unido, em 1943. Escritora e romancista inglesa. 


DESMONTANDO A JORNADA DO HERÓI COMO NORMA

 


A HEROÍNA DE 1001 FACES

O Resgate do protagonismo feminino na narrativa exclusivamente masculina da jornada do herói

MARIA TATAR

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

479 páginas

Em A Heroína de 1001 Faces, Maria Tatar parte de uma crítica direta e necessária a Joseph Campbell e ao seu clássico O Herói de Mil Faces. Não se trata apenas de apontar uma ausência incômoda — a quase inexistência de mulheres —, mas de questionar o próprio alicerce de uma narrativa que se pretende universal e que, no entanto, é profundamente masculina. A resposta de Campbell, segundo a qual às mulheres caberia o papel de mães dos heróis, torna essa exclusão ainda mais reveladora.

É a partir desse vazio que Tatar constrói seu projeto: buscar as heroínas apagadas, deslocadas ou mal interpretadas pela tradição. Daí o título provocador — 1001 faces, uma a mais, aberta ao infinito, recusando a ideia de um modelo único e normativo de heroísmo.

A autora inicia pela mitologia, revisitando figuras femininas que escapam à passividade e à função meramente auxiliar. Em seguida, avança para a literatura, destacando escritoras e suas protagonistas, personagens que não percorrem a jornada do herói tal como descrita por Campbell, mas que enfrentam desafios igualmente radicais. O percurso se expande para séries e filmes contemporâneos e culmina nas mulheres detetives, figuras que investigam, desobedecem, persistem e que pensam.

O mérito central do livro está em mostrar que o feminino não é uma versão menor do masculino. As heroínas não são menos corajosas, audaciosas ou fortes; elas apenas agem de outra forma. Muitas vezes não partem para conquistar territórios, mas para preservar vínculos; não buscam a glória individual, mas a sobrevivência coletiva; não vencem monstros externos sem antes enfrentar violências íntimas, sociais e simbólicas.

Tatar não propõe substituir um modelo por outro, nem criar uma nova fórmula rígida para o protagonismo feminino. Ao contrário, seu gesto é abrir o campo narrativo, mostrando que existem múltiplas formas de atravessar o perigo, o medo e a transformação. Ao fazer isso, o livro também nos convida a reler as histórias que consumimos — mitológicas, literárias ou audiovisuais — com um olhar mais atento às exclusões que naturalizamos.

A Heroína de 1001 Faces é um livro instigante, que valeu a leitura justamente por desmontar uma das narrativas mais consagradas do século XX e por devolver às mulheres o direito de serem não apenas origem, mas sujeito da aventura.


Maria Tatar nasceu em Pressath, Alemanha, em 1945. Naturalizou-se em 1956 como cidadã estadunidense. É uma acadêmica.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

PENSAR FORA DO CÂNONE OCIDENTAL

 


AS MENTIRAS DO OCIDENTE

DAGOBERTO JOSÉ FONSECA (ORG.)

SELO NEGRO EDIÇÕES – 1ª ED. - 2022

192 páginas


O livro é composto por capítulos escritos por diversos autores que demonstram aquilo que foi ocultado, apropriado e desprezado pelo Ocidente. A obra começa questionando a narrativa consagrada de que a filosofia teria nascido exclusivamente na Grécia, mostrando que suas origens estão também no Egito.

Ao longo dos textos, os autores evidenciam que a filosofia não se reduz a um único modo de pensar, nem à razão cartesiana como única forma legítima de racionalidade. Existem várias lógicas possíveis, e muitas delas foram sistematicamente silenciadas. Nesse sentido, o livro apresenta filosofias africanas e demonstra como elas constituem verdadeiras cosmovisões, formas completas de compreender o mundo, a vida e as relações humanas.

Trata-se de uma leitura fundamental para quem deseja deslocar certezas, conhecer outros pensamentos e romper com o monopólio epistemológico ocidental. Um livro que amplia horizontes e convida a pensar para além do cânone.


Dagoberto José Fonseca tem graduação, mestrado e doutorado em Ciências Sociais


sábado, 14 de fevereiro de 2026

UMA RAINHA AFRICANA CONTRA A EXPANSÃO IMPERIAL ROMANA

 


CANDÁCIA AMANIRENAS: A MULHER QUE ENFRENTOU ROMA

JOSÉ MIGUEL

PUBLICAÇÃO PRÓPRIA – 1ª ED. – 2022

85 páginas

Este pequeno livro apresenta, de forma romanceada, a história de Amanirenas, a Candace que ousou enfrentar o Império Romano. O autor parte de fatos históricos comprovados e preenche as lacunas com diálogos e cenas imaginadas. Ainda que esse recurso — mesmo quando verossímil — nem sempre me agrade, a leitura se mostrou interessante justamente por permitir recriar a presença histórica de uma grande mulher quase ausente das narrativas clássicas.

Amanirenas foi uma rainha Candace do Império de Cuxe, governando entre o final do século I a.E.C. e o início do século I E.C. Nesse mesmo período, Otaviano Augusto consolidava seu poder em Roma após derrotar Cleópatra e anexar o Egito ao Império. O próximo passo de sua expansão era avançar sobre a Núbia — projeto que encontrou uma resistência inesperada.

O livro reconstrói o confronto entre Roma e Cuxe como um embate desigual apenas em aparência. Amanirenas surge como uma líder estrategista, corajosa e determinada, capaz de organizar a resistência militar e política contra uma das maiores potências da Antiguidade. A guerra durou cerca de três anos, e, contra todas as expectativas romanas, ela conseguiu deter o avanço do Império para o sul da África.

Mais do que uma narrativa de guerra, o texto chama atenção para a própria figura das Candaces — título feminino de poder, ainda pouco conhecido e pouco documentado. Justamente por termos tão poucas informações sobre essas rainhas, a leitura ganha valor: ela não substitui a pesquisa histórica, mas desperta interesse, curiosidade e desejo de saber mais sobre uma história africana que raramente ocupa espaço central nos livros.

Mesmo com as limitações do formato romanceado, Candácia Amanirenas cumpre um papel importante: retira do silêncio uma mulher que enfrentou Roma e venceu ao menos aquilo que mais sustenta os impérios: a ideia de que sua expansão é inevitável. Ao recuperar essa trajetória, o livro nos lembra que a Antiguidade não foi feita apenas de imperadores, mas também de mulheres africanas que governaram, lutaram e decidiram o destino de seus povos.


José Miguel nasceu no Rio de Janeiro. Escritor brasileiro 


QUANDO DIVERSIDADE NÃO BASTA: A URGÊNCIA DA INCLUSÃO REAL

 


IMPERFEITOS: um relato íntimo de como a inclusão e a diversidade podem transformar vidas e impactar o mercado de trabalho

JULIE GOLDCHMIT

MAQUINARIA EDITORIAL – 1ª ED. – 2022

156 páginas 

Este livro é o relato da trajetória de Julie — uma jovem inteligente, capaz, dedicada e persistente. Costuma-se acrescentar a essa frase um “mas”: mas ela é autista. Esse “mas”, no entanto, revela mais sobre a sociedade do que sobre Julie. Ele denuncia a dificuldade coletiva de aceitar que pessoas são diferentes, inclusive aquelas consideradas “normais”. Tudo o que escapa ao padrão hegemônico tende a ser classificado como anormal, deficiente, doente ou problemático.

Julie teve algo fundamental: uma família que a acolheu sem vitimizá-la. Seus pais a protegeram quando necessário, mas sobretudo a incentivaram a seguir, a tentar, a não desistir, mesmo diante de obstáculos severos, da maldade humana e de crises intensas de ansiedade. Quando criança, ouviu de um médico que provavelmente nunca falaria nem andaria. Sua mãe simplesmente não aceitou esse veredicto e Julie falou, andou e construiu seu próprio caminho.

O período escolar foi particularmente difícil. As diferenças no ritmo de aprendizado e na forma de compreender o mundo a colocaram em constante tensão com um sistema educacional que, apesar do discurso de inclusão, raramente está preparado para lidar com a diversidade real. O bullying esteve presente, mas Julie conseguiu concluir o ensino médio. A faculdade, no entanto, foi descartada: um ambiente que exige autonomia plena e oferece pouca segurança não parecia, naquele momento, um espaço possível. A alternativa foi o mercado de trabalho.

É nesse ponto que o livro se torna especialmente incisivo. Julie relata, com clareza e honestidade, o abismo entre diversidade e inclusão. Muitas empresas afirmam valorizar a diversidade, mas não constroem condições reais para que pessoas diferentes permaneçam, cresçam e contribuam. Ela foi alvo da crueldade de uma chefe incapaz de compreender suas necessidades, mas também encontrou outra que a ensinou, a respeitou e reconheceu seu potencial.

Quando precisou deixar o emprego em um banco devido à mudança da sede, Julie enfrentou meses de busca por trabalho marcados pelo preconceito e pela incompreensão de recrutadores e departamentos de RH. A lógica das cotas — cumprir a exigência legal e encerrar o assunto — aparece como um dos grandes limites da inclusão contemporânea. Ainda assim, ela encontrou, finalmente, uma empresa que oferecia o que era essencial: estrutura, apoio, compreensão e uma verdadeira rede de acolhimento. Ali, pôde trabalhar de fato, contribuir, produzir, como sempre foi capaz de fazer.

Ao longo de sua trajetória, Julie encontrou pessoas generosas, amigas verdadeiras, mas também o que há de mais duro no preconceito humano. O livro intercala sua narrativa com apartes sobre legislações e reflexões a respeito de pessoas autistas e de pessoas com deficiências físicas e mentais, categorias que, muitas vezes, servem mais para limitar do que para compreender.

Imperfeitos nos lembra de algo fundamental: pessoas diferentes continuam sendo sujeitos de suas próprias vidas. São capazes de criar, trabalhar, estudar e produzir, desde que encontrem ambientes que não as violentem em nome da normalidade. Mais do que uma autobiografia, este é um livro que interpela o mercado de trabalho, as instituições e cada um de nós.


Julie Goldchmit é brasileira e assistente de marketing