sábado, 7 de fevereiro de 2026

A LITERATURA QUE SE ESCREVE SOBRE SI MESMA

 


A MAIS RECÔNDITA MEMÓRIA DOS HOMENS

MOHAMED MBOUGAR SARR

FÓSFORO – 1ª ED.  2023

400 páginas 

Magistral! Há muito tempo não lia algo tão rico, um livro que celebra a própria literatura em cada página. Mohamed Mbougar Sarr cria uma narrativa que é, simultaneamente, investigação, reflexão e homenagem à escrita. Tudo começa com a busca de um autor desaparecido, cujo livro, celebrado na França, passou a ser acusado de plágio. E é nesse jogo de autoria, reconhecimento e intertextualidade que Sarr opera com incrível precisão: há trechos que evocam outros autores, seja propositalmente, seja como gesto literário de diálogo com a tradição.

O romance dialoga com múltiplos registros: pode-se notar elementos de realismo mágico, embora seja complicado reduzir a experiência africana a esse rótulo, dada a riqueza de mitos, superstições, adivinhos e visões que atravessam o continente. Há cenas memoráveis, como a de um Cristo pintado na parede, que funcionam como símbolos de presença e ausência, fé e memória. Outro recurso notável é o uso de biografemas, termo proposto por Roland Barthes: informações que os personagens desconhecem, mas que o leitor recebe, permitindo uma compreensão mais ampla dos acontecimentos e uma experiência de leitura quase de cumplicidade com o autor. É como se pudéssemos sussurrar aos personagens o que eles não sabem, completando a narrativa por fora da consciência deles.

A história se encadeia aos poucos, entre França, Argentina, África e Holanda, na busca pelo autor desaparecido. Essa travessia geográfica e temporal não é apenas física: ela toca as tragédias do colonialismo, do holocausto, e das violências que moldam a memória coletiva. A narrativa constrói, passo a passo, um mosaico literário e histórico que exige do leitor atenção e entrega, mas recompensa com uma experiência literária intensa e múltipla.

No fim, A mais recôndita memória dos homens é mais que um romance: é uma ode à literatura, à escrita, à memória e ao diálogo entre passado e presente, entre autores e leitores, entre culturas e histórias que insistem em atravessar o tempo.



Mohamed Mbougar Sarr nasceu no Senegal em 1990 e vive na França. Recebeu o prêmio Goncourt pela A Mais Recôndita Memória dos Homens. 

A FORÇA SILENCIOSA DE EUNICE PAIVA


 

AINDA ESTOU AQUI

MARCELO RUBENS PAIVA

ALFAGUARA – 1ª ED. 2015

296 páginas 

Não assisti ainda ao filme, mas diante de toda a repercussão recente, confesso que esperava mais do livro. Ainda estou aqui tem sido amplamente mobilizado no debate público como uma obra sobre a ditadura militar, mas, na leitura, essa dimensão aparece de forma relativamente limitada e, em certos momentos, até repetitiva.

A prisão e o assassinato de Rubens Paiva ocupam menos espaço do que se poderia supor. Os episódios ligados à repressão retornam ao longo do texto, mas sem grande aprofundamento histórico ou político, o que contrasta com a centralidade que o tema ganhou na mídia. A ditadura está ali, sem dúvida, mas não é esse o núcleo mais potente do livro.

O que realmente se impõe como experiência literária e afetiva é o relato do Alzheimer de Eunice Paiva. É um texto pungente, delicado, por vezes devastador. Se é possível usar essa palavra diante de uma doença tão cruel, trata-se de um relato “belíssimo”, justamente por sua contenção e honestidade. O apagamento progressivo da memória, a inversão de papéis entre mãe e filhos, a perda cotidiana e irreversível da pessoa que se ama é narrado com uma sensibilidade que sustenta o livro.

Chama atenção, no entanto, o pouco espaço dedicado à vida de Eunice entre a prisão do marido e o início da doença. Há apenas apontamentos: sua formação em Direito, sua atuação na defesa dos povos indígenas, a conquista de autonomia e independência. Eunice era uma mulher de classe média alta, dona de casa, inserida em um casamento tradicional, cuja vida foi abruptamente virada do avesso. Essa transformação — talvez uma das mais fortes — permanece quase como pano de fundo.

O livro toca em um ponto delicado e raramente explorado: a raiva que Eunice sentiu do marido. Uma raiva legítima, complexa, que conviveu com a lealdade, a defesa incansável de sua memória e a luta por justiça. Essa ambivalência humaniza a personagem e rompe com qualquer idealização fácil.

Até hoje, não se sabe exatamente do que Rubens Paiva foi acusado. No livro, a explicação apresentada envolve uma correspondência vinda do Chile com seu nome, destinada a outra pessoa. Ainda assim, a violência foi extrema e rápida. Muitos morreram nos porões da ditadura, mas esse caso se destaca pela brutalidade concentrada em poucas horas. Não há registro de delação. Eunice foi presa junto com a filha; a menina foi libertada rapidamente, enquanto Eunice permaneceu dias encarcerada. Mesmo sem agressão física direta, trata-se de tortura psicológica, e isso também destrói.

No fundo, Ainda estou aqui é menos um livro sobre a ditadura e mais um livro sobre uma mulher. Uma mulher que, de um dia para o outro, precisou se emancipar. Que perdeu o marido, o amparo financeiro, a posição social e a segurança. Sem pensão, já que Rubens Paiva foi declarado fugitivo e não morto, ela assumiu sozinha a criação dos filhos, o sustento da família e a reconstrução de si mesma.

Vou assistir agora ao filme — já ouvi que ele enfatiza muito mais a ditadura. Resta ver como essa escolha desloca o centro da narrativa. O livro, ao menos, permanece como o retrato de uma força feminina silenciosa, construída na perda, na raiva contida e na resistência cotidiana.



Marcelo Rubens Paiva nasceu em São Paulo em 1959. É escritor, dramaturgo e roteirista 

RACISMO, COLONIZAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

 


PELE NEGRA, MÁSCARAS BRANCAS

FRANTZ FANON

UBU EDITORA - 2020

320 páginas 

Em Peles Negras, Máscaras Brancas, Frantz Fanon apresenta uma análise profunda da opressão racial, da colonização e da construção da subjetividade negra no mundo moderno. Escrito em 1952, o livro permanece assustadoramente atual, ao mostrar como a violência simbólica e psicológica do racismo atravessa não apenas o espaço social, mas também o interior da mente daqueles que são subjugados.

Fanon argumenta que o negro colonizado se vê constantemente pressionado a assumir uma identidade imposta pelo colonizador. A máscara branca não é apenas a tentativa de se conformar à norma europeia; é também o esforço de se tornar visível e aceito em um mundo que desvaloriza sua própria cultura. Essa imposição gera frustração, alienação e conflitos internos: sentir-se inferior e, ao mesmo tempo, desejar ser reconhecido pelo sistema que oprime.

O livro é também um estudo sobre linguagem, cultura e desejo de assimilação. Fanon mostra como o negro aprende a falar, agir e pensar conforme padrões europeus, acreditando que isso é a condição para ser considerado humano e digno. A psicologia do racismo não se limita à brutalidade física, mas atua na intimidade da subjetividade, moldando medos, ansiedades e relações afetivas.

Ao mesmo tempo, Fanon evidencia as estratégias de resistência e afirmação identitária. Reconhecer a máscara, compreendê-la e questioná-la é o primeiro passo para reconstruir uma identidade própria, livre da submissão internalizada. O autor antecipa debates contemporâneos sobre identidade, autoestima e negritude, mostrando que a luta contra o racismo não é apenas coletiva, mas também profundamente pessoal.

A obra transcende o campo da psicologia: é uma crítica social, política e cultural. Fanon denuncia que o racismo não é apenas preconceito individual, mas estrutura de dominação que atravessa instituições, modos de vida, educação e cultura. Ao mesmo tempo, aponta caminhos de conscientização, resistência e emancipação, oferecendo um olhar teórico para compreender a opressão e a possibilidade de superá-la.

Peles Negras, Máscaras Brancas é, portanto, um clássico indispensável para quem deseja entender a complexidade do racismo, o impacto psicológico da opressão e a urgência da construção de uma subjetividade negra afirmativa e livre. Um livro que desafia o leitor branco a reconhecer sua posição no sistema de dominação e o leitor negro a questionar a internalização da opressão, sem perder de vista a luta coletiva.



Frantz Fanon nasceu em Fort-De-France, Martinica, em 1925 e faleceu em Bethesda, Maryland, EUA, em 1961. Foi um psiquiatra e filósofo político natural das Antilhas francesas que exerceu expressiva influência nos estudos pós-coloniais, na teoria crítica e no marxismo. 

UM ROMANCE SOBRE OS LIMITES DA CIVILIZAÇÃO

 


NADA MAIS SERÁ COMO ANTES

MIGUEL NICOLELIS

PLANETA MINOTAURO – 1ª – 2024

512 páginas 

Miguel Nicolelis é conhecido sobretudo como cientista. Sua obra, até aqui, sempre esteve ligada à divulgação científica, às neurociências e à reflexão sobre os limites e as responsabilidades da ciência contemporânea. Em Nada mais será como antes, ele faz um deslocamento significativo: decide escrever um romance de ficção científica. A motivação, segundo o próprio autor relata em entrevistas, nasce de um dilema muito concreto — como alcançar um público mais amplo para falar dos perigos reais que ameaçam nossa civilização.

A aposta na ficção não significa fuga da realidade. Pelo contrário. O romance se constrói a partir de fatos históricos, personagens reais e outros ficcionais, mas o que está em jogo não é a imaginação livre, e sim a tradução narrativa de diagnósticos científicos bastante precisos. A ficção funciona aqui como estratégia de comunicação e como dispositivo de alerta.

A trama se organiza em torno de dois personagens centrais — um matemático e uma neurocientista — que conduzem o leitor por aquilo que a ciência efetivamente sabe sobre o presente e sobre os riscos que se acumulam no horizonte. Embora o cenário seja projetado no futuro, o reconhecimento é imediato: muitos dos elementos descritos já fazem parte do nosso cotidiano, enquanto outros estão em processo de gestação e podem ter consequências profundamente destrutivas para a humanidade.

O romance é bem construído e mantém o interesse do início ao fim. A narrativa se desloca por diferentes espaços — Suíça, Egito antigo e contemporâneo, São Paulo, Estados Unidos, Amazônia — compondo um mosaico global que reforça a ideia de interdependência planetária. Nada acontece de forma isolada: crises ambientais, decisões financeiras, avanços tecnológicos e colapsos éticos se entrelaçam.

Entre os temas abordados estão o meio ambiente, a inteligência artificial, o mercado financeiro e, de maneira mais profunda, questões filosóficas como ética, moral, vida e morte. Nicolelis não oferece respostas fáceis nem soluções messiânicas. O que ele propõe é um exercício de lucidez: reconhecer que o conhecimento científico já aponta limites claros e que a insistência em ignorá-los pode nos conduzir a um ponto de não retorno.

Nada mais será como antes é, acima de tudo, um livro de advertência. Ao recorrer à ficção, Nicolelis amplia o alcance de uma mensagem que há muito circula nos meios científicos, mas raramente atravessa o debate público com a urgência necessária. Trata-se de uma leitura envolvente, inquietante e necessária — daquelas que não se encerram na última página, mas continuam ecoando depois.



Miguel Nicolelis nasceu em São Paulo em 1961. É um médico, neurocientista e pesquisador brasileiro amplamente reconhecido como como  um dos pioneiros mundiais no campo das interface cérebro-computador e das neuropróteses. 

UMA VIDA VIVIDA FORA DE LUGAR

 


FORA DO LUGAR: MEMÓRIAS 

EDWARD SAID

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2004.

448 páginas 


Edward Said é amplamente conhecido por Orientalismo, obra fundamental para a crítica ao eurocentrismo e às formas pelas quais o Ocidente construiu discursivamente o chamado “Oriente”. Em Fora do Lugar, no entanto, ele desloca o foco: trata-se de uma autobiografia da infância e da juventude, vividas sobretudo entre o Cairo e o Líbano, marcada por desenraizamento, disciplina, medo e inadequação constante.

A leitura causa, em muitos momentos, um certo espanto. Said descreve uma infância atravessada por uma relação difícil com os pais: uma mãe manipuladora, emocionalmente instável, e um pai autoritário, profundamente patriarcal, cuja rigidez produziu nele medo e traumas duradouros. Esses episódios não aparecem como simples memórias pessoais, mas como marcas psíquicas que o acompanharam por toda a vida. Said retorna a elas diversas vezes, como se tentasse compreender de que modo o sentimento de não pertencimento se enraizou tão cedo.

Muito antes da consolidação do pensamento decolonial como campo teórico, Said já afirmava algo decisivo: o Oriente não existe como essência, mas como construção do olhar ocidental. Em Fora do Lugar, ainda não encontramos a formulação sistemática dessa crítica, mas é possível acompanhar o seu nascimento. A experiência de viver entre línguas, culturas e sistemas educacionais distintos — sempre como alguém deslocado, nunca plenamente integrado — constitui a matriz sensível de suas ideias futuras.

A autobiografia também se cruza com a história política do século XX. Said relata a trajetória de sua família palestina e o impacto da expulsão dos palestinos de suas terras com a criação do Estado de Israel, processo imposto sem levar em conta a população local. A perda, o exílio e a violência simbólica e material desse evento atravessam o livro e ressoam de maneira dolorosamente atual. Não se trata apenas de memória individual, mas de uma história coletiva marcada pela injustiça e pelo apagamento.

Escrito quando Said já enfrentava um câncer e se encontrava próximo do fim da vida, Fora do Lugar carrega um tom de balanço existencial. Não é um livro de vitórias, mas de exposição de fragilidades. Ao acompanhar a formação emocional e intelectual de Said, o leitor compreende melhor o alcance e a urgência de suas obras. Ler esta autobiografia é perceber que sua crítica ao imperialismo cultural não nasce apenas da teoria, mas de uma vida inteira vivida na fronteira, sob a experiência constante de não pertencimento.

É uma leitura que não idealiza o autor, mas o humaniza — e, justamente por isso, ilumina com mais profundidade sua obra crítica.


Edward Said nasceu em Jerusalém em 1935 e faleceu em Nova Iorque, EUA, em 2003. Foi um acadêmico, crítico literário e ativista político palestino. Esteve entre os fundadores dos estudos pós-coloniais


A PEDAGOGIA DO ÓDIO E A CRISE DA ÉTICA

 


JUVENTUDE SEM DEUS

ÖDÖN VON HORVÁTH

TODAVIA – 1ª ed. – 2024

176 páginas 

Juventude sem Deus foi o último livro lido em 2024 — e não poderia ser mais contundente como fechamento de um ano marcado por retrocessos e radicalizações. Ödön von Horváth, escritor nascido na atual Croácia, morreu tragicamente em 1938, em Paris, ao ser atingido por um galho durante uma tempestade. Sua morte precoce interrompeu uma obra que já se mostrava profundamente crítica e lúcida diante da ascensão do fascismo europeu.

O livro é curto, mas de uma densidade inquietante. Trata-se de uma narrativa escrita como advertência, quase um diagnóstico moral, sobre a Alemanha que se deixava seduzir pelo nazismo. A história é conduzida pelo ponto de vista de um professor que, ao corrigir redações escolares, se depara com uma frase brutal: “negros não são humanos”. Ao tentar corrigir o aluno e afirmar o óbvio — a humanidade comum —, o professor se vê transformado em inimigo.

A reação não vem apenas dos estudantes, mas sobretudo dos pais, que se mobilizam contra ele. Um abaixo-assinado pede sua expulsão da escola. A cena, embora situada nos anos 1930, soa assustadoramente atual: professores perseguidos por abordar temas considerados “ideológicos”, seja o marxismo, a história dos movimentos sociais, a sexualidade, as identidades de gênero ou qualquer assunto que desestabilize a moral conservadora. Horváth antecipa, com precisão quase profética, a lógica da censura travestida de defesa da família e da ordem.

Não por acaso, o livro foi proibido na Alemanha nazista e publicado inicialmente na Holanda. O pano de fundo da narrativa é a juventude hitlerista: jovens moldados pelo discurso radiofônico do regime, fascinados por armas, disciplina e obediência. O professor acompanha um grupo de alunos a um acampamento onde aprendem a atirar — e é nesse ambiente que ocorre um assassinato. A partir desse crime, a trama se adensa e coloca o protagonista em uma situação moralmente insustentável.

A culpa emerge como tema central. Não apenas a culpa individual ligada ao crime, mas uma culpa difusa, coletiva, que atravessa uma sociedade inteira. O professor vive uma crise de consciência diante de uma juventude que normaliza a violência, o racismo e a exclusão, e diante de um sistema que pune quem ainda tenta pensar criticamente. Sua fragilidade não é covardia: é o retrato de alguém que percebe, tarde demais, o quanto o mal se torna banal quando sustentado por instituições, famílias e discursos oficiais.

Juventude sem Deus não é apenas um romance sobre o nazismo; é um livro sobre o colapso ético de uma sociedade. Seu impacto reside justamente nisso: ele não aponta monstros isolados, mas mostra como o autoritarismo se instala no cotidiano, na escola, na linguagem, na formação dos jovens. Ler Horváth hoje é reconhecer que a história não se repete de forma idêntica, mas rima — e, muitas vezes, rima de forma perigosa.


Ödön von Horváth nasceu na Croácia, em 1901 e faleceu em Paris em 1938. Estudou teatro e se estabeleceu como dramaturgo em Berlim, onde escrevia peças que satirizavam e criticavam tanto a história alemã quanto o momento sociopolítico em que vivia.


JANE EYRE — INDEPENDÊNCIA FEMININA NO CORAÇÃO DO ROMANCE VITORIANO

 


JANE EYRE

CHARLOTTE BRONTË

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2015

780 páginas 

Publicado em pleno período vitoriano, Jane Eyre nasce em uma sociedade rigidamente estruturada pelo moralismo puritano, pela divisão de classes e por uma ética religiosa que regulava, de forma especialmente severa, o comportamento feminino. Trata-se de uma Inglaterra atravessada por contradições: prosperidade econômica impulsionada pela Revolução Industrial e pelo imperialismo, mas também miséria urbana, exploração do trabalho e exclusão social. Charlotte Brontë, filha de um pastor anglicano, escreve a partir desse mundo — e contra ele.

A presença da religião é constante na obra, seja por meio de referências bíblicas, seja pela linguagem moral que atravessa os dilemas dos personagens. No entanto, o que torna Jane Eyre um romance profundamente inquietante para seu tempo é justamente a forma como Brontë constrói uma protagonista feminina que não se limita a internalizar essa moral. Jane busca, ao longo de toda a narrativa, não apenas a sobrevivência material, mas sobretudo uma independência mental e intelectual. Ela pode obedecer exteriormente, mas sua consciência permanece indomável.

Desde a infância, Jane se recusa a aceitar a humilhação imposta pela madrasta e os filhos desta. Sua rebeldia não é estridente, mas firme: nasce da recusa em naturalizar a injustiça. Enviada para uma escola de órfãs, onde permanece por oito anos — primeiro como aluna, depois como professora —, ela experimenta tanto a disciplina rígida quanto a formação intelectual que lhe permitirá, mais tarde, agir por conta própria. Quando decide partir, não espera ser escolhida: toma a iniciativa de procurar trabalho sozinha.

Ao se tornar governanta e preceptora de Adèle, Jane ocupa um dos poucos espaços socialmente aceitáveis para mulheres sem fortuna, mas com alguma educação. É nesse território ambíguo — entre o serviço doméstico e a respeitabilidade — que ela conhece o Sr. Rochester. A relação entre ambos é marcada por tensão: ele é autoritário, áspero, moldado por privilégios masculinos e por um passado de sofrimento; ela, por sua vez, recusa o lugar da submissão emocional. O amor que surge ali não é idealizado: é conflituoso, atravessado por desigualdades e por um segredo que inviabiliza a união.

Quando Jane parte, ela o faz para não trair a si mesma. Passa por dificuldades extremas, até receber uma herança que lhe garante autonomia material — elemento decisivo, mas não suficiente, para suas escolhas. Ao recusar um casamento que lhe exigiria anular seus desejos e sua integridade, Jane afirma algo radical para o século XIX: não basta ser escolhida, é preciso escolher.

O retorno final a Rochester não representa uma capitulação romântica, mas um reencontro em novas condições. Jane volta quando pode amar sem abdicar de si. Jane Eyre não é apenas um romance de formação ou uma história de amor: é a narrativa de uma mulher que insiste em existir como sujeito, em um mundo que sistematicamente tenta reduzi-la ao silêncio.



Charlotte Brontë nasceu em Thornton em 1816 e faleceu em Haworth em 1855. Foi uma escritora britânica. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENTRE O AMOR AO MUNDO E O MAL


 

ARENDT: ENTRE O AMOR E O MAL: UMA BIOGRAFIA

ANN HEBERLEIN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2021

256 páginas 

Talvez por já ter lido a biografia de Hannah Arendt escrita por Laure Adler, este livro de Ann Heberlein soe, em muitos momentos, como uma rememoração mais condensada da vida e do pensamento dessa autora fundamental — que, vale lembrar, nunca se sentiu confortável com o título de filósofa, preferindo se definir como estudiosa das ciências políticas. Ainda assim, a biografia não se reduz a uma repetição: há deslocamentos significativos e escolhas interpretativas que merecem atenção.

O que surge como novidade mais contundente são os trechos dedicados à entrevista concedida por Arendt a Günter Gaus, especialmente quando ela é interrogada sobre Eichmann em Jerusalém — obra que provocou (e ainda provoca) enorme polêmica. Diante das críticas, Arendt sustenta uma posição que lhe foi característica ao longo de toda a vida: a verdade precisa ser dita, independentemente das reações que possa suscitar. Não se trata de provocação, mas de responsabilidade intelectual.

É justamente essa postura que faz de Arendt uma pensadora singular. Sua recusa em partir de posições ideológicas prévias, sua insistência em se ater aos fatos, ao que é visto, estudado e analisado, confere à sua obra uma força rara. Arendt consegue manter uma impressionante imparcialidade mesmo quando pensa acontecimentos que atravessaram diretamente sua própria vida — o exílio, o antissemitismo, o totalitarismo. Essa capacidade de pensar sem concessões, sem alinhamentos automáticos, é talvez uma de suas maiores marcas.

Heberlein apresenta com clareza essa perspicácia arendtiana: a atenção ao detalhe, a recusa da simplificação moral, a coragem de sustentar análises desconfortáveis. O livro percorre os principais eixos da vida da autora — suas relações intelectuais e afetivas com Karl Jaspers e Martin Heidegger, sua condição de judia durante a Segunda Guerra Mundial, o exílio e a reconstrução da vida intelectual nos Estados Unidos — compondo um retrato que articula pensamento, experiência e contexto histórico.

O posfácio de Heloísa Starling, dedicado às distopias e a As Origens do Totalitarismo, amplia ainda mais o alcance da obra, conectando Arendt ao presente e mostrando a atualidade inquietante de suas reflexões. Não se trata apenas de uma leitura retrospectiva, mas de um convite a pensar o nosso próprio tempo.

O grande mérito desta biografia está justamente em sua concisão. Em um número reduzido de páginas, o livro oferece o essencial de Hannah Arendt: sua trajetória, suas ideias centrais, suas relações intelectuais, sua vida pessoal e política. Não substitui leituras mais extensas, mas funciona como uma porta de entrada sólida — ou como um retorno bem articulado para quem já a conhece.

É uma leitura que vale a pena, sobretudo por recolocar em primeiro plano aquilo que talvez mais falte hoje: o compromisso radical com a verdade, mesmo quando ela nos desagrada.



Ann Heberlein nasceu em Malmö, Suécia, em 1970. É escritora e doutora em teologia e ética

ECOLOGIA, MULHERES E RESISTÊNCIA NO QUÊNIA

 


INABALÁVEL

WANGARI MAATHAI

NOVA FRONTEIRA – 1ª ED. 2007.

400 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - QUÊNIA 

Inabalável é a autobiografia de Wangari Maathai e o relato de uma luta que articula ecologia, política e justiça social no Quênia. Ao narrar sua própria trajetória, Maathai expõe os efeitos profundos da imposição colonial: a substituição de culturas tradicionais por monoculturas lucrativas, o desmatamento em larga escala e suas consequências diretas sobre o solo, o meio ambiente, os animais e, sobretudo, sobre a vida humana, marcada pela fome e pelo desemprego.

O livro começa na infância, acompanhando o cotidiano familiar, as dificuldades econômicas e os deslocamentos impostos pela busca de trabalho. Wangari retorna com a mãe e a irmã à região de origem para poder estudar, já que onde o pai trabalhava não havia escolas. Sua formação tem início em um colégio católico, experiência que a colocará em contato direto com a educação colonial e suas contradições.

Seu percurso acadêmico é notável. Impedida de ingressar na Universidade da África Oriental, ela recebe uma bolsa da Fundação Kennedy e parte para os Estados Unidos, onde obtém o bacharelado em biologia. Em seguida, conclui o mestrado na mesma área, passa pela Alemanha, trabalhando com medicina veterinária, e retorna ao Quênia. Em 1971, torna-se a primeira mulher a obter um doutorado pela Universidade de Nairóbi, onde passa a lecionar anatomia veterinária.

A entrada na política marca uma ruptura decisiva em sua vida. Ao candidatar-se ao Parlamento, Wangari perde o cargo na universidade, enfrenta perseguições institucionais e vê seu casamento se desfazer. É um período de grande vulnerabilidade pessoal e material. Ainda assim, o livro deixa claro que a ideia de recuo nunca se impõe como opção real. A inabalabilidade do título não é retórica: é prática cotidiana de resistência.

Ao perceber a relação direta entre desmatamento, empobrecimento do solo, fome e exclusão social — especialmente das mulheres — Wangari funda, em 1977, o Movimento Cinturão Verde, voltado ao plantio de árvores nativas. A iniciativa, simples em aparência, confronta diretamente os interesses do Estado e das elites econômicas. Por isso, ela enfrenta perseguição política, violência e prisão. Ainda assim, persiste.

Inabalável é também um livro sobre mulheres: sobre como são elas as primeiras a sentir os efeitos da degradação ambiental e as últimas a serem ouvidas nas decisões políticas. A luta ecológica, aqui, não é separável da luta feminista, nem da crítica ao colonialismo e às suas permanências.

Em 2004, Wangari Maathai recebe o Prêmio Nobel da Paz. Mais do que um reconhecimento individual, o prêmio simboliza a legitimidade de uma luta que fez diferença concreta na vida de milhares de pessoas no Quênia. Wangari faleceu em 2011, em Nairóbi, vítima de câncer, deixando como legado a prova de que ecologia, política e cuidado com a vida não podem ser pensados separadamente.



Wangari Maathai nasceu em lite, Nieri, Nairóbi,  em 1940 e faleceu em Nairóbi em 2011. Foi uma ativista política do meio ambiente do Quênia. Foi a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz em 2004. 

A CORAGEM DE FALAR, A FORÇA DE TRANSFORMAR


 

IRMÃ OUTSIDER: ENSAIOS E CONFERÊNCIAS

AUDRE LORDE

AUTÊNTICA – 1ª – 2019.

240 páginas 

Em Irmã Outsider, Audre Lorde nos apresenta uma obra que é ensaio, manifesto e testemunho, reunindo textos e discursos que atravessam décadas de luta contra o racismo, o sexismo, a homofobia e todas as formas de opressão interligadas. Lorde, poeta, feminista e militante negra, constrói neste livro um corpo teórico e político que se sustenta na experiência pessoal e na ação coletiva, provando que a subjetividade é sempre também território de resistência.

A força do livro está na interseccionalidade antes mesmo do termo se popularizar: Lorde não separa raça, gênero, sexualidade ou classe. Pelo contrário, mostra como a opressão é múltipla e como a luta também deve ser integrada. Ser mulher negra lésbica nos Estados Unidos, nos anos 70 e 80, significava enfrentar barreiras que se reforçavam mutuamente — e Lorde analisa cada uma delas com rigor, sensibilidade e coragem.

Um dos textos centrais, “A transformação do silêncio em linguagem e ação”, revela sua filosofia política: o silêncio diante da injustiça é cúmplice da opressão. Lorde afirma que falar é um ato de coragem, mas também de necessidade, pois a invisibilidade de certos corpos e vozes perpetua o sistema de desigualdade. Seus ensaios combinam crítica social e poética, demonstrando que a palavra, quando usada para nomear o real, é arma de transformação.

Lorde também problematiza a ideia de unidade entre mulheres. Para ela, a solidariedade feminista não é automática: ela precisa ser construída a partir do reconhecimento das diferenças, da escuta ativa e da justiça interna aos movimentos. Ignorar as desigualdades dentro do próprio movimento é reproduzir, em pequena escala, a opressão que se combate fora dele.

Além disso, Irmã Outsider é uma obra de memória: ao narrar sua trajetória, Lorde nos lembra que a luta política é inseparável da experiência vivida. Ela denuncia o racismo estrutural e o sexismo da sociedade branca dominante, mas também critica as estruturas internas de exclusão nos próprios espaços de resistência. Essa honestidade crítica torna o livro atemporal e universal.

Ler Audre Lorde é entender que a emancipação não se dá apenas em grandes gestos ou políticas públicas: ela começa no reconhecimento da própria força, na afirmação da identidade e no compromisso com a justiça para todas. Irmã Outsider é, assim, leitura obrigatória para quem busca compreender feminismo negro, interseccionalidade e o poder transformador da palavra.


Audre Lorde nasceu em Nova Iorque, no Harlem em 1934 e faleceu em Santa Cruz, Ilhas Virgens Americanas em 1992. Foi filósofa, escritora, poetisa e ativista feminista

MULHERES, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA EM ZAMI


 

ZAMI. UMA NOVA GRAFIA MEU NOME, UMA BIOMITOGRAFIA

AUDRE LORDE

ELEFANTE EDITORA – 2021.

464 páginas 


Em Zami: Uma Nova Grafia do Meu Nome, Audre Lorde constrói uma narrativa que é simultaneamente autobiográfica, poética e política. Diferente de uma autobiografia convencional, o livro se aproxima de uma “biomítica”, termo que Lorde usa para articular memórias pessoais, histórias coletivas de mulheres negras e elementos de ficção poética. O resultado é um retrato profundo da formação de uma identidade atravessada pelo racismo, pelo sexismo, pela homofobia e pelo desejo.

O livro acompanha Lorde desde a infância em Nova York até sua juventude e vida adulta, explorando relações familiares, amizades, amores e descobertas de gênero e sexualidade. O título, que propõe uma “nova grafia” do nome, simboliza a tentativa de reconstruir-se e dar visibilidade à própria existência — algo que a sociedade branca, patriarcal e heteronormativa frequentemente invisibiliza ou desvaloriza.

Um dos aspectos mais poderosos da narrativa é a experiência de ser mulher negra e lésbica. Lorde mostra como o racismo e o sexismo não se manifestam apenas fora de casa, mas também nos círculos íntimos e nas próprias relações afetivas. Ao mesmo tempo, a autora revela como a construção de laços afetivos entre mulheres negras e marginalizadas é uma forma de resistência e de afirmação identitária. A memória e a narrativa tornam-se armas para a preservação da subjetividade e para a criação de comunidades de cuidado.

O livro também é um mergulho na sexualidade e no desejo, não como escândalo, mas como campo de autoconhecimento e liberdade. Ao narrar seus primeiros amores, encontros e descobertas, Lorde subverte a lógica de um mundo que reprime corpos e desejos fora da norma. A sexualidade, nesse sentido, é política: afirmar o próprio prazer é desafiar a opressão, resistir à invisibilidade e reivindicar existência.

Além disso, Zami é uma obra sobre ancestralidade e memória coletiva. Ao descrever a vida de sua mãe, tias, amigas e mulheres da comunidade negra, Lorde cria um mosaico de experiências que ultrapassa o individual e conecta passado, presente e futuro. É a memória das mulheres negras que sustenta a narrativa, conferindo densidade histórica e política à experiência pessoal.

Lorde escreve com poesia e precisão, transformando memórias em reflexão crítica. Zami não é apenas um relato de vida, mas um manifesto sobre identidade, resistência e autoafirmação. Ler Lorde é perceber que narrar a própria história é, sempre, um ato político: uma forma de existir, resistir e criar espaços de liberdade.


Audre Lorde nasceu em Nova Iorque, no Harlem em 1934 e faleceu em Santa Cruz, Ilhas Virgens Americanas em 1992. Foi filósofa, escritora, poetisa e ativista feminista

MEMÓRIA E MILITÂNCIA: A LUTA DE ANGELA DAVIS

 

UMA AUTOBIOGRAFIA

ANGELA DAVIS

BOITEMPO – 1ª ED. 2019

418 páginas 

Em Uma Autobiografia, Angela Davis não se limita a narrar sua vida pessoal; ela constrói um mapa das lutas que atravessaram o século XX e continuam reverberando no presente. Militante política, acadêmica e feminista, Davis transforma suas memórias em ferramenta de análise, mostrando como racismo, sexismo e violência institucionalizada se entrelaçam para moldar a vida de pessoas negras, mulheres e marginalizadas nos Estados Unidos.

O livro acompanha desde a infância de Davis em Birmingham, Alabama, em meio à segregação racial, até seu envolvimento com o Partido Comunista e o movimento pelos direitos civis. Sua narrativa evidencia como o ambiente familiar, as experiências escolares e o contexto social foram formativos: a consciência política nasce da vivência concreta da opressão, do medo cotidiano e da injustiça estrutural.

Davis também compartilha episódios de perseguição, prisão e julgamento, momentos em que a violência do Estado se torna tangível e direta. Sua detenção e o julgamento público em 1970, que mobilizou solidariedade internacional, ilustram o quanto o racismo institucional e a criminalização da militância negra são instrumentos de controle social. É nesse ponto que a autobiografia se torna ensaio político: cada detalhe pessoal se conecta a estruturas de poder mais amplas.

Outro eixo central do livro é a luta feminista interseccional. Davis não separa gênero de raça ou classe: ao narrar sua trajetória, mostra que ser mulher negra implica enfrentar múltiplas camadas de opressão simultaneamente. A autobiografia é, portanto, também um testemunho sobre a força, resiliência e solidariedade feminina — seja nas redes de apoio entre mulheres negras, seja nas estratégias coletivas de resistência dentro de movimentos políticos amplos.

A escrita é direta, mas ao mesmo tempo reflexiva. Davis consegue equilibrar a dimensão pessoal com a análise crítica do contexto histórico e político. Cada experiência narrada é uma lente para compreender a violência sistêmica, a resistência organizada e a necessidade da memória ativa. Ao contar sua própria história, ela devolve voz a milhares de vidas apagadas pela história oficial, transformando sua trajetória em símbolo de luta coletiva.

Uma Autobiografia é mais do que um relato de vida; é um chamado à ação, uma reflexão sobre solidariedade, justiça social e emancipação. Ler Davis é perceber que experiências individuais e estruturas sociais estão inextricavelmente ligadas, e que a memória pessoal pode ser um ato de resistência tão poderoso quanto a militância política.



Angela Davis nasceu em Birmingham, Alabama, EUA, em 1944. É uma filósofa, ativista socialista. 

PAIXÃO, VIOLÊNCIA E RECUSA DA ORDEM SOCIAL

 


O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

EMILY BRONTË

PRINCIPIS – 2020

368 páginas 

O morro dos ventos uivantes costuma ser apresentado como uma história de amor. Mas essa definição é insuficiente — e, de certo modo, enganosa. O romance de Emily Brontë não narra um amor conciliador ou redentor, e sim uma paixão absoluta, violenta, destrutiva, que se coloca frontalmente contra as normas sociais, morais e afetivas da Inglaterra vitoriana.

Catherine Earnshaw e Heathcliff crescem juntos após o pai de Catherine acolher o menino de rua em sua casa. Na infância, formam um vínculo profundo, quase indissociável, marcado pela liberdade, pela cumplicidade e pela identificação com a paisagem selvagem dos páramos. Com a morte do pai, porém, a ordem social se impõe: o irmão de Catherine rebaixa Heathcliff à condição de servo, lembrando-o constantemente de seu lugar subalterno.

Catherine, por sua vez, é uma personagem que escapa a qualquer ideal feminino dócil. Seu temperamento é explosivo, indomável, tão áspero quanto o vento que varre o morro onde vive. Ainda assim, pressionada pelas convenções sociais e pela promessa de segurança, ela se casa com Edgar Linton, um homem respeitável, civilizado e socialmente adequado — exatamente o oposto de Heathcliff. A escolha não é fruto de amor, mas de adequação. E é essa cisão que torna a tragédia inevitável.

Heathcliff parte, mas retorna anos depois transformado, enriquecido e tomado por um ressentimento absoluto. Compra a casa onde cresceu e passa a habitar o lugar como uma presença quase espectral, movido por um desejo de vingança que não distingue culpados de inocentes. A morte de Catherine, após o parto, não encerra a história: ao contrário, radicaliza o ódio, a obsessão e a recusa de aceitar a perda.

A narrativa é mediada pela governanta Nelly Dean, que conta essa história a um forasteiro recém-chegado à região, curioso sobre o comportamento estranho de seu locatário. Essa estrutura de relato indireto cria distância e, ao mesmo tempo, reforça o caráter perturbador dos acontecimentos — como se aquilo que é narrado fosse grande demais para ser dito de forma direta.

Emily Brontë escreve um romance que desafia frontalmente a moral vitoriana. Catherine e Heathcliff não são exemplos, não são modelos, não são personagens edificantes. São figuras que vivem os sentimentos até o limite — o amor, o ódio, o desejo de posse, a crueldade. Catherine, sobretudo, encarna uma feminilidade impossível de domesticar: ela ama para além das regras, pensa para além do permitido, e paga por isso um preço altíssimo.

O morro dos ventos uivantes é um livro sobre paixões que não se ajustam à sociedade. Um romance selvagem, ermo, violento, onde a paisagem não é cenário, mas extensão dos personagens. Ali, onde os ventos uivam, não há conciliação possível — apenas a insistência brutal de sentimentos que recusam ser civilizados.



Emily Brontë nasceu em Thornton, Condado de York, em 1848 e faleceu em Haworth, Reino Unido, em 1848. Escritora e poetisa britânica. Este é o único retrato da autora que foi pintado por seu irmão. 

A LEITURA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL : VISÃO MASCULINA E FEMININA

Durante muito tempo, a crítica literária consolidou a leitura da Revolução Industrial inglesa quase exclusivamente pela voz masculina. Charles Dickens tornou-se o nome de referência quando se fala em miséria urbana, exploração do trabalho, infância abandonada e brutalidade social. No entanto, Norte e Sul mostra que essa narrativa nunca foi monopólio dos homens. Elizabeth Gaskell também escreveu sobre a fome, o adoecimento dos corpos, as greves e o conflito entre capital e trabalho — e o fez a partir de um lugar distinto, mas não menos político.

Se Dickens frequentemente constrói seus romances a partir da denúncia direta e da exposição contundente da injustiça social, Gaskell opera por meio do deslocamento e da mediação. O olhar de Margaret Hale atravessa mundos opostos — o campo e a cidade industrial, os trabalhadores e os proprietários — revelando que a miséria não é apenas um dado econômico, mas uma experiência vivida nos corpos, nos afetos e nas relações cotidianas. Onde Dickens grita, Gaskell insiste. Onde ele expõe, ela observa. Ambos denunciam; os caminhos são outros.

Há ainda uma diferença fundamental: em Gaskell, o feminino não aparece apenas como tema, mas como forma. A escuta, a atenção ao detalhe, a recusa de soluções fáceis e a consciência das ambiguidades morais fazem de Norte e Sul um romance social que não sacrifica a complexidade humana em nome da tese. Isso não suaviza a crítica — ao contrário, a torna mais incômoda, porque não permite a distância confortável entre o leitor e a miséria narrada.

Reconhecer Elizabeth Gaskell ao lado de Dickens não é um gesto de comparação hierárquica, mas de reposicionamento histórico. As mulheres também escreveram sobre a Revolução Industrial, sobre a exploração e sobre a pobreza. O que faltou, durante muito tempo, não foi produção literária, mas leitura crítica disposta a enxergá-las como parte central desse debate. Norte e Sul reafirma que a literatura social do século XIX foi plural — e que o silêncio imposto às autoras faz parte da própria história da desigualdade que esses romances denunciaram.

            Christiane Depooter 

            Fevereiro, 2025.