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domingo, 28 de junho de 2026

LIVRO: MARINA: A VIDA POR UMA CAUSA


 

MARINA: A VIDA POR UMA CAUSA

MARILÍA DE CAMARGO CÉSAR

MUNDO CRISTÃO – 1ª ED. – 2010

256 páginas

Marina resistiu por muito tempo a que escrevessem sua biografia, mas, ao conhecer Marília Camargo ela cedeu e por isso temos essa biografia, um retrato fiel na medida do possível, sobre quem é Marina e sua vida.

A autora em momento algum romantiza a narrativa ou deixa de apontar algo que pudesse ser visto como negativo. Ao mesmo tempo realça todos os aspectos positivos desta mulher e sua luta pelo meio ambiente, a política, a mulher Marina.

Marina nasceu no interior do Acre e teve uma infância muito pobre, trabalhando nos seringais junto com sua família. Devido a uma doença precisou sair dali e ir para a cidade. A doença foi uma constante em sua vida, e chegou a ser desenganada pelos médicos que diziam que só um milagre a salvaria. Ela acreditou no milagre.

O que ela mais desejava era estudar e o conseguiu. Com os conhecimentos adquiridos através de sua formação educacional e sua vivência nos seringais, surge a ativista política, como forte vínculo com o movimento seringueiro e parceria com Chico Mendes.

O livro acompanha tanto sua trajetória política quanto sua atuação intelectual incluindo seu percurso na política como vereadora, deputada estadual, senadora e Ministra do meio Ambiente. Também lembra sua candidatura à presidência da República.

Vale a pena ler e conhecer esta mulher, que tem ideais e os respeita, o que frequentemente é simplificado no debate político brasileiro.


Marília de Camargo César nasceu em São Paulo em 1964. É jornalista e escritora. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

LIVRO: NOITE É O DIA TODO

 


NOITE É O DIA TODO

PREETA SAMARASAN

ROCCO – 1ª ED. – 2010

Tradução: Léa Viveiros de Castro

400 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – MALÁSIA

Malásia, década de 1970. Uma poderosa família descendente de indianos. É partindo desse contexto que Samarasan irá apresentar a Malásia com todas suas contradições internas. Trata-se de um país formado por emigrantes, principalmente chineses e indianos. O livro aborda questões internas da sociedade malaia, onde, após o fim da colonização inglesa, os malaios desejam seu país para eles.

A autora retorna ao período colonial da família Rajasekharan para poder falar dos descendentes em torno dos quais o romance gira. O casamento de Raju com Vasanthi, uma mulher de classe social mais baixa, provocará ressentimentos e mágoas com a família, principalmente com a sogra Paati.

Ao abordar a revolta malaia de 1969, que ocorreu em Kuala Lumpur, capital da Malásia, a autora utiliza uma metáfora por meio de dois personagens, para explicar o que aconteceu – Boato e Fato.  

Gostei muito do uso dessas figuras para demonstrar como muitas vezes revoltas ocorrem movidas pelo que atualmente chamamos de fakes news. Nada mais fácil do que espalhar boatos e mentiras para inflamar uma população que já está arredia, com raiva, desconfiada, prestes a explodir. E, como fica claro no livro, de nada adiantam os Fatos diante dos Boatos, algo que continua extremamente atual.

Ao contrário do anunciado na sinopse do livro, há relativamente pouco sobre a história da Malásia. O romance permanece centrado na trajetória de uma família e suas questões. Ainda assim, esse microcosmo reflete os preconceitos raciais e de classe que existiam na sociedade malaia da época. Podemos conhecer um pouco da culinária e há o relato do desabamento das cavernas onde vivia a família de uma das empregadas da casa, que perdeu seu marido e filhos na tragédia, mas dois dias depois retorna ao trabalho por precisar dele. Esse episódio faz referência à tragédia de Gunung Cheroh, ocorrida em 1973.

A família é composta pelo casal e seus três filhos, pela avó Paati e por Balu apelidado de “Tio salão de baile”, irmão de Raju, desprezado pelo irmão por ser dançarino. A narrativa demora a se desenrolar, e apenas aos poucos começarmos a compreender o comportamento de cada personagem. Praticamente apenas na reta final do livro descobrimos o que levou cada um deles a agir da maneira como age.  

Já Vasanthi, me deixou com a sensação de um salto sem explicação. Da jovem explorada na casa do pai, que se encanta por Raju, ela se transforma, logo após o casamento, em uma pessoa fria e extremamente fútil. É possível compreender o ressentimento e a profunda mágoa que sente em relação à sogra e ao marido, assim como a sensação de não ser amada pelos filhos. O que me incomodou foi a brusquidão dessa transformação. Não foi exatamente um processo; pelo menos a autora não o demonstra.

A história dessa família é construída sobre mentiras, enganos, omissões e uma absoluta falta de diálogo. Quando algo ocorre, cada um deles formula sua própria interpretação, que geralmente não condiz com o que de fato ocorreu. E isso, porque nada é falado, tudo é omitido.

A filha caçula, Aasha, uma criança de apenas quatro anos, sofre de uma enorme carência afetiva. Sem atenção da mãe. do pai ou da avó, ela desenvolve uma verdadeira obsessão pela irmã mais velha, Uma. Inicialmente, Uma zela por ela, mas, devido a um acontecimento que só conheceremos ao final do livro, afasta-se da menina.  Esse abandono leva Aascha a cometer algumas crueldades com outros, mentindo descaradamente.

Um segredo que Balu carrega desde a infância o desestabiliza profundamente e o transforma em uma pessoa insegura. Mais tarde, ele será testemunha de outro momento difícil envolvendo Uma e seu pai, no entanto, ele se cala sobre ambos os acontecimentos.

Temos também Chellam, a empregada contratada para cuidar “exclusivamente” de Paati, que a partir de um certo dia, passa de uma mulher enérgica e atenta a uma velha encarquilhada, que só sabe reclamar e não consegue mais andar. Chellam é demitida logo no primeiro capítulo do livro, mas só muito depois iremos descobrir o que de fato ocorreu.

Chellan é quem nos traz o universo cosmológico da Malásia com seus espíritos e fantasmas que enriquece o imaginário de Aascha. A principal referência é Pontianak, um dos espíritos mais temidos pelos malaios.

Ao final da narrativa vemos Appa relatar com orgulho que sua filha foi para os Estados Unidos. Seguindo uma ideia muito presente na época – e que ainda persiste em certa medida -, ele acredita que a América é o lugar onde todos podem alcançar um “felizes para sempre”.

Quando alcançamos a metade do livro, começamos e compreender o que aconteceu com cada personagem e percebemos o quanto todos são incapazes de enxergar o outro, incapazes de se envolver, e recolhem-se aos seus próprios casulos. É uma solidão completa vivida em meio a várias pessoas.

 Confesso que tive dificuldades para continuar a leitura em determinados momentos. Não sentia vontade de pegar o livro e demorei um pouco para compreender a razão de minha resistência. Em muitos romances é comum o autor ou autora se utilizar de flashbacks ou alterne presente e passado. Neste livro, há uma intercalação tripla, ou seja, parte-se do presente, retorna-se ao passado e, surgem acontecimentos localizados entre esses dois momentos. O problema é que, a cada retomada, há uma repetição de informações já apresentadas, o que torna a leitura menos envolvente e além disso, a autora não se utiliza de iscas, não cria mistério, o que levaria o leitor a querer saber mais. O resultado é que a revelação chega muito tarde, o que pode fazer com que muitos abandonem o livro antes.

No entanto, ao chegar ao final, essa impressão muda. Não há como não pensar nas injustiças e crueldades cometidas em consequência do egoísmo de cada um, e na incapacidade de fazer uso de palavras e de dizer o que pensa e sente. Aasha, a caçula, sintetiza de forma particularmente dolorosa todas essas questões. Mas ela tem apenas quatro anos.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

LIVRO: HAITI, DEPOIS DO INFERNO

 

HAITI, DEPOIS DO INFERNO: MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER NO MAIOR TERREMOTO DO SÉCULO

RODRIGO ALVAREZ

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2010

120 páginas

Em Haiti, depois do inferno: memórias de um repórter no maior terremoto do século, o jornalista Rodrigo N. Alvarez constrói um relato marcado pela experiência direta do horror. O livro nasce do que foi visto, vivido e sentido durante o terremoto de 2010, que atingiu de forma devastadora o Haiti, especialmente a capital Porto Príncipe, deixando milhares de mortos, feridos e desabrigados, em um cenário de escassez extrema de água, comida e socorro imediato.

A narrativa é atravessada por imagens de destruição absoluta, mas também por uma dimensão humana intensa: corpos sob os escombros, pessoas vagando sem destino, o desespero coletivo e a sensação de abandono. Alvarez escreve como repórter, mas também como alguém afetado profundamente pela tragédia, o que confere ao texto uma força testemunhal que ultrapassa a simples descrição factual.

O livro, porém, não se limita ao acontecimento sísmico. O autor amplia o olhar ao contextualizar a catástrofe dentro da história do Haiti, marcada por séculos de exploração colonial, primeiro sob domínio francês e depois sob forte interferência dos Estados Unidos. Ao retomar esse passado, Alvarez evidencia como o terremoto não atua sozinho: ele incide sobre um país já fragilizado por dívidas impostas, intervenções estrangeiras, pobreza estrutural e sucessivos processos de despossessão.

Nesse sentido, a tragédia natural revela também uma tragédia política. O modo como os Estados Unidos e a comunidade internacional atuam durante o desastre expõe relações de poder assimétricas, interesses geopolíticos e limites evidentes da chamada “ajuda humanitária”. O sofrimento haitiano aparece, assim, como resultado de uma longa história de violência colonial que não se encerra com o fim formal da dominação.

Curto e direto, o livro não pretende esgotar a complexidade do Haiti, mas cumpre um papel importante: introduz o leitor à história do país e às camadas profundas que tornam uma catástrofe natural ainda mais devastadora. É uma leitura rápida, mas incômoda, que nos obriga a confrontar a desigualdade global e a lembrar que desastres nunca são apenas naturais. Vale a leitura, sobretudo como exercício de memória, consciência histórica e responsabilidade ética.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

LIVRO: LÉLIA GONZALEZ


 

LÉLIA GONZALEZ – RETRATOS DO BRASIL NEGRO

ALEX RATTS – FLÁVIA M. RIOS

SELO NEGRO EDIÇÕES – 1ª ED. – 2010

176 páginas

Os autores apresentam neste livro não uma biografia nos moldes tradicionais, centrada na cronologia da vida privada, mas sobretudo o percurso intelectual, político e militante de Lélia Gonzalez. Embora aspectos de sua vida pessoal apareçam, o foco está na construção de seu pensamento e em sua atuação decisiva no enfrentamento ao racismo e ao sexismo no Brasil.

Lélia nasce em uma família muito pobre, com muitos filhos, em Belo Horizonte. A possibilidade de mudança para o Rio de Janeiro surge graças a um dos irmãos, jogador de futebol, que consegue trazer a família. É no Rio que a jovem Lélia estuda, trabalha e começa, gradualmente, a perceber o racismo estrutural que organiza a sociedade brasileira, o sexismo e as profundas desigualdades sociais.

Num primeiro momento, no entanto, ela se submete a essas normas. Forma-se professora, alisa o cabelo, adapta-se às expectativas sociais impostas às mulheres negras. A virada ocorre quando seu marido, um homem branco, chama sua atenção para o fato de que ela ainda não havia analisado criticamente a própria negritude. Esse questionamento marca o início de um processo profundo de conscientização e elaboração teórica.

Lélia Gonzalez se tornaria uma das maiores intelectuais do pensamento negro no Brasil. Criou conceitos fundamentais como amefricanidade e pretoguês, antecipando debates que hoje reconhecemos como decoloniais, embora o termo ainda não estivesse em circulação. Seu pensamento articula raça, gênero e classe de forma pioneira, denunciando os limites do feminismo branco e do movimento negro quando ambos ignoram a especificidade da mulher negra.

Ser mulher e ser negra foi o eixo central de sua luta. Lélia batalhou para que a questão da mulher negra entrasse nas pautas políticas e acadêmicas, mas também para desmascarar o mito da democracia racial em um país que construiu sua identidade nacional sobre o apagamento do racismo. Sua obra permanece atual, incisiva e indispensável para compreender o Brasil e suas desigualdades.


Alex Ratts nasceu em Fortaleza em 1964. É geógrafo e antropólogo.

Flávia M. Rios é doutora em Ciências Sociais. 


 


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

LIVRO: GENGIS KHAN E A FORMAÇÃO DO MUNDO MODERNO

 


GENGIS KHAN E A FORMAÇÃO DO MUNDO MODERNO

JACK WEATHERFORD

Bertrand Brasil – 2ª ed. 2010

Tradução: Jorge Ritter

462 páginas 


Quando li Nada será como antes, do cientista Miguel Nicolelis, ele se referia ao profundo céu azul dos mongóis — o que me levou até minha biblioteca, onde estava este livro sobre Gêngis Khan, comprado há alguns anos. Ainda bem, pois seu preço hoje está inviável.

Comecei a leitura e fui capturada pela história dos mongóis, sobre os quais, exceto pela ideia de que Gêngis Khan teria sido um guerreiro sanguinário — imagem que prevalece no Ocidente —, eu praticamente nada sabia. E fui absolutamente surpreendida, não apenas por esse povo e pelo império que formaram, mas, sobretudo, por seus feitos e por sua forma de pensar.

Sim, houve guerras de conquista. Mas, sinceramente, nada que os diferencie radicalmente de outros povos em luta: Roma em suas expansões, as guerras da Idade Média, os godos, os celtas, entre tantos outros. Há diferenças, sim — na estratégia e até mesmo na forma como lidavam com prisioneiros e povos conquistados. Apesar de matarem muitos, aos que sobreviviam ofereciam certa autonomia e, em vários casos, incentivos.

A grande diferença está no fato de que esse povo sabia administrar e levava em consideração sua própria população — e, de modo decisivo, suas mulheres. Foram eles que unificaram a China e ali implementaram um sistema de governo participativo, escolas públicas, incentivo às tecnologias da época e às artes. Foram também fundadores da Cidade Proibida e de Pequim.

A leitura foi revelando surpresa após surpresa, desmontando imagens que eu jamais havia questionado. O império acabou sendo desmantelado pela peste bubônica e, aos poucos, foi se reduzindo até ficar confinado à Mongólia atual. O último descendente direto de Gêngis Khan morreu em 1943, no Afeganistão.

Mas o livro também mostra algo ainda mais perturbador: como esse império e esse povo, com feitos tão extraordinários, foram deliberadamente apagados da história e transformados em símbolo de barbárie. E adivinhem quando isso acontece. No Iluminismo — com sua filosofia e sua ciência que deram sustentação às colonizações, à escravidão negra e às conquistas de exploração. Postei alguns trechos do livro e incluí comentários de Montesquieu, Voltaire, entre outros.

Jack Weatherford nasceu em Dovesville, Carolina do Sul, EUA. É um antropólogo e autor estadunidense. 

domingo, 28 de maio de 2017

LIVRO: BELLA TOSCANA - A Doce vida na Itália - FRANCES MAYES


BELLA TOSCANA

FRANCES MAYES

L&PM POCKET – 2010

Tradução: Waldéa Barcellos

304 páginas 


Após escrever o conhecido "Sob o sol da Toscana" que virou filme (postado no blog) Mayes deu continuidade com este belo "Bella Toscana" onde nos conta com mais minúcias e detalhes sua vida no povoado de Cortona na Itália. 

A reforma da casa, o jardim, a horta, o pomar. Ela vai nos contando, como se fosse um diário, não se trata de um romance contínuo, seu dia a dia na Itália e suas vivências, experiências, nesta terra tão diferente dos Estados Unidos. 

Bramasole é seu refúgio, onde pode recuperar suas energias, sua paz, onde passa alguns meses para recuperar-se e enfrentar os outros meses de sua vida mais estressante, digamos assim. 

Claro que é perceptível que este sonho de poder fazer isto é para quem possui boas condições financeiras, inclusive para poder fazer a reforma não apenas de uma casa, mas de duas na Itália. Mas a leitura é algo relaxante e que nos inspira a fazer algo se não igual, pelo menos parecido em nossas vidas, porque podemos sim ter um jardim, uma horta, construir algo em nossa casa, decorar. Mas o que todos podemos fazer é cozinhar, e o livro traz as receitas. 

Gosto de ler Mayes quando não estou bem, quando preciso encontrar minha essência, reencontrar meu lar, minha casa, meu aconchego. Ela tem uma vida que muitos de nós desejamos, mas que não podemos ter. Mas podemos sim em nosso próprio universo fazer algo parecido. Ela nos incentiva com sua escrita e isto é muito bom. 

Frances Mayes nasceu em 1940 em Fitzgerald - Geórgia, EUA.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

LIVRO: NO PRINCÍPIO ERA O AMOR: PSICANÁLISE E FÉ - JULIA KRISTEVA


NO PRINCÍPIO ERA O AMOR

JULIA KRISTEVA

VERUS – 2010

Tradução: Leda Tenorio da Motta

83 páginas

Título Original: Au commencement était l'amour: psychanalyse et foi

"Para que a fé seja possível, é preciso sem dúvida que esse salto "semiótico" para o Outro, essa identificação primária com os polos parentais arcaicos, próximos do continente materno, não seja recoberto pelo recalque nem deslocado para a construção de um saber que, conhecendo-lhe o mecanismo, o haveria de sepultar. O recalque pode ser ateu, o ateísmo é recalcador, ao passo que a experiência analítica pode levar, por sua vez, a um abandono da fé em conhecimento de causa". (pg.39). 

Freud nos lembra que o homem é um ser religioso, precisa crer em algo. A religião dá sustentação ao ser humano, ele crê em algo, acredita que irá receber algo, será protegido. Kristeva lembra que Santo Agostinho chega a comparar a fé do cristão em seu Deus às relações do bebê com o seio da mãe.

Kristeva nos lembra que é preciso crer para chegar ao saber, como um bebê precisa confiar e crer em sua mãe, sem isto não haveria como ele sobreviver. E isto não é infantil, é um fundamento do ser humano diante da vida, uma maneira de lidar com o caos, o incompreensível, o inaceitável. Sim, o saber pode sublimar a fé, mas este saber não é possível sem a princípio termos fé em algo.  

Julia Kristeva nasceu em 1941 em Sliven, Bulgária, nacionalizou-se francesa, é uma filosofa, escritora, psicanalista e crítica literária. 


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

LIVRO: FRIDA KAHLO para-além da pintora - MARLI BASTOS


FRIDA KAHLO: PARA-ALÉM DA PINTORA

MARLI MIRANDA BASTOS

MAUAD X – 2010

115 páginas

Bastos faz uma análise da obra de Frida Kahlo para além da pintora pelo olhar da psicanálise.

O que se evidencia é que Frida se tornou pintora para da conta do real, o real do acidente, do seu corpo esfacelado, das suas dores. O que ela não conseguia dizer pela palavra ela pintava. Mas Frida foi além disto também, porque escrevia cartas e poesias.

Devido o acidente e diante de um corpo traumatizado que lhe restringia vários aspectos ela dá um destino a sua pulsão sexual que ao invés de se dirigir para o sexo, para o objeto sexual, se sublima e ao invés de ser recalcado se dirige para a arte.

Bastos nos faz um breve resumo da vida de Frida Kahlo, desde a infância onde sofreu com a poliomelite que lhe deixou uma perna mais fina que a outra e um pouco manca, o acidente, seu amor-paixão por Diego Rivera, sua militância política, seu amor pela cultura mexicana, e todos os casos amorosos que teve ao longo da vida. Ela não desistiu de viver após o acidente, ela não se entregou ao drama e trágico de seu estado, mas também não o negou. Ela o transpôs para a arte. Por isto os quadros de Frida Kahlo são em sua maioria autorretratos e expressões do que sentia. Ela se utiliza de cores vivas, que representam a vida, mas também a alegria do México e toda sua cultura em relação à morte. O vermelho sangue que ao mesmo tempo representa todo o sangue seja do acidente, seja dos abortos que sofreu, também é a cor da vida, a cor da paixão.

A arte nasce em torno de uma vazio, o contorna. Todo o excesso que não consegue ir a algum lugar se expressa na arte, a pulsão que poderia ficar perdida e rodopiando se canaliza para algo. A arte lhe possibilitou seguir sua vida apesar de todos os sofrimentos pelos quais passou, levando tudo que era inefável para o simbólico.

Marli Bastos é psicanalista, Mestre em psicanálise, saúde  e sociedade  pela Universidade Veiga de Almeida (UVA-RJ), é formada em Psicologia pela Universidade São Marcos-SP, com especialização em Psicologia Clínica pela PUC-Rio. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

LIVRO: MULHERES NO CAMINHO - LIGIA MARIA KNABBEN BECKER


MULHERES NO CAMINHO

LIGIA MARIA KNABBEN BECKER

NOVA LETRA – 2010

169 páginas


A Ligia é catarinense, de Brusque e hoje vive em Florianópolis. Este livro é seu relato das três vezes que fez o Caminho de Santiago de Compostela.

Ela fez o percurso aragonês , francês e de Portugal. Uma vez ela foi com amigas, o de Portugal ela foi sozinha e o último com seu marido e outros casais.

Seus relatos são sobre mulheres no caminho, alguns reais outros fictícios, mas baseados no que vivenciou. Ela nos fala das transformações, do autoconhecimento, de tirar máscaras. O caminho revela padrões que temos no nosso dia a dia, retira coisas às quais somos apegadas, mas que para a vida não faz muito sentido. Ela fala dos obstáculos, das dificuldades de se relacionar com o outro e consigo própria.

Seu percurso não foi religioso, mas de uma busca de si mesma. O caminho é feito por cada um de formas diferentes, cada pessoa busca algo, seja religioso, seja de aprendizado, seja de autoconhecimento.

Ligia deu uma entrevista para o programa Vida Inteligente sobre o livro que você pode assistir  no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=oTEizDT-Ipw




Ligia Maria Knabben Becker nasceu em Brusque- SC.É formada em Letras pela UFSC. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

LIVRO: UM VINHEDO NA TOSCANA - Una passione italiana - FERENC MÁTÉ


UM VINHEDO NA TOSCANA

FERENC MÁTÉ

SEOMAN – 2010

Tradução: Drago

270 páginas

Título original: A vineyard in Tuscany

Este livro é a história da vida da família Máté na Toscana e sobre a realização de um sonho. Máté nasceu na Hungria, saiu de lá após a Revolução e viveu em vários lugares, é um escritor. Foram viver na Toscana numa bela casa, mas Máté sonhava com vinhedos e em produzir vinho. Procuraram e finalmente encontraram um antigo e abandonado Mosteiro do século XIII.

Vamos acompanhando a família em todo seu percurso na reforma deste Mosteiro, nos cuidados com a propriedade, no aprendizado para serem produtores de vinho. Tem momentos hilários que me fizeram rir muito. Máté escreve bem, com senso de humor, mesmo diante de dificuldades que muitos teriam ligado para a Sociedade de proteção ao suicídio, senão tivessem se matado antes.

A persistência, o desejo, a tenacidade, a dedicação é surpreendente, além do bom humor, do amor que une esta família de três pessoas, Máté, Candace e o filho dos dois, Buster, são uma lição de vida. As descrições dos lugares são bem feitas, chegamos a sentir o aroma, o orvalho, a chuva, o frio, os sabores.

Ser proprietário de um vinhedo e produtor de vinhos requer muita paciência e dedicação. As grandes produções são automatizadas, mas produzir um vinho especial é para aqueles que amam isto e o fazem manualmente, cuidando de cada vinhedo com o carinho de uma mãe com seu filho. Sua vida se transforma no vinho, é preciso amar muito isto. Mas a recompensa ao se sentir e beber um vinho destes é algo insuperável, é o néctar dos deuses.

Muito interessante todas as informações sobre a produção do vinho narradas de uma forma que não nos cansa na leitura, pois apesar de explicar como funciona, não são informações visando a um produtor. Ele nos conta como aprendeu, o que precisou saber, mas tudo de uma maneira gostosa de ler.

E ao final quando seu vinho Syrah é eleito um dos grandes vinhos tintos italianos pela Morrell vibramos com eles.

Ferenc Maté 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

LIVRO: O QUE AS MULHERES FRANCESAS SABEM sobre amor sexo e atração - DEBRA OLLIVIER


O QUE AS MULHERES FRANCESAS SABEM

Sobre amor, sexo e atração

DEBRA OLLIVIER

EDITORA ACADEMIA DE INTELIGÊNCIA – 2010

Tradução: Magda Lopes

189 páginas

Título Original: What french women know: about love, sex and other


A autora do livro é americana e foi morar na França ainda solteira, casou-se com um francês e teve dois filhos, depois retornou para os Estados Unidos.
Assim que chegou a Paris ela começou a notar as diferenças entre os dois países e principalmente interessou-se pela mulher francesa sobre a qual já tinha uma imagem dela ser sexy e diferente das americanas. Então é sobre estas diferenças que ela vai nos contar no livro.

Como disse Simone de Beauvoir: não se nasce mulher, torna-se mulher! A construção do masculino e do feminino se dá na sociedade em que se vive através do nome, da linguagem, da história, da cultura, e isto faz com que esta construção seja diferente em cada cultura. Temos ideias, crenças, fantasias que moldam isto.

O fato é que a autora começou a perceber que haviam coisas que as francesas sabiam fazer de uma forma melhor, como educar filhos, por exemplo. Há em seu relato ela preparando a sala de sua casa para a criança que vai nascer, superprotegendo, colocando protetores de tomada, nas pontas de móveis, retirando o que pode ser perigoso. Uma francesa sua amiga lhe diz que parece uma sala psiquiátrica, porque para ela uma criança precisa de limites, não de ser protegida desta maneira. Os franceses educam seus filhos para a independência e liberdade.

Sobre a velhice, a mulher francesa a aceita e vive sua idade, o sexo é algo que amam e desejam em qualquer idade, mas os homens franceses também gostam das mulheres mais velhas e as desejam. Sobre ter amantes, as instituições, sem neuras sobre o culto da beleza e do corpo, abertas a contradições e conflitos que fazem parte da vida.

No meu caso particular li o livro porque sou filha de francês e fui educada em uma comunidade francesa no Brasil, mas como vivo no Brasil acabei no conflito bi-cultural e hoje estou num processo de resgate e apropriação da minha herança. E foi incrível me reconhecer em muitas das coisas que Debra fala e então perceber que não sou um ser estranho, conseguir compreender porque há certas coisas que eu não consigo aceitar e compreender aqui no Brasil, mas é que no meu inconsciente a formação é outra. Como por exemplo, não sou preocupada com a questão da beleza, abro mão facilmente de arrumar a casa se eu desejar fazer algo que me dê prazer e mais, tenho horror a casa arrumada demais, para mim é fria, sem vida, casa precisa de uma certa bagunça que demonstra que ali vivem pessoas. Na minha casa em jantares ou almoços sempre se sentaram em pares homem-mulher, mas nunca o cônjuge. Após terminar a refeição, ninguém vai para a cozinha lavar a louça, nada de mulheres na cozinha e homens na sala. Eu também amo os homens e nunca compreendi a guerra de sexos, entre os opostos.

Lendo o livro vê-se que a autora está encantada pela mulher francesa, mas nem tudo são flores na França, também há neuras femininas por lá. Mas concordo que la joie de vivre e a art de vivre tornam a vida muito mais prazerosa e menos complicada de viver. Viva a diferença e a imperfeição!

Este livro me lembrou o filme Uma dama em Paris que já postei no blog. Duas mulheres que escolhem viver a vida.




segunda-feira, 30 de junho de 2014

LIVRO: PALAVRAS CRUZADAS Da dor à verdade - GABRIEL ROLÓN


PALAVRAS CRUZADAS: da dor à verdade

GABRIEL ROLÓN

EDITORA PLANETA – 2010

Tradução: Sandra Martha Dolinsky

238 páginas

Título Original: Palabras Cruzadas

Em minha recente viagem à Buenos Aires entrei na El Atheneu, uma mega livraria que fica numa ópera e nas minhas andanças por ela vi o livro de Rolón. Optei por comprá-lo no Brasil em português o que facilitaria minha leitura.

Rolón é um psicanalista argentino, e neste livro ele nos relata 05 histórias de pacientes que passaram por uma análise dolorida, mas que ao final encontraram uma verdade que era a sua e puderam finalmente tentar construir uma vida mais prazerosa e de acordo com seus desejos.

Conforme acompanhamos e também ouvimos o paciente é possível ao mesmo tempo pensar em si mesmo, pois são tantas as possibilidades e muitas vezes também estamos passando por coisas parecidas, próximas, e que não sabemos nem que está ocorrendo ou o porque de estar acontecendo. A culpa, o medo, a dor, a sexualidade, o amor, a violência, o luto. E tudo isto faz parte da vida.

Gabriel Rolón nasceu em 1961 em Buenos Aires, Argentina, é um psicanalista.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

LIVRO: MIL DIAS EM VENEZA - MARLENA DE BLASI


MIL DIAS EM VENEZA

MARLENA DE BLASI

SEXTANTE – 2010

Tradução: Fernanda Abreu

232 páginas


Marlena mora nos Estados Unidos, é uma chef de cozinha e viaja para escrever artigos sobre culinária em vários locais. Ela sempre resistiu à Veneza sem saber bem porque, mas um dia ela vai e sente a força atrativa da cidade. Sem saber, um homem, Fernando a viu rapidamente de perfil e nunca a esqueceu. Tempos depois os dois irão se conhecer e será o início de uma bela história de amor, daquelas que surgem após experiências que não deram certo e é o momento de encontrar um companheiro.

O livro relata este encontro de Marlena com Veneza e com Fernando, com quem se casará deixando para trás sua vida anterior e recomeçando tudo. Mas para ele também será um recomeço pois até agora ele viveu de acordo com o que esperavam dele e não o que desejava.

É interessante ver como Marlena vai aos poucos assimilando a cultura italiana e as diferenças que surgem na maneira de ser italiano e ser americano, mas ela se entregará ao invés de resistir, e acabará uma italiana. O livro traz dicas sobre locais para se visitar e viver em Veneza e também as receitas das comidas deliciosas que ela prepara.

Ler um livro como este oferece maior percepção do que um guia de turismo sobre Veneza, gosto de leituras assim para conhecer os locais e como as pessoas vivem ali.

Marlena e Fernando 

segunda-feira, 24 de março de 2014

LIVRO: NÃO HÁ SILÊNCIO QUE NÃO TERMINE - Meus anos de cativeiro na selva colombiana - INGRID BETANCOURT



NÃO HÁ SILÊNCIO QUE NÃO TERMINE

INGRID BETANCOURT

COMPANHIA DAS LETRAS – 2010

Tradução: vários tradutores

553 páginas

Título original: Même le silence a une fin.


Durante a campanha eleitoral para a presidência da Colômbia de 2002, Ingrid Betancourt, então candidata, foi sequestrada pelas FARC junto com sua comitiva. Era o dia 23 de fevereiro de 2002. Ela só será libertada pelo exército colombiano em uma operação montada que enganou os guerrilheiros em 02 de Julho de 2008. O livro relata estes seis anos e meio de cativeiro.

Um relato lúcido, objetivo que trata mais de sua introspecção frente a todas as dificuldades que passou e que não foram poucas. Humilhações, ofensas, fome, doenças, a psicologia do agressor, o comportamento dos outros reféns.

No início as suas dificuldades quando se viu num mundo totalmente oposto ao que estava acostumada, e sem o poder que estava acostumada a exercer. Era uma mulher orgulhosa, segura, determinada e autoritária, que intimidava os outros, e agora aos poucos ela irá aprender a obedecer e se calar, mas o que mais me impressiona é sua capacidade de não perder a dignidade diante de uma situação onde normalmente a vítima acaba se submetendo por medo para não sofrer represálias, e Ingrid em momento algum demonstra este medo e não se deixa levar pela psicologia do opressor que pretende culpabilizá-la pelas represálias. Em um momento ela diz que é seu direito tentar fugir e recuperar sua liberdade e é função do captor tentar mantê-la presa.

Este modo de agir muitas vezes incomoda seus companheiros, seja pela inveja por ela obter o que deseja, ou seja pelas represálias que atingem a todos. Eles a consideram egoísta, arrogante. Porém Ingrid também reconhece sua mesquinhez em vários momentos, onde irá lutar por um espaço melhor, pelo prato de comida ou a fatia maior de uma torta. Como julgá-los? não devemos, cada um por si lutando por sua vida e esperando a libertação.

O livro nos mostra a face do ser humano quando está em condições limites, aprisionado, humilhado, com medo, sem recursos, sem sua família, tendo que viver na selva, em meio a sujeira, frio, umidade, animais e insetos terríveis como formigas, carrapatos, e outros que queimam como ácido, sofrendo de doenças sem remédios e recursos, sem ter sua intimidade preservada, tendo que fazer suas necessidades diante de todos, e as mulheres sem absorventes higiênicos, sem alimentação adequada baseada principalmente em arroz, além de suportar a opressão, o uso do poder por parte de seus captores. Cada um reage diferente, uns tentam se aproximar do agressor, ser simpáticos com eles querendo com isto garantir o seu, outros se afastam e se calam, se isolam, outros simpatizam e se afeiçoam ao agressor, e alguns fazem como Ingrid. Não há o que dizer, cada um se defende como pode de acordo com aquilo que é.

Do outro lado vemos uma guerrilha composta de jovens e crianças, imaturos ainda por um lado mas embrutecidos por outro. O prazer que eles obtém em usar o poder para humilhar àqueles que consideram seus opressores na vida e que os obrigaram a estar ali, é a ideologia que opera considerando os burgueses os culpados por tudo. Não que eles tenham um vida boa, muitas das mulheres aderiram para escapar à prostituição, preferem ter que estar com alguns guerrilheiros ou ser a namorada de um deles, do que se prostituir com todos, e ali pelo menos elas tem proteção e não passam fome.

Sem analisar a situação em que todos se encontram podemos ter a tendência a ver o pior do ser humano, quando aqueles que estão na mesma situação ao invés de se unirem são os primeiros a delatar o outro, a reclamar quando, por exemplo, Ingrid foi levada numa rede numa mudança de local, por estar com malária e incapacitada de andar e seus companheiros a acusavam de estar fingindo. O olhar de satisfação dos que a recebiam diante de mais uma fuga frustrada, porém a própria Ingrid consegue compreender isto, como se sente o que fica diante daquele que conseguiu a liberdade de volta. Só que ele não tenta, não se arrisca, mas irá sofrer as represálias junto em várias ocasiões.

As tentativas de fuga, que desespero, por mais que se tenha planejado, pensado, na hora o medo se apodera da pessoa. Um medo que tanto paralisa como serve de impulso. Quando eram pegos novamente, todo o sofrimento, a violência, humilhação e que os raptores diziam ser culpa dela, se não tivesse tentado fugir... Mas quem não iria querer fugir? Eles se colocam como se fossem bons e que ela se rebelou, e no entanto esquecem que são eles os agressores.

Por outro lado entre os guerrilheiros também vemos o lado bom deles, são jovens, brincam, dançam, muitas vezes eles ajudam aos reféns, mostram um lado mais humano, mas estão constantemente sob vigilância também, entre eles também há os delatores, a competição. O agressor não é o monstro, ele também tem seu lado bom. E do lado dos reféns também há cooperação, há ajuda, como quando um deles sofre um infarto e o outro lhe cede a aspirina que foi negada pelas FARC, ou o desespero de Ingrid para socorrer seu amigo diabético. As palavras que trocam, e também os momentos em que riem.


Recomendo a leitura, é uma lição de vida, um mergulho no ser humano.


Ingrid Betancourt em seu cativeiro e após a libertação.

Ingrid nasceu em 1961 em Bogotá na Colômbia. Viveu boa parte de sua juventude em Paris onde estudou ciências políticas no Instituto de Estudos Políticos de Paris. Vive atualmente em Oxford onde faz doutorado em Teologia. Ela pediu uma indenização ao governo da Colômbia e tem sido muito criticada por isto, assim como sua partida para a França logo após a libertação.    

sábado, 1 de março de 2014

LIVRO: AS PRECES SÃO IMUTÁVEIS - TUNA KIREMITÇI


AS PRECES SÃO IMUTÁVEIS

TUNA KIREMITÇI

SÁ EDITORA – 2010

Tradução: Marco Syarayama de Pinto

182 páginas

PAÍS – TURQUIA 

Título original: Dualar Kalicidir

Rosella é uma senhora com oitenta e oito anos que está doente e vive só com sua gata Charlote e Zelda que cuida da casa e dela. Faz sessenta anos que vive numa cidade européia, mas após a morte de seu marido Aldo ela sente vontade de falar turco com alguém e para isto coloca um anúncio num jornal procurando alguém para conversar em turco. Pelin vê o anúncio e se apresenta.

Rosella lhe diz que tem medo de esquecer a língua turca, pois a maior parte de suas lembranças estão nesta língua e ela teme que ao esquecer a língua ela também perca suas recordações. No início é algo meio formal, mas aos poucos as duas vão se soltando e conversam sobre suas vidas.

Rosella tem a percepção de que a velhice a leva a viver no mundo dos outros, todos os que se conheceu na juventude já morreram, e ela conclui que viver numa época estranha é muito pior do que viver numa cidade estranha, e por isto se vive muito mais nitidamente as lembranças, mesmo que as criando e colorindo, elas são mais fortes que o presente, por que não há mais futuro e a saudade é muito forte e só se pode sentir esta privação com o coração, não com o intelecto.

Ambas tem suas dores e dificuldades, Rosella teve uma vida intensa, refugiou-se em Istambul fugindo da Segunda Guerra com sua filha Tânia deixando seu marido na Europa, ele não conseguiu mais partir. Pelin sofre por sua mãe ter deixado a ela e ao seu pai para partir com outro homem. Ambas sofreram por amor e aos poucos o relato de Rosella vai desvendando o que fica desapercebido muitas vezes para quem é mais jovem e ainda não tem a vivência e sabedoria dos mais velhos, mas o relato de Pelin traz vida novamente para a velha senhora, ensinando novas palavras, e ao final a constatação de que muda o tempo, muda os lugares mas os dramas são iguais e por isto mesmo mudam os deuses mas as preces são imutáveis.

Tuna Kiremitçi nasceu em 1973 em Eskisehir. É um escritor, músico e cineasta turco. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

LIVRO: A ONDA - SUSAN CASEY



A ONDA

SUSAN CASEY

ZAHAR – 2010

Tradução: Ivo Korytowski

314 páginas


Você sabia que a cada semana se perdem dois navios no mar? Impressionante! As notícias sobre navios que afundam em tempestades, desaparecem em questão de minutos com toda sua tripulação são raras, ao contrário de um avião que se sofre um acidente enche as manchetes de jornais.

Justo num momento em que percebemos as mudanças climáticas que vem ocorrendo, no Brasil a onda de calor, na América do Norte o inverno extremamente rigoroso e na Europa as inundações e ouvimos os meteorologistas dizerem que não sabem prever quando irá terminar, chover, melhorar este livro se torna de leitura imprescindível.

Fui atraída para ele por causa da Onda. Sempre fui fascinada por ondas gigantes, um misto de terror e fascínio, mas ler este livro é descobrir muito mais do que sobre ondas, é ler sobre nosso planeta, sobre a natureza e sobre os oceanos e suas ondas inimagináveis e que pensávamos serem lendas, ou algo que só poderia ocorrer muito muito raramente. Mas a verdade é que estas ondas de 20 metros no mínimo ocorrem diariamente e a cada dia mais e mais vezes, destruindo navios imensos em questão de minutos, e elas em geral não são previsíveis, fogem ao padrão linear dos modelos dos quais se utiliza a ciência, é algo para os físicos e o padrão de ondas, ou seja, a física quântica. As ondas são ondas mas são também partículas.

Susan Casey, uma jornalista premiada, parte em busca de compreender estas ondas. Ela irá buscar informações com aqueles que lidam com elas, que trabalham com elas e com aqueles que as enfrentam. Inicia seu percurso com aqueles que obviamente todos nós sabemos serem literalmente apaixonados por elas e estão sempre atrás delas, os surfistas de ondas gigantes, mas também falará com cientistas e capitães de navios.

O livro é gostoso de ler, não é um livro científico, apesar de estar repleto de informações científicas, mas ele nos ensina a respeitar a natureza, e a compreender que nunca a dominaremos e que o melhor a se fazer é respeitá-la e acima de tudo ter muita humildade diante dela, e principalmente diante de uma onda gigante.

Um dos relatos mais impressionantes é sobre a Baía de Lituya no Alaska onde ocorreu uma onda de 530 metros em 09 de julho de 1958 e houve sobreviventes, caso contrário, talvez até hoje os cientistas estariam tentando compreender o que ocorreu ali que foi capaz de arrancar o solo e deixar a rocha nua e destruir toda a orla de árvores.

Nunca foi tão importante ler um livro como este e compreender que a natureza tem vida própria e não há nada que o homem possa fazer para controlá-la, é impossível deter um tsunami, uma onda gigante, um terremoto, mesmo que tenhamos sorte de prevê-lo.




Susan Casey nasceu em Toronto, Canadá, em 1962. É uma escritora canadense.