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terça-feira, 11 de agosto de 2015

FILME: NARCISO NEGRO - 1947


Direção: Michael Powell e Emeric Pressburger
Duração: 104 min
Título Original: Black Narcissus
Roteiro: Michael Powell e Emeric Pressburger 
País: Reino Unido

Baseado no Romance homônimo de Rumer Godden 

Um grupo de freiras lideradas pela jovem Irmã Clodagh (Deborah Kerr) é enviado para um antigo palácio no Alto do Himalaia para estabelecer um convento. Elas serão recebidas por Mr. Dean (David Farrar) um estrangeiro que vive há tempos por ali. O povo local é cheio de crenças e medos, mas estimulados por um pagamento que recebem do líder local eles vão ao Convento onde as freiras oferecem atendimento médico e dão aulas. 




Porém, a presença de Mr. Dean afeta as freiras com sua presença, principalmente Irmã Rose (Kathleen Byron) que já era vista com pouca vocação. A atenção que ele dá à Irmã Clodagh despertará nela os piores sentimentos humanos, o ciúme, a inveja e raiva. Por outro lado a superiora também será afetada pela presença deste homem, lutando contra isto. O desejo que é recalcado pela missão religiosa aparece e pode levar a atos inimagináveis antes. Irmão Rose é quem mais sofrerá e seu desejo por Mr. Dean a levará a insanidade. 



A solidão no alto da montanha, o efeito da natureza como o vento que sopra constantemente, o abismo que as rodeia, tudo isto as afetara psicologicamente.O local acaba provocando em todas elas lembranças do antes de se tornarem freiras. Antes de ser transformado em convento o lugar era uma casa de mulheres, um harém, e possui em suas paredes pinturas eróticas. 



Apesar de ser um filme antigo as paisagens são muito bonitas, assim como a cultura local  é interessante. De uma feita ao tentarem ajudar uma criança que estava à morte e lhe dar um remédio serão acusadas de feitiçaria após a morte da criança. São mundos opostos, e a presença cristã ali não é assimilada. 




Um filme que nos fala do lugar do psiquismo diante de lugares e culturas diferentes capazes de afetar o inconsciente trazendo a tona o recalque, seja de uma vida passada que a opção pelos votos obriga a deixar para trás tentando apagar todos os traços de uma vida anterior, seja despertando novamente o desejo.

Michel Powell nasceu em 1905 em Bekesbourne, Reino Unido e faleceu em 1990 em Avening, Reino Unido e Emeric Pressburger nasceu em 1902 em Miskolc, Hungria e faleceu em 1988. 

sábado, 8 de agosto de 2015

FILME: LA SAPIENZA - 2015


Direção: Eugène Green - 2015
Duração: 104 min
País: França - Itália

O filme atraiu-me por tratar de arte, da bela arquitetura das igrejas na Itália, mas fui surpreendida por outro aspecto. Alexandre (Fabrizio Rongione) é um arquiteto e totalmente racional, sua esposa Aliénor (Christelle Prot) trabalha com o lado humanitário das construções e estudou sociologia e psicanálise. E ambos irão encontrar dois irmãos que são voltados para a espiritualidade. São três formas de ver o mundo que no filme irão se encontrar e oferecer possibilidades diferentes para cada um deles.

Alexandre encontra-se em crise, está em dúvida em relação a tudo que fez e seu casamento não está bem. Ele resolve ir para a Itália e sua esposa o acompanha. Irão primeiro para Stresa, a beira do lago Maggiore,
Será ali que encontrarão os irmãos Goffredo (Ludovico Succio) e Lavínia (Arianna Nastro) num momento onde a jovem se sente mal e Aliénor se prontifica imediatamente a levá-los de táxi para casa.

Alexandre parte para Roma e Aliénor sugere que leve Goffredo com ele, ela deseja ficar para tentar ajudar Lavínia. A viagem se transformará em um aprendizado para ambos e significará a libertação para Alexandre que poderá enfrentar seus fantasmas e a culpa que sente.

As visitas às igrejas e as explicações sobre a arquitetura com a visão de Alexandre e a de Goffredo são extremamente interessantes. Se inicialmente Alexandre estava arredio, aos poucos ele se abre e simpatiza com o jovem e passa a escutá-lo.







Aliénor ao tentar ajudar Lavínia através da psicanálise acabara também compreendendo outras maneiras de ver a vida, por um lado espiritual onde seu conhecimento não pode ajudar muito, apesar do interesse de Lavínia. Há um momento no filme em que o diretor Eugène Green aparece no papel de um imigrante e fala para Aliénor sobre seu destino que leu nas estrelas. 

Um filme interessante que mostra como os saberes podem se mesclar e criar novas possibilidades, o que era impossível enquanto cada um estava em sua própria maneira de ver o mundo e a si mesmo. Um enriquece o outro e abre novas portas, ou como a metáfora do filme, deixa a luz entrar. 

O título do filme deriva de Sant'Ivo alla Sapienza, uma igreja católica que foi construída pelo arquiteto Francesco Borromini, em Roma nos anos 1642-1660, e é considerada uma obra prima do Barroco. 

Francesco Borromini nasceu em 1599 em Bissone, Lago Lugano que hoje pertence à Suíça e faleceu em Roma, Itália em 1667. Foi um arquiteto barroco que competia com o grande mestre Gian Lorenzo Bernini. A morte de Borromini foi algo inesperado, ele queimou todos seus desenhos e se matou com sua própria espada. 

Eugène Green nasceu em 1947 em Nova Yorque, EUA.

terça-feira, 21 de julho de 2015

FILME: LE LIVRE DE MARIE - 1984


Direção: Anne-Marie Miéville - 1984 
Duração: 35 min
País: França - Suíça 

O filme vem antes de Je vous Salue Marie. Trata-se da história de Marie, uma menina de onze anos que vive momentos difíceis, pois seus pais (Bruno Cremer e Aurore Clément)  estão se separando e tudo irá mudar para ela. 

Marie tenta se consolar ouvindo Réssurection de Gustav Mahler, mas não obtém êxito. A dificuldade para qualquer criança ou jovem diante da separação dos pais que rompe com o imaginário infantil dos pais perfeitos e ao mesmo tempo abala a segurança da criança. 

A diretora Anne-Marie Miéville é a terceira esposa de Jean-Luc Godard e o curta foi escrito como um complemento para o filme Je vous Salue Marie.



Anne-Marie Miéville nasceu em 1945 em Lausane, Suíça 

FILME: JE VOUS SALUE, MARIE - 1985


Direção: Jean-Luc Godard - 1985
Duração: 102 min
Roteiro: Jean-Luc Godard 
País: França - Suíça

Filme que causou tanta polêmica e escândalo e que eu não havia assistido. No entanto o que encontro neste filme é pura arte. Uma nova maneira de contar a história de Maria e José, mas dentro de um contexto moderno, mesmo que em vários momentos do filme apareça escrito Naquele tempo.. , mas o que justamente o filme nos lembra a da contemporaneidade da história que não se perdeu lá atrás e que é possível trazer este mistério para o mundo atual com um casal jovem que nunca transou e justamente por isto deixa José (Thierry Rode) incrédulo  no começo sobre Maria (Myriem Roussel) ser virgem e estar grávida. 

Paralelamente temos a história de um professor de ciência (Johan Leysen) que estuda a origem da vida e tem um caso com uma de suas alunas, Eva (Anne Gautier), não à toa chamada de Eva, e que come uma maçã. 

José trabalha como taxista e está sempre com seu cachorro e Maria estuda, joga basquete e ajuda seu pai no posto de gasolina. Vemos um avião sobrevoando para aterrissar e depois vemos Gabriel acompanhado de uma menina maliciosa. Gabriel não se pode dizer que seja um primor de delicadeza, nem um pouco angelical digamos, mas é ele, o anjo Gabriel que vem até Maria e que depois irá de maneira um tanto grosseira e bruta abrir os olhos de José para que ele acredite, para que creia, para que confie, o que no final acabará ocorrendo, mas não sem antes ele se debater muito e inclusive se aproximar de Juliette (Juliette Binoche), mas que não conseguirá conquistá-lo. 

Como estamos na modernidade o que Maria enfrentará é o ceticismo, até mesmo do médico que a viu nascer que ao constatar sua virgindade e ao mesmo tempo a gravidez, não consegue conceber que ela não tenha tido algum contato com José. Não há escândalo, há indiferença, ok!, então que assim seja. Ela também irá duvidar do amor de José ao saber de seus encontros com Juliette. 

Finalmente eles se acertam e passam a viver junto, a criança nasce. Mas Maria não é diferente das outras mulheres, ela gosta de se vestir bem, não é uma santa, e a castidade que lhe é imposta pesa, ela tem desejos e tem que lutar contra esta tentação. É um percurso espiritual, onde ela quer que a alma seja corpo. Não se trata de uma Maria passiva, ela tem que alcançar algo, se superar, estar acima dos outros, é este seu percurso e que não é fácil, ela é humana. Com isto ela se encontra na solidão, aquela de todos que são diferentes, mas a dela é maior. 

O professor de ciências não consegue afinal explicar a origem da vida, há um ponto onde ele não consegue mais e tem que admitir que há algo maior. José também quer compreender, quer saber tudo, é cego, não consegue ver além da ciência, do materialismo. Para ele é o corpo que age sobre o espírito e terá que percorrer seu caminho de crescimento também até encontrar o amor. 



No final vemos um casal banal, o filho parte, Maria sabe que tem que ser assim, mas ela volta a ser uma mulher como qualquer outra, perde sua pureza. 

Há algo na mulher que é mistério, mas na modernidade atual isto se perdeu, nem mesmo Maria o mantém, nem mesmo quando o anjo Gabriel a saúda, ele por um momento faz com que ela lembre, vem algo, mas ela retoma a vida cotidiana e banal. 


Jean-Luc Godard nasceu em 1930 em Paris, França 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: LES PETITS RUISSEAUX - 2010



Direção: Pascal Rabaté - 2010
Duração: 91 min
Título em português: Os pequenos riachos (tradução minha) 
País: França 

Baseado na história em quadrinhos do próprio diretor. 

Émile (Daniel Prévost) vive sozinho e leva uma vida tranquila. Vai pescar com seu amigo Edmond (Philippe Nahon), encontra seus amigos num bar onde cada um conta suas histórias, e cuida de suas plantas. Tudo segue tranquilo, e ele continua cultuando sua esposa morta, vivendo de lembranças. Até o dia em que descobre que seu amigo Edmond ao contrário dele tem encontros com mulheres, e mais ele se dedica à pintura de mulheres nuas, dança, ri, leva a vida de uma forma bem mais animada.


Alguns dias depois ele é surpreendido com a morte de Edmond, e no enterro ele encontra Lucie (Bulle Ogier), a última namorada do amigo morto. A partir daí Émile começa a rever sua vida, seu desejo reacende, e ela começa a ver todas as mulheres nuas, na rua, no mercado, onde ele esteja. Tem alguns encontros com Lucie, mas não consegue ir adiante devido a lembrança de seu amigo. Então ele se decide a recuperar um pouco da vida e parte em seu mini caro - Mini Comtesse - primeiramente ele volta a casa de sua infância para encontrar ali um grupo de jovens adeptos de uma vida simples que estão morando na casa. Fica com eles dois dias, e acaba tendo um encontro amoroso com uma das jovens. Ao voltar para casa, um desses "acasos" da vida, ele sofre um acidente e conhece então Lyse (Hélène Vincent) que foi a causadora do acidente e o visita no hospital. 

A partir deste momento sua vida é retomada.


O filme retrata a vida na velhice onde já não pensa que algo pode acontecer e se acaba levando a vida com conformismo, saudosismo e metodicamente, até que algo venha mudar isto e mostre que mesmo com setenta anos é possível viver, encontrar pessoas, amar, desejar, rir, viajar, dançar entre outras coisas. O filho de Edmond achava seu pai um devasso, queima suas pinturas e Émile consegue salvar dois quadros que ele fazia reproduzindo mulheres da Playboy e usando além da tinta lã, fios para imitar os pelos púbicos. Já o filho de Émile fica muito contente com o fato do pai ter encontrado alguém e ao ver os quadros se diverte. O filme também serve de alerta na forma como os mais jovens enxergar e julgam a velhice, o que acaba levando muitos a seguir estas ditas normas sociais onde o velho tem que ser velho em tudo, e não apenas no corpo que envelhece. 

Pascal Rabaté nasceu em 1961 na França


A mini-comtesse. 

FILME: AS QUATRO VOLTAS - 2010


Direção: Michelangelo Frammartino - 2010
Duração: 88 min
Título Original: Le Quattro volte
País: Itália - Alemanha - Suíça 

Uma vila medieval na Calábria, Itália onde as tradições são mantidas e há o pastoreio das cabras. Também produzem carvão de forma artesanal. 

Um filme para se sentir, pois não há falas, mas os sons da vila, das pessoas, dos animais e da natureza. É uma experiência única e para cada um é diferente.


Começa com um velho (Giuseppe Fuda) que pastoreia suas cabras junto com um cachorro. O dia a dia monótono dele, repetitivo, mas é um momento em que nos damos conta que também fazemos isto, em outro lugar, em outro tempo e contexto, mas repetimos diariamente as mesmas coisas da mesma forma. E o tempo passa, as estações mudam, os anos avançam, a vida se vai. O velho morre sozinho e somente o cachorro pode avisar a todos e o faz de forma brilhante e inteligente no dia da encenação da Paixão de Cristo. O enterro e a pedra que fecha o túmulo, ficamos do lado de dentro do túmulo, escuridão, alguns míseros sons.


As cabras, e no ritmo da vida se um  morre outro nasce, e nasce um cabritinho. Acompanhamos as cabras, o crescimento dos pequenos, até o dia em que este que nasceu se perde, e acaba se abrigando embaixo de uma imensa árvore. Novamente a escuridão e os sons.


Árvore imensa, majestosa. As estações passam, e quis que ela fosse a escolhida para a festa daquele ano,  assistimos sua derrubada, é levada para a vila, sobem nela, quem consegue ganha o prêmio. É derrubada, em seu topo vários presentes. Fim de festa, ela é serrada e levada para a carvoaria.





Vemos como se produz carvão artesanalmente. E a árvore imensa, agora tocos de madeira, é colocada por primeiro, e finalmente a escuridão novamente. Fim de mais um ciclo.



E tudo se repete na vila, o pequeno caminhão que já passava no tempo do velho sobe novamente a rua, carregado de carvão para vender ao povo. Vemos a fumaça saindo da chaminé. 

Tudo sempre se reorganiza, nada para, morrem uns mas a vida continua, nascem outros, e a vida continua. Voltas e mais voltas e tudo recomeça e tudo termina, e recomeça. O que vemos é a natureza, incluindo o ser humano, o que vemos é a vida como ela é, sem enfeites ou eufemismos, ela segue. Mesmo que a religião se faça presente, ela se faz como ritual, como parte da vida, esta vida que segue, e não como ordenadora da vida. E o homem também é formado de sais, é um mineral, que retorna à terra. O filme homenageia o ciclo da vida em suas quatro manifestações: humana, animal, vegetal e animal, e estão todos interligados. 

Belíssimo!

Veja o trailer: 




Michelangelo Frammartino nasceu em 1968 em Milão, Itália

FILME: TERRAFERMA -2012


Direção: Emanuele Crialese - 2012
Duração: 89 min
País: Itália - França 


Filme atualíssimo sobre a questão da entrada de refugiados na Europa, em especial na Itália, assunto que vem sendo notícia quase que diariamente nos noticiários, divulgando o drama destes refugiados que chegam da África fugindo das guerras civis e da fome,  sendo que muitos morrem no mar e da posição cada vez mais restritiva da Europa em recebê-los ou socorrê-los. 

O filme se passa numa ilha que sobrevive da pesca, mas principalmente do turismo, uma vez que a atividade pesqueira está em declínio. Mas a comunidade dos pescadores tem suas leis próprias, e principalmente a de nunca abandonar ninguém no mar. Com as novas leis restritivas eles entram em choque, uma vez que se sentem entre duas situações, ou obedecem ao que acreditam e sempre fizeram ou cumprem a lei, pois do contrário sofrem as punições. 


Filippo (Filippo Pucillo) acompanha seu avô Ernesto (Mimmo Cuticchio) que insiste em manter a tradição pescando no mar, sendo que a maioria ou vendeu seus barcos ou os utilizam para passeios turísticos como Nino (Giuseppe Fiorello), filho de Ernesto e tio de Filippo, cujo pai morreu no mar e de quem era o barco que eles usam para pescar. Um dia eles avistam uma pequena embarcação lotada de pessoas, refugiados. O avô avisa a polícia costeira, porém recolhe a bordo vários que estavam no mar, entre eles uma mulher etíope grávida , Sara (Timnit T.) e seu filho. Como isto é ilegal eles a levam para a casa de Filippo e sua mãe Giulietta (Donatella Finocchiaro) é quem faz o parto da menina que nasce.




As consequências deste ato virão, uma vez que a polícia descobre que alguns deles foram recolhidos pelo pesqueiro e no dia em que eles estão saindo para levar alguns turistas para passear são abordados pela polícia que confisca o barco. 

Há um conflito moral, principalmente para Filippo entre seguir o que fazem os ancestrais e os mais velhos da ilha ou respeitar a lei. Ele vê os efeitos de desrespeitar a lei que recaem sobre seu avô, o medo de sua mãe de serem descobertos. Sara relata para Giulietta que o bebê é fruto de estupro que ocorria na frente do menino. Que levaram dois anos para chegar à ilha. Em um dado momento Filippo está no mar com uma garota, e ao ver os refugiados se aproximarem de seu barco ele tenta ir embora, precisa bater com os remos nas mãos deles para poder ir embora. É uma cena triste, difícil, pois de um lado temos seres humanos que irão morrer afogados e de outro a lei que manda não socorrer. 

Já Nino se preocupa com o turismo, é seu ganha pão, e diz a todos que ali não há refugiados, o que os turistas não desejam ver uma vez que foram para a ilha para descansar e ver belas paisagens, se divertir. Mas tudo muda no dia em que vários náufragos chegam à praia mais mortos do que vivos.  Os moradores estão divididos entre manter tudo em ordem por causa do turismo e a comunidade dos pescadores que tem um código de ética e de humanidade que os leva a socorrer estas pessoas que estão no mar. 

Apesar do filme não se aprofundar muito ele nos dá uma pequena ideia do drama dos refugiados que chegam à Europa pelo mar. Também nos deixa uma lição de ética e moral, afinal, o que fazer? socorrer seres humanos famintos, sedentos, em desespero ou não? ou seguir a lei que determina que não é para recolhê-los? A polícia o faz e os leva de volta de onde vieram. 

Há outra questão que não aparece no filme, mas se nos aprofundarmos um pouco mais na história veremos a responsabilidade da Europa nas guerras civis da África, sejam por causa da colonização, ou das divisões territoriais que elaboraram, ou seja pela manutenção de grupos militares ou até mesmo ditadores em função de interesses econômicos. A fome que existe em vários destes países, a falta de perspectiva, a violência, à qual o ocidente fecha os olhos. É cada um por si. 

O diretor Crialese decidiu fazer este filme após ler a história de uma africana que foi um dos cinco sobreviventes de um barco lotado que passou 21 dias à deriva no mar sem ajuda antes de chegar a Lampedusa, na Itália. "Fiquei hipnotizado pelo rosto dela, por sua expressão. Ela tinha acabado de passar pelo inferno, três semanas em alto mar, com pessoas que os viam, se aproximavam e jogavam água e então os abandonava novamente. E ela parecia ter chegado ao paraíso." disse Crialese. 

É Sara quem representa esta mulher no filme. O filme é uma denúncia à repressão da imigração ilegal. O que vale mais? o Estado, sua fronteira e leis ou a vida humana? O planeta Terra pertence a todos, mas as fronteiras e as leis foram criadas pelo homem. A situação é delicada com certeza e envolve muito mais do que o humanitarismo, mas com certeza não é deixando morrer as pessoas que isto se resolve.

Emanuele Crialese nasceu em 1965 em Roma, Itália.