quarta-feira, 5 de agosto de 2015

EXPOSIÇÃO: A UNIÃO SOVIÉTICA ATRAVÉS DA CAMERA



Fotógrafos:
Leonid Lazarev
Vladimir Lagrange
Yuri Krivonossov
Viktor Akhlomov
Antanas Sutkus
Vladimir Bogdanov
Curadoria: Luiz Gustavo Carvalho e Maria Vragova
Local: Museu Oscar Niemeyer - Curitiba - PR 

São seis importantes fotógrafos da União Soviética que narram por meio de imagens a história do país, de 1956 a 1991, ano que houve a dissolução da URSS. O ano de 1956 é um ano contraditório para a União Soviética, Nikita Khrushchev denunciou os crimes cometidos por Josef Stalin e as tropas da União Soviética invadiram a Hungria. Foi o primeiro acontecimento que permitiu uma certa liberdade aos fotógrafos da exposição, deixando de ser uma ferramenta ideológica e podendo adquirir uma nova estética, resgatando técnicas que remontavam ao movimento de vanguarda dos anos 1920. (Catálogo do MON sobre a exposição). 

Leonid Lazarev

Leonid Nikolaevich Lazarev nasceu em 1937 em Moscovo, Rússia


Lembranças da infância - 1957 

Lembranças da infância - 1957 



Vladimir Lagrange 

Vladimir Lagrange 


Sempre com o povo 

"A velhinha"

Idade não é problema - 1982 


Viktor Akhlomov 

Viktor Akhlomov 

Avenida Kalinin, Moscou - 1977


Antanas Sutkus 

Antanas Sutkus nasceu em 1939 em Kluoniskiai, Kaunas, Lituânia. A série Sutkus, Pessoas da Lituânia, é um projeto contínuo iniciado em 1976 para documentar a vida e a mudança das pessoas comuns ao invés dos modelos promovidos pela propaganda Soviética. Conheceu Sartre e Simone de Beuavoir em 1965 quando ambos visitaram a Lituânia. 


Intervalo de jantar, Vilnius - 1991
Regente, Nida - 1971

Vladimir Bogdanov 

Meninos - 1989

Algumas fotos são bem interessantes. Meu olhar foi mais estético me abstendo de fazer uma apreciação política e cultural. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

FILME: UMA ALMA ASSOMBRADA POR UMA PINTURA - 1994


Direção: Shuqin Huagn e Zhang Yimou - 1994
Duração: 135 min
Título Original: Hua Hun
País: China - França - Taiwan

Cinebiografia da pintora chinesa Pan Yu-liang baseado no livro escrito por Shih Nan intitulado Hua Hun. 

Um dos grandes feitos de filmes assim é nos apresentar a artistas sobre os quais pouco ou nada sabemos. É o caso desta pintora chinesa, Pan Yu-liang,  que eu não conhecia e que é a maior representante da arte ocidental na China.

Início do século XX, Yuliang (Gong Li) após a morte de seus pais encontra-se num bordel onde deve se tornar prostituta. Quis o destino que seu primeiro cliente fosse Chan-hua Pan um inspetor da alfândega a quem todos queriam agradar e lhe levam Yuliang. Ele se recusa a isto, mas ela implora que a salve e ele aceita pagando sua dívida ao bordel. Eles irão se casar, ela será a segunda esposa dele. Após Pan se afastar da Revolução de Yunnan eles se mudam para Xangai onde ela aprende a pintar e tem aulas no Art Institute de Xangai.

O que acabará interferindo entre eles é que Pan deseja um filho, mas por haver tomado uma droga ainda no bordel ela nunca poderá ser mãe. Os desenhos de nus com modelos vivos são condenados e os alunos do Instituto se dispersam, alguns irão para Paris e Yuliang também vai, deixando Pan com sua primeira esposa para que possa ter um filho.



Em Paris ela ganha um prêmio por um auto-retrato nu. Em 1930 ela retorna para a China e se torna professora, mas a inveja de um colega que não aceita uma mulher e jovem como professora o leva a por a público seu passado no bordel. Yuliang retorna pela segunda vez à Paris e lá permanecerá pelo resto de sua vida. Ao final terá uma grande exposição pelo seu trabalho.

Em 1985, depois de sua morte, a China levou muitos de seus trabalhos para o Museu Nacional de Arte em Beijing.


Pan Yu-Liang nasceu em 1895 em Anhui, República Popular da China e faleceu em 1977 em Paris, França





Shuqin Huang nasceu na República Popular da China 

Zhang Yimou nasceu em 1951 em Xian, República Popular da China 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

FILME: VOYAGE EN CHINE - 2015


Direção: Zoltan Mayer - 2015
Duração: 95 min
País: França

Liliane (Yolande Moreau) é casada com Richard (André Wilms), um homem que lhe dá pouca atenção. Em uma noite ela recebe um telefonema que seu filho Christophe faleceu em um acidente na China, onde estava morando. Liliane deseja trazer o corpo do filho para a França, mas se depara com uma burocracia infinita e incompreensível que não lhe esclarece absolutamente nada. Finalmente se decide a ir pessoalmente à China para buscar o corpo, mas irá sozinha, não quer que o pai a acompanhe, uma vez que pouco se importou com o filho durante toda sua vida, não precisa se importar agora. 



Esta viagem de dor e luto irá mudar a vida de Liliane completamente. Ela chega a um país com uma cultura totalmente diferente da sua e sem falar uma palavra de chinês. Sentimos em nós a angústia que isto causa, sem poder compreender ninguém, nem falar com o outro, porém há uma diferença crucial, pois não existe muita diferença entre seu percurso na França em busca de informações de como transladar o corpo do filho, onde todos falam francês, mas não dizem nada e não se compreende nada, e sua situação na China com a língua, mas ali as pessoas a acolhem, se esforçam para compreender e ajudá-la. 




Ela irá para o interior do país, e as paisagens são belas. Conhecerá Danjie (Qu Jing Jing) que foi a namorada de seu filho. Será acolhida pela senhora dona da hospedagem e fará um amigo que a ajudará a conseguir os documentos necessários. É justamente aí que vemos quando o ser humano deseja ajudar o outro ou não. Mesmo sem falar chinês e eles sem falarem francês, ela consegue o que precisa. 



Liliane conhecerá os amigos do filho e saberá algumas coisas sobre sua vida. Ela sente não ter ido antes quando ele ainda estava vivo, e começa a escrever uma espécie de diário onde conversa com ele sobre suas impressões do que está vivendo, como forma de compensar este vazio que sente. Ao descobrir que para o taoismo as pessoas que morrem em acidentes não vão para o céu, ou nirvana, ela resolve com Danjie cumprir os rituais necessários para que sua alma se liberte. E depois opta pela cremação por ser uma forma mais fácil inclusive de levar o filho para a França, realizando também o ritual fúnebre na China. 



Um filme que mostra que a dor muitas vezes é uma porta para uma nova vida, pois nos dá coragem de agir. 


Zoltan Mayer nasceu na França 

FILME: FOTÓGRAFO - 2015


Direção: Irena Pavlásková - 2015
Duração: 120 min
Título Original: Fotograf
País: República Tcheca

Não conhecia nada sobre o fotógrafo Tcheco Jan Saudek, mas ele me lembrou Lucian Freud, neto do psicanalista, que desenha e pinta também as pessoas que não correspondem exatamente ao ideal de beleza e de corpos magros que a sociedade nos impõe atualmente, e penso que isto é importante, pois a beleza está muito além destes estereótipos. 

A vida de Jan Saudek (Karel Roden) é centrada nas mulheres, desde as que pousavam para ele até as que a rodeavam em sua vida, o que nem sempre dava bons resultados para sua vida pessoal, uma vez que uma mulher quando se sente rejeitada ou trocada por outra é capaz de ser extremamente vingativa e é o que faz Líba (Marie Málková) se apoderando de tudo que ele possui. Jan apesar de lutar para tentar reaver seus bens e os negativos de suas fotos não se dá por vencido, e recomeça sua vida de artista e também de eterno amante das mulheres. 



Jan Saudek é filho de judeus e esteve num campo de concentração quando criança escapando por pouco das experiências de Josef Mengele, ele sobreviveu. Sua arte talvez reflita inconscientemente esta parte trágica de sua infância, quando conheceu de perto o horror, os limites humanos e a extrema magreza e fome. Ele tem uma percepção crítica e ácida sobre a sociedade que se finge de moralista enquanto em suas mentes são devassos e desejosos. 

Saudek é pouco conhecido no Brasil, mas é o mais importante fotógrafo da República Tcheca e reconhecido na Europa como um dos maiores fotógrafos. Ele tira fotos principalmente de mulheres gordas com um fundo marrom claro e depois as pinta à mão deixando-as com tons sépia e aparência do século XIX. Ele representa uma sociedade livre e erótica. 



Em suas palavras: "Para mim a diferença entre Arte e Pornografia é simples. Você pode olhar a Arte por uma eternidade, enquanto a pornografia você olha rapidamente e coloca de lado, porque tudo é explícito; não há mistério, a fantasia não tem espaço ali." 



Uma definição perfeita entre o real e o imaginário, e o amor e o sexo necessitam do imaginário e da fantasia. Sem o véu, o mistério, ele é como diz Saudek , algo que se olha rapidamente, ou nem se olha. 

Suas fotos são realmente impressionantes e interessantes.Fotografa modelos nuas ou vestidas, ou semi cobertas, captura cenas belas e estranhas, mas podemos ver em suas fotos algo como quando olhamos um homem ou uma mulher e o despimos mentalmente, ou imaginamos algo diferente do que está ali. É o imaginário, a fantasia atuando sobre o real. É o que desejamos fazer e não temos a coragem ou audácia para fazer, é o que desejamos ver. Seria como o que o inconsciente deseja. 

Coincidentemente ontem vi um artigo na internet sobre uma fotógrafa brasileira, Mariana Godoy, que também faz ensaios com fotos com mulheres gordas. Ela fiz que gosta e usa a palavra gorda justamente para combater a gordofobia. Já Saudek ao ser questionado sobre sua preferência por mulheres gordas e se isto estaria relacionado a sua passagem pelos campos e concentração o nega dizendo que gosta de mulheres gordas e que a maioria dos homens é assim, apenas não o admitem. 



Irena Pavlásková nasceu em 1960 em Frýdek-Místek, República Tcheca


Jan Saudek nasceu em 1935 em Praga, República Tcheca





quarta-feira, 29 de julho de 2015

FILME: A HISTÓRIA DA ETERNIDADE - 2014


Direção: Camilo Cavalcante - 2014
Duração: 120 min
Roteiro: Camilo Cavalcante
País: Brasil

Nosso sertão tantas vezes filmados está novamente neste filme, porém não vem para nos contar a dura vida do povo que o habita, ou falar das secas ou das injustiças, mesmo que a seca esteja presente no filme, o que este filme traz é a história de três mulheres e seus desejos. 



Logo no começo do filme vemos passar um enterro naquela vastidão com uma única árvore onde se abriga um sanfoneiro cego e um menino. É o enterro de uma criança e a mãe Querência (Marcelia Cartaxo) o segue com dor, apoiada por Das Dores (Zezita Matos). Em seguida vemos Alfonsina (Débora Ingrid) ouvindo uma música num rádio a pilha e sonhando com o mar até que seu pai (Claudio Jaborandy) e irmãos chegam e ela precisa servir a janta. Ela nunca senta à mesa com o homens.Em seguida ela pede permissão para fazer o prato de seu tio Joãozinho (Ihandhir Santos) e o leva até sua casa, este irmão desprezado por seu pai por ser um artista, se dedicar à arte e representações, e por isto considerado um vagabundo que nada faz, além de louco, porque ele tem epilepsia. 


Estas três mulheres que desejam, tem pulsões, amam, sonham e vivem neste pequeno vilarejo no meio do sertão limitadas pela região, pela seca, pela pobreza, pelas dificuldades e pelos homens, que são rudes, mas também doces como o sanfoneiro e Joãozinho, todos em tão pequeno espaço, mas que são como todos, como o ser humano, capazes de sonhar, de criar, de desejar, mas também de matar ao outro. 

Alfonsina a mais jovem, vai completar 15 anos e seu maior desejo é ver o mar. Ela pede ao seu pai que a leve, mas ele diz que ela ficou doida, mas que vai fazer um forró e matar quatro bodes para a festança. A jovem fica triste. Seu tio então lhe diz que tem uma surpresa e que tem a ver com o mar, mas que lhe dirá o que é no seu aniversário, o que será uma das mais belas cenas do filme, quando a arte e a imaginação é capaz de vencer todos os limites e trazer o mar para o sertão. A jovem está na fase das descobertas sexuais, e quem mais do que seu tio com sua sensibilidade poderia atraí-la? Ele resiste, mas ela não desiste. 



Querência logo no começo tem um homem que vai embora. O sanfoneiro esperava por isto há muito tempo, mas ela está triste, de luto. Ele então lhe diz que vai ficar ali fora tocando até ela abrir a porta e deixar seu amor entrar. 



Das Dores é viúva e quem cuida da igreja, tem um oratório em casa e sempre reza. Sua filha liga e avisa que o neto está indo para lá. O jovem chega, mas ele não foi para lá para visitar sua avó, está fugindo, fez coisas ruins e está sendo procurado, querem matá-lo. Das Dores sente atração pelo garoto. Ela abre sua mochila, pega uma cueca, depois encontra uma revista pornográfica que fica olhando. Seu corpo clama, arde. Ela o observa dormir. 



Joãozinho prepara uma apresentação. Coloca seu toca discos do lado de fora, ele teceu uma rede como de pescaria com vários objetos pendurados, usa como se fosse um xale e dança com a música "Fala" dos Secos e Molhados. 



Neste aparentemente pequeno mundo vemos um panorama do ser humano com seus desejos e dores, e a história da eternidade que se repete, onde o trágico acompanha sempre o humano. Também fiquei pensando no nome Alfonsina que deseja ver o mar e Alfonsina del mar.

Se Guimarães Rosa dizia que o sertão é o mundo, Cavalcante faz um filme onde mostra isto. 

Belíssimo filme. 

Camilo Cavalcante nasceu em 1974 em Recife, Pernambuco

FILME: M. BUTTERFLY - 1993


Direção: David Cronenberg - 1993
Duração: 100 min
Roteiro: David Henry Hwang
País: Estados Unidos

Filme impressionante! Lembrando de início que não se trata de Madame Butterfly, a ópera sobre a história de um oficial da marinha americana Benjamin Pinkerton que se casa com uma gueixa Cio-Cio San. Ele retorna aos Estados Unidos prometendo voltar, o que não faz e se casa com uma americana. Butterfly (Cio-Cio San) então se mata. A ópera é de Giacomo Puccini e o filme esta relacionado a ela e também a fatos reais que inspirou uma peça de teatro de David Henry da qual o filme é a adaptação, sobre o relacionamento entre um diplomata francês, Bernard Boursicot, e um cantor da ópera de Pequim, Shi Pei Pu. 



René Gallimard (Jeremy Irons) é um diplomata francês em Beijing, China, nos anos 60. Ele conhece Song Liling numa apresentação na Embaixada que canta Madame Butterfly e se impressiona com ela. René é casado com Jeanne ( Barbara Sukowa), mas se apaixona por Song. Eles iniciam um relacionamento, e são separados quando começa a Revolução Cultural na China. O Embaixador Toulon (Ian Richardson) diante da depressão de René pela separação resolve que ele vai voltar para a França. 



Não entrarei em detalhes do filme, vale a pena assistir. Mas o que me impressionou é que se trata de um dos melhores filmes que assisti sobre a patologia do amor, quando completamente cegos não enxergamos mais nada.



René vê em Song uma idealização de mulher perfeita, influenciado por ela mesma e por tudo que sabe sobre a cultura oriental, onde a mulher é educada para agradar ao homem. Seu casamento não ia bem, e seu desejo é despertado diante de Song, ele se encanta e isto o torna absolutamente cego, a um ponto inimaginável que para muitos é difícil de compreender e acreditar, mas o fato é que isto é possível. Quando alguém se apaixona em geral se apaixona ou por si mesmo ou pelo o que vê na pessoa e deseja para si, mas isto normalmente está muito longe de quem é o outro. Quando a paixão se desfaz é que veremos o outro já de uma outra maneira, mas mesmo assim sempre permanece um véu, uma máscara atrás da qual está o verdadeiro outro. O filme nos mostra como funciona a paixão para o que está envolvido nela, que perde a noção do que é real para criar para si mesmo um ser desejado que é o objeto da paixão. 

A falta que René tinha e que preenchia com seu trabalho, e em sua dedicação inclusive de ser incorruptível desagradando aos seus colegas se volta para Song, ela vem preencher este lugar, e desperta em René o que ele escondia de si mesmo e não conhecia. 

Para se aprofundar mais é preciso falar do filme e do que acontece. 

David Cronenberg nasceu em 1943 em Toronto, Canadá