sábado, 8 de agosto de 2015

FILME: LA SAPIENZA - 2015


Direção: Eugène Green - 2015
Duração: 104 min
País: França - Itália

O filme atraiu-me por tratar de arte, da bela arquitetura das igrejas na Itália, mas fui surpreendida por outro aspecto. Alexandre (Fabrizio Rongione) é um arquiteto e totalmente racional, sua esposa Aliénor (Christelle Prot) trabalha com o lado humanitário das construções e estudou sociologia e psicanálise. E ambos irão encontrar dois irmãos que são voltados para a espiritualidade. São três formas de ver o mundo que no filme irão se encontrar e oferecer possibilidades diferentes para cada um deles.

Alexandre encontra-se em crise, está em dúvida em relação a tudo que fez e seu casamento não está bem. Ele resolve ir para a Itália e sua esposa o acompanha. Irão primeiro para Stresa, a beira do lago Maggiore,
Será ali que encontrarão os irmãos Goffredo (Ludovico Succio) e Lavínia (Arianna Nastro) num momento onde a jovem se sente mal e Aliénor se prontifica imediatamente a levá-los de táxi para casa.

Alexandre parte para Roma e Aliénor sugere que leve Goffredo com ele, ela deseja ficar para tentar ajudar Lavínia. A viagem se transformará em um aprendizado para ambos e significará a libertação para Alexandre que poderá enfrentar seus fantasmas e a culpa que sente.

As visitas às igrejas e as explicações sobre a arquitetura com a visão de Alexandre e a de Goffredo são extremamente interessantes. Se inicialmente Alexandre estava arredio, aos poucos ele se abre e simpatiza com o jovem e passa a escutá-lo.







Aliénor ao tentar ajudar Lavínia através da psicanálise acabara também compreendendo outras maneiras de ver a vida, por um lado espiritual onde seu conhecimento não pode ajudar muito, apesar do interesse de Lavínia. Há um momento no filme em que o diretor Eugène Green aparece no papel de um imigrante e fala para Aliénor sobre seu destino que leu nas estrelas. 

Um filme interessante que mostra como os saberes podem se mesclar e criar novas possibilidades, o que era impossível enquanto cada um estava em sua própria maneira de ver o mundo e a si mesmo. Um enriquece o outro e abre novas portas, ou como a metáfora do filme, deixa a luz entrar. 

O título do filme deriva de Sant'Ivo alla Sapienza, uma igreja católica que foi construída pelo arquiteto Francesco Borromini, em Roma nos anos 1642-1660, e é considerada uma obra prima do Barroco. 

Francesco Borromini nasceu em 1599 em Bissone, Lago Lugano que hoje pertence à Suíça e faleceu em Roma, Itália em 1667. Foi um arquiteto barroco que competia com o grande mestre Gian Lorenzo Bernini. A morte de Borromini foi algo inesperado, ele queimou todos seus desenhos e se matou com sua própria espada. 

Eugène Green nasceu em 1947 em Nova Yorque, EUA.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

FILME: O HOMEM AO LADO - 2009



Direção: Gastón Duprat e Mariano Cohn - 2009
Duração: 110 min
Título Original: El Hombre de al lado
País: Argentina

Leonardo Kachanovsky (Rafael Spregelburg) e sua família moram em Buenos Aires, na única construção projetada pelo arquiteto Le Corbusier na América Latina, o que leva muitas pessoas a ir ver a casa e tirar fotos. Leonardo também é arquiteto, trabalha como designer e professor. Tudo vai muito bem até o momento em que seu vizinho Victor (Daniel Aráoz) resolve abrir um buraco na parede para obter um pouquinho de sol, conforme ele diz, e que Leonardo e sua esposa Ana (Eugenia Alonso) consideram com uma invasão de sua privacidade, pedindo que ele feche o buraco o que o vizinho não faz. 



Até aqui Leonardo está coberto de razão, afinal Victor nem sequer lhe comunicou isto, ou pediu autorização, e legalmente ele não pode fazer isto, o que então justifica a revolta de Leonardo e Ana, mas a questão não é tão objetiva assim, é muito mais profunda.



Comecemos pela casa, que tem sua visitação proibida mas que está sempre rodeada de pessoas que tiram fotos, o que de certa maneira envaidece os donos da casa, apesar de serem grosseiros com alguns turistas que lhe solicitam uma visita, o que não seria necessário. Então aqui temos um pequeno paradoxo, pois quem deseja privacidade e não ser visto não iria morar justamente numa casa que é objeto de culto, admiração e procurada pelos que desejam vê-la. Mas isto também não é suficiente para justificar que o vizinho possa ter o direito de fazer um buraco na parede. 

O que realmente vai se tornando visível é o preconceito e a intolerância. Leonardo na realidade não consegue se impor, nem ao vizinho e menos ainda à sua esposa Ana que é autoritária, intransigente e que quer apenas seus desejos atendidos. Então ao invés de ser direto e objetivo, ele conta histórias, como a de seu sogro ser dono da casa e não querer o buraco, liga para um advogado que ameaça o vizinho, até chegar a sugerir uma modificação que ficaria bom para todos, com uma janela menor o que Victor aceita e faz, mas Ana não. Por outro lado ele exerce poder e autoritarismo com seu alunos onde ele se sente superior e seguro, não se incomodando de considerar os trabalhos apresentados como primários e cheios de erros e é extremamente grosseiro com uma equipe de televisão durante uma entrevista deixando a mostra seu desprezo pelo o que ele considera massificado e não refinado, que não sabe se diferenciar, como ele e sua esposa. 

Ana é professora de Yoga, muito Zen, e isto é hilário, porque justamente é o que ela não é. A filha passa seu tempo ouvindo música através de fones de ouvido e dançando, sem nunca prestar atenção aos pais. Leonardo e sua família consideram o vizinho um sujeito bruto, sem educação, sem cultura e grosseiro, e isto é o que mais o incomoda. E são eles que acabam espionando o vizinho e fazendo comentários pejorativos. 

Victor é mais autêntico, diz o que pensa, enquanto Leonardo tenta manter uma máscara do que ele acredita ser civilidade e boa educação e com isto é falso e não diz o que realmente pensa e deseja, ele acredita que é um grande artista em sua profissão, e despreza uma pequena apresentação que Victor faz com elementos bem simples como bananas, presunto, e dois dedos vestidos com botinhas, sem perceber que nisto também há criatividade, assim como a escultura que Victor lhe oferece e que Ana manda jogar fora. A cena que mais demonstra isto é quando Victor oferece ao seu vizinha uma conserva de javali feita em casa. Leonardo se preocupa em se mostrar satisfeito em ganhar o presente, isto é de bom tom, mas quando tem que provar.... e se vê obrigado a isto, chega a ser cômico. 





Leonardo faz de tudo para tapar aquela janela que funciona como um Outro para ele e justamente por isto o incomoda e muito. 

O final do filme é impactante. Vale a pena assistir. 

A Casa Curutchet em La Plata, Buenos Aires, foi encomendada a Le Corbusier pelo médico argentino Pedro Domingo Curutchet. Em 1992 a casa tornou-se Sede do Colégio de Arquitetos de Buenos Aires e é considerada patrimônio nacional da Argentina. Em 2014 iniciou-se uma reforma e agora a ideia é criar um centro de documentação tanto do edifício como da obra de Le Corbusier, o arquiteto, urbanista, escultor e pintor de origem suíça e naturalizado francês em 1930. 


 Gastón Duprat nasceu em 1969 em Bahía Blanca, Argentina e Mariano Cohn nasceu em 1975 em Villa Ballester, Argentina 

DOCUMENTÁRIO: A HISTÓRIA SOVIÉTICA - 2008


Direção: Edvins Snore - 2008
Duração:86 min
Título Original: The Soviet Story
País: Letônia

O documentário é perceptivelmente de direita o que, porém, não lhe tira  mérito. Obviamente que as posições são contra o comunismo, mas o que realmente é válido neste documentário é trazer a tona os crimes do regime de Stálin. 

O filme traz um argumento onde teria havido uma estreita conexão filosófica, política e organizacional entre o Nazismo e o Regime Soviético, sendo que Max teria falado sobre o extermínio, o que eu pessoalmente desconheço. O que eu trago em mente é que todo regime ditatorial, totalitário sempre irá eliminar os que são contra seu regime, isto ocorreu em outros lugares também. O que choca no documentário, principalmente para os que desconhecem os crimes do Stalinismo é o que ocorreu na Ucrânia e que é conhecido como Genocídio do Holodomor, entre 1931 e 1933 e o massacre de Katyn na Polônia em 1940 e que até hoje não é considerado crime de guerra ou genocídio, apesar de ter sido um crime bárbaro.

Sobre a colaboração entre a NKVD - polícia secreta soviética e a Gestapo o documentário é bem interessante e finaliza com o que é mais conhecido, quando Stálin acaba fechando com os aliados para obter a vantagem da repartição da Europa e ficar com boa parte para a União Soviética e que depois transformou a vida destes povos em horror com as deportações para os Gulags. 



Holodor significa "deixar morrer de fome", ou seja, pela inanição. O que ocorreu na Ucrânia é monstruoso, com o confisco de toda alimentação que era baseada em cereais e que era vendida para o Ocidente. A Ucrânia ofereceu resistência com sua autonomia cultural e forte identidade nacional o que era intolerável para os soviéticos e por se insurgirem contra as medidas de coletivização forçada e requisição compulsória de cereais, Stálin tomou as medidas que levaram a esta atrocidade. 



Na Polônia, durante a Segunda Guerra ocorreu o massacre da Floresta de Katyn, uma execução em massa de poloneses prisioneiros de guerra e cidadãos comuns acusados de espionagem e subversão.



É importante que isto seja conhecido, pois existe uma tendência a focar no Holocausto perpetuado pela Alemanha de Hitler, mas Stálin matou muito mais, e era seu próprio povo. 




Edvins Snore nasceu em 1974 em Saulkrasti, Letônia

EXPOSIÇÃO: UKIYO-E OBRAS PRIMAS DE HOKUSAI E HIROSHIGE


Ukiyo-e - Obras primas de Hokusai e Hiroshige 
Curadores: Kenichi Hirano e Toshio Koganemaru 
Local: Museu Oscar Niemeyer - Curitiba - PR

A coleção é do Museu de Arte Fuji de Tóquio, Japão, com 70 obras que revelam paisagens, o cotidiano, guerreiros, gueixas e atores teatrais.
Ukiyo-e significa retratos do mundo flutuante. Trata-se de registrar a mudança do mundo feudal para o moderno em imagens em papel pela técnica da xilogravura desenvolvida durante o período Edo (1603-1868). 

Katsushika Hokusai 


Katsushika Hosukai nasceu em 1760  em Edo (atual Tóquio) e faleceu em 1849. Pintor estilo Ukiyo-e e gravurista do Período Edo. É conhecido principalmente por sua série de xilogravuras Trinta e seis vistas do Monte Fuji. 







Hiroshige 

Hiroshige nasceu em 1797 e faleceu em 1858. Pintor e gravador. Sua obra prima é a série de gravuras Tokaido gojusan-tsugi (As cinquenta e três estações do Tokaido) 



EXPOSIÇÃO: A UNIÃO SOVIÉTICA ATRAVÉS DA CAMERA



Fotógrafos:
Leonid Lazarev
Vladimir Lagrange
Yuri Krivonossov
Viktor Akhlomov
Antanas Sutkus
Vladimir Bogdanov
Curadoria: Luiz Gustavo Carvalho e Maria Vragova
Local: Museu Oscar Niemeyer - Curitiba - PR 

São seis importantes fotógrafos da União Soviética que narram por meio de imagens a história do país, de 1956 a 1991, ano que houve a dissolução da URSS. O ano de 1956 é um ano contraditório para a União Soviética, Nikita Khrushchev denunciou os crimes cometidos por Josef Stalin e as tropas da União Soviética invadiram a Hungria. Foi o primeiro acontecimento que permitiu uma certa liberdade aos fotógrafos da exposição, deixando de ser uma ferramenta ideológica e podendo adquirir uma nova estética, resgatando técnicas que remontavam ao movimento de vanguarda dos anos 1920. (Catálogo do MON sobre a exposição). 

Leonid Lazarev

Leonid Nikolaevich Lazarev nasceu em 1937 em Moscovo, Rússia


Lembranças da infância - 1957 

Lembranças da infância - 1957 



Vladimir Lagrange 

Vladimir Lagrange 


Sempre com o povo 

"A velhinha"

Idade não é problema - 1982 


Viktor Akhlomov 

Viktor Akhlomov 

Avenida Kalinin, Moscou - 1977


Antanas Sutkus 

Antanas Sutkus nasceu em 1939 em Kluoniskiai, Kaunas, Lituânia. A série Sutkus, Pessoas da Lituânia, é um projeto contínuo iniciado em 1976 para documentar a vida e a mudança das pessoas comuns ao invés dos modelos promovidos pela propaganda Soviética. Conheceu Sartre e Simone de Beuavoir em 1965 quando ambos visitaram a Lituânia. 


Intervalo de jantar, Vilnius - 1991
Regente, Nida - 1971

Vladimir Bogdanov 

Meninos - 1989

Algumas fotos são bem interessantes. Meu olhar foi mais estético me abstendo de fazer uma apreciação política e cultural. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

FILME: UMA ALMA ASSOMBRADA POR UMA PINTURA - 1994


Direção: Shuqin Huagn e Zhang Yimou - 1994
Duração: 135 min
Título Original: Hua Hun
País: China - França - Taiwan

Cinebiografia da pintora chinesa Pan Yu-liang baseado no livro escrito por Shih Nan intitulado Hua Hun. 

Um dos grandes feitos de filmes assim é nos apresentar a artistas sobre os quais pouco ou nada sabemos. É o caso desta pintora chinesa, Pan Yu-liang,  que eu não conhecia e que é a maior representante da arte ocidental na China.

Início do século XX, Yuliang (Gong Li) após a morte de seus pais encontra-se num bordel onde deve se tornar prostituta. Quis o destino que seu primeiro cliente fosse Chan-hua Pan um inspetor da alfândega a quem todos queriam agradar e lhe levam Yuliang. Ele se recusa a isto, mas ela implora que a salve e ele aceita pagando sua dívida ao bordel. Eles irão se casar, ela será a segunda esposa dele. Após Pan se afastar da Revolução de Yunnan eles se mudam para Xangai onde ela aprende a pintar e tem aulas no Art Institute de Xangai.

O que acabará interferindo entre eles é que Pan deseja um filho, mas por haver tomado uma droga ainda no bordel ela nunca poderá ser mãe. Os desenhos de nus com modelos vivos são condenados e os alunos do Instituto se dispersam, alguns irão para Paris e Yuliang também vai, deixando Pan com sua primeira esposa para que possa ter um filho.



Em Paris ela ganha um prêmio por um auto-retrato nu. Em 1930 ela retorna para a China e se torna professora, mas a inveja de um colega que não aceita uma mulher e jovem como professora o leva a por a público seu passado no bordel. Yuliang retorna pela segunda vez à Paris e lá permanecerá pelo resto de sua vida. Ao final terá uma grande exposição pelo seu trabalho.

Em 1985, depois de sua morte, a China levou muitos de seus trabalhos para o Museu Nacional de Arte em Beijing.


Pan Yu-Liang nasceu em 1895 em Anhui, República Popular da China e faleceu em 1977 em Paris, França





Shuqin Huang nasceu na República Popular da China 

Zhang Yimou nasceu em 1951 em Xian, República Popular da China 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

FILME: VOYAGE EN CHINE - 2015


Direção: Zoltan Mayer - 2015
Duração: 95 min
País: França

Liliane (Yolande Moreau) é casada com Richard (André Wilms), um homem que lhe dá pouca atenção. Em uma noite ela recebe um telefonema que seu filho Christophe faleceu em um acidente na China, onde estava morando. Liliane deseja trazer o corpo do filho para a França, mas se depara com uma burocracia infinita e incompreensível que não lhe esclarece absolutamente nada. Finalmente se decide a ir pessoalmente à China para buscar o corpo, mas irá sozinha, não quer que o pai a acompanhe, uma vez que pouco se importou com o filho durante toda sua vida, não precisa se importar agora. 



Esta viagem de dor e luto irá mudar a vida de Liliane completamente. Ela chega a um país com uma cultura totalmente diferente da sua e sem falar uma palavra de chinês. Sentimos em nós a angústia que isto causa, sem poder compreender ninguém, nem falar com o outro, porém há uma diferença crucial, pois não existe muita diferença entre seu percurso na França em busca de informações de como transladar o corpo do filho, onde todos falam francês, mas não dizem nada e não se compreende nada, e sua situação na China com a língua, mas ali as pessoas a acolhem, se esforçam para compreender e ajudá-la. 




Ela irá para o interior do país, e as paisagens são belas. Conhecerá Danjie (Qu Jing Jing) que foi a namorada de seu filho. Será acolhida pela senhora dona da hospedagem e fará um amigo que a ajudará a conseguir os documentos necessários. É justamente aí que vemos quando o ser humano deseja ajudar o outro ou não. Mesmo sem falar chinês e eles sem falarem francês, ela consegue o que precisa. 



Liliane conhecerá os amigos do filho e saberá algumas coisas sobre sua vida. Ela sente não ter ido antes quando ele ainda estava vivo, e começa a escrever uma espécie de diário onde conversa com ele sobre suas impressões do que está vivendo, como forma de compensar este vazio que sente. Ao descobrir que para o taoismo as pessoas que morrem em acidentes não vão para o céu, ou nirvana, ela resolve com Danjie cumprir os rituais necessários para que sua alma se liberte. E depois opta pela cremação por ser uma forma mais fácil inclusive de levar o filho para a França, realizando também o ritual fúnebre na China. 



Um filme que mostra que a dor muitas vezes é uma porta para uma nova vida, pois nos dá coragem de agir. 


Zoltan Mayer nasceu na França