quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Memória familiar e a história de um país dividido


 

MINHA UCRÂNIA: A JORNADA DE UMA MULHER EM BUSCA DA HISTÓRIA DE SUA FAMÍLIA E SEU PAÍS.

VICTORIA BELIM

Record – 1ª ed. 2023

294 páginas

Para compreender melhor a história da Ucrânia comecei por este livro de Victoria Belim, uma ucraniana que vive atualmente na Bélgica e que retorna ao seu país natal, antes da guerra, para visitar a avó. A partir de suas memórias familiares, vamos conhecendo a história da Ucrânia, suas tradições e seus costumes.

A autora reconstrói a trajetória de seus bisavós, Asya e Sergy, que atravessaram a Revolução Bolchevique, a Guerra Civil, o Terror Vermelho, a coletivização forçada, o Holodomor, os Grandes Expurgos dos anos 1930, a Segunda Guerra Mundial, a fome de 1946, a decadência dos anos 1970 e, por fim, o colapso da União Soviética na virada dos anos 1980 para os 1990. Victoria Belim viveu sua infância e adolescência ainda sob o regime soviético.

Ela se hospeda na casa da avó materna, Valentina, filha de Asya e Sergy. A partir do diário do bisavô, descobre a existência de um irmão sobre o qual ninguém jamais falava — e decide investigar o que lhe aconteceu.

Há também a figura do tio paterno da autora e o embate político entre ele e a sobrinha: ele pró-Rússia, ela pró-Ocidente, pró-Europa. A Ucrânia aparece como um país profundamente dividido. O oeste, historicamente ligado ao Império Austro-Húngaro dos Habsburgos, é majoritariamente pró-Ocidente; o Leste, que fez parte da Rússia, é pró-Rússia; e há ainda a região de Kiev, a capital. São histórias distintas convivendo em um mesmo território.

No país, falam-se duas línguas, o russo e o ucraniano — ao menos até a recente proibição do uso do russo. Quase todas as famílias têm russos e ucranianos em sua composição. Alguns comemoram o Natal em janeiro, segundo o calendário juliano; outros seguem o Natal ocidental, de acordo com o calendário gregoriano. Trata-se de um país multiétnico.

A autora também fala dos bordados ucranianos feitos pelas mulheres — belíssimos — e das pinturas florais nas casas, que funcionam como marcas de identidade, memória e resistência cultural.

É um livro de leitura fluida que, ao narrar a história da família da autora, apresenta como pano de fundo a história da Ucrânia. Para quem, como eu, sabia muito pouco sobre o país, a leitura é altamente recomendável.


Victoria Belim nasceu em 1978 na Ucrânia. É uma memorialista. 


Quando tudo muda para que tudo permaneça igual

 


O LEOPARDO

GIUSEPE TOMASI DI LAMPEDUSA

Companhia das Letras – 1ª ed. 2017

384 páginas 

O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, estava na minha lista de leitura havia algum tempo. Quando vi que a Netflix lançará uma minissérie baseada no livro, resolvi passá-lo à frente. Gosto de ler o livro antes de ver filmes ou séries. Publicado em 1958, ele já havia sido adaptado para o cinema por Luchino Visconti.

O romance é inspirado no bisavô paterno do autor e narra a vida de uma família aristocrática siciliana, os Salina, entre as décadas de 1860 e 1910, período em que ocorre o Risorgimento — o processo que culmina na unificação da Itália — e em que a Sicília é anexada ao Reino da Sardenha. Os Bourbons, que governavam até então, são substituídos pela burguesia liberal e pela dinastia de Saboia. Garibaldi, figura central desse processo histórico, também aparece como referência. Esse é o pano de fundo da narrativa, embora o foco principal recaia sobre o príncipe Fabrizio — o Leopardo, nome que remete ao animal presente no brasão da família.

Durante a leitura, lembrei-me diversas vezes de Tolstói e de suas descrições da aristocracia russa. As minúcias, os detalhes que à primeira vista parecem fúteis, mas que revelam com precisão o modo de vida dessas famílias: o mobiliário, os tapetes, as louças, os quadros, a curvatura do lustre e, claro, os cardápios servidos — e a quem eram servidos.

O sobrinho do príncipe, Tancredi, adere ao movimento de unificação, mas assegura que, ao final, nada realmente mudará. Fabrizio percebe que ele tem razão: a Sicília continuará sendo a mesma, apenas sob outro domínio.

O sogro de Tancredi representa a burguesia liberal emergente. Há passagens marcantes em que Dom Calogero e o príncipe são colocados frente a frente, evidenciando a distância que os separa. A arte, para um, tem valor monetário; para o outro, é beleza — apenas para citar um exemplo. Aos poucos, o príncipe é tomado por uma melancolia profunda. O romance traz cenas pungentes que acompanham a decadência de um mundo e o surgimento de outro. Fabrizio assiste ao desmoronamento do universo ao qual pertence, sem que possa fazer algo para detê-lo.

O livro também expõe as questões sociais — a pobreza, a exploração e a opressão — observadas pelo olhar do príncipe ou em suas conversas com outros personagens. Nada disso se transforma com a chegada do capitalismo.



Giusepe Tomasi Di Lampedusa nasceu em Palermo em 1896 e faleceu em Roma em 1947. Foi um escritor italiano 

Entre o corpo ferido e a imaginação como refúgio

 


A DISSOCIAÇÃO

NADIA YALA KISUKIDI

Bazar do Tempo – 1ª ed. 2024.

288 páginas 

Nadia Yala Kisukidi é a autora deste livro, A dissociação. Trata-se de uma obra instigante, que propõe um deslocamento em relação às formas mais habituais de abordar temas como racismo, pobreza, marginalização, periferias urbanas, preconceito, mas também sonhos e desejos.

A narrativa acompanha uma jovem negra, pobre e anã — cujo nome nunca sabemos — que vive com a avó na periferia da cidade industrial de Villeneuve d’Ascq, no norte da França. Quando atinge os dez anos de idade, seu corpo para de crescer, levando a avó a tentar de tudo para que ela volte a crescer. Em vão.

Podemos imaginar, mesmo antes da leitura, as violências que essa jovem sofre em uma sociedade europeia marcada pelo racismo e pelo preconceito. Para suportar a dor, ela desenvolve a capacidade de dissociar a mente do corpo. Essa dissociação lhe confere poder: permite que viaje por diferentes lugares, encontre outras pessoas que, como ela, também sofrem, e parta em busca de um lugar seguro. Ao mesmo tempo, ela escreve essa diáspora — suas experiências, seus encontros — no que chama de O Manual.

O corpo sofre a violência da xenofobia europeia, mas a mente se expande. Ela se dissocia por meio de mitos africanos — herança de um pai que nunca conheceu —, de fábulas e de um realismo mágico que atravessa toda a narrativa.

Filosofia da transcendência da matéria, crítica social e imaginação compõem o livro. E, mesmo em meio a tantas dores, encontramos a utopia: a busca por um lugar no mundo, o reconhecimento e o pertencimento.

Acompanhei o trajeto dessa aventura e, pouco a pouco, percebi onde o livro terminaria. E foi exatamente ali que ele chegou.


Nadia Yala Kisukidi nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1978. É filósofa, escritora e acadêmica na França. 


• O império apagado pela história ocidental

 


GENGIS KHAN E A FORMAÇÃO DO MUNDO MODERNO

JACK WEATHERFORD

Bertrand Brasil – 2ª ed. 2010

462 páginas 


Quando li Nada será como antes, do cientista Miguel Nicolelis, ele se referia ao profundo céu azul dos mongóis — o que me levou até minha biblioteca, onde estava este livro sobre Gêngis Khan, comprado há alguns anos. Ainda bem, pois seu preço hoje está inviável.

Comecei a leitura e fui capturada pela história dos mongóis, sobre os quais, exceto pela ideia de que Gêngis Khan teria sido um guerreiro sanguinário — imagem que prevalece no Ocidente —, eu praticamente nada sabia. E fui absolutamente surpreendida, não apenas por esse povo e pelo império que formaram, mas, sobretudo, por seus feitos e por sua forma de pensar.

Sim, houve guerras de conquista. Mas, sinceramente, nada que os diferencie radicalmente de outros povos em luta: Roma em suas expansões, as guerras da Idade Média, os godos, os celtas, entre tantos outros. Há diferenças, sim — na estratégia e até mesmo na forma como lidavam com prisioneiros e povos conquistados. Apesar de matarem muitos, aos que sobreviviam ofereciam certa autonomia e, em vários casos, incentivos.

A grande diferença está no fato de que esse povo sabia administrar e levava em consideração sua própria população — e, de modo decisivo, suas mulheres. Foram eles que unificaram a China e ali implementaram um sistema de governo participativo, escolas públicas, incentivo às tecnologias da época e às artes. Foram também fundadores da Cidade Proibida e de Pequim.

A leitura foi revelando surpresa após surpresa, desmontando imagens que eu jamais havia questionado. O império acabou sendo desmantelado pela peste bubônica e, aos poucos, foi se reduzindo até ficar confinado à Mongólia atual. O último descendente direto de Gêngis Khan morreu em 1943, no Afeganistão.

Mas o livro também mostra algo ainda mais perturbador: como esse império e esse povo, com feitos tão extraordinários, foram deliberadamente apagados da história e transformados em símbolo de barbárie. E adivinhem quando isso acontece. No Iluminismo — com sua filosofia e sua ciência que deram sustentação às colonizações, à escravidão negra e às conquistas de exploração. Postei alguns trechos do livro e incluí comentários de Montesquieu, Voltaire, entre outros.

Jack Weatherford nasceu em Dovesville, Carolina do Sul, EUA. É um antropólogo e autor estadunidense. 

Poder, violência e vozes que não descansam

 



PEDRO PÁRAMO

JUAN RULFO

José Olympio, 7ª ed. 2020

176 páginas 

Juan Rulfo é um escritor mexicano, e sua obra-prima é Pedro Páramo. Confesso que, no começo, quase desisti: o livro é tétrico, funesto. Mas, aos poucos, fui percebendo o quanto essa obra é magistral.

Sim, Rulfo retrata um México de pobreza, miséria e revoluções, onde um único personagem concentra todo o poder: o nosso “coronel” no México, o latifundiário cruel, aquele que faz as leis e determina tudo de acordo com seus próprios desejos. E, para isso, manda matar se for preciso, como se fosse a coisa mais banal do mundo.

Recentemente postei aqui um livro da Sigrid Nunez, que fala de uma paciente terminal e da vida diante da morte. Em Pedro Páramo, temos o inverso: é a morte falando da vida. São os mortos que narram a história de Comala e de Pedro Páramo.

Juan Preciado, após a morte da mãe, atende a seu último desejo: ir até a aldeia onde ela nasceu — descrita por ela como um lugar muito bonito — e exigir de seu pai, Pedro Páramo, tudo o que lhe é devido, mas sem lhe pedir nada. Ao chegar, encontra um lugar ermo, seco, abandonado. Não há uma única árvore. Tudo é extremamente desolador.

Aos poucos, começam a aparecer pessoas. Mas essas pessoas estão mortas — e são elas que vão contando o que aconteceu ali. Preciado acaba se juntando a elas. Em Comala, já não há mais lugar para a vida. Pedro Páramo decretou isso após a morte de sua amada, cujo luto a aldeia desrespeitou. Em vingança, decidiu deixar todos morrerem de fome.

É realismo fantástico, sim — e é genial. A maneira como Rulfo conta essa história não segue um tempo linear, mas se constrói como uma reunião de lembranças, fragmentos, vozes. Penso que, assim, sentimos muito mais o que foi aquele México e aquele tempo.

 


Juan Rulfo nasceu em Apulco, Tuxcacuesco, Jalisco, México, em 1917 e faleceu na Cidade do México em 1986. Foi escritor. 

Quando a memória vira romance

 


VIVER PARA CONTAR 

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ 

Record - 15ª ed. 2003

476 páginas 

Após assistir à série Cem Anos de Solidão, fui até a minha biblioteca e peguei para ler a autobiografia de Gabriel García Márquez, Viver para Contar.

Foram 474 páginas de um mergulho na vida dele e na história da Colômbia. A cada episódio de sua trajetória, encontrei traços claros de seus livros, especialmente de Cem Anos de Solidão: personagens baseados em pessoas reais, familiares, situações vividas.

Ele reconstrói sua história a partir da memória, mas também com uma boa dose de imaginação. Recorda a infância, a adolescência e os primeiros anos no jornalismo. Li recentemente, em outro livro que ainda não postei, que muitas vezes a imaginação acaba se transformando em memória. A memória é um romance: é a forma como lembramos, e nem sempre corresponde exatamente aos fatos. A psicanálise que o diga.

Há também, de forma muito presente, a história da Colômbia: suas divisões internas, tanto geográficas quanto políticas; as lutas, principalmente entre liberais e conservadores; a censura, os militares, as revoltas e os assassinatos de políticos.

Gabo, na juventude, era muito pobre. Vivia um dia de cada vez, frequentava bares e bordéis, e teve muitos amigos — sempre fiéis. Mas nunca abandonou completamente a família e sempre a respeitou, mesmo vivendo apenas alguns períodos com os pais. Foi criado pelos avós maternos, que marcaram profundamente sua vida. Após a morte do avô, vai morar com os pais, mas logo parte para estudar. Primeiro em uma escola católica, depois em um colégio e, por fim, chega à universidade de Direito, curso que não irá concluir.

Sempre foi uma pessoa muito tímida, cheia de receios e medos — e ainda assim se tornou o autor de uma obra magistral: Cem Anos de Solidão.


Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca, Colômbia, em 1927 e faleceu na Cidade do México em 2014. Foi escritor, jornalista, ativista editor e político. 

Amizade, finitude e o que resta viver

 


O QUE VOCÊ ESTÁ ENFRENTANDO

SIGRID NUNEZ 

Editora Instante - 1ªed. 2021

176 páginas 

Que boa surpresa este livro! Comprei porque ele foi adaptado por Pedro Almodóvar no filme Um Quarto ao Lado. Não conhecia a autora e agora já estou com mais dois livros dela na fila.

A escrita é muito gostosa. Sigrid vai relatando suas escutas, as histórias de outras pessoas, mescladas com a sua própria história. Um dos relatos de que mais gostei foi o do gato do abrigo — há algo de realismo mágico nessa parte.

Mas o eixo central do livro é a amiga da narradora, que tem um câncer terminal, e, a partir disso, o tema é a morte. Só que aqui não há chororô, nem discursos de autoajuda, nada de superação, salvação ou listas de últimos desejos. O que encontramos é a realidade de uma morte que se aproxima. Aliás, como o próprio livro lembra: o sentido da vida é a morte. Nascemos para morrer; o que nos resta é viver da melhor forma possível, colorir a vida dentro do que é possível.

E é exatamente isso que as duas personagens fazem. Elas riem muito, veem filmes, recordam muitas coisas e falam da morte. Sim, porque o comum é a negação — mas elas não negam, mesmo com o incômodo que isso causa na amiga doente. A vida não é fácil nem justa, mas é preciso viver. Por isso, mesmo falando da morte, o relato é profundamente sobre a vida.

Em determinado momento, a personagem com câncer reconhece que sempre odiou gente burra. Em uma entrevista feita com pessoas terminais, perguntam do que ela mais sentirá falta quando morrer. A resposta é direta: de nada, estarei morta. Sim, há pessoas que fazem esse tipo de pergunta.

Outra questão que permeia o livro é a do suicídio assistido. Diante de uma situação terminal, que tende a provocar cada vez mais dor, degradação física e até mental, não teríamos o direito de interromper isso antes? De poder morrer com dignidade? Por que essas pessoas precisam agir quase como criminosas?

Alguns dirão que só Deus tem esse poder. Mas então eu pergunto: qual é o direito da medicina de manter uma vida por meio de aparelhos que, ao serem desligados, levarão à morte — muitas vezes porque a família assim deseja, ao não aceitar a decisão divina? Isso também não seria interferir na decisão de Deus?

Esse questionamento atravessa o livro o tempo todo — sem religiosidade, mas a partir de um ponto de vista profundamente humano.

 



Sigrid Nunez nasceu em Nova Iorque em 1951. É escritora. 

Maternidade, culpa e o direito de escolher

 


CONTRA OS FILHOS

Lina Meruane 

Editora Todavia - 1ª ed. 2018

176 páginas 


Lina Meruane é uma escritora chilena. Este é o segundo livro dela que leio; o primeiro foi Sangue nos Olhos. Aqui, trata-se de um ensaio cáustico, crítico, que muitos vão considerar polêmico, pois aborda a maternidade — ou, mais precisamente, a não maternidade.

A autora se posiciona contra o atual “império dos filhos”. Faz alertas importantes sobre como a ideologia da maternidade, tão idealizada, acaba se transformando em imposição sobre as mulheres, e como aquelas que não aceitam esse destino quase sempre são atravessadas pela culpa.

Ela levanta questões às quais todas nós, mulheres, deveríamos prestar atenção. Fala da questão do cuidado, tão em voga hoje; da responsabilidade do pai; e também dos filhos contemporâneos que se impõem sobre os pais. Em um dos capítulos, Meruane se debruça sobre as escritoras e as diferenças entre aquelas que têm filhos e as que não têm, evocando Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

O livro também levanta a questão do capitalismo e de quanto esse sistema precisa que as mulheres permaneçam no lar e procriem, mostrando o quanto ele se sustenta nessa lógica. Além disso, a autora apresenta modelos de maternidade contemporânea — as supermães, as mães neoliberais e as mães ecológicas —, o que torna a leitura ainda mais interessante.

Se há tantos discursos em defesa da maternidade, sempre idealizada, mas sem oferecer respaldo para que uma mulher possa ter filhos sem deixar de ser mulher, profissional ou estudante, louvo a iniciativa de Meruane em sair em defesa daquelas que não querem ser mães. Isso é um direito de cada mulher: fazer sua escolha livremente, sem cobranças, imposições, culpas ou arrependimentos. Recomendo a leitura também a todos e todas que se interessam pelo tema do cuidado.



Lina Meruane nasceu em Santiago, Chile, em 1970. É professora e escritora. 

Entre o acolhimento e a opressão das tradições

 


UM AMOR DE FILHA

Hanaide Kalaigian

1ª ed. Editora Autêntica Contemporânea - 2023

144 páginas 

Meliné é uma mulher de meia-idade, casada, e mãe de Aline. O livro articula três eixos principais: as tradições e a cultura armênia — com um pouco da história da Armênia —; a comunidade armênia em São Paulo, profundamente patriarcal; e a relação de Meliné com sua filha.

As mulheres são matriarcas, mas vivem sob a opressão masculina. Entre elas há uma regra clara: as mais velhas mandam nas mais jovens. Dentro de suas casas e de suas cozinhas, elas reinam. Meliné cresceu nesse mundo, sendo subjugada por um patriarcalismo no qual as mulheres dependem dos homens em todos os sentidos. A mulher é vista como frágil, alguém que deve sempre ser protegida pelo homem. Já a filha de Meliné tem outras ideias, e isso inevitavelmente cria um atrito entre mãe e filha.

Surge então outra personagem, Amanda, uma curadora de arte que está em busca de artistas que sejam filhos, netos ou bisnetos de pessoas que passaram por guerras, genocídios e diásporas. Seu objetivo é investigar se há algo na arte produzida por essas pessoas que reflita, ainda que inconscientemente, o trauma herdado. Meliné é artista e tem seu ateliê em casa. Nunca foi reconhecida nem expôs suas obras, mas Amanda a descobre. A partir daí, começa a emergir a história do genocídio armênio e dos horrores vividos por seus antepassados, principalmente pelas mulheres. Não espere, no entanto, um aprofundamento maior nessa questão.

Após sofrer um revés em sua vida pessoal, Meliné passa a viver um conflito interno. Ela se vê dividida entre submeter-se à comunidade ou libertar-se “de uma tradição que a oprime, mas também a acolhe; que amarra, mas também afaga; que protege, mas também limita”.

É o medo que surge quando se dão os primeiros passos em direção à autonomia — um medo que faz gritar por socorro e remete novamente à proteção do conhecido, do familiar. Tudo isso acaba se refletindo no corpo de Meliné.

O livro é curto e este é o primeiro romance da autora, mas ele nos faz sentir toda a angústia da personagem: seus medos, seus conflitos, seu desconhecimento de muitas coisas — do mundo e da própria história. Torcemos para que a filha consiga seguir outro caminho, mas também acabamos gostando de todas essas mulheres, do cuidado que têm umas com as outras e do fato de serem elas as responsáveis por manter vivas as tradições de seus ancestrais dizimados.


Hanaide Kalaigian nasceu em São Paulo em 1962. Um amor de filha é seu primeiro romance. 


Os grandes debates — e as grandes ausências

 


A SAGA DOS INTELECTUAIS FRANCESES VOL I 1944 – 1989

A prova da história – (1944 – 1968)

François Dosse

Estação Liberdade – 1ª ed. 2021. 

701 páginas 

Este é o primeiro volume de A Saga dos Intelectuais Franceses e cobre o período logo após o fim da Segunda Guerra até 1968. O historiador François Dosse nos conduz pela filosofia, pela antropologia e pela literatura, mas principalmente pelas revistas e jornais onde se davam os grandes debates intelectuais na França.

Logo após o fim da guerra, temos o grande momento de Jean-Paul Sartre e do existencialismo, uma filosofia que devolve certa esperança após a total desolação. Em 1949, Simone de Beauvoir lança O Segundo Sexo. É também o momento em que a grande maioria dos intelectuais se volta para o comunismo e louva Stálin, até que a invasão da Hungria, em 1956, provoca um colapso dessas ilusões.

A antropologia e o estruturalismo passam então a ocupar o lugar do existencialismo — correntes incompatíveis entre si. É o momento de Lévi-Strauss e Lacan. Surge a semiologia com Roland Barthes. Na sequência, entram em cena a Guerra da Argélia, o Vietnã, o maoísmo, até chegarmos ao nouveau roman, ao cinema da nouvelle vague e ao início das revoltas estudantis.

O livro tem mais de 600 páginas, portanto não é possível fazer um resumo aqui. No entanto, é preciso fazer uma crítica: o livro fala muito pouco sobre as mulheres, o que revela a posição do autor ao relegar a maior parte das intelectuais ao esquecimento. Onde estão Simone Weil, Violette Leduc, Colette, Françoise Dolto? Apenas para citar algumas.



François Dosse nasceu em Paris em 1950. É um historiador e sociólogo francês, especialista em História dos Intelectuais

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A guerra vista por uma mulher

 

O MUNDO QUE ENLOUQUECEU

OS DIÁRIOS DA GUERRA 1939 – 1945

ASTRID LINDGREN

MADRAS EDITORA – 1ª ED. 2020

368 páginas 


Astrid Lindgren é uma escritora de livros infantojuvenis reconhecida internacionalmente, sobretudo por sua série “Pippi Meialonga”. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela manteve diários pessoais, e são justamente os registros desse período que nos são apresentados nesta publicação.  

Estamos acostumados a pensar a Segunda Guerra como a invasão nazista de territórios alheios, em busca do que Hitler denominava o “espaço vital” da Alemanha. Há inúmeras publicações sobre o tema; no entanto, elas geralmente se concentram na Inglaterra, França, Itália, Áustria, Polônia, Bélgica, no Holocausto e, ainda, nos Estados Unidos, no ataque a Hiroshima e Nagasaki e no efeito letal da bomba atômica. Publicações históricas, relatos pessoais e diários não faltam – o que falta, muitas vezes, é o olhar sobre outros países.  

A Segunda Guerra Mundial faz jus ao seu nome: de fato, atingiu muitos países diretamente e outros tantos de forma indireta. Neste livro, encontramos o relato de uma escritora sueca sobre o que aconteceu nos países nórdicos: Suécia, Finlândia e Noruega.

No primeiro momento da Guerra, Stálin firmou um pacto com Hitler e também passou a invadir países, entre eles a Finlândia. Somente quando Hitler rompeu o pacto e invadiu a Rússia ocorreu a reviravolta, levando Stálin a se unir aos aliados.

Costumamos pensar que, à exceção dos países do chamado Eixo – Itália, Alemanha e Japão –, todos estariam automaticamente contra Hitler. É justamente aí que este diário nos surpreende. Com a invasão da Finlândia pelos russos, o maior medo dos suecos era que o exército vermelho avançasse também sobre a Suécia, o que levou parte da população a preferir, paradoxalmente, uma invasão alemã. Não se tratava de adesão ao nazismo, mas de uma escolha pautada pela sobrevivência nacional. A Suécia foi, afinal, o único país da região que conseguiu se manter oficialmente neutro e não ser invadido por nenhuma potência durante a guerra.

O diário relata o cotidiano dos suecos durante o conflito. Por terem permanecido neutros, em comparação com outros países europeus, encontravam-se em uma situação relativamente privilegiada. Ainda assim, Lindgren demonstra uma percepção aguçada sobre o conflito mundial e sobre o que estava ocorrendo em outras partes da Europa. Ela lia jornais, recortava artigos e os guardava, compondo uma espécie de arquivo íntimo da guerra.

 Ao mesmo tempo, emergem as preocupações de uma mãe, esposa e amiga em tempos de conflito, quando ainda era uma dona de casa – não a escritora consagrada que viria a se tornar.  Trata-se do relato de uma civil que não esteve nos campos de batalha, não era judia, não foi perseguida nem presa em campos de concentração. Vivendo em um país que conseguiu se manter à margem da guerra, ela ainda assim registra, com intensidade, a angústia, o medo e a inquietação que atravessavam o cotidiano. Esses sentimentos permeiam os diários e revelam que, mesmo fora das frentes de combate, ninguém permaneceu ileso.



Astrid Lindgren nasceu em Vimmerby, Suécia, em 1907 e faleceu em Estocolmo em 2002. Foi uma autora de livros infantis traduzidos em 85 idiomas em mais de 100 países. 

1947


 

1947
Elisabeth Asbrink
Editora Âyiné - 2023

280 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS: SUÉCIA 

1947 é um livro que nos apresenta os acontecimentos desse ano no mundo. Normalmente focamos em 1945, o imediato pós-Segunda Guerra Mundial, e 1947 acaba ficando como um ano meio esquecido — e, no entanto, de importância vital.

Mês a mês, Asbrink relata os principais eventos que ocorreram ao longo de 1947, intercalando a questão da Palestina, a situação dos judeus na Europa após o fim da guerra, a posição dos árabes palestinos e as reuniões de um grupo de países neutros que avaliaram o conflito para apresentar uma solução para a questão judaico-sionista. Ao mesmo tempo, ela nos mostra o que aconteceu com os nazistas após o término do conflito.

É um erro de percepção pensar que, com a morte de Hitler, houve o fim do nazismo. O suicídio do líder não encerrou as ideias defendidas pelos nazistas, que se espalharam pelo mundo em fuga e que, até hoje, continuam atuando. Muitos nazistas presos foram libertados devido à falta de estrutura e às condições financeiras precárias da Europa para mantê-los encarcerados. Logo após o fim da guerra, já se reuniam em grupos, mantinham um jornal e se pronunciavam em vários lugares, principalmente na América Latina, para onde muitos migraram.

No meio disso tudo, a autora insere Simone de Beauvoir, que viaja para os Estados Unidos, onde conhece Nelson Algren, seu grande amor. É também o momento em que ela começa a escrever O Segundo Sexo. No entanto, o livro deixa explícita uma Beauvoir que vive em seu próprio universo, sem uma visão mais ampla do mundo e de tudo o que estava acontecendo. Ela reclama que os suecos são tediosos, mas que possuem um bom whisky  e, portanto, está tudo bem. Beauvoir se dizia engajada, mas esse engajamento parece ter se limitado à Argélia e a situações que ocorriam na França.

Asbrink demonstra, ao longo do livro, que a nossa época atual começa em 1947, quando os Estados Unidos passam a assumir uma postura imperial e a se colocar como guardiões do mundo ocidental. A extrema-direita, hoje novamente presente, começa a se reestruturar nesse período. Também se delineiam a criação do Estado de Israel e a questão palestina, que repercutem de forma dramática até os dias atuais, assim como o surgimento de movimentos que mais tarde desembocariam na formação do Estado Islâmico.

Ao mesmo tempo, temos Simone de Beauvoir escrevendo seu livro mais famoso, que ainda hoje repercute entre feministas. Christian Dior lança suas coleções, transformando a feminilidade, poder-se-ia dizer, em uma forma de tortura com suas cinturas finíssimas, em contraposição a Chanel, que buscava conforto e liberdade para o vestuário feminino. Giacometti, por sua vez, deseja destruir todas as suas obras por sentir que ainda não havia alcançado o que buscava artisticamente. Talvez não por acaso, George Orwell está em uma ilha isolada escrevendo “1984”.

Entrelaçando essas histórias públicas, Asbrink insere também a história pessoal de sua família, mostrando como as grandes transformações históricas atravessam existências privadas e subjetividades individuais.

Talvez a maior força de 1947 esteja justamente em nos obrigar a abandonar a ilusão de que a história se organiza por rupturas claras. O fim da guerra não significou o fim das ideologias que a sustentaram, assim como o nascimento de novas ordens políticas não trouxe estabilidade, mas sim novas tensões que ainda atravessam o presente. Ao reconstruir esse período de reorganização global, Asbrink demonstra que a história não é feita apenas por tratados, fronteiras e líderes políticos, mas também por continuidades silenciosas, disputas simbólicas e escolhas que moldam o mundo de forma profunda e duradoura.

Ler 1947 é compreender que o nosso tempo não surgiu de forma repentina. Ele foi lentamente gestado e talvez ainda estejamos vivendo as consequências de decisões tomadas naquele momento histórico, sem que tenhamos, de fato, conseguido superá-las.



Elisabeth Asbrink nasceu Gotemburgo, Suécia, em 1965. É jornalista e escritora. 


PALAVRA PERDIDA

 

PALAVRA PERDIDA

AUTOR – OYA BAYDAR

ORIGEM – TURCA

EDITORA – SÁ EDITORA -  2011

464 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS: TURQUIA 

Palavra Perdida, de Oya Baydar, é menos um romance sobre um escritor em crise do que uma investigação sobre as condições históricas, políticas e afetivas que tornam a palavra impossível. A perda da palavra não aparece como um bloqueio individual ou psicológico, mas como efeito de um mundo em que a linguagem foi capturada: pelo mercado editorial, pelo nacionalismo, pela violência de Estado e pelas expectativas normativas que atravessam a família.

O escritor protagonista perde sua palavra quando passa a escrever aquilo que se espera dele. A literatura deixa de ser espaço de escuta da própria voz e se transforma em produto. A pergunta que atravessa o romance — se a palavra morre quando a voz interior se cala ou quando o sentido desaparece — desloca a crise da escrita para uma dimensão ética e política: escrever torna-se impossível quando já não se pode dizer a verdade do mundo que se habita.

Essa crise atravessa também a família. A esposa, cientista reconhecida, carrega o ressentimento de uma modernidade sempre suspeita aos olhos do Ocidente: mesmo premiada, precisa reiteradamente provar que a Turquia pode produzir ciência “avançada”. O filho, por sua vez, é esmagado pelo imperativo do sucesso. Incapaz de corresponder às expectativas parentais, ele se lança à guerra como fotógrafo, expondo o corpo e o olhar à violência extrema. Aqui, o romance sugere que a falha na transmissão da palavra entre gerações abre espaço para outras formas de inscrição no mundo — frequentemente autodestrutivas.

Ao deslocar a narrativa para o leste da Turquia, Baydar torna explícito aquilo que já estava latente: a palavra perdida é inseparável da violência política. A questão curda não aparece como pano de fundo, mas como núcleo ético do romance. Onde a palavra é proibida, silenciada ou criminalizada, resta o grito — “Mataram a criança!” — que atravessa a narrativa como um chamado irrecusável. A criança morta funciona como figura limite: quando o futuro é destruído, a linguagem entra em colapso.

O exílio final, na Noruega, não oferece uma solução redentora. A tentativa de escapar da violência revela seus limites: não há refúgio absoluto enquanto o mundo continuar organizado pela guerra, pela exclusão e pela negação da alteridade. O romance recusa tanto a reconciliação fácil quanto a nostalgia. O que resta é uma pergunta insistente sobre a possibilidade de recuperar a palavra sem negar o real que a destruiu.

Nesse sentido, Palavra Perdida é um romance profundamente contemporâneo. Fala da Turquia, mas também do mundo globalizado, onde modernidade e tradição coexistem em tensão permanente, e onde a palavra — literária, política, afetiva — está sempre ameaçada de esvaziamento. Baydar escreve contra o silêncio, não para oferecer respostas, mas para expor o custo humano de um mundo que prefere calar a escutar.



Oya Baydar é uma socióloga e escritora turca. Nasceu em Istambul em 1940. 


 

Autobiografia do Algodão 

Cristina Rivera Garza 

Editora Autêntica Contemporânea - 1ª ed. 2025. 

336 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - MÉXICO 

Cristina Rivera Garza nos brinda com “Autobiografia do algodão”, um livro que não foi escrito para ressuscitar a história de seus avós e de suas lutas na fronteira do México com os EUA, mas para reescrevê-la. Sua escrita é híbrida, ela trabalha o algodão como organismo, matéria-prima e metáfora.

É uma autobiografia escrita no coletivo, não se trata de mais uma autobiografia focada no eu individual, e a pergunta é quem sou eu? E não o que me fizeram? Só aqui já temos algo precioso, pois ela foge de um certo vitimismo, mas vai em busca de suas origens, de suas raízes e que acabam demonstrando aspectos próprios dela, que ela assume com orgulho.

A história de sua família (particular) se encontra, se dá dentro do macropolítico (a história do algodão no capitalismo agrícola). O algodão e a terra são personagens dessa história particular, mas também da história de todos ali. Esse duplo movimento entre o particular e o social-político se dá porque as histórias de família na América Latina nunca estão separadas da história do colonialismo. Os corpos e memórias se organizam na escala do latifúndio, da migração, da violência econômica, e não apenas na esfera doméstica.

 Garza faz uso na escrita de documentos, registros históricos, telegramas. Mescla a ficção com a não ficção, com pitadas de realismo mágico, uma defesa do meio ambiente que é algo moderno, se baseia em um livro escrito por alguém que esteve presente nos acontecimentos, e as histórias contadas por familiares. O “eu” aparece de modo fraturado, poroso, às vezes investigativo, às vezes melancólico.

A fronteira é personagem, o rio Bravo, que divide o território na geografia política, mas que na verdade une. Durante muito tempo pensei no Oceano Atlântico como separando o Brasil da Europa, eu no Brasil, a família toda da Europa, até que me dei conta que ele unia os dois continentes. Garza traz Glória Anzaldúa, que também vivenciou esta fronteira, só que do lado de lá. A planta, o algodão, atravessa a fronteira, mas o corpo que a colhe nem sempre pode. Há um momento em que ela se refere às nuvens, que também não são barradas pela fronteira e seus controles.

A história da greve dos trabalhadores do algodão e a cidade ou vila onde ocorreu foram apagados da história, e com isso se apagou também a história dessas famílias. Se apagou a memória, ela nem sabia que era indígena, seus pais pouco falavam da família.



Cristina Rivera Garza nasceu em Heroica Matamoros, México, em 1964. Autora de novelas, contos, poesias e livros de não-ficção. É docente no Colégio de Artes Liberais e Ciências Sociais da Universidade Houston. 


 Após um longo tempo afastada do Blog testando o uso de redes sociais como Facebook e Instagram, tomo a decisão de retornar ao Blog com minhas postagens. 

Começa um movimento fora do Brasil para busca de conteúdos, de boas resenhas, de pequenos textos, ao invés de toda informação compactada, resumida devido ao espaço fornecido pelas redes sociais. Isso sem falar da quantidade de postagens, de "fakes" que se espalham, de conteúdo sem muita utilidade. 

Mas trago novidades. Este blog era dedicado a resenhas e impressões sobre leituras e filmes, agora vou expandir o conteúdo. 

No momento terminei de escrever dois livros, ainda não publicados, sobre a História das Mulheres. O primeiro volume é sobre a Epistemologia, Conceitos e Teorias para o estudo das mulheres. O Segundo volume parte da pré-história até os Persas, recuperando a historiografia feminina e a inserindo no contexto da História Oficial. O terceiro volume que estou escrevendo vai da Mesopotâmia até os Hebreus. 

Mas além deste percurso pela história das mulheres, também trarei outros textos sobre estudos que realizei em filosofia, antropologia e psicanálise. 

Espero que gostem!!! Bem vindos de volta a todos nós.