quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

AS MULHERES QUE MANTÊM O SISTEMA — E AS QUE O FAZEM RUIR

 


OS TESTAMENTOS

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2021

448 páginas 

Em Os Testamentos, Margaret Atwood desloca o foco da vítima silenciosa para a estrutura do poder em decomposição. Se O Conto da Aia era o relato claustrofóbico da opressão vivida no corpo das mulheres, aqui o que se expõe é o funcionamento interno de Gilead — seus mecanismos de manutenção, suas cumplicidades e, sobretudo, suas fissuras.

A grande virada do romance está na multiplicidade de vozes femininas. Atwood abandona a narração única e fragmenta o relato entre mulheres situadas em posições distintas do regime. Essa escolha não é apenas formal: ela é política. O totalitarismo não se sustenta apenas pela violência explícita, mas pela adesão, pelo medo administrado e pela promessa de sobrevivência. Em Os Testamentos, compreendemos que o patriarcado precisa de mulheres que o reproduzam para continuar existindo.

A figura da Tia Lydia é central nesse sentido. Longe de ser apresentada apenas como vilã, ela encarna uma questão incômoda: como mulheres podem ocupar lugares de poder dentro de regimes misóginos? Sua narrativa revela o preço da adaptação, da negociação moral e da crença de que, para sobreviver, é preciso colaborar. Atwood não absolve, mas também não simplifica. O mal, aqui, não é espetacular; é burocrático, estratégico, calculado.

O romance também desloca o eixo da resistência. Diferente da espera quase suspensa de Offred, agora a resistência se organiza por arquivos, testemunhos, segredos e memórias. A palavra escrita torna-se uma arma silenciosa contra o esquecimento. Não é pela revolta aberta que Gilead começa a ruir, mas pela produção de provas, pela circulação subterrânea da verdade, pela erosão interna da autoridade.

Há ainda um aspecto fundamental: Os Testamentos é um livro sobre o depois. Depois do trauma, depois da violência, depois do silêncio. Atwood nos lembra que regimes totalitários não caem em grandes gestos heroicos, mas em processos lentos de desgaste. A queda não é gloriosa; é suja, ambígua, cheia de pactos incômodos. E mesmo quando o sistema termina, suas marcas permanecem.

Se O Conto da Aia perguntava como é possível viver sob a tirania, Os Testamentos pergunta algo ainda mais perturbador: o que fazemos com o que fomos obrigadas a ser para sobreviver? A resposta não é confortável. Mas é necessária.

Atwood escreve, mais uma vez, não como quem imagina um futuro distópico, mas como quem reconhece padrões históricos. Os Testamentos não oferece redenção plena, apenas lucidez. E talvez seja exatamente isso que o torna tão atual: a certeza de que nenhum regime termina sem deixar rastros e que narrá-los é um gesto político.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá em 1939. É uma romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 

NÃO É O FUTURO: É O PATRIARCADO EM PLENO FUNCIONAMENTO

 


O CONTO DA AIA

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2017

368 páginas 

O Conto da Aia não é uma distopia sobre um futuro distante, tecnológico ou improvável. Ao contrário: é uma narrativa construída a partir de fragmentos muito reconhecíveis da história — patriarcado, fundamentalismo religioso, controle dos corpos das mulheres, autoritarismo político. Atwood não inventa nada que já não tenha existido. Apenas reorganiza.

A República de Gilead surge após um golpe teocrático que dissolve a democracia e instaura um regime baseado numa leitura literal e instrumental da Bíblia. Diante da queda drástica da fertilidade, o corpo feminino torna-se o principal território de disputa política. As mulheres férteis são transformadas em “aias”, reduzidas à função reprodutiva, privadas de nome, história, desejo e linguagem própria. Offred — “do Fred”, pertencente ao comandante — já não é sujeito: é posse.

A violência em Gilead não se dá apenas pela força física, mas pela normalização. O horror não é gritado, é ritualizado. A cerimônia do estupro, travestida de ato religioso, talvez seja um dos momentos mais perturbadores do livro justamente por sua frieza, por sua repetição mecânica, por sua tentativa de apagar o crime sob a aparência da ordem. O patriarcado aqui não é caótico: ele é meticulosamente organizado.

Atwood é particularmente incisiva ao mostrar como o regime só se sustenta porque conta com a participação ativa de algumas mulheres. As Tias, responsáveis por disciplinar as aias, encarnam a pedagogia da submissão. As Esposas, embora também aprisionadas, exercem poder sobre aquelas que estão abaixo delas. O livro desmonta qualquer fantasia de uma solidariedade feminina automática: em sistemas autoritários, a hierarquia atravessa também o gênero.

A narração em primeira pessoa é fragmentada, entrecortada por memórias do “antes”. Esse recurso revela algo fundamental: a opressão não começa de repente. Ela se instala aos poucos, enquanto direitos são retirados em nome da segurança, da moral, da tradição. Offred lembra de quando as mulheres perderam o direito ao trabalho, à conta bancária, à autonomia — e de como tudo parecia temporário, administrável, reversível. Não era.

O corpo feminino, em O Conto da Aia, deixa de ser experiência e torna-se função. Menstruação, gravidez, parto — tudo é monitorado, regulado, apropriado pelo Estado. A maternidade não é potência, é dever. A sexualidade não é desejo, é instrumento. O silêncio não é escolha, é imposição. Atwood expõe, com clareza cruel, como o controle do corpo é sempre o primeiro passo para o controle da subjetividade.

Mais do que uma distopia, o romance funciona como advertência. Ele pergunta o tempo todo: até onde estamos dispostas a ir para manter uma aparência de normalidade? O que aceitamos perder antes de perceber que já não temos nada? E quem paga primeiro esse preço?

O Conto da Aia permanece atual porque dialoga com retrocessos reais: ataques aos direitos reprodutivos, alianças entre religião e política, discursos morais que legitimam a violência contra mulheres em nome da ordem. Ler Atwood hoje não é exercício de imaginação — é exercício de vigilância.

No fim, a narrativa de Offred não é apenas um testemunho de opressão, mas um gesto de resistência. Contar a própria história, mesmo fragmentada, mesmo em segredo, é recusar o apagamento total. Onde o poder quer silêncio, a memória insiste. E onde o regime quer corpos dóceis, a palavra ainda é risco.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá, em 1939. É uma escritora canadense, romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 


POR QUE JÁ NÃO PRECISAMOS DE UM OPRESSOR EXTERNO

 


PSICOPOLÍTICA

BYUNG CHUL-HAN

EDITORA ÂYINÉ – 2020

102 páginas 

Em Psicopolítica, Byung-Chul Han propõe uma leitura incisiva das formas contemporâneas de poder. Diferentemente das sociedades disciplinares analisadas por Foucault — baseadas na vigilância, na repressão e na coerção externa —, o filósofo sul-coreano argumenta que vivemos sob um regime mais sutil e, por isso mesmo, mais eficaz: o da exploração voluntária de si.

O poder neoliberal já não opera prioritariamente pela proibição, mas pela positividade. Não diz “não”, diz “você pode”. Não impõe, seduz. O sujeito contemporâneo não se sente dominado, mas livre — e é justamente nessa sensação de liberdade que reside a armadilha. Ao internalizar as exigências de desempenho, produtividade e sucesso, o indivíduo passa a se auto explorar, acreditando que age por vontade própria.

Han descreve a passagem do sujeito obediente ao sujeito empreendedor de si. Já não há um outro claramente identificável que oprime; o sujeito se torna simultaneamente senhor e escravo. Essa dinâmica produz não revolta, mas cansaço. Não gera resistência coletiva, mas esgotamento individual. Depressão, burnout e ansiedade surgem, então, não como falhas pessoais, mas como sintomas políticos de um sistema que transforma liberdade em obrigação.

O termo “psicopolítica” nomeia exatamente esse deslocamento do poder para o interior da psique. As técnicas de dominação não se dirigem mais apenas ao corpo, mas à mente, às emoções, aos desejos. A transparência, a comunicação constante, a exposição voluntária nas redes e a cultura do like funcionam como dispositivos de controle que dispensam a violência explícita. O sujeito se oferece, se mostra, se mede — e se vigia.

Nesse contexto, a liberdade deixa de ser espaço de indeterminação e se converte em performance. Tudo deve ser comunicado, otimizado, monetizado. Até o tempo livre se torna produtivo. O descanso precisa ser “eficiente”, a felicidade mensurável, a identidade constantemente atualizada. O silêncio, a negatividade, o ócio e a contemplação — condições fundamentais do pensamento crítico — tornam-se suspeitos, improdutivos, quase ilegítimos.

Um dos aspectos mais inquietantes do livro é a análise da perda da alteridade. A sociedade da positividade não tolera o outro como diferença radical. O que circula é o igual, o semelhante, o que confirma. O conflito dá lugar ao consenso algorítmico. A política, nesse cenário, esvazia-se: transforma-se em gestão, em cálculo, em administração de dados, enquanto a possibilidade de ação coletiva se dissolve em experiências individuais de fracasso ou sucesso.

Psicopolítica é um livro breve, mas contundente. Sua força está menos em oferecer soluções do que em nomear o mal-estar contemporâneo, deslocando-o do plano psicológico para o político. Han nos obriga a reconhecer que aquilo que vivenciamos como exaustão pessoal é, na verdade, o efeito de uma racionalidade que colonizou a própria subjetividade.

Ao final, a pergunta que o livro deixa não é confortável: como resistir a um poder que se exerce através do desejo, da liberdade e da autossuperação? Pensar talvez seja, hoje, um dos últimos gestos verdadeiramente subversivos.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coréia do Sul em 1959. É um filósofo ensaísta sul-coreano que vive na Alemanha.  


À BEIRA DO MITO, À BEIRA DE SI

 


KAFKA À BEIRA-MAR

HARUKI MURAKAMI

ALFAGUARA – 1ª ED. 2008

576 páginas 


Kafka à Beira-Mar é um romance que resiste à resenha tradicional. Murakami constrói uma narrativa deliberadamente aberta, na qual explicações definitivas parecem sempre escapar. O livro não se oferece como enigma a ser resolvido, mas como experiência a ser atravessada. Cada leitura produz sua própria interpretação e talvez seja justamente aí que resida sua força.

Apesar dessa abertura radical, o romance está longe de ser decepcionante ou disperso. Ao contrário: prende o leitor do início ao fim de suas mais de quinhentas páginas, com uma fluidez quase hipnótica. É uma leitura que envolve, conduz e perturba, mesmo quando não se deixa compreender plenamente. Murakami parece apostar menos na clareza narrativa do que na intensidade da atmosfera.

A obra é atravessada por múltiplas referências literárias e filosóficas, com destaque para o mito grego de Édipo, que funciona como uma espécie de eixo subterrâneo da narrativa. Ao mesmo tempo, o romance articula elementos da modernidade ocidental com lendas e imaginários japoneses, criando um espaço híbrido, onde tradição e contemporaneidade coexistem sem hierarquia.

A história se desenrola a partir de dois personagens centrais. Kafka Tamura é um garoto de quinze anos que foge de casa em razão da relação conflituosa com o pai, que o amaldiçoa com uma profecia incestuosa: Kafka estaria destinado a dormir com a mãe e a irmã, ambas desaparecidas desde que ele tinha apenas quatro anos, deixando-o para trás. Essa maldição ecoa o mito de Édipo, mas é deslocada para um registro psicológico, simbólico e contemporâneo.

O segundo personagem é Nakata, um idoso que, ainda criança, passou por uma experiência inexplicável que o incapacitou de ler e escrever, mas lhe concedeu dons extraordinários: falar com gatos e antecipar acontecimentos fora da ordem comum das coisas. À primeira vista, Kafka e Nakata não compartilham nada — idade, história, linguagem, mundo. Ainda assim, suas trajetórias correm em paralelo e acabam se cruzando de maneira enigmática, como se obedecessem a uma lógica que ultrapassa a causalidade linear.

Murakami constrói, assim, um romance sobre solidão, amizade, amadurecimento, culpa e destino. Mas esses temas não aparecem como conceitos fechados; surgem como estados de espírito, como forças que atravessam os personagens sem jamais se estabilizar. O destino, em especial, não é apresentado como fatalidade clara, mas como algo nebuloso, que se cumpre justamente quando tenta ser evitado.

Kafka à Beira-Mar não pede compreensão total. Pede entrega. É um livro que se move no limiar entre o real e o onírico, entre o mito e a vida cotidiana, convidando o leitor a habitar esse espaço de incerteza. Ao final, talvez reste menos a sensação de ter entendido tudo e mais a de ter sido transformado pela travessia.


Haruki Murakami nasceu Fushimi, Quioto no Japão em 1949. É um escritor e tradutor japonês. 


UMA VIDA ESTREITA, UMA LITERATURA IMENSA


A VIDA DE CHARLOTTE BRONTË

ELIZABETH GASKELL

PEDRAZUL EDITORA – 2021

416 páginas 

Escrita por Elizabeth Gaskell — também romancista e amiga próxima de Charlotte Brontë, A Vida de Charlotte Brontë é uma biografia atravessada por afeto, cautela e silêncio. Embora o foco recaia sobre Charlotte, o livro inevitavelmente abarca as irmãs Brontë, igualmente escritoras, compondo o retrato de uma constelação feminina marcada pela reclusão, pela perda e pela escrita como forma de sobrevivência.

Publicada em plena sociedade vitoriana, a biografia nasce sob o signo da mutilação. Gaskell foi obrigada a suprimir nomes, episódios e trechos inteiros para preservar a memória de Charlotte e evitar escândalos envolvendo pessoas ainda vivas. Essas ausências, no entanto, não passam despercebidas: ao final do livro, há uma explicação do que foi retirado, revelando as tensões entre verdade, reputação e moral pública. O que se lê, assim, é tanto uma biografia quanto um documento sobre os limites impostos às mulheres — inclusive quando escrevem sobre outras mulheres.

A obra se baseia majoritariamente nas cartas de Charlotte trocadas com uma grande amiga. Nessas correspondências emerge uma subjetividade marcada por angústia e sofrimento, intensificados por um amor impossível: a paixão por um professor casado, que a via apenas como aluna. Esse desencontro afetivo não é tratado como episódio romântico, mas como mais uma expressão da contenção emocional e social que moldava a experiência feminina do período.

A vida das irmãs Brontë é descrita como simples e restrita. Vivem em uma pequena cidade, no presbitério, com poucos contatos sociais. Seus romances nascem diretamente dessas experiências limitadas, do confinamento, da observação minuciosa do mundo ao redor. Charlotte, diferentemente das irmãs, viaja com mais frequência e chega a circular em Londres, mas essas incursões não a libertam do desconforto social: sua timidez é quase paralisante, e o convívio público lhe causa verdadeiro pavor.

A doença atravessa o livro como uma presença constante. Ela aparece nas cartas como ameaça, como rotina, como alívio temporário (“graças a Deus estamos melhor”). A vida é marcada por perdas sucessivas: Charlotte perde a mãe, quatro irmãs e o irmão. Quando finalmente encontra alguma felicidade no casamento, morre durante a gravidez. A tragédia, aqui, não é excepcional — é contínua, quase estrutural.

Ainda assim, há algo que escapa a essa existência estreita. Se a vida das Brontë foi limitada em termos sociais e materiais, ela se expande radicalmente na escrita. A riqueza que lhes foi negada em vida transforma-se em literatura. Os livros que nos legaram são o lugar onde essa experiência contida ganha voz, intensidade e permanência.

A biografia de Gaskell, com todas as suas lacunas e silêncios, nos permite perceber isso com clareza: para algumas mulheres do século XIX, escrever não foi apenas uma vocação, mas uma forma de continuar existindo para além das perdas, da doença e das fronteiras impostas à própria vida.


Elizabeth Gaskell nasceu em Chelsea, Londres no Reino Unido em 1810 e faleceu em Holybourne, Reino Unido em 1865. Foi uma romancista e contista britânica.


 

Entre o santo e o contrato: o destino feminino

 


A CABEÇA DO SANTO

SOCORRO ACIOLI

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2014

176 páginas 

Há livros que se deixam ler com gula. A Cabeça do Santo é um deles: desses que se devoram sem culpa, mas que, ao final, permanecem ecoando, como se a leveza da narrativa escondesse algo mais fundo.

A história começa com um gesto ancestral. A mãe de Samuel, pertencente a uma linhagem de mulheres que sabiam quando iam morrer, anuncia sua partida iminente e lhe confia seus últimos pedidos: acender uma vela aos pés da estátua de Padre Cícero, em Juazeiro; outra diante de São Francisco, em Canindé; e mais uma para Santo Antônio, em Candeia. Depois disso, Samuel deveria retornar a essa cidade para encontrar o pai que nunca conheceu. Contrariado, ele promete cumprir a missão — promessa que o coloca em movimento, tanto no espaço quanto na própria vida.

A viagem até Candeia dura dezesseis dias de estrada dura: fome, cansaço, solidão. Quando finalmente chega ao endereço indicado pela mãe, é recebido pela avó, que não abre o portão. Apenas lhe diz para procurar abrigo, pois uma forte chuva se aproxima. Samuel obedece. No dia seguinte, ao despertar, escuta vozes — muitas vozes de mulheres. Descobre, então, que está abrigado dentro de uma enorme cabeça de concreto: a cabeça de Santo Antônio, esquecida no chão, separada do corpo da estátua que permanece no alto do morro.

É a partir dessa imagem insólita que Socorro Acioli constrói o coração do romance. Samuel passa a ouvir, de dentro da cabeça do santo, os pedidos das mulheres que recorrem ao santo casamenteiro. Pedidos íntimos, desesperados, às vezes cômicos, às vezes dolorosos. Incapaz de ignorá-los, ele começa a agir em favor dessas mulheres — e, nesse movimento, acaba reanimando uma cidade quase morta. A decadência de Candeia é atribuída, pelos moradores, à “desgraça” simbólica de um santo incompleto, decapitado. A intervenção de Samuel reorganiza não apenas destinos individuais, mas o próprio imaginário coletivo da cidade.

O tom do livro oscila com inteligência entre o comovente e o hilariante. Há momentos de humor afiado, mas nunca gratuito. O fantástico aqui não serve como ornamento exótico, e sim como linguagem para falar de fé, desejo, abandono e esperança — sobretudo a esperança feminina, tantas vezes silenciada.

Muito se fala da aproximação do romance com o realismo fantástico latino-americano, e é verdade que Acioli estudou com Gabriel García Márquez. Ainda assim, o mérito do livro não está em qualquer filiação estética, mas na autonomia de sua escrita. A Cabeça do Santo não imita: inventa. É fruto de uma imaginação própria, profundamente enraizada no Nordeste brasileiro, capaz de transformar religiosidade popular, oralidade e crítica social em literatura de alta qualidade.

É um livro que parece simples — e talvez por isso seja tão poderoso. Porque sob a leveza da narrativa, o que se revela é uma reflexão delicada sobre fé, escuta e reparação. E, sobretudo, sobre o que acontece quando alguém decide levar a sério as vozes que o mundo costuma ignorar.

Há ainda um aspecto decisivo do romance que merece ser destacado: o modo como A Cabeça do Santo organiza sua narrativa a partir dos desejos femininos — desejos que, não por acaso, se dirigem a Santo Antônio, o santo casamenteiro. As vozes que Samuel escuta são, majoritariamente, vozes de mulheres. E o que elas pedem não é qualquer coisa: pedem casamento, pertencimento, reconhecimento social. Pedem um destino.

O livro expõe, com delicadeza e ironia, como o casamento aparece como horizonte quase obrigatório da vida feminina, especialmente em contextos marcados pela precariedade material e simbólica. Não se trata apenas de fé, mas de sobrevivência. Casar, aqui, é promessa de proteção, de saída da invisibilidade, de algum tipo de futuro possível. Ao transformar esses pedidos em murmúrios incessantes dentro da cabeça do santo, Acioli materializa o peso desse destino imposto — um destino que ecoa, insiste, cobra resposta.

É significativo que seja um homem, Samuel, quem escuta essas vozes e age em nome delas. O romance não ignora essa assimetria; ao contrário, torna-a parte da engrenagem narrativa. As mulheres falam, mas não são ouvidas diretamente pelo mundo. Precisam atravessar o santo, o milagre, o intermediário masculino. Nesse deslocamento, o livro sugere uma crítica sutil às estruturas que condicionam o desejo feminino à mediação alheia — seja religiosa, social ou patriarcal.

Assim, A Cabeça do Santo pode ser lido como uma fábula sobre fé e comunidade, mas também como uma reflexão sobre o modo como o destino das mulheres é historicamente reduzido a um único enredo possível. Ao dar corpo e voz a esses pedidos, Acioli não os ridiculariza; ela os expõe. E, ao fazê-lo, nos convida a escutar o que essas vozes dizem — e, talvez, a perguntar por que ainda dizem sempre a mesma coisa.


Socorro Acioli nasceu em Fortaleza no Ceará em 1975. É jornalista e escritora brasileira 



A HISTÓRIA QUE ESQUECERAM DE CONTAR


 

A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DAS MULHERES

Durante séculos, o que chamamos de “História” foi escrito a partir de um olhar parcial: masculino, eurocêntrico e frequentemente elitista. O passado, tal como o conhecemos, é uma narrativa construída — e, como toda narrativa, carrega escolhas: o que foi lembrado e o que foi esquecido; quem pôde falar e quem foi silenciado.

O silenciamento do saber feminino, assim como de outras vozes ditas “subalternas” — povos originários, povos negros, os chamados “orientais” no Ocidente — é resultado da patriarcalização e da misoginia, do racismo e de interesses que privilegiaram apenas uma parcela da humanidade. Esse talvez seja o maior crime já cometido contra o conhecimento e contra a intelectualidade: jamais saberemos o que o mundo perdeu diante desse apagamento. Resta-nos agora recuperar a história das mulheres e de todos aqueles que foram silenciados.

No entanto, não basta recuperar nomes ou inserir mulheres numa narrativa previamente construída. Não é suficiente “adicioná-las” à História. É preciso interrogar as bases epistemológicas sobre as quais essa História foi produzida. O que foi considerado digno de ser registrado? Que critérios definiram o que seria “universal”? E quem ficou fora dessa universalidade?

A historiografia das mulheres nasce desse gesto de insubmissão. É o movimento que decide olhar novamente os arquivos, as ruínas e os mitos — não para idealizar o feminino, mas para restituir presença. Trata-se de buscar não apenas as mulheres que atuaram publicamente, mas também aquelas cuja existência foi diluída nas margens: mães, camponesas, sacerdotisas, curandeiras, filósofas esquecidas, anônimas que sustentaram a vida cotidiana e, por isso mesmo, foram apagadas da memória oficial.

Há todo um saber silenciado que começa, lentamente, a nos ser restituído. Pensar a historiografia das mulheres é pensar outra forma de compreender o mundo — uma forma que não apenas descreve o que houve, mas também revela o que foi ocultado; que interroga a própria ideia de poder e de conhecimento.

Anos atrás percebi que aprendi a pensar através dos homens. A literatura, a história, a sociologia, a antropologia, a psicanálise, a filosofia — tudo era predominantemente masculino. A produção filosófica feminina só ganha visibilidade em meados do século XX. Ainda hoje há professores que afirmam não ter existido mulheres filósofas na Antiguidade, ocultando pensadoras que de fato existiram e influenciaram figuras como Platão, Sócrates e talvez até Aristóteles, tão frequentemente apontado como misógino.

Infelizmente, grande parte da produção dessas filósofas desapareceu. Ainda assim, é possível recuperá-las, ao menos em parte. Podemos examinar o que os homens disseram sobre elas; há fragmentos, referências, ecos. A primeira escritora conhecida da humanidade é Enheduana — não há textos escritos anteriores aos seus, pelo menos nada que tenha sobrevivido. Felizmente, seus hinos nos chegaram. Ana Comnena, por sua vez, foi uma historiadora bizantina que escreveu a Alexíada, um relato épico sobre a história política e militar de seu tempo.

A pergunta que me faço é: por que ninguém fala delas? Por que estudamos Homero e não Enheduana? Por que a Alexíada não integra os currículos acadêmicos? Seria porque foram escritas por mulheres — e, portanto, precisaríamos silenciá-las, esquecê-las?

Foi somente em meados do século XX que mulheres começaram a revisar tudo o que havia sido produzido pelos homens e iniciaram a busca pelas mulheres na história. É importante lembrar que, até os anos 1970, praticamente não havia mulheres na historiografia, com exceção de figuras excepcionais ou rainhas que exerceram poder.

A história das mulheres inicia-se na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos na década de 1960, chegando à França cerca de dez anos depois. Os anos 1970 marcam, portanto, o início de um duplo movimento: o da libertação das mulheres e o da inclusão das mulheres nas universidades. Esse contexto permitiu não apenas o estudo e a recuperação da memória feminina, mas também o surgimento de uma nova epistemologia, voltada à crítica dos saberes constituídos e à reformulação dos próprios fundamentos do conhecimento histórico.

Christiane Depooter 

Janeiro 2025

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Como funcionam as engrenagens do poder no Brasil

 


PODER E DESIGUALDADE

CESAR CALEJON; ANDRÉ RONCAGLIA

Civilização Brasileira – 1ª ed. – 2024

364 páginas

O livro Poder e Desigualdade foi escrito pelo jornalista Cesar Calejon e pelo economista André Roncaglia, que analisam conjuntamente a situação econômica e política do Brasil neste início do século XXI.

Considero de suma importância compreender o que está por trás de tantas notícias que circulam diariamente, muitas vezes sem qualquer análise técnica ou compromisso com os fatos. Há uma enorme distorção, em que a ideologia política de quem noticia se sobrepõe à informação baseada em dados. Além disso, os brasileiros tendem a cobrar tudo do presidente — seja quem for — e se esquecem das outras forças que atuam no sistema político e econômico e que, muitas vezes, chegam a impedir qualquer ação do governo.

Os autores mostram que o poder é complexo e envolve diferentes esferas: a midiática, a política, a econômica e a financeira, todas frequentemente articuladas para manter o poder concentrado nas mãos de poucos. O livro traz um capítulo sobre o agronegócio e a mineração; outro sobre como as oligarquias dominam a mídia; e outro ainda sobre a financeirização da economia, explicando como funcionam a dívida, as divisas, o sistema fiscal, a taxa Selic, o dólar — e como tudo isso exerce enorme influência sobre as decisões governamentais e suas margens de ação.

Nós, meros cidadãos, em geral não conhecemos esses mecanismos e acabamos culpando quem tem menos responsabilidade direta, sem eximir, evidentemente, sua parte. Soma-se a isso o papel das redes sociais, que hoje espalham desinformação em larga escala — como no caso recente do PIX. Vemos, por exemplo, o escândalo das Lojas Americanas nos jornais e nas redes, mas raramente compreendemos o que de fato ocorreu. O livro dedica um capítulo específico a esse episódio.

A leitura não é simples à primeira vista para quem não tem familiaridade com economia ou finanças. Ainda assim, os autores se esforçam em apresentar exemplos claros, simples e práticos, que ajudam a elucidar os mecanismos de funcionamento do sistema. Independentemente das inclinações políticas dos autores, o que o livro oferece é, sobretudo, uma explicação de como as engrenagens operam.



Cesar Calejon é um jornalista e escritor brasileiro


André Roncaglia é um economista brasileiro 



Violência, prisão e apagamento do povo palestino

 


NA SOMBRA DO HOLOCAUSTO: GENOCÍDIO EM GAZA

LAYAN KHAYED; NOURA ERAKAT ET ALL

Contrabando Editorial – 2025

224 páginas

Este livro reúne textos de diversos autores e autoras. Um de seus capítulos centrais trata da violação sistemática dos direitos humanos na Palestina após 7 de outubro de 2023, descrevendo o tratamento dado aos palestinos nas prisões israelenses, incluindo violência contra crianças, violência de gênero, abusos sexuais e assédio.

Outro capítulo apresenta uma entrevista com Layan Khayed, ativista e dirigente estudantil da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia. Há também um texto dedicado ao caso do brasileiro-palestino Islam Hamad, preso por Israel.

A segunda parte do livro é composta por ensaios sobre a questão palestino-israelense. Um deles me chamou particularmente a atenção por formular uma pergunta incômoda e pouco debatida: por que a classe trabalhadora israelense não é uma aliada?

Nos últimos tempos — e especialmente agora, com Trump novamente no governo dos Estados Unidos e suas posições explícitas, mas também em função da guerra na Ucrânia — passei a buscar com mais atenção o chamado “outro lado”. Ou seja, sair do meu mundo fechado, ocidental. Tenho percebido muitas coisas que antes não via ou não compreendia, e esse deslocamento tem sido, ao mesmo tempo, difícil e profundamente formador.

Infelizmente, quando não se lê em inglês, nós aqui ficamos muito defasados em termos de informação. Soma-se a isso o alto custo dos livros importados, o que nos limita ainda mais. Aos poucos, no entanto, surgem traduções, edições em eBook mais acessíveis e também o recurso aos jornais internacionais, ainda que muitas vezes mediado por traduções automáticas.

Considero fundamental escutar sempre mais de uma narrativa. Do contrário, ficamos à mercê de um discurso único. Isso não significa ausência de espírito crítico — pelo contrário. É preciso exercê-lo em relação a todos os lados. Ainda assim, confesso que muito do que eu pensava ou acreditava tem mudado. Posso não concordar ou não gostar — afinal, minha formação é ocidental —, mas posso tentar compreender melhor. Ultrapassar preconceitos, ideias pré-concebidas e ideologias que estruturam o nosso Ocidente.

Muito do que palestinos vêm escrevendo há décadas começa agora a se tornar visível para nós. Um exemplo é o capítulo que trata da chamada “Solução Sinai”. Ora, é exatamente isso que ouvimos recentemente de Trump, com sua ideia de uma “riviera palestina” e a expulsão dos palestinos para o Egito e a Jordânia.


Diário de um cerco e a destruição da vida civil em Gaza


 

QUERO ESTAR ACORDADO QUANDO MORRER

ATEF ABU SAIF

Editora Elefante – 1ª – 2024

340 páginas 


Atef Abu Saif é escritor e também ministro da Cultura da Autoridade Nacional Palestina. Ele estava em Gaza quando começaram os ataques de Israel após o dia 7 de outubro de 2023. Encontrava-se ali com um de seus filhos; sua esposa e os outros filhos haviam permanecido em Ramallah, na Cisjordânia, onde a família reside. Foram 85 dias sob intenso bombardeio até que conseguissem sair de Gaza e retornar para casa. Durante todo esse período, Atef Abu Saif escreveu um diário — o livro agora publicado em dez países.

O relato é visceral. O horror de estar ali: milhões de pessoas sob ataque constante, sem qualquer lógica que pudesse ser compreendida. Diferentemente do que se costuma considerar como “alvos” em guerras, os mísseis, drones e, depois, os ataques terrestres se dirigiam a qualquer lugar — escolas, residências, hospitais, ruas. O alvo não era o Hamas, apesar das justificativas apresentadas por Israel; o alvo era a população civil. Trata-se de uma limpeza étnica.

Os habitantes recebiam ordens para seguir em direção ao sul e eram mortos no caminho, ou presos e levados para prisões em Israel. Morriam em suas casas, na fila da padaria, dentro de hospitais, em escolas. Crianças, idosos, mulheres e homens. Quando conseguiam chegar ao sul, eram novamente bombardeados.

E há algo ainda mais cruel: o cerco absoluto. Diferentemente da Ucrânia, por exemplo, onde parte da população conseguiu se refugiar em outros países, em Gaza isso é impossível. Não há saída. A ajuda humanitária foi cortada: sem água, sem eletricidade, sem internet, sem comida, sem medicamentos. Muitas vidas que poderiam ter sido salvas foram perdidas.

Os palestinos separam os membros da família para que, caso uma casa seja atingida, não morram todos juntos. O autor tem várias irmãs, irmãos e o pai em Gaza. Precisou deixá-los quando conseguiu partir. Ele relata que o medo é algo que, na guerra, desaparece — o mesmo que dirá outro autor de um diário sobre a Ucrânia. O cotidiano se reduz a encontrar pão e torcer para não estar no lugar onde o míssil vai cair. 

É um livro difícil de ler pelo que revela, mas absolutamente necessário — sobretudo por desmentir muito do que se diz no Ocidente.


Atef Abu Saif nasceu no campo de refugiados de Jabalia, na Faixa de Gaza, em 1973. É um escritor palestino. 

Memória familiar e a história de um país dividido


 

MINHA UCRÂNIA: A JORNADA DE UMA MULHER EM BUSCA DA HISTÓRIA DE SUA FAMÍLIA E SEU PAÍS.

VICTORIA BELIM

Record – 1ª ed. 2023

294 páginas

Para compreender melhor a história da Ucrânia comecei por este livro de Victoria Belim, uma ucraniana que vive atualmente na Bélgica e que retorna ao seu país natal, antes da guerra, para visitar a avó. A partir de suas memórias familiares, vamos conhecendo a história da Ucrânia, suas tradições e seus costumes.

A autora reconstrói a trajetória de seus bisavós, Asya e Sergy, que atravessaram a Revolução Bolchevique, a Guerra Civil, o Terror Vermelho, a coletivização forçada, o Holodomor, os Grandes Expurgos dos anos 1930, a Segunda Guerra Mundial, a fome de 1946, a decadência dos anos 1970 e, por fim, o colapso da União Soviética na virada dos anos 1980 para os 1990. Victoria Belim viveu sua infância e adolescência ainda sob o regime soviético.

Ela se hospeda na casa da avó materna, Valentina, filha de Asya e Sergy. A partir do diário do bisavô, descobre a existência de um irmão sobre o qual ninguém jamais falava — e decide investigar o que lhe aconteceu.

Há também a figura do tio paterno da autora e o embate político entre ele e a sobrinha: ele pró-Rússia, ela pró-Ocidente, pró-Europa. A Ucrânia aparece como um país profundamente dividido. O oeste, historicamente ligado ao Império Austro-Húngaro dos Habsburgos, é majoritariamente pró-Ocidente; o Leste, que fez parte da Rússia, é pró-Rússia; e há ainda a região de Kiev, a capital. São histórias distintas convivendo em um mesmo território.

No país, falam-se duas línguas, o russo e o ucraniano — ao menos até a recente proibição do uso do russo. Quase todas as famílias têm russos e ucranianos em sua composição. Alguns comemoram o Natal em janeiro, segundo o calendário juliano; outros seguem o Natal ocidental, de acordo com o calendário gregoriano. Trata-se de um país multiétnico.

A autora também fala dos bordados ucranianos feitos pelas mulheres — belíssimos — e das pinturas florais nas casas, que funcionam como marcas de identidade, memória e resistência cultural.

É um livro de leitura fluida que, ao narrar a história da família da autora, apresenta como pano de fundo a história da Ucrânia. Para quem, como eu, sabia muito pouco sobre o país, a leitura é altamente recomendável.


Victoria Belim nasceu em 1978 na Ucrânia. É uma memorialista. 


Quando tudo muda para que tudo permaneça igual

 


O LEOPARDO

GIUSEPE TOMASI DI LAMPEDUSA

Companhia das Letras – 1ª ed. 2017

384 páginas 

O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, estava na minha lista de leitura havia algum tempo. Quando vi que a Netflix lançará uma minissérie baseada no livro, resolvi passá-lo à frente. Gosto de ler o livro antes de ver filmes ou séries. Publicado em 1958, ele já havia sido adaptado para o cinema por Luchino Visconti.

O romance é inspirado no bisavô paterno do autor e narra a vida de uma família aristocrática siciliana, os Salina, entre as décadas de 1860 e 1910, período em que ocorre o Risorgimento — o processo que culmina na unificação da Itália — e em que a Sicília é anexada ao Reino da Sardenha. Os Bourbons, que governavam até então, são substituídos pela burguesia liberal e pela dinastia de Saboia. Garibaldi, figura central desse processo histórico, também aparece como referência. Esse é o pano de fundo da narrativa, embora o foco principal recaia sobre o príncipe Fabrizio — o Leopardo, nome que remete ao animal presente no brasão da família.

Durante a leitura, lembrei-me diversas vezes de Tolstói e de suas descrições da aristocracia russa. As minúcias, os detalhes que à primeira vista parecem fúteis, mas que revelam com precisão o modo de vida dessas famílias: o mobiliário, os tapetes, as louças, os quadros, a curvatura do lustre e, claro, os cardápios servidos — e a quem eram servidos.

O sobrinho do príncipe, Tancredi, adere ao movimento de unificação, mas assegura que, ao final, nada realmente mudará. Fabrizio percebe que ele tem razão: a Sicília continuará sendo a mesma, apenas sob outro domínio.

O sogro de Tancredi representa a burguesia liberal emergente. Há passagens marcantes em que Dom Calogero e o príncipe são colocados frente a frente, evidenciando a distância que os separa. A arte, para um, tem valor monetário; para o outro, é beleza — apenas para citar um exemplo. Aos poucos, o príncipe é tomado por uma melancolia profunda. O romance traz cenas pungentes que acompanham a decadência de um mundo e o surgimento de outro. Fabrizio assiste ao desmoronamento do universo ao qual pertence, sem que possa fazer algo para detê-lo.

O livro também expõe as questões sociais — a pobreza, a exploração e a opressão — observadas pelo olhar do príncipe ou em suas conversas com outros personagens. Nada disso se transforma com a chegada do capitalismo.



Giusepe Tomasi Di Lampedusa nasceu em Palermo em 1896 e faleceu em Roma em 1947. Foi um escritor italiano 

Entre o corpo ferido e a imaginação como refúgio

 


A DISSOCIAÇÃO

NADIA YALA KISUKIDI

Bazar do Tempo – 1ª ed. 2024.

288 páginas 

Nadia Yala Kisukidi é a autora deste livro, A dissociação. Trata-se de uma obra instigante, que propõe um deslocamento em relação às formas mais habituais de abordar temas como racismo, pobreza, marginalização, periferias urbanas, preconceito, mas também sonhos e desejos.

A narrativa acompanha uma jovem negra, pobre e anã — cujo nome nunca sabemos — que vive com a avó na periferia da cidade industrial de Villeneuve d’Ascq, no norte da França. Quando atinge os dez anos de idade, seu corpo para de crescer, levando a avó a tentar de tudo para que ela volte a crescer. Em vão.

Podemos imaginar, mesmo antes da leitura, as violências que essa jovem sofre em uma sociedade europeia marcada pelo racismo e pelo preconceito. Para suportar a dor, ela desenvolve a capacidade de dissociar a mente do corpo. Essa dissociação lhe confere poder: permite que viaje por diferentes lugares, encontre outras pessoas que, como ela, também sofrem, e parta em busca de um lugar seguro. Ao mesmo tempo, ela escreve essa diáspora — suas experiências, seus encontros — no que chama de O Manual.

O corpo sofre a violência da xenofobia europeia, mas a mente se expande. Ela se dissocia por meio de mitos africanos — herança de um pai que nunca conheceu —, de fábulas e de um realismo mágico que atravessa toda a narrativa.

Filosofia da transcendência da matéria, crítica social e imaginação compõem o livro. E, mesmo em meio a tantas dores, encontramos a utopia: a busca por um lugar no mundo, o reconhecimento e o pertencimento.

Acompanhei o trajeto dessa aventura e, pouco a pouco, percebi onde o livro terminaria. E foi exatamente ali que ele chegou.


Nadia Yala Kisukidi nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1978. É filósofa, escritora e acadêmica na França. 


• O império apagado pela história ocidental

 


GENGIS KHAN E A FORMAÇÃO DO MUNDO MODERNO

JACK WEATHERFORD

Bertrand Brasil – 2ª ed. 2010

462 páginas 


Quando li Nada será como antes, do cientista Miguel Nicolelis, ele se referia ao profundo céu azul dos mongóis — o que me levou até minha biblioteca, onde estava este livro sobre Gêngis Khan, comprado há alguns anos. Ainda bem, pois seu preço hoje está inviável.

Comecei a leitura e fui capturada pela história dos mongóis, sobre os quais, exceto pela ideia de que Gêngis Khan teria sido um guerreiro sanguinário — imagem que prevalece no Ocidente —, eu praticamente nada sabia. E fui absolutamente surpreendida, não apenas por esse povo e pelo império que formaram, mas, sobretudo, por seus feitos e por sua forma de pensar.

Sim, houve guerras de conquista. Mas, sinceramente, nada que os diferencie radicalmente de outros povos em luta: Roma em suas expansões, as guerras da Idade Média, os godos, os celtas, entre tantos outros. Há diferenças, sim — na estratégia e até mesmo na forma como lidavam com prisioneiros e povos conquistados. Apesar de matarem muitos, aos que sobreviviam ofereciam certa autonomia e, em vários casos, incentivos.

A grande diferença está no fato de que esse povo sabia administrar e levava em consideração sua própria população — e, de modo decisivo, suas mulheres. Foram eles que unificaram a China e ali implementaram um sistema de governo participativo, escolas públicas, incentivo às tecnologias da época e às artes. Foram também fundadores da Cidade Proibida e de Pequim.

A leitura foi revelando surpresa após surpresa, desmontando imagens que eu jamais havia questionado. O império acabou sendo desmantelado pela peste bubônica e, aos poucos, foi se reduzindo até ficar confinado à Mongólia atual. O último descendente direto de Gêngis Khan morreu em 1943, no Afeganistão.

Mas o livro também mostra algo ainda mais perturbador: como esse império e esse povo, com feitos tão extraordinários, foram deliberadamente apagados da história e transformados em símbolo de barbárie. E adivinhem quando isso acontece. No Iluminismo — com sua filosofia e sua ciência que deram sustentação às colonizações, à escravidão negra e às conquistas de exploração. Postei alguns trechos do livro e incluí comentários de Montesquieu, Voltaire, entre outros.

Jack Weatherford nasceu em Dovesville, Carolina do Sul, EUA. É um antropólogo e autor estadunidense. 

Poder, violência e vozes que não descansam

 



PEDRO PÁRAMO

JUAN RULFO

José Olympio, 7ª ed. 2020

176 páginas 

Juan Rulfo é um escritor mexicano, e sua obra-prima é Pedro Páramo. Confesso que, no começo, quase desisti: o livro é tétrico, funesto. Mas, aos poucos, fui percebendo o quanto essa obra é magistral.

Sim, Rulfo retrata um México de pobreza, miséria e revoluções, onde um único personagem concentra todo o poder: o nosso “coronel” no México, o latifundiário cruel, aquele que faz as leis e determina tudo de acordo com seus próprios desejos. E, para isso, manda matar se for preciso, como se fosse a coisa mais banal do mundo.

Recentemente postei aqui um livro da Sigrid Nunez, que fala de uma paciente terminal e da vida diante da morte. Em Pedro Páramo, temos o inverso: é a morte falando da vida. São os mortos que narram a história de Comala e de Pedro Páramo.

Juan Preciado, após a morte da mãe, atende a seu último desejo: ir até a aldeia onde ela nasceu — descrita por ela como um lugar muito bonito — e exigir de seu pai, Pedro Páramo, tudo o que lhe é devido, mas sem lhe pedir nada. Ao chegar, encontra um lugar ermo, seco, abandonado. Não há uma única árvore. Tudo é extremamente desolador.

Aos poucos, começam a aparecer pessoas. Mas essas pessoas estão mortas — e são elas que vão contando o que aconteceu ali. Preciado acaba se juntando a elas. Em Comala, já não há mais lugar para a vida. Pedro Páramo decretou isso após a morte de sua amada, cujo luto a aldeia desrespeitou. Em vingança, decidiu deixar todos morrerem de fome.

É realismo fantástico, sim — e é genial. A maneira como Rulfo conta essa história não segue um tempo linear, mas se constrói como uma reunião de lembranças, fragmentos, vozes. Penso que, assim, sentimos muito mais o que foi aquele México e aquele tempo.

 


Juan Rulfo nasceu em Apulco, Tuxcacuesco, Jalisco, México, em 1917 e faleceu na Cidade do México em 1986. Foi escritor.