sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

EDUCAÇÃO, FRUSTRAÇÃO E DESTINO FEMININO NA INGLATERRA VITORIANA

 


O MOINHO À BEIRA DO RIO FLOSS

GEORGE ELIOT

PEDRAZUL – 2019

464 páginas 

O moinho à beira do rio Floss narra a história de dois irmãos, Tom e Maggie Tulliver, e de sua família, proprietária de um moinho situado às margens do rio Floss, na Inglaterra vitoriana. O moinho não é apenas o sustento material da família, mas também um símbolo da ordem social, das expectativas herdadas e da dificuldade de ruptura.

Desde cedo, o pai decide que Tom deve estudar. A educação do filho é vista como investimento: ele precisa adquirir conhecimento para enfrentar o advogado da cidade, figura recorrente nos conflitos do Sr. Tulliver. Maggie, por outro lado, não entra nesse cálculo. Por ser mulher, seu destino parece já traçado: não precisa estudar, precisa casar.

É nesse ponto que o romance revela sua força. Maggie é profundamente distinta das mulheres que a cercam. Ama os livros, a natureza, o pensamento. É inquieta, intensa, rebelde. Sofre com a impossibilidade de estudar formalmente e, ainda assim, demonstra uma inteligência mais viva do que a do irmão, a quem ama profundamente. Tom, pragmático e limitado pelo horizonte que lhe foi imposto, deseja apenas assumir o moinho e trabalhar. Não vê valor no saber mediado pelo clérigo, nem naquilo que não se converte imediatamente em utilidade prática.

George Eliot constrói, nesse romance, um retrato preciso da vida vitoriana nas pequenas cidades, com suas hierarquias rígidas, vigilâncias morais e expectativas sufocantes. Mas O moinho à beira do rio Floss é também um livro profundamente autobiográfico. Maggie carrega as marcas das próprias frustrações de Mary Ann Evans: a dificuldade de conciliar desejo de conhecimento, liberdade intelectual e as normas impostas às mulheres de seu tempo.

A crítica à sociedade vitoriana aparece de forma particularmente mordaz nas figuras femininas adultas: as tias, a mãe, as vozes do senso comum que insistem em moldar Maggie segundo padrões de docilidade, aparência e casamento. Em contraste, Lucy, a prima, encarna o ideal feminino aceito: graciosa, coquete, perfeitamente adaptada ao papel social esperado das mulheres.

Maggie, ao contrário, não se ajusta. Sua insatisfação não é capricho, mas consciência. Ela percebe, ainda jovem, o quanto as expectativas alheias aprisionam as mulheres, limitando seus desejos e possibilidades. Não é por acaso que Maggie se tornou uma das personagens que mais marcaram Simone de Beauvoir. Nela, Beauvoir reconhece a experiência feminina da frustração diante de um destino imposto — a recusa silenciosa de aceitar como natural aquilo que é construção social.

O moinho à beira do rio Floss é, assim, um romance sobre formação, perda e conflito, mas também um texto fundamental para pensar o lugar das mulheres no século XIX. Ao escrever Maggie, George Eliot não apenas narra uma história pessoal: ela expõe uma estrutura de desigualdade que atravessa gerações, e que, sob outras formas, ainda insiste em permanecer.


George Eliot pseudônimo de Mary Ann Evans, nasceu em Nuneaton, Warwickshire, Inglaterra em 1819  e faleceu em Chelsea, Middlesex, Inglaterra em 1880. Foi uma autodidata e romancista. 

UMA MULHER INTELECTUAL NA INGLATERRA VITORIANA

 


GEORGE ELIOT: A VOZ DE UM SÉCULO

FREDERICK R. KARL

RECORD – 1998

884 páginas 

Como parte da pesquisa sobre o feminino no século XIX, a leitura da biografia de George Eliot se impõe quase como um gesto preliminar. Antes dos romances, antes da obra literária, há uma vida marcada por escolhas intelectuais, afetivas e políticas que ajudam a compreender a singularidade de seu pensamento.

Frederick R. Karl constrói uma biografia extensa, que acompanha Mary Ann Evans da infância à morte, passando por toda a sua produção literária, bem como pelos comentários críticos que seus livros suscitaram ao longo do tempo. Trata-se de um trabalho minucioso, por vezes exaustivo — especialmente quando se detém longamente nas negociações com editoras, contratos e rendimentos financeiros, trechos que tendem a quebrar o ritmo da leitura. Ainda assim, o livro se sustenta como uma fonte importante para entender o percurso intelectual de Eliot.

Um de seus méritos está em situar a autora no interior da Inglaterra vitoriana, fazendo do contexto histórico e cultural um pano de fundo constante. Karl insere George Eliot em diálogo com figuras centrais da época, como Dickens, Charlotte Brontë e John Stuart Mill, revelando um ambiente intelectual vibrante, atravessado por debates morais, religiosos e políticos que ecoam diretamente em sua obra.

Mary Ann Evans era uma mulher profundamente intelectualizada, pertencente a uma elite cultural e integrada ao meio literário de seu tempo. Ainda assim, enfrentou forte preconceito, sobretudo quando decide viver com George Henry Lewes, um homem casado. Essa escolha, escandalosa para os padrões morais da época, contribui decisivamente para a adoção de um nom de plume masculino, estratégia que lhe permitiu circular com maior liberdade no campo literário.

George Eliot raramente se pronunciava publicamente. É nos romances que seu pensamento se revela com maior clareza: suas reflexões éticas, suas críticas sociais, suas posições sobre religião, moralidade e vida privada. A ficção torna-se, assim, o espaço onde ela elabora não apenas ideias abstratas, mas também justificativas implícitas para suas próprias escolhas.

Nesse sentido, a biografia de Karl cumpre um papel fundamental: mostrar que conhecer a vida de George Eliot não significa reduzir sua obra a dados biográficos, mas compreender melhor as tensões que atravessam seus romances. Antes da leitura da ficção, há uma mulher que pensa, escolhe, transgride, e é dessa fricção entre vida e escrita que emerge a força duradoura de sua obra.



Frederick R. Karl nasceu em Nova Iorque em 1927 e faleceu na mesma cidade em 2004. Foi um biógrafo literário. 

A LUCIDEZ FEMININA EM UM MUNDO CEGO


 

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

JOSÉ SARAMAGO

COMPANHIA DAS LETRAS – 2020

312 páginas 

Em Ensaio sobre a cegueira, José Saramago constrói uma alegoria radical sobre a incapacidade humana de ver. A cegueira que se espalha no romance não é apenas física: ela revela um colapso ético, social e político. O que se perde não é a visão dos olhos, mas a capacidade de perceber o outro, o mundo e a si mesmo para além do automatismo, da ideologia e das certezas confortáveis.

Saramago parece insistir numa ideia desconfortável: não são os olhos que enxergam, mas algo interior que se comunica com o exterior. Ver implica responsabilidade, atenção, abertura. Quando essa dimensão se rompe, instala-se a barbárie — e ela não precisa de muito tempo para se organizar. O romance mostra como, diante do medo e da escassez, as convenções morais se dissolvem rapidamente.

Todos ficam cegos, exceto uma única pessoa: uma mulher. Essa escolha não é casual. A mulher que vê carrega o peso de testemunhar a degradação humana sem poder intervir plenamente nela. Ver, aqui, não é privilégio; é condenação. A lucidez isola, expõe e fere. Ao mesmo tempo, Saramago não idealiza o feminino: o fato de ser mulher não a torna moralmente superior, nem implica que as mulheres, enquanto grupo, estejam imunes à cegueira. Muitas também não veem — ou escolhem não ver.

A presença dessa mulher funciona como espelho incômodo para o leitor. Se alguém vê, por que os outros não veem? O romance sugere que a cegueira não é falta de capacidade, mas uma recusa — uma acomodação coletiva diante da violência, da desigualdade e da desumanização cotidiana.

Ensaio sobre a cegueira permanece atual justamente porque não oferece redenção fácil. É uma metáfora dura, que nos obriga a deslocar o olhar: não para enxergar melhor, mas para perceber o quanto já aceitamos viver na escuridão. Ler Saramago é, nesse sentido, um exercício desconfortável de lucidez.


José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias, Espanha em 2010. Foi um escritor português premiado com o Nobel de Literatura em 1998.


ENTRE O MITO E A EXPLORAÇÃO: A VIDA NAS FAZENDAS DO VALE

 


ÁGUA FUNDA

RUTH GUIMARÃES

EDITORA 34 – 1ª – 2018

200 páginas 

A leitura de Água Funda veio logo após Torto Arado, e a aproximação entre os dois livros é inevitável. Ambos são fundamentais para compreender a vida nas fazendas brasileiras a partir do ponto de vista de quem trabalha a terra — e não dos fazendeiros, de suas famílias ou da narrativa oficial que sempre lhes deu centralidade.

Ruth Guimarães nos conduz ao Vale do Paraíba, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e ali reconstrói o cotidiano caipira da região, marcado pela herança do café e pela presença de ex-escravizados lançados à própria sorte após a abolição. Não se trata de uma paisagem idílica, mas de um mundo atravessado por precariedade, hierarquias rígidas e permanências coloniais.

Há, nesse romance, uma dimensão de reconhecimento. Para quem viveu ou conviveu com essa região, a linguagem, as crenças, as comidas e o modo de vida do caboclo reaparecem com familiaridade. Ruth Guimarães escreve a partir da escuta: a fala não é caricata nem forçada, mas orgânica, próxima da oralidade que ela própria conheceu.

Muitas leituras classificam Água Funda como literatura fantástica. Essa rotulação, no entanto, empobrece o livro. O que aparece aqui é cultura, folclore e sistema de crenças, aquilo que, como lembra Itamar Vieira Junior, talvez devesse ser chamado simplesmente de religião. O caboclo acredita em assombração, praga, maldição, encantamento. A Mãe de Ouro, a Mãe d’Água, a Iara, a sereia: essas figuras não surgem como exotismo, mas como parte constitutiva da vida cotidiana e da forma como o mundo é interpretado.

O romance se organiza em torno de duas narrativas centrais: a de Sinhá Carolina e a de Joca. Este último é enfeitiçado pela Mãe de Ouro, num encantamento que ecoa o mito das sereias que arrastam os homens para o fundo do mar. No seu caso, o deboche e a irreverência acionam a praga — embora o feitiço já estivesse, de algum modo, em curso. O sobrenatural não rompe a realidade: ele a aprofunda.

Ruth Guimarães não romantiza a pobreza, mas tampouco faz dela espetáculo. Há alegria possível, afetos, pequenas felicidades. Ainda assim, o livro carrega uma denúncia clara: o recrutamento de trabalhadores para o sertão, seduzidos por promessas de ganho maior, que se revelam armadilhas brutais. Ali, são tratados pior do que escravizados. Não é um tema encerrado no passado — basta lembrar que o trabalho análogo à escravidão ainda persiste nas fazendas brasileiras.

Água Funda é também a história do próprio Vale do Paraíba e de suas transformações: das fazendas dos coronéis à chegada das grandes companhias, mudanças que pouco ou nada alteraram a vida dos trabalhadores. A exploração permanece, apenas muda de nome.

Ruth Guimarães nos entrega, assim, um livro belíssimo e necessário sobre esse povo das fazendas e das pequenas cidades do Vale — um retrato atento, sem exotização, que inscreve suas vidas, crenças e sofrimentos no centro da literatura brasileira.



Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista em 1920 e faleceu na mesma localidade em 2014. Foi poetisa, contista, cronista, tradutora e romancista.

QUANDO A MEMÓRIA DAS MULHERES NEGRAS REVELA A HISTÓRIA QUE O BRASIL INSISTE EM ESQUECER

 


ÁGUA DE BARRELA

ELIANA ALVEZ CRUZ

MALÊ – 5ª ED. – 2018.

322 páginas 

Água de Barrela é um livro de fôlego e de memória. A partir da história das mulheres de sua própria família, Eliana Alves Cruz constrói um relato poderoso da experiência negra no Brasil, atravessando cerca de 150 anos de história — do tráfico negreiro ilegal, já proibido por lei, passando pela Lei do Ventre Livre, pela abolição formal com a Lei Áurea, até alcançar o presente.

O que se revela nesse percurso é menos uma narrativa de superação e mais uma exposição crua daquilo que nunca foi realmente interrompido: a violência estrutural, o abandono do Estado, a negação sistemática da cidadania plena à população negra. Trazidos à força, explorados até o limite, libertos apenas no papel, os corpos negros seguem sendo empurrados para as margens, sem que lhes seja garantido um lugar de igualdade na sociedade brasileira.

Mas Água de Barrela é, sobretudo, um livro sobre mulheres. Mulheres negras que sustentaram famílias, memórias e afetos em meio à precariedade extrema. Há aqui dignidade, força e determinação, não como virtudes romantizadas, mas como estratégias de sobrevivência. As dores, as perdas e as humilhações encontram respiro nas rodas de samba, no candomblé, na palavra compartilhada, nos rituais que mantêm viva a possibilidade de sentido e esperança.

O romance expõe, com clareza incômoda, o funcionamento do racismo cotidiano e estrutural, revelando também o comportamento da elite branca frente à população negra: a naturalização da desigualdade, o distanciamento moral, a herança não elaborada da escravidão. Esse contraste aparece de forma contundente na oposição entre a família Tosta — ligada historicamente à posse de pessoas escravizadas — e a família de Damiana, cuja trajetória é narrada a partir de seu centenário, contado pela bisneta, a própria autora.

Ao entrelaçar essas histórias, Eliana Alves Cruz não apenas recupera memórias silenciadas, mas desmonta a ideia de que o passado escravista é algo distante. Água de Barrela mostra que a história das mulheres negras é também a história do Brasil — uma história ainda em disputa, ainda ferida, ainda exigindo escuta e responsabilidade.



Eliana Alvez Cruz nasceu no Rio de Janeiro em 1966. É uma escritora e jornalista brasileira. 

ENTRE A FACA, A TERRA E OS ENCANTADOS: NARRAR A HISTÓRIA PELO OLHAR DAS MULHERES

 


TORTO ARADO

ITAMAR VIEIRA JUNIOR

TODAVIA – 1ª ED. – 2019

264 páginas 

Torto Arado é talvez o livro mais comentado dos últimos tempos e, de fato, é um livro surpreendente.

O relato trata da vida dos pós-escravizados que, apesar da Lei Áurea, em 1888, que os libertou formalmente da escravidão, não tiveram garantido nenhum cuidado com seu destino, suas possibilidades de sobrevivência e, menos ainda, com sua inclusão na sociedade como pessoas livres. Isso repercute até os dias atuais, produzindo preconceitos, racismo e indiferença à situação de muitos negros e negras.

Analfabetos, não encontravam emprego, não tinham onde morar. Muitos permaneceram nas fazendas onde já viviam e continuaram a trabalhar no mesmo sistema, ou seja, sem receber nada. Outros partiram e acabaram pedindo morada em fazendas: solicitavam um lugar para ter teto e comida e, em troca disso — que deveria ser um direito básico — trabalhavam de sol a sol, seis dias por semana. Apenas no domingo podiam cuidar de sua própria horta. Durante a semana, eram as mulheres que realizavam esse trabalho.

As casas só eram permitidas se fossem de barro, pois se desmancham com o tempo; as de alvenaria poderiam ser questionadas como propriedade. Os armazéns das fazendas, com preços abusivos, obrigavam a maioria a comprar ali mesmo, perpetuando a dependência.

Muitos romances já retrataram a miséria, as tristezas e as dificuldades do sertão, dos pobres, dos negros e das negras. No entanto, Itamar Vieira Junior traz um diferencial fundamental: quem fala são as mulheres. E ele, sendo homem, consegue falar pela voz feminina, consegue escrever pelo feminino.

Há ainda outro ponto importante: não há ideologia explícita, não é militância, e eu nem chamaria de literatura engajada, apesar da denúncia implícita. Trata-se do dia a dia dessas pessoas, narrado pelo viés feminino.

O livro é dividido em três partes: na primeira, quem fala é Bibiana; na segunda, Belonísia; e, na terceira, Santa Rita Pescadeira. Mas temos também Salu, Miúda, Donana e várias outras personagens. Um objeto atravessa toda a narrativa e traça a linha do romance: uma faca de prata com cabo de marfim, pertencente a Donana, a avó, que logo no início é o centro de um acidente que marcará para sempre a vida de Bibiana e Belonísia, duas irmãs.

Além desses personagens, há os encantados, entidades do jarê, religião encontrada na Chapada Diamantina, que muito se assemelha à Umbanda. O pai das meninas é curador, e a avó e a mãe são parteiras.

A ligação com a terra é profunda, seja no campo do alimento, das curas e dos remédios, seja, mais tarde, na luta pelo direito à terra. O livro é muito mais ecológico do que muita “ecologia” que vemos por aí — inclusive quando retrata a chegada de um novo dono da fazenda que se diz ecológico.

Forma-se um amplo painel da vida nas fazendas deste Brasil que ainda persiste e que permanece desconhecido do olhar urbano: seus rituais, crenças, comidas, dificuldades, miséria, mas também as alegrias, as festas, os laços de parentesco não sanguíneos que se criam, o compadrio. É a vida das mulheres nessas fazendas.

Gosto especialmente do fato de que o foco não está apenas na miséria e na violência, embora elas estejam presentes, mas na vida como ela é.

E o que mais apreciei: é o oprimido que fala. Poucas vezes se dá voz aos donos da fazenda; eles surgem apenas para recolher aquilo que pensam ser deles, inclusive parte da produção da roça, o que gera profunda revolta. Em geral, vemos romances desse tipo escritos pelo olhar do opressor — mesmo quando ele não se reconhece como tal. Aqui, são os trabalhadores, os ex-escravizados que falam, e, sobretudo, as mulheres.



Itamar Vieira Júnior nasceu em Salvador em 1979. É um escritor brasileiro. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

TRADIÇÃO, COLONIZAÇÃO E A TRAGÉDIA DE UM MUNDO EM RUPTURA

 


O MUNDO SE DESPEDAÇA

CHINUA ACHEBE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2009

240 páginas 

O Mundo se Despedaça é, antes de tudo, um romance sobre a violência das rupturas. Achebe nos apresenta o povo ibo, na região que hoje corresponde à Nigéria, antes da colonização, permitindo que conheçamos seus rituais, sua organização social, suas crenças, sua justiça e suas formas próprias de pertencimento. Trata-se de um gesto político e literário fundamental: mostrar que havia mundo, sentido e complexidade antes da chegada europeia.

No centro da narrativa está Okonkwo, um grande guerreiro de Umuófia, cuja vida é marcada por um medo profundo: o de se tornar semelhante ao pai, considerado fraco e indigno pela comunidade. Esse pavor molda sua personalidade e o conduz a uma adesão quase violenta à tradição, à honra e à virilidade. Okonkwo não se permite falhar, não se permite sentir, não se permite vacilar. Sua rigidez é tanto sua força quanto sua ruína.

Achebe constrói Okonkwo como uma figura trágica. Seu apego intransigente à tradição não nasce de uma reflexão serena, mas de uma ferida íntima. O que está em jogo não é apenas a preservação cultural, mas uma identidade masculina construída sobre o medo da fragilidade. Quando o destino o atinge — obrigando-o ao exílio por sete anos —, não é apenas um indivíduo que se afasta da aldeia, mas uma forma inteira de estar no mundo que começa a se desfazer.

Durante sua ausência, chegam os missionários e os homens brancos. A colonização não aparece como um evento súbito, mas como um processo lento de infiltração, que atua sobre as fissuras internas da sociedade ibo: a conversão de alguns membros, a introdução de novas leis, a deslegitimação das autoridades tradicionais, a substituição gradual dos sentidos do sagrado e da justiça. O mundo não explode — ele se despedaça.

Quando Okonkwo retorna, encontra uma aldeia transformada. Aquilo que antes era consenso agora é dúvida; o que era tradição torna-se objeto de negociação. Incapaz de se adaptar, Okonkwo percebe que já não há lugar para ele naquele novo arranjo colonial. Sua tragédia pessoal espelha a tragédia coletiva de um povo cuja cosmologia, linguagem e organização social são violentamente reordenadas a partir de parâmetros externos.

Achebe escreve contra a narrativa colonial que retratou as sociedades africanas como primitivas ou sem história. O Mundo se Despedaça devolve densidade, humanidade e contradição a esses mundos, ao mesmo tempo em que revela que a colonização não destrói apenas culturas, mas produz sujeitos deslocados, presos entre um passado que não pode retornar e um presente que não lhes pertence.

É um romance profundamente antropológico, político e ético. Um livro que mostra que a perda mais radical não é apenas territorial ou econômica, mas simbólica: perder o sentido do que se é.



Chinua Achebe em Ogidi, Nigéria, em 1930 e faleceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 2013. Foi um romancista, poeta e crítico literário. 

O CUSTO HUMANO DA SALVAÇÃO

 


O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

JOSÉ SARAMAGO

COMPANHIA DE BOLSO – 2005

376 páginas 


Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago propõe uma reinterpretação radical da figura de Jesus, narrando sua história de modo a desafiar frontalmente as crenças religiosas convencionais. Não se trata de uma negação simples do cristianismo, mas de uma reescrita que desloca seus fundamentos, expondo tensões éticas, políticas e teológicas geralmente silenciadas.

A narrativa se inicia com o nascimento de Jesus em Belém, mas desde as primeiras páginas fica claro que Saramago não está interessado em repetir a versão bíblica consagrada. O autor rapidamente abandona a infância milagrosa e avança para a vida adulta, concentrando-se no momento em que Jesus passa a ser confrontado pelas exigências de sua missão — exigências que não aparecem como redenção, mas como imposição.

O Jesus de Saramago é, antes de tudo, um homem. Um homem atravessado por dúvidas, medos, desejos e tentações. Um homem que sofre, ama, hesita e se interroga. Ao humanizar radicalmente Jesus, Saramago desmonta a imagem de um messias plenamente consciente de seu destino e revela o peso insuportável de uma identidade divina que não foi escolhida, mas imposta. A relação com Deus não é de obediência serena, mas de conflito; a fé não é conforto, mas inquietação.

As relações de Jesus com seus discípulos, com Maria e com outras figuras bíblicas são igualmente deslocadas. Maria deixa de ocupar o lugar idealizado da virgindade intocável para surgir como mulher marcada pela dor, pela culpa e pela perda. A santidade dá lugar à experiência concreta, corporal e histórica. Ao fazê-lo, Saramago questiona não apenas dogmas específicos — como a Trindade ou a virgindade de Maria —, mas a própria lógica que sustenta uma teologia fundada no sacrifício.

Ao longo do romance, a crítica à Igreja Católica e ao seu papel histórico é incisiva. O cristianismo aparece menos como mensagem de amor e mais como projeto de poder, sustentado pela dor e pelo sofrimento humanos. Essa crítica atinge seu ponto mais alto no célebre encontro, em um barco, entre Jesus, Deus e o diabo. O diálogo entre os três é magistral e perturbador: Deus surge como figura sedenta de domínio, disposto a sacrificar o próprio filho para ampliar seu reino; o diabo, paradoxalmente, aparece como aquele que reconhece o horror desse plano; e Jesus, preso entre ambos, percebe que seu destino não é salvar o mundo, mas inaugurá-lo como espaço permanente de culpa e violência.

Nesse sentido, O Evangelho Segundo Jesus Cristo não é apenas um romance religioso, mas uma reflexão profunda sobre poder, obediência e responsabilidade. Saramago nos obriga a perguntar: que tipo de Deus exige o sofrimento como prova de amor? Que tipo de fé se funda no sacrifício de um inocente? Ao devolver a Jesus sua humanidade, o autor desloca o sagrado e expõe o custo humano das grandes narrativas de salvação.

É um livro incômodo — e justamente por isso necessário.


José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias na Espanha em 2010. Foi um escritor português que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.



A LÓGICA BURGUESA DA DESUMANIZAÇÃO

 


A METAMORFOSE

FRANZ KAFKA

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 1997

96 páginas 

Em A Metamorfose, Kafka lança mão de uma imagem extrema: a transformação de um homem em inseto. Não se trata de um artifício fantástico gratuito, mas de uma metáfora radical daquilo que acontece quando um sujeito é privado de qualquer possibilidade de desejar, escolher ou existir para além das exigências que lhe são impostas.

Gregor Samsa é um homem que não pode atender aos próprios desejos. Sua vida é regida pela ordem burguesa, familiar e econômica. Trabalhar, sustentar a família, cumprir horários — eis o imperativo absoluto. Mesmo o quarto, último reduto de sua singularidade e de sua alteridade, não lhe pertence verdadeiramente. A porta nunca é respeitada. Batem, chamam, exigem. Ele vai perder a hora do trabalho. É isso que importa.

A narrativa revela, com precisão cruel, a inexistência de espaço para a singularidade. Quando o sujeito não corresponde às expectativas de produtividade e normalidade, torna-se algo outro — algo abjeto. A metamorfose não é apenas corporal; é social. Ao deixar de funcionar, Gregor deixa de ser reconhecido como humano. Igualado a um inseto, ele é progressivamente isolado, esquecido, descartado.

A morte de Gregor não provoca luto verdadeiro. Ela funciona, antes, como liberação. Com sua ausência, a família pode finalmente reorganizar a vida. Os olhares se voltam para a filha, agora percebida como promessa de futuro: ela poderá fazer um “bom casamento” e, assim, garantir a continuidade da ordem familiar.

Kafka expõe, sem concessões, a violência silenciosa de um mundo que reduz o valor da vida à utilidade econômica e à adequação social. A Metamorfose não fala apenas de um homem que se transforma em inseto, mas de uma sociedade que transforma sujeitos em coisas — e que segue adiante sem hesitação quando eles deixam de servir.

Há, no entanto, um deslocamento decisivo no final da narrativa que merece atenção: após a morte de Gregor, o olhar da família se volta para a irmã. Se ele foi descartado por não cumprir mais sua função produtiva, ela passa a ser investida como promessa de futuro. Mas esse futuro não é autonomia, nem desejo próprio — é casamento. A solução para a crise familiar não é a redistribuição justa do cuidado ou do trabalho, mas a reinscrição da filha em um destino socialmente aceito.

Kafka expõe, com frieza quase clínica, a lógica que organiza essa passagem: o corpo masculino vale enquanto trabalha; quando falha, torna-se descartável. O corpo feminino, por sua vez, é preservado como capital simbólico. Não para existir por si, mas para ser oferecido — ao matrimônio, à reprodução da ordem, à manutenção da família. A irmã não é libertada com a morte de Gregor; ela é convocada.

Nesse sentido, A Metamorfose revela que a violência não termina com a eliminação do sujeito improdutivo. Ela apenas muda de forma. O sacrifício do filho abre caminho para a captura da filha. O destino feminino surge como resposta silenciosa à crise: casar-se, assegurar continuidade, sustentar o que resta. Kafka não romantiza esse desfecho. Ele o expõe como parte da mesma engrenagem que transformou Gregor em inseto — uma engrenagem que exige, sempre, um corpo disponível para garantir a normalidade.



Franz Kafka nasceu em Praga, Tchéquia em 1883 e faleceu em Kierling, Klosterneuburg, Áustria. Foi um escritor de língua alemã. 


AS MULHERES QUE MANTÊM O SISTEMA — E AS QUE O FAZEM RUIR

 


OS TESTAMENTOS

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2021

448 páginas 

Em Os Testamentos, Margaret Atwood desloca o foco da vítima silenciosa para a estrutura do poder em decomposição. Se O Conto da Aia era o relato claustrofóbico da opressão vivida no corpo das mulheres, aqui o que se expõe é o funcionamento interno de Gilead — seus mecanismos de manutenção, suas cumplicidades e, sobretudo, suas fissuras.

A grande virada do romance está na multiplicidade de vozes femininas. Atwood abandona a narração única e fragmenta o relato entre mulheres situadas em posições distintas do regime. Essa escolha não é apenas formal: ela é política. O totalitarismo não se sustenta apenas pela violência explícita, mas pela adesão, pelo medo administrado e pela promessa de sobrevivência. Em Os Testamentos, compreendemos que o patriarcado precisa de mulheres que o reproduzam para continuar existindo.

A figura da Tia Lydia é central nesse sentido. Longe de ser apresentada apenas como vilã, ela encarna uma questão incômoda: como mulheres podem ocupar lugares de poder dentro de regimes misóginos? Sua narrativa revela o preço da adaptação, da negociação moral e da crença de que, para sobreviver, é preciso colaborar. Atwood não absolve, mas também não simplifica. O mal, aqui, não é espetacular; é burocrático, estratégico, calculado.

O romance também desloca o eixo da resistência. Diferente da espera quase suspensa de Offred, agora a resistência se organiza por arquivos, testemunhos, segredos e memórias. A palavra escrita torna-se uma arma silenciosa contra o esquecimento. Não é pela revolta aberta que Gilead começa a ruir, mas pela produção de provas, pela circulação subterrânea da verdade, pela erosão interna da autoridade.

Há ainda um aspecto fundamental: Os Testamentos é um livro sobre o depois. Depois do trauma, depois da violência, depois do silêncio. Atwood nos lembra que regimes totalitários não caem em grandes gestos heroicos, mas em processos lentos de desgaste. A queda não é gloriosa; é suja, ambígua, cheia de pactos incômodos. E mesmo quando o sistema termina, suas marcas permanecem.

Se O Conto da Aia perguntava como é possível viver sob a tirania, Os Testamentos pergunta algo ainda mais perturbador: o que fazemos com o que fomos obrigadas a ser para sobreviver? A resposta não é confortável. Mas é necessária.

Atwood escreve, mais uma vez, não como quem imagina um futuro distópico, mas como quem reconhece padrões históricos. Os Testamentos não oferece redenção plena, apenas lucidez. E talvez seja exatamente isso que o torna tão atual: a certeza de que nenhum regime termina sem deixar rastros e que narrá-los é um gesto político.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá em 1939. É uma romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 

NÃO É O FUTURO: É O PATRIARCADO EM PLENO FUNCIONAMENTO

 


O CONTO DA AIA

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2017

368 páginas 

O Conto da Aia não é uma distopia sobre um futuro distante, tecnológico ou improvável. Ao contrário: é uma narrativa construída a partir de fragmentos muito reconhecíveis da história — patriarcado, fundamentalismo religioso, controle dos corpos das mulheres, autoritarismo político. Atwood não inventa nada que já não tenha existido. Apenas reorganiza.

A República de Gilead surge após um golpe teocrático que dissolve a democracia e instaura um regime baseado numa leitura literal e instrumental da Bíblia. Diante da queda drástica da fertilidade, o corpo feminino torna-se o principal território de disputa política. As mulheres férteis são transformadas em “aias”, reduzidas à função reprodutiva, privadas de nome, história, desejo e linguagem própria. Offred — “do Fred”, pertencente ao comandante — já não é sujeito: é posse.

A violência em Gilead não se dá apenas pela força física, mas pela normalização. O horror não é gritado, é ritualizado. A cerimônia do estupro, travestida de ato religioso, talvez seja um dos momentos mais perturbadores do livro justamente por sua frieza, por sua repetição mecânica, por sua tentativa de apagar o crime sob a aparência da ordem. O patriarcado aqui não é caótico: ele é meticulosamente organizado.

Atwood é particularmente incisiva ao mostrar como o regime só se sustenta porque conta com a participação ativa de algumas mulheres. As Tias, responsáveis por disciplinar as aias, encarnam a pedagogia da submissão. As Esposas, embora também aprisionadas, exercem poder sobre aquelas que estão abaixo delas. O livro desmonta qualquer fantasia de uma solidariedade feminina automática: em sistemas autoritários, a hierarquia atravessa também o gênero.

A narração em primeira pessoa é fragmentada, entrecortada por memórias do “antes”. Esse recurso revela algo fundamental: a opressão não começa de repente. Ela se instala aos poucos, enquanto direitos são retirados em nome da segurança, da moral, da tradição. Offred lembra de quando as mulheres perderam o direito ao trabalho, à conta bancária, à autonomia — e de como tudo parecia temporário, administrável, reversível. Não era.

O corpo feminino, em O Conto da Aia, deixa de ser experiência e torna-se função. Menstruação, gravidez, parto — tudo é monitorado, regulado, apropriado pelo Estado. A maternidade não é potência, é dever. A sexualidade não é desejo, é instrumento. O silêncio não é escolha, é imposição. Atwood expõe, com clareza cruel, como o controle do corpo é sempre o primeiro passo para o controle da subjetividade.

Mais do que uma distopia, o romance funciona como advertência. Ele pergunta o tempo todo: até onde estamos dispostas a ir para manter uma aparência de normalidade? O que aceitamos perder antes de perceber que já não temos nada? E quem paga primeiro esse preço?

O Conto da Aia permanece atual porque dialoga com retrocessos reais: ataques aos direitos reprodutivos, alianças entre religião e política, discursos morais que legitimam a violência contra mulheres em nome da ordem. Ler Atwood hoje não é exercício de imaginação — é exercício de vigilância.

No fim, a narrativa de Offred não é apenas um testemunho de opressão, mas um gesto de resistência. Contar a própria história, mesmo fragmentada, mesmo em segredo, é recusar o apagamento total. Onde o poder quer silêncio, a memória insiste. E onde o regime quer corpos dóceis, a palavra ainda é risco.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá, em 1939. É uma escritora canadense, romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 


POR QUE JÁ NÃO PRECISAMOS DE UM OPRESSOR EXTERNO

 


PSICOPOLÍTICA

BYUNG CHUL-HAN

EDITORA ÂYINÉ – 2020

102 páginas 

Em Psicopolítica, Byung-Chul Han propõe uma leitura incisiva das formas contemporâneas de poder. Diferentemente das sociedades disciplinares analisadas por Foucault — baseadas na vigilância, na repressão e na coerção externa —, o filósofo sul-coreano argumenta que vivemos sob um regime mais sutil e, por isso mesmo, mais eficaz: o da exploração voluntária de si.

O poder neoliberal já não opera prioritariamente pela proibição, mas pela positividade. Não diz “não”, diz “você pode”. Não impõe, seduz. O sujeito contemporâneo não se sente dominado, mas livre — e é justamente nessa sensação de liberdade que reside a armadilha. Ao internalizar as exigências de desempenho, produtividade e sucesso, o indivíduo passa a se auto explorar, acreditando que age por vontade própria.

Han descreve a passagem do sujeito obediente ao sujeito empreendedor de si. Já não há um outro claramente identificável que oprime; o sujeito se torna simultaneamente senhor e escravo. Essa dinâmica produz não revolta, mas cansaço. Não gera resistência coletiva, mas esgotamento individual. Depressão, burnout e ansiedade surgem, então, não como falhas pessoais, mas como sintomas políticos de um sistema que transforma liberdade em obrigação.

O termo “psicopolítica” nomeia exatamente esse deslocamento do poder para o interior da psique. As técnicas de dominação não se dirigem mais apenas ao corpo, mas à mente, às emoções, aos desejos. A transparência, a comunicação constante, a exposição voluntária nas redes e a cultura do like funcionam como dispositivos de controle que dispensam a violência explícita. O sujeito se oferece, se mostra, se mede — e se vigia.

Nesse contexto, a liberdade deixa de ser espaço de indeterminação e se converte em performance. Tudo deve ser comunicado, otimizado, monetizado. Até o tempo livre se torna produtivo. O descanso precisa ser “eficiente”, a felicidade mensurável, a identidade constantemente atualizada. O silêncio, a negatividade, o ócio e a contemplação — condições fundamentais do pensamento crítico — tornam-se suspeitos, improdutivos, quase ilegítimos.

Um dos aspectos mais inquietantes do livro é a análise da perda da alteridade. A sociedade da positividade não tolera o outro como diferença radical. O que circula é o igual, o semelhante, o que confirma. O conflito dá lugar ao consenso algorítmico. A política, nesse cenário, esvazia-se: transforma-se em gestão, em cálculo, em administração de dados, enquanto a possibilidade de ação coletiva se dissolve em experiências individuais de fracasso ou sucesso.

Psicopolítica é um livro breve, mas contundente. Sua força está menos em oferecer soluções do que em nomear o mal-estar contemporâneo, deslocando-o do plano psicológico para o político. Han nos obriga a reconhecer que aquilo que vivenciamos como exaustão pessoal é, na verdade, o efeito de uma racionalidade que colonizou a própria subjetividade.

Ao final, a pergunta que o livro deixa não é confortável: como resistir a um poder que se exerce através do desejo, da liberdade e da autossuperação? Pensar talvez seja, hoje, um dos últimos gestos verdadeiramente subversivos.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coréia do Sul em 1959. É um filósofo ensaísta sul-coreano que vive na Alemanha.  


À BEIRA DO MITO, À BEIRA DE SI

 


KAFKA À BEIRA-MAR

HARUKI MURAKAMI

ALFAGUARA – 1ª ED. 2008

576 páginas 


Kafka à Beira-Mar é um romance que resiste à resenha tradicional. Murakami constrói uma narrativa deliberadamente aberta, na qual explicações definitivas parecem sempre escapar. O livro não se oferece como enigma a ser resolvido, mas como experiência a ser atravessada. Cada leitura produz sua própria interpretação e talvez seja justamente aí que resida sua força.

Apesar dessa abertura radical, o romance está longe de ser decepcionante ou disperso. Ao contrário: prende o leitor do início ao fim de suas mais de quinhentas páginas, com uma fluidez quase hipnótica. É uma leitura que envolve, conduz e perturba, mesmo quando não se deixa compreender plenamente. Murakami parece apostar menos na clareza narrativa do que na intensidade da atmosfera.

A obra é atravessada por múltiplas referências literárias e filosóficas, com destaque para o mito grego de Édipo, que funciona como uma espécie de eixo subterrâneo da narrativa. Ao mesmo tempo, o romance articula elementos da modernidade ocidental com lendas e imaginários japoneses, criando um espaço híbrido, onde tradição e contemporaneidade coexistem sem hierarquia.

A história se desenrola a partir de dois personagens centrais. Kafka Tamura é um garoto de quinze anos que foge de casa em razão da relação conflituosa com o pai, que o amaldiçoa com uma profecia incestuosa: Kafka estaria destinado a dormir com a mãe e a irmã, ambas desaparecidas desde que ele tinha apenas quatro anos, deixando-o para trás. Essa maldição ecoa o mito de Édipo, mas é deslocada para um registro psicológico, simbólico e contemporâneo.

O segundo personagem é Nakata, um idoso que, ainda criança, passou por uma experiência inexplicável que o incapacitou de ler e escrever, mas lhe concedeu dons extraordinários: falar com gatos e antecipar acontecimentos fora da ordem comum das coisas. À primeira vista, Kafka e Nakata não compartilham nada — idade, história, linguagem, mundo. Ainda assim, suas trajetórias correm em paralelo e acabam se cruzando de maneira enigmática, como se obedecessem a uma lógica que ultrapassa a causalidade linear.

Murakami constrói, assim, um romance sobre solidão, amizade, amadurecimento, culpa e destino. Mas esses temas não aparecem como conceitos fechados; surgem como estados de espírito, como forças que atravessam os personagens sem jamais se estabilizar. O destino, em especial, não é apresentado como fatalidade clara, mas como algo nebuloso, que se cumpre justamente quando tenta ser evitado.

Kafka à Beira-Mar não pede compreensão total. Pede entrega. É um livro que se move no limiar entre o real e o onírico, entre o mito e a vida cotidiana, convidando o leitor a habitar esse espaço de incerteza. Ao final, talvez reste menos a sensação de ter entendido tudo e mais a de ter sido transformado pela travessia.


Haruki Murakami nasceu Fushimi, Quioto no Japão em 1949. É um escritor e tradutor japonês. 


UMA VIDA ESTREITA, UMA LITERATURA IMENSA


A VIDA DE CHARLOTTE BRONTË

ELIZABETH GASKELL

PEDRAZUL EDITORA – 2021

416 páginas 

Escrita por Elizabeth Gaskell — também romancista e amiga próxima de Charlotte Brontë, A Vida de Charlotte Brontë é uma biografia atravessada por afeto, cautela e silêncio. Embora o foco recaia sobre Charlotte, o livro inevitavelmente abarca as irmãs Brontë, igualmente escritoras, compondo o retrato de uma constelação feminina marcada pela reclusão, pela perda e pela escrita como forma de sobrevivência.

Publicada em plena sociedade vitoriana, a biografia nasce sob o signo da mutilação. Gaskell foi obrigada a suprimir nomes, episódios e trechos inteiros para preservar a memória de Charlotte e evitar escândalos envolvendo pessoas ainda vivas. Essas ausências, no entanto, não passam despercebidas: ao final do livro, há uma explicação do que foi retirado, revelando as tensões entre verdade, reputação e moral pública. O que se lê, assim, é tanto uma biografia quanto um documento sobre os limites impostos às mulheres — inclusive quando escrevem sobre outras mulheres.

A obra se baseia majoritariamente nas cartas de Charlotte trocadas com uma grande amiga. Nessas correspondências emerge uma subjetividade marcada por angústia e sofrimento, intensificados por um amor impossível: a paixão por um professor casado, que a via apenas como aluna. Esse desencontro afetivo não é tratado como episódio romântico, mas como mais uma expressão da contenção emocional e social que moldava a experiência feminina do período.

A vida das irmãs Brontë é descrita como simples e restrita. Vivem em uma pequena cidade, no presbitério, com poucos contatos sociais. Seus romances nascem diretamente dessas experiências limitadas, do confinamento, da observação minuciosa do mundo ao redor. Charlotte, diferentemente das irmãs, viaja com mais frequência e chega a circular em Londres, mas essas incursões não a libertam do desconforto social: sua timidez é quase paralisante, e o convívio público lhe causa verdadeiro pavor.

A doença atravessa o livro como uma presença constante. Ela aparece nas cartas como ameaça, como rotina, como alívio temporário (“graças a Deus estamos melhor”). A vida é marcada por perdas sucessivas: Charlotte perde a mãe, quatro irmãs e o irmão. Quando finalmente encontra alguma felicidade no casamento, morre durante a gravidez. A tragédia, aqui, não é excepcional — é contínua, quase estrutural.

Ainda assim, há algo que escapa a essa existência estreita. Se a vida das Brontë foi limitada em termos sociais e materiais, ela se expande radicalmente na escrita. A riqueza que lhes foi negada em vida transforma-se em literatura. Os livros que nos legaram são o lugar onde essa experiência contida ganha voz, intensidade e permanência.

A biografia de Gaskell, com todas as suas lacunas e silêncios, nos permite perceber isso com clareza: para algumas mulheres do século XIX, escrever não foi apenas uma vocação, mas uma forma de continuar existindo para além das perdas, da doença e das fronteiras impostas à própria vida.


Elizabeth Gaskell nasceu em Chelsea, Londres no Reino Unido em 1810 e faleceu em Holybourne, Reino Unido em 1865. Foi uma romancista e contista britânica.