O MOINHO À BEIRA DO RIO FLOSS
PEDRAZUL – 2019
464 páginas
O moinho à beira do rio
Floss narra a história de dois irmãos, Tom e Maggie Tulliver, e de
sua família, proprietária de um moinho situado às margens do rio Floss, na
Inglaterra vitoriana. O moinho não é apenas o sustento material da família, mas
também um símbolo da ordem social, das expectativas herdadas e da dificuldade
de ruptura.
Desde cedo, o pai decide que Tom
deve estudar. A educação do filho é vista como investimento: ele precisa
adquirir conhecimento para enfrentar o advogado da cidade, figura recorrente
nos conflitos do Sr. Tulliver. Maggie, por outro lado, não entra nesse cálculo.
Por ser mulher, seu destino parece já traçado: não precisa estudar, precisa
casar.
É nesse ponto que o romance
revela sua força. Maggie é profundamente distinta das mulheres que a cercam.
Ama os livros, a natureza, o pensamento. É inquieta, intensa, rebelde. Sofre
com a impossibilidade de estudar formalmente e, ainda assim, demonstra uma
inteligência mais viva do que a do irmão, a quem ama profundamente. Tom,
pragmático e limitado pelo horizonte que lhe foi imposto, deseja apenas assumir
o moinho e trabalhar. Não vê valor no saber mediado pelo clérigo, nem naquilo
que não se converte imediatamente em utilidade prática.
George Eliot constrói, nesse
romance, um retrato preciso da vida vitoriana nas pequenas cidades, com suas
hierarquias rígidas, vigilâncias morais e expectativas sufocantes. Mas O
moinho à beira do rio Floss é também um livro profundamente
autobiográfico. Maggie carrega as marcas das próprias frustrações de Mary Ann
Evans: a dificuldade de conciliar desejo de conhecimento, liberdade intelectual
e as normas impostas às mulheres de seu tempo.
A crítica à sociedade vitoriana
aparece de forma particularmente mordaz nas figuras femininas adultas: as tias,
a mãe, as vozes do senso comum que insistem em moldar Maggie segundo padrões de
docilidade, aparência e casamento. Em contraste, Lucy, a prima, encarna o ideal
feminino aceito: graciosa, coquete, perfeitamente adaptada ao papel social
esperado das mulheres.
Maggie, ao contrário, não se
ajusta. Sua insatisfação não é capricho, mas consciência. Ela percebe, ainda
jovem, o quanto as expectativas alheias aprisionam as mulheres, limitando seus
desejos e possibilidades. Não é por acaso que Maggie se tornou uma das
personagens que mais marcaram Simone de Beauvoir. Nela, Beauvoir reconhece a
experiência feminina da frustração diante de um destino imposto — a recusa
silenciosa de aceitar como natural aquilo que é construção social.
O moinho à beira do rio
Floss é, assim, um romance sobre formação, perda e conflito, mas
também um texto fundamental para pensar o lugar das mulheres no século XIX. Ao
escrever Maggie, George Eliot não apenas narra uma história pessoal: ela expõe
uma estrutura de desigualdade que atravessa gerações, e que, sob outras
formas, ainda insiste em permanecer.
George Eliot pseudônimo de Mary Ann Evans, nasceu em Nuneaton, Warwickshire, Inglaterra em 1819 e faleceu em Chelsea, Middlesex, Inglaterra em 1880. Foi uma autodidata e romancista.


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