sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

EDUCAÇÃO, FRUSTRAÇÃO E DESTINO FEMININO NA INGLATERRA VITORIANA

 


O MOINHO À BEIRA DO RIO FLOSS

GEORGE ELIOT

PEDRAZUL – 2019

464 páginas 

O moinho à beira do rio Floss narra a história de dois irmãos, Tom e Maggie Tulliver, e de sua família, proprietária de um moinho situado às margens do rio Floss, na Inglaterra vitoriana. O moinho não é apenas o sustento material da família, mas também um símbolo da ordem social, das expectativas herdadas e da dificuldade de ruptura.

Desde cedo, o pai decide que Tom deve estudar. A educação do filho é vista como investimento: ele precisa adquirir conhecimento para enfrentar o advogado da cidade, figura recorrente nos conflitos do Sr. Tulliver. Maggie, por outro lado, não entra nesse cálculo. Por ser mulher, seu destino parece já traçado: não precisa estudar, precisa casar.

É nesse ponto que o romance revela sua força. Maggie é profundamente distinta das mulheres que a cercam. Ama os livros, a natureza, o pensamento. É inquieta, intensa, rebelde. Sofre com a impossibilidade de estudar formalmente e, ainda assim, demonstra uma inteligência mais viva do que a do irmão, a quem ama profundamente. Tom, pragmático e limitado pelo horizonte que lhe foi imposto, deseja apenas assumir o moinho e trabalhar. Não vê valor no saber mediado pelo clérigo, nem naquilo que não se converte imediatamente em utilidade prática.

George Eliot constrói, nesse romance, um retrato preciso da vida vitoriana nas pequenas cidades, com suas hierarquias rígidas, vigilâncias morais e expectativas sufocantes. Mas O moinho à beira do rio Floss é também um livro profundamente autobiográfico. Maggie carrega as marcas das próprias frustrações de Mary Ann Evans: a dificuldade de conciliar desejo de conhecimento, liberdade intelectual e as normas impostas às mulheres de seu tempo.

A crítica à sociedade vitoriana aparece de forma particularmente mordaz nas figuras femininas adultas: as tias, a mãe, as vozes do senso comum que insistem em moldar Maggie segundo padrões de docilidade, aparência e casamento. Em contraste, Lucy, a prima, encarna o ideal feminino aceito: graciosa, coquete, perfeitamente adaptada ao papel social esperado das mulheres.

Maggie, ao contrário, não se ajusta. Sua insatisfação não é capricho, mas consciência. Ela percebe, ainda jovem, o quanto as expectativas alheias aprisionam as mulheres, limitando seus desejos e possibilidades. Não é por acaso que Maggie se tornou uma das personagens que mais marcaram Simone de Beauvoir. Nela, Beauvoir reconhece a experiência feminina da frustração diante de um destino imposto — a recusa silenciosa de aceitar como natural aquilo que é construção social.

O moinho à beira do rio Floss é, assim, um romance sobre formação, perda e conflito, mas também um texto fundamental para pensar o lugar das mulheres no século XIX. Ao escrever Maggie, George Eliot não apenas narra uma história pessoal: ela expõe uma estrutura de desigualdade que atravessa gerações, e que, sob outras formas, ainda insiste em permanecer.


George Eliot pseudônimo de Mary Ann Evans, nasceu em Nuneaton, Warwickshire, Inglaterra em 1819  e faleceu em Chelsea, Middlesex, Inglaterra em 1880. Foi uma autodidata e romancista. 

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