sábado, 7 de fevereiro de 2026

DESCOLONIZAÇÃO, GÊNERO E PODER EM UM PAÍS MARCADO PELA VIOLÊNCIA

 


PRETA E MULHER

TSITSI DANGAREMBGA

KAPULANA – 1ª ED. 2023

112 páginas 

É um livro pequeno — apenas 112 páginas —, mas de uma densidade impressionante. Em Preta e mulher, Tsitsi Dangarembga reúne três textos nos quais escreve sobre sua infância, sobre ser feminista no Zimbábue contemporâneo e sobre os processos de independência e descolonização do país.

O relato da infância é dilacerante — e essa palavra não é gratuita, é a forma como a própria autora se nomeia: dilacerada. Seus pais são enviados pelos colonizadores para estudar em Londres, e ela e o irmão mais velho são separados deles e encaminhados para lares adotivos da classe operária inglesa. No momento da entrega, as crianças são deixadas em uma “sala dos sonhos”, repleta de brinquedos que nunca haviam visto ou possuído. Quando retornam para buscá-las, Tsitsi está ansiosa para contar à mãe sobre os brinquedos, mas eles já não estão ali. Foram embora. A ausência se impõe com violência. A angústia se instala como experiência fundadora.

No texto sobre o feminismo no Zimbábue, Dangarembga expõe um cenário de profunda opressão. Lutar pelos direitos das mulheres é difícil em uma sociedade em que a misoginia é naturalizada e atravessa todas as classes sociais — nem mesmo as mulheres da elite escapam. Como escreve a autora:

“Ser feminista enquanto preta e mulher no Zimbábue é viver no epicentro do racismo estrutural e de um patriarcado estrutural militarizado brutal que cooptou partes significativas das instituições estatais”.

E ainda: “As mulheres passam por traumas baseados em gênero e sexo todos os dias.”

Há também uma reflexão importante sobre o patriarcado tradicional anterior à colonização, no qual as mulheres detinham formas reais de poder e reconhecimento — uma organização que foi profundamente desestruturada com a imposição colonial. Ao tratar da independência e da descolonização, Dangarembga oferece um panorama crítico de como esse processo se deu no Zimbábue e quais foram seus resultados concretos, longe das narrativas idealizadas.

Preta e mulher é um livro de escrita direta, dura e necessária. Um testemunho que articula corpo, memória, colonialismo e feminismo, e que nos obriga a encarar as continuidades da violência colonial no presente.



Tsitsi Dangarembga nasceu em Mutoko, Rodésia do Sul. É uma romancista, dramaturga e cineasta zimbabauana.


UMA LEITURA DECOLONIAL SOBRE A ORIGEM DO MUNDO MODERNO

 


A NOVA ERA DO IMPÉRIO: como o racismo e o colonialismo ainda dominam o mundo

KEHINDE ANDREWS

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2023

358 páginas 

No campo do feminismo, temos estudado cada vez mais as questões da decolonialidade. Falamos sobre mulheres indígenas, sobre mulheres latino-americanas, sobre epistemologias outras. Mas trata-se de um debate muito mais amplo, que atravessa o próprio modo como o mundo moderno foi constituído — algo que autoras como Vandana Shiva demonstram com clareza em seus livros. Neste ano, inclusive, pretendo ler sua autobiografia, Terra Viva.

Kehinde Andrews é professor de Estudos Negros na Birmingham City University, no Reino Unido. Em A nova era do império, ele desmonta a ideia de que o colonialismo e o racismo pertencem ao passado. Ao contrário, mostra como ambos seguem estruturando o mundo contemporâneo, em nível global.

Quando lemos sobre o tráfico de pessoas negras, costumamos focar sobretudo na América Latina e na América do Norte. Andrews amplia radicalmente esse horizonte. O tráfico foi muito mais extenso, alcançando também regiões como a Índia — tema que será tratado em Diáspora africana na Índia, de Andreas Hofbauer, leitura que ainda não realizei. Neste livro, Andrews dá especial atenção ao papel da Inglaterra na escravização de pessoas e a como o sistema escravista foi fundamental para a expansão do capitalismo e para o acúmulo de capital que sustentou o poder europeu.

O autor nos ajuda a compreender o racismo estrutural em escala global — algo que, no Brasil, conhecemos de forma particularmente concreta. Sua tese central confronta uma narrativa muito difundida: a de que o Ocidente teria sido fundado pelas chamadas grandes revoluções — científica, industrial e política. Andrews argumenta que o verdadeiro alicerce do Ocidente foi a colonização, a escravização de pessoas e o genocídio de povos inteiros, como os ameríndios.

Ao longo do livro, ele demonstra como o racismo e a xenofobia permanecem ativos no substrato das sociedades atuais. Analisa também o papel dos filósofos iluministas, revelando o quanto muitos deles foram profundamente racistas e forneceram respaldo intelectual à colonização, à escravidão e à exploração dos recursos de outros territórios. Foi assim, e não por uma suposta superioridade intelectual, que a Europa se enriqueceu e se tornou o que é hoje.

Há, no entanto, passagens que suscitam questionamentos, como a ideia de um possível imperialismo brasileiro contemporâneo na África. Esse é um ponto que exige maior aprofundamento e estudo, para avaliar até que medida tal leitura se sustenta. Ainda assim, trata-se de um livro fundamental para quem deseja compreender o mundo atual para além das narrativas confortáveis do progresso ocidental.


Kehinde Andrews nasceu em 1983. É acadêmico e autor britânico especializado em estudos afro-americanos.


O PROJETO DE MORTE POR TRÁS DO PROGRESSO


 

BANZEIRO ÒKÒTÓ: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo

ELIANE BRUM

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2021.

448 páginas 

Que livro magistral — e dolorido. Dói ler Banzeiro Òkòtó, dói reconhecer o que se passa na Amazônia brasileira. Eliane Brum não se furta à denúncia e, ao fazê-lo, expõe também a si mesma. Em muitos momentos, é impossível não pensar que sua escrita a coloca em risco.

Foi a partir deste livro que consegui compreender de forma mais profunda o que significou a construção da Usina de Belo Monte e seus efeitos devastadores sobre a população ribeirinha. Trata-se de uma tragédia. Pessoas que viviam de plantar, pescar, habitar a terra — que tinham casa, rotina, pertencimento — perderam tudo. Foram arrancadas de seus territórios e lançadas à miséria, confinadas em espaços sem uma única árvore. Perderam o chão, a paisagem e, com isso, suas próprias identidades.

Os depoimentos reunidos por Brum são dilacerantes. Crianças e adolescentes que se suicidam após perderem qualquer horizonte de futuro. Entre viver sob a ameaça constante de morte física ou simbólica e tirar a própria vida, escolhem se matar. O livro fala de depressão, sofrimento psíquico, doenças mentais, suicídios. Nada disso aparece como exceção, mas como consequência direta de um projeto de destruição.

Mas Banzeiro Òkòtó é também um livro sobre luta e resistência. Sobre as “mortes matadas”, sobre Altamira — por anos considerada a cidade mais violenta do país — e sobre a distância brutal entre os donos do poder, suas esposas, seus privilégios, e os moradores abandonados à própria sorte. A desigualdade aparece sem filtros, escancarada.

Eliane Brum entrelaça essa investigação com fragmentos de sua própria trajetória. Fala da infância no Rio Grande do Sul, do percurso que a levou à Amazônia e do processo que ela mesma nomeia como “se aflorestar”. Há algo de profundamente bonito — e transformador — nesse movimento. O capítulo sobre as tartarugas é especialmente belo, embora atravesse o leitor com apreensão: acompanhamos seu trajeto com medo de que não consigam chegar, torcendo junto, como se aquele destino também nos dissesse respeito.

O livro revela um Brasil distante das grandes capitais e dos centros econômicos, um Brasil profundo invadido pelo agronegócio, por madeireiros, mineradores e grandes hidrelétricas. Um Brasil esmagado por uma lógica capitalista que destrói tudo o que há de belo, tudo o que é simples, tudo o que é natureza — e, junto com ela, vidas inteiras.



Eliane Brum nasceu em Ijuí – RS, em 1966. É jornalista, escritora e documentarista brasileira.


QUEM FOI O HOMEM QUE LANÇOU AS BASES DA DITADURA BRASILEIRA

 


CASTELLO: A MARCHA PARA A DITADURA

LIRA NETO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2019

464 páginas 

Lira Neto é jornalista e escritor, conhecido sobretudo por suas biografias de fôlego. Castello: a marcha para a ditadura é uma dessas obras extensas e minuciosas, resultado de pesquisa rigorosa e escrita cuidadosa.

Falamos muito sobre a ditadura que se abateu sobre o Brasil durante vinte anos, mas ainda sabemos pouco sobre como ela se articulou, quais foram seus gestos iniciais e quem lançou suas bases. Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro presidente do regime instaurado em 1964, costuma permanecer à sombra de figuras mais lembradas do período. No entanto, foi ele quem estabeleceu os alicerces institucionais e políticos da ditadura.

O livro acompanha sua trajetória desde a formação militar até a tomada do poder, entrelaçando sua biografia à própria história do Brasil. Castello emerge como um personagem profundamente contraditório: em alguns momentos, sensato, correto e até justo; em outros, marcado por um autoritarismo implacável. Lira Neto não o absolve nem o demoniza. Com notável imparcialidade, constrói um retrato complexo, sustentado por ampla documentação e acesso aos bastidores do golpe.

Ao longo da narrativa, conhecemos sua formação no Exército, suas amizades e alianças, a vida familiar, a participação na Segunda Guerra Mundial, na campanha da Itália, e o percurso que o leva à presidência. Cruzamos com figuras centrais da história brasileira — entre elas Costa e Silva, que o sucederia — e acompanhamos os movimentos populares do período, assim como o processo que culmina na queda de João Goulart.

Trata-se de uma obra muito bem escrita, de leitura fluida, que contribui de maneira decisiva para compreender o início da ditadura militar no Brasil. Recomendo a leitura a quem deseja entender melhor esse período histórico e, inevitavelmente, refletir sobre possíveis paralelos — ou rupturas — com as tentativas autoritárias que atravessam o presente.



João de Lira Cavalcante Neto nasceu em Fortaleza em 1963. É um escritor e jornalista brasileiro.


EXÍLIO, FEMINISMO E RESISTÊNCIA FEMININA

 


ENVELHECER É PARA AS FORTES

HELENA CELESTINO

RECORD – 1ª ED. 2022

168 páginas 

Helena Celestino, jornalista e pesquisadora, nos apresenta neste livro a história de mulheres exiladas em Paris durante os anos 70, obrigadas a deixar o Brasil pela ditadura. No exílio, elas formaram círculos de apoio mútuo e descobriram novas possibilidades de ação, incluindo o feminismo, ainda incipiente e desconhecido para muitas delas.

Celestino narra a trajetória de cada uma, acompanhando os encontros em Paris e a posterior volta ao Brasil. Com o tempo, essas mulheres envelheceram, e novos desafios se impuseram: o corpo, a velhice, as transformações da sociedade e o confronto com uma nova geração de mulheres que tinha perspectivas diferentes. Assuntos como envelhecimento, sexualidade e autonomia na velhice ainda permanecem tabus, mesmo entre feministas.

A narrativa evidencia que essas mulheres, que já haviam sido pioneiras ao lutar contra a ditadura, participar da revolução sexual, viver múltiplas experiências, casar ou recusar a maternidade, construir carreiras e reinventar-se, agora enfrentam a necessidade de novas reinvenções. Elas lidam com a perda de garra ou motivação de uma juventude que já passou, e com a percepção de que podem estar vistas como ultrapassadas diante da nova geração.

O livro é uma faceta da história das mulheres durante o período da ditadura e do exílio, mas seu mérito é mostrar como essas experiências moldaram vidas cheias de coragem, movimento e transformação. Ao mesmo tempo, revela a complexidade do envelhecimento feminino, a necessidade constante de adaptação e a persistência da força, mesmo quando o corpo e a sociedade impõem limites diferentes.



                                            Helena Celestino é pesquisadora e jornalista. 

CORAGEM, ÉTICA E AÇÃO EM DEFESA DA VIDA

 


MARGARIDA, CORAGEM E ESPERANÇA: OS DIREITOS HUMANOS NA TRAJETÓRIA DE MARGARIDA GENEVOIS

CAMILO VANNUCHI

ALAMEDA CASA EDITORIAL – 2021

318 páginas 

Descobrir a vida de Margarida Genevois foi uma grata surpresa. Esta mulher notável, ainda viva aos 98 anos, dedicou sua trajetória à defesa dos direitos humanos, tornando-se uma referência de coragem e compromisso ético. Durante anos, foi braço direito de Dom Paulo Evaristo Arns, articulando ações que transformaram vidas e ampliaram a consciência social no Brasil.

Filha da classe média alta, Margarida tinha todas as condições para levar uma vida confortável, respeitável aos padrões da sociedade. No entanto, sua verdadeira grandeza emergiu quando percebeu as dificuldades e necessidades das pessoas à sua volta, sobretudo trabalhadores e trabalhadoras da Fazenda da Rhodia, administrada por seu marido. Ao agir para reduzir a mortalidade infantil, salvou inúmeras crianças, mostrando que responsabilidade e compaixão podem se concretizar em ações práticas.

Sua mudança para São Paulo marcou um novo período de engajamento. Convite a participar de encontros de senhoras católicas abriu a possibilidade de criar programas de conscientização e ação comunitária, incentivando outras mulheres a agir em prol do bem comum. Ao ingressar na Comissão da Paz e Justiça ao lado de Dom Paulo, Margarida ampliou seu impacto, participando diretamente de iniciativas em defesa de pessoas perseguidas, desaparecidas ou ameaçadas durante a ditadura militar.

O livro mostra uma mulher que uniu inteligência, empatia e coragem, transformando recursos e posições de privilégio em instrumentos de justiça e solidariedade. Margarida Genevois não apenas trabalhou pela proteção de vidas e pelo fortalecimento dos direitos humanos: ela se tornou um exemplo vivo de integridade, resistência e esperança.

Ler esta biografia é compreender como a ação individual, pautada na ética e na coragem, pode produzir efeitos coletivos duradouros, e reconhecer que figuras como Margarida continuam essenciais para nos lembrar que a luta pelos direitos humanos é contínua.



                                         Camilo Vannuchi nasceu em São Paulo em 1979. 

O ESPÍRITO DA VELHICE SEM ILUSÕES


 

SEM TEMPO A PERDER: REFLEXÕES SOBRE O QUE REALMENTE IMPORTA

URSULA K. LE GUIN

GOYA – 1ª ED. 2023

272 páginas 

Nunca havia lido nada de Ursula K. Le Guin, mas este pequeno livro de ensaios — baseado no blog que ela criou, inspirado por Saramago — me deixou determinada a mergulhar em sua ficção. A obra é simplesmente genial: concisa, irônica, perspicaz e profundamente honesta.

Le Guin imprime aos textos sua veia sarcástica, um humor fino que percorre, com elegância, situações que só a velhice nos coloca diante. Ela questiona, observa e ironiza o envelhecimento com sensibilidade e lucidez. Não há pieguice nem autoindulgência; não há o clichê do “sou jovem por dentro”. Para Le Guin, a idade impõe limites — no corpo, na energia, e até no espírito — e reconhecê-los não diminui a intensidade da vida, pelo contrário, acrescenta consciência e valor ao que realmente importa.

Entre reflexões sobre a rotina, os gatos, a escrita e a passagem do tempo, a autora evidencia algo fundamental: a velhice não é perda total, mas uma etapa peculiar de aprendizado, liberdade e percepção. Saber que estamos “sem tempo a perder” nos obriga a valorizar o essencial, a enxergar prioridades e a viver com mais presença.

Sem tempo a perder é, portanto, um convite à reflexão, à honestidade com a própria vida e à celebração daquilo que permanece inestimável, mesmo quando os anos avançam. Um livro pequeno, mas intenso, que combina leveza e profundidade, humor e filosofia, e que revela o espírito de uma escritora que encara a velhice sem disfarces, mas também sem amargura.



Ursula K. Le Guin nasceu em 1929 em Berkely, Califórnia e faleceu em 2018 em Portland, Oregon, EUA. Autora de dezenas de livros de fantasia e ficção científica, é uma das principais autoras do gênero. 

UMA MULHER NO SERTÃO, UMA HISTÓRIA PARA O MUNDO

 


NIÉDE GUIDON: UMA ARQUEÓLOGA NO SERTÃO

ADRIANA ABUJAMRA

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. – 2023

256 páginas 

Adriana Abujamra, jornalista de olhar sensível, nos presenteia com a biografia de Niéde Guidon, uma figura ainda pouco conhecida no Brasil, mas de importância colossal para a arqueologia mundial. Guidon é a descobridora e protetora do Parque Nacional Serra da Capivara, guardião de um dos maiores acervos de pinturas rupestres do país, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

A narrativa revela uma mulher de coragem, determinação e amor pelo trabalho. Niéde enfrentou adversidades enormes: a descrença de parte da comunidade científica, a falta de recursos e a quase inexistente valorização do Estado brasileiro. Mesmo assim, dedicou-se não apenas à preservação arqueológica, mas também à região e às pessoas que ali vivem, promovendo educação, saúde e oportunidades de emprego.

O livro nos permite compreender que Guidon não é apenas uma cientista preocupada com vestígios do passado: ela foi uma agente ativa no presente. Sua dedicação à Serra da Capivara, à história e à memória humanas vai muito além do registro de pinturas e artefatos. Adriana Abujamra destaca ainda o pioneirismo de Guidon na teoria sobre a chegada do ser humano às Américas, contrapondo-se à tradicional narrativa do homem de Clóvis. Guidon propôs e comprovou evidências de ocupação humana anterior, o que gerou intenso debate e resistência acadêmica, mas que posteriormente foi confirmado.

O livro é, acima de tudo, uma celebração da coragem intelectual e da força de uma mulher que não apenas descobriu a história, mas lutou para preservá-la e compartilhá-la, integrando ciência, cuidado social e ativismo ambiental. Ler a trajetória de Niéde Guidon é reconhecer que ciência, humanidade e ética podem caminhar juntas, mesmo em contextos adversos.



Adriana Abujamra é autora de perfis, reportagens e livros de não-ficção. 

A LITERATURA QUE SE ESCREVE SOBRE SI MESMA

 


A MAIS RECÔNDITA MEMÓRIA DOS HOMENS

MOHAMED MBOUGAR SARR

FÓSFORO – 1ª ED.  2023

400 páginas 

Magistral! Há muito tempo não lia algo tão rico, um livro que celebra a própria literatura em cada página. Mohamed Mbougar Sarr cria uma narrativa que é, simultaneamente, investigação, reflexão e homenagem à escrita. Tudo começa com a busca de um autor desaparecido, cujo livro, celebrado na França, passou a ser acusado de plágio. E é nesse jogo de autoria, reconhecimento e intertextualidade que Sarr opera com incrível precisão: há trechos que evocam outros autores, seja propositalmente, seja como gesto literário de diálogo com a tradição.

O romance dialoga com múltiplos registros: pode-se notar elementos de realismo mágico, embora seja complicado reduzir a experiência africana a esse rótulo, dada a riqueza de mitos, superstições, adivinhos e visões que atravessam o continente. Há cenas memoráveis, como a de um Cristo pintado na parede, que funcionam como símbolos de presença e ausência, fé e memória. Outro recurso notável é o uso de biografemas, termo proposto por Roland Barthes: informações que os personagens desconhecem, mas que o leitor recebe, permitindo uma compreensão mais ampla dos acontecimentos e uma experiência de leitura quase de cumplicidade com o autor. É como se pudéssemos sussurrar aos personagens o que eles não sabem, completando a narrativa por fora da consciência deles.

A história se encadeia aos poucos, entre França, Argentina, África e Holanda, na busca pelo autor desaparecido. Essa travessia geográfica e temporal não é apenas física: ela toca as tragédias do colonialismo, do holocausto, e das violências que moldam a memória coletiva. A narrativa constrói, passo a passo, um mosaico literário e histórico que exige do leitor atenção e entrega, mas recompensa com uma experiência literária intensa e múltipla.

No fim, A mais recôndita memória dos homens é mais que um romance: é uma ode à literatura, à escrita, à memória e ao diálogo entre passado e presente, entre autores e leitores, entre culturas e histórias que insistem em atravessar o tempo.



Mohamed Mbougar Sarr nasceu no Senegal em 1990 e vive na França. Recebeu o prêmio Goncourt pela A Mais Recôndita Memória dos Homens. 

A FORÇA SILENCIOSA DE EUNICE PAIVA


 

AINDA ESTOU AQUI

MARCELO RUBENS PAIVA

ALFAGUARA – 1ª ED. 2015

296 páginas 

Não assisti ainda ao filme, mas diante de toda a repercussão recente, confesso que esperava mais do livro. Ainda estou aqui tem sido amplamente mobilizado no debate público como uma obra sobre a ditadura militar, mas, na leitura, essa dimensão aparece de forma relativamente limitada e, em certos momentos, até repetitiva.

A prisão e o assassinato de Rubens Paiva ocupam menos espaço do que se poderia supor. Os episódios ligados à repressão retornam ao longo do texto, mas sem grande aprofundamento histórico ou político, o que contrasta com a centralidade que o tema ganhou na mídia. A ditadura está ali, sem dúvida, mas não é esse o núcleo mais potente do livro.

O que realmente se impõe como experiência literária e afetiva é o relato do Alzheimer de Eunice Paiva. É um texto pungente, delicado, por vezes devastador. Se é possível usar essa palavra diante de uma doença tão cruel, trata-se de um relato “belíssimo”, justamente por sua contenção e honestidade. O apagamento progressivo da memória, a inversão de papéis entre mãe e filhos, a perda cotidiana e irreversível da pessoa que se ama é narrado com uma sensibilidade que sustenta o livro.

Chama atenção, no entanto, o pouco espaço dedicado à vida de Eunice entre a prisão do marido e o início da doença. Há apenas apontamentos: sua formação em Direito, sua atuação na defesa dos povos indígenas, a conquista de autonomia e independência. Eunice era uma mulher de classe média alta, dona de casa, inserida em um casamento tradicional, cuja vida foi abruptamente virada do avesso. Essa transformação — talvez uma das mais fortes — permanece quase como pano de fundo.

O livro toca em um ponto delicado e raramente explorado: a raiva que Eunice sentiu do marido. Uma raiva legítima, complexa, que conviveu com a lealdade, a defesa incansável de sua memória e a luta por justiça. Essa ambivalência humaniza a personagem e rompe com qualquer idealização fácil.

Até hoje, não se sabe exatamente do que Rubens Paiva foi acusado. No livro, a explicação apresentada envolve uma correspondência vinda do Chile com seu nome, destinada a outra pessoa. Ainda assim, a violência foi extrema e rápida. Muitos morreram nos porões da ditadura, mas esse caso se destaca pela brutalidade concentrada em poucas horas. Não há registro de delação. Eunice foi presa junto com a filha; a menina foi libertada rapidamente, enquanto Eunice permaneceu dias encarcerada. Mesmo sem agressão física direta, trata-se de tortura psicológica, e isso também destrói.

No fundo, Ainda estou aqui é menos um livro sobre a ditadura e mais um livro sobre uma mulher. Uma mulher que, de um dia para o outro, precisou se emancipar. Que perdeu o marido, o amparo financeiro, a posição social e a segurança. Sem pensão, já que Rubens Paiva foi declarado fugitivo e não morto, ela assumiu sozinha a criação dos filhos, o sustento da família e a reconstrução de si mesma.

Vou assistir agora ao filme — já ouvi que ele enfatiza muito mais a ditadura. Resta ver como essa escolha desloca o centro da narrativa. O livro, ao menos, permanece como o retrato de uma força feminina silenciosa, construída na perda, na raiva contida e na resistência cotidiana.



Marcelo Rubens Paiva nasceu em São Paulo em 1959. É escritor, dramaturgo e roteirista 

RACISMO, COLONIZAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

 


PELE NEGRA, MÁSCARAS BRANCAS

FRANTZ FANON

UBU EDITORA - 2020

320 páginas 

Em Peles Negras, Máscaras Brancas, Frantz Fanon apresenta uma análise profunda da opressão racial, da colonização e da construção da subjetividade negra no mundo moderno. Escrito em 1952, o livro permanece assustadoramente atual, ao mostrar como a violência simbólica e psicológica do racismo atravessa não apenas o espaço social, mas também o interior da mente daqueles que são subjugados.

Fanon argumenta que o negro colonizado se vê constantemente pressionado a assumir uma identidade imposta pelo colonizador. A máscara branca não é apenas a tentativa de se conformar à norma europeia; é também o esforço de se tornar visível e aceito em um mundo que desvaloriza sua própria cultura. Essa imposição gera frustração, alienação e conflitos internos: sentir-se inferior e, ao mesmo tempo, desejar ser reconhecido pelo sistema que oprime.

O livro é também um estudo sobre linguagem, cultura e desejo de assimilação. Fanon mostra como o negro aprende a falar, agir e pensar conforme padrões europeus, acreditando que isso é a condição para ser considerado humano e digno. A psicologia do racismo não se limita à brutalidade física, mas atua na intimidade da subjetividade, moldando medos, ansiedades e relações afetivas.

Ao mesmo tempo, Fanon evidencia as estratégias de resistência e afirmação identitária. Reconhecer a máscara, compreendê-la e questioná-la é o primeiro passo para reconstruir uma identidade própria, livre da submissão internalizada. O autor antecipa debates contemporâneos sobre identidade, autoestima e negritude, mostrando que a luta contra o racismo não é apenas coletiva, mas também profundamente pessoal.

A obra transcende o campo da psicologia: é uma crítica social, política e cultural. Fanon denuncia que o racismo não é apenas preconceito individual, mas estrutura de dominação que atravessa instituições, modos de vida, educação e cultura. Ao mesmo tempo, aponta caminhos de conscientização, resistência e emancipação, oferecendo um olhar teórico para compreender a opressão e a possibilidade de superá-la.

Peles Negras, Máscaras Brancas é, portanto, um clássico indispensável para quem deseja entender a complexidade do racismo, o impacto psicológico da opressão e a urgência da construção de uma subjetividade negra afirmativa e livre. Um livro que desafia o leitor branco a reconhecer sua posição no sistema de dominação e o leitor negro a questionar a internalização da opressão, sem perder de vista a luta coletiva.



Frantz Fanon nasceu em Fort-De-France, Martinica, em 1925 e faleceu em Bethesda, Maryland, EUA, em 1961. Foi um psiquiatra e filósofo político natural das Antilhas francesas que exerceu expressiva influência nos estudos pós-coloniais, na teoria crítica e no marxismo. 

UM ROMANCE SOBRE OS LIMITES DA CIVILIZAÇÃO

 


NADA MAIS SERÁ COMO ANTES

MIGUEL NICOLELIS

PLANETA MINOTAURO – 1ª – 2024

512 páginas 

Miguel Nicolelis é conhecido sobretudo como cientista. Sua obra, até aqui, sempre esteve ligada à divulgação científica, às neurociências e à reflexão sobre os limites e as responsabilidades da ciência contemporânea. Em Nada mais será como antes, ele faz um deslocamento significativo: decide escrever um romance de ficção científica. A motivação, segundo o próprio autor relata em entrevistas, nasce de um dilema muito concreto — como alcançar um público mais amplo para falar dos perigos reais que ameaçam nossa civilização.

A aposta na ficção não significa fuga da realidade. Pelo contrário. O romance se constrói a partir de fatos históricos, personagens reais e outros ficcionais, mas o que está em jogo não é a imaginação livre, e sim a tradução narrativa de diagnósticos científicos bastante precisos. A ficção funciona aqui como estratégia de comunicação e como dispositivo de alerta.

A trama se organiza em torno de dois personagens centrais — um matemático e uma neurocientista — que conduzem o leitor por aquilo que a ciência efetivamente sabe sobre o presente e sobre os riscos que se acumulam no horizonte. Embora o cenário seja projetado no futuro, o reconhecimento é imediato: muitos dos elementos descritos já fazem parte do nosso cotidiano, enquanto outros estão em processo de gestação e podem ter consequências profundamente destrutivas para a humanidade.

O romance é bem construído e mantém o interesse do início ao fim. A narrativa se desloca por diferentes espaços — Suíça, Egito antigo e contemporâneo, São Paulo, Estados Unidos, Amazônia — compondo um mosaico global que reforça a ideia de interdependência planetária. Nada acontece de forma isolada: crises ambientais, decisões financeiras, avanços tecnológicos e colapsos éticos se entrelaçam.

Entre os temas abordados estão o meio ambiente, a inteligência artificial, o mercado financeiro e, de maneira mais profunda, questões filosóficas como ética, moral, vida e morte. Nicolelis não oferece respostas fáceis nem soluções messiânicas. O que ele propõe é um exercício de lucidez: reconhecer que o conhecimento científico já aponta limites claros e que a insistência em ignorá-los pode nos conduzir a um ponto de não retorno.

Nada mais será como antes é, acima de tudo, um livro de advertência. Ao recorrer à ficção, Nicolelis amplia o alcance de uma mensagem que há muito circula nos meios científicos, mas raramente atravessa o debate público com a urgência necessária. Trata-se de uma leitura envolvente, inquietante e necessária — daquelas que não se encerram na última página, mas continuam ecoando depois.



Miguel Nicolelis nasceu em São Paulo em 1961. É um médico, neurocientista e pesquisador brasileiro amplamente reconhecido como como  um dos pioneiros mundiais no campo das interface cérebro-computador e das neuropróteses. 

UMA VIDA VIVIDA FORA DE LUGAR

 


FORA DO LUGAR: MEMÓRIAS 

EDWARD SAID

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2004.

448 páginas 


Edward Said é amplamente conhecido por Orientalismo, obra fundamental para a crítica ao eurocentrismo e às formas pelas quais o Ocidente construiu discursivamente o chamado “Oriente”. Em Fora do Lugar, no entanto, ele desloca o foco: trata-se de uma autobiografia da infância e da juventude, vividas sobretudo entre o Cairo e o Líbano, marcada por desenraizamento, disciplina, medo e inadequação constante.

A leitura causa, em muitos momentos, um certo espanto. Said descreve uma infância atravessada por uma relação difícil com os pais: uma mãe manipuladora, emocionalmente instável, e um pai autoritário, profundamente patriarcal, cuja rigidez produziu nele medo e traumas duradouros. Esses episódios não aparecem como simples memórias pessoais, mas como marcas psíquicas que o acompanharam por toda a vida. Said retorna a elas diversas vezes, como se tentasse compreender de que modo o sentimento de não pertencimento se enraizou tão cedo.

Muito antes da consolidação do pensamento decolonial como campo teórico, Said já afirmava algo decisivo: o Oriente não existe como essência, mas como construção do olhar ocidental. Em Fora do Lugar, ainda não encontramos a formulação sistemática dessa crítica, mas é possível acompanhar o seu nascimento. A experiência de viver entre línguas, culturas e sistemas educacionais distintos — sempre como alguém deslocado, nunca plenamente integrado — constitui a matriz sensível de suas ideias futuras.

A autobiografia também se cruza com a história política do século XX. Said relata a trajetória de sua família palestina e o impacto da expulsão dos palestinos de suas terras com a criação do Estado de Israel, processo imposto sem levar em conta a população local. A perda, o exílio e a violência simbólica e material desse evento atravessam o livro e ressoam de maneira dolorosamente atual. Não se trata apenas de memória individual, mas de uma história coletiva marcada pela injustiça e pelo apagamento.

Escrito quando Said já enfrentava um câncer e se encontrava próximo do fim da vida, Fora do Lugar carrega um tom de balanço existencial. Não é um livro de vitórias, mas de exposição de fragilidades. Ao acompanhar a formação emocional e intelectual de Said, o leitor compreende melhor o alcance e a urgência de suas obras. Ler esta autobiografia é perceber que sua crítica ao imperialismo cultural não nasce apenas da teoria, mas de uma vida inteira vivida na fronteira, sob a experiência constante de não pertencimento.

É uma leitura que não idealiza o autor, mas o humaniza — e, justamente por isso, ilumina com mais profundidade sua obra crítica.


Edward Said nasceu em Jerusalém em 1935 e faleceu em Nova Iorque, EUA, em 2003. Foi um acadêmico, crítico literário e ativista político palestino. Esteve entre os fundadores dos estudos pós-coloniais


A PEDAGOGIA DO ÓDIO E A CRISE DA ÉTICA

 


JUVENTUDE SEM DEUS

ÖDÖN VON HORVÁTH

TODAVIA – 1ª ed. – 2024

176 páginas 

Juventude sem Deus foi o último livro lido em 2024 — e não poderia ser mais contundente como fechamento de um ano marcado por retrocessos e radicalizações. Ödön von Horváth, escritor nascido na atual Croácia, morreu tragicamente em 1938, em Paris, ao ser atingido por um galho durante uma tempestade. Sua morte precoce interrompeu uma obra que já se mostrava profundamente crítica e lúcida diante da ascensão do fascismo europeu.

O livro é curto, mas de uma densidade inquietante. Trata-se de uma narrativa escrita como advertência, quase um diagnóstico moral, sobre a Alemanha que se deixava seduzir pelo nazismo. A história é conduzida pelo ponto de vista de um professor que, ao corrigir redações escolares, se depara com uma frase brutal: “negros não são humanos”. Ao tentar corrigir o aluno e afirmar o óbvio — a humanidade comum —, o professor se vê transformado em inimigo.

A reação não vem apenas dos estudantes, mas sobretudo dos pais, que se mobilizam contra ele. Um abaixo-assinado pede sua expulsão da escola. A cena, embora situada nos anos 1930, soa assustadoramente atual: professores perseguidos por abordar temas considerados “ideológicos”, seja o marxismo, a história dos movimentos sociais, a sexualidade, as identidades de gênero ou qualquer assunto que desestabilize a moral conservadora. Horváth antecipa, com precisão quase profética, a lógica da censura travestida de defesa da família e da ordem.

Não por acaso, o livro foi proibido na Alemanha nazista e publicado inicialmente na Holanda. O pano de fundo da narrativa é a juventude hitlerista: jovens moldados pelo discurso radiofônico do regime, fascinados por armas, disciplina e obediência. O professor acompanha um grupo de alunos a um acampamento onde aprendem a atirar — e é nesse ambiente que ocorre um assassinato. A partir desse crime, a trama se adensa e coloca o protagonista em uma situação moralmente insustentável.

A culpa emerge como tema central. Não apenas a culpa individual ligada ao crime, mas uma culpa difusa, coletiva, que atravessa uma sociedade inteira. O professor vive uma crise de consciência diante de uma juventude que normaliza a violência, o racismo e a exclusão, e diante de um sistema que pune quem ainda tenta pensar criticamente. Sua fragilidade não é covardia: é o retrato de alguém que percebe, tarde demais, o quanto o mal se torna banal quando sustentado por instituições, famílias e discursos oficiais.

Juventude sem Deus não é apenas um romance sobre o nazismo; é um livro sobre o colapso ético de uma sociedade. Seu impacto reside justamente nisso: ele não aponta monstros isolados, mas mostra como o autoritarismo se instala no cotidiano, na escola, na linguagem, na formação dos jovens. Ler Horváth hoje é reconhecer que a história não se repete de forma idêntica, mas rima — e, muitas vezes, rima de forma perigosa.


Ödön von Horváth nasceu na Croácia, em 1901 e faleceu em Paris em 1938. Estudou teatro e se estabeleceu como dramaturgo em Berlim, onde escrevia peças que satirizavam e criticavam tanto a história alemã quanto o momento sociopolítico em que vivia.


JANE EYRE — INDEPENDÊNCIA FEMININA NO CORAÇÃO DO ROMANCE VITORIANO

 


JANE EYRE

CHARLOTTE BRONTË

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2015

780 páginas 

Publicado em pleno período vitoriano, Jane Eyre nasce em uma sociedade rigidamente estruturada pelo moralismo puritano, pela divisão de classes e por uma ética religiosa que regulava, de forma especialmente severa, o comportamento feminino. Trata-se de uma Inglaterra atravessada por contradições: prosperidade econômica impulsionada pela Revolução Industrial e pelo imperialismo, mas também miséria urbana, exploração do trabalho e exclusão social. Charlotte Brontë, filha de um pastor anglicano, escreve a partir desse mundo — e contra ele.

A presença da religião é constante na obra, seja por meio de referências bíblicas, seja pela linguagem moral que atravessa os dilemas dos personagens. No entanto, o que torna Jane Eyre um romance profundamente inquietante para seu tempo é justamente a forma como Brontë constrói uma protagonista feminina que não se limita a internalizar essa moral. Jane busca, ao longo de toda a narrativa, não apenas a sobrevivência material, mas sobretudo uma independência mental e intelectual. Ela pode obedecer exteriormente, mas sua consciência permanece indomável.

Desde a infância, Jane se recusa a aceitar a humilhação imposta pela madrasta e os filhos desta. Sua rebeldia não é estridente, mas firme: nasce da recusa em naturalizar a injustiça. Enviada para uma escola de órfãs, onde permanece por oito anos — primeiro como aluna, depois como professora —, ela experimenta tanto a disciplina rígida quanto a formação intelectual que lhe permitirá, mais tarde, agir por conta própria. Quando decide partir, não espera ser escolhida: toma a iniciativa de procurar trabalho sozinha.

Ao se tornar governanta e preceptora de Adèle, Jane ocupa um dos poucos espaços socialmente aceitáveis para mulheres sem fortuna, mas com alguma educação. É nesse território ambíguo — entre o serviço doméstico e a respeitabilidade — que ela conhece o Sr. Rochester. A relação entre ambos é marcada por tensão: ele é autoritário, áspero, moldado por privilégios masculinos e por um passado de sofrimento; ela, por sua vez, recusa o lugar da submissão emocional. O amor que surge ali não é idealizado: é conflituoso, atravessado por desigualdades e por um segredo que inviabiliza a união.

Quando Jane parte, ela o faz para não trair a si mesma. Passa por dificuldades extremas, até receber uma herança que lhe garante autonomia material — elemento decisivo, mas não suficiente, para suas escolhas. Ao recusar um casamento que lhe exigiria anular seus desejos e sua integridade, Jane afirma algo radical para o século XIX: não basta ser escolhida, é preciso escolher.

O retorno final a Rochester não representa uma capitulação romântica, mas um reencontro em novas condições. Jane volta quando pode amar sem abdicar de si. Jane Eyre não é apenas um romance de formação ou uma história de amor: é a narrativa de uma mulher que insiste em existir como sujeito, em um mundo que sistematicamente tenta reduzi-la ao silêncio.



Charlotte Brontë nasceu em Thornton em 1816 e faleceu em Haworth em 1855. Foi uma escritora britânica.