segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

UM PAÍS LIDO ATRAVÉS DE SEUS ESCRITORES

 


A LANTERNA MÁGICA DE MÓLOTOV UMA VIAGEM PELA HISTÓRIA DA RÚSSIA

RACHEL POLONSKY

TODAVIA – 1ª ED. 2018

368 páginas 

A Lanterna Mágica de Mólotov é um livro no qual Rachel Polonsky empreende uma viagem pela história da Rússia seguindo os rastros de seus principais escritores. A partir desse percurso, a autora nos apresenta não apenas os autores e suas obras, mas também a cultura, a história, as tradições, a sociedade russa — além da fome, do totalitarismo e da violência que atravessaram esse território.

Rachel Polonsky mudou-se para a Rússia em 1990 e foi morar em um edifício que, nos anos stalinistas, era reservado aos servidores mais eminentes do Estado. Entre eles, Mólotov, cruel homem de confiança de Stálin, que possuía uma imensa biblioteca onde se encontravam inclusive livros proibidos de autores russos da época. Essa biblioteca permaneceu no local, e a autora teve acesso a ela — um detalhe perturbador, se lembrarmos que muitos dos escritores ali presentes foram enviados ao Gulag pelo próprio Mólotov.

A partir dessa descoberta, Rachel empreende uma jornada pela Rússia, visitando os locais de nascimento dos escritores, as cidades onde viveram e os espaços que marcaram suas trajetórias. Ao longo do caminho, ela entrelaça a história russa à história desses autores, mostrando como literatura, política e vida se confundem de maneira indissociável.

Aprendi muito sobre a Rússia com este livro, inclusive sobre regiões que hoje estão no centro dos conflitos da guerra na Ucrânia, bem como sobre um outro lado do país, menos conhecido, onde se desenha a nova rota da seda polar e operam os quebra-gelos nucleares. Um livro que ilumina a Rússia por dentro, revelando suas contradições, sombras e camadas históricas.



                    Rachel Polonsky é uma acadêmica britânica especializada em literatura eslava.


UMA OUTRA LEITURA DA DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

 

A DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

MARÍA-MILAGROS RIVERA GARRETAS

GINNA – 1ª ED. 2025

272 páginas 

Estou profundamente impactada por este livro. María-Milagros Rivera Garretas, filósofa espanhola, desenvolve aqui uma teoria da diferença sexual na história que se coloca antes, e não contra a teoria de gênero. Sem nada de reacionário, ela sustenta que mulheres e homens são diferentes, pensam de maneiras diferentes, e que essa diferença deve ser valorizada e incorporada aos estudos da história das mulheres.

Um dos pontos centrais de sua reflexão é a revalorização da língua materna — aquela que aprendemos com nossas mães. Tradicionalmente, essa língua foi classificada como semiótica, enquanto a língua fálica seria considerada a verdadeiramente simbólica. María-Milagros recusa essa hierarquia: para ela, a língua materna é simbólica. Em lugar do Nome do Pai, consagrado por Lacan, ela propõe o Nome da Mãe.

Não há aqui nenhum essencialismo — muito pelo contrário. Não se trata de uma “natureza feminina”, e a autora inclui explicitamente as mulheres trans em sua reflexão. Ao mesmo tempo, defende que os homens também precisam reencontrar sua masculinidade na língua da mãe, nessa primeira língua que nos constitui e, paradoxalmente, nos liberta.

María-Milagros aponta exemplos históricos dessa língua materna viva e atuante: as trovadoras (trobairitz), as mulheres cátaras, as místicas, as beguinas e as preciosas que conduziam salões literários. Espaços em que, por meio da palavra, rompiam as fronteiras entre o público e o privado.

Sua crítica à teoria de gênero não é uma negação, mas um deslocamento. Para ela, ao focar prioritariamente nas relações de poder, a teoria de gênero acaba deixando de lado algo fundamental: as próprias relações — e o amor. Não o amor romântico, mas um amor em um sentido muito mais amplo, quase esquecido entre nós. Hoje, falar de amor parece difícil, ou até ridículo, para alguns.

Eu mesma vinha me perguntando: em que momento os sexos deixaram de se amar? Quando os homens passaram a odiar as mulheres? Evidentemente, não todos. Mas basta olhar para a semana passada e para o horror das mulheres mortas ou agredidas. Este livro chegou como uma luva — e ainda estou digerindo. Há muito a aprender.

Sempre me perguntei se existia uma linguagem que não fosse fálica. María-Milagros está me respondendo.



María-Milagros Rivera Garretas nasceu em Bilbao, Espanha, em 1947. É historiadora.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

ENTRE MÃES, FILHAS, AMIGAS E DESENCONTROS


 

GAROTA, MULHER, OUTRAS

BERNARDINE EVARISTO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED – 2020

496 páginas 

Este livro foi uma agradável surpresa, tanto pelas histórias de diversas mulheres quanto pela forma como é escrito, dando-nos a sensação de estar dentro da mente de quem pensa. Trata-se de um gênero híbrido, composto por versos livres, sem pontuação, que cria um fluxo contínuo de consciência e aproxima o leitor da interioridade das personagens.

Estamos na Londres contemporânea, acompanhando vidas que se entrecruzam: relações de amizade, vínculos entre mães e filhas, encontros e desencontros. Cada história revela não apenas trajetórias individuais, mas também como essas relações são percebidas de maneiras distintas por cada mulher, evidenciando o quanto as interpretações do mundo, de si e do outro nunca são únicas.

O romance também constrói um panorama potente sobre a experiência das mulheres negras e das imigrantes, mostrando os desafios cotidianos, os atravessamentos de classe, raça, gênero e pertencimento, sem jamais recorrer a simplificações. São histórias fragmentadas, mas profundamente conectadas, que juntas formam um mosaico de existências.

É uma leitura envolvente, inovadora e necessária, tanto pela força das narrativas quanto pela ousadia formal. Recomendo fortemente.


Bernardine Evaristo nasceu em Elthan, Reino Unido, em 1959. É autora de obras de ficção.


UMA JOVEM, UM NAUFRÁGIO E O DIREITO DE EXISTIR

 


UMA ESPERANÇA MAIS FORTE QUE O MAR

A jornada de Doaa Al Zamel

MELISSA FLEMING

ROCCO – 1ª ED. 2017

272 páginas 

Esta é a história de Doaa Al Zamel, uma jovem síria que tem sua vida brutalmente alterada em função das guerras. Tudo começa na Síria, onde sua família vivia em relativa paz, apesar das dificuldades, até que eclode a Primavera Árabe e se inicia a guerra no país — conflito que, até hoje, persiste. Diante das ameaças constantes às suas vidas e do risco real de estupro das meninas, seu pai decide partir, e a família se refugia no Egito, que inicialmente os recebe bem.

A vida não é fácil, mas ainda assim é melhor do que na Síria. Isso muda quando começam as agitações no Egito para depor o presidente — o que de fato ocorre — e, a partir daí, os sírios passam a ser desprezados e atacados. É nesse contexto que Doaa conhece Bassem, com quem fica noiva. Sem qualquer perspectiva de uma vida digna, decidem tentar a Europa e embarcam no horror que são as travessias pelo Mediterrâneo, promovidas por contrabandistas.

Doaa tinha medo da água e não sabia nadar. Após o naufrágio provocado pela colisão com outro barco, confesso que não há palavras que consigam exprimir o horror e o pavor que ela viveu.

De qualquer maneira, é um livro que recomendo fortemente, sobretudo àqueles que não conseguem compreender por que há tantos refugiados, por que se arriscam nessas travessias e por que levam consigo crianças e idosos. É um livro que os que se posicionam contra refugiados deveriam ler. Talvez, lendo no calor de suas casas, confortáveis, com uma xícara de café ou chá à frente, consigam refletir sobre o terror que esta jovem enfrentou.

Além do relato do ponto de vista dos refugiados, o livro também explica como os países agem, como é difícil pedir asilo ou refúgio e como os sistemas de acolhimento são excludentes. Doaa, mesmo sendo considerada uma heroína, ainda assim precisou lutar para poder permanecer na Suécia e conseguir levar sua família.

Vale a leitura!!


                                        Doaa Al Zamel nasceu em Daraa, Síria. É uma refugiada



Melissa Fleming é jornalista, escritora e funcionária das Nações Unidas , Diretora de Comunicações do Alto Comissariado das Nações Unidas para refugiados - ACNUR 


DUAS VITÓRIAS, UM CORPO EM MOVIMENTO E A TRAVESSIA DO EXÍLIO

 


NUJEEN: A incrível jornada de uma garota que fugiu da guerra na Síria em uma

Cadeira de rodas.

NUJEEN MUSTAFA CHRISTINA LAMB

UNIVERSO DOS LIVROS – 1ª ED. 2017

240 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - SÍRIA 

Nujeen é uma jovem síria que percorreu quilômetros para escapar da guerra. Detalhe: em uma cadeira de rodas. Ela conta no livro todo esse percurso feito ao lado da irmã — em alguns momentos, também com outros parentes. Enquanto narra a travessia, tece comentários sobre a guerra na Síria, relembra o período em que ainda havia paz e vivia com sua família, e relata o momento em que o Estado Islâmico entra no país, com as atrocidades cometidas.

Seu olhar é o de uma adolescente: gosta de ver televisão e de ler, atividades que se tornaram algumas de suas poucas opções devido à deficiência — Nujeen não consegue andar. Foi assim, sobretudo por meio de filmes e, principalmente, de uma série americana, que aprendeu inglês.

Após chegar à Alemanha, ela precisa finalmente enfrentar sua deficiência, incentivada pelos professores, por sua guardiã e também por sua irmã, que foi um exemplo de amor durante todo o percurso, empurrando a cadeira. Precisa sair do comodismo no qual estava instalada e começar a frequentar a escola, fazer exercícios e ser acompanhada por um médico. Na Síria, Nujeen era uma pessoa isolada do convívio social fora do círculo familiar; isso muda em sua nova vida, onde precisou aceitar que não podia permanecer confinada em casa, apenas vendo TV ou navegando na internet.

Penso que, para Nujeen, houve duas vitórias: a primeira, conseguir chegar à Alemanha; a segunda, confrontar sua própria condição e aprender a aceitá-la — não como uma vítima, mas como alguém que aprende a viver com ela. Antes, acredito que estivesse bastante acomodada, pois não se movia nem para pegar algo ou até mesmo para pentear os cabelos, tarefas que passou a realizar a partir de então, o que foi, inclusive, um alívio para sua irmã.

Por outro lado, como acabei de ler a história de Doaa no livro Uma esperança mais forte que o mar, confesso que gostei mais do relato de Doaa. Mas é preciso considerar que aqui temos uma adolescente de 16 anos, enquanto Doaa, embora jovem, passou por uma situação extremamente dramática: o naufrágio e a sobrevivência por quatro dias e quatro noites no mar.

Ainda assim, os dois livros devem ser lidos. Em ambos, compreendemos por que tantos sírios são obrigados a deixar suas casas, seus lares e seus pais para buscar uma nova chance de vida — a possibilidade de viver com liberdade e com “normalidade”, como diz Nujeen.


                      Nujeen Mustafa nasceu em Kobani, Síria. É uma refugiada síria curdo e ativista 



                  Christina Lamb nasceu em Londres em 1965. É uma jornalista e escritora britânica. 



A IMPERATRIZ QUE NÃO COUBE NO IMPÉRIO

 


SISSI E O ÚLTIMO BRILHO DE UMA DINASTIA

Uma breve história não contada dos Habsburgos

PAULO REZZUTTI

LEYA – 1ª ED. – 2022

264 páginas 

O livro retrata a vida de Elizabeth da Áustria-Hungria, mais conhecida como Sissi, desde a infância até sua morte violenta, assassinada por um anarquista em um porto da França. Paulo Rezzutti reconstrói não apenas a trajetória de uma imperatriz, mas também o crepúsculo de uma dinastia.

Desde jovem, Sissi se destaca por uma personalidade forte, inquieta e profundamente independente — traços que destoavam do ideal feminino esperado pela corte. Foi justamente essa diferença que atraiu o imperador Francisco José I, que a escolheu em detrimento da irmã, considerada a noiva “adequada” segundo os rígidos critérios de sua mãe e da monarquia.

Essa mesma personalidade, no entanto, torna-se fonte constante de conflito. Sissi jamais se adaptou plenamente à vida da corte, às suas regras, vigilâncias e performances. Enfrentou a pressão da monarquia, da aristocracia e da sociedade, sentindo-se frequentemente sufocada em um papel que não escolhera. A imperatriz encarna, assim, a tensão entre desejo individual e dever dinástico.

Apesar do afeto que uniu Sissi e Francisco José, a relação é marcada por distanciamentos. Ela passa longos períodos fora da corte, vivendo em outros países, em uma espécie de exílio voluntário. O afastamento não é apenas geográfico, mas também simbólico: Sissi se retira de um mundo que já não lhe oferece sentido.

Paralelamente à biografia da imperatriz, o livro traça um panorama histórico da Áustria-Hungria e da Europa do período, revelando um império em declínio, pressionado por conflitos internos, transformações sociais e tensões políticas. A vida de Sissi se entrelaça, assim, ao fim do Império dos Habsburgo — seu “último brilho” antes da dissolução.

A figura de Sissi emerge menos como ícone romântico e mais como uma mulher deslocada em um sistema que não comportava sua subjetividade. Sua história pessoal espelha o esgotamento de uma ordem política e social prestes a desaparecer.



                      Paulo Rezzutti nasceu em São Paulo em 1972. É escritor, biógrafo e historiador.


QUANDO A ESCOLHA CORRETA DESAFIA A LEI INJUSTA


 

É HORA DE AGIR: um apelo à última geração

CAROLA RACKETE

ARQUIPÉLAGO EDITORIAL – 1ª ED. 2020

192 páginas 


Li este livro em uma tarde — e que tarde bem aproveitada. Carola Rackete é a capitã que comandava o navio que aportou, sem autorização, em Lampedusa, com refugiados resgatados no mar. Um gesto de coragem, determinação e escolha ética: fazer o que era correto, mesmo quando tudo e todos pareciam estar contra ela — políticos, autoridades e parte da população local.

Carola foi presa e posteriormente solta após a decisão de uma juíza, que reconheceu o óbvio e o essencial: ela salvou vidas em perigo. As leis náuticas são claras — quem está em risco no mar deve ser resgatado, independentemente de nacionalidade, status ou origem. Carola apenas cumpriu um dever humano e legal, ainda que isso lhe custasse a liberdade por um período.

Mas o livro vai muito além desse episódio. Em É hora de agir, Carola articula sua experiência concreta com uma reflexão mais ampla sobre a crise climática. Ela demonstra como as catástrofes ambientais tendem a aumentar exponencialmente o número de refugiados no mundo, trazendo exemplos de diferentes regiões do planeta. O colapso climático não é uma abstração futura: ele já está em curso e atinge, antes de tudo, os mais vulneráveis.

A autora apresenta um panorama claro da situação atual do clima no planeta e das causas que nos conduziram até aqui. E, sobretudo, não se limita ao diagnóstico. O livro é também um chamado à ação. Carola propõe caminhos possíveis — individuais e coletivos — para impedir a destruição daquilo que ela chama, com razão, de nossa casa comum.

Uma casa que não depende de dinheiro, posição social ou poder. Todos nós moramos nela. Não há para onde fugir.

É hora de agir é um livro breve, acessível e urgente. Uma leitura que convoca à responsabilidade e nos lembra que salvar vidas — humanas e não humanas — nunca deveria ser crime.



                             Carola Rackete nasceu em Preetz, Alemanha. É uma capitã alemã.


RACISMO ESTRUTURAL E CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA

 


MINHA CARNE: DIÁRIO DE UMA PRISÃO

PRETA FERREIRA

BOITEMPO EDITORIAL – 1ª ED. 2021

224 páginas 

Em Minha carne, Preta Ferreira relata o que viveu e sentiu durante sua prisão injusta, decorrente de uma denúncia anônima jamais devidamente investigada. O caso escancara, mais uma vez, o funcionamento do racismo estrutural no sistema de justiça brasileiro.

Por possuir ensino superior, Preta foi mantida em uma ala especial do presídio. Ainda assim, isso não a afastou da realidade das outras mulheres encarceradas. Ao contrário: ela escuta, observa e registra as histórias das detentas do outro pavilhão, dando visibilidade a vidas que o Estado insiste em apagar.

São relatos duros. Algumas mulheres estão presas por homicídio, mas mesmo nesses casos é impossível não perceber como a dominação masculina, o machismo e a violência atravessam suas trajetórias. Outras foram encarceradas por pura ingenuidade ou vulnerabilidade extrema — como mulheres que, ao visitar parentes presos, aceitam levar cigarros para terceiros e acabam flagradas com drogas escondidas nos maços. Há também a história particularmente triste de uma senhora idosa que prefere permanecer no presídio, por considerá-lo menos violento e degradante do que viver nas ruas ou em condições absolutamente inóspitas.

A presença de Preta no presídio acaba produzindo fissuras naquele sistema. Por ser uma figura pública, visitada por artistas, intelectuais e políticos — muitas vezes com câmeras e registros —, sua permanência gera temor na administração da unidade, receosa de denúncias sobre o que ocorre dentro dos muros. Isso resulta, ainda que de forma limitada, em algumas melhorias nas condições do presídio.

A experiência do cárcere leva Preta a compreender de forma mais profunda a realidade do sistema prisional brasileiro e a ampliar sua luta política para incluir essas mulheres invisibilizadas. Ao deixar a prisão, no entanto, ela não recupera plenamente a liberdade: passa a cumprir prisão domiciliar, com controle rigoroso de horários e necessidade constante de prestar contas de seus deslocamentos. Pouco depois, o país mergulha na pandemia.

Há também momentos de respiro e afeto no relato, como a visita de Angela Davis à sua casa — um encontro simbólico e potente, que reafirma a dimensão coletiva de sua luta.

Minha carne é uma leitura fundamental, tanto pela coragem e determinação de Preta Ferreira quanto por revelar, a partir de dentro, o funcionamento cruel do sistema prisional brasileiro. O livro também oferece uma porta de entrada importante para compreender o movimento dos sem-teto urbanos e as intersecções entre racismo, classe, gênero e criminalização da pobreza.


Janice Ferreira da Silva, mais conhecida como Preta Ferreira, nasceu na Bahia em 1983. É uma ativista por moradia, pelos direitos humanos, multiartista e escritora.


RACISMO ESTRUTURAL, SISTEMA DE COTAS E PERMANÊNCIA UNIVERSITÁRIA

 


DE ONDE ELES VÊM

JEFERSON TENÓRIO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2024

208 páginas 


Joaquim é um jovem negro que teve uma infância marcada pela pobreza. Criado pela avó após a morte da mãe, ainda doente, ele precisa cuidar dela com a ajuda de uma tia. Apaixonado pela literatura, realiza um de seus maiores desejos ao ingressar na universidade por meio do sistema de cotas.

Acompanhamos Joaquim durante esses anos de formação. O sistema de cotas aparece como o que ele é: uma medida de justiça social. No entanto, a entrada na universidade não o poupa dos preconceitos estruturais da sociedade brasileira. As diferenças permanecem visíveis e, quando o racismo não se manifesta de forma explícita, surge sob a forma da condescendência, da compaixão, do olhar que não reconhece o outro como igual. Joaquim sente isso profundamente.

Além disso, a universidade não está preparada para acolher esses estudantes — nem institucionalmente, nem pedagogicamente. Professores despreparados, ausência de políticas de permanência, falta de compreensão das realidades sociais dos alunos. Cabe ao estudante “se virar”: buscar livros, tempo para estudar, condições mínimas para permanecer.

Joaquim mora longe, muitas vezes não tem dinheiro sequer para o ônibus ou para se alimentar. Precisa cuidar da avó e não compartilha da mesma vida de seus colegas, que vão a festas, têm carro próprio ou são buscados por motoristas. Ele vive da pensão da avó, mas sabe que precisaria trabalhar — o que significaria abandonar a universidade, já que o curso é diurno.

Nesse contexto, Joaquim não consegue sustentar o sonho de ser escritor como força organizadora de sua vida. Afoga suas frustrações no bar, nos encontros com amigos, na relação com a namorada branca, de classe social mais alta, que não consegue compreendê-lo — ao contrário da ex-namorada, negra e cotista, que partilhava de seu universo.

Há um momento emblemático: Joaquim precisa ler Ulisses, de James Joyce. A pergunta se impõe quase naturalmente: se mesmo leitores com formação sólida encontram dificuldades diante dessa obra, o que acontece com jovens da periferia, vindos de escolas públicas, que trabalham, cuidam da família e enfrentam o racismo cotidiano? A universidade propõe igualdade, mas ignora a equidade.

O romance evidencia o paradoxo do sistema de cotas: ele é justo e necessário ao permitir que negros, indígenas e estudantes pobres ingressem na universidade, mas falha ao não estruturar a permanência desses alunos. São os próprios cotistas que se organizam, se mobilizam e, aos poucos, forçam transformações no espaço universitário. Ainda assim, a sociedade insiste em atacar um sistema que é, antes de tudo, um direito.

Ao mesmo tempo, o livro provoca desconforto — e isso é importante dizer. Joaquim é um personagem que incomoda. Ser negro e pobre não justifica todas as suas escolhas. Usar o dinheiro da pensão da avó doente para beber ou frequentar prostíbulos, ainda que como forma de aliviar a dor, revela irresponsabilidade. Ficar sem dinheiro para o transporte porque gastou com bebida é uma escolha problemática. Outros estudantes negros, cotistas, enfrentam situações semelhantes e conseguem seguir, se formar, provar mais uma vez sua capacidade.

Mas talvez seja justamente aí que reside a força do romance. Joaquim não é um herói. É um ser humano, atravessado por falhas, fragilidades e contradições. O livro recusa a idealização do jovem negro como símbolo de superação permanente. Ele reage ao mundo que o violenta — muitas vezes da pior maneira possível. E isso também é real.

De onde eles vêm nos obriga a pensar não apenas nas estruturas injustas, mas também nos limites humanos diante delas. Joaquim precisará crescer, e esse processo se dá ao longo da narrativa — um desfecho que não cabe aqui relatar, para não antecipar o final do livro.



Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro em 1977. É doutor em teoria literária pela PUC-RS e escritor.


O COLAPSO NÃO É UM ACIDENTE, É UM PROCESSO

 


O NAUFRÁGIO DAS CIVILIZAÇÕES

AMIN MAALOUF

VESTÍGIO – 1ª ED. 2020.

256 páginas 

Este é um livro que merece ser lido. Amin Maalouf parte do presente para desmontar uma ideia muito difundida sobre o “Oriente Médio”, mostrando que a região já foi palco de uma civilização radicalmente diferente da imagem de violência, fragmentação e intolerância que hoje costuma dominá-la e, sobretudo, explicando como se chegou a esse ponto.

Maalouf reconstrói um “Oriente Médio” plural, atravessado por convivências possíveis, projetos políticos e culturais que não estavam condenados ao colapso. Ao mesmo tempo, identifica as rupturas históricas, as interferências externas e as escolhas internas que levaram ao naufrágio dessa civilização, recusando leituras simplistas ou essencialistas.

Mas o livro não se limita ao “Oriente Médio”. Maalouf amplia o olhar para o Ocidente e analisa os processos que também o afetaram profundamente. O avanço do neoliberalismo, o culto ao individualismo e a consolidação da meritocracia aparecem como forças desagregadoras. Segundo o autor, esse giro político tem um marco decisivo nas eras de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, quando se estabelece um modelo que transforma não apenas a economia, mas as relações sociais, os valores e a própria ideia de futuro.

O naufrágio das civilizações é, assim, uma reflexão sobre perdas — de horizontes comuns, de projetos coletivos, de mundos possíveis. Uma leitura importante para quem deseja compreender como o mundo chegou ao ponto em que se encontra hoje, e por que tantas narrativas de progresso escondem processos profundos de destruição.



Amin Maalouf nasceu em Beirute, Líbano, em 1949. Reside na França, escritor.


DESCOLONIZAÇÃO, GÊNERO E PODER EM UM PAÍS MARCADO PELA VIOLÊNCIA

 


PRETA E MULHER

TSITSI DANGAREMBGA

KAPULANA – 1ª ED. 2023

112 páginas 

É um livro pequeno — apenas 112 páginas —, mas de uma densidade impressionante. Em Preta e mulher, Tsitsi Dangarembga reúne três textos nos quais escreve sobre sua infância, sobre ser feminista no Zimbábue contemporâneo e sobre os processos de independência e descolonização do país.

O relato da infância é dilacerante — e essa palavra não é gratuita, é a forma como a própria autora se nomeia: dilacerada. Seus pais são enviados pelos colonizadores para estudar em Londres, e ela e o irmão mais velho são separados deles e encaminhados para lares adotivos da classe operária inglesa. No momento da entrega, as crianças são deixadas em uma “sala dos sonhos”, repleta de brinquedos que nunca haviam visto ou possuído. Quando retornam para buscá-las, Tsitsi está ansiosa para contar à mãe sobre os brinquedos, mas eles já não estão ali. Foram embora. A ausência se impõe com violência. A angústia se instala como experiência fundadora.

No texto sobre o feminismo no Zimbábue, Dangarembga expõe um cenário de profunda opressão. Lutar pelos direitos das mulheres é difícil em uma sociedade em que a misoginia é naturalizada e atravessa todas as classes sociais — nem mesmo as mulheres da elite escapam. Como escreve a autora:

“Ser feminista enquanto preta e mulher no Zimbábue é viver no epicentro do racismo estrutural e de um patriarcado estrutural militarizado brutal que cooptou partes significativas das instituições estatais”.

E ainda: “As mulheres passam por traumas baseados em gênero e sexo todos os dias.”

Há também uma reflexão importante sobre o patriarcado tradicional anterior à colonização, no qual as mulheres detinham formas reais de poder e reconhecimento — uma organização que foi profundamente desestruturada com a imposição colonial. Ao tratar da independência e da descolonização, Dangarembga oferece um panorama crítico de como esse processo se deu no Zimbábue e quais foram seus resultados concretos, longe das narrativas idealizadas.

Preta e mulher é um livro de escrita direta, dura e necessária. Um testemunho que articula corpo, memória, colonialismo e feminismo, e que nos obriga a encarar as continuidades da violência colonial no presente.



Tsitsi Dangarembga nasceu em Mutoko, Rodésia do Sul. É uma romancista, dramaturga e cineasta zimbabauana.


UMA LEITURA DECOLONIAL SOBRE A ORIGEM DO MUNDO MODERNO

 


A NOVA ERA DO IMPÉRIO: como o racismo e o colonialismo ainda dominam o mundo

KEHINDE ANDREWS

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2023

358 páginas 

No campo do feminismo, temos estudado cada vez mais as questões da decolonialidade. Falamos sobre mulheres indígenas, sobre mulheres latino-americanas, sobre epistemologias outras. Mas trata-se de um debate muito mais amplo, que atravessa o próprio modo como o mundo moderno foi constituído — algo que autoras como Vandana Shiva demonstram com clareza em seus livros. Neste ano, inclusive, pretendo ler sua autobiografia, Terra Viva.

Kehinde Andrews é professor de Estudos Negros na Birmingham City University, no Reino Unido. Em A nova era do império, ele desmonta a ideia de que o colonialismo e o racismo pertencem ao passado. Ao contrário, mostra como ambos seguem estruturando o mundo contemporâneo, em nível global.

Quando lemos sobre o tráfico de pessoas negras, costumamos focar sobretudo na América Latina e na América do Norte. Andrews amplia radicalmente esse horizonte. O tráfico foi muito mais extenso, alcançando também regiões como a Índia — tema que será tratado em Diáspora africana na Índia, de Andreas Hofbauer, leitura que ainda não realizei. Neste livro, Andrews dá especial atenção ao papel da Inglaterra na escravização de pessoas e a como o sistema escravista foi fundamental para a expansão do capitalismo e para o acúmulo de capital que sustentou o poder europeu.

O autor nos ajuda a compreender o racismo estrutural em escala global — algo que, no Brasil, conhecemos de forma particularmente concreta. Sua tese central confronta uma narrativa muito difundida: a de que o Ocidente teria sido fundado pelas chamadas grandes revoluções — científica, industrial e política. Andrews argumenta que o verdadeiro alicerce do Ocidente foi a colonização, a escravização de pessoas e o genocídio de povos inteiros, como os ameríndios.

Ao longo do livro, ele demonstra como o racismo e a xenofobia permanecem ativos no substrato das sociedades atuais. Analisa também o papel dos filósofos iluministas, revelando o quanto muitos deles foram profundamente racistas e forneceram respaldo intelectual à colonização, à escravidão e à exploração dos recursos de outros territórios. Foi assim, e não por uma suposta superioridade intelectual, que a Europa se enriqueceu e se tornou o que é hoje.

Há, no entanto, passagens que suscitam questionamentos, como a ideia de um possível imperialismo brasileiro contemporâneo na África. Esse é um ponto que exige maior aprofundamento e estudo, para avaliar até que medida tal leitura se sustenta. Ainda assim, trata-se de um livro fundamental para quem deseja compreender o mundo atual para além das narrativas confortáveis do progresso ocidental.


Kehinde Andrews nasceu em 1983. É acadêmico e autor britânico especializado em estudos afro-americanos.


O PROJETO DE MORTE POR TRÁS DO PROGRESSO


 

BANZEIRO ÒKÒTÓ: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo

ELIANE BRUM

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2021.

448 páginas 

Que livro magistral — e dolorido. Dói ler Banzeiro Òkòtó, dói reconhecer o que se passa na Amazônia brasileira. Eliane Brum não se furta à denúncia e, ao fazê-lo, expõe também a si mesma. Em muitos momentos, é impossível não pensar que sua escrita a coloca em risco.

Foi a partir deste livro que consegui compreender de forma mais profunda o que significou a construção da Usina de Belo Monte e seus efeitos devastadores sobre a população ribeirinha. Trata-se de uma tragédia. Pessoas que viviam de plantar, pescar, habitar a terra — que tinham casa, rotina, pertencimento — perderam tudo. Foram arrancadas de seus territórios e lançadas à miséria, confinadas em espaços sem uma única árvore. Perderam o chão, a paisagem e, com isso, suas próprias identidades.

Os depoimentos reunidos por Brum são dilacerantes. Crianças e adolescentes que se suicidam após perderem qualquer horizonte de futuro. Entre viver sob a ameaça constante de morte física ou simbólica e tirar a própria vida, escolhem se matar. O livro fala de depressão, sofrimento psíquico, doenças mentais, suicídios. Nada disso aparece como exceção, mas como consequência direta de um projeto de destruição.

Mas Banzeiro Òkòtó é também um livro sobre luta e resistência. Sobre as “mortes matadas”, sobre Altamira — por anos considerada a cidade mais violenta do país — e sobre a distância brutal entre os donos do poder, suas esposas, seus privilégios, e os moradores abandonados à própria sorte. A desigualdade aparece sem filtros, escancarada.

Eliane Brum entrelaça essa investigação com fragmentos de sua própria trajetória. Fala da infância no Rio Grande do Sul, do percurso que a levou à Amazônia e do processo que ela mesma nomeia como “se aflorestar”. Há algo de profundamente bonito — e transformador — nesse movimento. O capítulo sobre as tartarugas é especialmente belo, embora atravesse o leitor com apreensão: acompanhamos seu trajeto com medo de que não consigam chegar, torcendo junto, como se aquele destino também nos dissesse respeito.

O livro revela um Brasil distante das grandes capitais e dos centros econômicos, um Brasil profundo invadido pelo agronegócio, por madeireiros, mineradores e grandes hidrelétricas. Um Brasil esmagado por uma lógica capitalista que destrói tudo o que há de belo, tudo o que é simples, tudo o que é natureza — e, junto com ela, vidas inteiras.



Eliane Brum nasceu em Ijuí – RS, em 1966. É jornalista, escritora e documentarista brasileira.


QUEM FOI O HOMEM QUE LANÇOU AS BASES DA DITADURA BRASILEIRA

 


CASTELLO: A MARCHA PARA A DITADURA

LIRA NETO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2019

464 páginas 

Lira Neto é jornalista e escritor, conhecido sobretudo por suas biografias de fôlego. Castello: a marcha para a ditadura é uma dessas obras extensas e minuciosas, resultado de pesquisa rigorosa e escrita cuidadosa.

Falamos muito sobre a ditadura que se abateu sobre o Brasil durante vinte anos, mas ainda sabemos pouco sobre como ela se articulou, quais foram seus gestos iniciais e quem lançou suas bases. Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro presidente do regime instaurado em 1964, costuma permanecer à sombra de figuras mais lembradas do período. No entanto, foi ele quem estabeleceu os alicerces institucionais e políticos da ditadura.

O livro acompanha sua trajetória desde a formação militar até a tomada do poder, entrelaçando sua biografia à própria história do Brasil. Castello emerge como um personagem profundamente contraditório: em alguns momentos, sensato, correto e até justo; em outros, marcado por um autoritarismo implacável. Lira Neto não o absolve nem o demoniza. Com notável imparcialidade, constrói um retrato complexo, sustentado por ampla documentação e acesso aos bastidores do golpe.

Ao longo da narrativa, conhecemos sua formação no Exército, suas amizades e alianças, a vida familiar, a participação na Segunda Guerra Mundial, na campanha da Itália, e o percurso que o leva à presidência. Cruzamos com figuras centrais da história brasileira — entre elas Costa e Silva, que o sucederia — e acompanhamos os movimentos populares do período, assim como o processo que culmina na queda de João Goulart.

Trata-se de uma obra muito bem escrita, de leitura fluida, que contribui de maneira decisiva para compreender o início da ditadura militar no Brasil. Recomendo a leitura a quem deseja entender melhor esse período histórico e, inevitavelmente, refletir sobre possíveis paralelos — ou rupturas — com as tentativas autoritárias que atravessam o presente.



João de Lira Cavalcante Neto nasceu em Fortaleza em 1963. É um escritor e jornalista brasileiro.


EXÍLIO, FEMINISMO E RESISTÊNCIA FEMININA

 


ENVELHECER É PARA AS FORTES

HELENA CELESTINO

RECORD – 1ª ED. 2022

168 páginas 

Helena Celestino, jornalista e pesquisadora, nos apresenta neste livro a história de mulheres exiladas em Paris durante os anos 70, obrigadas a deixar o Brasil pela ditadura. No exílio, elas formaram círculos de apoio mútuo e descobriram novas possibilidades de ação, incluindo o feminismo, ainda incipiente e desconhecido para muitas delas.

Celestino narra a trajetória de cada uma, acompanhando os encontros em Paris e a posterior volta ao Brasil. Com o tempo, essas mulheres envelheceram, e novos desafios se impuseram: o corpo, a velhice, as transformações da sociedade e o confronto com uma nova geração de mulheres que tinha perspectivas diferentes. Assuntos como envelhecimento, sexualidade e autonomia na velhice ainda permanecem tabus, mesmo entre feministas.

A narrativa evidencia que essas mulheres, que já haviam sido pioneiras ao lutar contra a ditadura, participar da revolução sexual, viver múltiplas experiências, casar ou recusar a maternidade, construir carreiras e reinventar-se, agora enfrentam a necessidade de novas reinvenções. Elas lidam com a perda de garra ou motivação de uma juventude que já passou, e com a percepção de que podem estar vistas como ultrapassadas diante da nova geração.

O livro é uma faceta da história das mulheres durante o período da ditadura e do exílio, mas seu mérito é mostrar como essas experiências moldaram vidas cheias de coragem, movimento e transformação. Ao mesmo tempo, revela a complexidade do envelhecimento feminino, a necessidade constante de adaptação e a persistência da força, mesmo quando o corpo e a sociedade impõem limites diferentes.



                                            Helena Celestino é pesquisadora e jornalista.