segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

QUANDO O RIO INVENTAVA A MODERNIDADE BRASILEIRA

 


METRÓPOLE À BEIRA-MAR: O RIO MODERNO DOS ANOS 20

RUY CASTRO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2019 

504 páginas 

Imagine encontrar um amigo, sentar-se em algum lugar e ouvi-lo começar a contar uma boa história. É exatamente assim que se lê este livro. A escrita de Ruy Castro flui com leveza, marcada por humor e sarcasmo na medida certa, sem jamais perder a seriedade e a profundidade da análise.

O autor nos apresenta a história cultural do Brasil da modernidade — e é possível dizer Brasil, porque nos anos 1920 o Rio de Janeiro concentrava a vida intelectual e artística do país. Era para lá que convergiam escritores, artistas, compositores e jornalistas, afinal, tratava-se então da capital federal e do grande centro de circulação de ideias, estilos de vida e projetos de país.

Ruy Castro reconstrói esse Rio moderno com precisão e vivacidade, mostrando como a cidade pulsava cultura, invenção e contradições. O resultado é um retrato envolvente de uma época que ajudou a moldar a imaginação cultural brasileira e cujos ecos ainda reverberam no presente.

Foi um dos melhores livros que li em 2020. Recomendo.


                  Ruy Castro nasceu em Caratinga. É um jornalista, escritor e biógrafo brasileiro.


APÁTRIDAS, FRONTEIRAS E A VIOLÊNCIA DA INVISIBILIDADE

 

MAHA MAMO: A luta de uma apátrida pelo direito de existir

MAHA MAMO E DARCIO OLIVEIRA

GLOBO LIVROS – 1ª – 2020

272 páginas 


Esta biografia retrata a vida de Maha Mamo, uma mulher apátrida que, ao conseguir vir para o Brasil como refugiada, alcançou finalmente o direito à cidadania brasileira, assim como sua irmã. Trata-se de um livro que nos obriga a encarar uma condição muitas vezes invisibilizada: a de existir sem pertencer oficialmente a lugar algum.

Hoje, Maha Mamo é ativista na luta pelos direitos das pessoas apátridas, e elas são muitas no mundo. Mas o que significa, concretamente, não ter cidadania? No livro, Mamo narra como essa condição atravessou sua vida, a de sua irmã e a de seu irmão — este, infelizmente, vítima da violência no Brasil, assassinado em um assalto em Belo Horizonte. Ainda assim, mesmo diante dessa dor imensa, Maha e sua irmã não deixam de expressar profunda gratidão ao Brasil e às pessoas que as acolheram e ajudaram.

Seus pais eram sírios, mas o pai era cristão e a mãe muçulmana, uma união proibida na Síria. Para poderem se casar, fugiram para o Líbano, onde tiveram três filhos. O problema é que o Líbano reconhece a nacionalidade apenas pelo sangue paterno; como o pai era sírio, os filhos não obtiveram a cidadania libanesa. Diferentemente do Brasil, onde vigora o princípio do jus soli — o direito à cidadania para quem nasce em território nacional —, Maha e seus irmãos cresceram sem qualquer nacionalidade reconhecida.

As consequências dessa condição são devastadoras: pessoas apátridas não conseguem estudar, não têm acesso pleno à saúde, não podem tirar carteira de habilitação, não podem sair do país por falta de documentos e, quando conseguem trabalhar, ficam restritas a empregos precários. São pessoas vivas, que existem, mas que não existem oficialmente.

O livro também nos faz refletir sobre uma realidade brasileira pouco discutida: a de pessoas que nasceram no país, têm direito à cidadania, mas não possuem certidão de nascimento — seja por negligência, pobreza, isolamento geográfico ou outras razões. Sem esse documento básico, a exclusão se instala desde o início da vida.

Maha Mamo segue sua luta junto ao ACNUR, órgão da ONU responsável por refugiados, realizando palestras em órgãos governamentais e empresas, dando visibilidade a uma causa urgente. Conhecer a situação das pessoas apátridas é fundamental — especialmente em um mundo marcado pelo aumento dos deslocamentos forçados e das crises humanitárias.

Um livro necessário, que nos lembra que o direito de existir não deveria depender de fronteiras, religiões ou burocracias.


              Maha Mamo nasceu em Beirute, Líbano, em 1988. É um ativista de direitos humanos.


                                                   Darcio Oliveira é um jornalista brasileiro.


BIZÂNCIO COMO PONTE ENTRE MUNDOS, TEMPOS E CULTURAS


 

DE BIZÂNCIO PARA O MUNDO: A saga de um império milenar

COLLINS WELLS

DIFEL – 11ª - 2011

320 páginas 


Para quem deseja conhecer melhor a fascinante história de Bizâncio, este livro é uma excelente porta de entrada. Colin Wells constrói aquilo que define como “a narrativa de uma aventura intelectual que conduz o leitor pelos desertos da Arábia até as florestas sombrias da Rússia setentrional, pelas pitorescas cidades da Itália renascentista até os momentos finais de uma cidade milenar”.

A partir desse percurso, o autor mostra como Bizâncio não foi um império isolado ou meramente decadente, mas um centro irradiador de ideias, formas políticas, artísticas e religiosas que moldaram profundamente o mundo europeu e oriental. Para começar a compreender a formação da Rússia — e inclusive as questões históricas que envolvem a Ucrânia e Kiev —, este livro é imprescindível.

Wells aborda também o Monte Athos, na Grécia, com seus mosteiros e a longa tradição da iconografia cristã. Um espaço marcado por forte espiritualidade, mas também por exclusões: até hoje, trata-se de um território onde a entrada de mulheres é proibida, o que revela tensões persistentes entre religião, poder e gênero.

Ao longo do livro, o autor acompanha missionários, filósofos e artistas que, contra todas as probabilidades, propagaram os ideais gregos nas sociedades italiana, islâmica e eslava. Assim, Bizâncio surge não apenas como herdeiro da Antiguidade, mas como mediador fundamental entre mundos, tempos e culturas.

Um livro que amplia o olhar sobre a história europeia e desmonta leituras simplificadas sobre o passado — mostrando como muitos dos conflitos e heranças do presente passam, inevitavelmente, por Bizâncio.


Collins Wells nasceu em West Bridgford, Reino Unido, em 1933 e faleceu em North Wales, País de Gales. Foi um historiador britânico especializado em Roma Antiga, arqueólogo e acadêmico.


COMO A HISTÓRIA MOLDOU O PENSAMENTO DE ZYGMUNT BAUMAN


 

BAUMAN: UMA BIOGRAFIA

IZABELA WAGNER

ZAHAR – 1ª ED. 2020

648 páginas 


Ler a biografia de Zygmunt Bauman representou um duplo percurso: por um lado, o conhecimento da vida desse eminente sociólogo; por outro, um mergulho na história do Leste Europeu, especialmente da Polônia, do período da Segunda Guerra Mundial até os dias atuais. Ao longo do livro, é possível acompanhar tanto o desenvolvimento intelectual de Bauman quanto a formação de sua visão de mundo, profundamente marcada pelos acontecimentos históricos que atravessaram sua vida.

Um dos aspectos que mais me interessou foi conhecer melhor Janina Bauman. Mais do que companheira, ela foi a principal interlocutora do sociólogo e também uma escritora relevante. Um de seus livros, Inverno da manhã, está traduzido no Brasil e relata sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial. A leitura desse livro por Bauman foi decisiva para a escrita de Modernidade e Holocausto, considerada uma de suas obras-primas.

Bauman nasceu na Polônia e sempre se considerou polonês, mesmo após sua expulsão do país em 1968, quando foi forçado a renunciar à cidadania e se tornou apátrida. Judeu, ele foi atingido por um antissemitismo ainda fortemente presente no país, que, segundo a autora, tinha um caráter religioso mais do que ideológico.

Com a invasão nazista da Polônia, Bauman e seus pais fogem para a União Soviética. É lá que ele ingressa no Exército Vermelho e adere ao comunismo, acreditando que esse projeto político poderia garantir liberdade e pôr fim aos preconceitos contra os judeus. Isso, no entanto, não se concretiza. A repressão à liberdade de expressão, o controle sobre a vida das pessoas e a persistência do preconceito marcam profundamente essa experiência.

Ao final da guerra, Bauman retorna a Varsóvia, ingressa na universidade, estuda sociologia e constrói sua carreira acadêmica até o doutorado, tornando-se professor. Em 1968, porém, é novamente expulso do país, acusado injustamente de incitar revoltas estudantis — mais um episódio de perseguição antissemita.

Ele segue então com a esposa e as filhas para Israel, onde vive por três anos, e depois para a Inglaterra, país em que passará o resto da vida. É interessante notar que sua produção intelectual mais conhecida, assim como o célebre conceito de “modernidade líquida”, surge apenas após sua aposentadoria da Universidade de Leeds.

Trata-se de uma vida intensamente vivida, atravessada por exílios, rupturas e reinvenções, que resultou em uma obra vasta e em reflexões que permanecem extremamente atuais. Recomendo.


                            Izabela Wagner nasceu em Wolów, Polônia, em 1964. É socióloga.


QUANDO CONTROLAR O PASSADO SE TORNA UM PROJETO DE PODER

 

APAGANDO A HISTÓRIA: Como os Fascistas Reescrevem o Passado Para Controlar o Futuro

JASON STANLEY

 L&PM – 1ª ED. 2025

224 páginas 


Apagando a História, de Jason Stanley, e Quem tem medo do gênero?, de Judith Butler, ajudam a compreender o que está acontecendo no mundo contemporâneo, especialmente diante do retorno de Trump nos Estados Unidos, de seus ataques às universidades e do empenho da extrema direita contra a teoria crítica da raça, a teoria de gênero, a história das mulheres e os cursos que abordam a sexualidade.

Ao estabelecer paralelos com o período de 1930 a 1945 na Europa — marcado pela ascensão do fascismo e do nazismo —, Stanley demonstra como a história é apagada e substituída por uma nova narrativa. Em geral, trata-se da construção de um mito nacionalista e de “tradições culturais” que devem ser celebradas como orgulho da nação. Um dos objetivos centrais desse processo é destruir conquistas e direitos relacionados à classe, ao gênero, à sexualidade e à raça.

Nesse contexto, todo espírito crítico passa a ser desencorajado. Não se trata mais de pensar, mas de aceitar, ou engolir, aquilo que esses regimes impõem como verdade. O ataque principal recai sobre a educação e as universidades: controla-se o que é ensinado e como é ensinado, moldando subjetividades e apagando conflitos históricos.

Jason Stanley expõe com clareza o perigo real representado pelos ataques da direita autoritária à educação. Identifica suas principais táticas, seus financiadores e traça as raízes intelectuais desse projeto político, mostrando que não se trata de episódios isolados, mas de uma estratégia deliberada de controle do presente por meio da manipulação do passado.


Jason Stanley nasceu em Syracuse em 1969. É um filósofo estudioso do neofascismo, particularmente nos EUA. 


UM OLHAR SEM ILUSÕES SOBRE O SÉCULO XX

 


A LEBRE DA PATAGÔNIA

CLAUDE LANZMANN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2011

472 páginas 

Comprei este livro para ler a versão de Claude Lanzmann sobre sua vida com Simone de Beauvoir, mas fui surpreendida pela amplitude de seu conteúdo. A Lebre da Patagônia é um livro de memórias que atravessa o século XX a partir de uma experiência singular, intensa e profundamente política.

Lanzmann revisita sua participação na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, suas impressões, enquanto judeu, sobre Israel, e suas viagens à Coreia do Norte e à China. Nessas passagens, apresenta uma visão crítica e realista, bastante distinta daquela que, à época, levou muitos intelectuais a louvar o comunismo e o maoísmo sem maiores questionamentos.

O livro aborda também sua relação com Simone de Beauvoir, mas não se reduz a ela. Entrelaçam-se a essa narrativa o processo de realização de Shoah, seu filme monumental sobre o extermínio dos judeus, revelando não apenas os bastidores das filmagens, mas o peso ético e existencial que atravessou toda a sua feitura.

A leitura vale muito a pena, inclusive por sua estrutura: o livro não segue uma ordem cronológica linear, mas avança conforme as lembranças emergem. Esse movimento fragmentado constrói, pouco a pouco, um panorama complexo e perturbador do século XX, visto por alguém que o viveu intensamente — sem ilusões e sem concessões.


Claude Lanzmann nasceu em Bois-Colombe, França, em 1925 e faleceu em Paris em 2018. Foi um cineasta conhecido pelo documentário Shoah (1985).


UM PAÍS LIDO ATRAVÉS DE SEUS ESCRITORES

 


A LANTERNA MÁGICA DE MÓLOTOV UMA VIAGEM PELA HISTÓRIA DA RÚSSIA

RACHEL POLONSKY

TODAVIA – 1ª ED. 2018

368 páginas 

A Lanterna Mágica de Mólotov é um livro no qual Rachel Polonsky empreende uma viagem pela história da Rússia seguindo os rastros de seus principais escritores. A partir desse percurso, a autora nos apresenta não apenas os autores e suas obras, mas também a cultura, a história, as tradições, a sociedade russa — além da fome, do totalitarismo e da violência que atravessaram esse território.

Rachel Polonsky mudou-se para a Rússia em 1990 e foi morar em um edifício que, nos anos stalinistas, era reservado aos servidores mais eminentes do Estado. Entre eles, Mólotov, cruel homem de confiança de Stálin, que possuía uma imensa biblioteca onde se encontravam inclusive livros proibidos de autores russos da época. Essa biblioteca permaneceu no local, e a autora teve acesso a ela — um detalhe perturbador, se lembrarmos que muitos dos escritores ali presentes foram enviados ao Gulag pelo próprio Mólotov.

A partir dessa descoberta, Rachel empreende uma jornada pela Rússia, visitando os locais de nascimento dos escritores, as cidades onde viveram e os espaços que marcaram suas trajetórias. Ao longo do caminho, ela entrelaça a história russa à história desses autores, mostrando como literatura, política e vida se confundem de maneira indissociável.

Aprendi muito sobre a Rússia com este livro, inclusive sobre regiões que hoje estão no centro dos conflitos da guerra na Ucrânia, bem como sobre um outro lado do país, menos conhecido, onde se desenha a nova rota da seda polar e operam os quebra-gelos nucleares. Um livro que ilumina a Rússia por dentro, revelando suas contradições, sombras e camadas históricas.



                    Rachel Polonsky é uma acadêmica britânica especializada em literatura eslava.


UMA OUTRA LEITURA DA DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

 

A DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

MARÍA-MILAGROS RIVERA GARRETAS

GINNA – 1ª ED. 2025

272 páginas 

Estou profundamente impactada por este livro. María-Milagros Rivera Garretas, filósofa espanhola, desenvolve aqui uma teoria da diferença sexual na história que se coloca antes, e não contra a teoria de gênero. Sem nada de reacionário, ela sustenta que mulheres e homens são diferentes, pensam de maneiras diferentes, e que essa diferença deve ser valorizada e incorporada aos estudos da história das mulheres.

Um dos pontos centrais de sua reflexão é a revalorização da língua materna — aquela que aprendemos com nossas mães. Tradicionalmente, essa língua foi classificada como semiótica, enquanto a língua fálica seria considerada a verdadeiramente simbólica. María-Milagros recusa essa hierarquia: para ela, a língua materna é simbólica. Em lugar do Nome do Pai, consagrado por Lacan, ela propõe o Nome da Mãe.

Não há aqui nenhum essencialismo — muito pelo contrário. Não se trata de uma “natureza feminina”, e a autora inclui explicitamente as mulheres trans em sua reflexão. Ao mesmo tempo, defende que os homens também precisam reencontrar sua masculinidade na língua da mãe, nessa primeira língua que nos constitui e, paradoxalmente, nos liberta.

María-Milagros aponta exemplos históricos dessa língua materna viva e atuante: as trovadoras (trobairitz), as mulheres cátaras, as místicas, as beguinas e as preciosas que conduziam salões literários. Espaços em que, por meio da palavra, rompiam as fronteiras entre o público e o privado.

Sua crítica à teoria de gênero não é uma negação, mas um deslocamento. Para ela, ao focar prioritariamente nas relações de poder, a teoria de gênero acaba deixando de lado algo fundamental: as próprias relações — e o amor. Não o amor romântico, mas um amor em um sentido muito mais amplo, quase esquecido entre nós. Hoje, falar de amor parece difícil, ou até ridículo, para alguns.

Eu mesma vinha me perguntando: em que momento os sexos deixaram de se amar? Quando os homens passaram a odiar as mulheres? Evidentemente, não todos. Mas basta olhar para a semana passada e para o horror das mulheres mortas ou agredidas. Este livro chegou como uma luva — e ainda estou digerindo. Há muito a aprender.

Sempre me perguntei se existia uma linguagem que não fosse fálica. María-Milagros está me respondendo.



María-Milagros Rivera Garretas nasceu em Bilbao, Espanha, em 1947. É historiadora.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

ENTRE MÃES, FILHAS, AMIGAS E DESENCONTROS


 

GAROTA, MULHER, OUTRAS

BERNARDINE EVARISTO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED – 2020

496 páginas 

Este livro foi uma agradável surpresa, tanto pelas histórias de diversas mulheres quanto pela forma como é escrito, dando-nos a sensação de estar dentro da mente de quem pensa. Trata-se de um gênero híbrido, composto por versos livres, sem pontuação, que cria um fluxo contínuo de consciência e aproxima o leitor da interioridade das personagens.

Estamos na Londres contemporânea, acompanhando vidas que se entrecruzam: relações de amizade, vínculos entre mães e filhas, encontros e desencontros. Cada história revela não apenas trajetórias individuais, mas também como essas relações são percebidas de maneiras distintas por cada mulher, evidenciando o quanto as interpretações do mundo, de si e do outro nunca são únicas.

O romance também constrói um panorama potente sobre a experiência das mulheres negras e das imigrantes, mostrando os desafios cotidianos, os atravessamentos de classe, raça, gênero e pertencimento, sem jamais recorrer a simplificações. São histórias fragmentadas, mas profundamente conectadas, que juntas formam um mosaico de existências.

É uma leitura envolvente, inovadora e necessária, tanto pela força das narrativas quanto pela ousadia formal. Recomendo fortemente.


Bernardine Evaristo nasceu em Elthan, Reino Unido, em 1959. É autora de obras de ficção.


UMA JOVEM, UM NAUFRÁGIO E O DIREITO DE EXISTIR

 


UMA ESPERANÇA MAIS FORTE QUE O MAR

A jornada de Doaa Al Zamel

MELISSA FLEMING

ROCCO – 1ª ED. 2017

272 páginas 

Esta é a história de Doaa Al Zamel, uma jovem síria que tem sua vida brutalmente alterada em função das guerras. Tudo começa na Síria, onde sua família vivia em relativa paz, apesar das dificuldades, até que eclode a Primavera Árabe e se inicia a guerra no país — conflito que, até hoje, persiste. Diante das ameaças constantes às suas vidas e do risco real de estupro das meninas, seu pai decide partir, e a família se refugia no Egito, que inicialmente os recebe bem.

A vida não é fácil, mas ainda assim é melhor do que na Síria. Isso muda quando começam as agitações no Egito para depor o presidente — o que de fato ocorre — e, a partir daí, os sírios passam a ser desprezados e atacados. É nesse contexto que Doaa conhece Bassem, com quem fica noiva. Sem qualquer perspectiva de uma vida digna, decidem tentar a Europa e embarcam no horror que são as travessias pelo Mediterrâneo, promovidas por contrabandistas.

Doaa tinha medo da água e não sabia nadar. Após o naufrágio provocado pela colisão com outro barco, confesso que não há palavras que consigam exprimir o horror e o pavor que ela viveu.

De qualquer maneira, é um livro que recomendo fortemente, sobretudo àqueles que não conseguem compreender por que há tantos refugiados, por que se arriscam nessas travessias e por que levam consigo crianças e idosos. É um livro que os que se posicionam contra refugiados deveriam ler. Talvez, lendo no calor de suas casas, confortáveis, com uma xícara de café ou chá à frente, consigam refletir sobre o terror que esta jovem enfrentou.

Além do relato do ponto de vista dos refugiados, o livro também explica como os países agem, como é difícil pedir asilo ou refúgio e como os sistemas de acolhimento são excludentes. Doaa, mesmo sendo considerada uma heroína, ainda assim precisou lutar para poder permanecer na Suécia e conseguir levar sua família.

Vale a leitura!!


                                        Doaa Al Zamel nasceu em Daraa, Síria. É uma refugiada



Melissa Fleming é jornalista, escritora e funcionária das Nações Unidas , Diretora de Comunicações do Alto Comissariado das Nações Unidas para refugiados - ACNUR 


DUAS VITÓRIAS, UM CORPO EM MOVIMENTO E A TRAVESSIA DO EXÍLIO

 


NUJEEN: A incrível jornada de uma garota que fugiu da guerra na Síria em uma

Cadeira de rodas.

NUJEEN MUSTAFA CHRISTINA LAMB

UNIVERSO DOS LIVROS – 1ª ED. 2017

240 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - SÍRIA 

Nujeen é uma jovem síria que percorreu quilômetros para escapar da guerra. Detalhe: em uma cadeira de rodas. Ela conta no livro todo esse percurso feito ao lado da irmã — em alguns momentos, também com outros parentes. Enquanto narra a travessia, tece comentários sobre a guerra na Síria, relembra o período em que ainda havia paz e vivia com sua família, e relata o momento em que o Estado Islâmico entra no país, com as atrocidades cometidas.

Seu olhar é o de uma adolescente: gosta de ver televisão e de ler, atividades que se tornaram algumas de suas poucas opções devido à deficiência — Nujeen não consegue andar. Foi assim, sobretudo por meio de filmes e, principalmente, de uma série americana, que aprendeu inglês.

Após chegar à Alemanha, ela precisa finalmente enfrentar sua deficiência, incentivada pelos professores, por sua guardiã e também por sua irmã, que foi um exemplo de amor durante todo o percurso, empurrando a cadeira. Precisa sair do comodismo no qual estava instalada e começar a frequentar a escola, fazer exercícios e ser acompanhada por um médico. Na Síria, Nujeen era uma pessoa isolada do convívio social fora do círculo familiar; isso muda em sua nova vida, onde precisou aceitar que não podia permanecer confinada em casa, apenas vendo TV ou navegando na internet.

Penso que, para Nujeen, houve duas vitórias: a primeira, conseguir chegar à Alemanha; a segunda, confrontar sua própria condição e aprender a aceitá-la — não como uma vítima, mas como alguém que aprende a viver com ela. Antes, acredito que estivesse bastante acomodada, pois não se movia nem para pegar algo ou até mesmo para pentear os cabelos, tarefas que passou a realizar a partir de então, o que foi, inclusive, um alívio para sua irmã.

Por outro lado, como acabei de ler a história de Doaa no livro Uma esperança mais forte que o mar, confesso que gostei mais do relato de Doaa. Mas é preciso considerar que aqui temos uma adolescente de 16 anos, enquanto Doaa, embora jovem, passou por uma situação extremamente dramática: o naufrágio e a sobrevivência por quatro dias e quatro noites no mar.

Ainda assim, os dois livros devem ser lidos. Em ambos, compreendemos por que tantos sírios são obrigados a deixar suas casas, seus lares e seus pais para buscar uma nova chance de vida — a possibilidade de viver com liberdade e com “normalidade”, como diz Nujeen.


                      Nujeen Mustafa nasceu em Kobani, Síria. É uma refugiada síria curdo e ativista 



                  Christina Lamb nasceu em Londres em 1965. É uma jornalista e escritora britânica. 



A IMPERATRIZ QUE NÃO COUBE NO IMPÉRIO

 


SISSI E O ÚLTIMO BRILHO DE UMA DINASTIA

Uma breve história não contada dos Habsburgos

PAULO REZZUTTI

LEYA – 1ª ED. – 2022

264 páginas 

O livro retrata a vida de Elizabeth da Áustria-Hungria, mais conhecida como Sissi, desde a infância até sua morte violenta, assassinada por um anarquista em um porto da França. Paulo Rezzutti reconstrói não apenas a trajetória de uma imperatriz, mas também o crepúsculo de uma dinastia.

Desde jovem, Sissi se destaca por uma personalidade forte, inquieta e profundamente independente — traços que destoavam do ideal feminino esperado pela corte. Foi justamente essa diferença que atraiu o imperador Francisco José I, que a escolheu em detrimento da irmã, considerada a noiva “adequada” segundo os rígidos critérios de sua mãe e da monarquia.

Essa mesma personalidade, no entanto, torna-se fonte constante de conflito. Sissi jamais se adaptou plenamente à vida da corte, às suas regras, vigilâncias e performances. Enfrentou a pressão da monarquia, da aristocracia e da sociedade, sentindo-se frequentemente sufocada em um papel que não escolhera. A imperatriz encarna, assim, a tensão entre desejo individual e dever dinástico.

Apesar do afeto que uniu Sissi e Francisco José, a relação é marcada por distanciamentos. Ela passa longos períodos fora da corte, vivendo em outros países, em uma espécie de exílio voluntário. O afastamento não é apenas geográfico, mas também simbólico: Sissi se retira de um mundo que já não lhe oferece sentido.

Paralelamente à biografia da imperatriz, o livro traça um panorama histórico da Áustria-Hungria e da Europa do período, revelando um império em declínio, pressionado por conflitos internos, transformações sociais e tensões políticas. A vida de Sissi se entrelaça, assim, ao fim do Império dos Habsburgo — seu “último brilho” antes da dissolução.

A figura de Sissi emerge menos como ícone romântico e mais como uma mulher deslocada em um sistema que não comportava sua subjetividade. Sua história pessoal espelha o esgotamento de uma ordem política e social prestes a desaparecer.



                      Paulo Rezzutti nasceu em São Paulo em 1972. É escritor, biógrafo e historiador.


QUANDO A ESCOLHA CORRETA DESAFIA A LEI INJUSTA


 

É HORA DE AGIR: um apelo à última geração

CAROLA RACKETE

ARQUIPÉLAGO EDITORIAL – 1ª ED. 2020

192 páginas 


Li este livro em uma tarde — e que tarde bem aproveitada. Carola Rackete é a capitã que comandava o navio que aportou, sem autorização, em Lampedusa, com refugiados resgatados no mar. Um gesto de coragem, determinação e escolha ética: fazer o que era correto, mesmo quando tudo e todos pareciam estar contra ela — políticos, autoridades e parte da população local.

Carola foi presa e posteriormente solta após a decisão de uma juíza, que reconheceu o óbvio e o essencial: ela salvou vidas em perigo. As leis náuticas são claras — quem está em risco no mar deve ser resgatado, independentemente de nacionalidade, status ou origem. Carola apenas cumpriu um dever humano e legal, ainda que isso lhe custasse a liberdade por um período.

Mas o livro vai muito além desse episódio. Em É hora de agir, Carola articula sua experiência concreta com uma reflexão mais ampla sobre a crise climática. Ela demonstra como as catástrofes ambientais tendem a aumentar exponencialmente o número de refugiados no mundo, trazendo exemplos de diferentes regiões do planeta. O colapso climático não é uma abstração futura: ele já está em curso e atinge, antes de tudo, os mais vulneráveis.

A autora apresenta um panorama claro da situação atual do clima no planeta e das causas que nos conduziram até aqui. E, sobretudo, não se limita ao diagnóstico. O livro é também um chamado à ação. Carola propõe caminhos possíveis — individuais e coletivos — para impedir a destruição daquilo que ela chama, com razão, de nossa casa comum.

Uma casa que não depende de dinheiro, posição social ou poder. Todos nós moramos nela. Não há para onde fugir.

É hora de agir é um livro breve, acessível e urgente. Uma leitura que convoca à responsabilidade e nos lembra que salvar vidas — humanas e não humanas — nunca deveria ser crime.



                             Carola Rackete nasceu em Preetz, Alemanha. É uma capitã alemã.


RACISMO ESTRUTURAL E CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA

 


MINHA CARNE: DIÁRIO DE UMA PRISÃO

PRETA FERREIRA

BOITEMPO EDITORIAL – 1ª ED. 2021

224 páginas 

Em Minha carne, Preta Ferreira relata o que viveu e sentiu durante sua prisão injusta, decorrente de uma denúncia anônima jamais devidamente investigada. O caso escancara, mais uma vez, o funcionamento do racismo estrutural no sistema de justiça brasileiro.

Por possuir ensino superior, Preta foi mantida em uma ala especial do presídio. Ainda assim, isso não a afastou da realidade das outras mulheres encarceradas. Ao contrário: ela escuta, observa e registra as histórias das detentas do outro pavilhão, dando visibilidade a vidas que o Estado insiste em apagar.

São relatos duros. Algumas mulheres estão presas por homicídio, mas mesmo nesses casos é impossível não perceber como a dominação masculina, o machismo e a violência atravessam suas trajetórias. Outras foram encarceradas por pura ingenuidade ou vulnerabilidade extrema — como mulheres que, ao visitar parentes presos, aceitam levar cigarros para terceiros e acabam flagradas com drogas escondidas nos maços. Há também a história particularmente triste de uma senhora idosa que prefere permanecer no presídio, por considerá-lo menos violento e degradante do que viver nas ruas ou em condições absolutamente inóspitas.

A presença de Preta no presídio acaba produzindo fissuras naquele sistema. Por ser uma figura pública, visitada por artistas, intelectuais e políticos — muitas vezes com câmeras e registros —, sua permanência gera temor na administração da unidade, receosa de denúncias sobre o que ocorre dentro dos muros. Isso resulta, ainda que de forma limitada, em algumas melhorias nas condições do presídio.

A experiência do cárcere leva Preta a compreender de forma mais profunda a realidade do sistema prisional brasileiro e a ampliar sua luta política para incluir essas mulheres invisibilizadas. Ao deixar a prisão, no entanto, ela não recupera plenamente a liberdade: passa a cumprir prisão domiciliar, com controle rigoroso de horários e necessidade constante de prestar contas de seus deslocamentos. Pouco depois, o país mergulha na pandemia.

Há também momentos de respiro e afeto no relato, como a visita de Angela Davis à sua casa — um encontro simbólico e potente, que reafirma a dimensão coletiva de sua luta.

Minha carne é uma leitura fundamental, tanto pela coragem e determinação de Preta Ferreira quanto por revelar, a partir de dentro, o funcionamento cruel do sistema prisional brasileiro. O livro também oferece uma porta de entrada importante para compreender o movimento dos sem-teto urbanos e as intersecções entre racismo, classe, gênero e criminalização da pobreza.


Janice Ferreira da Silva, mais conhecida como Preta Ferreira, nasceu na Bahia em 1983. É uma ativista por moradia, pelos direitos humanos, multiartista e escritora.


RACISMO ESTRUTURAL, SISTEMA DE COTAS E PERMANÊNCIA UNIVERSITÁRIA

 


DE ONDE ELES VÊM

JEFERSON TENÓRIO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2024

208 páginas 


Joaquim é um jovem negro que teve uma infância marcada pela pobreza. Criado pela avó após a morte da mãe, ainda doente, ele precisa cuidar dela com a ajuda de uma tia. Apaixonado pela literatura, realiza um de seus maiores desejos ao ingressar na universidade por meio do sistema de cotas.

Acompanhamos Joaquim durante esses anos de formação. O sistema de cotas aparece como o que ele é: uma medida de justiça social. No entanto, a entrada na universidade não o poupa dos preconceitos estruturais da sociedade brasileira. As diferenças permanecem visíveis e, quando o racismo não se manifesta de forma explícita, surge sob a forma da condescendência, da compaixão, do olhar que não reconhece o outro como igual. Joaquim sente isso profundamente.

Além disso, a universidade não está preparada para acolher esses estudantes — nem institucionalmente, nem pedagogicamente. Professores despreparados, ausência de políticas de permanência, falta de compreensão das realidades sociais dos alunos. Cabe ao estudante “se virar”: buscar livros, tempo para estudar, condições mínimas para permanecer.

Joaquim mora longe, muitas vezes não tem dinheiro sequer para o ônibus ou para se alimentar. Precisa cuidar da avó e não compartilha da mesma vida de seus colegas, que vão a festas, têm carro próprio ou são buscados por motoristas. Ele vive da pensão da avó, mas sabe que precisaria trabalhar — o que significaria abandonar a universidade, já que o curso é diurno.

Nesse contexto, Joaquim não consegue sustentar o sonho de ser escritor como força organizadora de sua vida. Afoga suas frustrações no bar, nos encontros com amigos, na relação com a namorada branca, de classe social mais alta, que não consegue compreendê-lo — ao contrário da ex-namorada, negra e cotista, que partilhava de seu universo.

Há um momento emblemático: Joaquim precisa ler Ulisses, de James Joyce. A pergunta se impõe quase naturalmente: se mesmo leitores com formação sólida encontram dificuldades diante dessa obra, o que acontece com jovens da periferia, vindos de escolas públicas, que trabalham, cuidam da família e enfrentam o racismo cotidiano? A universidade propõe igualdade, mas ignora a equidade.

O romance evidencia o paradoxo do sistema de cotas: ele é justo e necessário ao permitir que negros, indígenas e estudantes pobres ingressem na universidade, mas falha ao não estruturar a permanência desses alunos. São os próprios cotistas que se organizam, se mobilizam e, aos poucos, forçam transformações no espaço universitário. Ainda assim, a sociedade insiste em atacar um sistema que é, antes de tudo, um direito.

Ao mesmo tempo, o livro provoca desconforto — e isso é importante dizer. Joaquim é um personagem que incomoda. Ser negro e pobre não justifica todas as suas escolhas. Usar o dinheiro da pensão da avó doente para beber ou frequentar prostíbulos, ainda que como forma de aliviar a dor, revela irresponsabilidade. Ficar sem dinheiro para o transporte porque gastou com bebida é uma escolha problemática. Outros estudantes negros, cotistas, enfrentam situações semelhantes e conseguem seguir, se formar, provar mais uma vez sua capacidade.

Mas talvez seja justamente aí que reside a força do romance. Joaquim não é um herói. É um ser humano, atravessado por falhas, fragilidades e contradições. O livro recusa a idealização do jovem negro como símbolo de superação permanente. Ele reage ao mundo que o violenta — muitas vezes da pior maneira possível. E isso também é real.

De onde eles vêm nos obriga a pensar não apenas nas estruturas injustas, mas também nos limites humanos diante delas. Joaquim precisará crescer, e esse processo se dá ao longo da narrativa — um desfecho que não cabe aqui relatar, para não antecipar o final do livro.



Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro em 1977. É doutor em teoria literária pela PUC-RS e escritor.