segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

VIVER SOB BOMBAS SEM ENTENDER A GUERRA

 

O DIÁRIO DE ZLATA: A VIDA DE UMA MENINA NA GUERRA

ZLATA FILIPOVIC

SEGUINTE – 1ª ED. 1994

200 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - BÓSNIA HERZEGOVINA 


Abril de 1992 marca uma ruptura definitiva na vida de Zlata Filipovic. No início de seu diário, ela nos apresenta uma infância comum: escola, amigas, viagens, família, programas de televisão, filmes. Uma vida cotidiana de uma menina de onze anos em Sarajevo. Pouco a pouco, tudo isso se desfaz. Zlata é obrigada a abrir mão da infância e dos sonhos diante da eclosão da guerra.

Com o acirramento das divisões nacionalistas, inicia-se a guerra civil na Bósnia, que duraria até 1995 e deixaria o país devastado. A minoria sérvia não aceita a independência da Bósnia-Herzegovina; quando ela se concretiza, começam os bombardeios a Sarajevo e a outras cidades. A guerra passa a fazer parte do dia a dia, transformando radicalmente a experiência de viver.

Zlata chama os políticos de “moleques” e escreve sobre “eles” — figuras distantes, que ela sequer sabe quem são, mas que decidem tudo. Para ela, esses “eles” não pensam em ninguém: apenas destroem e matam. Matam idosos, crianças e adultos; destroem prédios, casas e patrimônios históricos. Ao longo do diário, Zlata se pergunta repetidamente por quê. Por que a guerra? Por que essas decisões recaem sobre pessoas que nada têm a ver com disputas políticas ou nacionalistas?

E é justamente aí que o diário revela sua força. A guerra, vista do ponto de vista de quem vive nela, é dor, morte, destruição e fome. No caso de Zlata, é também a perda da infância. Ela não compreende política, estratégias militares ou disputas territoriais, mas sente no corpo e na vida as consequências dessas decisões.

O livro é curto e escrito por uma criança, mas isso não o torna menos poderoso. Pelo contrário: é um retrato direto, honesto e profundamente humano da guerra. Um testemunho das perdas, do medo e da sobrevivência cotidiana. A voz de uma menina que não fala de ideologias, mas revela, com clareza devastadora, o que a política faz quando se transforma em violência.


                                      Zlata Filipovic nasceu em Sarajevo, Bósnia, em 1980.


AUTISMO, CLIMA E A RECUSA DO SILÊNCIO

 

NOSSA CASA ESTÁ EM CHAMAS: Ninguém é pequeno demais para fazer a diferença

MALENA ERNMANSVANTE THUNBERGGRETA THUNBERGBEATA ERNMAN

BESTSELLER – 1ª ED. - 2019

336 páginas 


O livro é escrito por Malena Ernman, mãe de Greta Thunberg, com a colaboração de toda a família. Nele, acompanhamos não apenas o surgimento de Greta como ativista climática, mas também aspectos íntimos de sua vida: as dificuldades na escola, o sofrimento silencioso e o processo até o diagnóstico de “síndrome de Asperger”.

A narrativa se amplia quando descobrimos que a irmã de Greta também enfrenta desafios semelhantes. E aqui surge um ponto fundamental do livro: embora eu mesma utilize o termo “problemas”, Malena questiona frontalmente essa noção ao afirmar que “isso não exclui a possibilidade de ela estar certa, e todos nós, os outros, estarmos simplesmente errados”. Para ela, o autismo não é uma deficiência, mas uma forma de existir que não corresponde ao comportamento considerado “normal” pela sociedade.

Um aspecto extremamente relevante levantado por Malena é o fato de que, durante décadas, os estudos sobre o autismo foram realizados quase exclusivamente com meninos. Ela se pergunta como suas filhas poderiam se encaixar em diagnósticos construídos a partir de parâmetros masculinos. Segundo relata, quando meninas passaram a ser diagnosticadas com mais frequência, a reação social foi afirmar que havia um “excesso” de diagnósticos — revelando, mais uma vez, como a norma masculina estrutura até mesmo o campo médico.

O livro não suaviza as dificuldades vividas pela família. Greta deixou de se alimentar, e foi uma luta diária para que ela conseguisse comer. Sua irmã, por sua vez, não suportava diversos tipos de sons. Quando Greta começou a se interessar pela crise climática, seus pais viram nisso não apenas uma preocupação legítima, mas também uma possibilidade de ela encontrar sentido, foco e força.

A partir daí, inicia-se um percurso que hoje é amplamente conhecido: a greve escolar às sextas-feiras em defesa do meio ambiente e contra tudo aquilo que alimenta a crise climática. No entanto, Nossa casa está em chamas vai muito além do relato desse ativismo. O livro é também uma crítica contundente ao sistema econômico em que vivemos e ao sistema patriarcal que sustenta tanto a exploração da natureza quanto a negação da diferença.

Trata-se de um livro que articula cuidado, política, crítica social e urgência — e que nos obriga a escutar vozes que o mundo insiste em silenciar.


Greta Thunberg nasceu em Estocolmo, Suécia, em 2003. É uma ativista ambiental. 


O QUE AS MULHERES QUILOMBOLAS ENSINAM AO MUNDO DITO CIVILIZADO


 

MULHERES QUILOMBOLAS: Territórios de existências negras femininas

SELMA DOS SANTOS DEALDINA

JADAÍRA – 1ª ED. – 2020

168 páginas 

Que livro belo e necessário. Mulheres quilombolas reúne os relatos de diversas mulheres que narram suas vidas, suas histórias e as de suas comunidades. O que mais me chamou a atenção foi a diferença marcante entre o que significa ser uma mulher negra urbana e ser uma mulher negra quilombola, sobretudo no que diz respeito à centralidade do coletivo.

Em um dos relatos, ao tratar da violência doméstica, uma das mulheres se recusa a recorrer ao sistema de justiça formal. Para ela, o encarceramento ou o afastamento do homem rompe o tecido comunitário, já que ele também faz parte do coletivo. Em vez disso, as mulheres se reúnem, conversam sobre o problema e, posteriormente, convocam a comunidade para pensar conjuntamente formas de transformar esse comportamento. Trata-se de uma prática potente, que aposta na responsabilidade coletiva e na possibilidade real de mudança, sem reproduzir automaticamente a lógica punitiva do Estado.

Ao longo do livro, elas relatam suas dificuldades e lutas pelo direito ao território, pela preservação de suas tradições e pelo reconhecimento de seus modos de vida. A ancestralidade, os rituais e, sobretudo, a agricultura ecológica aparecem como eixos fundamentais, com destaque para a preservação das sementes crioulas, guardiãs de saberes e de futuro.

Um termo que há muito não via ser mobilizado com tanta força é o da dádiva: a troca, o cuidado, o respeito mútuo como princípios organizadores da vida. Muitas vezes, essas comunidades são vistas de forma distorcida, acusadas de serem “acomodadas” ou de ocuparem terras que poderiam ser exploradas pelo agronegócio — visão incentivada, inclusive, por políticas governamentais. O que se ignora é que justamente nesses territórios e nesses saberes reside uma das respostas mais concretas àquilo que hoje chamamos de crise climática.

Os conhecimentos ancestrais sobre a relação com a terra e a natureza são absolutamente centrais no presente e precisam ser preservados. As mulheres quilombolas lutam por isso, assim como mulheres indígenas e outras comunidades tradicionais. Trata-se de um saber que foi, em grande parte, perdido pelo mundo dito civilizado, mas que talvez seja o mais importante para nossa sobrevivência hoje.

Em tempos de individualismo extremo, a centralidade do coletivo que atravessa esses relatos é uma lição urgente. Vale muito a leitura: para conhecer as mulheres quilombolas e, sobretudo, para aprender a olhar para elas com profundo respeito.


Selma dos Santos Dealdina nasceu em São Mateus, Espírito Santo, em 1982. Produtora cultural, militante e ativista do movimento social negro e quilombola. 


QUANDO O RIO INVENTAVA A MODERNIDADE BRASILEIRA

 


METRÓPOLE À BEIRA-MAR: O RIO MODERNO DOS ANOS 20

RUY CASTRO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2019 

504 páginas 

Imagine encontrar um amigo, sentar-se em algum lugar e ouvi-lo começar a contar uma boa história. É exatamente assim que se lê este livro. A escrita de Ruy Castro flui com leveza, marcada por humor e sarcasmo na medida certa, sem jamais perder a seriedade e a profundidade da análise.

O autor nos apresenta a história cultural do Brasil da modernidade — e é possível dizer Brasil, porque nos anos 1920 o Rio de Janeiro concentrava a vida intelectual e artística do país. Era para lá que convergiam escritores, artistas, compositores e jornalistas, afinal, tratava-se então da capital federal e do grande centro de circulação de ideias, estilos de vida e projetos de país.

Ruy Castro reconstrói esse Rio moderno com precisão e vivacidade, mostrando como a cidade pulsava cultura, invenção e contradições. O resultado é um retrato envolvente de uma época que ajudou a moldar a imaginação cultural brasileira e cujos ecos ainda reverberam no presente.

Foi um dos melhores livros que li em 2020. Recomendo.


                  Ruy Castro nasceu em Caratinga. É um jornalista, escritor e biógrafo brasileiro.


APÁTRIDAS, FRONTEIRAS E A VIOLÊNCIA DA INVISIBILIDADE

 

MAHA MAMO: A luta de uma apátrida pelo direito de existir

MAHA MAMO E DARCIO OLIVEIRA

GLOBO LIVROS – 1ª – 2020

272 páginas 


Esta biografia retrata a vida de Maha Mamo, uma mulher apátrida que, ao conseguir vir para o Brasil como refugiada, alcançou finalmente o direito à cidadania brasileira, assim como sua irmã. Trata-se de um livro que nos obriga a encarar uma condição muitas vezes invisibilizada: a de existir sem pertencer oficialmente a lugar algum.

Hoje, Maha Mamo é ativista na luta pelos direitos das pessoas apátridas, e elas são muitas no mundo. Mas o que significa, concretamente, não ter cidadania? No livro, Mamo narra como essa condição atravessou sua vida, a de sua irmã e a de seu irmão — este, infelizmente, vítima da violência no Brasil, assassinado em um assalto em Belo Horizonte. Ainda assim, mesmo diante dessa dor imensa, Maha e sua irmã não deixam de expressar profunda gratidão ao Brasil e às pessoas que as acolheram e ajudaram.

Seus pais eram sírios, mas o pai era cristão e a mãe muçulmana, uma união proibida na Síria. Para poderem se casar, fugiram para o Líbano, onde tiveram três filhos. O problema é que o Líbano reconhece a nacionalidade apenas pelo sangue paterno; como o pai era sírio, os filhos não obtiveram a cidadania libanesa. Diferentemente do Brasil, onde vigora o princípio do jus soli — o direito à cidadania para quem nasce em território nacional —, Maha e seus irmãos cresceram sem qualquer nacionalidade reconhecida.

As consequências dessa condição são devastadoras: pessoas apátridas não conseguem estudar, não têm acesso pleno à saúde, não podem tirar carteira de habilitação, não podem sair do país por falta de documentos e, quando conseguem trabalhar, ficam restritas a empregos precários. São pessoas vivas, que existem, mas que não existem oficialmente.

O livro também nos faz refletir sobre uma realidade brasileira pouco discutida: a de pessoas que nasceram no país, têm direito à cidadania, mas não possuem certidão de nascimento — seja por negligência, pobreza, isolamento geográfico ou outras razões. Sem esse documento básico, a exclusão se instala desde o início da vida.

Maha Mamo segue sua luta junto ao ACNUR, órgão da ONU responsável por refugiados, realizando palestras em órgãos governamentais e empresas, dando visibilidade a uma causa urgente. Conhecer a situação das pessoas apátridas é fundamental — especialmente em um mundo marcado pelo aumento dos deslocamentos forçados e das crises humanitárias.

Um livro necessário, que nos lembra que o direito de existir não deveria depender de fronteiras, religiões ou burocracias.


              Maha Mamo nasceu em Beirute, Líbano, em 1988. É um ativista de direitos humanos.


                                                   Darcio Oliveira é um jornalista brasileiro.


BIZÂNCIO COMO PONTE ENTRE MUNDOS, TEMPOS E CULTURAS


 

DE BIZÂNCIO PARA O MUNDO: A saga de um império milenar

COLLINS WELLS

DIFEL – 11ª - 2011

320 páginas 


Para quem deseja conhecer melhor a fascinante história de Bizâncio, este livro é uma excelente porta de entrada. Colin Wells constrói aquilo que define como “a narrativa de uma aventura intelectual que conduz o leitor pelos desertos da Arábia até as florestas sombrias da Rússia setentrional, pelas pitorescas cidades da Itália renascentista até os momentos finais de uma cidade milenar”.

A partir desse percurso, o autor mostra como Bizâncio não foi um império isolado ou meramente decadente, mas um centro irradiador de ideias, formas políticas, artísticas e religiosas que moldaram profundamente o mundo europeu e oriental. Para começar a compreender a formação da Rússia — e inclusive as questões históricas que envolvem a Ucrânia e Kiev —, este livro é imprescindível.

Wells aborda também o Monte Athos, na Grécia, com seus mosteiros e a longa tradição da iconografia cristã. Um espaço marcado por forte espiritualidade, mas também por exclusões: até hoje, trata-se de um território onde a entrada de mulheres é proibida, o que revela tensões persistentes entre religião, poder e gênero.

Ao longo do livro, o autor acompanha missionários, filósofos e artistas que, contra todas as probabilidades, propagaram os ideais gregos nas sociedades italiana, islâmica e eslava. Assim, Bizâncio surge não apenas como herdeiro da Antiguidade, mas como mediador fundamental entre mundos, tempos e culturas.

Um livro que amplia o olhar sobre a história europeia e desmonta leituras simplificadas sobre o passado — mostrando como muitos dos conflitos e heranças do presente passam, inevitavelmente, por Bizâncio.


Collins Wells nasceu em West Bridgford, Reino Unido, em 1933 e faleceu em North Wales, País de Gales. Foi um historiador britânico especializado em Roma Antiga, arqueólogo e acadêmico.


COMO A HISTÓRIA MOLDOU O PENSAMENTO DE ZYGMUNT BAUMAN


 

BAUMAN: UMA BIOGRAFIA

IZABELA WAGNER

ZAHAR – 1ª ED. 2020

648 páginas 


Ler a biografia de Zygmunt Bauman representou um duplo percurso: por um lado, o conhecimento da vida desse eminente sociólogo; por outro, um mergulho na história do Leste Europeu, especialmente da Polônia, do período da Segunda Guerra Mundial até os dias atuais. Ao longo do livro, é possível acompanhar tanto o desenvolvimento intelectual de Bauman quanto a formação de sua visão de mundo, profundamente marcada pelos acontecimentos históricos que atravessaram sua vida.

Um dos aspectos que mais me interessou foi conhecer melhor Janina Bauman. Mais do que companheira, ela foi a principal interlocutora do sociólogo e também uma escritora relevante. Um de seus livros, Inverno da manhã, está traduzido no Brasil e relata sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial. A leitura desse livro por Bauman foi decisiva para a escrita de Modernidade e Holocausto, considerada uma de suas obras-primas.

Bauman nasceu na Polônia e sempre se considerou polonês, mesmo após sua expulsão do país em 1968, quando foi forçado a renunciar à cidadania e se tornou apátrida. Judeu, ele foi atingido por um antissemitismo ainda fortemente presente no país, que, segundo a autora, tinha um caráter religioso mais do que ideológico.

Com a invasão nazista da Polônia, Bauman e seus pais fogem para a União Soviética. É lá que ele ingressa no Exército Vermelho e adere ao comunismo, acreditando que esse projeto político poderia garantir liberdade e pôr fim aos preconceitos contra os judeus. Isso, no entanto, não se concretiza. A repressão à liberdade de expressão, o controle sobre a vida das pessoas e a persistência do preconceito marcam profundamente essa experiência.

Ao final da guerra, Bauman retorna a Varsóvia, ingressa na universidade, estuda sociologia e constrói sua carreira acadêmica até o doutorado, tornando-se professor. Em 1968, porém, é novamente expulso do país, acusado injustamente de incitar revoltas estudantis — mais um episódio de perseguição antissemita.

Ele segue então com a esposa e as filhas para Israel, onde vive por três anos, e depois para a Inglaterra, país em que passará o resto da vida. É interessante notar que sua produção intelectual mais conhecida, assim como o célebre conceito de “modernidade líquida”, surge apenas após sua aposentadoria da Universidade de Leeds.

Trata-se de uma vida intensamente vivida, atravessada por exílios, rupturas e reinvenções, que resultou em uma obra vasta e em reflexões que permanecem extremamente atuais. Recomendo.


                            Izabela Wagner nasceu em Wolów, Polônia, em 1964. É socióloga.


QUANDO CONTROLAR O PASSADO SE TORNA UM PROJETO DE PODER

 

APAGANDO A HISTÓRIA: Como os Fascistas Reescrevem o Passado Para Controlar o Futuro

JASON STANLEY

 L&PM – 1ª ED. 2025

224 páginas 


Apagando a História, de Jason Stanley, e Quem tem medo do gênero?, de Judith Butler, ajudam a compreender o que está acontecendo no mundo contemporâneo, especialmente diante do retorno de Trump nos Estados Unidos, de seus ataques às universidades e do empenho da extrema direita contra a teoria crítica da raça, a teoria de gênero, a história das mulheres e os cursos que abordam a sexualidade.

Ao estabelecer paralelos com o período de 1930 a 1945 na Europa — marcado pela ascensão do fascismo e do nazismo —, Stanley demonstra como a história é apagada e substituída por uma nova narrativa. Em geral, trata-se da construção de um mito nacionalista e de “tradições culturais” que devem ser celebradas como orgulho da nação. Um dos objetivos centrais desse processo é destruir conquistas e direitos relacionados à classe, ao gênero, à sexualidade e à raça.

Nesse contexto, todo espírito crítico passa a ser desencorajado. Não se trata mais de pensar, mas de aceitar, ou engolir, aquilo que esses regimes impõem como verdade. O ataque principal recai sobre a educação e as universidades: controla-se o que é ensinado e como é ensinado, moldando subjetividades e apagando conflitos históricos.

Jason Stanley expõe com clareza o perigo real representado pelos ataques da direita autoritária à educação. Identifica suas principais táticas, seus financiadores e traça as raízes intelectuais desse projeto político, mostrando que não se trata de episódios isolados, mas de uma estratégia deliberada de controle do presente por meio da manipulação do passado.


Jason Stanley nasceu em Syracuse em 1969. É um filósofo estudioso do neofascismo, particularmente nos EUA. 


UM OLHAR SEM ILUSÕES SOBRE O SÉCULO XX

 


A LEBRE DA PATAGÔNIA

CLAUDE LANZMANN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2011

472 páginas 

Comprei este livro para ler a versão de Claude Lanzmann sobre sua vida com Simone de Beauvoir, mas fui surpreendida pela amplitude de seu conteúdo. A Lebre da Patagônia é um livro de memórias que atravessa o século XX a partir de uma experiência singular, intensa e profundamente política.

Lanzmann revisita sua participação na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, suas impressões, enquanto judeu, sobre Israel, e suas viagens à Coreia do Norte e à China. Nessas passagens, apresenta uma visão crítica e realista, bastante distinta daquela que, à época, levou muitos intelectuais a louvar o comunismo e o maoísmo sem maiores questionamentos.

O livro aborda também sua relação com Simone de Beauvoir, mas não se reduz a ela. Entrelaçam-se a essa narrativa o processo de realização de Shoah, seu filme monumental sobre o extermínio dos judeus, revelando não apenas os bastidores das filmagens, mas o peso ético e existencial que atravessou toda a sua feitura.

A leitura vale muito a pena, inclusive por sua estrutura: o livro não segue uma ordem cronológica linear, mas avança conforme as lembranças emergem. Esse movimento fragmentado constrói, pouco a pouco, um panorama complexo e perturbador do século XX, visto por alguém que o viveu intensamente — sem ilusões e sem concessões.


Claude Lanzmann nasceu em Bois-Colombe, França, em 1925 e faleceu em Paris em 2018. Foi um cineasta conhecido pelo documentário Shoah (1985).


UM PAÍS LIDO ATRAVÉS DE SEUS ESCRITORES

 


A LANTERNA MÁGICA DE MÓLOTOV UMA VIAGEM PELA HISTÓRIA DA RÚSSIA

RACHEL POLONSKY

TODAVIA – 1ª ED. 2018

368 páginas 

A Lanterna Mágica de Mólotov é um livro no qual Rachel Polonsky empreende uma viagem pela história da Rússia seguindo os rastros de seus principais escritores. A partir desse percurso, a autora nos apresenta não apenas os autores e suas obras, mas também a cultura, a história, as tradições, a sociedade russa — além da fome, do totalitarismo e da violência que atravessaram esse território.

Rachel Polonsky mudou-se para a Rússia em 1990 e foi morar em um edifício que, nos anos stalinistas, era reservado aos servidores mais eminentes do Estado. Entre eles, Mólotov, cruel homem de confiança de Stálin, que possuía uma imensa biblioteca onde se encontravam inclusive livros proibidos de autores russos da época. Essa biblioteca permaneceu no local, e a autora teve acesso a ela — um detalhe perturbador, se lembrarmos que muitos dos escritores ali presentes foram enviados ao Gulag pelo próprio Mólotov.

A partir dessa descoberta, Rachel empreende uma jornada pela Rússia, visitando os locais de nascimento dos escritores, as cidades onde viveram e os espaços que marcaram suas trajetórias. Ao longo do caminho, ela entrelaça a história russa à história desses autores, mostrando como literatura, política e vida se confundem de maneira indissociável.

Aprendi muito sobre a Rússia com este livro, inclusive sobre regiões que hoje estão no centro dos conflitos da guerra na Ucrânia, bem como sobre um outro lado do país, menos conhecido, onde se desenha a nova rota da seda polar e operam os quebra-gelos nucleares. Um livro que ilumina a Rússia por dentro, revelando suas contradições, sombras e camadas históricas.



                    Rachel Polonsky é uma acadêmica britânica especializada em literatura eslava.


UMA OUTRA LEITURA DA DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

 

A DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

MARÍA-MILAGROS RIVERA GARRETAS

GINNA – 1ª ED. 2025

272 páginas 

Estou profundamente impactada por este livro. María-Milagros Rivera Garretas, filósofa espanhola, desenvolve aqui uma teoria da diferença sexual na história que se coloca antes, e não contra a teoria de gênero. Sem nada de reacionário, ela sustenta que mulheres e homens são diferentes, pensam de maneiras diferentes, e que essa diferença deve ser valorizada e incorporada aos estudos da história das mulheres.

Um dos pontos centrais de sua reflexão é a revalorização da língua materna — aquela que aprendemos com nossas mães. Tradicionalmente, essa língua foi classificada como semiótica, enquanto a língua fálica seria considerada a verdadeiramente simbólica. María-Milagros recusa essa hierarquia: para ela, a língua materna é simbólica. Em lugar do Nome do Pai, consagrado por Lacan, ela propõe o Nome da Mãe.

Não há aqui nenhum essencialismo — muito pelo contrário. Não se trata de uma “natureza feminina”, e a autora inclui explicitamente as mulheres trans em sua reflexão. Ao mesmo tempo, defende que os homens também precisam reencontrar sua masculinidade na língua da mãe, nessa primeira língua que nos constitui e, paradoxalmente, nos liberta.

María-Milagros aponta exemplos históricos dessa língua materna viva e atuante: as trovadoras (trobairitz), as mulheres cátaras, as místicas, as beguinas e as preciosas que conduziam salões literários. Espaços em que, por meio da palavra, rompiam as fronteiras entre o público e o privado.

Sua crítica à teoria de gênero não é uma negação, mas um deslocamento. Para ela, ao focar prioritariamente nas relações de poder, a teoria de gênero acaba deixando de lado algo fundamental: as próprias relações — e o amor. Não o amor romântico, mas um amor em um sentido muito mais amplo, quase esquecido entre nós. Hoje, falar de amor parece difícil, ou até ridículo, para alguns.

Eu mesma vinha me perguntando: em que momento os sexos deixaram de se amar? Quando os homens passaram a odiar as mulheres? Evidentemente, não todos. Mas basta olhar para a semana passada e para o horror das mulheres mortas ou agredidas. Este livro chegou como uma luva — e ainda estou digerindo. Há muito a aprender.

Sempre me perguntei se existia uma linguagem que não fosse fálica. María-Milagros está me respondendo.



María-Milagros Rivera Garretas nasceu em Bilbao, Espanha, em 1947. É historiadora.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

ENTRE MÃES, FILHAS, AMIGAS E DESENCONTROS


 

GAROTA, MULHER, OUTRAS

BERNARDINE EVARISTO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED – 2020

496 páginas 

Este livro foi uma agradável surpresa, tanto pelas histórias de diversas mulheres quanto pela forma como é escrito, dando-nos a sensação de estar dentro da mente de quem pensa. Trata-se de um gênero híbrido, composto por versos livres, sem pontuação, que cria um fluxo contínuo de consciência e aproxima o leitor da interioridade das personagens.

Estamos na Londres contemporânea, acompanhando vidas que se entrecruzam: relações de amizade, vínculos entre mães e filhas, encontros e desencontros. Cada história revela não apenas trajetórias individuais, mas também como essas relações são percebidas de maneiras distintas por cada mulher, evidenciando o quanto as interpretações do mundo, de si e do outro nunca são únicas.

O romance também constrói um panorama potente sobre a experiência das mulheres negras e das imigrantes, mostrando os desafios cotidianos, os atravessamentos de classe, raça, gênero e pertencimento, sem jamais recorrer a simplificações. São histórias fragmentadas, mas profundamente conectadas, que juntas formam um mosaico de existências.

É uma leitura envolvente, inovadora e necessária, tanto pela força das narrativas quanto pela ousadia formal. Recomendo fortemente.


Bernardine Evaristo nasceu em Elthan, Reino Unido, em 1959. É autora de obras de ficção.


UMA JOVEM, UM NAUFRÁGIO E O DIREITO DE EXISTIR

 


UMA ESPERANÇA MAIS FORTE QUE O MAR

A jornada de Doaa Al Zamel

MELISSA FLEMING

ROCCO – 1ª ED. 2017

272 páginas 

Esta é a história de Doaa Al Zamel, uma jovem síria que tem sua vida brutalmente alterada em função das guerras. Tudo começa na Síria, onde sua família vivia em relativa paz, apesar das dificuldades, até que eclode a Primavera Árabe e se inicia a guerra no país — conflito que, até hoje, persiste. Diante das ameaças constantes às suas vidas e do risco real de estupro das meninas, seu pai decide partir, e a família se refugia no Egito, que inicialmente os recebe bem.

A vida não é fácil, mas ainda assim é melhor do que na Síria. Isso muda quando começam as agitações no Egito para depor o presidente — o que de fato ocorre — e, a partir daí, os sírios passam a ser desprezados e atacados. É nesse contexto que Doaa conhece Bassem, com quem fica noiva. Sem qualquer perspectiva de uma vida digna, decidem tentar a Europa e embarcam no horror que são as travessias pelo Mediterrâneo, promovidas por contrabandistas.

Doaa tinha medo da água e não sabia nadar. Após o naufrágio provocado pela colisão com outro barco, confesso que não há palavras que consigam exprimir o horror e o pavor que ela viveu.

De qualquer maneira, é um livro que recomendo fortemente, sobretudo àqueles que não conseguem compreender por que há tantos refugiados, por que se arriscam nessas travessias e por que levam consigo crianças e idosos. É um livro que os que se posicionam contra refugiados deveriam ler. Talvez, lendo no calor de suas casas, confortáveis, com uma xícara de café ou chá à frente, consigam refletir sobre o terror que esta jovem enfrentou.

Além do relato do ponto de vista dos refugiados, o livro também explica como os países agem, como é difícil pedir asilo ou refúgio e como os sistemas de acolhimento são excludentes. Doaa, mesmo sendo considerada uma heroína, ainda assim precisou lutar para poder permanecer na Suécia e conseguir levar sua família.

Vale a leitura!!


                                        Doaa Al Zamel nasceu em Daraa, Síria. É uma refugiada



Melissa Fleming é jornalista, escritora e funcionária das Nações Unidas , Diretora de Comunicações do Alto Comissariado das Nações Unidas para refugiados - ACNUR 


DUAS VITÓRIAS, UM CORPO EM MOVIMENTO E A TRAVESSIA DO EXÍLIO

 


NUJEEN: A incrível jornada de uma garota que fugiu da guerra na Síria em uma

Cadeira de rodas.

NUJEEN MUSTAFA CHRISTINA LAMB

UNIVERSO DOS LIVROS – 1ª ED. 2017

240 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - SÍRIA 

Nujeen é uma jovem síria que percorreu quilômetros para escapar da guerra. Detalhe: em uma cadeira de rodas. Ela conta no livro todo esse percurso feito ao lado da irmã — em alguns momentos, também com outros parentes. Enquanto narra a travessia, tece comentários sobre a guerra na Síria, relembra o período em que ainda havia paz e vivia com sua família, e relata o momento em que o Estado Islâmico entra no país, com as atrocidades cometidas.

Seu olhar é o de uma adolescente: gosta de ver televisão e de ler, atividades que se tornaram algumas de suas poucas opções devido à deficiência — Nujeen não consegue andar. Foi assim, sobretudo por meio de filmes e, principalmente, de uma série americana, que aprendeu inglês.

Após chegar à Alemanha, ela precisa finalmente enfrentar sua deficiência, incentivada pelos professores, por sua guardiã e também por sua irmã, que foi um exemplo de amor durante todo o percurso, empurrando a cadeira. Precisa sair do comodismo no qual estava instalada e começar a frequentar a escola, fazer exercícios e ser acompanhada por um médico. Na Síria, Nujeen era uma pessoa isolada do convívio social fora do círculo familiar; isso muda em sua nova vida, onde precisou aceitar que não podia permanecer confinada em casa, apenas vendo TV ou navegando na internet.

Penso que, para Nujeen, houve duas vitórias: a primeira, conseguir chegar à Alemanha; a segunda, confrontar sua própria condição e aprender a aceitá-la — não como uma vítima, mas como alguém que aprende a viver com ela. Antes, acredito que estivesse bastante acomodada, pois não se movia nem para pegar algo ou até mesmo para pentear os cabelos, tarefas que passou a realizar a partir de então, o que foi, inclusive, um alívio para sua irmã.

Por outro lado, como acabei de ler a história de Doaa no livro Uma esperança mais forte que o mar, confesso que gostei mais do relato de Doaa. Mas é preciso considerar que aqui temos uma adolescente de 16 anos, enquanto Doaa, embora jovem, passou por uma situação extremamente dramática: o naufrágio e a sobrevivência por quatro dias e quatro noites no mar.

Ainda assim, os dois livros devem ser lidos. Em ambos, compreendemos por que tantos sírios são obrigados a deixar suas casas, seus lares e seus pais para buscar uma nova chance de vida — a possibilidade de viver com liberdade e com “normalidade”, como diz Nujeen.


                      Nujeen Mustafa nasceu em Kobani, Síria. É uma refugiada síria curdo e ativista 



                  Christina Lamb nasceu em Londres em 1965. É uma jornalista e escritora britânica. 



A IMPERATRIZ QUE NÃO COUBE NO IMPÉRIO

 


SISSI E O ÚLTIMO BRILHO DE UMA DINASTIA

Uma breve história não contada dos Habsburgos

PAULO REZZUTTI

LEYA – 1ª ED. – 2022

264 páginas 

O livro retrata a vida de Elizabeth da Áustria-Hungria, mais conhecida como Sissi, desde a infância até sua morte violenta, assassinada por um anarquista em um porto da França. Paulo Rezzutti reconstrói não apenas a trajetória de uma imperatriz, mas também o crepúsculo de uma dinastia.

Desde jovem, Sissi se destaca por uma personalidade forte, inquieta e profundamente independente — traços que destoavam do ideal feminino esperado pela corte. Foi justamente essa diferença que atraiu o imperador Francisco José I, que a escolheu em detrimento da irmã, considerada a noiva “adequada” segundo os rígidos critérios de sua mãe e da monarquia.

Essa mesma personalidade, no entanto, torna-se fonte constante de conflito. Sissi jamais se adaptou plenamente à vida da corte, às suas regras, vigilâncias e performances. Enfrentou a pressão da monarquia, da aristocracia e da sociedade, sentindo-se frequentemente sufocada em um papel que não escolhera. A imperatriz encarna, assim, a tensão entre desejo individual e dever dinástico.

Apesar do afeto que uniu Sissi e Francisco José, a relação é marcada por distanciamentos. Ela passa longos períodos fora da corte, vivendo em outros países, em uma espécie de exílio voluntário. O afastamento não é apenas geográfico, mas também simbólico: Sissi se retira de um mundo que já não lhe oferece sentido.

Paralelamente à biografia da imperatriz, o livro traça um panorama histórico da Áustria-Hungria e da Europa do período, revelando um império em declínio, pressionado por conflitos internos, transformações sociais e tensões políticas. A vida de Sissi se entrelaça, assim, ao fim do Império dos Habsburgo — seu “último brilho” antes da dissolução.

A figura de Sissi emerge menos como ícone romântico e mais como uma mulher deslocada em um sistema que não comportava sua subjetividade. Sua história pessoal espelha o esgotamento de uma ordem política e social prestes a desaparecer.



                      Paulo Rezzutti nasceu em São Paulo em 1972. É escritor, biógrafo e historiador.