quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Um Certo Capitão Rodrigo — sedução, liberdade e a força de Bibiana


 

UM CERTO CAPITÃO RODRIGO

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS - 2005

192 páginas

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Um Certo Capitão Rodrigo é um daqueles livros que a gente guarda com afeto. Há nele uma vibração diferente, mais viva, mais solar, marcada pela figura carismática de Rodrigo Cambará — conquistador, andarilho, provocador das normas — e, sobretudo, pela presença firme de Bibiana, que não se deixa apagar pelo brilho masculino.

Rodrigo entra na narrativa como quem entra numa cidade: anunciando-se, ocupando espaço, desafiando regras. Seu jeito sedutor, livre, quase teatral, faz dele uma figura magnética. Mas Érico Veríssimo não constrói um herói simples. O mesmo impulso que encanta também desestabiliza; a mesma liberdade que seduz traz insegurança e conflito. Rodrigo é movimento, enquanto a vida exige permanência.

É Bibiana, porém, quem sustenta a densidade do romance. Sua força não é estridente, mas sólida. Ela ama, escolhe, enfrenta a família, aceita o risco de se unir a um homem que não se encaixa. Bibiana não é ingênua diante do temperamento de Rodrigo; ela sabe com quem está lidando e, ainda assim, decide. Há nela uma autonomia rara para personagens femininas de romances históricos: não é prêmio, não é sombra, não é apêndice.

A relação entre Bibiana e Rodrigo se constrói nesse contraste: ele, o conquistador, o que passa; ela, a que fica, a que sustenta, a que transforma a instabilidade em vida possível. Enquanto Rodrigo se move pelo mundo, Bibiana cria raízes. E é nessa diferença que se revela sua força maior.

Lido na juventude, o romance encanta pela aventura e pelo carisma do Capitão Rodrigo. Lido mais tarde, ele revela algo mais profundo: a história de uma mulher que escolhe amar sem se dissolver no outro. Bibiana não perde a si mesma na relação; ao contrário, afirma-se dentro dela.

Talvez seja por isso que Um Certo Capitão Rodrigo permaneça tão querido. Não apenas pelo charme do personagem masculino, mas porque, por trás dele, há uma mulher que sustenta a narrativa com firmeza, coragem e presença. Sem Bibiana, Rodrigo seria apenas passagem. Com ela, a história permanece.



Ana Terra — fundação violenta, amor interditado e a força que permanece


ANA TERRA

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2025

112 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE 

Ana Terra é uma dessas personagens que ficam. Mesmo quando os detalhes da trama se embaralham com o tempo, o que permanece é a imagem de uma mulher forte, atravessada pela violência da fundação do Brasil, sobrevivendo onde tudo parece conspirar contra ela. O que me marcou na leitura foi justamente isso: a força de Ana, o amor vivido com o indígena e a brutalidade com que esse amor é interrompido.

Ana vive em um território de fronteira — geográfica e simbólica. A terra ainda não é “Brasil” no sentido pleno, é espaço de disputa, de violência, de apagamento. Seu amor com o indígena (Pedro Missioneiro) carrega essa tensão desde o início: não é apenas um amor proibido no plano familiar, mas um amor impossível dentro da lógica colonial. Ele representa o outro que deve ser eliminado, não apenas rejeitado.

A morte do indígena — assassinato cometido pelos homens da família — é um dos momentos mais duros da narrativa. Não se trata apenas de um crime passional ou moral, mas de um gesto fundador: o patriarcado e o colonialismo se afirmam juntos, eliminando o corpo indígena e silenciando o desejo feminino. Ana não é consultada, não é escutada, não é considerada. Seu amor é tratado como desvio, vergonha, ameaça.

E, ainda assim, ela permanece. Violentada pela história, pela família, pelas condições materiais, Ana Terra não desaparece. Ela cria o filho, sustenta a vida, atravessa o tempo. Sua força não é heroica no sentido épico, mas resistente, silenciosa, cotidiana. É a força das mulheres que ficam quando os homens matam, partem ou morrem.

É impossível não ler Ana Terra como uma metáfora da própria formação do sul do Brasil, uma formação marcada pela expulsão dos indígenas, pela dominação masculina e pela naturalização da violência como método de organização social. Ana carrega no corpo e na memória essa história, tornando-se uma espécie de testemunha involuntária da fundação do mundo que virá depois.

Reler Ana Terra pela lembrança é perceber que Érico Veríssimo construiu ali uma personagem que escapa do tempo. Ana não é apenas uma mulher forte; ela é o ponto de tensão entre amor e violência, entre vida e morte, entre o que poderia ter sido e o que foi imposto. E talvez seja por isso que ela continue sendo lembrada — não como figura dócil, mas como presença que resiste à tentativa de apagamento.



Anna Kariênina — desejo feminino e a crítica silenciosa da aristocracia

 

ANNA KARIÊNINA

LEV TOLSTOI

EDITORA 34 – 1ª ED. 2021

864 páginas 

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS

Anna Kariênina é um romance que permanece mesmo quando a memória falha. O que fica, quase como imagem inaugural, é o suicídio na linha do trem — um gesto extremo, atravessado pelo desespero, que encerra uma trajetória marcada pelo desejo e pela exclusão. Também permanece a lembrança de uma mulher que ama outro homem, fora do casamento, e que por isso é progressivamente empurrada para fora do mundo social.

Lido há muito tempo, Anna Kariênina se fixa inicialmente nessa dimensão trágica: o amor proibido, a paixão avassaladora, a punição final. Anna aparece como mais uma mulher que ousa desejar e que paga caro por isso. Mas Tolstói é um escritor excessivamente rico para se esgotar nessa leitura e talvez seja apenas na maturidade que suas minúcias ganhem pleno sentido.

Por trás da história de Anna, há um retrato minucioso e implacável da aristocracia russa do século XIX. Tolstói observa com precisão quase clínica os rituais sociais, os códigos morais, as hipocrisias e os privilégios de uma classe que se sustenta na aparência de ordem enquanto vive de convenções vazias. O adultério masculino é tolerado; o feminino, condenado. A moral não é ética, é social.

Anna não é punida apenas por amar outro homem, mas por tornar visível aquilo que deveria permanecer oculto. Ela rompe o pacto do silêncio. Ao insistir no amor e na legitimidade de seu desejo, ela expõe a fragilidade das normas que organizam aquele mundo aristocrático. Sua queda é menos moral do que política: ela não cabe mais no jogo social.

A releitura de Anna Kariênina promete justamente isso: revelar as engrenagens que antes passavam despercebidas. Os detalhes, os diálogos aparentemente banais, os gestos repetidos, as descrições longas deixam de ser ornamento e passam a funcionar como crítica. Tolstói desmonta sua classe por dentro, mostrando o vazio que sustenta seus valores.

Reler Anna Kariênina hoje é reencontrar uma personagem trágica, mas também perceber que sua história está entrelaçada a uma crítica profunda à sociedade que a condena. Anna morre nos trilhos, mas o romance deixa claro que o trem já vinha em movimento muito antes — conduzido por uma ordem social que não admite fissuras.


Lev Tolstói nasceu em Iasnaia, Poliana em 1828 e faleceu em Astapovo, Ryazan, Rússia. Foi um escritor russo. 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CIÊNCIA, GÊNERO E DESIGUALDADE EM TEMPOS DE EPIDEMIA

 


ZIKA: Do sertão nordestino à ameaça global

DEBORA DINIZ

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2016

192 páginas 

Em Zika: Do sertão nordestino à ameaça global, Debora Diniz nos leva ao centro da epidemia de Zika que assolou o Brasil em 2016, expondo o sofrimento das mulheres grávidas e de suas famílias, bem como a complexa resposta da ciência e do Estado diante de crises sanitárias.

O livro mostra que, muitas vezes, os protagonistas silenciosos da investigação científica são esquecidos: médicos e médicas na linha de frente — “na beira do leito”, como Diniz define — são quem geralmente identifica os primeiros sinais antes que a ciência formal confirme os casos. No Nordeste, um grupo de profissionais locais foi pioneiro no diagnóstico da epidemia. E, entre eles, uma médica do Cariri foi a primeira a perceber a relação entre o vírus Zika e a microcefalia fetal. Apesar de seu trabalho decisivo e do envio das amostras à Fiocruz, seu nome desapareceu da história oficial, enquanto o crédito ficou para um pesquisador homem de instituição estatal. Este episódio evidencia, mais uma vez, como os feitos das mulheres são apagados na ciência e na memória institucional.

Outro ponto crucial levantado por Diniz é a forma como a resposta à epidemia se concentrou no vetor — o mosquito transmissor — ignorando as mulheres afetadas. O aconselhamento oficial se limitava à abstinência sexual, sem oferecer anticoncepção adequada ou legalizar a interrupção da gravidez em casos de risco comprovado. Para as mulheres que carregavam fetos com diagnóstico de microcefalia, a dor física e psicológica era imensa. Muitas precisaram lutar sozinhas para garantir cuidados adequados, transporte frequente a centros de reabilitação e o sustento de suas famílias, quase sem apoio do Estado. Somente em 2020 foi aprovada a lei que garante pensão vitalícia para crianças afetadas, evidenciando o atraso e a negligência da política pública.

Diniz também problematiza a desigualdade social implícita na resposta à epidemia. Mulheres pobres do Nordeste enfrentaram quase quatro anos de luta isoladas, enquanto mães de classes média e alta provavelmente teriam recebido apoio profissional e financeiro. A obra questiona a responsabilidade do Estado: a epidemia se agravou onde há falta de saneamento básico, lixo acumulado e controle epidemiológico insuficiente.

Zika: Do sertão nordestino à ameaça global é mais do que um relato científico ou social: é um alerta sobre desigualdade, gênero, ciência e memória institucional. É também um testemunho da coragem de mulheres e médicos que, muitas vezes invisibilizados, fizeram a diferença e salvaram vidas.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora e documentarista. 


ENTRE O “ELA” E O “NÓS”: A VIDA EM TEMPOS COMPARTILHADOS

 


OS ANOS

ANNIE ERNAUX

FÓSFORO – 1ª ED. – 2021

224 páginas 

Confesso que nas primeiras páginas a leitura se arrastou um pouco — mas isso é breve, e logo o livro nos prende. Annie Ernaux apresenta um relato autobiográfico singular: sem recorrer ao “eu”, ela narra sua vida através do “ela” e do “nós”. Como ela mesma explica, “não se trata de um trabalho de rememoração (...). Ela só vai olhar para si própria buscando encontrar o mundo, a memória e o imaginário dos dias passados”.

O relato se inicia nos anos 1940 e avança até os anos 2000, acompanhando acontecimentos marcantes do mundo e, ao mesmo tempo, a vida cotidiana da autora enquanto mulher inserida nesse contexto. É um retrato profundo da sociedade francesa, de suas atitudes, pensamentos e transformações, apresentado com uma franqueza rara.

Mas Os Anos é também a história de uma mulher comum, cuja vida se entrelaça com a grande História. Ernaux constrói uma ponte entre o pessoal e o coletivo, mostrando como a experiência individual reflete, espelha e é moldada pelo tempo e pelas transformações sociais. A autora consegue assim revelar a memória de uma época sem se colocar como protagonista isolada, tornando seu relato ao mesmo tempo íntimo e universal.

O livro é, portanto, mais do que uma autobiografia: é uma crônica da memória coletiva, um olhar atento sobre os gestos, hábitos, medos e esperanças de gerações inteiras.


Annie Ernaux nasceu em Lillebonne, França, em 1940. É uma escritora. 


DA LUTA SOCIAL À FRAGMENTAÇÃO IDENTITÁRIA

 


O TEMPO DAS PAIXÕES TRISTES

As desigualdades agora se diversificam e se individualizam, e explicam as cóleras, os ressentimentos e as indignações de nossos dias.

FRANÇOIS DUBET

VESTÍGIO – 1ª ED. – 2020

128 páginas 

Tenho estudado a questão das políticas identitárias e das transformações nos modos de organização social, sobretudo quando comparadas às formas clássicas de luta baseadas nas classes sociais. Durante muito tempo, os movimentos sociais se estruturaram como coletivos amplos e múltiplos, movidos por um senso comum de luta e pela busca de melhorias que, ao menos em princípio, visavam o conjunto da sociedade, como nas disputas entre trabalhadores, patrões e capital.

Hoje, assistimos a um processo distinto. Grandes grupos se fragmentam em múltiplas identidades, muitas vezes organizadas em torno do ressentimento, da cólera e da indignação. Não raramente, esses grupos acabam reproduzindo as mesmas formas de violência simbólica — ou mesmo concreta — daqueles que dizem combater: atacam, agridem, ameaçam e inviabilizam o diálogo. Evidentemente, continuam existindo lutas estruturais fundamentais, como o movimento negro, mas, ao lado delas, proliferam inúmeros grupos identitários cuja dinâmica nem sempre favorece o debate público ou a construção do comum.

É nesse contexto que O tempo das paixões tristes se mostra um livro fundamental. Embora o estudo esteja centrado na realidade francesa, onde vive o autor, Dubet oferece ferramentas analíticas que podem ser plenamente mobilizadas no Brasil. Seu foco não é apenas institucional, mas profundamente humano: ele analisa jovens, escolas, trabalhadores, imigrantes, trajetórias individuais e experiências concretas de desigualdade.

Entre todos os livros que li até agora sobre o tema, este foi o que mais contribuiu para minha compreensão do problema. Dubet se pergunta, e nos ajuda a pensar, o que fragmentou as classes sociais, por que as identificações identitárias se intensificaram, de onde surge tanto ressentimento e, em muitos casos, tanto ódio. Em que momento a indignação, que historicamente impulsionou movimentos coletivos voltados à transformação social, se converte em uma multiplicidade de identidades fechadas em si mesmas, tornando o debate público quase impossível?

O autor aponta para um deslocamento decisivo: da identidade múltipla para a identidade fixa. Não sou apenas isto e sou atravessado por muitas dimensões, dá lugar a uma definição rígida do eu, incapaz de se constituir na relação com o outro. O reconhecimento deixa de ser relacional e passa a ser vivido como disputa permanente. A política se empobrece quando o sujeito se fecha exclusivamente em si mesmo.

Como chegamos a esse ponto? Por que esse modelo de identificação se tornou tão potente? São essas as perguntas que Dubet enfrenta — e são também as questões que sigo tentando compreender.


François Dubet nasceu em Périgueux, França, em 1946. É sociólogo e filósofo. 


FASCISMO, GUERRA E CAMPONESES

 


O REFÚGIO

VALERIO MASSIMO MANFREDI

ROCCO – 1ª ED. 2012

352 páginas 

O Refúgio narra a saga da família Bruni — Callisto, Clerice e seus nove filhos, sete homens e duas mulheres. Camponeses simples e trabalhadores, vivem como meeiros em uma propriedade rural, explorados pelos donos da terra, como tantos outros na Itália do início do século XX. Ainda assim, levam uma vida marcada pela solidariedade, pela hospitalidade e por uma certa alegria possível: recebem quem os procura, especialmente no inverno, oferecendo um prato de sopa quente e um lugar para dormir.

Após um dia exaustivo de trabalho no campo, a família se reúne no estábulo para contar histórias. Esses momentos de partilha e oralidade funcionam como um refúgio simbólico: um espaço de memória, afeto e pertencimento que sustenta a família diante das adversidades.

A vida segue seu curso até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, quando os filhos homens são enviados ao front. A guerra irrompe na rotina, altera destinos e impõe ausências definitivas. Após seu término, é preciso recomeçar, mas a paz é frágil. Surgem movimentos que questionam a exploração dos camponeses, e aqueles que ousam sonhar com mudança passam a ser perseguidos pelos camisas pretas, apoiadores do fascismo de Mussolini.

Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, a história se repete sob novas formas. A Itália, inicialmente aliada ao Eixo, muda de posição após a rendição e passa a ser atacada pelos alemães — os mesmos inimigos contra os quais seus soldados haviam lutado na Primeira Guerra. O território se transforma em campo de batalha, e a população civil, mais uma vez, paga o preço das decisões políticas.

Ao acompanhar a trajetória da família Bruni, Manfredi reconstrói a história da Itália a partir de baixo: pela vida dos camponeses, seus costumes, rituais, formas de resistência e sobrevivência. O Refúgio é um romance sensível e potente, que mostra como a grande História atravessa vidas comuns — e como, apesar de tudo, elas seguem buscando abrigo, sentido e continuidade.


Valerio Massimo Manfredi nasceu em Castelfranco Emilia, Itália, em 1943. É historiador, antropólogo, ensaísta, escritor e jornalista italiano. 


A FILOSOFIA COMO RESPOSTA AO MUNDO


 

NO CAFÉ EXISTENCIALISTA

SARAH BAKEWELL

OBJETIVA – 1ª ED. 2017

416 páginas 


Em No Café Existencialista, Sarah Bakewell apresenta a história do existencialismo a partir das vidas de alguns de seus principais pensadores, como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Martin Heidegger, entre outros. O livro se constrói no cruzamento entre biografia e pensamento, mostrando como as ideias existencialistas não surgem no abstrato, mas se formam no contato direto com a experiência, as escolhas e os impasses de uma época.

Ao longo da narrativa, Bakewell explora temas centrais do existencialismo — liberdade, responsabilidade individual, engajamento, angústia e a busca por sentido — sempre ancorando esses conceitos em situações concretas. O existencialismo aparece menos como um sistema fechado e mais como uma resposta viva às circunstâncias históricas e pessoais enfrentadas por seus autores.

Uma das abordagens mais interessantes do livro é a forma como a autora entrelaça o desenvolvimento do existencialismo com a cultura e o clima intelectual do século XX. O movimento é contextualizado na Europa do pós-guerra, marcada pela experiência da guerra total, pelo genocídio e por uma profunda crise de valores e identidade. Nesse cenário, pensar torna-se uma urgência ética, e não apenas um exercício teórico.

Bakewell mostra ainda como o existencialismo ultrapassou os limites da filosofia acadêmica e influenciou a literatura, as artes e a cultura em geral. O movimento tornou-se um fenômeno cultural, presente em romances, peças de teatro, filmes e debates públicos, moldando uma sensibilidade que ainda hoje nos interpela.

No Café Existencialista é uma leitura envolvente e esclarecedora, ideal tanto para quem deseja uma introdução ao existencialismo quanto para quem busca compreender como filosofia, vida e história se entrelaçam de forma indissociável.


Sarah Bakewell nasceu em Bournemouth, Inglaterra, em 1963. É uma autora e professora britânica. 


PARA ALÉM DOS HERÓIS: AS MULHERES NOS MITOS GREGOS

 


MITOS GREGOS: Nas tramas das deusas

CHARLOTTE HIGGINS

ZAHAR – 1ª ED. – 2022

424 páginas 

Já há uma vasta bibliografia sobre mitologia grega, mas Nas tramas das deusas se destaca por um deslocamento fundamental: aqui, são as mulheres que contam — ou, mais precisamente, tecem — os mitos. Charlotte Higgins se apropria do tear, uma das principais atribuições femininas na Grécia antiga, para estruturar a narrativa e conduzir o leitor por mitos amplamente conhecidos e também por outros menos recorrentes.

Em cada etapa, em cada capítulo, há uma mulher tecendo. E, com ela, emerge uma perspectiva distinta, uma nova inflexão interpretativa que se afasta da versão heroica tradicional. Não se trata de negar os mitos, mas de mudar o ponto de vista: ao invés dos grandes heróis masculinos, o foco recai sobre as experiências femininas, marcadas por violência, engano, silenciamento  e, em alguns casos, por reação e resistência.

Essa mudança de olhar revela o quanto as mulheres sofrem nos mitos: são frequentemente estupradas, traídas, instrumentalizadas pelos deuses e pelos homens. Ao trazer essas experiências para o centro da narrativa, Higgins nos permite perceber dimensões que costumam ser naturalizadas ou apagadas nas leituras clássicas.

O mérito do livro está justamente em oferecer interpretações que soam diferentes sem trair o material mitológico. Quando os mitos parecem não corresponder à versão mais conhecida, isso se deve ao uso de fontes distintas da tradição grega, todas cuidadosamente indicadas ao final do livro, para quem deseja aprofundar a pesquisa. Nos poucos momentos em que a autora se permite maior liberdade interpretativa, isso também é explicitado com transparência.

Nas tramas das deusas é uma leitura instigante, que não reescreve os mitos, mas os reinscreve a partir de um outro lugar: o das mulheres que, mesmo confinadas ao tear, sempre estiveram produzindo sentido, memória e narrativa.


Charlotte Higgins nasceu em Stoke-on-Trent, Reino Unido, em 1972. É uma escritora e jornalista britânica. 


UM VÍNCULO MARCADO PELA FILOSOFIA E PELO NAZISMO

 



HANNAH ARENDT E MARTIN HEIDEGGER: História de um amor

ANTONIA GRUNENBERG

PERSPECTIVA – 1ª ED. 2019

416 páginas 

Neste livro, Antonia Grunenberg reconstrói a relação entre Hannah Arendt e Martin Heidegger desde o início até o fim, acompanhando não apenas o vínculo afetivo entre ambos, mas também o contexto intelectual da filosofia alemã do período. O leitor é conduzido a um momento em que Heidegger se tornava uma referência central, atraindo estudantes de várias partes da Europa e estabelecendo diálogos intensos com outros filósofos, entre eles Karl Jaspers — grande amigo de Arendt e, por um tempo, também ligado a Heidegger, até que essa amizade se deteriorasse em razão do envolvimento deste com o nazismo.

O livro deixa claro que, embora Heidegger tenha exercido profunda influência sobre a formação intelectual de Arendt, ela nunca permaneceu à sua sombra. Ao contrário, afasta-se, constrói seu próprio universo conceitual e elabora uma filosofia singular — ainda que recusasse essa denominação, preferindo se definir como cientista política. Em Arendt, pensar nunca foi um exercício abstrato desligado do mundo, mas uma atividade intrinsecamente vinculada à experiência histórica e à vida pública.

Grunenberg permite compreender, ainda que parcialmente, o modo como o pensamento de ambos se desenvolveu e como Heidegger se envolveu com o regime nazista. É possível perceber suas expectativas em relação ao movimento e a frustração subsequente, ao constatar que os nazistas não estavam interessados no pensamento, mas no controle. Ainda assim, Heidegger jamais reconheceu publicamente a gravidade desse erro, o que lhe custou críticas severas e o afastamento de muitos admiradores.

Arendt, por sua vez, desloca-se do pensamento puro para a ação e para a vida. Judia, viveu a perseguição nazista, foi obrigada ao exílio e acabou se estabelecendo nos Estados Unidos com o marido, onde permaneceu até o fim de sua vida. Dotada de um espírito analítico agudo, estava à frente de muitos de seus contemporâneos e continua sendo. Até hoje, Eichmann em Jerusalém provoca incompreensões, ataques e rejeições, tendo lhe rendido críticas duras, desafetos e a perda de amizades. Para Arendt, isso era particularmente doloroso, pois sempre insistiu na distinção entre obra e pessoa: critiquem o pensamento, não o indivíduo em sua esfera pessoal.

Hannah Arendt e Martin Heidegger: História de um amor é uma leitura instigante para quem se interessa por filosofia e política, mas também para quem deseja compreender como afetos, escolhas éticas e contextos históricos atravessam — e por vezes comprometem — o pensamento.


Antonia Grunenberg nasceu em 1944. É uma cientista política alemã, pesquisadora do totalitarismo e especialista no pensamento político de Hannah Arendt. 




VER A GUERRA É TAMBÉM UMA RESPONSABILIDADE ÉTICA


 

É ISSO QUE EU FAÇO: Uma vida de amor e guerra

LYNSEY ADDARIO

INTRÍNSECA – 2016

352 páginas 


Nesta autobiografia, a fotógrafa de guerra Lynsey Addario nos conduz por alguns dos cenários mais violentos do mundo contemporâneo. Fome, miséria, medo, mortes, lutos, deslocamentos forçados. O livro nos expõe a realidades que, muitas vezes, só conhecemos por imagens rápidas nos noticiários. A leitura provoca uma pergunta incômoda e inevitável: e se fosse eu? O que significa viver em meio a conflitos armados, com bombas explodindo sobre casas, com a morte como presença cotidiana?

Addario nos aproxima de guerras que parecem distantes, mas cujas consequências atravessam fronteiras. Ela narra estupros em campos de refugiados, a vulnerabilidade extrema de mulheres e crianças, a precariedade absoluta da vida quando o Estado deixa de existir como proteção. Suas palavras e imagens desmontam qualquer tentativa de romantização da guerra.

O livro também nos obriga a confrontar nossas próprias contradições. Vemos, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, manifestações contra imigrantes e refugiados — mas o Brasil não está à margem desse processo. Houve e ainda há revoltas contra venezuelanos, haitianos e outros povos que fogem da fome, da violência e do colapso social. A pergunta que o livro insiste em nos fazer é simples e devastadora: para onde essas pessoas deveriam ir?

Ao dedicar sua vida a fotografar dor, destruição e morte, Addario não o faz por voyeurismo, mas por uma ética do testemunho. Seu trabalho parte da esperança de que aqueles que não vivem a guerra, aqueles que acreditam estar protegidos por fronteiras e privilégios, consigam, ao menos, enxergar. Enxergar que, mesmo em pleno século XXI, mesmo após o horror do Holocausto nazista, violências extremas continuam acontecendo.

É Isso Que Eu Faço nos lembra que ainda não podemos dizer, com honestidade, “Nunca Mais”. O mundo segue produzindo zonas de exceção, corpos descartáveis e vidas consideradas sacrificáveis. O livro é um chamado incômodo à responsabilidade: ver, saber e não fingir que não é conosco.


Lynsey Addario nasceu em Westport, Connecticut, EUA, em 1973. É fotojornalista. 


A HISTÓRIA SILENCIADA DA HANSENÍASE NO BRASIL

 


A PRAGA: O holocausto da hanseníase

Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos leprosários do Brasil

MANUELA CASTRO

GERAÇÃO EDITORIAL – 1ª ED. – 2017

280 páginas 

Em A Praga, Manuela Castro traz à tona uma das páginas mais violentas e silenciadas da história brasileira: a política de isolamento compulsório das pessoas diagnosticadas — ou apenas suspeitas — de hanseníase. Mais do que uma narrativa médica, o livro revela um projeto de exclusão social legitimado pelo Estado, sustentado pelo medo, pelo estigma e pela desumanização.

No Brasil, homens e mulheres eram arrancados de suas casas, afastados das famílias e confinados em leprosários. O pânico social era tão intenso que, muitas vezes, eram os próprios familiares que denunciavam os suspeitos. No caso das mulheres grávidas, a violência se aprofundava: seus bebês eram retirados imediatamente após o nascimento, sem qualquer possibilidade de vínculo, e enviados para educandários. Muitos eram transportados em cestas, junto a outros recém-nascidos, chamados cruelmente de “ninhada de leprosos”.

As consequências dessa política sanitária foram devastadoras. Milhares de pessoas passaram décadas confinadas, enquanto seus filhos cresciam separados, igualmente marcados pelo estigma. O livro expõe, sem rodeios, os maus-tratos sofridos nesses espaços: surras, castigos, humilhações e, de forma ainda mais trágica, casos de abuso sexual contra meninas institucionalizadas. A violência não era exceção — era estrutural.

O que mais choca é constatar que, mesmo após a comprovação da cura da hanseníase, o Brasil levou anos para pôr fim ao confinamento obrigatório. Quando finalmente libertas, essas pessoas se viram sem lugar no mundo: não tinham para onde ir, não conseguiam trabalho e continuaram sendo tratadas como párias sociais. O estigma não terminou com o fim do isolamento — ele se perpetuou.

Muitos acabaram permanecendo nas antigas colônias, que só muito recentemente começaram a ter seus territórios reconhecidos legalmente, com a concessão de títulos de propriedade. Foi necessária uma longa e árdua luta para que o Estado assumisse minimamente sua responsabilidade. Durante o governo Lula, foi sancionada a lei que concedeu pensão vitalícia aos ex-internos que ficaram impossibilitados de trabalhar. Hoje, a luta segue sendo travada pelos filhos, igualmente afetados por essa política de exclusão, em busca do mesmo reconhecimento e reparação.

A Praga é um livro duro, necessário e profundamente político. Ele nos obriga a encarar como o medo, quando institucionalizado, pode se transformar em uma máquina de produção de sofrimento — e como certas formas de violência continuam ecoando por gerações.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

SEXO COMO SAGRADO OU COMO PECADO


 

SEXO E RELIGIÃO: Do baile de virgens ao sexo sagrado homossexual

DAG OISTEIN ENDSJO

GERAÇÃO EDITORIAL - 2014

376 páginas 


Este livro trata de como as diversas religiões do mundo compreendem o sexo. Para algumas, ele é sagrado; para outras, o pior dos pecados. A leitura é instigante justamente por revelar essas diferenças, que nos levam a refletir sobre múltiplos aspectos das religiões e também sobre o mundo contemporâneo.

O autor não se limita ao passado: traz muitos exemplos atuais, principalmente da Noruega, país de onde é originário. A pergunta central que ele procura responder é por que o sexo é tão importante para as religiões — ao menos para a maioria delas.


Dag Oistein Endsjo é um cientista da religião norueguês. 


O LADO HUMANO DO CONFLITO ALÉM DOS DISCURSOS


 

UCRÂNIA:  DIÁRIO DE UMA GUERRA

ANDREI KURKOV

CARAMBAIA – 1ª ED. 2025

392 páginas 


Este livro é o diário de guerra da Ucrânia escrito pelo autor ucraniano Andrei Kurkov.

O diário inicia-se pouco antes do começo da guerra e vai até o início de 2024. Muitas coisas aconteceram depois, mas trata-se de um livro que traz ricas informações sobre o povo ucraniano, sua história e, obviamente, sobre a guerra e tudo o que ela provoca na população civil. Há aquilo que, se é possível dizer assim, surge como “bom” em meio ao horror — a solidariedade, a generosidade, a determinação e a persistência — mas também a destruição, o medo, a fuga deixando para trás tudo o que se tem, as mortes e o luto.

Li recentemente o diário de um palestino em Gaza. São contextos distintos, mas em ambos se mantém o horror da guerra: a destruição, as mortes, o luto, e também a generosidade e a solidariedade. Em Gaza, não há para onde escapar, não existe sequer uma zona um pouco mais segura, como no caso da Ucrânia, onde o oeste do país ainda oferece algum refúgio. Em Gaza, trata-se de uma limpeza étnica. Ainda assim, há muitos pontos em comum no plano humano: as reações, os sentimentos, as perdas.

O autor é russo de nascimento, mas posiciona-se a favor do Ocidente. Entre seus amigos e conhecidos, há também muitos pró-Rússia. É notório que a Ucrânia é um país multiétnico: russos e ucranianos conviviam muito bem, casavam-se entre si, a grande maioria das famílias é mista e praticamente todos falam as duas línguas. Aqui temos o ponto de vista de quem está vivendo a guerra, independentemente das disputas geopolíticas ou dos posicionamentos ocidentais ou russos. Apesar de todos terem suas opiniões, o que se revela é o cotidiano da guerra, as lembranças de um tempo de democracia e também do período soviético, e um desejo profundo de liberdade, autonomia e democracia.

Infelizmente, a guerra trouxe consigo o ódio aos russos, motivado por experiências reais: casas destruídas, familiares mortos, aldeias e cidades bombardeadas, plantações perdidas, territórios invadidos. E isso é um fato, seja sob uma perspectiva pró-Ocidente ou pró-Rússia: trata-se de uma invasão. Antes havia respeito e liberdade para seguir tradições russas ou ucranianas, algo que aos poucos vem sendo proibido, como o ensino da língua russa nas escolas, o que, no entanto, não impede que o povo continue falando-a no cotidiano.


Andrei Kurkov nasceu em Budogoshch, Rússia, em 1961. É um romancista ucraniano


O ACORDO NÃO DITO QUE SUSTENTA A EXCLUSÃO


 

O PACTO DA BRANQUITUDE

CIDA BENTO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2022

152 páginas 

Cida Bento apresenta um estudo fundamental sobre a discriminação racial no mundo do trabalho, evidenciando os mecanismos sutis, e profundamente eficazes, que impedem a contratação de pessoas negras, sobretudo para cargos de maior prestígio e melhor remuneração. Trata-se de um sistema que perpetua desigualdades sociais, mantendo a população negra com menores possibilidades de ascensão social e econômica.

A autora explica como esse funcionamento se sustenta por meio do que denomina um pacto narcísico entre brancos: um acordo silencioso de autoproteção, no qual privilégios são preservados e reproduzidos. Esse pacto se revela, por exemplo, quando pessoas brancas se sentem “excluídas” ao perceberem a presença de três pessoas negras em um grupo de dez — uma reação que beira o absurdo, mas que escancara a lógica da desigualdade racial no Brasil.

Basta observarmos espaços como empresas, universidades, clubes e instituições de poder para constatar que, apesar de a maioria da população brasileira ser negra, os lugares de destaque continuam majoritariamente ocupados por pessoas brancas. O que se apresenta como neutralidade ou mérito é, na verdade, a reprodução histórica de privilégios.

Ao nomear os “brancos” como grupo racial, Cida Bento rompe com a falsa ideia de universalidade. Dar nome à branquitude é também revelar que aqueles que se pensam neutros e superiores têm cor, história e interesses — e que a desigualdade racial não é um desvio do sistema, mas parte estruturante dele.


Maria Aparecida da Silva Bento, conhecida como Cida Bento, nasceu em São Paulo, em 1952. É psicóloga.