quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SAÚDE PÚBLICA, DESIGUALDADE E ESCUTA

 


PACIENTES QUE CURAM: O cotidiano de uma médica do SUS

JULIA ROCHA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. - 2020

304 páginas 

Júlia Rocha relata o dia a dia em uma unidade do SUS localizada em uma região marcada pela pobreza e pela desigualdade social. Como a própria autora afirma, foi nesse contexto que ela aprendeu, e se deu conta, do quanto quem não vive essa realidade desconhece completamente o que ela significa. Esse distanciamento produz inúmeros preconceitos e ideias equivocadas sobre as pessoas que ali vivem. De um lado, estão aqueles que têm direitos e conseguem exercê-los; de outro, os que sequer sabem que esses direitos existem.

O livro é composto por histórias comoventes, que retratam com dureza e humanidade a realidade desses pacientes. Trata-se, sobretudo, de uma defesa da humanização no atendimento à saúde. Júlia Rocha chama a atenção para o fato de que a maioria dos médicos vem de famílias com melhores condições financeiras, já que a faculdade de medicina é extremamente cara. São profissionais que, em geral, não compartilham a vivência social de seus pacientes e, por isso, precisam aprender, antes de tudo, a ouvir.

Muitas vezes, o que aparece como uma doença física é, na verdade, consequência direta das condições de vida. A autora relata o caso de uma mulher que se queixava de dores constantes, mas que era vítima de estupro. Não havia medicamento capaz de eliminar definitivamente aquela dor, pois sua origem não estava no corpo, mas na violência sofrida. Júlia Rocha também critica médicos que, diante do sofrimento dessas pessoas, recorrem automaticamente à prescrição de antidepressivos. Como ela mesma afirma, “curam o machismo com antidepressivos”.

São mulheres que apanham, que são abandonadas, que vivem sob múltiplas formas de violência. O que elas precisam, antes de tudo, é serem ouvidas. É necessário conhecer suas histórias, tentar ajudá-las e encaminhá-las para acompanhamento psicológico no próprio posto de saúde, em vez de simplesmente medicá-las.

A leitura é altamente recomendada. Para quem não é médico, o livro funciona como um verdadeiro banho de realidade, capaz de provocar reflexões profundas e contribuir para o enfrentamento do racismo, do preconceito e da desumanização ainda tão presentes na sociedade brasileira.

 

Julia Rocha nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1983. É médica, cantora, escritora e compositora brasileira. 



QUANDO O SAGRADO TINHA ROSTO DE MULHER


 

QUANDO DEUS ERA MULHER

MERLIN STONE

GOYA – 1ª ED. – 2022.

304 páginas 


Li este livro inicialmente em francês e, quando saiu a edição em português, fiz a releitura. Merlin Stone dedicou-se ao estudo da história da Deusa, realizando uma pesquisa extensa e cuidadosa, que resulta nesta obra fundamental sobre a religião da Deusa e sobre os processos históricos de seu apagamento e supressão.

A Deusa aparece sob múltiplos nomes, mas está presente de forma recorrente nas sociedades da Antiguidade, assim como as sacerdotisas responsáveis por seu culto. O livro demonstra que houve um longo período em que a organização política, social, econômica e cultural girava em torno da mulher. Com o tempo, deidades masculinas passaram a ser introduzidas, inicialmente como consortes, amantes ou filhos da Deusa, até que, gradualmente, ocorre seu apagamento quase total — processo que se intensifica com a imposição das religiões monoteístas.

Stone evidencia como a construção e a escrita da Bíblia estiveram profundamente comprometidas com a eliminação da Deusa do imaginário religioso e simbólico, mostrando que esse apagamento não se deu de forma simples ou imediata, mas exigiu um esforço sistemático e prolongado.

Atualmente, muitos tratam essa religião como lenda ou mito. As sacerdotisas e curandeiras passaram a ser vistas como bruxas, e o sexo sagrado foi rebatizado como “prostituição sagrada”, termo com o qual não concordo. Não se tratava de prostituição; essa é uma leitura masculina e patriarcal que distorce práticas rituais profundamente ligadas à sacralidade, à fertilidade e à vida.

O livro é considerado um dos principais textos teológicos dedicados a esse período da história e permanece uma leitura fundamental para compreender a relação entre religião, poder e o apagamento do feminino ao longo do tempo.


Merlin Stone nasceu em Flatbush, Nova Iorque, EUA, em 1931 e faleceu em Daytona Beach, Flórida, EUA, em 2011. Foi uma escritora e acadêmica estadunidense. 


UMA RAINHA FORA DA SOMBRA DO FARAÓ

 

NEFERTITI – SACERDOTISA, DEUSA E FARAÓ

ANNA CRISTINA FERREIRA DE SOUZA

MADRAS – 1ª ED. - 2020

160 páginas 

Neste livro, Anna Cristina Ferreira de Souza analisa a figura de Nefertiti a partir da arte do período de Amarna. A autora aborda a XVIII dinastia e seus reinados, mas, para mim, o aspecto mais relevante da obra é a maneira como ela trabalha a religião egípcia, contribuindo para a compreensão de conceitos fundamentais como o monismo, a complementaridade e os princípios associados ao feminino naquele contexto: fertilidade, maternidade e maturidade.

O livro discute também, ainda que de forma breve, a diferença entre monoteísmo e monolatria — distinção que considero especialmente importante. É comum ouvir que Akhenaton e Nefertiti teriam instaurado o primeiro monoteísmo da história, o que não é correto. O monoteísmo pressupõe a existência de um único Deus, enquanto, no Egito, o culto a Aton se configura como monolatria: a centralidade de um deus principal, sem a negação da existência de outros, como Ísis e Osíris. Essa diferenciação, muitas vezes ignorada, é um dos pontos mais esclarecedores do livro.

Após uma introdução extremamente instigante, que contextualiza esses elementos religiosos e simbólicos, a autora se volta diretamente para Nefertiti, com ênfase em sua função social e política. A rainha não aparece como figura secundária ou decorativa, mas como uma presença ativa no poder, visível nas representações artísticas e nas práticas do período.

Nefertiti não esteve à sombra do faraó. Ao contrário, surge como parte de uma lógica de complementaridade entre o masculino e o feminino, característica da cosmovisão egípcia, e como expressão de um modelo de poder que não se organizava exclusivamente pela hierarquia e pela exclusão. Nesse sentido, o livro contribui para deslocar leituras tradicionais e recolocar Nefertiti no lugar que lhe foi historicamente negado: o de protagonista.


COMO A ARQUEOLOGIA DESMONTA AS TEORIAS PATRIARCAIS


 

LADY SAPIENS: Como as mulheres inventaram o mundo

THOMAS CIROTTEAU – JENNIFER KERNER – ÉRIC PINKAS

BUZZ EDITORA – 1ª ED. – 2024.

208 páginas 

Li este livro em francês e fiquei muito feliz ao ver sua tradução publicada este ano. O título me atraiu imediatamente: estamos acostumados a ouvir falar do Homo sapiens, e, de repente, surge a Lady Sapiens. Durante muito tempo, ninguém falava das mulheres nos períodos paleolítico e neolítico. Quando comecei a estudar esse recorte para escrever meu livro, havia pouquíssimas informações disponíveis. Subitamente, porém, as pesquisas começaram a emergir e a ser publicadas e esta obra é um exemplo significativo desse movimento.

Em 2019, uma descoberta bastante recente, a estatueta da Vênus de Renancourt, na França, colocou em xeque muitas interpretações consolidadas sobre o período. O livro relata essa descoberta e mostra como ela contribuiu para rever concepções anteriores sobre o papel das mulheres na chamada “pré-história”.

Os autores são pesquisadores da área e apresentam uma série de informações novas, resultantes tanto de descobertas arqueológicas recentes quanto das revisões possibilitadas pelo uso do DNA antigo. Essas análises têm revelado dados muito diferentes daqueles que sustentaram, por décadas, interpretações marcadas por pressupostos patriarcais do século XIX.

Com foco explícito nas mulheres, Lady Sapiens desmonta a imagem do homem como protagonista exclusivo da invenção do mundo humano. O livro evidencia a centralidade das mulheres na organização social, na transmissão de saberes, nas práticas simbólicas e na sobrevivência coletiva, contribuindo para uma reescrita profunda das origens da humanidade.

Reler a obra agora em português reforça sua importância: trata-se de um livro que não apenas divulga descobertas recentes, mas participa ativamente da transformação da narrativa sobre o passado, abrindo espaço para uma história mais complexa, menos hierárquica e mais fiel à diversidade das experiências humanas.


Thomas Cirotteau nasceu em 1975. É escritor e diretor de cinema.


 Jennifer Kerner nasceu em 1987. É professora de Pré-História na Universidade Paris Nanterre e pesquisadora associada ao Museu do Homem e do Museu Nacional de História Natural, Paris.


Éric Pinkas é escritor e editor chefe da revista francesa História. 


RELIGIÃO, DIREITO E PENSAMENTO NA MESOPOTÂMIA


 

NO COMEÇO ERAM OS DEUSES

JEAN BOTTÉRO

CIVILICAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. - 2011

 309 páginas 

Este livro do historiador Jean Bottéro me ensinou muito — e, sobretudo, desmontou várias ideias que eu tinha como dadas. Com foco na Mesopotâmia, a obra é composta por uma série de artigos nos quais Bottéro reconstrói aspectos centrais do pensamento, da religião e da vida cotidiana mesopotâmica.

Um dos textos que mais me impactou, talvez pela minha própria ignorância anterior, é o dedicado ao chamado “Código de Hamurabi”. Bottéro demonstra que ele não deve ser entendido como um código de leis no sentido moderno, como eu acreditava, mas algo muito mais próximo do que hoje chamaríamos de jurisprudência. Trata-se de uma compilação de decisões tomadas por Hamurabi diante de situações concretas, reunidas como modelos para julgamentos futuros — o que altera profundamente a forma como compreendemos o direito nesse contexto histórico.

Outro ensaio particularmente marcante é o que trata da moral e do pecado, ao evidenciar as diferenças profundas entre as crenças mesopotâmicas e a tradição judaico-cristã. Bottéro mostra como conceitos que hoje consideramos universais são, na verdade, construções históricas específicas, e como outras civilizações pensaram a relação entre deuses, humanos, culpa e responsabilidade de maneira muito distinta.

O livro aborda ainda temas variados, como a culinária, o amor, o direito das mulheres e a figura das prostitutas — aspecto que, no meu caso, foi especialmente relevante. Bottéro escapa de leituras moralizantes e restitui a complexidade social dessas figuras, situando-as em seu tempo e em suas funções simbólicas e práticas.

A obra traz também a tradução do Poema do Supersábio, um mito fundador mesopotâmico que eu desconhecia, acompanhada de uma análise brilhante. Esse texto, em particular, amplia o entendimento da cosmovisão mesopotâmica e de sua maneira de pensar a origem do mundo, o saber e a relação com o divino.

No começo eram os deuses é um livro que abre horizontes. Trouxe-me muitas informações até então desconhecidas e obrigou a rever certezas sedimentadas. Por isso, a leitura vale e muito a pena.vro do historiador Jean Bottéro me ensinou muito — e, sobretudo, desmontou várias ideias que eu tinha como dadas. Com foco na Mesopotâmia, a obra é composta por uma série de artigos nos quais Bottéro reconstrói aspectos centrais do pensamento, da religião e da vida cotidiana mesopotâmica.

Um dos textos que mais me impactou, talvez pela minha própria ignorância anterior, é o dedicado ao chamado “Código de Hamurabi”. Bottéro demonstra que ele não deve ser entendido como um código de leis no sentido moderno, como eu acreditava, mas algo muito mais próximo do que hoje chamaríamos de jurisprudência. Trata-se de uma compilação de decisões tomadas por Hamurabi diante de situações concretas, reunidas como modelos para julgamentos futuros — o que altera profundamente a forma como compreendemos o direito nesse contexto histórico.

Outro ensaio particularmente marcante é o que trata da moral e do pecado, ao evidenciar as diferenças profundas entre as crenças mesopotâmicas e a tradição judaico-cristã. Bottéro mostra como conceitos que hoje consideramos universais são, na verdade, construções históricas específicas, e como outras civilizações pensaram a relação entre deuses, humanos, culpa e responsabilidade de maneira muito distinta.

O livro aborda ainda temas variados, como a culinária, o amor, o direito das mulheres e a figura das prostitutas — aspecto que, no meu caso, foi especialmente relevante. Bottéro escapa de leituras moralizantes e restitui a complexidade social dessas figuras, situando-as em seu tempo e em suas funções simbólicas e práticas.

A obra traz também a tradução do Poema do Supersábio, um mito fundador mesopotâmico que eu desconhecia, acompanhada de uma análise brilhante. Esse texto, em particular, amplia o entendimento da cosmovisão mesopotâmica e de sua maneira de pensar a origem do mundo, o saber e a relação com o divino.

No começo eram os deuses é um livro que abre horizontes. Trouxe-me muitas informações até então desconhecidas e obrigou a rever certezas sedimentadas. Por isso, a leitura vale e muito a pena.


Jean Bottéro nasceu em Vallauris em 1914 e faleceu em Gif-sur-Yvette, França. Foi um historiador francês, assiriólogo, especialista no Antigo Oriente. 



CONJUGAR O MUNDO A PARTIR DO CUIDADO, DA ESCUTA E DA DESOBEDIÊNCIA FEMINISTA

 


ESPERANÇA FEMINISTA

DEBORA DINIZIVONE GEBARA

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. 2022

280 páginas 

Um livro magnífico, um dos mais belos que li nos últimos tempos sobre o feminismo. As autoras selecionam alguns verbos — como escutar, falar, compartilhar, entre outros — e, a partir de cada um deles, tecem reflexões sobre como compreendem a conjugação desses verbos à luz de uma esperança feminista.

Débora nos traz suas experiências: como saiu de um lugar de mulher branca privilegiada para a compreensão das muitas outras mulheres que vivem realidades distintas. Mostra como passou a perceber o quanto o sistema patriarcal estava entranhado em seus pensamentos, atitudes e ideias, e como aprendeu a estranhar o patriarcado. Seu texto sobre o verbo escutar é belíssimo.

Ivone dispensa apresentações. Ela é sensacional. Com uma veia profundamente poética, vai conjugando os verbos, sempre desobedecendo ao que não considera correto, sempre nos convidando a pensar para além do lugar comum.

E se, no princípio, era o verbo, talvez o que precisemos hoje seja aprender a conjugá-lo com amor, solidariedade e sororidade — sabendo, antes de tudo, ouvir, para depois falar.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora, ensaísta e documentarista brasileira.


Ivone Gebara nasceu em São Paulo em 1944. É uma freira católica, filósofa e teóloga feminista brasileira. 


 


UM MITO FUNDADOR E SUAS LEITURAS AO LONGO DO TEMPO

 



ASCENSÃO E QUEDA DE ADÃO E EVA

STEPHEN GREENBLATT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2018

392 páginas 

Provavelmente o mito de origem mais conhecido no Ocidente é o de Adão e Eva. Em Ascensão e Queda de Adão e Eva, Stephen Greenblatt retoma esse mito fundador e o esmiúça com atenção histórica e cultural. Trata-se de um relato que atravessa séculos e permanece ativo até os dias atuais, exercendo influência profunda sobre a moral, a arte, a religião e o pensamento ocidental.

Para a história das mulheres, esse mito é fundamental. Nele se consolida a imagem de Eva como a pecadora, a sedutora, aquela que provoca a queda e inaugura o pecado original. Uma narrativa que, reiterada ao longo do tempo, sustentou justificativas teológicas, morais e sociais para a subordinação feminina.

Greenblatt percorre as múltiplas leituras feitas do mito, examinando sua presença nas artes visuais, na literatura, na psicologia, na moral cristã e até mesmo na ciência. A análise passa por autores que se debruçaram intensamente sobre o texto bíblico, como Santo Agostinho, empenhado em provar sua historicidade; Albrecht Dürer, com suas representações visuais do casal primordial; e John Milton, em seu magistral Paraíso Perdido.

O autor inicia contextualizando o período em que o mito foi escrito e amplia o horizonte ao aproximá-lo de outras narrativas cosmogônicas, como o Enuma Elish e a Epopeia de Gilgamesh. Dessa forma, o livro revela como a história de Adão e Eva foi sendo reinterpretada ao longo do tempo e como sua influência ultrapassa em muito o campo estritamente religioso, moldando visões de mundo, concepções de gênero e estruturas de poder.


Stephen Greenblatt nasceu em Boston, EUA, em 1943. É um teórico e crítico literário. 




PROSPERIDADE, COLAPSO E AS LIÇÕES INCÔMODAS DA ANTIGUIDADE


 

1177: O ANO EM QUE A CIVILIZAÇÃO ENTROU EM COLAPSO

ERIC H. CLINE

AVIS RARA – 1ª ED. - 2023

224 páginas 


Ao estudar a Antiguidade, comecei a me perguntar como foi possível que civilizações inteiras — como a Mesopotâmia, a Assíria ou o Egito dos faraós — simplesmente desaparecessem. Não falo apenas de derrotas militares, conquistas ou mudanças de poder, mas do desaparecimento literal de grandes cidades, que deixam de existir e de ocupar qualquer lugar na história.

Este livro tenta responder a essa pergunta. Ainda hoje, arqueólogos e historiadores não conseguem afirmar com total certeza o que ocorreu no final da Idade do Bronze, mas há vestígios suficientes para levantar hipóteses bastante plausíveis. Eric H. Cline apresenta essas hipóteses com rigor e clareza, conduzindo o leitor por um período marcado tanto pela prosperidade quanto pela fragilidade.

Mais do que explicar um colapso, o autor reconstrói todo o panorama do final da Idade do Bronze e demonstra o quanto aquelas civilizações, cidades e povos estavam profundamente conectados entre si. Havia intensas redes de comércio, trocas diplomáticas e circulação de bens, ideias e tecnologias. A tese central de Cline é provocadora: muito antes da era contemporânea, já existia algo que podemos chamar, sem exagero, de globalização.

Foi um período de grande desenvolvimento, riqueza e interdependência — e justamente por isso vulnerável. Por volta de 1177 A.E.C., esse mundo entrou em colapso. O que aconteceu? É essa pergunta que atravessa o livro.

Ao final, 1177 deixa também um alerta inquietante para o presente. Ao mostrar que a extrema interdependência entre aqueles povos contribuiu para o colapso sistêmico, o autor sugere paralelos incômodos com o mundo atual. O fim da Idade do Bronze abriu caminho para uma nova era — a da Grécia Clássica —, mas não sem perdas profundas. A leitura convida a refletir sobre até que ponto sociedades altamente conectadas são também estruturalmente frágeis.


             Eric H. Cline nasceu em Washington D.C., EUA, em 1960. É historiador, arqueólogo e escritor


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

QUANDO ATÉ O AFETO É ATRAVESSADO PELA FOME

 

VIDAS SECAS

GRACILIANO RAMOS

RECORD - 1984

155 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE

Vidas Secas é um daqueles livros lidos na juventude que permanecem como imagem, quase como cicatriz. No meu caso, o que ficou de forma mais nítida foi a morte de Baleia. Não apenas por ser uma cadela, mas porque Graciliano Ramos consegue concentrar nela uma humanidade que, ao longo do livro, vai sendo arrancada dos próprios personagens humanos. Baleia sonha, sente, imagina um mundo melhor, algo que a seca, a fome e a miséria já haviam tornado quase impossível para Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos.

A seca não é apenas um fenômeno natural no romance; ela é estrutura de vida, destino imposto, força que empurra à migração, ao deslocamento contínuo, à perda de qualquer possibilidade de enraizamento. A família caminha, trabalha, foge, retorna, sempre sem escolha. A migração não é aventura, é expulsão. O sertão não aparece como espaço mítico, mas como lugar de sobrevivência mínima, onde o tempo se repete sem promessa.

O que impressiona em Vidas Secas é a linguagem seca, contida, quase árida, que acompanha a experiência dos personagens. Há pouco espaço para elaboração emocional, porque a própria vida não oferece esse espaço. A violência é cotidiana, a humilhação é naturalizada, o silêncio é uma forma de existência. Graciliano escreve como quem retira tudo o que é excesso, deixando apenas o essencial — e o essencial é duro.

Mesmo lido muito jovem, o livro já se impõe como denúncia. Não há heroísmo, não há redenção. Há apenas a exposição de um Brasil que empurra seus habitantes para fora de si mesmos. A morte de Baleia, tão lembrada, talvez seja o momento mais doloroso justamente porque revela o quanto a sensibilidade ainda resiste ali, mesmo em condições extremas.

Voltar a Vidas Secas hoje é perceber que ele continua atual. A seca, a migração forçada, a pobreza estrutural, o deslocamento de populações inteiras seguem presentes. O romance permanece como um espelho incômodo, que nos obriga a perguntar até que ponto essa história realmente ficou no passado — ou se seguimos, de outras formas, caminhando sob o mesmo sol.


Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro. 


A VIOLÊNCIA FRIA DO PODER E O SILENCIAMENTO FEMININO

 

SÃO BERNARDO

GRACILIANO RAMOS

RECORD – 109ª ED. – 2019

288 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


São Bernardo é um romance que permanece na memória não pelos acontecimentos espetaculares, mas pela atmosfera de secura que atravessa tudo: a linguagem, as relações, os afetos. Lido ainda na juventude, o que mais me marcou foi a situação da mulher de Paulo Honório: a maneira como ela é tratada com frieza, desconfiança e progressivo apagamento, num ambiente onde o poder masculino se exerce como posse.

Paulo Honório é um personagem árido, endurecido pela ambição e pela lógica da propriedade. Tudo para ele é cálculo, domínio, resultado. Essa forma de estar no mundo se estende à relação conjugal: a mulher não é parceira, mas parte do patrimônio, algo que deve obedecer, se ajustar, permanecer silencioso. O amor, se existe, aparece deformado pela incapacidade de lidar com o outro como alteridade.

A violência em São Bernardo não é estridente. Ela se manifesta no controle, na vigilância, no ciúme paranoico, na redução da mulher a um objeto suspeito. A aridez do personagem masculino é também emocional: Paulo Honório não sabe escutar, não sabe compartilhar, não sabe amar sem dominar. E é justamente essa incapacidade que conduz à destruição do vínculo e à tragédia.

A figura da esposa — intelectual, sensível, deslocada naquele universo — funciona como contraste absoluto. Ela representa tudo o que Paulo Honório não compreende e não tolera: pensamento, dúvida, palavra, autonomia. Seu sofrimento não é apenas individual, mas estrutural: é o sofrimento de uma mulher inserida em um mundo moldado por homens para homens, onde não há espaço para fragilidade, reflexão ou dissenso.

Reler São Bernardo hoje é perceber o quanto Graciliano Ramos constrói uma crítica profunda às formas masculinas de poder. O romance não absolve seu narrador. Ao contrário, deixa exposta a pobreza afetiva de um homem que conquistou tudo, menos a capacidade de se relacionar sem destruir.

Talvez seja isso que torna o livro tão incômodo e tão atual: ele mostra que a violência não está apenas nos gestos brutais, mas também, e sobretudo, na frieza cotidiana, na lógica da posse e no silenciamento sistemático das mulheres.

Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro. 




DESEJO, INCONFORMISMO E O CASTIGO DA TRANSGRESSÃO

 


MADAME BOVARY

GUSTAVE FLAUBERT

NOVA ALEXANDRIA – 3ª ED. - 2007

432 páginas 

Madame Bovary é um romance que provoca leituras contraditórias — e talvez por isso continue tão atual. O que mais me chamou a atenção foi a figura de uma mulher que não se conforma com a vida que lhe foi destinada. Emma Bovary recusa a mediocridade do casamento, a monotonia do cotidiano, o horizonte estreito da pequena cidade. Ela quer mais — e quer intensamente.

Emma não é uma mulher acomodada. Ao contrário: ela age, deseja, se arrisca. Busca no amor, no consumo, na fantasia romântica e nas relações extraconjugais uma saída para uma existência que lhe parece sufocante. Sua insatisfação não é passiva; ela tenta, erra, insiste. Nesse sentido, Emma é profundamente moderna: uma mulher que se recusa a aceitar o destino como algo natural.

Mas Flaubert não permite que essa recusa permaneça sem punição. O romance inteiro parece caminhar para o castigo da personagem — um castigo moral, social e físico. Emma paga caro por desejar demais, por sair do lugar, por não aceitar o papel que lhe foi reservado. A narrativa, fria e precisa, observa sua queda quase como um experimento: o que acontece quando uma mulher quer mais do que lhe é permitido?

Essa ambiguidade é central. Emma é ao mesmo tempo vítima e agente. Ela sofre sob as restrições impostas às mulheres de seu tempo, mas também se ilude, se engana, consome sem medida, projeta na fantasia literária uma saída que a realidade não oferece. Flaubert parece oscilar entre a crítica à sociedade provinciana e a necessidade de punir sua personagem por transgredir suas normas.

Talvez seja justamente aí que Madame Bovary se torne tão potente. O romance não oferece conforto. Ele expõe o impasse feminino do século XIX: entre a submissão silenciosa e a transgressão castigada. Emma escolhe transgredir, e por isso paga com a própria vida.

Reler Madame Bovary hoje é perceber que a pergunta que o livro deixa em aberto permanece atual: Até que ponto o desejo feminino pode existir sem ser patologizado, ridicularizado ou punido? Emma incomoda porque ela não se arrepende de desejar. E talvez esse seja seu maior crime.

Gustave Flaubert nasceu em Rouen, França, em 1821 e faleceu na mesma cidade em 1880. Foi um escritor francês. 




O CIÚME COMO NARRATIVA E A CONDENAÇÃO SEM PROVA


 

DOM CASMURRO

MACHADO DE ASSIS

PRINCIPIS – 2019

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS

208 páginas


Dom Casmurro é um romance sobre o ciúme, mas, sobretudo, sobre o poder de quem narra. Lido há muito tempo, o que permanece é menos a dúvida sobre Capitu e mais a certeza da insegurança de Bentinho. Para mim, Capitu não traiu. O que existe ali é a imaginação de um homem incapaz de lidar com o amor sem posse.

Bentinho narra a própria história tentando convencer o leitor, e talvez a si mesmo, de que foi traído. Mas o romance inteiro se constrói sobre indícios frágeis, suposições, interpretações enviesadas, leituras paranoicas de gestos e olhares. Capitu é condenada sem prova, julgada sem defesa, silenciada sem possibilidade de resposta. Tudo passa pelo filtro de uma subjetividade ressentida.

O ciúme em Dom Casmurro não nasce de fatos, mas da insegurança. Bentinho projeta em Capitu seus medos, suas dúvidas, sua fragilidade emocional. Ele não confia nela porque não confia em si. O olhar de Capitu — famoso, enigmático, “de ressaca” — torna-se ameaça justamente porque ele não suporta a autonomia do outro.

Machado de Assis constrói uma obra-prima ao transformar o narrador em personagem pouco confiável. O leitor atento percebe as fissuras do discurso, as contradições, o esforço excessivo de convencer. A narrativa não busca a verdade objetiva dos acontecimentos, mas revela o funcionamento do ciúme: como ele reorganiza a memória, distorce o passado e cria uma lógica própria.

Capitu, por sua vez, é uma personagem de força silenciosa. Inteligente, observadora, estrategista em um mundo que não lhe oferece espaço de fala, ela incomoda exatamente por não ser transparente. E talvez seja isso que Bentinho não perdoe: Capitu pensa, decide, age, e ele não a controla.

Dom Casmurro não é um romance sobre adultério. É um romance sobre a construção da culpa. A tragédia não está na traição, que jamais se comprova, mas na incapacidade de Bentinho de amar sem vigiar, sem suspeitar, sem reduzir o outro a uma extensão de si.

Reler Machado hoje é perceber o quanto ele antecipa discussões profundamente contemporâneas: gaslighting, narrativas de poder, silenciamento feminino. Capitu não precisa ser inocentada — porque talvez nunca tenha sido culpada. O verdadeiro réu sempre foi Bentinho, e o tribunal é a própria linguagem.


Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e faleceu na mesma cidade em 1908. Foi um escritor brasileiro. 


INFÂNCIA, POBREZA E ESCÂNDALO MORAL


 

CAPITÃES DA AREIA

JORGE AMADO

COMPANHIA DE BOLSO – 2009

280 páginas

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Ler Capitães da Areia muito jovem é uma experiência que não se esquece. Talvez porque Jorge Amado não escreva sobre a infância a partir da nostalgia, mas a partir da rua, da fome, da violência e da liberdade brutal que marca a vida dos meninos e meninas abandonados de Salvador. O livro revela um Brasil que prefere não ver: crianças vivendo à margem, organizadas em bandos, sobrevivendo entre pequenos furtos, afetos precários e uma relação dura com a cidade.

O que mais me marcou à época foi justamente essa revelação da pobreza infantil não como exceção, mas como estrutura. Jorge Amado não romantiza completamente esses meninos, embora haja ternura, ele os insere em um sistema social que os produz e depois os condena. A violência não surge do nada, ela é resposta, defesa, aprendizado precoce.

Há também um segundo impacto, inseparável da idade em que li o livro: a presença de uma cena de sexo envolvendo personagens muito jovens. Algo que causa polêmica até hoje e talvez por isso mesmo continue sendo um ponto sensível da obra. Na época, o choque não vinha apenas do conteúdo, mas do fato de que o livro desmontava a imagem idealizada da infância como espaço de pureza e proteção. Em Capitães da Areia, a infância é atravessada pelo desejo, pela exploração, pela falta de escolha.

Essa cena, tantas vezes isolada em debates morais, só faz sentido dentro do universo que o livro constrói: um mundo onde não há mediação adulta cuidadora, onde o corpo também é um território exposto. A polêmica persiste porque o livro obriga o leitor a encarar uma pergunta incômoda: o que a sociedade faz com suas crianças antes de julgá-las?

Reler Capitães da Areia hoje, mesmo à distância da leitura original, é perceber que o romance não envelheceu. A pobreza infantil, a criminalização da juventude pobre, o desconforto diante de corpos jovens fora do controle moral continua presente. O escândalo, talvez, nunca tenha sido o livro — mas a realidade que ele insiste em mostrar.


Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, em 1912 e faleceu em Salvador em 2001.Foi um escritor brasileiro. 


O CIÚME COMO INCÊNDIO LENTO E A DÚVIDA QUE NUNCA SE APAGA


 

AS BRASAS

SÁNDOR MÁRAI

COMPANHIA DAS LETRAS – 2ª ED. – 2021

176 páginas

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS


As Brasas é um romance que não se organiza pela ação, mas pela espera. Lido há muito tempo, o que permanece não são os acontecimentos em si, mas a atmosfera: o ciúme que se instala silenciosamente, a suspeita que nunca se resolve, a dúvida que atravessa uma vida inteira. É um livro sobre aquilo que não se diz — e sobre o que nunca deixa de arder.

Dois homens, ligados por uma amizade antiga, se reencontram após décadas. Entre eles, uma mulher, um amor, uma traição possível — mas nunca plenamente esclarecida. O romance inteiro se constrói em torno dessa incerteza. Não há prova definitiva, não há confissão que encerre o conflito. O que existe é a memória revisitada, o ressentimento cultivado, a necessidade quase obsessiva de entender o passado.

O ciúme, em As Brasas, não é explosivo. Ele é lento, contido, aristocrático até. Um sentimento que não se manifesta em gestos violentos imediatos, mas em silêncio, distância, afastamento. O personagem masculino que narra ou conduz o confronto carrega esse ciúme como quem carrega uma ferida nunca cicatrizada. A dúvida se torna mais importante do que a verdade.

Márai escreve sobre o tempo — o tempo que não cura tudo, como se costuma dizer, mas que às vezes apenas aprofunda a obsessão. O reencontro não é reconciliação; é tentativa tardia de dar forma a algo que nunca foi elaborado. O passado não passa. Ele se acumula.

Há também uma crítica sutil a um mundo aristocrático em decadência, onde honra, amizade e lealdade são valores proclamados, mas atravessados por silêncios estratégicos e emoções reprimidas. A contenção emocional, longe de evitar a tragédia, a prolonga. O que não é dito não desaparece — fermenta.

As Brasas é um romance sobre a impossibilidade de encerramento. Mesmo quando tudo é dito, algo permanece em suspenso. Talvez porque certas perguntas não tenham resposta. Talvez porque o ciúme, uma vez instalado, nunca se apague completamente — ele apenas se transforma em brasa, escondida sob a cinza, pronta para reacender.

Reler As Brasas hoje é perceber que o livro não fala apenas de traição ou amizade, mas da fragilidade das relações humanas quando se baseiam mais na posse e no orgulho do que na escuta. É um romance que não grita, não acusa — mas que queima lentamente.


Sándor Márai nasceu em Kosice, Eslováquia em 1900, e faleceu em San Diego, Califórnia, EUA, em 1989. Foi um escritor e jornalista de etnia húngara, nascido na Eslováquia.