sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

CONSCIÊNCIA FEMINISTA COMO PROCESSO HISTÓRICO

 

A CRIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA FEMINISTA

A luta de 1.200 anos das mulheres para libertar suas mentes do pensamento patriarcal

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

472 páginas

A Criação da Consciência Feminista é uma obra fundamental de Gerda Lerner, historiadora que teve papel decisivo na consolidação da História das Mulheres como campo acadêmico. Neste livro, Lerner investiga como, ao longo de séculos, mulheres foram lentamente construindo uma consciência de si enquanto grupo oprimido, apesar de viverem em sociedades estruturadas para silenciá-las, isolá-las e excluí-las da produção do conhecimento. O foco central não é apenas a opressão, mas o processo histórico pelo qual algumas mulheres conseguiram reconhecê-la, nomeá-la e, progressivamente, transformá-la em pensamento crítico e ação política.

A autora percorre um arco histórico que vai da Antiguidade ao século XIX, analisando textos, experiências religiosas, produções intelectuais e práticas sociais nas quais mulheres começaram a refletir sobre sua própria condição. Lerner demonstra que a exclusão das mulheres da educação formal e das instituições do saber não impediu completamente a produção de pensamento feminino, mas a tornou fragmentária, descontínua e muitas vezes invisibilizada. Um ponto central do livro é a ideia de que a consciência feminista não surge de forma espontânea ou individual, mas como resultado de processos coletivos, de transmissão entre mulheres e de momentos históricos específicos que permitiram brechas dentro da ordem patriarcal.

Ao longo da obra, Lerner também critica a historiografia tradicional por tratar a experiência masculina como universal, mostrando como isso distorce a compreensão da história como um todo. Ela sustenta que a consciência feminista nasce quando as mulheres passam a entender que sua condição não é natural nem imutável, mas histórica, e, portanto, passível de transformação. O livro não se propõe a narrar uma história linear do feminismo, mas a explicar as condições que tornaram possível o surgimento do pensamento feminista moderno. Trata-se de uma leitura clara, rigorosa e didática, essencial para quem deseja compreender as bases históricas do feminismo e o longo processo de construção da consciência das mulheres sobre si mesmas e sobre o mundo que as cerca.


Gerda Lerner nasceu em Viena, Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


O NASCIMENTO DO #METOO COMO MOVIMENTO GLOBAL

 


ELA DISSE: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo

JODI KANTOR – MEGAN TWOHEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2019

376 páginas 

O livro evidencia como esse silêncio era sustentado por um machismo estrutural profundamente enraizado. As mulheres abusadas tinham medo de falar porque sabiam que, ao denunciarem, seriam desacreditadas. A sociedade tende a questionar as vítimas: afirma que mentiram, que consentiram, que “permitiram”, ou que não deveriam estar naquele lugar, frequentemente uma suíte de hotel, cenário recorrente dos abusos, já que Weinstein costumava convocar as mulheres para supostas reuniões de trabalho nesses espaços.

As duas jornalistas precisaram construir um vínculo de confiança extremamente delicado com as mulheres envolvidas. Inicialmente, muitas aceitaram falar apenas sob sigilo absoluto. Aos poucos, porém, uma, depois outra, decidiu autorizar a publicação de seus relatos. Foi esse gesto de coragem que deu o impulso decisivo ao movimento #MeToo.

A partir da publicação da reportagem, mais mulheres começaram a se manifestar. Amparadas umas nas outras, romperam o silêncio e denunciaram abusos que haviam sido naturalizados, ocultados ou negados por décadas. O livro mostra com clareza não apenas a importância do jornalismo investigativo, mas também como a escuta, o cuidado e a persistência podem criar condições para que a verdade venha à tona.

Na verdade, o #MeToo foi iniciado por Tarana Burke em 2006, mas tornou-se um símbolo a partir das denúncias contra Harvey Weinstein, em 2017.


Jodi Kantor nasceu em Nova Iorque em 1975. É uma jornalista estadunidense.

Megan Twohey nasceu em Washington D.C. É uma jornalista estadunidense. 


 


PESQUISADORES INDÍGENAS E OS LIMITES DA ACADEMIA OCIDENTAL

 

DESCOLONIZANDO METODOLOGIAS: PESQUISA E POVOS INDÍGENAS

LINDA TUHIWAI SMITH

EDITORA UFPR – 2019

239 páginas

Linda Tuhiwai Smith (Ngāti Awa e Ngāti Porou, Māori) é uma estudiosa da educação e uma crítica contundente do colonialismo persistente no ensino e na pesquisa acadêmica.

O livro aborda a pesquisa acadêmica realizada sobre povos indígenas, com ênfase nas pesquisas conduzidas junto aos Māori da Nova Zelândia. Na primeira parte, a autora faz uma crítica ao Iluminismo e ao pensamento ocidental, argumentando que eles não podem, nem devem, ser aplicados de forma universal a pesquisas que envolvem outras culturas. A arrogância epistêmica que sustenta a ideia de que apenas a pesquisa ocidental é objetiva, imparcial e verdadeiramente científica cria enormes dificuldades para pesquisadores indígenas. Mesmo aqueles formados dentro da tradição acadêmica ocidental enfrentam obstáculos significativos e, quando não seguem estritamente suas normas metodológicas, muitas vezes sequer são ouvidos.

Na segunda parte, Smith demonstra o que é fundamental para uma pesquisa indígena: o que pode e deve ser feito, quais são os limites, as dificuldades e os obstáculos. Apresenta, ainda, um exemplo concreto da Nova Zelândia que vem funcionando de maneira respeitosa e produtiva, mostrando que outras formas de pesquisa são possíveis.

A autora enfatiza a posição indígena em relação às pesquisas e aos pesquisadores. Muitos povos resistem à pesquisa acadêmica porque, historicamente, ela foi feita sobre eles, mas nunca para eles. Essas pesquisas não lhes trouxeram benefícios concretos. Encontrei essa mesma situação ao ler o livro sobre a cosmopolítica do cuidado da pesquisadora Nathalia Dothling, realizado com mulheres quilombolas em Santa Catarina: a desconfiança em relação aos pesquisadores e a falta de crédito concedido a estudos que não produzem nenhum retorno para a comunidade pesquisada.

Além disso, há todo um conjunto de rituais e protocolos a serem respeitados, de acordo com a cultura de cada povo: com quem falar primeiro, os rituais de hospitalidade, as formas de demonstrar respeito e, sobretudo, a construção de confiança. Esses elementos são ignorados pelas metodologias tradicionais.

Os povos indígenas estão cansados de ser apenas objetos de pesquisa. Eles querem ser sujeitos do processo, desejam pesquisas que lhes tragam benefícios reais, que sejam úteis para enfrentar suas próprias questões e desafios.

Outro problema central apontado por Smith é que, ao se aplicar exclusivamente uma epistemologia e uma metodologia ocidentais, não se consegue adentrar verdadeiramente a cultura do outro. O resultado disso são inúmeras publicações que acabam produzindo ideologias, muitas vezes nefastas, sobre esses povos, gerando visões racializadas, distorcidas e falsas.


Linda Tuhiwai Smith nasceu em 1950 na Nova Zelândia. Faz parte dos povos indígenas Ngati Awa e Ngati Porou iwi. É uma professora. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

OBRIGAÇÕES DE DAR, RECEBER E RETRIBUIR

 


ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas

MARCEL MAUSS

EDITORA VOZES – 1ª – 2025

144 páginas

Ensaio sobre a Dádiva, de Marcel Mauss, é um clássico da antropologia que analisa as práticas de troca e reciprocidade nas sociedades arcaicas, propondo uma compreensão profunda da economia, da moral e da sociabilidade humana. Mauss demonstra que a dádiva não é apenas um ato de generosidade, mas um mecanismo complexo que envolve obrigações, alianças e o fortalecimento de vínculos sociais.

O autor estuda diversas culturas, mostrando como a troca de presentes cria redes de poder e hierarquia, mas também estabelece deveres éticos e morais entre indivíduos e grupos. A dádiva, segundo Mauss, é inseparável de obrigações de dar, receber e retribuir, revelando que mesmo nas sociedades antigas, a interação social não é neutra, mas carregada de significado simbólico e social.

O livro provoca uma reflexão sobre como os sistemas econômicos modernos podem ter perdido a dimensão relacional e moral que caracteriza as trocas humanas. Mauss nos convida a enxergar a economia e a sociabilidade como elementos indissociáveis, revelando que a lógica da dádiva continua presente, ainda que de forma mais sutil, nas interações contemporâneas.


Marcel Mauss nasceu em Épinal, França, em 1872 e faleceu em Paris, em 1950. Foi um sociólogo e antropólogo francês. Era sobrinho de Émile Durkheim. 


DEFINIÇÃO DE NÃO-LUGAR

 


NÃO-LUGARES: INTRODUÇÃO A UMA ANTROPOLOGIA DA SUPERMORDENIDADE

MARC AUGÉ

PAPIRUS – 1994

112 páginas

Em Não-lugares, Marc Augé propõe uma reflexão antropológica sobre as transformações do espaço naquilo que ele chama de supermodernidade. O autor parte da ideia de que a intensificação da mobilidade, do consumo e da circulação de informações produziu espaços radicalmente distintos daqueles tradicionalmente estudados pela antropologia clássica, centrada em comunidades estáveis, identidades compartilhadas e memórias coletivas.

Augé define como “não-lugares” os espaços de passagem, transitórios e funcionais, como aeroportos, rodovias, shoppings, hotéis, supermercados e estações de metrô. Diferentemente dos “lugares antropológicos”, esses espaços não produzem identidade, não criam vínculos duradouros nem se ancoram em uma história comum. Neles, o indivíduo permanece anônimo, reduzido à condição de usuário, consumidor ou passageiro, identificado apenas por documentos, cartões, bilhetes ou senhas.

O livro não afirma que os não-lugares sejam necessariamente negativos, mas destaca seu caráter ambíguo. Eles são produtos de uma modernidade que valoriza a eficiência, a rapidez e a padronização, ao mesmo tempo em que enfraquece experiências de pertencimento e de memória. Nos não-lugares, a comunicação ocorre sobretudo por meio de textos normativos — placas, avisos, instruções — e não pela interação humana direta. Trata-se de um espaço regulado, previsível e impessoal.

Augé também ressalta que lugar e não-lugar não são categorias fixas ou absolutas. Um mesmo espaço pode ser vivido como lugar por alguns e como não-lugar por outros, dependendo da experiência subjetiva, do tempo de permanência e da relação estabelecida com ele. Assim, a distinção funciona mais como uma ferramenta analítica do que como uma classificação rígida da realidade.

Não-lugares é uma obra breve, porém decisiva, que oferece uma chave de leitura para compreender a vida contemporânea, marcada pelo deslocamento constante e pela fragilização dos laços simbólicos. Ao deslocar o olhar antropológico para esses espaços cotidianos e aparentemente banais, Marc Augé nos convida a refletir sobre como habitamos o mundo atual e sobre o que se perde, e se transforma, quando a experiência humana se organiza cada vez mais em territórios de passagem.


Marc Augé nasceu em Poitiers, França, em 1935 e faleceu na mesma localidade em 2023. Foi um etnólogo e antropólogo francês. 


PENSAR DE LONGE PARA COMPREENDER DE PERTO


 

DE PERTO E DE LONGE

CLAUDE LÉVI-STRAUSS E DIDIER ERIBON

COSAC & NAIFY – 1ª ED. 2005

272 páginas

Em De Perto e de Longe, Didier Eribon entrevista Claude Lévi-Strauss. O livro é particularmente instigante para quem deseja conhecer não apenas a obra, mas o percurso de vida e de pensamento desse que foi um dos grandes mestres da antropologia do século XX. Não se trata de uma entrevista protocolar, mas de uma travessia biográfica e intelectual, marcada por deslocamentos, hesitações e escolhas que ajudam a compreender a formação de um pensamento singular.

O relato de Lévi-Strauss é fascinante justamente porque não constrói uma narrativa heroica de si. Ao contrário, ele revisita sua trajetória com distanciamento, quase com pudor. Seu percurso entre filosofia, antropologia, exílio, trabalho de campo e reflexão estrutural — aparece como algo que se fez aos poucos, muitas vezes contra expectativas iniciais. Para quem, como eu, estuda filosofia, mas sente que o desejo maior aponta para a antropologia, esse livro funciona também como espelho e estímulo.

Um dos momentos mais interessantes da entrevista é quando Lévi-Strauss retoma sua aproximação entre antropologia e psicanálise. Foi ele quem comparou o xamã ao analista, ressaltando tanto as semelhanças quanto as diferenças entre esses dois modos de escuta e intervenção simbólica. No entanto, é também o mesmo Lévi-Strauss que, em A Oleira Ciumenta, formula uma crítica rigorosa à psicanálise. Essa ambivalência não é contradição, mas método: aproxima-se para compreender, afasta-se para pensar.

Talvez um dos aspectos mais intrigantes do livro seja a recorrente afirmação de Lévi-Strauss de que não se lembra de nada, de que esquece tudo. Essa confissão, vinda de alguém cuja obra é atravessada por mitos, estruturas e sistemas de memória coletiva, produz um efeito quase paradoxal. Mas é justamente aí que o livro se abre para uma reflexão mais profunda: talvez lembrar exija esquecer. Talvez o pensamento só se organize quando o excesso de memória cede lugar à estrutura.

Nesse sentido, De Perto e de Longe não é apenas um livro sobre Lévi-Strauss, mas sobre o próprio ato de pensar. Um pensamento que não se ancora na autobiografia como confissão, mas no distanciamento; que não acumula lembranças, mas as reorganiza; que só pode ver de perto porque aprendeu, antes, a olhar de longe.


Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1908 e faleceu em Paris, França, em 2009. Foi um antropólogo.

Didier Eribon nasceu em Reims, França, em 1953. É um escritor e filósofo francês. 


 


OLHAR PARA A AMÉRICA LATINA


 

O ANO DA CÓLERA: Protestos, tensão e pandemia em 5 países da América Latina

SYLVIA COLOMBO

ROCCO – 1ª ED. – 2021

256 páginas

O ano da cólera, de Sylvia Colombo, parte de uma pergunta incômoda e necessária: o que nós, brasileiros, realmente sabemos sobre nossos vizinhos latino-americanos? Para além das disputas de futebol, há pouco interesse efetivo pelos países que compartilham conosco o mesmo continente. Nosso olhar costuma se voltar para a Europa, os Estados Unidos e, mais recentemente, para potências como China, Rússia ou para o “Oriente Médio”. A América do Sul permanece, muitas vezes, como um território próximo e ao mesmo tempo desconhecido, e a autora reconhece que esse distanciamento não é exclusivo do leitor, mas algo do qual ela própria também faz parte.

O livro não se propõe a uma análise aprofundada de cada país, mas oferece uma visão panorâmica dos principais acontecimentos recentes em cinco países da América Latina, articulando-os com seus contextos históricos, políticos e sociais. Essa abordagem permite compreender por que certos processos assumiram formas específicas, evitando leituras apressadas ou meramente ideológicas. Ao longo do texto, fica evidente o quanto nossas opiniões costumam ser construídas a partir de preconceitos, clichês e disputas políticas externas, sem real preocupação em conhecer o país concreto, com suas contradições e particularidades.

A autora nos convida a revisitar acontecimentos que, muitas vezes, nos surpreenderam justamente por desconhecimento. O que levou às grandes manifestações no Chile, frequentemente visto como um modelo de estabilidade e “civilidade” na América Latina? O que de fato ocorreu na Bolívia com a saída de Evo Morales? O que se passou na Venezuela para além do slogan repetido como ameaça política — “virar uma Venezuela”? Como compreender a volta do kirchnerismo na Argentina? E por que o Uruguai aparece como uma espécie de exceção silenciosa no cenário latino-americano, raramente lembrada nas análises mais correntes?

Sylvia Colombo constrói um panorama que não oferece respostas fechadas, mas amplia o campo de compreensão, permitindo que o leitor comece a pensar de maneira mais informada e menos estereotipada sobre esses países. O livro se encerra com a chegada da pandemia de Covid-19 e seus impactos na região, cobrindo os acontecimentos até 2020, além de incluir breves incursões por outros contextos latino-americanos, como Colômbia, Equador, México e El Salvador. O ano da cólera cumpre, assim, um papel fundamental: não esgota os temas, mas abre caminhos para uma leitura mais atenta e menos provinciana do nosso próprio continente. Vale a leitura.


Sylvia Colombo é uma jornalista e historiadora especializada em América Latina 


CUIDADO: UM CONCEITO QUE NÃO É UNIVERSAL

 



COSMOPOLÍTICA DO CUIDADO

Percorrendo caminhos com mulheres líderes quilombolas

NATHALIA DOTHILING

CONTRACORRENTE – 1ª ED. – 2022

120 páginas


Este livro, resultado da pesquisa realizada pela autora em duas comunidades quilombolas situadas no estado de Santa Catarina, foi essencial para que eu percebesse que a noção de cuidado, tal como pensada por mulheres brancas, difere, e muito, daquela vivida por mulheres negras, quilombolas, faveladas e até mesmo por mulheres negras nos Estados Unidos.

Aqui, o foco recai sobre as mulheres quilombolas e sobre como elas compreendem o cuidado. A primeira diferença marcante é que o trabalho doméstico realizado nas casas de mulheres que as remuneram por esse serviço não é considerado, por elas, como cuidado. A esse trabalho elas dão outro nome: servir.

O cuidado, para essas mulheres, é aquilo que realizam em suas próprias casas, com seus filhos e no interior da comunidade. A alegria que sentem quando conseguem deixar o trabalho remunerado, geralmente mal pago e exaustivo, para dedicar-se ao cuidado do próprio lar é imensa. Há prazer e afeto nesse fazer, o que difere profundamente da experiência de muitas mulheres que realizam o trabalho doméstico por obrigação, dever ou por não haver outra pessoa que o faça.

Cozinhar, limpar, cuidar dos próprios filhos, dos filhos das vizinhas e dos idosos da comunidade constitui um trabalho de cuidado que, nesse contexto, não é desvalorizado, tampouco pelos homens. Pelo contrário, trata-se de uma atividade reconhecida e respeitada. O aspecto mais interessante é que são justamente essas mulheres cuidadoras que acabam assumindo posições de liderança. Elas se tornam lideranças comunitárias, responsáveis por resolver questões políticas, participar de reuniões com a prefeitura, lutar pelo reconhecimento do território e reivindicar melhores condições de trabalho e de vida para toda a comunidade.


Nathalia Dothiling é mestra em antropologia social


ESCREVER COMO ALERTA E RESPONSABILIDADE

 

O ACERTO DE CONTAS DE UMA MÃE

SUE KLEBOLD

VERUS – 1ª ED. – 2016

430 páginas

 

O acerto de contas de uma mãe, de Sue Klebold, é um livro que todos os pais, mães e responsáveis por crianças e adolescentes deveriam ler. Diante de um massacre, a reação mais comum é tentar transformar os autores em monstros, psicóticos ou produtos evidentes de lares negligentes e abusivos. Essa explicação simplificadora funciona como uma zona de conforto: se o mal está sempre fora, então dentro de casa estamos seguros. O livro desmonta exatamente essa ilusão e, é por isso que ele é tão perturbador e necessário, sobretudo num contexto atual em que a violência em escolas, a ansiedade, a depressão e o suicídio entre jovens se tornam cada vez mais presentes.

O massacre da escola de Columbine, ocorrido em 1999, marcou profundamente os Estados Unidos e introduziu no debate público o termo bullying, ainda que este não possa ser apontado como causa direta do ocorrido. Dois adolescentes, Eric Harris e Dylan Klebold, entraram na escola e assassinaram treze pessoas, ferindo muitas outras, algumas com sequelas permanentes. Sue Klebold escreve a partir do lugar mais difícil possível: ela é a mãe de Dylan. O livro não é um tributo ao filho, tampouco uma tentativa de justificá-lo. É um alerta doloroso, escrito por alguém que amava profundamente seu filho e que jamais imaginou que ele fosse capaz de tal violência.

Sue e Tom, o pai, eram pais presentes, atentos, amorosos e responsáveis. Viviam numa família de classe média, estruturada, que valorizava a convivência, os rituais familiares, o diálogo e também os limites. Dylan era visto como um adolescente alegre, carinhoso, companheiro, alguém que brincava, ria e se mostrava afetuoso. A pergunta que atravessa todo o livro é justamente essa: como alguém criado nesse ambiente pôde cometer algo tão devastador? A resposta que Sue constrói ao longo dos anos é inquietante: seu filho sofria de depressão profunda e conseguia camuflá-la de maneira quase perfeita, algo que nem mesmo profissionais conseguiram identificar. Ele carregava uma dor imensa e um vazio constante, e em determinado momento passou a desejar a própria morte, embora não tivesse coragem de se suicidar.

Eric, por outro lado, era visto como um jovem problemático, agressivo, tomado pelo ódio. Seus pais buscavam ajuda psiquiátrica e terapêutica, tentando contê-lo e compreendê-lo. Quando esses dois adolescentes se unem — um desejando matar, o outro desejando morrer —, o resultado é a tragédia que se conhece. Sue deixa claro que não havia, da parte dela, qualquer conhecimento prévio de que algo assim pudesse ocorrer. Ela percebia que algo não estava bem, mas não possuía ferramentas para reconhecer os sinais da depressão em adolescentes, tão diferentes dos sintomas em adultos.

Após o massacre, o livro acompanha o que vem depois: o luto impensável de perder um filho, somado ao peso de ser mãe de um assassino. A exposição midiática, as acusações, o ódio direcionado à família, as ameaças, o isolamento forçado dentro da própria casa, que de lar se transforma em um espaço de medo. Ao mesmo tempo, Sue relata os gestos de solidariedade, a ajuda de amigos, vizinhos e de outras famílias que também haviam perdido filhos ou enfrentado situações semelhantes. Seu casamento, após trinta anos, não resiste a tamanha devastação. Ainda assim, Sue Klebold escolhe transformar sua dor em responsabilidade pública, escrevendo este livro para alertar outros pais, para que possam reconhecer sinais, falar sobre saúde mental e talvez evitar que outras tragédias aconteçam.


MULHERES QUILOMBOLAS E A LUTA PELO TERRITÓRIO


 

DEVIR QUILOMBA

MARILÉA DE ALMEIDA

EDITORA ELEFANTE - 2022

392 páginas

Baseado na pesquisa realizada por Mariléa de Almeida, o livro aborda os quilombos no estado do Rio de Janeiro, com foco especial no protagonismo feminino. São as práticas das mulheres quilombolas que estruturam a luta pelo território, a manutenção das tradições, dos cultos e a mobilização constante pelo direito à terra — um direito que frequentemente esbarra na burocracia governamental.

O livro mostra como são essas mulheres que sustentam a vida coletiva, articulam resistências e mantêm viva a memória ancestral. A entrada das igrejas neopentecostais nas comunidades quilombolas aparece como um elemento de tensão, produzindo impactos profundos nas formas tradicionais de organização e espiritualidade. Por isso, algumas mulheres defendem com firmeza a preservação do terreiro, entendido não apenas como espaço religioso, mas como lugar de identidade, memória e pertencimento.

A autora destaca ainda a importância das griottes, as contadoras de histórias, responsáveis pela transmissão oral do conhecimento, e das práticas culturais como o jongo, que articulam corpo, memória e resistência. O livro também aborda as dificuldades enfrentadas no acesso à educação formal e critica a ausência do ensino da história da África e da população negra nas escolas, evidenciando como o apagamento histórico reforça desigualdades e fragiliza identidades.


Mariléa de Almeida nasceu em Vassouras – RJ, em 1973. É doutora em História. 


RACISMO COMO SISTEMA DE CASTAS


 

CASTA: AS ORIGENS DE NOSSO MAL-ESTAR

ISABEL WILKERSON

ZAHAR – 1ª ED. – 2021

464 páginas

Casta, de Isabel Wilkerson, oferece uma análise profunda do racismo nos Estados Unidos, mostrando que ele funciona na realidade como um sistema de castas. Nesse sistema, existe uma casta privilegiada e outras subalternas, estruturando relações sociais de forma feroz e cruel, colocando seres humanos em posição de servidão quase permanente, com poucas possibilidades de ascensão, seja profissional ou intelectual, exceto com enorme esforço, determinação e superação de enormes obstáculos. Embora costumemos pensar que esse sistema pertence ao passado, Wilkerson mostra que ele permanece presente no cotidiano, e mesmo aqueles que conseguem ascender socialmente continuam a enfrentar discriminação racial.

A autora estabelece paralelos com as castas da Índia e com o nazismo, que, em parte, se inspirou nas leis raciais dos EUA, demonstrando como a doutrinação social leva à internalização do racismo. Essa análise revela o funcionamento do racismo estrutural, que permanece no inconsciente das pessoas, incluindo aquelas que se consideram não racistas.

Embora o foco do livro seja os afro-americanos, sua leitura é igualmente relevante para compreender o racismo brasileiro, que, embora historicamente negado, permanece evidente e atua de forma internalizada mesmo quando não explícita. Wilkerson amplia ainda a reflexão para todos os grupos marginalizados, colocados à margem da sociedade e tratados como inferiores. Sua crítica à supremacia branca destaca a ilusão de superioridade que sustenta tragédias históricas e sociais, mostrando que tais crenças não possuem fundamento racional, mas são construídas por aqueles que se veem como superiores.

Casta é, portanto, uma leitura essencial para compreender como estruturas históricas, sociais e psicológicas moldam a discriminação e perpetuam desigualdades, convidando à reflexão crítica sobre o racismo em qualquer sociedade.


Isabel Wilkerson nasceu em Washington D.C. em 1961. É uma jornalista estadunidense. 


RESSIGNIFICAR O LUGAR DAS MULHERES

 


MULHERES, MITOS E DEUSAS

O feminino através dos tempos

MARTHA ROBLES

GOYA – 2ª ED. – 2019

448 páginas

Através de temas: as origens, tragédias, amor, fadas, rainhas, caminho de Deus até o nosso tempo, Robles traça perfis de mulheres ressignificando o papel dessas mulheres no mundo e com isso o papel feminino.

Ela também faz uma análise dos mitos, das lendas e dos arquétipos construídos sobre a mulher, o que serviu para reafirmar o machismo, o patriarcado e até mesmo a misoginia.

Li o livro no início do meu percurso no estudo das mulheres e além de tudo que aprendi com ele também encontrei mulheres das quais nunca tinha ouvido falar e que se tornaram importantes em meus estudos como María Zambrano.

Em Mulheres, Mitos e Deusas: O feminino através dos tempos, Martha Robles percorre uma vasta constelação de temas — as origens, as tragédias, o amor, as fadas, as rainhas, o caminho de Deus até o nosso tempo — para traçar perfis de mulheres que atravessam a história, a mitologia e a literatura. Ao fazê-lo, a autora não apenas apresenta essas figuras, mas ressignifica seus papéis, recolocando o feminino no centro de narrativas que tradicionalmente o relegaram à margem.

O livro se constrói como uma leitura crítica dos mitos, lendas e arquétipos associados às mulheres, revelando como essas construções simbólicas foram usadas para reafirmar o machismo, o patriarcado e, muitas vezes, a misoginia. Robles mostra que o mito nunca é neutro: ele educa, disciplina e naturaliza hierarquias. Ao revisitar essas narrativas, a autora desmonta imagens cristalizadas e abre espaço para interpretações que devolvem complexidade, potência e ambiguidade às figuras femininas.

Minha leitura deste livro ocorreu no início do meu percurso nos estudos sobre as mulheres, o que torna sua importância ainda maior. Além do vasto aprendizado que ele proporcionou, encontrei ali mulheres das quais nunca tinha ouvido falar e que se tornaram referências fundamentais em meus estudos posteriores, como María Zambrano. Nesse sentido, Mulheres, Mitos e Deusas não é apenas uma obra de consulta ou reflexão, mas um livro formador, capaz de abrir caminhos, despertar perguntas e inaugurar percursos intelectuais duradouros.


Martha Robles nasceu em 1948. É Socióloga e escritora mexicana. 


A REPRESSÃO DA IGREJA E A EMERGÊNCIA DO PATRIARCADO

 


AS DEUSAS, AS BRUXAS E A IGREJA

MARIA NAZARETH ALVIM DE BARROS

ROSA DOS TEMPOS – 2001

As Deusas, as Bruxas e a Igreja, de Maria Nazareth Alvim de Barros, investiga a complexa relação entre poder religioso, gênero e repressão histórica. O livro analisa como a Igreja, ao longo dos séculos, perseguiu figuras femininas que simbolizavam saberes, práticas religiosas e autonomia social, transformando mulheres em “bruxas” ou demonizando a espiritualidade feminina.

A autora traça paralelos entre cultos e mitologias antigas, nos quais deusas e mulheres possuíam posições centrais de poder e conhecimento, e a emergência de uma sociedade patriarcal sustentada por dogmas e punições religiosas. Ao estudar processos de caça às bruxas, perseguições e estigmatizações, o livro mostra como a repressão religiosa serviu para controlar a sexualidade, o saber e a liberdade das mulheres.

O livro também explora a persistência de estereótipos e a marginalização feminina na história, oferecendo uma reflexão crítica sobre os mecanismos de poder que ainda influenciam a sociedade contemporânea. É uma leitura essencial para compreender a violência simbólica e histórica contra as mulheres e o papel do patriarcado na construção da cultura ocidental.

Maria Nazareth Alvim de Barros tem formação em psicanálise e mestrado em literatura francesa. É palestrante.


SALEM ALÉM DO MITO

 

AS BRUXAS: INTRIGA, TRAIÇÃO E HISTERIA EM SALEM

STACY SCHIFF

ZAHAR – 1ª ED. – 2019

323 páginas

Em As Bruxas: Intriga, Traição e Histeria em Salem, Stacy Schiff revisita um dos episódios mais conhecidos, e ao mesmo tempo mais mal compreendidos, da história colonial norte-americana: os julgamentos das chamadas “bruxas” de Salem, ocorridos em 1692. Longe de uma narrativa folclórica ou sensacionalista, a autora constrói um relato minucioso, quase clínico, sobre como uma comunidade inteira foi capturada por um sistema de acusações, delações e punições legitimadas pelo discurso religioso, jurídico e moral.

O grande mérito do livro está em mostrar que Salem não foi um surto isolado de irracionalidade, mas o resultado de uma confluência de interesses políticos, rivalidades familiares, tensões econômicas, disputas territoriais e uma teologia profundamente misógina. A histeria coletiva não nasce do nada: ela é produzida, alimentada e organizada por instituições que se apresentam como guardiãs da ordem.

Schiff reconstrói o cotidiano da vila, os laços entre seus habitantes e o funcionamento do tribunal com uma precisão impressionante. O leitor percebe como boatos se transformam em provas, como o medo ganha estatuto jurídico e como a palavra de meninas adolescentes passa a valer mais do que qualquer evidência material, desde que confirme o que o poder já deseja ouvir. A acusação de bruxaria funciona, assim, como um dispositivo eficaz de eliminação social.

Embora o livro não seja explicitamente feminista, a leitura revela, de forma contundente, que a maioria das vítimas era composta por mulheres: mulheres que falavam demais, que herdavam terras, que não se encaixavam nos papéis esperados, que viviam à margem ou que simplesmente incomodavam. Salem expõe um mecanismo recorrente da história: quando a ordem patriarcal se sente ameaçada, ela transforma mulheres em perigo moral.

O termo “histeria”, presente no subtítulo, não é usado de forma leviana. Ele aponta para um processo de patologização do dissenso, no qual o sofrimento psíquico, a pobreza, o trauma e até a imaginação são convertidos em crime. A bruxa não é apenas a mulher que supostamente pactua com o demônio, mas aquela cuja existência foge ao controle.

A escrita de Stacy Schiff é elegante, rigorosa e acessível, sem abrir mão da complexidade histórica. Seu texto evita julgamentos anacrônicos, mas não abdica de uma posição ética clara diante da violência cometida. Ao final, Salem aparece menos como uma exceção e mais como um espelho perturbador de sociedades que preferem perseguir indivíduos a enfrentar suas próprias contradições.

As Bruxas é, portanto, uma leitura fundamental não apenas para compreender o passado, mas para reconhecer os ecos de Salem no presente: nos pânicos morais, nas campanhas de difamação, na criminalização do feminino, do diferente e do indomável. Um livro que nos lembra que a fogueira pode mudar de forma, mas raramente desaparece.


Stacy Schiff nasceu em Adams, Massachusetts, EUA, em 1961. É uma escritora estadunidense. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A RELAÇÃO ENTRE DOMINAÇÃO DA NATUREZA E DAS MULHERES


 

ECOFEMINISMOS

VANDANA SHIVA – MARIA MIES

LUAS EDITORA – 2021

504 páginas


Ecofeminismos é uma obra central do pensamento crítico contemporâneo, escrita por Vandana Shiva e Maria Mies, que articula feminismo, ecologia, economia política e crítica ao capitalismo global. O livro parte da constatação de que a exploração da natureza e a opressão das mulheres não são processos distintos, mas historicamente conectados e sustentados pela mesma lógica patriarcal, colonial e capitalista.

As autoras demonstram como o modelo de desenvolvimento moderno, apresentado como universal e progressista, se baseia na expropriação dos recursos naturais, no apagamento dos saberes tradicionais e na desvalorização do trabalho feminino, especialmente o trabalho de cuidado e de subsistência. A racionalidade econômica dominante transforma tanto a natureza quanto as mulheres em “recursos” exploráveis, invisibilizando os custos sociais, ambientais e humanos desse sistema. Nesse sentido, o livro desmonta a ideia de neutralidade da ciência moderna e da economia, revelando seu caráter profundamente masculinizado e eurocêntrico.

Um eixo fundamental da obra é a crítica à divisão entre produção e reprodução. Mies e Shiva argumentam que o capitalismo só se sustenta porque depende de esferas que ele não reconhece como produtivas: o trabalho doméstico, o cuidado, a agricultura de subsistência e os ciclos naturais. Ao serem considerados “naturais” ou “gratuitos”, esses campos tornam-se passíveis de exploração ilimitada. O ecofeminismo surge, então, não como um essencialismo que associa mulheres à natureza, mas como uma crítica política a essa associação imposta historicamente para justificar dominação.

O livro também apresenta experiências concretas de resistência, sobretudo no Sul Global, onde mulheres desempenham papel central na defesa da terra, da água, das sementes e da vida comunitária. Essas práticas apontam para outras formas de organização social e econômica, baseadas na interdependência, na sustentabilidade e na valorização dos saberes locais. Para as autoras, o ecofeminismo não é apenas uma teoria, mas um projeto ético e político que propõe uma transformação radical da relação entre humanidade, natureza e economia.

Ecofeminismos é uma leitura densa, mas fundamental, que amplia o feminismo para além da questão de gênero, inserindo-o no centro das crises ecológica, social e civilizatória contemporâneas. É um livro que convida à revisão profunda das noções de progresso, desenvolvimento e poder, mostrando que não há justiça social sem justiça ambiental — e que ambas passam, necessariamente, pela libertação das mulheres.


Vandana Shiva nasceu em Dehra Dun, Uttar Pradesh (atual Uttarakhand), Índia, em 1952. É uma filósofa, física, ecofeminista e ativista ambiental indiana.

Maria Mies nasceu em Steffein, Alemanha, em 1931 e faleceu em 2023. Foi uma socióloga alemã.