domingo, 22 de fevereiro de 2026

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NOS LARES CRISTÃOS


 

O GRITO DE EVA

A violência doméstica em lares cristãos

MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR

THOMAS NELSON BRASIL – 1ª ED. - 2021

178 páginas


O grito de Eva, de Marília de Camargo César, parte de uma constatação incômoda: o machismo atravessa todas as esferas do patriarcado — sociedade, política, família e também a religião. Existe a ilusão de que pessoas religiosas seriam, por definição, amorosas e incapazes de praticar violência, mas o livro demonstra que essa expectativa não corresponde à realidade. A autora reúne relatos de mulheres cristãs que, ao buscarem ajuda dentro de suas igrejas, acabam sendo aconselhadas a rezar mais, a compreender, a relevar, a suportar. Esse tipo de orientação, longe de proteger, contribui para a perpetuação da violência doméstica.

Ao mesmo tempo, o livro não constrói uma crítica simplista ou homogênea às lideranças religiosas. Há também depoimentos e reflexões de pastores que discordam dessas práticas e reconhecem a violência como algo incompatível com o cristianismo. Fica evidente que tudo depende da interpretação dos textos sagrados e, sobretudo, do que se deseja extrair deles. A Bíblia oferece ensinamentos, mas a leitura desses textos exige responsabilidade histórica e ética: é fundamental distinguir aquilo que pertence a um contexto social específico daquilo que pode ser compreendido como princípio válido para outros tempos.

A autora lembra que, no período em que muitos textos bíblicos foram escritos, a mulher não tinha voz, era socialmente submissa e confinada ao espaço doméstico. Nesse sentido, a atuação de Jesus aparece como profundamente disruptiva: ele escuta as mulheres, conversa com elas, as acolhe, rompendo com o status quo de uma sociedade patriarcal. Marília também chama atenção para o fato de que o Gênesis apresenta dois relatos da criação — o primeiro e o segundo — e que é apenas no segundo que surge Eva a partir da costela de Adão, distinção frequentemente ignorada em leituras literalistas.

Um ponto especialmente instigante é a reflexão sobre o silêncio de Adão diante da cena da maçã e da serpente. Por que, tendo ouvido Deus, ele não interveio, não recusou, não aconselhou Eva? Esse silenciamento masculino, raramente problematizado, desloca a responsabilidade exclusiva atribuída à mulher e revela como certas leituras bíblicas operam seletivamente para reforçar a culpa feminina.

Em relação à submissão, o livro oferece uma explicação mais ampla do conceito, mostrando que ele não se refere apenas às mulheres. O problema surge quando essa ideia é aplicada de forma unilateral, enfatizando a submissão feminina e silenciando as exigências éticas dirigidas aos homens. Essa leitura parcial sustenta relações abusivas e legitima violências que nada têm de sagradas.

O grito de Eva é, acima de tudo, um livro de orientação e encorajamento. Ele afirma, com clareza, que mulheres cristãs não precisam se submeter à violência física ou ao abuso psicológico para serem fiéis à sua fé. Elas merecem amor, dignidade e vida plena,  e tomar uma atitude diante da violência não significa ir contra os ensinamentos sagrados, mas, ao contrário, reafirmar o valor da própria vida.

                   Marília de Camargo César nasceu em São Paulo em 1964. É jornalista e escritora. 




O QUE É LIBERDADE? ENTRE SOCIALISMO, DEMOCRACIA E CAPITALISMO

 

LIVRE: VIRANDO ADULTA NO FIM DA HISTÓRIA

LEA YPI

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

304 páginas


PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ALBÂNIA 

Em Livre: Virando Adulta no Fim da História, Lea Ypi constrói uma autobiografia profundamente atravessada pela história política da Albânia, acompanhando sua infância sob o regime socialista, a queda desse sistema, a guerra civil que se seguiu e, por fim, sua partida definitiva do país. Trata-se de um livro especialmente instigante também por seu cenário: a Albânia é um ponto quase cego da história europeia, apesar de ter sido apresentada, durante certo período, como modelo exemplar do socialismo/comunismo, o que torna a narrativa ainda mais potente ao deslocar o leitor de referências já cristalizadas.

Ypi relata uma infância aparentemente harmoniosa, marcada pela vida familiar, pela escola e pela rotina cotidiana. Para a criança que foi, tudo parecia funcionar de modo coerente e seguro, sem grandes motivos para questionamento. As fissuras surgiam apenas nas conversas entre adultos, fragmentos de falas que ela não conseguia compreender, mas que anunciavam algo silenciado. Somente após a queda do regime ela descobre a história real de sua família e compreende o silêncio que a cercava; um silêncio construído como forma de proteção, tanto dela quanto da própria família.

A partir dessa experiência, o livro avança para uma reflexão mais ampla sobre a ideia de liberdade. Ypi questiona se ela realmente existe nas democracias liberais, no capitalismo e no sistema neoliberal, mostrando como a coerção nem sempre é visível e como a liberdade pode operar como uma ilusão eficaz justamente por ser naturalizada e internalizada. Não se trata apenas de regimes políticos distintos, mas de formas diferentes de produzir obediência, adesão e consentimento.

A leitura provoca inevitáveis deslocamentos e ressonâncias com o contexto brasileiro. É impossível não pensar no silêncio que recai sobre a escravização e sobre a ditadura militar, silêncios que produzem a ignorância política que atravessa o presente. Assim como Lea, também crescemos acreditando no que nos foi ensinado na escola e na família, sem acesso às camadas ocultas da história e às violências que estruturaram o país.

O livro também conduz a uma reflexão sobre o eurocentrismo que nos legou uma ideologia branca, racista e patriarcal, ainda profundamente operante. Muitos continuam a pensar os povos indígenas como seres do passado, indolentes ou preguiçosos, e os negros como inferiores ou, pior, como inimigos sociais — imagens que seguem legitimando violências cotidianas amplamente visíveis no noticiário. A permanência dessas hierarquias revela o quanto a chamada liberdade democrática convive com formas profundas de exclusão e desumanização.

Por fim, o livro nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: qual é, afinal, a diferença? No Brasil, a palavra “comunismo” ainda provoca pânico, enquanto as formas de manipulação e coerção do sistema vigente passam quase despercebidas. Livre nos convida a percorrer o caminho inverso: se o capitalismo se apresenta como o oposto do comunismo, em que medida eles também se aproximam? Sabemos bem no que diferem, mas raramente nos perguntamos no que são semelhantes. É nesse espaço de reflexão, entre memória, silenciamento e ideologia, que o livro se inscreve com força.

Lea Ypi nasceu em 1979, em Tirana na Albânia. É escritora e professora de teoria política e filosofia. 



DA PERDA À LUTA POR JUSTIÇA


 

HEROÍNAS DESTA HISTÓRIA:  Mulheres em busca de justiça por familiares mortos pela ditadura

CARLA BORGESTATIANA MERLINO (ORGS.)

AUTÊNTICA – 1ª ED. – 2020

400 páginas.


São décadas de silêncio rompido, seja por autoproteção, pela necessidade de seguir em frente ou por uma política deliberada de esquecimento que encobriu os crimes da ditadura civil-militar brasileira. Um silêncio que não foi natural, mas construído, sustentado e imposto. É nesse terreno que se inscrevem as histórias reunidas em Heroínas desta História, um livro atravessado por relatos de mães, esposas e familiares que estiveram à frente da luta contra o regime militar.

São mulheres que perderam filhos, maridos, irmãs e irmãos; mulheres que sofreram, resistiram e enfrentaram o Estado em busca de notícias, de corpos, de respostas e, muitas vezes, do direito mínimo a uma certidão de óbito. Aqui, a dor não paralisa: ela se transforma em ação política. O luto converte-se em denúncia, e a ausência vira insistência. Essas mulheres recusaram o apagamento e fizeram da busca por seus familiares uma luta pública contra a violência de Estado.

Algumas dessas trajetórias tornaram-se mais conhecidas por não terem se calado, como Clarice Herzog, Eunice Paiva ou Zuzu Angel, esta última brutalmente silenciada pelo próprio regime. Outras tantas permanecem desconhecidas do grande público, o que torna sua escuta ainda mais urgente. São mulheres simples ou de classe média, com trajetórias distintas, mas unidas pelo fato de terem sido empurradas para o centro da história por uma violência que atravessou suas vidas privadas.

O livro mostra como essas mulheres se tornaram protagonistas de nossa história recente, ainda marcada por lacunas, negações e disputas de memória. Ao reunir esses relatos, Heroínas desta História não se limita a narrar o passado: afirma a memória como gesto político e como responsabilidade coletiva. Este não é apenas um livro para ser lido, mas para ser escutado. Ele nos apresenta algumas dessas mulheres — cabe a nós, agora, ouvi-las.


LINGUAGEM, MEMÓRIA E ESCRITA

 

CADERNOS DA GUERRA E OUTROS TEXTOS

MARGUERITE DURAS

ESTAÇÃO LIBERDADE – 1ª ED. – 2009

384 páginas

Cadernos da Guerra e Outros Textos, de Marguerite Duras, reúne escritos que refletem sobre a experiência da guerra, da ocupação e da resistência, abordando os efeitos do conflito na vida individual e coletiva. A obra é marcada pelo estilo conciso, fragmentário e intimista de Duras, que combina memórias, testemunhos e reflexões filosóficas, revelando a dimensão humana da violência e da opressão.

O livro nos conduz pelo olhar sensível da autora sobre o cotidiano da guerra, os dilemas morais e éticos enfrentados por quem resiste, e a forma como a memória da violência molda a subjetividade. Duras explora temas como medo, perda, coragem e solidariedade, mostrando a tensão entre o ordinário e o extraordinário, a vida comum e o momento histórico extremo.

Além do contexto histórico, a obra provoca reflexões sobre linguagem, escrita e memória, revelando como os relatos literários podem capturar experiências traumáticas e oferecer compreensão sobre a condição humana. Cadernos da Guerra e Outros Textos é uma leitura intensa, que combina história, literatura e introspecção, convidando o leitor a refletir sobre os efeitos duradouros da guerra na vida pessoal e coletiva.


Marguerite Duras pseudônimo de Marguerite Donnadieu, nasceu em Saigon (atual Cidade de Ho Chi Minh) em 1914 e faleceu em Paris em 1996. Foi uma romancista, novelista, roteirista, diretora de cinema e dramaturga francesa


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EUFRÁSIA: PIONEIRA NA BOLSA DE VALORES

 

#QUERO SER EUFRÁSIA

MARIANA RIBEIRO

EBOOK - 2019

72 páginas

#Quero Ser Eufrásia, de Mariana Ribeiro, apresenta a extraordinária trajetória de Eufrásia Teixeira Leite, uma das primeiras mulheres brasileiras a operar na Bolsa de Valores, no século XIX. Nascida em Vassouras, no Rio de Janeiro, Eufrásia desafiou convenções de uma época em que a educação feminina se restringia a português, matemática rudimentar, história, línguas e tarefas domésticas. Graças ao incentivo do pai, ela recebeu conhecimentos financeiros que se mostrariam fundamentais para gerir a herança da família.

Após a morte dos pais e o acidente de sua irmã, que a impedia de se casar, Eufrásia mudou-se para Paris, onde iniciou sua carreira de investimentos. Atuou nas principais bolsas de valores, incluindo Paris, Brasil, Nova York e Londres, negociando em diversas moedas, alcançando grande sucesso e tornando-se milionária.

Eufrásia foi noiva de Joaquim Nabuco, mas o relacionamento terminou devido à diferença de leis entre Brasil e França: no Brasil, a herança da mulher passava automaticamente à gerência do marido, enquanto na França isso não ocorria, e Nabuco recusou-se a casar fora do país. Eufrásia jamais se casou, mantendo sua independência financeira e pessoal.

Sua vida extraordinária comprova que mulheres são igualmente capazes de gerir finanças e atuar na bolsa de valores, desafiando preconceitos históricos e mostrando que competência e ousadia não têm gênero.


JUSTIÇA CLIMÁTICA COMO QUESTÃO DE DIREITOS HUMANOS

 

JUSTIÇA CLIMÁTICA

MARY ROBINSON

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2021

192 páginas

Este é um livro que todos deveriam ler. Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e ex–alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, dirige atualmente a Mary Robinson Foundation – Climate Justice, dedicada à defesa de pessoas em situação de risco e diretamente prejudicadas pelas mudanças climáticas, além de atuar junto à ONU nesse campo. Sua trajetória política e humanitária confere ao livro não apenas autoridade, mas um compromisso ético claro com aqueles que menos contribuíram para a crise climática e mais sofrem suas consequências.

A obra reúne diversos relatos, sobretudo de mulheres, que evidenciam como a crise climática atinge de forma desproporcional povos e comunidades que não são responsáveis por sua origem. São populações que pagam o preço do desenvolvimento capitalista dos países ricos e industrializados, enfrentando perdas materiais, culturais e territoriais em nome de um progresso do qual nunca participaram plenamente.

É ao mesmo tempo interessante e profundamente lamentável conhecer as situações vividas no Alasca, na Lapônia, em diferentes regiões da África, em Kiribati — uma nação ameaçada de desaparecer, cujo presidente chegou a comprar terras em outro país para realocar sua população — e em tantos outros lugares. O livro dá voz à luta dessas pessoas para preservar seus modos de vida diante de transformações climáticas abruptas e irreversíveis.

Antes, o clima era conhecido: sabia-se o tempo das chuvas e das secas, quando semear, quando colher; as estações do ano eram estáveis. Hoje, essa previsibilidade desapareceu. O derretimento das geleiras no Alasca e no Ártico, as enchentes recorrentes, as secas prolongadas, tudo aquilo que se costuma chamar de “desastre natural”, revela-se, na verdade, consequência direta de ações humanas. A natureza responde, mas não é a causa.

Mary Robinson também introduz de forma clara o conceito de transição justa, lembrando que a mudança para uma economia menos dependente de combustíveis fósseis precisa considerar as comunidades e os trabalhadores que dependem dessas atividades. O fechamento de minas de carvão, por exemplo, exige políticas que garantam alternativas reais de trabalho e subsistência, evitando que a solução de um problema produza novas injustiças sociais.

Apesar de relativamente curto e de focar em alguns exemplos específicos, quando sabemos que há muitos outros, o livro cumpre plenamente seu propósito. Justiça Climática é um alerta contundente e, ao mesmo tempo, um chamado à ação. As questões que ele apresenta não pertencem ao futuro: são urgentes, presentes e exigem respostas imediatas.


Mary Robinson nasceu em Ballina, Irlanda, em 1944. Foi a primeira mulher presidente da Irlanda e Alta Comissária das Nações Unidas para os direitos humanos. 


UMA MULHER INTENSAMENTE VIVA

 


LOU ANDREAS-SALOMÉ

DORIAN ASTOR

L&PM – 1ª ED. – 2016

320 páginas

Dorian Astor nos apresenta um retrato amplo e sensível de Lou Andreas-Salomé, acompanhando sua trajetória da infância até a morte, bem como suas relações intelectuais e afetivas com figuras centrais do pensamento europeu, como Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke, Andreas — seu marido — e Sigmund Freud, além de muitas outras amizades que marcaram sua vida intelectual. Mais do que uma biografia factual, o livro constrói a imagem de uma mulher profundamente à frente de seu tempo, talvez até do nosso, que prezava a liberdade, a autonomia intelectual e uma relação afirmativa com a vida.

Lou aparece como uma pensadora que via, inclusive na dor e na tristeza, uma possibilidade de crescimento e de superação daquilo que paralisa. Nesse sentido, sua postura se opunha à noção freudiana de pulsão de morte: para ela, mesmo no sofrimento, é sempre a vida que pulsa, jamais a inércia ou a morte. Essa confiança radical na vitalidade atravessa tanto sua obra quanto suas escolhas pessoais.

Infelizmente, por decisão própria, Lou preservou rigorosamente sua vida privada. Grande parte de sua correspondência foi destruída por ela mesma e por seus interlocutores, a seu pedido, o que nos priva de um acesso mais amplo ao desenvolvimento de seu pensamento. Permanecem lacunas, ainda que seus romances e ensaios permitam traçar esse percurso de forma indireta, revelando muito de suas inquietações e elaborações interiores.

Lou Andreas-Salomé é mais uma entre tantas grandes mulheres pensadoras lembradas sobretudo por suas relações com homens consagrados, e não por sua própria produção intelectual. O mérito do livro de Dorian Astor está justamente em combater essa redução, mostrando que Lou jamais foi uma sombra ao lado desses homens, ao contrário, foi presença ativa, interlocutora respeitada e pensamento autônomo. Muito difamada, especialmente pela irmã de Nietzsche, talvez tenha sido essa experiência que a levou a valorizar tanto o silêncio e a privacidade, optando por não comentar publicamente sua amizade com o filósofo, exceto pelo que escreveu sobre sua obra e sua filosofia.

O autor também aborda a relação ambígua de Lou com o feminismo. Apesar de sua independência, liberdade de pensamento e vida pouco convencional, ela nunca se declarou feminista. Embora tivesse amigas engajadas nessas lutas, Lou acreditava que a verdadeira liberdade era essencialmente interna. Questões como o direito ao voto ou o trabalho feminino lhe pareciam externas, insuficientes para tocar o núcleo da emancipação individual.

O retrato que emerge é o de uma mulher vibrante, intensamente viva, brilhante em seus pensamentos, admirada e amada por muitos homens, mas que jamais abriu mão de sua independência. Uma figura que continua a desafiar categorias fáceis e a exigir leituras que não a reduzam, nem a expliquem apenas por suas relações.

Dorian Astor nasceu em Béziers, França, em 1973. É um filósofo e germanista francês especialista em Nietzsche. 



A MEMÓRIA VIVA DE UMA INFÂNCIA AFRICANA


 

AMKOULLEL, O MENINO FULA

AMADOU HAMPÂTÉ BÂ

PALAS ATHENA – 3ª ED. - 2003

376 páginas

Amadou Hampâté Bâ foi um griot, isto é, um contador de histórias e guardião das tradições africanas. Ser griot é uma função social, uma profissão, parte constitutiva das culturas africanas. Hampâté Bâ foi um grande intelectual da oralidade, aquilo que ele próprio definia como uma “biblioteca viva”.

Neste livro, ele narra sua vida da infância à adolescência no Mali, onde nasceu em 1900. Viveu principalmente em Bandiagara, entre os fulas, povo de pastores. A narrativa é extremamente rica em detalhes e experiências: o universo da infância, a passagem para a juventude, o lugar da mulher, especialmente da mãe, o impacto do colonialismo francês, bem como o sincretismo entre as tradições africanas, suas crenças e o Islã.

Desde criança, Hampâté Bâ foi treinado para a oralidade, para a escuta atenta, a memorização e a transmissão das histórias. Mais tarde, ele próprio se dedicará a coletar esses relatos, compondo um amplo panorama da história e das tradições de seu povo.

Ao ler Amkoullel, o menino fula, mergulhamos profundamente no universo de Hampâté Bâ. E confesso: quando cheguei ao final, queria mais, muito mais.


Amadou Hampâté Bâ nasceu em Bandiagara, Mali, em 1901 e faleceu em Abidjã, Costa do Marfim, em 1991. Foi um griot e escritor malinês. 


CONSCIÊNCIA FEMINISTA COMO PROCESSO HISTÓRICO

 

A CRIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA FEMINISTA

A luta de 1.200 anos das mulheres para libertar suas mentes do pensamento patriarcal

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

472 páginas

A Criação da Consciência Feminista é uma obra fundamental de Gerda Lerner, historiadora que teve papel decisivo na consolidação da História das Mulheres como campo acadêmico. Neste livro, Lerner investiga como, ao longo de séculos, mulheres foram lentamente construindo uma consciência de si enquanto grupo oprimido, apesar de viverem em sociedades estruturadas para silenciá-las, isolá-las e excluí-las da produção do conhecimento. O foco central não é apenas a opressão, mas o processo histórico pelo qual algumas mulheres conseguiram reconhecê-la, nomeá-la e, progressivamente, transformá-la em pensamento crítico e ação política.

A autora percorre um arco histórico que vai da Antiguidade ao século XIX, analisando textos, experiências religiosas, produções intelectuais e práticas sociais nas quais mulheres começaram a refletir sobre sua própria condição. Lerner demonstra que a exclusão das mulheres da educação formal e das instituições do saber não impediu completamente a produção de pensamento feminino, mas a tornou fragmentária, descontínua e muitas vezes invisibilizada. Um ponto central do livro é a ideia de que a consciência feminista não surge de forma espontânea ou individual, mas como resultado de processos coletivos, de transmissão entre mulheres e de momentos históricos específicos que permitiram brechas dentro da ordem patriarcal.

Ao longo da obra, Lerner também critica a historiografia tradicional por tratar a experiência masculina como universal, mostrando como isso distorce a compreensão da história como um todo. Ela sustenta que a consciência feminista nasce quando as mulheres passam a entender que sua condição não é natural nem imutável, mas histórica, e, portanto, passível de transformação. O livro não se propõe a narrar uma história linear do feminismo, mas a explicar as condições que tornaram possível o surgimento do pensamento feminista moderno. Trata-se de uma leitura clara, rigorosa e didática, essencial para quem deseja compreender as bases históricas do feminismo e o longo processo de construção da consciência das mulheres sobre si mesmas e sobre o mundo que as cerca.


Gerda Lerner nasceu em Viena, Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


O NASCIMENTO DO #METOO COMO MOVIMENTO GLOBAL

 


ELA DISSE: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo

JODI KANTOR – MEGAN TWOHEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2019

376 páginas 

O livro evidencia como esse silêncio era sustentado por um machismo estrutural profundamente enraizado. As mulheres abusadas tinham medo de falar porque sabiam que, ao denunciarem, seriam desacreditadas. A sociedade tende a questionar as vítimas: afirma que mentiram, que consentiram, que “permitiram”, ou que não deveriam estar naquele lugar, frequentemente uma suíte de hotel, cenário recorrente dos abusos, já que Weinstein costumava convocar as mulheres para supostas reuniões de trabalho nesses espaços.

As duas jornalistas precisaram construir um vínculo de confiança extremamente delicado com as mulheres envolvidas. Inicialmente, muitas aceitaram falar apenas sob sigilo absoluto. Aos poucos, porém, uma, depois outra, decidiu autorizar a publicação de seus relatos. Foi esse gesto de coragem que deu o impulso decisivo ao movimento #MeToo.

A partir da publicação da reportagem, mais mulheres começaram a se manifestar. Amparadas umas nas outras, romperam o silêncio e denunciaram abusos que haviam sido naturalizados, ocultados ou negados por décadas. O livro mostra com clareza não apenas a importância do jornalismo investigativo, mas também como a escuta, o cuidado e a persistência podem criar condições para que a verdade venha à tona.

Na verdade, o #MeToo foi iniciado por Tarana Burke em 2006, mas tornou-se um símbolo a partir das denúncias contra Harvey Weinstein, em 2017.


Jodi Kantor nasceu em Nova Iorque em 1975. É uma jornalista estadunidense.

Megan Twohey nasceu em Washington D.C. É uma jornalista estadunidense. 


 


PESQUISADORES INDÍGENAS E OS LIMITES DA ACADEMIA OCIDENTAL

 

DESCOLONIZANDO METODOLOGIAS: PESQUISA E POVOS INDÍGENAS

LINDA TUHIWAI SMITH

EDITORA UFPR – 2019

239 páginas

Linda Tuhiwai Smith (Ngāti Awa e Ngāti Porou, Māori) é uma estudiosa da educação e uma crítica contundente do colonialismo persistente no ensino e na pesquisa acadêmica.

O livro aborda a pesquisa acadêmica realizada sobre povos indígenas, com ênfase nas pesquisas conduzidas junto aos Māori da Nova Zelândia. Na primeira parte, a autora faz uma crítica ao Iluminismo e ao pensamento ocidental, argumentando que eles não podem, nem devem, ser aplicados de forma universal a pesquisas que envolvem outras culturas. A arrogância epistêmica que sustenta a ideia de que apenas a pesquisa ocidental é objetiva, imparcial e verdadeiramente científica cria enormes dificuldades para pesquisadores indígenas. Mesmo aqueles formados dentro da tradição acadêmica ocidental enfrentam obstáculos significativos e, quando não seguem estritamente suas normas metodológicas, muitas vezes sequer são ouvidos.

Na segunda parte, Smith demonstra o que é fundamental para uma pesquisa indígena: o que pode e deve ser feito, quais são os limites, as dificuldades e os obstáculos. Apresenta, ainda, um exemplo concreto da Nova Zelândia que vem funcionando de maneira respeitosa e produtiva, mostrando que outras formas de pesquisa são possíveis.

A autora enfatiza a posição indígena em relação às pesquisas e aos pesquisadores. Muitos povos resistem à pesquisa acadêmica porque, historicamente, ela foi feita sobre eles, mas nunca para eles. Essas pesquisas não lhes trouxeram benefícios concretos. Encontrei essa mesma situação ao ler o livro sobre a cosmopolítica do cuidado da pesquisadora Nathalia Dothling, realizado com mulheres quilombolas em Santa Catarina: a desconfiança em relação aos pesquisadores e a falta de crédito concedido a estudos que não produzem nenhum retorno para a comunidade pesquisada.

Além disso, há todo um conjunto de rituais e protocolos a serem respeitados, de acordo com a cultura de cada povo: com quem falar primeiro, os rituais de hospitalidade, as formas de demonstrar respeito e, sobretudo, a construção de confiança. Esses elementos são ignorados pelas metodologias tradicionais.

Os povos indígenas estão cansados de ser apenas objetos de pesquisa. Eles querem ser sujeitos do processo, desejam pesquisas que lhes tragam benefícios reais, que sejam úteis para enfrentar suas próprias questões e desafios.

Outro problema central apontado por Smith é que, ao se aplicar exclusivamente uma epistemologia e uma metodologia ocidentais, não se consegue adentrar verdadeiramente a cultura do outro. O resultado disso são inúmeras publicações que acabam produzindo ideologias, muitas vezes nefastas, sobre esses povos, gerando visões racializadas, distorcidas e falsas.


Linda Tuhiwai Smith nasceu em 1950 na Nova Zelândia. Faz parte dos povos indígenas Ngati Awa e Ngati Porou iwi. É uma professora. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

OBRIGAÇÕES DE DAR, RECEBER E RETRIBUIR

 


ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas

MARCEL MAUSS

EDITORA VOZES – 1ª – 2025

144 páginas

Ensaio sobre a Dádiva, de Marcel Mauss, é um clássico da antropologia que analisa as práticas de troca e reciprocidade nas sociedades arcaicas, propondo uma compreensão profunda da economia, da moral e da sociabilidade humana. Mauss demonstra que a dádiva não é apenas um ato de generosidade, mas um mecanismo complexo que envolve obrigações, alianças e o fortalecimento de vínculos sociais.

O autor estuda diversas culturas, mostrando como a troca de presentes cria redes de poder e hierarquia, mas também estabelece deveres éticos e morais entre indivíduos e grupos. A dádiva, segundo Mauss, é inseparável de obrigações de dar, receber e retribuir, revelando que mesmo nas sociedades antigas, a interação social não é neutra, mas carregada de significado simbólico e social.

O livro provoca uma reflexão sobre como os sistemas econômicos modernos podem ter perdido a dimensão relacional e moral que caracteriza as trocas humanas. Mauss nos convida a enxergar a economia e a sociabilidade como elementos indissociáveis, revelando que a lógica da dádiva continua presente, ainda que de forma mais sutil, nas interações contemporâneas.


Marcel Mauss nasceu em Épinal, França, em 1872 e faleceu em Paris, em 1950. Foi um sociólogo e antropólogo francês. Era sobrinho de Émile Durkheim. 


DEFINIÇÃO DE NÃO-LUGAR

 


NÃO-LUGARES: INTRODUÇÃO A UMA ANTROPOLOGIA DA SUPERMORDENIDADE

MARC AUGÉ

PAPIRUS – 1994

112 páginas

Em Não-lugares, Marc Augé propõe uma reflexão antropológica sobre as transformações do espaço naquilo que ele chama de supermodernidade. O autor parte da ideia de que a intensificação da mobilidade, do consumo e da circulação de informações produziu espaços radicalmente distintos daqueles tradicionalmente estudados pela antropologia clássica, centrada em comunidades estáveis, identidades compartilhadas e memórias coletivas.

Augé define como “não-lugares” os espaços de passagem, transitórios e funcionais, como aeroportos, rodovias, shoppings, hotéis, supermercados e estações de metrô. Diferentemente dos “lugares antropológicos”, esses espaços não produzem identidade, não criam vínculos duradouros nem se ancoram em uma história comum. Neles, o indivíduo permanece anônimo, reduzido à condição de usuário, consumidor ou passageiro, identificado apenas por documentos, cartões, bilhetes ou senhas.

O livro não afirma que os não-lugares sejam necessariamente negativos, mas destaca seu caráter ambíguo. Eles são produtos de uma modernidade que valoriza a eficiência, a rapidez e a padronização, ao mesmo tempo em que enfraquece experiências de pertencimento e de memória. Nos não-lugares, a comunicação ocorre sobretudo por meio de textos normativos — placas, avisos, instruções — e não pela interação humana direta. Trata-se de um espaço regulado, previsível e impessoal.

Augé também ressalta que lugar e não-lugar não são categorias fixas ou absolutas. Um mesmo espaço pode ser vivido como lugar por alguns e como não-lugar por outros, dependendo da experiência subjetiva, do tempo de permanência e da relação estabelecida com ele. Assim, a distinção funciona mais como uma ferramenta analítica do que como uma classificação rígida da realidade.

Não-lugares é uma obra breve, porém decisiva, que oferece uma chave de leitura para compreender a vida contemporânea, marcada pelo deslocamento constante e pela fragilização dos laços simbólicos. Ao deslocar o olhar antropológico para esses espaços cotidianos e aparentemente banais, Marc Augé nos convida a refletir sobre como habitamos o mundo atual e sobre o que se perde, e se transforma, quando a experiência humana se organiza cada vez mais em territórios de passagem.


Marc Augé nasceu em Poitiers, França, em 1935 e faleceu na mesma localidade em 2023. Foi um etnólogo e antropólogo francês. 


PENSAR DE LONGE PARA COMPREENDER DE PERTO


 

DE PERTO E DE LONGE

CLAUDE LÉVI-STRAUSS E DIDIER ERIBON

COSAC & NAIFY – 1ª ED. 2005

272 páginas

Em De Perto e de Longe, Didier Eribon entrevista Claude Lévi-Strauss. O livro é particularmente instigante para quem deseja conhecer não apenas a obra, mas o percurso de vida e de pensamento desse que foi um dos grandes mestres da antropologia do século XX. Não se trata de uma entrevista protocolar, mas de uma travessia biográfica e intelectual, marcada por deslocamentos, hesitações e escolhas que ajudam a compreender a formação de um pensamento singular.

O relato de Lévi-Strauss é fascinante justamente porque não constrói uma narrativa heroica de si. Ao contrário, ele revisita sua trajetória com distanciamento, quase com pudor. Seu percurso entre filosofia, antropologia, exílio, trabalho de campo e reflexão estrutural — aparece como algo que se fez aos poucos, muitas vezes contra expectativas iniciais. Para quem, como eu, estuda filosofia, mas sente que o desejo maior aponta para a antropologia, esse livro funciona também como espelho e estímulo.

Um dos momentos mais interessantes da entrevista é quando Lévi-Strauss retoma sua aproximação entre antropologia e psicanálise. Foi ele quem comparou o xamã ao analista, ressaltando tanto as semelhanças quanto as diferenças entre esses dois modos de escuta e intervenção simbólica. No entanto, é também o mesmo Lévi-Strauss que, em A Oleira Ciumenta, formula uma crítica rigorosa à psicanálise. Essa ambivalência não é contradição, mas método: aproxima-se para compreender, afasta-se para pensar.

Talvez um dos aspectos mais intrigantes do livro seja a recorrente afirmação de Lévi-Strauss de que não se lembra de nada, de que esquece tudo. Essa confissão, vinda de alguém cuja obra é atravessada por mitos, estruturas e sistemas de memória coletiva, produz um efeito quase paradoxal. Mas é justamente aí que o livro se abre para uma reflexão mais profunda: talvez lembrar exija esquecer. Talvez o pensamento só se organize quando o excesso de memória cede lugar à estrutura.

Nesse sentido, De Perto e de Longe não é apenas um livro sobre Lévi-Strauss, mas sobre o próprio ato de pensar. Um pensamento que não se ancora na autobiografia como confissão, mas no distanciamento; que não acumula lembranças, mas as reorganiza; que só pode ver de perto porque aprendeu, antes, a olhar de longe.


Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1908 e faleceu em Paris, França, em 2009. Foi um antropólogo.

Didier Eribon nasceu em Reims, França, em 1953. É um escritor e filósofo francês.