segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

DESMONTANDO A JORNADA DO HERÓI COMO NORMA

 


A HEROÍNA DE 1001 FACES

O Resgate do protagonismo feminino na narrativa exclusivamente masculina da jornada do herói

MARIA TATAR

CULTRIX – 1ª ED. – 2022

479 páginas

Em A Heroína de 1001 Faces, Maria Tatar parte de uma crítica direta e necessária a Joseph Campbell e ao seu clássico O Herói de Mil Faces. Não se trata apenas de apontar uma ausência incômoda — a quase inexistência de mulheres —, mas de questionar o próprio alicerce de uma narrativa que se pretende universal e que, no entanto, é profundamente masculina. A resposta de Campbell, segundo a qual às mulheres caberia o papel de mães dos heróis, torna essa exclusão ainda mais reveladora.

É a partir desse vazio que Tatar constrói seu projeto: buscar as heroínas apagadas, deslocadas ou mal interpretadas pela tradição. Daí o título provocador — 1001 faces, uma a mais, aberta ao infinito, recusando a ideia de um modelo único e normativo de heroísmo.

A autora inicia pela mitologia, revisitando figuras femininas que escapam à passividade e à função meramente auxiliar. Em seguida, avança para a literatura, destacando escritoras e suas protagonistas, personagens que não percorrem a jornada do herói tal como descrita por Campbell, mas que enfrentam desafios igualmente radicais. O percurso se expande para séries e filmes contemporâneos e culmina nas mulheres detetives, figuras que investigam, desobedecem, persistem e que pensam.

O mérito central do livro está em mostrar que o feminino não é uma versão menor do masculino. As heroínas não são menos corajosas, audaciosas ou fortes; elas apenas agem de outra forma. Muitas vezes não partem para conquistar territórios, mas para preservar vínculos; não buscam a glória individual, mas a sobrevivência coletiva; não vencem monstros externos sem antes enfrentar violências íntimas, sociais e simbólicas.

Tatar não propõe substituir um modelo por outro, nem criar uma nova fórmula rígida para o protagonismo feminino. Ao contrário, seu gesto é abrir o campo narrativo, mostrando que existem múltiplas formas de atravessar o perigo, o medo e a transformação. Ao fazer isso, o livro também nos convida a reler as histórias que consumimos — mitológicas, literárias ou audiovisuais — com um olhar mais atento às exclusões que naturalizamos.

A Heroína de 1001 Faces é um livro instigante, que valeu a leitura justamente por desmontar uma das narrativas mais consagradas do século XX e por devolver às mulheres o direito de serem não apenas origem, mas sujeito da aventura.


Maria Tatar nasceu em Pressath, Alemanha, em 1945. Naturalizou-se em 1956 como cidadã estadunidense. É uma acadêmica.


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