O Resgate do protagonismo feminino na narrativa
exclusivamente masculina da jornada do herói
CULTRIX – 1ª ED. – 2022
479 páginas
Em A Heroína de 1001 Faces,
Maria Tatar parte de uma
crítica direta e necessária a Joseph
Campbell e ao seu clássico O Herói de Mil Faces.
Não se trata apenas de apontar uma ausência incômoda — a quase inexistência de
mulheres —, mas de questionar o próprio alicerce de uma narrativa que se
pretende universal e que, no entanto, é profundamente masculina. A resposta de
Campbell, segundo a qual às mulheres caberia o papel de mães dos heróis, torna
essa exclusão ainda mais reveladora.
É a partir desse vazio que Tatar
constrói seu projeto: buscar as heroínas apagadas, deslocadas ou mal
interpretadas pela tradição. Daí o título provocador — 1001 faces, uma a mais, aberta ao infinito,
recusando a ideia de um modelo único e normativo de heroísmo.
A autora inicia pela mitologia,
revisitando figuras femininas que escapam à passividade e à função meramente
auxiliar. Em seguida, avança para a literatura, destacando escritoras e suas
protagonistas, personagens que não percorrem a jornada do herói tal como
descrita por Campbell, mas que enfrentam desafios igualmente radicais. O
percurso se expande para séries e filmes contemporâneos e culmina nas mulheres
detetives, figuras que investigam, desobedecem, persistem e que pensam.
O mérito central do livro está
em mostrar que o feminino não é uma versão menor
do masculino. As heroínas não são menos corajosas, audaciosas
ou fortes; elas apenas agem de outra forma. Muitas vezes não partem para
conquistar territórios, mas para preservar vínculos; não buscam a glória
individual, mas a sobrevivência coletiva; não vencem monstros externos sem
antes enfrentar violências íntimas, sociais e simbólicas.
Tatar não propõe substituir um
modelo por outro, nem criar uma nova fórmula rígida para o protagonismo
feminino. Ao contrário, seu gesto é abrir o campo narrativo, mostrando que
existem múltiplas formas de atravessar o perigo, o medo e a transformação. Ao
fazer isso, o livro também nos convida a reler as histórias que consumimos —
mitológicas, literárias ou audiovisuais — com um olhar mais atento às exclusões
que naturalizamos.
A Heroína de 1001 Faces
é um livro instigante, que valeu a leitura justamente por desmontar uma das
narrativas mais consagradas do século XX e por devolver às mulheres o direito
de serem não apenas origem, mas sujeito
da aventura.
Maria Tatar nasceu em Pressath, Alemanha, em 1945.
Naturalizou-se em 1956 como cidadã estadunidense. É uma acadêmica.


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