terça-feira, 31 de dezembro de 2013

FILME: O DIA EM QUE ME TORNEI MULHER - 2000


Direção: Marzieh Makhmalbaf - 2000
Duração: 78 min 
Título original: Roozi ke zan shodam
Roteiro: Mohsen Makhmalbaf 
País: Irã 


Irã - Apesar das restrições religiosas e culturais, o filme abrange mais, ao tratar do feminino e da mulher.

Há algo que diz que a mulher é sempre o segundo sexo, como dizia Beauvoir. E novamente se vê a falta da união entre as mulheres. São três mulheres, uma criança que completa 10 anos, uma jovem casada, e uma velha.
A criança Hava, é o dia do seu aniversário de 10 anos, pela tradição a partir deste dia ela é mulher. Não tem nada a ver com corpo, menstruação, ou psiquismo, é pela cultura. E portanto não pode mais brincar com os meninos, nem sair de casa e tem que usar o véu. Dilacera o coração ver seu amiguinho pedir para ela ir brincar com ele, tomar sorvete, e a menina não ousando confrontar a mãe e a avó, implorando para ir. Para nós, ela ainda é uma criança. Tudo bem, criança tem sexo também, mas a constituição do ser mulher ainda não se fez, está em construção. É uma menina. A avó se recorda de seu nascimento, ela nasceu ao meio-dia, então pode brincar até o meio dia. Ensinam-a a ver a hora com um pauzinho enfiado na terra, e a sombra. E lá vai ela. Colocando a vareta a todo instante, e olhando a sombra diminuir, diminuir, diminuir. Até que sua infância termina. Agora, é uma mulher. E terá que ficar em casa até que lhe arrumem um marido. Ou seja, a mulher não tem liberdade nenhuma, está ali a espera do marido. Mas será que um marido a deixará ser mulher?



- A jovem, casada, ela ama andar de bicicleta. E lá vão elas, várias, todas de preto, usando o véu. Não estou brincando, mas parece um enterro de bicicleta. Não há alegria, a bagunça que as mulheres costumam fazer juntas, pelo menos no Ocidente. Rir e falar muito. Vão quietas, pedalando, e olhando o mar. Surge o marido à cavalo, ele não aceita aquilo. Pergunta para as outras se elas não tem marido. Quer que sua esposa desça da bicicleta e volte para casa. Ela insiste. Ele volta com o mulá.  Ele tenta convence-la, diz que a bicicleta é obra do diabo, que é pecado o que ela está fazendo. Seu rosto, a angústia, ela persiste, e a cada vez que se aproximam ela acelera a bicicleta. O marido então diz que quer o divórcio. Ela aceita. Aí vem o avô, depois o pai, e finalmente os irmãos, que lhe barram o caminho e tomam sua bicicleta a deixando ali. Nem mesmo com o divórcio...




- A velha chega de avião numa cadeira de rodas, recebeu uma herança. Chama os meninos carregadores e vão para o Shopping. Ela quer comprar tudo que nunca pode ter na vida. Seus dedos estão cheios de nós coloridos, de tudo que tem que comprar. Primeiro uma geladeira, ela nunca tece água gelada, ela quer água gelada. E por aí vai, muitas compras. Depois levam tudo para uma praia, para esperar as balsas que levarão tudo até o barco. Duas mulheres de preto chegam, e lhe pedem as coisas. Por que assim elas poderiam casar. A velha diz não, que sempre quis ter tudo aquilo. Ela usa um véu branco, com flores pretas. As mulheres lhe contam da outra que os irmãos barraram na estrada. A mulher criança olha para tudo aquilo, de mão dada com a mãe. A velha fica com um nó no dedo, e não lembra o que é, ninguém consegue ajudar: máquina de costura? Não! o último nó, provavelmente, a liberdade, a liberdade de ser.




Somente a velha quase chega lá. Mas é tarde. A vida se foi. 


As três fases da vida da mulher: infância, adulta e velha retratados de uma forma bela, dentro do contexto político, social e religioso do Irã. 


Marzieh Makhmalbaf nasceu em 1969 em Teerã, Irã. 

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