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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

LIVRO: AS DEUSAS, AS BRUXAS E A IGREJA - MARIA NAZARETH ALVIM DE BARROS

 


AS DEUSAS, AS BRUXAS E A IGREJA

MARIA NAZARETH ALVIM DE BARROS

ROSA DOS TEMPOS – 2001

406 Páginas 

As Deusas, as Bruxas e a Igreja, de Maria Nazareth Alvim de Barros, investiga a complexa relação entre poder religioso, gênero e repressão histórica. O livro analisa como a Igreja, ao longo dos séculos, perseguiu figuras femininas que simbolizavam saberes, práticas religiosas e autonomia social, transformando mulheres em “bruxas” ou demonizando a espiritualidade feminina.

A autora traça paralelos entre cultos e mitologias antigas, nos quais deusas e mulheres possuíam posições centrais de poder e conhecimento, e a emergência de uma sociedade patriarcal sustentada por dogmas e punições religiosas. Ao estudar processos de caça às bruxas, perseguições e estigmatizações, o livro mostra como a repressão religiosa serviu para controlar a sexualidade, o saber e a liberdade das mulheres.

O livro também explora a persistência de estereótipos e a marginalização feminina na história, oferecendo uma reflexão crítica sobre os mecanismos de poder que ainda influenciam a sociedade contemporânea. É uma leitura essencial para compreender a violência simbólica e histórica contra as mulheres e o papel do patriarcado na construção da cultura ocidental.

Maria Nazareth Alvim de Barros tem formação em psicanálise e mestrado em literatura francesa. É palestrante.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

LIVRO: O FEMININO E O SAGRADO - CATHERINE CLÉMENT e JULIA KRISTEVA


O FEMININO E O SAGRADO

CATHERINE CLÉMENT E JULIA KRISTEVA

ROCCO – 2001

Tradução : Rachel Gutiérrez

220 páginas

 

Um livro escrito a duas mãos, duas vozes. Catherine Clément e Julia Kristeva através de cartas falam sobre o feminino e o sagrado.


O que é o sagrado para o feminino?

Não é fácil escrever sobre este livro que acabo de reler. Os temas são variados dentro do que ambas consideram como sagrado e nem sempre vai de encontro ao que eu mesma penso sobre isto, mas é muito interessante e enriquecedor. 

Kristeva fala do lado Ocidental, com sua formação psicanalítica e linguística, nasceu na Bulgária e vive na França, já Clément é  francesa, judia e viveu por muitos anos na Índia e África, romancista, estudou filosofia, professora e jornalista, tem uma visão mais antropológica. Elas concordam e discordam, há um momento no livro que se sente um pouco a tensão entre as duas que defendem seus pontos de vista, uma certa agressividade até, para depois se recomporem e continuar. Não há nada de conclusivo e nem era esta a intenção, o que elas fazem é levantar questões e falar sobre elas cada uma de seu ponto de vista e compreensão. 

Kristeva fala da Virgem Maria, das místicas ocidentais, de suas analisandas, da anorexia; Clément das africanas e do transe, sobre as tradições Indus, sobre o pudor e a sujeira. Pessoalmente me sinto mais atraída pela visão de Clément que está falando do que viu, viveu, do que acontece de fato na realidade que ela vive. Kristeva em um dado momento chama de sedução de terceiro mundismo, não gostei desta posição dela. Penso que para falar do sagrado a antropologia está mais habilitada do que a filosofia ou a psicanálise. Mas isto é uma opinião pessoal que não significa que Kristeva também não agrega pontos muito interessantes, principalmente sobre as místicas, as santas, sobre Catarina de Siena. Será ela que depois vai escrever um belíssimo livro sobre Teresa D'Ávila. Mas Clément escreveu a Louca e o Santo junto com um psicanalista hindu. 

Num ponto elas concordam, o sagrado é uma separação, ele separa, classifica, é uma maneira de se sair do profano, do mundano, do cotidiano, e viver algo diferente, recuperar-se, e voltar. O sagrado não é divino, há uma diferença, e por isto mesmo nem sempre está ligado à religião. É uma experiência privada, e o risco de se tornar coletiva é o fundamentalismo, a violência, pelo menos no mundo atual, uma vez que entre os povos ditos "primitivos" os rituais eram coletivos e cumpriam seu papel. As aldeias tinham seu espaço sagrado e era respeitado. No mundo atual para se encontrar um espaço sagrado realmente precisamos da privacidade e penso que se trata de uma experiência pessoal para cada um. O sagrado pode estar numa música, num lugar, na dança. Eu mesma considero minha casa um espaço sagrado e a rua o profano, mas também busco na natureza e na terra esta experiência. 

Catherine Clément 

Julia Kristeva nasceu em 1941 em Sliven, Bulgária 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

LIVRO: DIA DE FINADOS - CEES NOOTEBOOM



DIA DE FINADOS

CEES NOOTEBOOM

COMPAMHIA DAS LETRAS – 2001

Tradução: José Marcos Macedo

345 páginas

PAÍS – HOLANDA – PAÍSES BAIXOS 


Arthur Daane, um cinegrafista holandês, perdeu sua esposa e filho num acidente aéreo. Sua vida após esta perda trágica passa a ser perambular e ocasionalmente fazer algum trabalho para ganhar algum dinheiro, mas sua principal ocupação é filmar fragmentos, pedaços, tudo aquilo que está ali, mas ninguém vê ou percebe, e faz isto por onde anda Espanha, Holanda, Japão, Estônia e principalmente em Berlim onde se encontra por mais tempo no momento.

É o relato de um solitário, que não supera seu luto, que busca em vão compreender o que é impossível. Berlim é uma cidade onde os mortos também permanecem, estão ali nos escombros, no ar, na culpa que também acompanha os alemães como a ele também. O último instante quando ele registra sua mulher e filho na fila no aeroporto. Ele não estava com eles.

Apesar da solidão tem bons amigos, Erna na Holanda e Victor, Arno e Zenóbia em Berlim, além de outros cinegrafistas com os quais divide apartamentos pelo mundo. Conhece uma mulher, Elik, que também carrega em si um trauma, é uma historiadora, e da mesma forma que Arthur, também uma solitária, só que ao invés de perambular pelo mundo ela se enclausura na história e está fazendo seu doutorado sobre uma rainha da idade média, Urraca.

Temos interrupções no decorrer do livro, são os anjos que tudo vêem, ou o coro, como acontece no teatro grego que nos falam de coisas que cabe a cada um, mas que o outro não pode ver, mas eles vêem tudo ao mesmo tempo. Arthur socorre uma senhora e a deixa no metrô, mas jamais saberá que ela morreu.

O que o impressiona é aquela sensação de estar num lugar onde tantos já estiveram antes, passaram também por ali, falaram algo, e o lugar fica, mas onde estão todos estes? As vozes ficam? os movimentos? Um lugar onde já houve guerra e muitos morreram, e agora está calmo, mas é o mesmo lugar. Como filmar isto? Uma cidade é feita de edifícios e vozes, mas se retiramos as vozes o que sobra?

Ele busca vestígios, não pode esquecer, e não compreende que as coisas passem, que tudo muda, se transforma, mesmo que o lugar seja o mesmo, a transitoriedade de tudo.

Diante de uma foto do Dia de Finados onde as mulheres se encontram, limpam os túmulos, levam flores, fazem isto todos os anos ele começa a compreender que é preciso lembrar para esquecer.

Cees Nooteboom, pseudônimo de Cornelis Johannes Jacobus Maria, nasceu em 1993 em Haia, Holanda.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

LIVRO: A MULHER E O DESEJO - POLLY YOUNG-EISENDRATH

A MULHER E O DESEJO

Muito mais que a vontade de ser querida

POLLY YOUNG-EISENDRATH

ROCCO – 2001

Tradução: Léa Viveiros de Castro

220 páginas 

Título original: Women and desire: beyond wanting to be wanted 


Algum tempo atrás eu disse ao meu analista que não queria ser desejada, eu queria ser amada. Como diria Lacan, falei sem saber o que dizia. E justamente o livro começa com uma frase que eu desconhecia de Lacan sobre isto : "as mulheres querem ser desejadas, não amadas." 
A autora inicialmente duvidou se podia aceitar esta afirmação, mas ao longo de seu trabalho como psicanalista ela percebeu que ele tinha razão, que realmente era isto que as mulheres desejavam, mas o que ela não concorda é que isto seja normal e que basta, muito pelo contrário, ela irá questionar isto, e ficara com esta frase a incomodando por muito tempo, até perceber de que apesar de correto, isto não era bom, mas era uma angústia danosa e que provinha da formação feminina em uma sociedade patriarcal, onde se espera que as mulheres agradem aos homens. 
A autora é feminista, e eu pessoalmente apesar de todo meu respeito e admiração pelo movimento que em minha opinião foi um dos mais revolucionários dos últimos tempos na questão de mudanças, prefiro atualmente ter um olhar sobre o feminino e o masculino, que são gêneros e construídos socialmente. E é justamente nesta construção que vamos encontrar esta questão que é muito atual e que apesar da ilusão de que as mulheres conquistaram sua liberdade, ainda estão longe disto, infelizmente. 
Lendo o livro percebi que eu também não poderia me vangloriar de minha declaração ao analista, apesar de ter uma ligeira percepção do que se passava, este querer ser amada ainda me colocava na condição de querer agradar ao outro, de me preocupar com o que o outro pensa de mim. 
E esta é a questão do livro, passar de objeto de desejo para Sujeito do desejo. E muitas vezes nos enganamos ao pensar que temos escolha, por que no fundo nossas escolhas são regidas justamente pelo desejo de ser objeto de desejo, o que nos leva a uma insatisfação e um conflito interno. Achamos que temos escolha quando vamos ao salão de beleza, quando vamos para a academia, quando vamos ao shopping e compramos roupas, mas no fundo estamos atendendo a este desejo de agradar ao outro, o que se formos sujeito de nosso desejo, talvez não seja tão relevante assim usar a roupa certa, estar com as unhas feitas, ou magra. Isto passa a ser uma escolha quando é feita para atender ao que nós desejamos para nós, como nós nos sentimos bem, mas não para que o outro veja e admire, mesmo que admire e seja bom, desde que possamos escolher. 

Young-Eisendrath então percorrerá um caminho através de contos de fadas, mitos e relatos de suas pacientes, além de exemplos próprios para provocar e tentar evitar a armadilha onde a maioria de nós cai. 

Ela usará  os arquétipos da musa e da bruxa megera. A musa que desperta o desejo, que atrai os olhares, que é admirada, e a bruxa megera, quando a mulher ocupa um espaço e é chamada de autoritária, mandona, controladora, nos mostrando como nós ficamos entre estas duas, sentindo vergonha e inibição e o quanto isto afeta nossa vida. Falará também da criança divina e do mito da mãe perfeita, zelosa que cuida dos seus filhos, o que acaba sendo prejudicial tanto para a mulher quanto para o filho até chegar as três patologias que a mulher acaba sofrendo.A patologia do furto em lojas, da compulsão por compras  e da orgia alimentar que pode resultar ou em anorexia ou que engordemos. A autora demonstra como isto é uma forma de poder ter escolha, mas de forma doentia, que surge por não atingirmos o ideal que desejamos para nós, para mascarar dores, para suprir um vazio imenso. O vazio e a dor de não haver construído um sentido para sua própria vida de acordo com uma escolha com autonomia. 

O maior equívoco é confundir ser sujeito de seu desejo com independência financeira ou individualidade. Ser sujeito de seu desejo é soberania, ter autonomia, mesmo que você viva com outra pessoa, que divida as despesas, ou até mesmo seja sustentada por um tempo, mas lembrando que ganhar a vida é um dos passos para a soberania. Grandes executivas, que ganham bem estão presas nesta situação, e mesmo profissionalmente sofrem, por que se afirmam suas idéias, se dão ordens, são chamadas de megeras. 

Parece algo ultrapassado? mas não é, e justamente a questão que mais chama a atenção é a anorexia, a bulimia, o consumismo desenfreado, a tentativa de preencher vazios e solidão comprando, trocando, sem nunca se satisfazer. 

Vale a pena ler o livro. Gosto muito também das psicanalistas junguianas que trabalham com as histórias, contos e mitos para ajudar a falar sobre algo. A angústia é o inefável, e muitas vezes não conseguimos ver ou compreender algo, e uma história pode iluminar e trazer as palavras necessárias, que curam. 

" A soberania pessoal é algo diferente da assertividade, da individualidade, da independência e de fazer as coisas a seu modo. A soberania pessoal ou autonomia consiste em sentir-se livre para escolher e para direcionar suas ações." 


Polly Young-Eisendrath é psicóloga e psicanalista junguiana e clínica em Burlington - Vermont, além de professora-assistente de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Vermon. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: DEIXE-ME IR, MÃE - HELGA SCHNEIDER



DEIXE-ME IR, MÃE

HELGA SCHNEIDER

BERLENDIS & VERTECCHIA – 2001

Tradução: Liliana Laganá

136 páginas 


Quando se tem uma mãe que foi uma das que esteve nos campos de concentração como supervisora, e que acredita no fundo do coração que estava certa, e não se arrepende em momento algum do que fez, e do outro lado, uma filha que acredita na humanidade e não aceita que uma pessoa possa fazer o que a sua mãe fez, não há outro jeito do que pedir que a mãe a deixe ir, porque, apesar de tudo, de todas as monstruosidades que a mãe cometeu, ela ainda vacila, deseja estar com a mãe, chega a ter vontade de perdoar, mas ela não pode, não pode porque a mãe não se arrepende e acredita no que fez.

Um livro corajoso, de uma filha que foi abandonada junto com o irmão e seu pai por uma mãe que acreditava mais em sua missão e dever junto ao III Reich.

Helga Schneider nasceu em 1937 em Steimberg, na época território Alemão, tendo se naturalizado Italiana. Sua mãe foi primeiramente para Ravensbrück como recruta da SS e depois para Auschwitz-Birkenau, abandonando a seu marido e dois filhos. Além deste livro sobre o reencontro com sua mãe escreveu outros livros.