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domingo, 6 de setembro de 2026

LIVRO: O PAÍS DAS MULHERES - GIOCONDA BELLI


 O PAÍS DAS MULHERES

GIOCONDA BELLI

VERUS – 1ª ED. – 2011

Tradução: Ana Resende

220 páginas

Título Original: El país de las mujeres

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – NICARÁGUA 

Gioconda Belli nos presenteia com uma utopia feminista. Um país fictício - Fáguas, na América Latina - onde a incompetência masculina em governar leva ao poder um partido chamado PEE (Partido da Esquerda Erótica). 

O interessante é que um grupo chamado PEE - Partido da Esquerda Erótica, realmente existiu nos anos 80, na Nicarágua, durante a Revolução Sandinista, e discutia questões relacionadas aos direitos das mulheres. O grupo se manteve ativo durante muitos anos. 

A autora se utiliza de um humor fino e satírico para demonstrar como seria um mundo governado por mulheres que não se adequassem ao poder masculino, mas pelo contrário, criassem algo totalmente novo. 

"Qual é minha ideia? Vejamos. Já existem algumas mulheres presidentas. Isso não é novidade. O que não existe é um poder feminino." (pág. 82).

A candidata à presidência também propõe o que chama de Felicismo. "A felicidade per capita e não o crescimento do produto interno bruto como eixo do desenvolvimento. Medir a prosperidade não em dinheiro, mas em quanto mais tempo, mais tranquilas, seguras e felizes vivem as pessoas." (pág. 85). 

Cinco mulheres  se unem para criar o Partido - Viviana, Martina, Eva, Rebeca e Ifigenia. Elas vencem as eleições após uma campanha que utiliza de humor e apresentam um projeto de governo muito diferente daquele a que o povo estava habituado. Este resultado também foi influenciado pela erupção do vulcão Mitre, que exala uma fumaça que baixou o nível da testosterona masculina, deixando os homens mansos e calmos. 

As mudanças introduzidas pela nova presidenta e pelas quatro ministras são revolucionárias. Ao perceber que, havendo homens no governo, as mulheres ainda se comportavam como submissas diante deles, que sempre acabavam debochando e criticando as ideias que elas apresentavam, Vivian Sansón, a presidente, decide afastar todos os homens dos cargos públicos, inclusive da polícia e do exército, e colocar somente mulheres nesses postos. 

Os homens afastados recebem um salário por seis meses e devem assumir os trabalhos domésticos e o cuidado dos filhos, para que suas esposas possam trabalhar fora do lar. Além disso, foram criadas creches comunitárias e escolas nos bairros, construídas pelos homens; concursos para as regiões mais limpas da cidade, que eram premiadas com isenção de pagamento de água e luz por um período; e também punições severas contra abusadores e estupradores de mulheres. 

No entanto, obviamente, nem todos estavam gostando de tudo isso, principalmente quem perdeu a eleição e um juiz que foi desmascarado por Viviana, quando ainda era jornalista e estava envolvido em prostituição e tráfico de mulheres, além de outros homens e inclusive algumas mulheres. No segundo ano do mandato, durante os festejos em uma praça pública, Viviana sofre um atentado, sendo baleada em dois lugares - no baço e no cérebro.

Durante sua hospitalização, enquanto permanece em coma induzido, ela entra em um mundo paralelo, em um galpão onde estão objetos que se referem à sua vida. Cada vez que ela toca um deles, rememora um momento vivido, sua trajetória e seu governo. Enquanto isso, as outras quatro mulheres seguram o governo e buscam o pistoleiro e o responsável pelo atentado. Não menciono o final em respeito aos que irão ler o livro. 

Podemos fazer críticas ao livro também. Por exemplo, por mais que autora trabalhe a questão do cuidado como algo que deva ser igualitário, há momentos em que aparece, ao fundo, um certo essencialismo. Viviana considera o governo como ser uma mãe para o povo. 

Se as mulheres governam porque são socialmente construídas para cuidar, estamos realmente diante de uma nova concepção de poder ou apenas transferindo para o Estado o papel tradicional de mãe?

No entanto, a autora levanta uma questão que me provoca há muito tempo: como nós nos pensamos como mulheres? Afinal, o que é o feminino? E concordo com Viviana quando ela diz que deixamos que nos convencessem de que nossas maiores qualidades são fraquezas. Muito se discute sobre a questão natureza/cultura, e o que mais encontramos é uma crítica a essa divisão, considerando que, na modernidade, colocou-se a mulher na natureza e o homem na cultura. Porém, Vandana Shiva, uma filósofa, ecofeminista indiana, defende que estar na natureza é ocupar o lugar de maior valor, uma vez que é a vida. Existiria cultura sem vida?

Sim, foi necessário, primeiramente, combater toda a visão masculina, misógina e machista sobre a mulher. Afirmar que não somos apenas aptas a procriar, cuidar da casa e dar prazer aos homens, como queria Rousseau em seu livro "Emílio ou da educação". Mas penso que também temos que definir em algum momento, o que é ser mulher. E, ao invés de colocar alguns valores, como cuidado, maternidade, afeto e intuição, como algo menor, essencialista e pertencente ao lugar que a sociedade nos colocou, também podemos, sim, defender esses valores como tão bons quanto a razão, a lógica, o intelectual e o profissionalismo. 

O livro é uma escrita que flui, fácil de ler, mas que traz observações que podem nos levar a grandes reflexões. 


Gioconda Belli nasceu em Manágua, Nicarágua, em 1948. É uma poetisa e romancista nicaraguense. 



domingo, 15 de fevereiro de 2026

LIVRO: EU MATEI SHERAZADE

 

EU MATEI SHERAZADE: CONFISSÕES DE UMA ÁRABE ENFURECIDA

JOUMANA HADDAD

RECORD – 1ª ED. - 2011

Tradução: Dinah Azevedo 

144 páginas

PAÍS - LÍBANO 

Eu Matei Sherazade, de Joumana Haddad, aborda questões de gênero, liberdade e representação da mulher na sociedade árabe. O livro combina memórias pessoais com reflexões políticas e sociais, e o título simboliza a ruptura com o estereótipo da mulher submissa e silenciosa presente na cultura árabe. Haddad escreve com paixão e honestidade sobre sua própria trajetória, revelando os desafios que enfrentou como mulher e escritora em uma sociedade patriarcal. A obra é inspiradora e instiga a reflexão sobre gênero, autonomia e liberdade de expressão, oferecendo uma perspectiva única e corajosa sobre as tensões entre tradição e emancipação feminina.


Joumana Haddad nasceu em Beirute, Líbano, em 1970. É uma escritora, palestrante, ativista de direitos humanos e jornalista libanesa. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

LIVRO: NO COMEÇO ERAM OS DEUSES


 

NO COMEÇO ERAM OS DEUSES

JEAN BOTTÉRO

CIVILICAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. - 2011

Tradução: Marcelo Jacques de Morais

 309 páginas 

Este livro do historiador Jean Bottéro me ensinou muito — e, sobretudo, desmontou várias ideias que eu tinha como dadas. Com foco na Mesopotâmia, a obra é composta por uma série de artigos nos quais Bottéro reconstrói aspectos centrais do pensamento, da religião e da vida cotidiana mesopotâmica.

Um dos textos que mais me impactou, talvez pela minha própria ignorância anterior, é o dedicado ao chamado “Código de Hamurabi”. Bottéro demonstra que ele não deve ser entendido como um código de leis no sentido moderno, como eu acreditava, mas algo muito mais próximo do que hoje chamaríamos de jurisprudência. Trata-se de uma compilação de decisões tomadas por Hamurabi diante de situações concretas, reunidas como modelos para julgamentos futuros — o que altera profundamente a forma como compreendemos o direito nesse contexto histórico.

Outro ensaio particularmente marcante é o que trata da moral e do pecado, ao evidenciar as diferenças profundas entre as crenças mesopotâmicas e a tradição judaico-cristã. Bottéro mostra como conceitos que hoje consideramos universais são, na verdade, construções históricas específicas, e como outras civilizações pensaram a relação entre deuses, humanos, culpa e responsabilidade de maneira muito distinta.

O livro aborda ainda temas variados, como a culinária, o amor, o direito das mulheres e a figura das prostitutas — aspecto que, no meu caso, foi especialmente relevante. Bottéro escapa de leituras moralizantes e restitui a complexidade social dessas figuras, situando-as em seu tempo e em suas funções simbólicas e práticas.

A obra traz também a tradução do Poema do Supersábio, um mito fundador mesopotâmico que eu desconhecia, acompanhada de uma análise brilhante. Esse texto, em particular, amplia o entendimento da cosmovisão mesopotâmica e de sua maneira de pensar a origem do mundo, o saber e a relação com o divino.

No começo eram os deuses é um livro que abre horizontes. Trouxe-me muitas informações até então desconhecidas e obrigou a rever certezas sedimentadas. Por isso, a leitura vale e muito a pena.vro do historiador Jean Bottéro me ensinou muito — e, sobretudo, desmontou várias ideias que eu tinha como dadas. Com foco na Mesopotâmia, a obra é composta por uma série de artigos nos quais Bottéro reconstrói aspectos centrais do pensamento, da religião e da vida cotidiana mesopotâmica.

Um dos textos que mais me impactou, talvez pela minha própria ignorância anterior, é o dedicado ao chamado “Código de Hamurabi”. Bottéro demonstra que ele não deve ser entendido como um código de leis no sentido moderno, como eu acreditava, mas algo muito mais próximo do que hoje chamaríamos de jurisprudência. Trata-se de uma compilação de decisões tomadas por Hamurabi diante de situações concretas, reunidas como modelos para julgamentos futuros — o que altera profundamente a forma como compreendemos o direito nesse contexto histórico.

Outro ensaio particularmente marcante é o que trata da moral e do pecado, ao evidenciar as diferenças profundas entre as crenças mesopotâmicas e a tradição judaico-cristã. Bottéro mostra como conceitos que hoje consideramos universais são, na verdade, construções históricas específicas, e como outras civilizações pensaram a relação entre deuses, humanos, culpa e responsabilidade de maneira muito distinta.

O livro aborda ainda temas variados, como a culinária, o amor, o direito das mulheres e a figura das prostitutas — aspecto que, no meu caso, foi especialmente relevante. Bottéro escapa de leituras moralizantes e restitui a complexidade social dessas figuras, situando-as em seu tempo e em suas funções simbólicas e práticas.

A obra traz também a tradução do Poema do Supersábio, um mito fundador mesopotâmico que eu desconhecia, acompanhada de uma análise brilhante. Esse texto, em particular, amplia o entendimento da cosmovisão mesopotâmica e de sua maneira de pensar a origem do mundo, o saber e a relação com o divino.

No começo eram os deuses é um livro que abre horizontes. Trouxe-me muitas informações até então desconhecidas e obrigou a rever certezas sedimentadas. Por isso, a leitura vale e muito a pena.


Jean Bottéro nasceu em Vallauris em 1914 e faleceu em Gif-sur-Yvette, França. Foi um historiador francês, assiriólogo, especialista no Antigo Oriente. 



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

LIVRO: DE BIZÂNCIO PARA O MUNDO


 

DE BIZÂNCIO PARA O MUNDO: A saga de um império milenar

COLLINS WELLS

DIFEL – 11ª - 2011

Tradução: Pedro Jorgensen

320 páginas 


Para quem deseja conhecer melhor a fascinante história de Bizâncio, este livro é uma excelente porta de entrada. Colin Wells constrói aquilo que define como “a narrativa de uma aventura intelectual que conduz o leitor pelos desertos da Arábia até as florestas sombrias da Rússia setentrional, pelas pitorescas cidades da Itália renascentista até os momentos finais de uma cidade milenar”.

A partir desse percurso, o autor mostra como Bizâncio não foi um império isolado ou meramente decadente, mas um centro irradiador de ideias, formas políticas, artísticas e religiosas que moldaram profundamente o mundo europeu e oriental. Para começar a compreender a formação da Rússia — e inclusive as questões históricas que envolvem a Ucrânia e Kiev —, este livro é imprescindível.

Wells aborda também o Monte Athos, na Grécia, com seus mosteiros e a longa tradição da iconografia cristã. Um espaço marcado por forte espiritualidade, mas também por exclusões: até hoje, trata-se de um território onde a entrada de mulheres é proibida, o que revela tensões persistentes entre religião, poder e gênero.

Ao longo do livro, o autor acompanha missionários, filósofos e artistas que, contra todas as probabilidades, propagaram os ideais gregos nas sociedades italiana, islâmica e eslava. Assim, Bizâncio surge não apenas como herdeiro da Antiguidade, mas como mediador fundamental entre mundos, tempos e culturas.

Um livro que amplia o olhar sobre a história europeia e desmonta leituras simplificadas sobre o passado — mostrando como muitos dos conflitos e heranças do presente passam, inevitavelmente, por Bizâncio.


Collins Wells nasceu em West Bridgford, Reino Unido, em 1933 e faleceu em North Wales, País de Gales. Foi um historiador britânico especializado em Roma Antiga, arqueólogo e acadêmico.


LIVRO: A LEBRE DA PATAGÔNIA

 


A LEBRE DA PATAGÔNIA

CLAUDE LANZMANN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2011

472 páginas 

Comprei este livro para ler a versão de Claude Lanzmann sobre sua vida com Simone de Beauvoir, mas fui surpreendida pela amplitude de seu conteúdo. A Lebre da Patagônia é um livro de memórias que atravessa o século XX a partir de uma experiência singular, intensa e profundamente política.

Lanzmann revisita sua participação na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, suas impressões, enquanto judeu, sobre Israel, e suas viagens à Coreia do Norte e à China. Nessas passagens, apresenta uma visão crítica e realista, bastante distinta daquela que, à época, levou muitos intelectuais a louvar o comunismo e o maoísmo sem maiores questionamentos.

O livro aborda também sua relação com Simone de Beauvoir, mas não se reduz a ela. Entrelaçam-se a essa narrativa o processo de realização de Shoah, seu filme monumental sobre o extermínio dos judeus, revelando não apenas os bastidores das filmagens, mas o peso ético e existencial que atravessou toda a sua feitura.

A leitura vale muito a pena, inclusive por sua estrutura: o livro não segue uma ordem cronológica linear, mas avança conforme as lembranças emergem. Esse movimento fragmentado constrói, pouco a pouco, um panorama complexo e perturbador do século XX, visto por alguém que o viveu intensamente — sem ilusões e sem concessões.


Claude Lanzmann nasceu em Bois-Colombe, França, em 1925 e faleceu em Paris em 2018. Foi um cineasta conhecido pelo documentário Shoah (1985).


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

LIVRO: PALAVRA PERDIDA

 

PALAVRA PERDIDA

AUTOR – OYA BAYDAR

ORIGEM – TURCA

EDITORA – SÁ EDITORA -  2011

Tradução: Marco Syarayama de Pinto e Marina Mariz 

464 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS: TURQUIA 

Palavra Perdida, de Oya Baydar, é menos um romance sobre um escritor em crise do que uma investigação sobre as condições históricas, políticas e afetivas que tornam a palavra impossível. A perda da palavra não aparece como um bloqueio individual ou psicológico, mas como efeito de um mundo em que a linguagem foi capturada: pelo mercado editorial, pelo nacionalismo, pela violência de Estado e pelas expectativas normativas que atravessam a família.

O escritor protagonista perde sua palavra quando passa a escrever aquilo que se espera dele. A literatura deixa de ser espaço de escuta da própria voz e se transforma em produto. A pergunta que atravessa o romance — se a palavra morre quando a voz interior se cala ou quando o sentido desaparece — desloca a crise da escrita para uma dimensão ética e política: escrever torna-se impossível quando já não se pode dizer a verdade do mundo que se habita.

Essa crise atravessa também a família. A esposa, cientista reconhecida, carrega o ressentimento de uma modernidade sempre suspeita aos olhos do Ocidente: mesmo premiada, precisa reiteradamente provar que a Turquia pode produzir ciência “avançada”. O filho, por sua vez, é esmagado pelo imperativo do sucesso. Incapaz de corresponder às expectativas parentais, ele se lança à guerra como fotógrafo, expondo o corpo e o olhar à violência extrema. Aqui, o romance sugere que a falha na transmissão da palavra entre gerações abre espaço para outras formas de inscrição no mundo — frequentemente autodestrutivas.

Ao deslocar a narrativa para o leste da Turquia, Baydar torna explícito aquilo que já estava latente: a palavra perdida é inseparável da violência política. A questão curda não aparece como pano de fundo, mas como núcleo ético do romance. Onde a palavra é proibida, silenciada ou criminalizada, resta o grito — “Mataram a criança!” — que atravessa a narrativa como um chamado irrecusável. A criança morta funciona como figura limite: quando o futuro é destruído, a linguagem entra em colapso.

O exílio final, na Noruega, não oferece uma solução redentora. A tentativa de escapar da violência revela seus limites: não há refúgio absoluto enquanto o mundo continuar organizado pela guerra, pela exclusão e pela negação da alteridade. O romance recusa tanto a reconciliação fácil quanto a nostalgia. O que resta é uma pergunta insistente sobre a possibilidade de recuperar a palavra sem negar o real que a destruiu.

Nesse sentido, Palavra Perdida é um romance profundamente contemporâneo. Fala da Turquia, mas também do mundo globalizado, onde modernidade e tradição coexistem em tensão permanente, e onde a palavra — literária, política, afetiva — está sempre ameaçada de esvaziamento. Baydar escreve contra o silêncio, não para oferecer respostas, mas para expor o custo humano de um mundo que prefere calar a escutar.


                 Oya Baydar é uma socióloga e escritora turca. Nasceu em Istambul em 1940. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

LIVRO: UMA VOZ FEMININA CALADA PELA INQUISIÇÃO - RUTE SALVIANO ALMEIDA


UMA VOZ FEMININA CALADA PELA INQUISIÇÃO

A religiosidade no final da Idade Média, as Beguinas e Margarida Porete

RUTE SALVIANO ALMEIDA

HAGNOS – 2011

218 páginas


O projeto que venho desenvolvendo em busca da voz feminina, do pensar feminino me levou às Beguinas, e entre elas Marguerite Porete que escreveu "O espelho das almas simples e Aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do amor". Se inicialmente pensei que havia pouca informação aos poucos vou encontrando livros, teses, estudos sobre estas mulheres que entre a opção de casar ou entrar para um convento encontraram uma alternativa, a de criar uma comunidade onde viviam e trabalhavam sem prestar votos ou serem ligadas à uma instituição religiosa, o que obviamente acabou desagradando o clero que as oprimiu obrigando-as a se tornarem ligadas à igreja. 

Algumas resistiram e entre elas Marguerite Porete que acabou condenada como herege relapsa, ou seja, reincidente na heresia, e condenada à fogueira sendo queimada viva junto com seu livro. Para nossa sorte alguns volumes escaparam, mas levou um longo tempo para que viessem à luz novamente. 

Antes de iniciar a leitura do livro de Marguerite estou lendo um pouco sobre seu contexto, sobre a situação da mulher na idade média, e este pequeno livro de Rute Salviano Almeida está sendo muito bom.

Inicia dando um panorama da Idade Média, da espiritualidade e do secular, a luta entre o clero e os reis pelo poder. Em seguida nos traz uma visão misógina dos homens sobre as mulheres. Nesta época o casamento não era valorizado, apenas o primogênito buscava o casamento em função de preservação de riquezas e descendência, os outros filhos preferencialmente iam para a igreja, eram monges. O casamento era realizado na porta das igrejas, e não dentro delas. Em torno de 1268 se defendeu que era essencial uma cerimônia religiosa para o casamento e foi apenas depois do Concílio de Trento em 1563 que se exigiu a presença de um sacerdote para a cerimônia. Apenas pelo casamento um mulher tinha acesso a existência social, porque antes como moça era designada como "mesquinha", porque antes de casar ela não era nada, o que significa que fora do casamento ela estava numa posição perigosa.

O interessante é que antes do Concílio de Trento o que validava um casamento era a relação sexual entre os noivos que desde que fosse completa validava o casamento como autêntico, para o direito canônico. Era o pai quem entregava a noiva ao noivo e que normalmente oficializava a união, e não o sacerdote.

A mulher na idade média possuía apenas dois espaços: sua casa ou o convento, mas algumas delas não desejavam isto, possuíam uma vocação cristã que queria exercer no mundo e não na clausura. Na época existiam dois movimentos em quais elas criam: o misticismo de Bernard de Clairvaux e a vida apostólica de São Francisco de Assis.

O místico Bernard de Clairvaux declarou na época: " O amor não requer nenhum outro motivo, além de si mesmo, e não busca frutos. Seu fruto é o gozo de si próprio." Ele foi um dos responsáveis pela mudança da concepção do amor.

A partir dos anos 1200 "a devoção feminina que não foi mera cópia da masculina, evoluiu de modo discreto, mas crescente, ao ligar salvação ao amor, à contrição e partindo, então, para uma busca profunda de comunhão com Deus."

O livro traz um breve relato dos principais místicos da Idade Média e depois temos um capítulo sobre as Beguinas. A diferença delas para com as religiosas é que não vivem no mundo mas também não fora dele. O principal objetivo era permanecer neste mundo para fazer nele uma diferença, cuidando das pessoas, mas não apenas do físico, mas também dando um alimento espiritual. Elas se colocam no liminar, e como todos os que estão na margem acabam sendo marginalizadas. As freiras viviam no claustro, no convento, as esposas estavam submissas aos seus maridos e família, mas as beguinas não estavam submissas a ninguém e isto incomodava a sociedade medieval e principalmente a igreja católica.

As beguinas são mulheres cultas, elas escrevem e falam ao público, e isto não era admitido. A igreja tem medo de perder seu poder. Elas atacam o clero devido sua ganância e desejo de poder.

Marguerite de Porette é uma beguina errante, ela não vive nas comunidades. Ela prega e escreve um livro, suprema heresia, ainda mais para uma mulher. É condenada, mas não obedece. Seu destino é a fogueira. Temos um relato no livro sobre a inquisição.

O livro serve como uma introdução ao tema. Não falo muito aqui de Marguerite de Porette pois vou ler o livro dela antes.

Rute Salviano Almeida nasceu em Belo Jardim, PE. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

LIVRO: ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO O senhor do labirinto - LUCIANA HIDALGO

ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO: O SENHOR DO LABIRINTO

LUCIANA HIDALGO

ROCCO – 2ª ED. (revista e ampliada) – 2011

208 páginas

Última leitura deste ano de 2014.

Arthur Bispo do Rosário, esquizofrênico-paranoico ou um místico? e qual seria a diferença? penso que o que mais influencia é o contexto e a cultura onde se está, a diferença entre o louco e o santo. 

Sabe-se muito pouco sobre ele no real, por causa de um registro de batismo em uma igreja encontrado pela autora pode-se afirmar que ele nasceu em Japaratuba no Sergipe e conhece-se os nomes de seus pais: Claudino Bispo do Rosário e Blandina Francisca de Jesus. Os significantes nos nomes de seus pais chamam a atenção: Bispo, Rosário e Jesus. 

A cidade de Japaratuba tem um rico folclore e muitas festas religiosas, de onde provavelmente vem muito do que Arthur bordou em sua vida. Nada se sabe de sua família, infância. Entrou para a Marinha, trabalhou na Viação Excelsior e depois trabalhou para a família Leoni no Rio de Janeiro. Após uma visão no dia do Natal em 1938 de sete anjos e vagou por dois dias até chegar ao Mosteiro de São Bento. Considerava-se o Cristo. Tinha 30 anos quando foi registrado no Hospital Nacional dos Alienados e depois transferido para a Colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá. Ia e vinha entre a colônia e a casa dos Leoni. 

Dizia que foi obrigado a construir seu mundo paralelo, que criava seguindo as ordens que recebia. O fato é que deixou uma obra belíssima em miniaturas, bordados e assemblages. Pessoalmente gosto de ver isto como um bricolage, onde ele reordena objetos de seu cotidiano no mesmo espaço, mas de outra forma, ou seja, mexe na estrutura, resignificando. 

Em sua obra destacam-se as palavras e nomes, e isto me remete a duas grandes artistas - Frida Kahlo e Louise Bourgeois que também trabalhavam com palavras. Uma de suas frases mais marcantes é " o louco é um homem vivo guiado por um espírito morto".

Também chama a atenção de Bispo executar uma arte dentro de seu mundo fechado, sua casa-forte, que ao mesmo tempo se desenvolvia no mundo da arte, o novo realismo. 

A obra de Bispo é no fundo autobiográfica, seu inconsciente está presente ali e lhe traz os traços e reminiscências da infância e do que viveu e dos principais significantes para ele, porém como é algo que ele produz, como um sonho, mas ninguém consegue interpretar, nem mesmo ele, não há como decifrar ali sua história, mas para os que são mais sensíveis é possível ver uma construção ficcional de sua vida, o que não deixa de ser a realidade, uma vez que todos nós construímos uma ficção, só que temos algumas referências, e ele não as dizia ou não lembrava. 









Luciana Hidalgo é jornalista, ensaísta e escritora 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

LIVRO: PRÓXIMA ESTAÇÃO, PARIS - Uma viagem histórica pelas estações do metrô parisiense - LORÀNT DEUTSCH


PRÓXIMA ESTAÇÃO, PARIS

Uma viagem histórica pelas estações do metrô parisiense

LORÀNT DEUTSCH

PAZ E TERRA – 2011

Tradução: Alcida Brant

343 páginas


Um relato fascinante sobre a história da França através das estações de metrô de Paris. São 21 estações e em cada uma delas Lorànt irá em busca da história da França e de Paris. Muitos vestígios foram apagados, principalmente com as reformas efetuadas na cidade pelo barão Haussmann, na segunda metade do século XIX, mas também devido as guerras e confrontos ocorridos na cidade.

Lorànt não desiste facilmente, ele busca os sinais,os vestígios e os encontra em jardins particulares, uma parede aqui, um porão ali, ainda é possível encontrá-los desde que se seja persistente e procure. Ele também nos falará dos prédios, praças e monumentos que ainda estão lá.

Ele inicia sua história quando Paris ainda era Lutécia, dos gauleses aos romanos e irá percorrendo todos os séculos, passando pelas guerras, revoluções, os reis, a República, Napoleão até os dias de hoje. Um belo mergulho na história da França e Paris e também do parisiense que sempre foi um povo meio colérico, insatisfeito e que quando isto acontece não fica quieto e parte para a briga.

A história é repleta de guerras e confrontos movidos pela ganância e conquista de territórios, muitas vezes o rio Sena se tingiu de vermelho. Mas em todas as épocas algo a mais se agregou a esta bela cidade que hoje podemos encontrar em seus museus, palácios, residências e também nos vestígios deixados em suas ruas, praças, casas.

Uma forma interessante de contar a história de um lugar. Irei postar o roteiro de leitura com as fotos e locais percorridos pelo autor.

Lorànt Deutsch nasceu em 1975 em Alençon, Orne, França 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

LIVRO: O LIVRO DE PRAGA - Narrativas de amor e arte - SÉRGIO SANT'ANNA


O LIVRO DE PRAGA – Narrativas de Amor e Arte

SÉRGIO SANT’ANNA

COMPANHIA DAS LETRAS – 2011

136 páginas

 PAÍS – BRASIL

ESTADO – RIO DE JANEIRO


Este livro faz parte de uma coleção encomendada a vários escritores chamada "Amores Expressos" onde cada um foi para uma cidade e escreveu uma história sobre o amor. 

Sant'Anna escreveu sobre Praga, e se utiliza inclusive deste projeto em seu livro uma vez que seu personagem Antônio Fernandes é um escritor que vai para Praga escrever sobre o amor fazendo parte de um projeto privado. 

O livro divide-se em sete partes mas que formam uma sequência da permanência de Antônio em Praga e de suas vivências locais. Ele está interessado em arte, então visita uma exposição da pintura de Andy Warhol onde ouve a pianista Béatrice Kromnstadt, anda pela ponte Carlos com suas esculturas, assiste a peça teatral Aspects of Alice do Ta Fantastika Black Light Theatre - teatro de luzes e sombras, vê uma mulher com o corpo tatuado no corpo de Jana. 

A arte, a música, luzes mexem com nossos sentidos e nos criam sensações de estranhamento, de prazer ou angústia. Antônio se expressa pelo seu desejo e a sexualidade aflora. Nos perguntamos até onde é real ou imaginário o que ele vive. Um livro que traz o inconsciente a tona em experiências estéticas e eróticas. 

O desejo proibido que reaparece, mas em vivências, experiências sensoriais e oníricas. 

Sérgio Sant'Anna nasceu em 1941 no Rio de Janeiro 





segunda-feira, 31 de março de 2014

LIVRO: OS LADRÕES DE CISNE - ELIZABETH KOSTOVA

OS LADRÕES DE CISNE

ELIZABETH KOSTOVA

INTRÍNSECA – 2011

Tradução: Adalgisa Campos da Silva

536 páginas

PAÍS – ESTADOS UNIDOS 

Título original: The swan thieves

Andrew Marlow é um psiquiatra de meia idade que é reconhecido por fazer falar até mesmo as pedras, mas quando ele aceita tratar de Robert Oliver verá que nem sempre é assim.

Robert havia tentado atacar uma obra de arte - Leda, na National Gallery em Washington, mas foi impedido pelo guarda do museu sendo preso. Sua justificativa é que havia feito isto por ela.

Diante da negativa de seu paciente em falar Marlow decide investigar indo contra sua ética profissional e procura pelas pessoas com quem Robert conviveu, sua ex-mulher, sua namorada após o divórcio, na tentativa de desvendar a mente de seu paciente e descobrir porque ele fez aquilo.

Aos poucos ele irá descobrir que seu paciente sofre de uma obsessão por uma mulher que já está morta, ele a ama e passa seus dias pintando seu rosto ou a retratando em diversas situações. Ele também possui um maço de cartas antigas escritas por esta mulher que foi uma pintora no século XIX próxima dos impressionistas, Béatrice de Clerval.

Um livro que nos fala destes pintores e da arte, de artistas, mas que também busca compreender a mente do artista além da obsessão que Robert tem por esta pintora em especial.  Marlow desvendará a mente de seu paciente e o que lhe ocorreu, mas para isto terá que ir também ao México e à França, juntando aos poucos as peças deste imenso quebra-cabeça até descobrir por que Béatrice parou de pintar já que possuiu um dom maravilhoso e pintava quadros extremamente vivos e juntar tudo isto com o ato de Robert no museu.

Quem eram os ladrões de Cisne? e porque tentaram roubá-lo? Ao descobrir esta resposta ele compreende finalmente o que levou Robert a tentar destruir uma obra de arte no museu.

Um livro gostoso de ler, que abrange um mistério, mas também penetra na mente do artista, nos levando a um passeio pela arte.


Elizabeth Kostova nasceu em 1964 em New London, Connecticut. É uma romancista.Fez pós-graduação em Yale e é mestre em Belas-artes pela Universidade de Michigan, onde recebeu o prêmio Hopwood.

segunda-feira, 3 de março de 2014

LIVRO: A MULHER TRÊMULA ou uma história dos meus nervos - SIRI HUSTVEDT



A MULHER TRÊMULA ou uma história dos meus nervos

SIRI HUSTVEDT

COMPANHIA DAS LETRAS – 2011

Tradução: Celso Nogueira

204 páginas

PAÍS – ESTADOS UNIDOS


Título original: The Shaking woman - Or a history of my nerves

Dois anos e meio após a morte de seu pai a escritora Siri Hustvedt discursou em homenagem à seu pai em sua cidade natal no campus da Faculdade St. Olaf em Minnesota. Durante seu discurso ela sofreu uma crise, começou a tremer, do pescoço para baixo, mas sua fala permaneceu inalterada o que lhe permitiu terminar o pronunciamento.

Este episódio não será o único, vindo a se repetir o que fará com que Siri inicie uma busca para tentar compreender o que lhe ocorria. Compreendo-a bem, esta necessidade intelectual de entender, se não levar à cura pelo menos sei o que se passa comigo. Isto a leva a um percurso tanto em médicos, psiquiatras e psicanalistas como também uma busca intelectual através de livros e pesquisas sobre o tema.

É sobre este percurso que ela nos fala no livro e sobre tudo que aprendeu. Ela irá buscar tanto nas teorias psicanalíticas como também na neurociência uma explicação, indo além, levantando questões sobre a mente/cérebro, estudando casos de outros doentes, participando de encontros e palestras, e sendo voluntária num hospital psiquiátrico dando aulas de redação para os internados.

Ela sofria há anos de enxaqueca e apesar do receio busca uma resposta para o caso de ser epiléptica, mas também estuda a histeria. Ao final ela acabará aceitando que as enxaquecas como as tremedeiras são ela mesma, ela é a mulher trêmula, ou seja, a tremedeira não é algo externo que a acomete, como uma invasão.

Siri não se deixará convencer por apenas uma explicação como se fosse a verdade, ela sempre será crítica, avaliando e não se deixando levar por um conformismo.

O mais importante é a percepção de que não podemos separar o corpo da mente, nem nos ater apenas a uma ciência ou explicação, somos muito mais do que isto.

Siri Hustvedt nasceu em 1955 em Northfield no Minnesota, Estados Unidos. De família norueguesa, licenciou-se em História na Faculdade de Olaf e é doutora em Literatura Inglesa pela Universidade de Columbia. É casada com o também escritor Paul Auster.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

LIVRO: JAKOB VON GUNTEN - Um diário - ROBERT WALSER


JAKOB VON GUNTEN - UM DIÁRIO

ROBERT WALSER 

COMPANHIA DAS LETRAS - 2011

TRADUÇÃO: SERGIO TELLAROLI 

148 páginas 

PAÍS - SUÍÇA - DE  LÍNGUA ALEMà

Jakob Von Gunten entra para o Instituto Benjamenta que forma pessoas para servir e esperar. O que estaria fazendo ali um filho de nobres? O que teria levado Jakob a fazer esta escolha?
O livro não é de fácil resenha, pelo contrário, cria desconforto ao mesmo tempo que é brilhante, mas como todo diário e toda vida não apresenta um final, mas fragmentos, deixa pistas, porém nada nos garante que será assim.
Um mistura de autobiografia e ficção, uma vez que ao me informar sobre a vida do autor vê-se que ele se coloca no lugar de Jakob em alguns momentos e talvez em outros apresente o que desejou, o que temia, o que percebia. Walser termina sua vida num Instituto Psiquiátrico. E aí eu retomo o que sempre digo, os chamados loucos estariam mais próximos do real do que os que se consideram normais? E talvez por isto não consigam lidar com isto, e escrevam, delirem, criem mundos à parte.
Há descrições neste diário do mundo que se perde sem viver por querer atender ao que todos esperam dos outros, por estarem baseados em aparência, sucesso, a suposta felicidade. Jakob estaria fugindo disto? ao buscar uma formação que o transformasse num criado? que saberia servir e sempre esperar, ter paciência, mas ao mesmo tempo se desenvolver interiormente? Não há respostas no livro, mas nos leva a refletir e muito sobre o mundo em que vivemos e sobre o que buscamos.

Wasel era o escritor preferido de Kafka, também apreciado por Elias Canetti, Walter Benjamin, aliás, assim que li Benjamenta, me veio Benjamin, mas em momento algum há algo que confirme isto.

Robert Walser nasceu em 1878 em Bienna na Suíça e faleceu em 1956 em Herisau - Suíça. Apesar de apreciado por grandes nomes da Literatura como Kafka ,Canetti, Walter Benjamin, Robert Musil entre outros ele mesmo não foi reconhecido. Foi internado numa clínica psiquiátrica e foi encontrado morto na neve no dia de Natal em 1956. Hoje é reconhecido como um dos escritores mais importantes do século XX. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

LIVRO - A LEBRE COM OLHOS DE ÂMBAR - EDMUND DE WALL



A LEBRE COM OLHOS DE ÂMBAR

EDMUND DE WALL

INTRÍNSECA – 2011

Tradução: Alexandre Barbosa

318 páginas

Título original: The hare with amber eyes

Prêmio Costa Book Award 2010 (Biografia)
Prêmio Ondaatje 2011


Edmund de Wall é um conceituado ceramista, um dos mais importantes do mundo. Ele recebe de herança de seu tio-avô a coleção de miniaturas japonesas, os netsuquês que pertencem a sua família há várias gerações, e parte em busca da história destes pequenos objetos reconstruindo conjuntamente a história de sua família e também dos principais eventos que ocorreram no mundo no final do século XIX e século XX.

Um livro delicioso de ler, um mergulho na história, mas também nos costumes sociais de cada época, falando do convívio social, de arte, da política, mas também da vida da mulher e de todas as sutilezas que envolvem estas vidas.

De Waal não se contentará em levantar a história, ele irá aos locais, irá reviver, sentir, perceber, ele precisa também imaginar e ter a percepção dos netsuquês em todos os locais onde ficaram. Ele nos fala muito do tato, que estas miniaturas precisam ser manipuladas, e algo que me chamou a atenção no livro é a textura de sua capa, é impossível pegar o livro e não sentir algo diferente, uma capa que parece um feltro como o que estava na vitrine dos netsuquês.

A história começa em Paris no século XIX, 1871-1899, onde Charles os adquiriu em uma loja em Paris. Iremos entrar em contato com uma época de artes, Renoir, Proust, Manet entre outros, a Belle Époque. Charles dará as 264 miniaturas como presente de casamento ao primo Viktor, então é a hora de Viena - a Viena fin-de-siècle, de 1899 a 1938. Passamos pela Primeira Guerra Mundial e até a Segunda Guerra quando a família será despojada de tudo por serem judeus. Neste momento se dispersam pelo mundo, mas os Netsuquês são salvo pela fiel Anna, que permanecerá em Viena e os esconderá dos nazistas. Anos depois eles serão entregues a Elisabeth, avó de Edmund e ficarão com Iggie seu tio-avô que os levará de volta ao Japão onde ficarão até a morte deste e serem entregues a Edmund que inicia esta busca e história que nos conta neste livro. Ele ainda irá a Odessa onde tudo começou, onde se formou a fortuna da família Ephrussi.

Um livro extremamente interessante, que nos mostra a história vista de vários ângulos, pelo lado dos homens da família, e pelo lado das mulheres, que nos fala da Europa, mas também do Japão, para nos contar a história de 264 miniaturas, pequenos objetos que rodaram o mundo e sobreviveram as guerras sem se dispersarem. A cada procura que De Wall empreende, ele sempre levará um deles em seu bolso, pois foram feitos para serem tocados, para estarem na vida.

Recomendo a leitura.




Edmund De Wall nasceu em 1964 em Nottingham na Inglaterra. Sua avó paterna, Elisabeth,  era nascida Ephussi, família sobre a qual nos relata em seu livro. É um ceramista, e já foi curador, professor, crítico de arte, historiador de arte e professor de cerâmica. Mora em Londres com a família.

domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: O ANO DA LEITURA MÁGICA - NINA SANKOVITCH




O ANO DA LEITURA MÁGICA

NINA SANKOVITCH

LEYA – 2011

Tradução: Paulo Polzonoff

232 páginas

Título original: Tolstoy and the purple chair. My year of magic reading.

Um sanatório de livros.

É a segunda vez que leio o livro. Trata-se de um livro onde os livros se transformam em terapia.
Nina após a morte de sua irmã empreende uma fuga ocupando-se de tudo e todos numa não aceitação da morte. Três anos assim e ela se dá conta que não pode continuar, precisa parar.
Ela inicia o que chamou de o ano da leitura mágica, ou seja, ler um livro por dia durante um ano e resenhá-lo. É um percurso solitário, mas as resenhas eram uma forma de troca com os outros a respeito do que leu.
Foi a forma que encontrou para poder fazer o luto da irmã, mas foi muito mais rico que isto, pois foi uma viagem, um percurso de crescimento, compreensão, desenvolvimento pessoal.
Ela chamou de Sanatório de livros. A palavra sanatório vem de sanar, curar, acabar com algo ruim.

Pessoalmente acho complicado absorver um livro por dia, preciso de mais tempo para saboreá-lo, digerir, pensar, criticar, aprender, apesar de que há livros que leio em poucas horas. Mas ela conseguiu.

Livros são companheiros, ler é um bálsamo, uma fuga, uma viagem, um encontro consigo e com o outro, é aprender, conhecer, compreender, mas é também um lazer, um entretenimento, dependendo do que buscamos em suas páginas. Livros tem vida própria, são vagabundos, andam por aí, voltam, somem, e caem em nossas mãos exatamente quando precisamos deles. Quando entro em uma livraria sem nenhum título em mente, mas precisando de algo, eu costumo andar pelos corredores, e de repente, um livro me atrai, e com certeza é o que eu preciso. É maravilhoso!

Nina em sua poltrona roxa lendo um livro por dia durante um ano. Ela nasceu em Evanston, Illinois, EUA.