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domingo, 24 de maio de 2015

FILME: PARFUMS D'ALGER - 2013



Direção: Rachid Benhadj
Duração: 108 min
País: Algéria 

É a história de Karima (Monica Guerritore) uma fotógrafa algeriana que vive em Paris e acaba de ter seu trabalho premiado. Desde que ela saiu da Argélia para escapar a tirania e violência do pai ela nunca mais retornou, mas recebe um telefonema da mãe falando sobre seu irmão, que aderiu a um grupo terrorista e está preso, condenado a morte. Ela então retorna ao seu país depois de 20 anos.

Neste retorno ela será então confrontada ao seu passado, aliás como se diz no filme, do qual nunca podemos escapar. Irá se recordando de sua infância, do seu irmão, de como se davam bem, mas também de toda violência sofrida vindo de seu pai. Aos poucos ela vai se reconciliar com sua família e acima de tudo consigo mesma. 

É um retorno as suas origens, suas raízes, e mesmo tendo vivido durante 20 anos em Paris, lutado por sua liberdade e independência ela irá se sensibilizar com a situação das mulheres na Argélia e sua falta de liberdade. Enfrentará seu passado em relação ao pai, mas terá que também aceitar que seu irmão não é mais aquele menino doce e fraterno que ela conhecia, sua realidade é outra agora e o que ele fez é terrível. Ela vai se apropriar de sua memória, mas acima de tudo dela mesma, do que ela é. 

Não temos como nos libertar das origens, podemos viver em outros lugares e desfrutar de uma liberdade do entorno, mas em nós vive algo que faz parte da infância, a família e um país onde nascemos com sua história,cultura e o social. O que Karima consegue fazer é um retorno a tudo isto e se reconstituir, conciliando seu lado de origem e também incluindo sua liberdade e independência. Ela vai ter que curar suas feridas que não estavam cicatrizadas como ela pensava ter feito ao não pensar no passado, e depois atar os fios de sua vida. 

Ao deixar a Argélia ela pensa esquecer tudo. Ninguém sabe nada sobre esta parte de sua vida, ela não fala nada sobre isto, nem mesmo ao homem com quem vive há 05 anos. Nunca mais falou a língua e não se interessou pelo o que ocorreu em seu país enquanto esteve fora. Ela terá que resgatar tudo isto para deixar de ser uma estrangeira em seu próprio país e se apropriar de sua identidade. 

O filme tem cenas locais muito bonitas, principalmente o jardim no começo do filme com suas árvores centenárias. 
Mohamed Rachid Benhadj nasceu em 1949 em Argel, Argélia. 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

FILME: EM UM PÁTIO DE PARIS - 2015



Direção: Pierre Salvadori - 2015
Duração: 91 min
Título original:  Dans la cour 
País: França 

Um filme sobre a depressão e outros aspectos da dor de existir da atualidade. Antoine (Gustave Kervern) não consegue mais dormir, deixa a banda onde tocava e procura um novo emprego. Acaba conseguindo como zelador de um prédio em Paris que tem um pátio interno. São poucas as suas obrigações e ele se dá bem. Aos poucos ele vai conhecendo os moradores do prédio.

Ele foi contratado por Matilde (Catherine Deneuve) e seu marido Serge (Féodor Atkine). Ela está aposentada e não se satisfaz com nada, é obsessiva, tem medos e também não consegue dormir. Mas não é apenas ela que tem problemas, aos poucos percebemos que os outros moradores do prédio também tem suas questões. Stéphane (Pio Marmai) coleciona bicicletas e faz uso de drogas. Mr. Maillard (Nicolas Bouchaud) está sempre preocupado com a vida dos outros e em impor o que deseja. E também um vendedor de livros de uma seita  (Oleg Kupchik)  e seu cachorro que vem para dormir no porão. 

É um retrato em tamanho reduzido da sociedade e suas mazelas, a solidão, a falta de sentido, a depressão, as obsessões, pânicos. Eles procuram um sentido para suas vidas, não sabem o que fazer nem como, e as pessoas que os rodeiam não compreendem o que se passa como o marido de Matilde que se irrita, diz que ela está louca e acaba ligando para o médico e vendo inclusive a possibilidade de interná-la. Será Antoine que acabará dando o maior apoio à Matilde procurando compreendê-la, mas ninguém se voltará para ele o que o levará ao desfecho que terá no filme. 

O filme não se aprofunda nas dores de cada um, ficamos sabendo muito pouco sobre cada um, mas justamente o que o filme busca mostrar é o dia a dia de pessoas que estão doentes e como eles agem, pensam, suas dificuldades, levando ao público uma abordagem do que é a depressão e as formas como eles tentam superá-la , mesmo não sabendo como fazer. 

O interessante do filme é que a abordagem apesar de ser rápida e sem muitos esclarecimentos nos mostra justamente o que é a depressão e como agem as pessoas deprimidas, e não há nenhum final feliz de superação. A depressão é algo que tem seu tempo e se por um lado precisa do apoio do outro, da compreensão, também precisa esperar o tempo do doente para que ele consiga sair dela e retomar sua vida. E o que mais me chamou a atenção é que  o filme não aborda o viés psiquiátrico que almeja a cura com anti-depressivos, mas ao contrário, é pelo tempo e a reação de cada um que se sai da depressão, ao invés de camuflá-la com remédios visando a pronta recuperação e obviamente que o sujeito volte a produzir e consumir.
Pierre Salvadori nasceu em 1964 na Tunísia