Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
Direção: Robert Guédiguian - 2014 Duração: 92 min Título original: Au fil d'Ariane País: França
O filme é um sonho mas sem se desprover de lógica apesar de cenas oníricas como uma tartaruga falante. Mas quem já não conversou com animais? e lhes colocou uma resposta sendo dada?
É o dia do aniversário de Ariane (Ariane Ascaride), ela está em sua moderna casa preparando um bolo enquanto chegam flores e o telefone não para com sua família e amigos lhe desejando um Feliz Aniversário, porém todos eles alegam que infelizmente estão impossibilitados de comparecerem para lhe dar os parabéns pessoalmente.
Assisti o filme na véspera do meu aniversário, já me preparando para justamente passá-lo sozinha. Porém como no filme isto acabou não acontecendo. Mas voltando a Ariane, quando ela percebe que ninguém virá ela deixa o bolo com as velas acesas e sai, decide comemorar sozinha seu aniversário. Na ponte levadiça enquanto espera a passagem de um navio acaba conversando com um jovem que se oferece para levá-la até um lugar muito bom para comer, o restaurante Café L'Olympique onde diariamente vão excursões de idosos para comer. Quando decide ir embora tem que chamar um táxi pois o rapaz da moto saiu com uma garota. Ela não sabe direito o endereço de onde deixou o carro, mas no caminho vê seu carro sendo guinchado, eles voltam, vão atrás mas quando chegam ao local o portão é fechado na cara dela. Bom ela saca dinheiro para pagar o taxista ( Jean-Pierre Darrousin) e neste momento é roubada por dois que passam numa moto. O taxista a leva de volta ao Café.
Ariane vive a realização de seus desejos, ela se reencontra. Ao relembrar seus sonhos que foram apagados ou deixados de lado diante do dia a dia de sua vida de casada, mãe de dois filhos, ela revive. E o que nos mostra o filme é que temos que manter a capacidade de sonhar, de desejar, e que mesmo que não seja possível realizar os desejos na realidade ainda assim podemos sonhar. Ao final Ariane terá que retornar, como no mito, ela segue seu fio de volta a sua realidade. Acorda quando tocam a campainha e eis que chegam todos para lhe fazer uma surpresa após enganá-la dizendo que não poderiam ir.
Robert Guédiguian nasceu em 1953 em Marselha, França. É casado com Ariane Ascaride.
Musica cantada no filme por Ariane - Comme on fait son lit.
Direção: Radu Mihaileanu - 2005 Duração: 143 min Título em português: Um herói do nosso tempo País: Israel - França Ganhador de nove prêmios e teve outras seis indicações. No Festival de Berlim ganhou três prêmios. Na França ganhou o César de melhor roteiro. Filme em co-produção - França, Bélgica, Israel e Itália. Um dos mais belos filmes que assisti nos últimos tempos. Chorei, ri e torci.
O título em português não é ruim, mas a tradução do título seria: Vá, viva e venha a ser.
O filme inicia com um narrador que nos fala sobre acontecimentos recentes mas que poucos conhecem. Vemos fotos reais ao fundo enquanto ele introduz a história dos judeus etíopes negros, os falashas que segundo a tradição são descendentes do Rei Salomão e da Rainha de Sabá. Milhares saíram da Etiópia a pé e buscaram refugio no Sudão, um país muçulmano apegado as regras rígidas da sharia. No trajeto até ali morreram em torno de 4 mil pessoas de fome, doenças, assassinados, torturados. Em 1985 o governo de Israel com a ajuda dos Estados Unidos organizou uma operação para retirá-los que foi efetuada pelo Mossad, a polícia secreta de Israel com aviões. Eles conseguiram retirar em torno de 8 mil pessoas levando-os para Jerusalém. Tudo isto nos lembra o êxodo dos judeus do Egito até a terra santa, e a operação recebeu o nome de Moisés.
Após a contextualização histórica o filme começa num campo de refugiados. Uma mulher acaba de perder seu filho de 09 anos, é Hana (Mimi Abonesh Kebede), ele morre em seus braços de fome. Naquela noite há um avião, e Hana é uma das escolhidas para ir. Vemos então uma mãe (Meskie Shibru Sivan) que acorda seu filho e ordena que ele vá. Ele não quer ir, não quer deixar sua mãe, mas ela é taxativa - Vá, viva e venha a ser!
Ele então vai com Hana. Na hora do embarque eles perguntam que garoto é aquele se seu filho morreu naquela manhã, mas o médico a socorre e diz que não, que ele conseguiu salvar a criança. Ele embaca com Hana rumo a Jerusalém. A questão é que este menino não é judeu, é cristão, mas terá que se passar por um judeu. Adota o nome do filho morto de Hana, Salomão - Schlomo (Moshe Agazai). O filme irá acompanhar a vida dele até a vida adulta, já nos anos 2000.
É tocante, é belo, é triste, mas é um hino à vida, exatamente o que sua mãe lhe desejou - Vá, viva e venha a ser!, mas ele nunca esquecerá sua mãe, e sempre olhará para a lua, sempre se direciona para o sul onde fica o Sudão, tem um olhar profundamente triste, de dor. Um dia ele sai do lugar onde está acolhido e se encaminha em direção ao Sul, e todos decidem que ele não pode ficar ali, mas é o psicólogo que diz: ele vai para o Sul, onde está sua mãe. Resolvem então que ele tem que ir para adoção.
Ele será adotado por um casal Yaël (Yaël Abecassis) e Yoram (Roschdy Zem) que já tem dois filhos. Há uma cena onde Yaël é comunicada pela escola que terá que encontrar outra para o menino porque os pais tem medo que Schlomo transmita doenças aos seus filhos. Ela reage, fala o que precisa ser dito e beija, abraça, lambe o menino mostrando que é um ser humano, uma criança e que não oferece nenhum perigo.
Se apaixonará por Sara (Roni Hadar) e ela por ele e ambos terão que enfrentar o preconceito da família dela.
O filme além de mostrar a vida de Schlomo tem como pano de fundo a história de Israel também, como atentados suicidas em Jerusalém, o medo dos ataques com bombas venenosas, a assinatura dos Acordos de Oslo com Bill Clinton entre Yasser Araft e Yitzhak Rabin em 1993, e o assassinato deste último.
O final do filme é extremamente emocionante, dolorido e belíssimo.
Schlomo teve que viver sua vida carregando o segredo de sua origem, de sua família, usando o nome de um garoto morto com 09 anos no campo de refugiados. Ele terá que mentir, aprender sobre o judaísmo, tudo isto para viver. Enfrentará o preconceito racista entre os judeus. Até o dia que vai se abrir e dizer a verdade, então saberemos mais sobre sua história e da culpa que ele também carregava, achando que havia sido castigado pela mãe. Somente então ele vai perceber que ela o mandou embora por amor, para lhe salvar a vida. Mas apesar da dor, da separação, das lembranças traumáticas Schlomo irá aos poucos vivendo e finalmente ele poderá vir a ser, ele mesmo.
É triste vermos que o preconceito, o racismo está no humano, inclusive no meio de um povo que foi um dos mais vitimados por isto, que também teve que fugir, adotar nomes falsos, teve que se converter forçosamente ao cristianismo para salvar a vida, e infelizmente o que vemos é que tudo se repete, mesmo entre aqueles que sofreram a mesma coisa.
A trilha sonora é belíssima.
Radu Mhaileanu nasceu em 1958 em Bucareste, Romênia. É judeu e está radicado na França
Direção: Benoît Jacquot - 2008 Duração: 90 min País: França
Adaptação do livro homônimo de Pascal Quignard (1916).
O filme nos mostra os efeitos devastadores em Ann (Isabelle Huppert) ao descobrir a infidelidade de seu companheiro de 15 anos, Thomas (Xavier Beauvois).
O filme começa com ela seguindo o carro dele e depois ela o vê entrando num jardim com rosas, uma mulher abre a porta e o beija. Ela sufoca um grito. Mesmo encontrando neste mesmo instante um amigo de infância, Georges (Jean-Huques Anglade) e ele tendo visto tudo ela não consegue falar sobre o que viu e sobre o que sente. Ao contrário, ela ao invés de falar, chorar, gritar, se volta contra si mesma num processo de autodestruição e também de destruir tudo que seja de sua vida até o presente, vendendo o apartamento, jogando fora roupas, objetos, os pianos, ela é uma pianista famosa. Queima as fotos, as partituras, escritos, composições. O que ela quer é desaparecer.
Thomas tenta lhe dizer que é ela que ele ama,mas mais nada disto tem sentido para ela. A ruptura da relação de exclusividade que ela acreditava ter com ele se desfez.
Ao perder o amor Ann se perde e o filme nos mostra através de seus atos, sua expressão, sua dor toda a subjetividade desta mulher. Ela parte apenas com uma bolsa de viagem e se desloca por várias cidades europeias. No percurso ela vai ainda se livrando das coisas, primeiro se desfaz do celular, depois joga a bolsa e compra um mochila, mais adiante também se desfaz da mochila, corta o cabelo curto e usa vários nomes. Até que ela chega a uma ilha no mar Mediterrâneo, Ischia.
Lá ela conhece uma velha senhora e deseja alugar a casa que seu pai construiu para sua Tia Amalia. As duas acabam amigas, e a partir deste momento ela se apresenta como Anna. É com este nome que ela começa a reconstruir uma identidade para ela.
Na modernidade tudo isto pode parecer um exagero, mas estamos diante da feminilidade. A falta do amor de um homem pode levar uma mulher a perder a si mesma. No mundo de hoje diante de um rompimento assim é comum o consumismo desenfreado e ter vários parceiros, ou a depressão. Anna vive sua perda, inclusive a sua própria. Ela precisa se reconstruir agora como mulher, uma outra mulher.