quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

LIVRO: O PONTO DE MUTAÇÃO - A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente - FRITJOF CAPRA


Capra, Fritjof. Cultrix, 1982
Tradução: Álvaro Cabral
432 páginas

Li este livro a primeira vez em 1983 para um trabalho na Universidade. Depois voltei inúmeras vezes à ele e a última foi em 2012 para novamente fazer um trabalho, desta vez para a Faculdade de Filosofia. Também assisti ao filme.

Um livro que continua atual e que merece ser lido. Capra é Ph.D. em Física Teórica e sua tese é de que precisamos mudar nossos paradigmas. Faz uma análise destes  visitando o pensamento de Descartes, Newton e de como estas idéias atuam no mundo, dividindo, separando, ao invés de ver o todo. Para Capra o todo é maior que a soma das partes, e ele defende uma visão holística do mundo.
Segundo Capra todas as crises pelas quais passamos sejam políticas, econômicas, psicológicas e sociais se dão porque temos uma visão errônea das coisas, queremos separar cada coisa e na realidade tudo isto funciona junto. Não há como resolver uma questão econômica sem levar em conta o contexto político, o psicológico das pessoas, o sociológico e o ecológico.

Capra parte em direção de uma nova física, com Einstein e a teoria da Relatividade na qual espaço e tempo são inseparáveis. Defende uma visão sistêmica do mundo vendo a tudo como relações, uma teia, e não por partes. A visão holística pensa no futuro, em que possamos deixar algo para nossos descendentes e frear o consumo desenfreado, e desgaste e a destruição da natureza sem pensar ecologicamente. É uma mudança de valores, ética e em nossas crenças, ou seja, trocar de paradigma. Um ponto de mutação, de mudança.

Este livro é para ser lido e relido, estudado e para meditar sobre o que estamos fazendo com nosso planeta, como estamos vivendo, o que realmente tem valor e o que não tem, quais nossas reais necessidades. Vivemos num mundo onde o vazio, a solidão, a violência, a depressão impera, será que estamos agindo da melhor forma? Será que não vale a pena mudar?

Fritjof Capra nasceu em 1939 em Viena, Áustria. É um físico teórico doutorado pela Universidade de Viena.


Entrevista com Fritjof Capra : http://www.youtube.com/watch?v=P6-yuMpk6B8

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

ROTEIRO DE LEITURA: A LEBRE COM OLHOS DE ÂMBAR - EDMUND DE WAAL

Netsuquês são pequenos objetos esculpidos em madeira ou marfim, ou talhado em metal, atravessados por um orifício, usados pelos japoneses como adorno para prender uma pequena bolsa ou sacola à faixa do quimono.  Muito comum no período Edo, hoje é utilizado como enfeite em tiras de celulares. (Wikipédia).













Vamos seguir o livro de Edmund Waal na reconstrução da história de sua família e do trajeto dos netsuquês através da história mundial.

PARIS - 1871 - 1899  - Charles Ephrussi 






Rue de Monceau em Paris, nº 81 onde viveu Charles Ephrussi, é onde começa a jornada dos netsuquês.












Os quadros de Gustave Caillebotte - Le Pont de L'Europe e
Jeune homme à sa fenêtre citados na pág. 38.

 
Gustave Caillebotte                          Louise Cahen d'Anvers                  




Chalet Ephrussi na Suíça 






Pintura de Monet - La Japonaise - citado pág. 56 (esquerda)

Pintura de James Tissot - La japonaise au bain - citado pág. 62 (direita)














 
Berte Morisot e um dos seus quadros " A blusa vermelha" - citada pág. 78 
Edouard Manet - Une Botte d'asperges
                          Claude  Monet - Les Glaçons - citado pág. 81        
  Les Bains de la Grenouillère - Claude Monet - pág. 81
                                    Edgar Degas - Visconde Lepic  - pág. 82






Renoir - O almoço dos remadores - pág. 83- com Charles ao fundo de cartola.

Renoir - Rosa e Azul - pág. 86



Gustave Moreau - Salomé e Hércules - pág. 86


VIENA - 1899 - 1938 - Viktor Ephrussi 



PALAIS EPHRUSSI 


 


Edmund de Waal no Palais 

1- Quarto
2 - Salão das damas
3- Salão de dança
4 - Sala de recepção
5- Sala de fumantes e de bilhar
6- Sala de jantar 


Anna Von Lieben tia-avó de Emmy que foi paciente de Freud e é o caso Cecilie M. - uma mulher com uma psicose de negação histérica. 

TÓQUIO - 1947- 2001 - Iggie Ephrussi 


Elisabeth e Iggie 



ROTEIRO DE LEITURA: MUITO LONGE DE CASA - Memórias de um menino-soldado - ISHMAEL BEAH

Ishmael nasceu em Serra Leoa, República da Serra Leoa, um país localizado na África Ocidental.



De 1991 à 2002 o país esteve envolvido em uma Guerra Civil conhecida como "guerra dos diamantes de sangue"

Este vídeo que está no Youtube é sem áudio, mas retrata a guerra civil em Serra Leoa. Também temos o filme Diamantes de Sangue de Edward Zwick.




ENTREVISTA DE ISMAHEL BEACH - CBS News onde ele fala de sua experiência. Está no Youtube.

ROTEIROS DE LEITURA

Quando leio um livro normalmente busco informações sobre os locais ou fatos descritos. Ás vezes percorro os mesmos locais utilizando o Google maps, vendo o que o personagem descreve no livro e isto aumenta minha percepção do que está sendo contado.

Por isto resolvi colocar no Blog alguns roteiros de leituras dos livros que estão resenhados para os que desejarem visualizar a história contada no livro.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

LIVRO: MUITO LONGE DE CASA - Memórias de um menino-soldado - ISHMAEL BEACH


Beah, Ishmael. Ediouro, 2007
Tradução: Cecilia Gianetti
224 páginas
Título original: A long way gone: memoirs of Boysoldier

País: Serra Leoa 

Um relato doloroso e terrível de uma realidade que ocorre em vários locais, os meninos-soldados, crianças que perdem sua infância, ou melhor, tem sua infância literalmente roubada, perdem suas famílias, suas referências, se vêem sozinhas no meio de uma guerra, fugindo, com fome, apavorados e tem que aprender a sobreviver, lutar, fugir, até que em determinado momento ou são capturados ou se entregam em busca de um pouco de segurança e comida e se transformam em meninos-soldados.

Ishmael tinha 12 anos quando a guerra civil de Serra Leoa, África, o atingiu. Era um dia feliz, como outro qualquer na pré-adolescência, estava com amigos, havia passado pela casa da avó, quando de repente tudo se foi, a aldeia onde morava fora atacada pelos rebeldes.

O relato é doloroso, cruel, a luta pela vida, não poder mais olhar por ninguém a não ser salvar a si próprio, o medo, a desconfiança que se instala num povo antes hospitaleiro, tranquilo e pacífico. No meio de todo este horror ainda os resquícios desta vida de antes através das histórias que se contavam, sobre o porco selvagem, o Seu Aranha, que é um fio extremamente frágil com o que era e o que poderia ter sido a vida deles se não houvesse a guerra civil.

A lavagem cerebral com a incitação ao ódio efetuada pelos rebeldes ou pelos soldados do exército, o uso de drogas, até o momento em que ao invés de fugir do morticínio ele mesmo começa a perpetuá-lo, matando a sangue frio, planejando os ataques e rindo depois. O que se lê no livro é a transformação de uma criança feliz em um apavorado fugitivo que sente repulsa pelo o que vê  e depois se transforma ele mesmo em um assassino cruel.

Quando a Unicef entra no país ele será levado para um centro de reabilitação. Aos poucos será desintoxicado das drogas, mas o trauma, este permanecerá. Os pesadelos, o medo, a desconfiança, as enxaquecas. Será adotado por um tio, irmão de seu pai, irá aos Estados Unidos participar de uma conferência que reuniu crianças de vários países onde ocorrem coisas iguais ou piores, e ao retornar, quando acredita que está podendo retomar sua vida, a guerra o alcança novamente. Ele foge, deixa Serra Leoa para trás e consegue chegar aos Estados Unidos onde poderá escrever este livro num ato de coragem e de redenção.

A guerra civil teve início em 1991 com a derrubada do governo, a luta visava o poder e a posse dos diamantes em Serra Leoa, que também financiavam os golpes e os rebeldes. O país estava marcado pela corrupção e má administração e em nome disto eles lutavam, mas como sempre ocorre, o motivo é belo, mas a desgraça é pouca, a crueldade, os civis que são mortos sem motivo algum, apenas para diversão ou mostra de poder. Uma triste realidade do que o ser humano é capaz. A RUF, o grupo de extremistas passaram a controlar o leste do país, justamente a zona de mineração. O pai de Ishmael trabalhava na mineração. Para dominar a área eles invadiam as aldeias e matavam todos, mutilavam, ateavam fogo nas casas. Não queriam que as pessoas fugissem, mas se ficavam morriam, se fugiam eram mortos se alcançados. Ishmael conseguiu fugir. A guerra civil terminou em 2002. É triste ver um povo que era pacífico, alegre, que tinha seus rituais, hospitaleiro, que respeitava os velhos, ser destruído desta forma em nome do poder e do dinheiro. A dispersão, os refugiados que sofrem, a perda de referências e de sua família, amigos, de sua vida.


Ishmael Beach nasceu em 1980 em Mattru Jong em Serra Leoa. Chegou aos Estados Unidos em 1998 e graduou-se em Ciência Política em 2004. É membro do Comitê de Direitos da Criança da ONG Human Rigths Watch. Já falou várias vezes na ONU e vive em Nova Iorque.

Este livro tem Roteiro de Leitura no Blog.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

LIVRO: JAKOB VON GUNTEN - Um diário - ROBERT WALSER


Walser, Robert. Companhia das Letras, 2011
Tradução: Sergio Tellaroli
148 páginas

Jakob Von Gunten entra para o Instituto Benjamenta que forma pessoas para servir e esperar. O que estaria fazendo ali um filho de nobres? O que teria levado Jakob a fazer esta escolha?
O livro não é de fácil resenha, pelo contrário, cria desconforto ao mesmo tempo que é brilhante, mas como todo diário e toda vida não apresenta um final, mas fragmentos, deixa pistas, porém nada nos garante que será assim.
Um mistura de autobiografia e ficção, uma vez que ao me informar sobre a vida do autor vê-se que ele se coloca no lugar de Jakob em alguns momentos e talvez em outros apresente o que desejou, o que temia, o que percebia. Walser termina sua vida num Instituto Psiquiátrico. E aí eu retomo o que sempre digo, os chamados loucos estariam mais próximos do real do que os que se consideram normais? E talvez por isto não consigam lidar com isto, e escrevam, delirem, criem mundos à parte.
Há descrições neste diário do mundo que se perde sem viver por querer atender ao que todos esperam dos outros, por estarem baseados em aparência, sucesso, a suposta felicidade. Jakob estaria fugindo disto? ao buscar uma formação que o transformasse num criado? que saberia servir e sempre esperar, ter paciência, mas ao mesmo tempo se desenvolver interiormente? Não há respostas no livro, mas nos leva a refletir e muito sobre o mundo em que vivemos e sobre o que buscamos.

Wasel era o escritor preferido de Kafka, também apreciado por Elias Canetti, Walter Benjamin, aliás, assim que li Benjamenta, me veio Benjamin, mas em momento algum há algo que confirme isto.

Robert Walser nasceu em 1878 em Bienna na Suíça e faleceu em 1956 em Herisau - Suíça. Apesar de apreciado por grandes nomes da Literatura como Kafka ,Canetti, Walter Benjamin, Robert Musil entre outros ele mesmo não foi reconhecido. Foi internado numa clínica psiquiátrica e foi encontrado morto na neve no dia de Natal em 1956. Hoje é reconhecido como um dos escritores mais importantes do século XX. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

LIVRO - A LEBRE COM OLHOS DE ÂMBAR - EDMUND DE WALL


De Waal, Edmund. Intrínseca, 2011
Tradução: Alexandre Barbosa
318 páginas
Título original: The hare with amber eyes

Prêmio Costa Book Award 2010 (Biografia)
Prêmio Ondaatje 2011


Edmund de Wall é um conceituado ceramista, um dos mais importantes do mundo. Ele recebe de herança de seu tio-avô a coleção de miniaturas japonesas, os netsuquês que pertencem a sua família há várias gerações, e parte em busca da história destes pequenos objetos reconstruindo conjuntamente a história de sua família e também dos principais eventos que ocorreram no mundo no final do século XIX e século XX.

Um livro delicioso de ler, um mergulho na história, mas também nos costumes sociais de cada época, falando do convívio social, de arte, da política, mas também da vida da mulher e de todas as sutilezas que envolvem estas vidas.

De Waal não se contentará em levantar a história, ele irá aos locais, irá reviver, sentir, perceber, ele precisa também imaginar e ter a percepção dos netsuquês em todos os locais onde ficaram. Ele nos fala muito do tato, que estas miniaturas precisam ser manipuladas, e algo que me chamou a atenção no livro é a textura de sua capa, é impossível pegar o livro e não sentir algo diferente, uma capa que parece um feltro como o que estava na vitrine dos netsuquês.

A história começa em Paris no século XIX, 1871-1899, onde Charles os adquiriu em uma loja em Paris. Iremos entrar em contato com uma época de artes, Renoir, Proust, Manet entre outros, a Belle Époque. Charles dará as 264 miniaturas como presente de casamento ao primo Viktor, então é a hora de Viena - a Viena fin-de-siècle, de 1899 a 1938. Passamos pela Primeira Guerra Mundial e até a Segunda Guerra quando a família será despojada de tudo por serem judeus. Neste momento se dispersam pelo mundo, mas os Netsuquês são salvo pela fiel Anna, que permanecerá em Viena e os esconderá dos nazistas. Anos depois eles serão entregues a Elisabeth, avó de Edmund e ficarão com Iggie seu tio-avô que os levará de volta ao Japão onde ficarão até a morte deste e serem entregues a Edmund que inicia esta busca e história que nos conta neste livro. Ele ainda irá a Odessa onde tudo começou, onde se formou a fortuna da família Ephrussi.

Um livro extremamente interessante, que nos mostra a história vista de vários ângulos, pelo lado dos homens da família, e pelo lado das mulheres, que nos fala da Europa, mas também do Japão, para nos contar a história de 264 miniaturas, pequenos objetos que rodaram o mundo e sobreviveram as guerras sem se dispersarem. A cada procura que De Wall empreende, ele sempre levará um deles em seu bolso, pois foram feitos para serem tocados, para estarem na vida.

Recomendo a leitura.




Edmund De Wall nasceu em 1964 em Nottingham na Inglaterra. Sua avó paterna, Elisabeth,  era nascida Ephussi, família sobre a qual nos relata em seu livro. É um ceramista, e já foi curador, professor, crítico de arte, historiador de arte e professor de cerâmica. Mora em Londres com a família.

domingo, 26 de janeiro de 2014

LIVRO: DOLCE AGONIA - NANCY HUSTON


Huston, Nancy. L&PM Editores, 2008
Tradução: Cássia Zanon
240 páginas

Quem relembra o jantar de Ação de Graças que Sean Farrell oferece aos seus onze amigos é Deus. Se na "Menina que roubava livros" era a Morte, aqui temos Deus, porém, qual a diferença? pois se é Deus que determina o fim de cada um deles e os chama para si?

Logo no início no Prólogo no céu Deus fica espantado com sua própria criação, mesmo conhecendo tudo a respeito de cada um deles, são capazes de surpreendê-Lo. "Cegos, cegos... eternamente esperando e tateando, esforçando-se por acreditar na minha bondade, descobrir o sentido de seus destinos, entender os meus planos. Simplesmente não conseguem evitar a busca por um significado."

E lá estão eles reunidos para o jantar de Ação de Graças e enquanto se desenrola o jantar entre conversas, risos, piadas, lembranças, também cada um deles irá pensar em episódios de suas vidas, a dor, a velhice, a doença, a morte, a perda. A cada final de um capítulo, Deus nos contará como um deles irá voltar  para ele, independentemente do que eles desejam, do que sonham, a vida termina um dia, e nem sempre na hora que eles considerariam a melhor, a esperada. Neste ponto, Deus nos mostra uma faceta nada bondosa, uma vez que devido sua lógica do que traçou para cada um, dentro do universo que criou, ele os arrebata em momentos que impedem a alegria de uma criança, um reencontro, um momento de amor, mas em outros momentos Ele chega a tempo para fazer parar um sofrimento, uma dor que está se tornando intolerável.

Todos ali tiveram bons momentos, mas humanamente conseguem se apegar mais aos maus momentos, mesmo que ele tenha sido só um instante, mas outros, carregam traumas que são difíceis de esquecer. Como é fácil e perigoso julgar ao outro sem saber nada dele. Como um episódio, uma história é cômico para uns e desperta algo horrível para o outro. Como uma simples palavra - avião - pode trazer boas e más lembranças.

Um grande painel do que é o ser humano e do mundo ali, entre quatros paredes, como uma pintura, como uma Santa Ceia, muito bem construído por Huston.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos.

SKOOB

Vocês podem me encontrar também no Skoob onde consta minha biblioteca

http://www.skoob.com.br/estante/livros/todos/829732/page:1

sábado, 25 de janeiro de 2014

LIVRO: A MÃO DO AMO - TOMÁS ELOY MARTÍNEZ


                                     


Martínez, Tomás Eloy. Companhia das Letras, 2008
Tradução: Sérgio Molina e Lucas Itarambi
160 páginas
Título original: La mano del amo

Arrepiante, a história de Carmona incomoda, tira do lugar. Uma mãe - Mãe, voraz, castradora, que devora tudo e a todos, que visa exclusivamente ao seu desejo. Sua força é tão grande que mesmo depois de morta ela é introjetada pelo filho e é vista nos gatos que deixou de herança. Ela é uma coleira no pescoço do filho.

O livro descreve como somos surrupiados da vida pela força do outro, seja pelo desejo de ser amado, seja pelo medo, seja por desejar ser como este outro. Um redemoinho que nos engole, raízes de uma planta que nos suga para o fundo presos nas suas teias. Não conseguimos romper por medo de morrer, de perder o que nunca tivemos. No fundo o que queremos é atender ao desejo deste outro, desta Mãe. Carmona queria fazê-la feliz.

A história começa com a morte de "Mãe", é assim mesmo, Carmona nunca nomeia ou a chama de a mãe, mamãe, é Mãe, Pai e gêmeas, suas irmãs. Ele inicia um mergulho em si mesmo, contando e recuperando o pouco que pode na primeira pessoa ou na terceira pessoa, como se fosse um outro que fala dentro dele, talvez aquele que ele gostaria de ter sido e não pode.

Mãe, que poderia equivaler a um ditador, e como na política e no social, são poucos os que fazem parte da resistência correndo todos os riscos que isto impõe, inclusive morrer. Outros partem para o exílio, talvez voltem, ou não. Poucos são os que se libertam de Mãe.

Mães que precisam ser derrotadas, castradas, mas raramente o são porque não permitem que quem possa fazê-lo se aproxime. Geralmente Pai é fraco e não tem coragem de enfrentá-la, assim como os filhos. A história de Carmona é a psicose, ele tem delírios, ouve vozes, conversa com os gatos como se fossem humanos e os escuta.

 Ele tem um dom excepcional, uma voz magnífica, que segundo Mãe deve à ela, que chega inclusive a querer se apoderar dela - ele poderia gravar e colocariam no nome dela como a cantora. A única tentativa de se afastar é interrompida porque Mãe apesar de dizer que ele pode fazer o que quer, sofre um ataque do coração e seu primo cancela o recital e lhe diz que tem que voltar, o que ele faz, para encontrar Mãe já recuperada.

O espaço onde se conta a história é pequeno, como é a vida de Carmona, restrita, fechada. Nem mesmo a vala que vai até o mar poderia ser usada, ela está oculta agora, não há mais trilhas que levam até lá. Uma vez no deserto ele pensa em ficar ali, mas morreria. A presença dos gatos, as alucinações, o delírio, o desejo de matá-los, ele bem que tenta, mas não consegue, não consegue matar Mãe, e se verá frente aos seus recalques, a tudo que reprimiu dentro de si. Tenta domá-los e ensaiá-los para uma apresentação, como se estivesse domando Mãe, mas também não consegue. Como poderia? como pode se afastar? ter sua própria vida de acordo com seu desejo, ele não pode desobedecer aos pais, está preso na coleira amarrado à uma árvore, e terá que lamber a mão do amo para sempre.

 Tomás Eloy Martínez nasceu em 1934 em Tucumán, Argentina e faleceu em 2010 em Buenos Aires. Formado em Literatura Espanhola e Latino-americana, foi jornalista e escritor.