quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

MATRIARCADO, MATRILINEARIDADE E A CRÍTICA AO EVOLUCIONISMO OCIDENTAL


 

A UNIDADE CULTURAL DA ÁFRICA NEGRA

Esferas do patriarcado e do matriarcado na Antiguidade Clássica

CHEIKH ANTA DIOP

EDITORA ANANSE – 2023.

238 páginas 


Cheikh Anta Diop foi um antropólogo e historiador senegalês. Cheguei a este livro a partir de meus estudos sobre as mulheres do Império Cuxe, buscando compreender as noções de matriarcado, matrilinearidade e matrifocalidade no continente africano.

Antes de tudo, é fundamental esclarecer que o conceito de matriarcado, tal como trabalhado por Diop, não corresponde à ideia ocidental de um sistema simplesmente inverso ao patriarcado, no qual haveria o domínio feminino e a subjugação do masculino. Diop demonstra a existência de dois polos culturais — dois reinos, um setentrional e outro meridional, norte e sul — sendo um de estrutura patriarcal e o outro de estrutura matriarcal. Nesse esquema, a África se insere majoritariamente no polo matriarcal.

O autor realiza uma análise crítica dos conceitos de matriarcado em Bachofen, Lewis Morgan e Engels. Os dois primeiros, segundo Diop, tratam o matriarcado como uma fase primitiva da humanidade, destinada a ser superada pelo patriarcado, visto como estágio civilizatório superior. Trata-se de uma visão claramente evolucionista. Engels, por sua vez, apropria-se dessas ideias para sustentar a possibilidade de que a família burguesa também possa evoluir para uma forma diferente e mais justa.

Diop rompe com essa leitura ao defender o matriarcado africano não como um estágio arcaico, mas como uma forma de organização social superior ao patriarcado, este último associado historicamente à guerra, à violência e às conquistas territoriais.

Com esse estudo, Diop se contrapõe frontalmente às concepções ocidentais que se pretendem universais e civilizatórias, mas que historicamente classificaram a África como inferior e selvagem. Ao contrário, ele demonstra o alto grau de civilização das sociedades africanas e aponta para um modelo social mais humano, relacional e sustentável. O autor apresenta ainda sua hipótese para explicar por que o norte se organizou de forma patriarcal e o sul de forma matriarcal, aprofundando uma leitura estrutural e histórica dessas diferenças.


Cheikh Anta Diop nasceu em Tiahitou, Senegal, em 1923 e faleceu em Dacar, Senegal, em 1986. Foi um historiador, antropólogo, físico e político senegalês. 


DIREITOS, PODER E PRESENÇA FEMININA NO EGITO DOS FARAÓS


 

A MULHER NO TEMPO DOS FARAÓS

CHRISTIANE DESROCHES NOBLECOURT

PAPIRUS - 2007

422 páginas 


Li outros livros sobre as mulheres egípcias e também sobre a história do Egito depois deste, mas sempre retorno a A Mulher no Tempo dos Faraós por considerá-lo o mais completo que encontrei sobre o tema.

Para quem se interessa pela história das mulheres no Antigo Egito, este é um livro fundamental. A arqueóloga Christiane Desroches Noblecourt foi especialista em Egito, dirigiu durante anos o setor egípcio do Museu do Louvre e participou de diversas escavações no país, o que confere ao livro um rigor e uma riqueza de detalhes notáveis.

A obra reúne informações sobre a mitologia egípcia com foco nas figuras femininas, aborda as esposas reais e as rainhas, as concubinas, as mulheres faraós e a complexa relação entre o faraó e a esposa real. Mas vai além: apresenta também dados preciosos sobre a vida cotidiana das mulheres, as leis e os direitos, o casamento, a educação, além de temas como a condição das viúvas e das prostitutas.


Christiane Desroches Noblecourt nasceu em Paris em 1913 e faleceu na mesma cidade em 2011. Foi uma egiptóloga. 


A MATERNIDADE NEGRA SOB O RACISMO ESTRUTURAL

 

MATERNIDADE TEM COR?

Narrativas de mulheres negras sobre maternidade

LUARA PAULA VIEIRA BAIA

APPRIS – 1ª ED. - 2021

173 páginas

Maternidade tem cor? apresenta a pesquisa de Luara Paula Vieira Baia sobre a experiência da maternidade vivida por mulheres negras. É um livro necessário e cuja leitura recomendo fortemente.

Em uma sociedade que ainda sacraliza a maternidade, como se ela fosse a realização máxima de toda mulher, pouco se fala sobre os percalços, ambivalências e sofrimentos que ela pode trazer. Questionar essa idealização já é, muitas vezes, visto como heresia. No entanto, quando o foco recai sobre a maternidade das mulheres negras, a questão se torna ainda mais profunda, séria e dolorosa.

Mesmo diante do amor intenso por seus filhos e filhas, essas mulheres vivem a maternidade sob a constante tensão de criar crianças negras em uma sociedade estruturalmente racista. Há muito pouco escrito sobre a maternidade das mulheres negras; o que prevalece é a ideia de uma maternidade universal, como se todas as mulheres maternas vivessem a mesma experiência.

Mas o que significa ser mãe quando se é uma mulher negra? Durante o período da escravização, essas mulheres pariram filhos que eram tratados como propriedade, destinados a ampliar a mão de obra escravizada. Seus filhos eram frequentemente arrancados de seus braços. Elas não eram reconhecidas como mães, mas reduzidas a corpos reprodutores, a “fêmeas” que produziam trabalhadores.

E hoje? O que significa ser mãe quando se sabe que seu filho é um alvo vivo da violência policial? As estatísticas sobre a morte de jovens negros confirmam esse medo cotidiano. Ou quando uma filha precisa ser constantemente fortalecida em sua autoestima para sobreviver ao racismo e à discriminação? Essas mães desenvolvem estratégias de proteção, são pragmáticas na defesa de seus filhos e no ensino de como sobreviver em uma sociedade hostil. São preocupações que mães brancas, em geral, não enfrentam, somadas, ainda, às angústias comuns a toda maternidade.

O livro mostra que essa realidade não se restringe às periferias, favelas ou comunidades, onde a violência é ainda mais explícita. Trata-se também de mulheres negras de classe média, com nível superior e relativa estabilidade financeira. Como mulher branca e mãe, não posso imaginar plenamente o que significa ser uma mãe negra. Mas posso, sim, escutar, sentir e reconhecer a dor, o medo e a permanência de uma condição social que insiste em negar a essas mulheres o direito pleno de serem mães.

Nas narrativas que a autora reúne, emerge a percepção de uma maternidade constantemente ameaçada, vigiada e interrompida. Ainda que haja alegrias, vínculos profundos de amor e a maternidade se constitua como um ato de resistência, o livro não romantiza essa experiência. Algumas mães, inclusive, negam a existência do racismo — talvez como estratégia de sobrevivência.

Trata-se de uma obra impactante, que desestabiliza certezas, rompe com a noção de maternidade universal e nos obriga a pensar sobre raça, gênero, cuidado e violência estrutural no Brasil.


Luara Paula Vieira Baia possui licenciatura e bacharelado em Ciências Sociais


A HISTÓRIA PERSA CONTADA PARA ALÉM DO OLHAR GREGO

 

OS PERSAS: A ERA DOS GRANDES REIS

LLOYD LLEWELLYN-JONES

CRÍTICA – 1ª ED. - 2023

512 páginas

Todos nós aprendemos algo sobre os persas na escola. No entanto, até pouco tempo atrás, o que se tinha como referência eram, quase exclusivamente, as narrativas deixadas pelos gregos, justamente seus inimigos. Essa perspectiva unilateral moldou por séculos a imagem dos persas como bárbaros, despóticos e inferiores à civilização grega.

Lloyd Llewellyn-Jones, professor de história antiga e estudioso do Irã Antigo, propõe um deslocamento fundamental. Nesta obra, ele apresenta o Império Persa a partir das fontes originais persas, oferecendo uma história contada, finalmente, “do outro lado”. O resultado é um livro envolvente, acessível e extremamente informativo.

O autor concentra-se na dinastia aquemênida — Ciro, o Grande, Dario, Xerxes e seus sucessores — e encerra o volume com um capítulo dedicado ao Irã contemporâneo, estabelecendo pontes entre passado e presente. Para mim, um dos aspectos mais valiosos do livro é a atenção dada às mulheres, tema sobre o qual há uma carência notável de informações quando se trata da história persa.

Ao longo da leitura, torna-se evidente o quanto a história desse povo foi distorcida e o quanto suas contribuições foram fundamentais, inclusive para a formação do Ocidente. Um dos episódios mais impressionantes é o relato de mulheres que, diante da iminente derrota de Ciro em uma guerra, o confrontam e o acusam de covardia. Provocado por essas mulheres, Ciro retorna ao combate, vence a batalha e, segundo a tradição, jamais deixou de reconhecê-las por esse gesto.

Os persas: a era dos grandes reis não apenas corrige equívocos históricos, como também restitui complexidade a uma civilização que foi sistematicamente narrada pelos olhos de seus adversários. É uma leitura fundamental para quem deseja compreender o mundo antigo para além das versões consagradas e ouvir, finalmente, as vozes silenciadas da história.


Lloyd Llewellyn-Jones nasceu em Cefn Cribwr, País de Gales. É um professor de História Antiga. 


COMO A HISTÓRIA TRANSFORMOU UMA GOVERNANTE EM MITO ERÓTICO

 

CLEÓPATRA:  SEU MITO, SUA HISTÓRIA

FRANCINE PROSE

PLANETA – 1ª ED. – 2024.

237 páginas

 

Cleópatra é um mito, quase uma lenda, embora tenha existido historicamente. Sua história, no entanto, foi majoritariamente contada por homens, que preferiram enfatizar seus amantes, Júlio César e Marco Antônio, em vez de seu papel político. Assim, Cleópatra foi frequentemente retratada como interesseira, prostituta, sedutora e exótica, capaz de desvirtuar os “bons” romanos.

Plutarco, Shakespeare, George Bernard Shaw e, mais tarde, Hollywood contribuíram para cristalizar essa imagem, sobretudo com o rosto de Elizabeth Taylor — representação que está longe da realidade histórica. Em 2023, a Netflix lançou uma nova versão em formato de documentário, com cenas dramatizadas, na qual Cleópatra é interpretada por uma mulher negra, o que gerou intensas polêmicas. Muitos insistem em preservar a Cleópatra de olhos claros. Não saberia afirmar se ela era negra ou branca, mas certamente não era Elizabeth Taylor.

Francine Prose mergulha na história, na literatura e na arte para reconstruir outra narrativa: a de uma mulher que governou o Egito por mais de vinte anos, com habilidade política, domínio de línguas e profundo conhecimento das tradições egípcias. O livro propõe uma visão distinta daquela consagrada pela tradição masculina, deslocando o foco do erotismo para o poder, da sedução para o governo.

Cleópatra, afinal, não foi um caso isolado. O Egito teve pelo menos três grandes rainhas que se destacaram: Hatshepsut, que governou como faraó; Nefertiti; e Cleópatra. A obra de Prose convida o leitor a reconsiderar não apenas a figura de Cleópatra, mas também o modo como a história das mulheres no poder foi sistematicamente distorcida, simplificada ou reduzida a estereótipos.

Francine Prose nasceu no Brooklyn, Nova Iorque, EUA, em 1947. É uma escritora estadunidense..




UTOPIA, DECEPÇÃO E VIOLÊNCIA POLÍTICA

 


O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

LEONARDO PADURA

BOITEMPO – 2ª ED. 2015

608 páginas

É um livro impressionante. O homem que amava os cachorros narra a história de Ramón Mercader, o assassino de Trotsky no México, e, em paralelo, a trajetória da própria vítima. Mas o romance é muito mais do que a reconstituição de um crime histórico. Ele é, sobretudo, uma reflexão profunda sobre o stalinismo e sobre a destruição de uma utopia.

Padura mostra como, naqueles anos, se instaurou uma fé cega em Stálin e no comunismo stalinista — algo muito distante do projeto comunista original. Essa fé foi construída por meio de mentiras sistemáticas, propaganda e manipulação, num mecanismo que guarda semelhanças inquietantes com o que ocorreu no nazismo de Hitler, especialmente na fabricação do antissemitismo. É impossível não traçar paralelos com o presente, quando a desinformação e as fake news continuam sendo instrumentos eficazes de controle.

Outro elemento central é o medo. Um medo profundo e paralisante. Posicionar-se contra Stálin significava, muitas vezes, a morte — não apenas para opositores declarados, mas também para qualquer um que ameaçasse, ainda que minimamente, o ego inflado do líder. O terror era parte estruturante do sistema.

Talvez o ponto mais forte do livro seja a descrição do fim de uma utopia compartilhada por toda uma geração. O sonho de uma sociedade mais justa, em oposição ao capitalismo predatório, foi sendo corrompido nas mãos de líderes que se revelaram ditadores: Stálin, Mao e, em certa medida, Fidel Castro, quando observamos a miséria, o controle e o medo que também marcaram Cuba.

Muitos se perguntam hoje como tantos intelectuais, escritores e artistas aderiram ao comunismo stalinista. Padura ajuda a compreender esse fenômeno ao mostrar que pouco se sabia, de fato, sobre o que ocorria dentro dos países comunistas. Para muitos, tratava-se da única alternativa possível contra a pobreza, a exploração e a miséria do trabalhador. As denúncias eram facilmente descartadas como invenções capitalistas ou fascistas.

Ao final da leitura, permanece uma sensação profunda de decepção, frustração e, em alguns casos, culpa. A figura do assassino de Trotsky encarna isso de forma trágica: um homem cuja vida foi conduzida por outros, transformado em instrumento de um ódio que não era verdadeiramente seu. Um ódio que, no fundo, era o ódio de Stálin por alguém que estivera na vanguarda da Revolução Russa, mas que, no momento de sua morte, já era um velho isolado e desacreditado — alvo de mentiras, como a falsa acusação de aliança com os nazistas, que nunca existiu.

É uma leitura fundamental tanto para compreender o stalinismo e esse período histórico quanto como alerta para o presente. Um livro que nos ensina a desconfiar de verdades absolutas, de líderes carismáticos e de tudo aquilo que se espalha sem mediação crítica, especialmente nas redes sociais.

Leonardo Padura Fuentes nasceu em Havana, Cuba, em 1955. É um escritor e jornalista cubano.




SAÚDE PÚBLICA, DESIGUALDADE E ESCUTA

 


PACIENTES QUE CURAM: O cotidiano de uma médica do SUS

JULIA ROCHA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. - 2020

304 páginas 

Júlia Rocha relata o dia a dia em uma unidade do SUS localizada em uma região marcada pela pobreza e pela desigualdade social. Como a própria autora afirma, foi nesse contexto que ela aprendeu, e se deu conta, do quanto quem não vive essa realidade desconhece completamente o que ela significa. Esse distanciamento produz inúmeros preconceitos e ideias equivocadas sobre as pessoas que ali vivem. De um lado, estão aqueles que têm direitos e conseguem exercê-los; de outro, os que sequer sabem que esses direitos existem.

O livro é composto por histórias comoventes, que retratam com dureza e humanidade a realidade desses pacientes. Trata-se, sobretudo, de uma defesa da humanização no atendimento à saúde. Júlia Rocha chama a atenção para o fato de que a maioria dos médicos vem de famílias com melhores condições financeiras, já que a faculdade de medicina é extremamente cara. São profissionais que, em geral, não compartilham a vivência social de seus pacientes e, por isso, precisam aprender, antes de tudo, a ouvir.

Muitas vezes, o que aparece como uma doença física é, na verdade, consequência direta das condições de vida. A autora relata o caso de uma mulher que se queixava de dores constantes, mas que era vítima de estupro. Não havia medicamento capaz de eliminar definitivamente aquela dor, pois sua origem não estava no corpo, mas na violência sofrida. Júlia Rocha também critica médicos que, diante do sofrimento dessas pessoas, recorrem automaticamente à prescrição de antidepressivos. Como ela mesma afirma, “curam o machismo com antidepressivos”.

São mulheres que apanham, que são abandonadas, que vivem sob múltiplas formas de violência. O que elas precisam, antes de tudo, é serem ouvidas. É necessário conhecer suas histórias, tentar ajudá-las e encaminhá-las para acompanhamento psicológico no próprio posto de saúde, em vez de simplesmente medicá-las.

A leitura é altamente recomendada. Para quem não é médico, o livro funciona como um verdadeiro banho de realidade, capaz de provocar reflexões profundas e contribuir para o enfrentamento do racismo, do preconceito e da desumanização ainda tão presentes na sociedade brasileira.

 

Julia Rocha nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1983. É médica, cantora, escritora e compositora brasileira. 



QUANDO O SAGRADO TINHA ROSTO DE MULHER


 

QUANDO DEUS ERA MULHER

MERLIN STONE

GOYA – 1ª ED. – 2022.

304 páginas 


Li este livro inicialmente em francês e, quando saiu a edição em português, fiz a releitura. Merlin Stone dedicou-se ao estudo da história da Deusa, realizando uma pesquisa extensa e cuidadosa, que resulta nesta obra fundamental sobre a religião da Deusa e sobre os processos históricos de seu apagamento e supressão.

A Deusa aparece sob múltiplos nomes, mas está presente de forma recorrente nas sociedades da Antiguidade, assim como as sacerdotisas responsáveis por seu culto. O livro demonstra que houve um longo período em que a organização política, social, econômica e cultural girava em torno da mulher. Com o tempo, deidades masculinas passaram a ser introduzidas, inicialmente como consortes, amantes ou filhos da Deusa, até que, gradualmente, ocorre seu apagamento quase total — processo que se intensifica com a imposição das religiões monoteístas.

Stone evidencia como a construção e a escrita da Bíblia estiveram profundamente comprometidas com a eliminação da Deusa do imaginário religioso e simbólico, mostrando que esse apagamento não se deu de forma simples ou imediata, mas exigiu um esforço sistemático e prolongado.

Atualmente, muitos tratam essa religião como lenda ou mito. As sacerdotisas e curandeiras passaram a ser vistas como bruxas, e o sexo sagrado foi rebatizado como “prostituição sagrada”, termo com o qual não concordo. Não se tratava de prostituição; essa é uma leitura masculina e patriarcal que distorce práticas rituais profundamente ligadas à sacralidade, à fertilidade e à vida.

O livro é considerado um dos principais textos teológicos dedicados a esse período da história e permanece uma leitura fundamental para compreender a relação entre religião, poder e o apagamento do feminino ao longo do tempo.


Merlin Stone nasceu em Flatbush, Nova Iorque, EUA, em 1931 e faleceu em Daytona Beach, Flórida, EUA, em 2011. Foi uma escritora e acadêmica estadunidense. 


UMA RAINHA FORA DA SOMBRA DO FARAÓ

 

NEFERTITI – SACERDOTISA, DEUSA E FARAÓ

ANNA CRISTINA FERREIRA DE SOUZA

MADRAS – 1ª ED. - 2020

160 páginas 

Neste livro, Anna Cristina Ferreira de Souza analisa a figura de Nefertiti a partir da arte do período de Amarna. A autora aborda a XVIII dinastia e seus reinados, mas, para mim, o aspecto mais relevante da obra é a maneira como ela trabalha a religião egípcia, contribuindo para a compreensão de conceitos fundamentais como o monismo, a complementaridade e os princípios associados ao feminino naquele contexto: fertilidade, maternidade e maturidade.

O livro discute também, ainda que de forma breve, a diferença entre monoteísmo e monolatria — distinção que considero especialmente importante. É comum ouvir que Akhenaton e Nefertiti teriam instaurado o primeiro monoteísmo da história, o que não é correto. O monoteísmo pressupõe a existência de um único Deus, enquanto, no Egito, o culto a Aton se configura como monolatria: a centralidade de um deus principal, sem a negação da existência de outros, como Ísis e Osíris. Essa diferenciação, muitas vezes ignorada, é um dos pontos mais esclarecedores do livro.

Após uma introdução extremamente instigante, que contextualiza esses elementos religiosos e simbólicos, a autora se volta diretamente para Nefertiti, com ênfase em sua função social e política. A rainha não aparece como figura secundária ou decorativa, mas como uma presença ativa no poder, visível nas representações artísticas e nas práticas do período.

Nefertiti não esteve à sombra do faraó. Ao contrário, surge como parte de uma lógica de complementaridade entre o masculino e o feminino, característica da cosmovisão egípcia, e como expressão de um modelo de poder que não se organizava exclusivamente pela hierarquia e pela exclusão. Nesse sentido, o livro contribui para deslocar leituras tradicionais e recolocar Nefertiti no lugar que lhe foi historicamente negado: o de protagonista.


COMO A ARQUEOLOGIA DESMONTA AS TEORIAS PATRIARCAIS


 

LADY SAPIENS: Como as mulheres inventaram o mundo

THOMAS CIROTTEAU – JENNIFER KERNER – ÉRIC PINKAS

BUZZ EDITORA – 1ª ED. – 2024.

208 páginas 

Li este livro em francês e fiquei muito feliz ao ver sua tradução publicada este ano. O título me atraiu imediatamente: estamos acostumados a ouvir falar do Homo sapiens, e, de repente, surge a Lady Sapiens. Durante muito tempo, ninguém falava das mulheres nos períodos paleolítico e neolítico. Quando comecei a estudar esse recorte para escrever meu livro, havia pouquíssimas informações disponíveis. Subitamente, porém, as pesquisas começaram a emergir e a ser publicadas e esta obra é um exemplo significativo desse movimento.

Em 2019, uma descoberta bastante recente, a estatueta da Vênus de Renancourt, na França, colocou em xeque muitas interpretações consolidadas sobre o período. O livro relata essa descoberta e mostra como ela contribuiu para rever concepções anteriores sobre o papel das mulheres na chamada “pré-história”.

Os autores são pesquisadores da área e apresentam uma série de informações novas, resultantes tanto de descobertas arqueológicas recentes quanto das revisões possibilitadas pelo uso do DNA antigo. Essas análises têm revelado dados muito diferentes daqueles que sustentaram, por décadas, interpretações marcadas por pressupostos patriarcais do século XIX.

Com foco explícito nas mulheres, Lady Sapiens desmonta a imagem do homem como protagonista exclusivo da invenção do mundo humano. O livro evidencia a centralidade das mulheres na organização social, na transmissão de saberes, nas práticas simbólicas e na sobrevivência coletiva, contribuindo para uma reescrita profunda das origens da humanidade.

Reler a obra agora em português reforça sua importância: trata-se de um livro que não apenas divulga descobertas recentes, mas participa ativamente da transformação da narrativa sobre o passado, abrindo espaço para uma história mais complexa, menos hierárquica e mais fiel à diversidade das experiências humanas.


Thomas Cirotteau nasceu em 1975. É escritor e diretor de cinema.


 Jennifer Kerner nasceu em 1987. É professora de Pré-História na Universidade Paris Nanterre e pesquisadora associada ao Museu do Homem e do Museu Nacional de História Natural, Paris.


Éric Pinkas é escritor e editor chefe da revista francesa História. 


RELIGIÃO, DIREITO E PENSAMENTO NA MESOPOTÂMIA


 

NO COMEÇO ERAM OS DEUSES

JEAN BOTTÉRO

CIVILICAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. - 2011

 309 páginas 

Este livro do historiador Jean Bottéro me ensinou muito — e, sobretudo, desmontou várias ideias que eu tinha como dadas. Com foco na Mesopotâmia, a obra é composta por uma série de artigos nos quais Bottéro reconstrói aspectos centrais do pensamento, da religião e da vida cotidiana mesopotâmica.

Um dos textos que mais me impactou, talvez pela minha própria ignorância anterior, é o dedicado ao chamado “Código de Hamurabi”. Bottéro demonstra que ele não deve ser entendido como um código de leis no sentido moderno, como eu acreditava, mas algo muito mais próximo do que hoje chamaríamos de jurisprudência. Trata-se de uma compilação de decisões tomadas por Hamurabi diante de situações concretas, reunidas como modelos para julgamentos futuros — o que altera profundamente a forma como compreendemos o direito nesse contexto histórico.

Outro ensaio particularmente marcante é o que trata da moral e do pecado, ao evidenciar as diferenças profundas entre as crenças mesopotâmicas e a tradição judaico-cristã. Bottéro mostra como conceitos que hoje consideramos universais são, na verdade, construções históricas específicas, e como outras civilizações pensaram a relação entre deuses, humanos, culpa e responsabilidade de maneira muito distinta.

O livro aborda ainda temas variados, como a culinária, o amor, o direito das mulheres e a figura das prostitutas — aspecto que, no meu caso, foi especialmente relevante. Bottéro escapa de leituras moralizantes e restitui a complexidade social dessas figuras, situando-as em seu tempo e em suas funções simbólicas e práticas.

A obra traz também a tradução do Poema do Supersábio, um mito fundador mesopotâmico que eu desconhecia, acompanhada de uma análise brilhante. Esse texto, em particular, amplia o entendimento da cosmovisão mesopotâmica e de sua maneira de pensar a origem do mundo, o saber e a relação com o divino.

No começo eram os deuses é um livro que abre horizontes. Trouxe-me muitas informações até então desconhecidas e obrigou a rever certezas sedimentadas. Por isso, a leitura vale e muito a pena.vro do historiador Jean Bottéro me ensinou muito — e, sobretudo, desmontou várias ideias que eu tinha como dadas. Com foco na Mesopotâmia, a obra é composta por uma série de artigos nos quais Bottéro reconstrói aspectos centrais do pensamento, da religião e da vida cotidiana mesopotâmica.

Um dos textos que mais me impactou, talvez pela minha própria ignorância anterior, é o dedicado ao chamado “Código de Hamurabi”. Bottéro demonstra que ele não deve ser entendido como um código de leis no sentido moderno, como eu acreditava, mas algo muito mais próximo do que hoje chamaríamos de jurisprudência. Trata-se de uma compilação de decisões tomadas por Hamurabi diante de situações concretas, reunidas como modelos para julgamentos futuros — o que altera profundamente a forma como compreendemos o direito nesse contexto histórico.

Outro ensaio particularmente marcante é o que trata da moral e do pecado, ao evidenciar as diferenças profundas entre as crenças mesopotâmicas e a tradição judaico-cristã. Bottéro mostra como conceitos que hoje consideramos universais são, na verdade, construções históricas específicas, e como outras civilizações pensaram a relação entre deuses, humanos, culpa e responsabilidade de maneira muito distinta.

O livro aborda ainda temas variados, como a culinária, o amor, o direito das mulheres e a figura das prostitutas — aspecto que, no meu caso, foi especialmente relevante. Bottéro escapa de leituras moralizantes e restitui a complexidade social dessas figuras, situando-as em seu tempo e em suas funções simbólicas e práticas.

A obra traz também a tradução do Poema do Supersábio, um mito fundador mesopotâmico que eu desconhecia, acompanhada de uma análise brilhante. Esse texto, em particular, amplia o entendimento da cosmovisão mesopotâmica e de sua maneira de pensar a origem do mundo, o saber e a relação com o divino.

No começo eram os deuses é um livro que abre horizontes. Trouxe-me muitas informações até então desconhecidas e obrigou a rever certezas sedimentadas. Por isso, a leitura vale e muito a pena.


Jean Bottéro nasceu em Vallauris em 1914 e faleceu em Gif-sur-Yvette, França. Foi um historiador francês, assiriólogo, especialista no Antigo Oriente. 



CONJUGAR O MUNDO A PARTIR DO CUIDADO, DA ESCUTA E DA DESOBEDIÊNCIA FEMINISTA

 


ESPERANÇA FEMINISTA

DEBORA DINIZIVONE GEBARA

ROSA DOS TEMPOS – 1ª ED. 2022

280 páginas 

Um livro magnífico, um dos mais belos que li nos últimos tempos sobre o feminismo. As autoras selecionam alguns verbos — como escutar, falar, compartilhar, entre outros — e, a partir de cada um deles, tecem reflexões sobre como compreendem a conjugação desses verbos à luz de uma esperança feminista.

Débora nos traz suas experiências: como saiu de um lugar de mulher branca privilegiada para a compreensão das muitas outras mulheres que vivem realidades distintas. Mostra como passou a perceber o quanto o sistema patriarcal estava entranhado em seus pensamentos, atitudes e ideias, e como aprendeu a estranhar o patriarcado. Seu texto sobre o verbo escutar é belíssimo.

Ivone dispensa apresentações. Ela é sensacional. Com uma veia profundamente poética, vai conjugando os verbos, sempre desobedecendo ao que não considera correto, sempre nos convidando a pensar para além do lugar comum.

E se, no princípio, era o verbo, talvez o que precisemos hoje seja aprender a conjugá-lo com amor, solidariedade e sororidade — sabendo, antes de tudo, ouvir, para depois falar.


Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É antropóloga, pesquisadora, ensaísta e documentarista brasileira.


Ivone Gebara nasceu em São Paulo em 1944. É uma freira católica, filósofa e teóloga feminista brasileira. 


 


UM MITO FUNDADOR E SUAS LEITURAS AO LONGO DO TEMPO

 



ASCENSÃO E QUEDA DE ADÃO E EVA

STEPHEN GREENBLATT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2018

392 páginas 

Provavelmente o mito de origem mais conhecido no Ocidente é o de Adão e Eva. Em Ascensão e Queda de Adão e Eva, Stephen Greenblatt retoma esse mito fundador e o esmiúça com atenção histórica e cultural. Trata-se de um relato que atravessa séculos e permanece ativo até os dias atuais, exercendo influência profunda sobre a moral, a arte, a religião e o pensamento ocidental.

Para a história das mulheres, esse mito é fundamental. Nele se consolida a imagem de Eva como a pecadora, a sedutora, aquela que provoca a queda e inaugura o pecado original. Uma narrativa que, reiterada ao longo do tempo, sustentou justificativas teológicas, morais e sociais para a subordinação feminina.

Greenblatt percorre as múltiplas leituras feitas do mito, examinando sua presença nas artes visuais, na literatura, na psicologia, na moral cristã e até mesmo na ciência. A análise passa por autores que se debruçaram intensamente sobre o texto bíblico, como Santo Agostinho, empenhado em provar sua historicidade; Albrecht Dürer, com suas representações visuais do casal primordial; e John Milton, em seu magistral Paraíso Perdido.

O autor inicia contextualizando o período em que o mito foi escrito e amplia o horizonte ao aproximá-lo de outras narrativas cosmogônicas, como o Enuma Elish e a Epopeia de Gilgamesh. Dessa forma, o livro revela como a história de Adão e Eva foi sendo reinterpretada ao longo do tempo e como sua influência ultrapassa em muito o campo estritamente religioso, moldando visões de mundo, concepções de gênero e estruturas de poder.


Stephen Greenblatt nasceu em Boston, EUA, em 1943. É um teórico e crítico literário. 




PROSPERIDADE, COLAPSO E AS LIÇÕES INCÔMODAS DA ANTIGUIDADE


 

1177: O ANO EM QUE A CIVILIZAÇÃO ENTROU EM COLAPSO

ERIC H. CLINE

AVIS RARA – 1ª ED. - 2023

224 páginas 


Ao estudar a Antiguidade, comecei a me perguntar como foi possível que civilizações inteiras — como a Mesopotâmia, a Assíria ou o Egito dos faraós — simplesmente desaparecessem. Não falo apenas de derrotas militares, conquistas ou mudanças de poder, mas do desaparecimento literal de grandes cidades, que deixam de existir e de ocupar qualquer lugar na história.

Este livro tenta responder a essa pergunta. Ainda hoje, arqueólogos e historiadores não conseguem afirmar com total certeza o que ocorreu no final da Idade do Bronze, mas há vestígios suficientes para levantar hipóteses bastante plausíveis. Eric H. Cline apresenta essas hipóteses com rigor e clareza, conduzindo o leitor por um período marcado tanto pela prosperidade quanto pela fragilidade.

Mais do que explicar um colapso, o autor reconstrói todo o panorama do final da Idade do Bronze e demonstra o quanto aquelas civilizações, cidades e povos estavam profundamente conectados entre si. Havia intensas redes de comércio, trocas diplomáticas e circulação de bens, ideias e tecnologias. A tese central de Cline é provocadora: muito antes da era contemporânea, já existia algo que podemos chamar, sem exagero, de globalização.

Foi um período de grande desenvolvimento, riqueza e interdependência — e justamente por isso vulnerável. Por volta de 1177 A.E.C., esse mundo entrou em colapso. O que aconteceu? É essa pergunta que atravessa o livro.

Ao final, 1177 deixa também um alerta inquietante para o presente. Ao mostrar que a extrema interdependência entre aqueles povos contribuiu para o colapso sistêmico, o autor sugere paralelos incômodos com o mundo atual. O fim da Idade do Bronze abriu caminho para uma nova era — a da Grécia Clássica —, mas não sem perdas profundas. A leitura convida a refletir sobre até que ponto sociedades altamente conectadas são também estruturalmente frágeis.


             Eric H. Cline nasceu em Washington D.C., EUA, em 1960. É historiador, arqueólogo e escritor


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

QUANDO ATÉ O AFETO É ATRAVESSADO PELA FOME

 

VIDAS SECAS

GRACILIANO RAMOS

RECORD - 1984

155 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE

Vidas Secas é um daqueles livros lidos na juventude que permanecem como imagem, quase como cicatriz. No meu caso, o que ficou de forma mais nítida foi a morte de Baleia. Não apenas por ser uma cadela, mas porque Graciliano Ramos consegue concentrar nela uma humanidade que, ao longo do livro, vai sendo arrancada dos próprios personagens humanos. Baleia sonha, sente, imagina um mundo melhor, algo que a seca, a fome e a miséria já haviam tornado quase impossível para Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos.

A seca não é apenas um fenômeno natural no romance; ela é estrutura de vida, destino imposto, força que empurra à migração, ao deslocamento contínuo, à perda de qualquer possibilidade de enraizamento. A família caminha, trabalha, foge, retorna, sempre sem escolha. A migração não é aventura, é expulsão. O sertão não aparece como espaço mítico, mas como lugar de sobrevivência mínima, onde o tempo se repete sem promessa.

O que impressiona em Vidas Secas é a linguagem seca, contida, quase árida, que acompanha a experiência dos personagens. Há pouco espaço para elaboração emocional, porque a própria vida não oferece esse espaço. A violência é cotidiana, a humilhação é naturalizada, o silêncio é uma forma de existência. Graciliano escreve como quem retira tudo o que é excesso, deixando apenas o essencial — e o essencial é duro.

Mesmo lido muito jovem, o livro já se impõe como denúncia. Não há heroísmo, não há redenção. Há apenas a exposição de um Brasil que empurra seus habitantes para fora de si mesmos. A morte de Baleia, tão lembrada, talvez seja o momento mais doloroso justamente porque revela o quanto a sensibilidade ainda resiste ali, mesmo em condições extremas.

Voltar a Vidas Secas hoje é perceber que ele continua atual. A seca, a migração forçada, a pobreza estrutural, o deslocamento de populações inteiras seguem presentes. O romance permanece como um espelho incômodo, que nos obriga a perguntar até que ponto essa história realmente ficou no passado — ou se seguimos, de outras formas, caminhando sob o mesmo sol.


Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro.