domingo, 15 de fevereiro de 2026

INTELECTUALIDADE NEGRA E INVENÇÃO DE CONCEITOS


 

LÉLIA GONZALEZ – RETRATOS DO BRASIL NEGRO

ALEX RATTSFLÁVIA M. RIOS

SELO NEGRO EDIÇÕES – 1ª ED. – 2010

176 páginas

Os autores apresentam neste livro não uma biografia nos moldes tradicionais, centrada na cronologia da vida privada, mas sobretudo o percurso intelectual, político e militante de Lélia Gonzalez. Embora aspectos de sua vida pessoal apareçam, o foco está na construção de seu pensamento e em sua atuação decisiva no enfrentamento ao racismo e ao sexismo no Brasil.

Lélia nasce em uma família muito pobre, com muitos filhos, em Belo Horizonte. A possibilidade de mudança para o Rio de Janeiro surge graças a um dos irmãos, jogador de futebol, que consegue trazer a família. É no Rio que a jovem Lélia estuda, trabalha e começa, gradualmente, a perceber o racismo estrutural que organiza a sociedade brasileira, o sexismo e as profundas desigualdades sociais.

Num primeiro momento, no entanto, ela se submete a essas normas. Forma-se professora, alisa o cabelo, adapta-se às expectativas sociais impostas às mulheres negras. A virada ocorre quando seu marido, um homem branco, chama sua atenção para o fato de que ela ainda não havia analisado criticamente a própria negritude. Esse questionamento marca o início de um processo profundo de conscientização e elaboração teórica.

Lélia Gonzalez se tornaria uma das maiores intelectuais do pensamento negro no Brasil. Criou conceitos fundamentais como amefricanidade e pretoguês, antecipando debates que hoje reconhecemos como decoloniais, embora o termo ainda não estivesse em circulação. Seu pensamento articula raça, gênero e classe de forma pioneira, denunciando os limites do feminismo branco e do movimento negro quando ambos ignoram a especificidade da mulher negra.

Ser mulher e ser negra foi o eixo central de sua luta. Lélia batalhou para que a questão da mulher negra entrasse nas pautas políticas e acadêmicas, mas também para desmascarar o mito da democracia racial em um país que construiu sua identidade nacional sobre o apagamento do racismo. Sua obra permanece atual, incisiva e indispensável para compreender o Brasil e suas desigualdades.


Alex Ratts nasceu em Fortaleza em 1964. É geógrafo e antropólogo.

Flávia M. Rios é doutora em Ciências Sociais. 


 


SOCIEDADES DE PARCERIA E SOCIEDADES DE DOMINAÇÃO

 

O CÁLICE E A ESPADA

RIANE EISLER

PALAS ATHENA – 1ª ED. 2007

362 páginas

O Cálice e a Espada, de Riane Eisler, apresenta uma reflexão profunda sobre a história da humanidade a partir de duas lentes simbólicas: o modelo do “cálice”, representando sociedades baseadas na parceria, cooperação e respeito, e o modelo da “espada”, associado à dominação, guerra e hierarquia opressiva. Eisler analisa como a humanidade transitou entre essas formas de organização social, propondo que muitas culturas antigas, especialmente pré-patriarcais, valorizavam a complementaridade, a igualdade de gênero e a vida comunitária.

O livro explora as raízes históricas do patriarcado, demonstrando como a dominação e a violência foram naturalizadas ao longo do tempo, transformando relações sociais, econômicas e de gênero. Eisler argumenta que os valores da “cultura do cálice” – empatia, cooperação e cuidado – foram suprimidos, mas permanecem como um modelo alternativo para a construção de sociedades mais justas e igualitárias.

Combinando pesquisa histórica, antropologia e teoria social, O Cálice e a Espada nos convida a refletir sobre como a violência estrutural, a desigualdade de gênero e a dominação moldaram a civilização moderna, ao mesmo tempo em que oferece um caminho de inspiração para reimaginar a convivência humana baseada na parceria e no respeito mútuo.


Riane Eisler nasceu em Viena, Áustria, em 1937. É uma acadêmica, escritora e ativista social. 


ÉTICA, MORAL E RESPONSABILIDADE DO CRIADOR


 

FRANKENSTEIN: OU O PROMETEU MODERNO

MARY SHELLEY

ZAHAR - 2020

312 páginas

Fiquei profundamente impressionada com a história desse ser criado por um humano que se arroga o lugar de criador da vida. No entanto, não desejo abordar o livro por um viés religioso.

A obra nos conduz a uma questão antiga e sempre atual: a fronteira entre o bem e o mal. Ao mesmo tempo, permite uma leitura surpreendentemente contemporânea, sobretudo quando pensamos nas dinâmicas do mundo atual e nas redes sociais.

Victor Frankenstein deseja vencer a morte, mas também busca a glória pessoal, a perpetuação de seu nome por meio de uma criação inédita. Para isso, cria um ser humano e lhe dá vida. No instante em que sua obra se concretiza, ele foge, apavorado com o que fez, abandonando a criatura à própria sorte. Lançado ao mundo sem amparo, o ser criado precisa aprender sozinho a sobreviver.

Inicialmente, a criatura é boa e generosa. Ela deseja companhia, afeto, reconhecimento. No entanto, encontra apenas rejeição, medo e violência. Mesmo após salvar uma criança de um afogamento, é atacada e expulsa. A sucessão de recusas e agressões transforma sua dor em ressentimento e, depois, em desejo de vingança contra aquele que lhe deu a vida e se recusou a assumir qualquer responsabilidade por ela.

Enquanto isso, Victor retoma sua vida como se nada tivesse ocorrido. Para atingi-lo, a criatura passa a cometer crimes, e são inocentes que pagam o preço. A questão central do livro é, portanto, ética e moral: qual é a responsabilidade de quem cria? Até que ponto o criador pode se eximir das consequências de sua obra?

Mary Shelley constrói uma relação de dependência e escravidão entre criador e criatura. Ao trazer essa reflexão para o presente, é inevitável pensar na nossa própria escravidão às tecnologias e às redes sociais — criações humanas que escaparam ao controle e passaram a moldar comportamentos, afetos e violências. Frankenstein continua atual justamente porque nos obriga a perguntar não apenas o que criamos, mas o que fazemos com aquilo que criamos.


Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797 e faleceu na mesma localidade em 1851. Foi uma escritora britânica. 


NATUREZA, CULTURA E O COLAPSO DAS SEPARAÇÕES MODERNAS

 


ESCUTE AS FERAS

NASTASSJA MARTIN

EDITORA 34 – 1ª ED. – 2021

112 páginas

Este é um livro curto, mas profundamente impressionante. A autora, Nastassja Martin, é uma antropóloga francesa que pesquisa povos da Sibéria. Durante um trabalho de campo, ela é atacada por um urso, que lhe morde o rosto e a perna. Martin consegue ferir o animal, que foge, gesto que lhe salva a vida.

O livro relata o longo e doloroso processo de restabelecimento físico, tudo o que a autora enfrenta entre hospitais na Rússia e na França, as cirurgias, a dor e as limitações impostas ao corpo. No entanto, o aspecto mais potente da obra está em outro plano: o do processo interno, psíquico e existencial desencadeado pelo encontro violento com o animal.

Martin não trata o ataque apenas como um acidente ou um evento a ser superado. Ela o pensa como uma fratura ontológica, um choque entre mundos — o humano e o não humano — que desestabiliza identidades, fronteiras e certezas. A experiência coloca em questão a separação moderna entre natureza e cultura, corpo e espírito, razão e instinto. A antropóloga, acostumada a observar e interpretar o outro, torna-se ela própria atravessada pela alteridade radical da fera.

Escute as feras é, assim, um livro sobre vulnerabilidade, metamorfose e escuta. Um relato em que o corpo ferido obriga o pensamento a se refazer, e onde a experiência extrema abre espaço para outra forma de compreender o humano, o animal e o mundo compartilhado.


Nastassja Martin nasceu em Grenoble, França, em 1986. É antropóloga, especializada nas populações do Extremo Norte. 


RESISTÊNCIA, COLABORACIONISMO E HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


 

UMA MULHER SEM IMPORTÂNCIA

A história secreta da espiã americana mais perigosa da Segunda Guerra Mundial

SONIA PURNELL

PLANETA – 1ª ED. – 2021

416 páginas


Uma Mulher Sem Importância, de Sonia Purnell, narra a extraordinária trajetória de Virginia Hall, uma mulher de coragem e determinação incomuns. Nascida nos Estados Unidos em uma família de posses, seu destino parecia ser o casamento conforme os desejos de sua mãe, mas Hall aspirava a muito mais. Com o apoio do pai, foi estudar na Europa e sonhava em tornar-se diplomata em uma época em que tal carreira era praticamente inacessível às mulheres.

Um revés inesperado ocorreu na Turquia, quando, em um acidente de caça, Hall disparou acidentalmente no próprio pé, necessitando de amputação acima do joelho devido a uma gangrena. A partir daí, passou a usar uma perna mecânica, carinhosamente apelidada de Cuthbert, sem que isso diminuísse sua determinação.

Com o estourar da Segunda Guerra Mundial, Hall ingressou na SOE, o serviço secreto britânico, e atuou como espiã na França, país que amava como uma segunda pátria. Lá, desempenhou um trabalho imenso com a resistência: treinando combatentes, fornecendo armas, elaborando planos de resgate para prisioneiros e promovendo sabotagens contra os alemães. Apesar de sua coragem e eficácia, jamais recebeu o reconhecimento que merecia durante a vida, muitas vezes devido ao machismo que impedia que suas realizações fossem vistas como equivalentes às dos homens, mesmo quando as superava.

Após a guerra, Virginia Hall trabalhou na recém-criada CIA nos Estados Unidos, novamente enfrentando o silêncio e a falta de reconhecimento. Considerada uma das maiores inimigas do Terceiro Reich, foi procurada incansavelmente, mas nunca capturada, embora tenha perdido amigos e companheiros, especialmente devido ao agente duplo Robert Alesch.

O livro de Purnell não só celebra a vida desta mulher extraordinária, mas também oferece um retrato detalhado da resistência francesa, do colaboracionismo e do contexto de Vichy e do governo de Pétain, proporcionando uma compreensão profunda do período histórico e da luta de indivíduos excepcionais contra o totalitarismo.


Sonia Purnell é uma jornalista e escritora inglesa. 


COLONIALISMO E IMPERIALISMO SEM SUBTERFÚGIOS


 

DISCURSO SOBRE O COLONIALISMO

AIMÉ CÉSAIRE

VENETA – 1ª ED. – 2020

136 páginas

Discurso sobre o Colonialismo, de Aimé Césaire, é um livro pequeno, mas de força explosiva, que denuncia sem rodeios a essência do colonialismo e, por extensão, do imperialismo. Césaire desmonta por completo a narrativa de que o colonialismo teria como objetivo levar a “civilização” aos chamados povos “bárbaros” ou “selvagens”, mostrando que tal justificativa nunca refletiu a realidade, exceto em alguns casos de missionários com agendas catequéticas.

O discurso evidencia o caráter nefasto do colonialismo, a imposição de uma visão ocidental e eurocêntrica a povos com culturas próprias, e a exploração brutal que foi perpetrada, incluindo a conquista portuguesa sobre os povos originários do Brasil. O autor também denuncia a escravização de africanos e africanas, arrancados de suas famílias e comunidades para suprir a demanda de mão de obra explorada em colônias distantes.

Além disso, Césaire amplia a análise ao incluir o imperialismo dos Estados Unidos, demonstrando seu envolvimento na América Central e Latina, o apoio a ditadores e o trabalho forçado, aspectos ainda pouco conhecidos por muitos. O autor mostra como o colonialismo e o imperialismo desumanizam, destroem e deixam legados duradouros, evidenciando que o fascismo moderno é, em muitos sentidos, filho dessas práticas históricas.

Discurso sobre o Colonialismo é uma leitura impactante, que nos obriga a refletir sobre a persistência de estruturas de dominação, exploração e preconceito, e sobre como a herança colonial molda injustiças que ainda atravessam o mundo contemporâneo.


Aimé Césaire nasceu em Basse-Pointe, Martinica, em 1913 e faleceu em Fort-de-France, Martinica, em 2008. Foi um poeta, dramaturgo, ensaísta e político da negritude


A TRAJETÓRIA DE IANA MATEI

 


À VENDA: Minha luta contra o tráfico sexual na Europa

IANA MATEI

BESTSELLER – 1ª ED. – 2012

240 páginas

À Venda, de Iana Matei, é um relato comovente e corajoso sobre a luta contra o tráfico sexual na Europa. Psicóloga e fundadora de um abrigo na Romênia para vítimas de exploração sexual, Matei narra sua trajetória pessoal, desde a fuga da Romênia e exílio na Austrália, onde começou a trabalhar voluntariamente com pessoas em situação de rua, transformando essa experiência em uma organização de apoio, até o retorno à Romênia, quando se depara com a realidade brutal da prostituição forçada. Ela percebe que não se trata apenas de prostituição voluntária, mas da venda de meninas menores de idade, traficadas por toda a Europa. Com isso, decide abrir um abrigo para acolher essas meninas e iniciar um trabalho doloroso, complexo e essencial, diante da negligência das autoridades.

O livro apresenta histórias das meninas acolhidas, narrando os abusos sofridos sem recorrer a exageros ou voyeurismo — prática que Matei condena, inclusive por parte de jornalistas ávidos por detalhes sórdidos. O foco é reconstruir a vida física e psíquica dessas jovens para que possam alcançar alguma normalidade, embora, infelizmente, em alguns casos, a reintegração não seja permanente.

Matei descreve a falta de compreensão de diversos setores — judiciário, polícia, autoridades, jornalistas, pais e sociedade em geral — que muitas vezes não distinguem as vítimas, enganadas e forçadas a prostituir-se, de mulheres que exercem a prostituição voluntariamente. As meninas acolhidas geralmente vêm de lares violentos ou disfuncionais, são frágeis, carentes e pobres, e muitas foram seduzidas ou aliciadas por conhecidos, mulheres ou amigos que prometiam empregos ou amor.

A autora também expõe a corrupção e a impunidade que favorecem os traficantes, que podem subornar autoridades ou contratar bons advogados, recebendo, na maioria das vezes, penas leves. O maior medo das meninas é reencontrar os traficantes, o que muitas vezes as impede de sair do abrigo para estudar ou trabalhar.

A luta de Matei e das educadoras é intensa, exigindo paciência, firmeza e, por vezes, medidas duras no trato verbal e comportamental, para que as meninas reaprendam a confiar. Matei defende, acima de tudo, a educação como ferramenta para combater o problema, diante da ineficácia das autoridades em conter a rede de tráfico, que opera por toda a Europa, transferindo vítimas para dificultar sua localização.

O tema é árido e doloroso, mas Matei apresenta-o com força, clareza e humanidade. Ela não omite a realidade, mas insiste na dignidade das meninas e na urgência de ações concretas. Sua coragem, enfrentando traficantes de frente e trabalhando para reconstruir vidas destruídas, torna este livro leitura essencial.

Iana Matei é uma ativista romena e fundadora da Reaching Out Romania, uma organização que visa encontrar e reabilitar vítimas de prostituição forçada e tráfico sexual. 

APRENDER A VER O AFEGANISTÃO PARA ALÉM DA GUERRA

 


A FILHA FAVORITA

FAWZIA KOOFI – NADENE GHOURI

OBJETIVA – 1ª – 2013

280 páginas

Este livro me levou a olhar para o Afeganistão de outra maneira. A imagem que se cristalizou no Ocidente — sobretudo após o 11 de Setembro — associa o país quase exclusivamente ao Talibã, à guerra e ao terror. A Filha Favorita, no entanto, desloca esse olhar. Mostra um território de história milenar, atravessado por sucessivas turbulências políticas: da invasão soviética à tomada do poder pelos mujahidin, do regime talibã a uma frágil tentativa de democracia, e com a retirada das tropas norte-americanas a volta do Talibã.

Mas o centro do livro não é apenas o país: é a vida de uma mulher excepcional. Fawzia Koofi, ao nascer, foi deixada ao sol para morrer — prática brutal que marca o destino de muitas meninas. Sobreviveu. E não apenas isso: tornou-se uma das figuras mais importantes da política afegã, chegando à vice-presidência do parlamento. Sua trajetória pessoal é, ao mesmo tempo, singular e coletiva, porque carrega as marcas de milhões de mulheres invisibilizadas.

Para compreender as mulheres retratadas neste livro, é preciso suspender, ao menos por um instante, nossos conceitos ocidentais. O que emerge dessas páginas não é submissão passiva, mas coragem, força, dignidade e persistência. Há também uma profunda sororidade feminina: mulheres que se protegem, se orientam e se fortalecem mutuamente em contextos de extrema violência.

O livro percorre a vida nas aldeias, nas pequenas cidades e na capital, Cabul. Mostra o desejo intenso de estudar, de participar da vida pública, de lutar por um país menos violento. Revela também a complexidade das estruturas familiares, incluindo o amor entre irmãos e irmãs filhos de mães diferentes, já que a poligamia é permitida. Longe de idealizar, a narrativa humaniza essas relações e expõe suas contradições.

A Filha Favorita é escrito como uma espécie de testamento às filhas de Fawzia Koofi, porque sua vida é permanentemente ameaçada. Essa condição de risco constante atravessa todo o texto e dá a ele uma urgência particular: escrever é também resistir, deixar registro, afirmar que essas vidas importam.

Ler este livro é um exercício de alteridade. Conhecer outras culturas amplia horizontes, desmonta estereótipos e nos obriga a pensar para além de nossas próprias referências. Ao final, fica claro que compreender o Afeganistão e, sobretudo, suas mulheres, não é um gesto de curiosidade distante, mas um compromisso ético com a complexidade do mundo e com as muitas formas possíveis de coragem.


Fawzia Koofi nasceu em Badaquexão, em 1975. É uma política e feminista afegã. Ocupou o cargo de vice-presidente do Parlamento do Afeganistão. 


ENTRE MUROS E PONTES: ALTERNATIVAS PARA O FUTURO


 

A ERA DOS MUROS: POR QUE VIVEMOS EM UM MUNDO DIVIDIDO

TIM MARSHALL

ZAHAR – 1ª ED. – 2021

352 páginas


A Era dos Muros, de Tim Marshall, é um livro impactante que revela a extensão da presença de barreiras físicas ao redor do mundo. Eu não tinha conhecimento de quantos muros existem atualmente e o livro detalha tanto os motivos alegados para sua construção quanto as críticas a essas estruturas. Marshall aborda muros na América, Europa, Ásia e África, descrevendo desde barreiras de concreto até cercas simples e até mesmo construções feitas de areia.

O que torna a leitura particularmente perturbadora é perceber como, diante de conflitos, crises humanitárias, refugiados e desafios climáticos, a solução adotada muitas vezes é erguer muros. Embora em alguns casos haja resultados positivos, como a redução de atentados terroristas, a sensação de isolamento e separação é inevitável. Como o autor ressalta, na Idade Média, as cidades muradas eram locais de proteção, para onde as pessoas corriam em busca de segurança; hoje, no entanto, os muros separam, afastam e simbolizam divisão.

Marshall convida o leitor a refletir sobre o impacto social e psicológico dessas barreiras, mostrando que, em vez de pontes e conexões, muitas sociedades optam por cercas e fronteiras, perpetuando divisões que poderiam ser superadas por diálogo e cooperação.


Tim Marshall nasceu na Inglaterra em 1959. É um jornalista e escritor britânico. 


IDEALISMO EM CONFRONTO COM A MÁQUINA DO PODER

 

A EDUCAÇÃO DE UMA IDEALISTA: MEMÓRIAS

SAMANTHA POWER

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2021

632 páginas

As memórias de Samantha Power inspiram, não por ingenuidade, mas justamente porque revelam o idealismo colocado à prova. Sim, ela se assume idealista. Mas é uma idealista que age, que entra em territórios devastados, ocupa espaços institucionais e aceita o risco do fracasso. Erra, recua, perde batalhas e, ainda assim, não desiste.

Nascida na Irlanda, Samantha Power migra ainda jovem para os Estados Unidos com a mãe, o padrasto Eddie e o irmão. Essa experiência inicial de deslocamento já marca sua percepção do mundo: pertencimento nunca é algo garantido, é sempre construído. Mais tarde, como jornalista, viaja para a Bósnia para cobrir a guerra. Ali, diante da violência extrema, da limpeza étnica e da indiferença internacional, vive experiências que irão moldar definitivamente sua visão política e ética. A guerra deixa de ser abstração e passa a ter rostos, nomes, corpos.

De volta aos Estados Unidos, decide estudar Direito. Não como abandono do jornalismo, mas como continuidade: compreender os mecanismos formais que organizam, ou paralisam, a ação internacional. Sua trajetória a leva à política institucional, participando da campanha de Barack Obama, e posteriormente ao governo norte-americano. Nomeada por Obama como embaixadora dos EUA na Organização das Nações Unidas, passa a ocupar um dos espaços mais complexos e contraditórios da política global.

O livro não idealiza esse percurso. Pelo contrário: mostra com clareza o embate permanente entre princípios morais e interesses geopolíticos. Power narra suas tentativas de intervir ou pressionar diante de conflitos no Iraque, Sudão e Síria, sempre consciente dos limites impostos pela soberania, pelos vetos, pelos jogos de poder. Ao mesmo tempo, destaca seu compromisso contínuo com a defesa das populações civis, em especial das mulheres, quase sempre as primeiras vítimas das guerras e as últimas a serem ouvidas.

A Educação de uma Idealista não é apenas a história de uma carreira bem-sucedida. É o relato de uma formação ética em permanente tensão: como agir sem trair valores? Como aceitar compromissos sem naturalizar a violência? Como permanecer sensível ao sofrimento do outro quando se está cercada por protocolos, discursos e estratégias?

Ao final, fica claro que o idealismo de Samantha Power não é um ponto de partida confortável, mas um processo doloroso de aprendizado. Um idealismo que não se satisfaz com boas intenções, mas insiste em permanecer ativo mesmo quando o mundo oferece poucas respostas. Um livro que convida a pensar não apenas sobre política internacional, mas sobre o preço, e a necessidade, de continuar acreditando na responsabilidade diante do outro.


Samantha Power nasceu em Londres, Reino Unido, em 1970. É uma política, diplomata, escritora, jornalista e advogada. 


VIOLÊNCIA, TERRA E RESISTÊNCIA NO BRASIL PROFUNDO


 A DÁDIVA MAIOR

A vida e a morte corajosa da Irmã Dorothy Stang

BINKA LE BRETON

GLOBO – 2008

248 páginas 

A Amazônia — esta floresta tropical de dimensão continental que abrange Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso e Amapá, estendendo-se ainda pelo Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela e Guianas — aparece neste livro não como paisagem exótica, mas como território em disputa. Um espaço violentado por grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais, protegido por pistoleiros, enquanto, do outro lado, resistem posseiros, assentados, ribeirinhos e povos indígenas. Muitos acabam mortos, expulsos ou escravizados pela exploração do trabalho. É essa realidade brutal que atravessa a narrativa sobre a vida e o assassinato de Dorothy Stang.

Binka Le Breton reconstrói a trajetória dessa mulher extraordinária com precisão e sensibilidade. Dorothy surge como alguém profundamente indignada diante da crueldade e da devastação, mas também como uma figura prática, obstinada, que acreditava que educação é uma forma de libertação. Ensinar a ler, escrever, compreender direitos,  isso, mais do que discursos, ameaçava os poderosos. Não por acaso, escolas de taipa e telhado de palha erguidas pelas comunidades eram incendiadas, repetidas vezes, como aviso.

O livro também evidencia as sucessivas ondas de migração estimuladas pelo governo militar em nome do “desenvolvimento” da Amazônia. Famílias inteiras eram atraídas para a região com promessas vagas e, uma vez lá, ficavam abandonadas: sem terra regularizada, sem infraestrutura, sem proteção. Dorothy abraça a causa dessas pessoas e passa a lutar junto à justiça e ao Incra para que pudessem ao menos garantir um pequeno pedaço de terra para morar, plantar e sobreviver.

Essa luta, no entanto, confrontava diretamente os interesses dos grandes fazendeiros. Eles não queriam convivência, nem reforma agrária, nem justiça social, queriam a terra. Terras públicas apropriadas ilegalmente, transformadas em propriedade privada por meio de violência e de conchavos políticos. Desmata-se tudo, planta-se uma ou duas vezes até o solo virar areia, e depois transforma-se o território em pasto para bois, sob o discurso da “produtividade”.

Contra essa lógica predatória, Dorothy propunha um modelo de agrofloresta: plantar mantendo a floresta viva. Um projeto simples, sustentável e profundamente subversivo, porque colocava em xeque o modelo econômico dominante. Ela incomodava porque orientava, esclarecia, organizava. Porque caminhava ao lado dos mais pobres e não aceitava o silêncio como forma de sobrevivência.

Seu assassinato, brutal e anunciado, é apresentado no livro não como um fim, mas como um ponto de inflexão. Dorothy Stang foi morta porque ousou permanecer. O Brasil retratado aqui, e que infelizmente ainda persiste, é o país que mais mata ambientalistas no mundo. Os executores foram presos; os mandantes, embora identificados, jamais punidos.

O que eles não previram é que sua morte se tornaria semente. Em vez de silenciar a luta, fortaleceu-a. A Dádiva Maior é, assim, mais do que uma biografia: é um testemunho incômodo sobre o Brasil profundo, sobre a violência estrutural no campo e sobre o preço pago por aqueles — e sobretudo aquelas — que ousam defender a vida onde só se reconhece lucro.


Binka Le Breton nasceu em Wiltshire, Reino Unido. É uma escritora britânica. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

INTELECTUALIDADE E MILITÂNCIA COMO PRÁTICA INSEPARÁVEL


 

CONTINUO PRETA: A VIDA DE SUELI CARNEIRO

BIANCA SANTANA

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2021

296 páginas 

Neste livro, Bianca Santana presta uma homenagem sensível e politicamente necessária a Sueli Carneiro, acompanhando sua trajetória de vida e de luta. A narrativa parte da infância e da adolescência e segue até a militância, revelando o caminho percorrido por uma mulher negra que enfrentou, desde cedo, os múltiplos obstáculos impostos pelo racismo estrutural no Brasil.

Ao longo do livro, emerge a força, a coragem e a determinação de Sueli Carneiro, não como atributos abstratos, mas como respostas concretas a um contexto marcado pela exclusão, pelo silenciamento e pela negação sistemática de direitos. Bianca Santana constrói o retrato de uma intelectual e ativista cuja formação política se dá tanto na experiência cotidiana do racismo quanto na elaboração teórica e na ação coletiva.

Mais do que uma biografia no sentido tradicional, o livro funciona como um testemunho da importância de Sueli Carneiro para o pensamento feminista negro, para a luta antirracista e para a construção de uma sociedade mais justa. É uma leitura que evidencia como a trajetória individual se entrelaça com a história social e política do país, mostrando que resistir, pensar e agir são dimensões inseparáveis de uma mesma luta.


Bianca Santana nasceu em São Paulo em 1984. É jornalista, escritora e militante feminista negra brasileira. 


DEMOCRACIA: FRÁGIL, IMPERFEITA, NECESSÁRIA

 


COMO AS DEMOCRACIAS MORREM

STEVEN LEVITSKYDANIEL ZIBLATT

ZAHAR – 1ª ED. - 2018

272 páginas 

Gostaria de recomendar este livro. Diante do que vemos acontecer no mundo, com a ascensão, em diversos países, tanto da extrema direita quanto da extrema esquerda, trata-se de uma leitura fundamental para compreendermos que as democracias já não terminam, necessariamente, por meio de golpes militares ou invasões externas. Hoje, muitas vezes, elas se desfazem a partir de dentro, utilizando o próprio processo democrático como instrumento de sua corrosão.

Os autores analisam a eleição de Donald Trump, cujo desfecho, felizmente, ocorreu dentro dos marcos democráticos, mas também examinam outros contextos contemporâneos, como Hungria, Turquia e Venezuela. Além disso, recorrem a exemplos históricos mais explícitos de ruptura institucional, como as ditaduras de Augusto Pinochet, no Chile, e de Alberto Fujimori, no Peru, mostrando diferentes caminhos que conduzem ao autoritarismo.

O ponto central do livro é revelar como líderes eleitos legitimamente passam a enfraquecer gradualmente as instituições, minar a confiança nas regras do jogo democrático e normalizar práticas autoritárias, até que a democracia permaneça apenas como forma, esvaziada de conteúdo. Não se trata de um colapso súbito, mas de um processo lento, muitas vezes aceito ou naturalizado pela sociedade.

Como dizia Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais. Ainda não conhecemos um sistema melhor e, justamente por isso, vale a pena defendê-la. Em tempos como os atuais, este livro se mostra não apenas relevante, mas necessário, pois nos ajuda a reconhecer os sinais do enfraquecimento democrático antes que seja tarde demais.


Steven Levitsky nasceu em Ithaca, Nova Iorque, em 1968. É um cientista político estadunidense.

Daniel Ziblatt nasceu em 1972. É um cientista político estadunidense. 


 


UMA RAINHA AFRICANA CONTRA A EXPANSÃO IMPERIAL ROMANA

 


CANDÁCIA AMANIRENAS: A MULHER QUE ENFRENTOU ROMA

JOSÉ MIGUEL

PUBLICAÇÃO PRÓPRIA – 1ª ED. – 2022

85 páginas

Este pequeno livro apresenta, de forma romanceada, a história de Amanirenas, a Candace que ousou enfrentar o Império Romano. O autor parte de fatos históricos comprovados e preenche as lacunas com diálogos e cenas imaginadas. Ainda que esse recurso — mesmo quando verossímil — nem sempre me agrade, a leitura se mostrou interessante justamente por permitir recriar a presença histórica de uma grande mulher quase ausente das narrativas clássicas.

Amanirenas foi uma rainha Candace do Império de Cuxe, governando entre o final do século I a.E.C. e o início do século I E.C. Nesse mesmo período, Otaviano Augusto consolidava seu poder em Roma após derrotar Cleópatra e anexar o Egito ao Império. O próximo passo de sua expansão era avançar sobre a Núbia — projeto que encontrou uma resistência inesperada.

O livro reconstrói o confronto entre Roma e Cuxe como um embate desigual apenas em aparência. Amanirenas surge como uma líder estrategista, corajosa e determinada, capaz de organizar a resistência militar e política contra uma das maiores potências da Antiguidade. A guerra durou cerca de três anos, e, contra todas as expectativas romanas, ela conseguiu deter o avanço do Império para o sul da África.

Mais do que uma narrativa de guerra, o texto chama atenção para a própria figura das Candaces — título feminino de poder, ainda pouco conhecido e pouco documentado. Justamente por termos tão poucas informações sobre essas rainhas, a leitura ganha valor: ela não substitui a pesquisa histórica, mas desperta interesse, curiosidade e desejo de saber mais sobre uma história africana que raramente ocupa espaço central nos livros.

Mesmo com as limitações do formato romanceado, Candácia Amanirenas cumpre um papel importante: retira do silêncio uma mulher que enfrentou Roma e venceu ao menos aquilo que mais sustenta os impérios: a ideia de que sua expansão é inevitável. Ao recuperar essa trajetória, o livro nos lembra que a Antiguidade não foi feita apenas de imperadores, mas também de mulheres africanas que governaram, lutaram e decidiram o destino de seus povos.


José Miguel nasceu no Rio de Janeiro. Escritor brasileiro 


MEMÓRIA, SILÊNCIO E HERANÇA MORAL NO PÓS-GUERRA ALEMÃO

 


À SOMBRA DO MEU IRMÃO

As marcas do nazismo e do pós-guerra na história de uma família alemã

UWE TIMM

DUBLINENSE – 1ª ED. - 2014

160 páginas 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Uwe Timm era apenas uma criança. O irmão mais velho, ao contrário, alistou-se na SS e morreu jovem no front. No pós-guerra, esse irmão ausente transforma-se no ídolo silencioso da família — um herói congelado no tempo, protegido pela morte e pela recusa coletiva de olhar para o que o nazismo realmente foi.

Já adulto, Timm sente a necessidade de compreender. Não para absolver, mas para entender como isso foi possível. Ele parte então para uma investigação íntima: relê obsessivamente o diário do irmão, revisita cartas enviadas do front na Ucrânia, busca indícios de humanidade, dúvida, culpa. Não encontra. O que emerge é uma normalidade perturbadora, uma ausência quase total de empatia pelo sofrimento alheio.

Um dos momentos mais chocantes do livro está no contraste entre dois relatos. Em uma carta, já no final da guerra, o irmão se diz horrorizado com o bombardeio de Hamburgo pelos aliados — um crime contra civis, mulheres, crianças e idosos. Em outra passagem, descreve com orgulho a destruição dos fornos de uma aldeia ucraniana: os tijolos seriam usados para permitir a passagem dos tanques na lama. Não há qualquer reflexão sobre o que isso significaria para a população local: a perda do meio de cozinhar, de se aquecer no inverno rigoroso, a morte provável de idosos, mulheres e crianças. Para Timm, essa assimetria moral é devastadora: quando a violência atinge “os nossos”, é crime; quando atinge “os outros”, é feito de guerra.

O livro inteiro é atravessado por essa busca dolorosa de compreensão. Como pessoas comuns, capazes de afeto na vida cotidiana, podem perder completamente a capacidade de reconhecer o outro como humano? Como a guerra produz essa anestesia moral? E, talvez mais inquietante: como o pós-guerra permitiu que tantas famílias alemãs se colocassem apenas como vítimas, desviando o olhar dos crimes cometidos em seu nome?

Há também uma dimensão íntima e familiar profunda. Por que esse irmão mais velho permaneceu como ideal do pai, enquanto o caçula, que não matou ninguém, que era apenas uma criança durante o regime nazista, jamais ocupou o mesmo lugar? A pergunta atravessa o texto sem nunca se resolver plenamente, porque o que está em jogo não é apenas uma rivalidade fraterna, mas o peso simbólico do silêncio, da negação e da herança moral não elaborada.

À Sombra do Meu Irmão é um livro incômodo e necessário. Ele mostra como é fácil não querer ver, não querer saber, não reconhecer os próprios erros — e ainda transferir a culpa para os outros. Em tempos de radicalizações e revisionismos, a leitura se impõe como um alerta: a barbárie não nasce apenas de monstros, mas de pessoas comuns que aceitam calar. E esquecer que quem iniciou a guerra foi Hitler e que o esquecimento nunca é neutro.


Uwe Timm nasceu em Bad Kreuznach, Alemanha, em 1940. É um escritor alemão