quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CUIDADO: UM CONCEITO QUE NÃO É UNIVERSAL

 



COSMOPOLÍTICA DO CUIDADO

Percorrendo caminhos com mulheres líderes quilombolas

NATHALIA DOTHILING

CONTRACORRENTE – 1ª ED. – 2022

120 páginas


Este livro, resultado da pesquisa realizada pela autora em duas comunidades quilombolas situadas no estado de Santa Catarina, foi essencial para que eu percebesse que a noção de cuidado, tal como pensada por mulheres brancas, difere, e muito, daquela vivida por mulheres negras, quilombolas, faveladas e até mesmo por mulheres negras nos Estados Unidos.

Aqui, o foco recai sobre as mulheres quilombolas e sobre como elas compreendem o cuidado. A primeira diferença marcante é que o trabalho doméstico realizado nas casas de mulheres que as remuneram por esse serviço não é considerado, por elas, como cuidado. A esse trabalho elas dão outro nome: servir.

O cuidado, para essas mulheres, é aquilo que realizam em suas próprias casas, com seus filhos e no interior da comunidade. A alegria que sentem quando conseguem deixar o trabalho remunerado, geralmente mal pago e exaustivo, para dedicar-se ao cuidado do próprio lar é imensa. Há prazer e afeto nesse fazer, o que difere profundamente da experiência de muitas mulheres que realizam o trabalho doméstico por obrigação, dever ou por não haver outra pessoa que o faça.

Cozinhar, limpar, cuidar dos próprios filhos, dos filhos das vizinhas e dos idosos da comunidade constitui um trabalho de cuidado que, nesse contexto, não é desvalorizado, tampouco pelos homens. Pelo contrário, trata-se de uma atividade reconhecida e respeitada. O aspecto mais interessante é que são justamente essas mulheres cuidadoras que acabam assumindo posições de liderança. Elas se tornam lideranças comunitárias, responsáveis por resolver questões políticas, participar de reuniões com a prefeitura, lutar pelo reconhecimento do território e reivindicar melhores condições de trabalho e de vida para toda a comunidade.


Nathalia Dothiling é mestra em antropologia social


ESCREVER COMO ALERTA E RESPONSABILIDADE

 

O ACERTO DE CONTAS DE UMA MÃE

SUE KLEBOLD

VERUS – 1ª ED. – 2016

430 páginas

 

O acerto de contas de uma mãe, de Sue Klebold, é um livro que todos os pais, mães e responsáveis por crianças e adolescentes deveriam ler. Diante de um massacre, a reação mais comum é tentar transformar os autores em monstros, psicóticos ou produtos evidentes de lares negligentes e abusivos. Essa explicação simplificadora funciona como uma zona de conforto: se o mal está sempre fora, então dentro de casa estamos seguros. O livro desmonta exatamente essa ilusão e, é por isso que ele é tão perturbador e necessário, sobretudo num contexto atual em que a violência em escolas, a ansiedade, a depressão e o suicídio entre jovens se tornam cada vez mais presentes.

O massacre da escola de Columbine, ocorrido em 1999, marcou profundamente os Estados Unidos e introduziu no debate público o termo bullying, ainda que este não possa ser apontado como causa direta do ocorrido. Dois adolescentes, Eric Harris e Dylan Klebold, entraram na escola e assassinaram treze pessoas, ferindo muitas outras, algumas com sequelas permanentes. Sue Klebold escreve a partir do lugar mais difícil possível: ela é a mãe de Dylan. O livro não é um tributo ao filho, tampouco uma tentativa de justificá-lo. É um alerta doloroso, escrito por alguém que amava profundamente seu filho e que jamais imaginou que ele fosse capaz de tal violência.

Sue e Tom, o pai, eram pais presentes, atentos, amorosos e responsáveis. Viviam numa família de classe média, estruturada, que valorizava a convivência, os rituais familiares, o diálogo e também os limites. Dylan era visto como um adolescente alegre, carinhoso, companheiro, alguém que brincava, ria e se mostrava afetuoso. A pergunta que atravessa todo o livro é justamente essa: como alguém criado nesse ambiente pôde cometer algo tão devastador? A resposta que Sue constrói ao longo dos anos é inquietante: seu filho sofria de depressão profunda e conseguia camuflá-la de maneira quase perfeita, algo que nem mesmo profissionais conseguiram identificar. Ele carregava uma dor imensa e um vazio constante, e em determinado momento passou a desejar a própria morte, embora não tivesse coragem de se suicidar.

Eric, por outro lado, era visto como um jovem problemático, agressivo, tomado pelo ódio. Seus pais buscavam ajuda psiquiátrica e terapêutica, tentando contê-lo e compreendê-lo. Quando esses dois adolescentes se unem — um desejando matar, o outro desejando morrer —, o resultado é a tragédia que se conhece. Sue deixa claro que não havia, da parte dela, qualquer conhecimento prévio de que algo assim pudesse ocorrer. Ela percebia que algo não estava bem, mas não possuía ferramentas para reconhecer os sinais da depressão em adolescentes, tão diferentes dos sintomas em adultos.

Após o massacre, o livro acompanha o que vem depois: o luto impensável de perder um filho, somado ao peso de ser mãe de um assassino. A exposição midiática, as acusações, o ódio direcionado à família, as ameaças, o isolamento forçado dentro da própria casa, que de lar se transforma em um espaço de medo. Ao mesmo tempo, Sue relata os gestos de solidariedade, a ajuda de amigos, vizinhos e de outras famílias que também haviam perdido filhos ou enfrentado situações semelhantes. Seu casamento, após trinta anos, não resiste a tamanha devastação. Ainda assim, Sue Klebold escolhe transformar sua dor em responsabilidade pública, escrevendo este livro para alertar outros pais, para que possam reconhecer sinais, falar sobre saúde mental e talvez evitar que outras tragédias aconteçam.


MULHERES QUILOMBOLAS E A LUTA PELO TERRITÓRIO


 

DEVIR QUILOMBA

MARILÉA DE ALMEIDA

EDITORA ELEFANTE - 2022

392 páginas

Baseado na pesquisa realizada por Mariléa de Almeida, o livro aborda os quilombos no estado do Rio de Janeiro, com foco especial no protagonismo feminino. São as práticas das mulheres quilombolas que estruturam a luta pelo território, a manutenção das tradições, dos cultos e a mobilização constante pelo direito à terra — um direito que frequentemente esbarra na burocracia governamental.

O livro mostra como são essas mulheres que sustentam a vida coletiva, articulam resistências e mantêm viva a memória ancestral. A entrada das igrejas neopentecostais nas comunidades quilombolas aparece como um elemento de tensão, produzindo impactos profundos nas formas tradicionais de organização e espiritualidade. Por isso, algumas mulheres defendem com firmeza a preservação do terreiro, entendido não apenas como espaço religioso, mas como lugar de identidade, memória e pertencimento.

A autora destaca ainda a importância das griottes, as contadoras de histórias, responsáveis pela transmissão oral do conhecimento, e das práticas culturais como o jongo, que articulam corpo, memória e resistência. O livro também aborda as dificuldades enfrentadas no acesso à educação formal e critica a ausência do ensino da história da África e da população negra nas escolas, evidenciando como o apagamento histórico reforça desigualdades e fragiliza identidades.


Mariléa de Almeida nasceu em Vassouras – RJ, em 1973. É doutora em História. 


RACISMO COMO SISTEMA DE CASTAS


 

CASTA: AS ORIGENS DE NOSSO MAL-ESTAR

ISABEL WILKERSON

ZAHAR – 1ª ED. – 2021

464 páginas

Casta, de Isabel Wilkerson, oferece uma análise profunda do racismo nos Estados Unidos, mostrando que ele funciona na realidade como um sistema de castas. Nesse sistema, existe uma casta privilegiada e outras subalternas, estruturando relações sociais de forma feroz e cruel, colocando seres humanos em posição de servidão quase permanente, com poucas possibilidades de ascensão, seja profissional ou intelectual, exceto com enorme esforço, determinação e superação de enormes obstáculos. Embora costumemos pensar que esse sistema pertence ao passado, Wilkerson mostra que ele permanece presente no cotidiano, e mesmo aqueles que conseguem ascender socialmente continuam a enfrentar discriminação racial.

A autora estabelece paralelos com as castas da Índia e com o nazismo, que, em parte, se inspirou nas leis raciais dos EUA, demonstrando como a doutrinação social leva à internalização do racismo. Essa análise revela o funcionamento do racismo estrutural, que permanece no inconsciente das pessoas, incluindo aquelas que se consideram não racistas.

Embora o foco do livro seja os afro-americanos, sua leitura é igualmente relevante para compreender o racismo brasileiro, que, embora historicamente negado, permanece evidente e atua de forma internalizada mesmo quando não explícita. Wilkerson amplia ainda a reflexão para todos os grupos marginalizados, colocados à margem da sociedade e tratados como inferiores. Sua crítica à supremacia branca destaca a ilusão de superioridade que sustenta tragédias históricas e sociais, mostrando que tais crenças não possuem fundamento racional, mas são construídas por aqueles que se veem como superiores.

Casta é, portanto, uma leitura essencial para compreender como estruturas históricas, sociais e psicológicas moldam a discriminação e perpetuam desigualdades, convidando à reflexão crítica sobre o racismo em qualquer sociedade.


Isabel Wilkerson nasceu em Washington D.C. em 1961. É uma jornalista estadunidense. 


RESSIGNIFICAR O LUGAR DAS MULHERES

 


MULHERES, MITOS E DEUSAS

O feminino através dos tempos

MARTHA ROBLES

GOYA – 2ª ED. – 2019

448 páginas

Através de temas: as origens, tragédias, amor, fadas, rainhas, caminho de Deus até o nosso tempo, Robles traça perfis de mulheres ressignificando o papel dessas mulheres no mundo e com isso o papel feminino.

Ela também faz uma análise dos mitos, das lendas e dos arquétipos construídos sobre a mulher, o que serviu para reafirmar o machismo, o patriarcado e até mesmo a misoginia.

Li o livro no início do meu percurso no estudo das mulheres e além de tudo que aprendi com ele também encontrei mulheres das quais nunca tinha ouvido falar e que se tornaram importantes em meus estudos como María Zambrano.

Em Mulheres, Mitos e Deusas: O feminino através dos tempos, Martha Robles percorre uma vasta constelação de temas — as origens, as tragédias, o amor, as fadas, as rainhas, o caminho de Deus até o nosso tempo — para traçar perfis de mulheres que atravessam a história, a mitologia e a literatura. Ao fazê-lo, a autora não apenas apresenta essas figuras, mas ressignifica seus papéis, recolocando o feminino no centro de narrativas que tradicionalmente o relegaram à margem.

O livro se constrói como uma leitura crítica dos mitos, lendas e arquétipos associados às mulheres, revelando como essas construções simbólicas foram usadas para reafirmar o machismo, o patriarcado e, muitas vezes, a misoginia. Robles mostra que o mito nunca é neutro: ele educa, disciplina e naturaliza hierarquias. Ao revisitar essas narrativas, a autora desmonta imagens cristalizadas e abre espaço para interpretações que devolvem complexidade, potência e ambiguidade às figuras femininas.

Minha leitura deste livro ocorreu no início do meu percurso nos estudos sobre as mulheres, o que torna sua importância ainda maior. Além do vasto aprendizado que ele proporcionou, encontrei ali mulheres das quais nunca tinha ouvido falar e que se tornaram referências fundamentais em meus estudos posteriores, como María Zambrano. Nesse sentido, Mulheres, Mitos e Deusas não é apenas uma obra de consulta ou reflexão, mas um livro formador, capaz de abrir caminhos, despertar perguntas e inaugurar percursos intelectuais duradouros.


Martha Robles nasceu em 1948. É Socióloga e escritora mexicana. 


A REPRESSÃO DA IGREJA E A EMERGÊNCIA DO PATRIARCADO

 


AS DEUSAS, AS BRUXAS E A IGREJA

MARIA NAZARETH ALVIM DE BARROS

ROSA DOS TEMPOS – 2001

As Deusas, as Bruxas e a Igreja, de Maria Nazareth Alvim de Barros, investiga a complexa relação entre poder religioso, gênero e repressão histórica. O livro analisa como a Igreja, ao longo dos séculos, perseguiu figuras femininas que simbolizavam saberes, práticas religiosas e autonomia social, transformando mulheres em “bruxas” ou demonizando a espiritualidade feminina.

A autora traça paralelos entre cultos e mitologias antigas, nos quais deusas e mulheres possuíam posições centrais de poder e conhecimento, e a emergência de uma sociedade patriarcal sustentada por dogmas e punições religiosas. Ao estudar processos de caça às bruxas, perseguições e estigmatizações, o livro mostra como a repressão religiosa serviu para controlar a sexualidade, o saber e a liberdade das mulheres.

O livro também explora a persistência de estereótipos e a marginalização feminina na história, oferecendo uma reflexão crítica sobre os mecanismos de poder que ainda influenciam a sociedade contemporânea. É uma leitura essencial para compreender a violência simbólica e histórica contra as mulheres e o papel do patriarcado na construção da cultura ocidental.

Maria Nazareth Alvim de Barros tem formação em psicanálise e mestrado em literatura francesa. É palestrante.


SALEM ALÉM DO MITO

 

AS BRUXAS: INTRIGA, TRAIÇÃO E HISTERIA EM SALEM

STACY SCHIFF

ZAHAR – 1ª ED. – 2019

323 páginas

Em As Bruxas: Intriga, Traição e Histeria em Salem, Stacy Schiff revisita um dos episódios mais conhecidos, e ao mesmo tempo mais mal compreendidos, da história colonial norte-americana: os julgamentos das chamadas “bruxas” de Salem, ocorridos em 1692. Longe de uma narrativa folclórica ou sensacionalista, a autora constrói um relato minucioso, quase clínico, sobre como uma comunidade inteira foi capturada por um sistema de acusações, delações e punições legitimadas pelo discurso religioso, jurídico e moral.

O grande mérito do livro está em mostrar que Salem não foi um surto isolado de irracionalidade, mas o resultado de uma confluência de interesses políticos, rivalidades familiares, tensões econômicas, disputas territoriais e uma teologia profundamente misógina. A histeria coletiva não nasce do nada: ela é produzida, alimentada e organizada por instituições que se apresentam como guardiãs da ordem.

Schiff reconstrói o cotidiano da vila, os laços entre seus habitantes e o funcionamento do tribunal com uma precisão impressionante. O leitor percebe como boatos se transformam em provas, como o medo ganha estatuto jurídico e como a palavra de meninas adolescentes passa a valer mais do que qualquer evidência material, desde que confirme o que o poder já deseja ouvir. A acusação de bruxaria funciona, assim, como um dispositivo eficaz de eliminação social.

Embora o livro não seja explicitamente feminista, a leitura revela, de forma contundente, que a maioria das vítimas era composta por mulheres: mulheres que falavam demais, que herdavam terras, que não se encaixavam nos papéis esperados, que viviam à margem ou que simplesmente incomodavam. Salem expõe um mecanismo recorrente da história: quando a ordem patriarcal se sente ameaçada, ela transforma mulheres em perigo moral.

O termo “histeria”, presente no subtítulo, não é usado de forma leviana. Ele aponta para um processo de patologização do dissenso, no qual o sofrimento psíquico, a pobreza, o trauma e até a imaginação são convertidos em crime. A bruxa não é apenas a mulher que supostamente pactua com o demônio, mas aquela cuja existência foge ao controle.

A escrita de Stacy Schiff é elegante, rigorosa e acessível, sem abrir mão da complexidade histórica. Seu texto evita julgamentos anacrônicos, mas não abdica de uma posição ética clara diante da violência cometida. Ao final, Salem aparece menos como uma exceção e mais como um espelho perturbador de sociedades que preferem perseguir indivíduos a enfrentar suas próprias contradições.

As Bruxas é, portanto, uma leitura fundamental não apenas para compreender o passado, mas para reconhecer os ecos de Salem no presente: nos pânicos morais, nas campanhas de difamação, na criminalização do feminino, do diferente e do indomável. Um livro que nos lembra que a fogueira pode mudar de forma, mas raramente desaparece.


Stacy Schiff nasceu em Adams, Massachusetts, EUA, em 1961. É uma escritora estadunidense. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A RELAÇÃO ENTRE DOMINAÇÃO DA NATUREZA E DAS MULHERES


 

ECOFEMINISMOS

VANDANA SHIVA – MARIA MIES

LUAS EDITORA – 2021

504 páginas


Ecofeminismos é uma obra central do pensamento crítico contemporâneo, escrita por Vandana Shiva e Maria Mies, que articula feminismo, ecologia, economia política e crítica ao capitalismo global. O livro parte da constatação de que a exploração da natureza e a opressão das mulheres não são processos distintos, mas historicamente conectados e sustentados pela mesma lógica patriarcal, colonial e capitalista.

As autoras demonstram como o modelo de desenvolvimento moderno, apresentado como universal e progressista, se baseia na expropriação dos recursos naturais, no apagamento dos saberes tradicionais e na desvalorização do trabalho feminino, especialmente o trabalho de cuidado e de subsistência. A racionalidade econômica dominante transforma tanto a natureza quanto as mulheres em “recursos” exploráveis, invisibilizando os custos sociais, ambientais e humanos desse sistema. Nesse sentido, o livro desmonta a ideia de neutralidade da ciência moderna e da economia, revelando seu caráter profundamente masculinizado e eurocêntrico.

Um eixo fundamental da obra é a crítica à divisão entre produção e reprodução. Mies e Shiva argumentam que o capitalismo só se sustenta porque depende de esferas que ele não reconhece como produtivas: o trabalho doméstico, o cuidado, a agricultura de subsistência e os ciclos naturais. Ao serem considerados “naturais” ou “gratuitos”, esses campos tornam-se passíveis de exploração ilimitada. O ecofeminismo surge, então, não como um essencialismo que associa mulheres à natureza, mas como uma crítica política a essa associação imposta historicamente para justificar dominação.

O livro também apresenta experiências concretas de resistência, sobretudo no Sul Global, onde mulheres desempenham papel central na defesa da terra, da água, das sementes e da vida comunitária. Essas práticas apontam para outras formas de organização social e econômica, baseadas na interdependência, na sustentabilidade e na valorização dos saberes locais. Para as autoras, o ecofeminismo não é apenas uma teoria, mas um projeto ético e político que propõe uma transformação radical da relação entre humanidade, natureza e economia.

Ecofeminismos é uma leitura densa, mas fundamental, que amplia o feminismo para além da questão de gênero, inserindo-o no centro das crises ecológica, social e civilizatória contemporâneas. É um livro que convida à revisão profunda das noções de progresso, desenvolvimento e poder, mostrando que não há justiça social sem justiça ambiental — e que ambas passam, necessariamente, pela libertação das mulheres.


Vandana Shiva nasceu em Dehra Dun, Uttar Pradesh (atual Uttarakhand), Índia, em 1952. É uma filósofa, física, ecofeminista e ativista ambiental indiana.

Maria Mies nasceu em Steffein, Alemanha, em 1931 e faleceu em 2023. Foi uma socióloga alemã. 


 


TRABALHO, CORPO E DISCIPLINAMENTO DAS MULHERES


 

MULHERES E CAÇA ÀS BRUXAS

SILVIA FEDERICI

BOITEMPO – 1ª ED. – 2019

160 páginas


Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici, é uma leitura que provoca raiva e indignação, não em relação à autora, mas ao processo histórico que ela expõe com clareza e contundência. O livro desmonta a ideia, ainda muito difundida, de que a caça às bruxas pertence à Idade Média, mostrando que ela se intensifica, na verdade, no início da Idade Moderna, em estreita relação com a formação do capitalismo e com as transformações impostas pela Revolução Industrial.

Federici inicia sua análise pelo cercamento das terras comunais na Inglaterra. Durante séculos, populações pobres cultivaram essas terras de forma coletiva, garantindo sua subsistência. Com os cercamentos, esse direito foi abruptamente retirado. As fábricas precisavam de mão de obra, e os homens foram forçados a migrar para o trabalho industrial. As mulheres, porém, reagiram. Arrancavam cercas, continuavam a plantar e mantinham práticas comunitárias baseadas no respeito à natureza e no apoio mútuo. Essa resistência feminina tornou-se um obstáculo direto ao novo modelo econômico que se pretendia impor.

O livro mostra como essa autonomia feminina precisava ser destruída. Federici dedica um capítulo especialmente revelador ao termo gossip, hoje traduzido como fofoca, mas que originalmente designava a amizade entre mulheres, a sororidade, a rede de apoio feminino. Esse sentido foi deliberadamente deturpado para deslegitimar os vínculos entre mulheres e promover sua fragmentação. Mulheres que eram independentes, que se reuniam, conversavam, bebiam juntas nas tavernas, representavam uma ameaça. Temia-se também sua sexualidade e seu poder de sedução, vistos como forças capazes de desestabilizar a ordem masculina. A solução encontrada foi brutal: acusá-las de bruxaria, levá-las à fogueira, instaurar o terror como forma de disciplinamento social. O objetivo era claro: empurrar as mulheres de volta para o espaço doméstico, fazê-las procriar mão de obra e garantir a reprodução cotidiana do trabalhador, fornecendo comida, cuidado e roupas.

O mais perturbador, contudo, é perceber que esse processo não pertence apenas ao passado. Federici demonstra que a caça às bruxas continua existindo em diversos lugares do mundo, especialmente na Índia e em países da África. Na Índia, as acusações estão frequentemente ligadas à questão do dote; na África, à disputa por terras. As principais vítimas são mulheres idosas que ainda detêm pequenos pedaços de terra e mantêm práticas agrícolas baseadas em conhecimentos ancestrais. São perseguidas e assassinadas, muitas vezes por jovens interessados em se apropriar dessas terras. Em Gana, existe inclusive um “campo de bruxas”, para onde mulheres fogem em busca de alguma forma precária de proteção. O silêncio e a escassa reação diante dessas violências tornam tudo ainda mais revoltante. É daí que nasce a raiva e a indignação que o livro provoca — sentimentos que não paralisam, mas exigem reflexão, denúncia e posicionamento.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


QUANDO A ACUMULAÇÃO PASSA PELO CORPO DAS MULHERES


 

CALIBÃ E A BRUXA – MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO

SILVIA FEDERICI

ELEFANTE – 2ª ED. – 2023

480 páginas


Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici propõe uma releitura radical da origem do capitalismo. Em vez de partir apenas das transformações econômicas ou do surgimento da indústria, a autora retorna ao período feudal, às lutas camponesas contra os senhores e às formas coletivas de vida que foram sistematicamente destruídas para que o capitalismo pudesse nascer. Essa perspectiva já desmonta um mito persistente: o de um campesinato servil, passivo e resignado. Ao contrário, havia resistência, e as mulheres ocupavam um lugar central nela.

A análise atravessa a Peste Negra, que dizimou cerca de um terço da população europeia, e chega ao início da acumulação capitalista. A escassez de mão de obra, agravada pela peste, revela um ponto decisivo: as mulheres, diante da miséria, controlavam o número de filhos. Esse controle do próprio corpo entra em choque direto com as necessidades do capital nascente, que precisava urgentemente de trabalhadores.

Na primeira fase da industrialização, mulheres e crianças são exploradas brutalmente, submetidas a jornadas de até 14 horas diárias nas fábricas. Quando essa exploração passa a ser restringida, não se trata de um gesto humanitário, mas de uma reconfiguração estratégica: surge então a ideologia da mulher do lar, destinada a parir futuros trabalhadores e a cuidar gratuitamente daqueles que já produzem. O trabalho feminino, antes múltiplo e socialmente integrado — nas guildas, nos campos, nas práticas comunitárias — é progressivamente deslegitimado.

É também o período dos cercamentos: a expropriação das terras comuns, transformadas em propriedade privada. Ao perderem o acesso à terra, os camponeses perdem sua subsistência. Nem todos aceitam o destino fabril, e cresce o número de mendigos, errantes e marginalizados. As mulheres, sobretudo viúvas, idosas e aquelas sem marido, são as mais vulneráveis. Sem meios de sobrevivência, tornam-se alvos fáceis da repressão.

É nesse contexto que a figura da bruxa ganha centralidade. Não por acaso, sua caricatura é a da mulher velha. Para domesticar as mulheres e quebrar sua autonomia, o terror torna-se política. Embora a Inquisição já existisse na Idade Média, é na Idade Moderna que a caça às bruxas atinge seu auge, e são as mulheres suas principais vítimas. Curandeiras e parteiras competiam com médicos homens; mulheres detinham saberes sobre contracepção e cuidados com o corpo; e, sobretudo, resistiam à expropriação de suas vidas e de seu trabalho.

Queimar mulheres nas fogueiras não foi um delírio religioso isolado, mas uma estratégia de disciplinamento social. Era preciso instaurar o medo para que elas abandonassem a luta, aceitassem o confinamento doméstico, o trabalho não remunerado e a função reprodutiva como destino natural. A violência extrema produziu obediência e lucros.

Federici demonstra que o capitalismo não se construiu apenas sobre a exploração do trabalho assalariado, mas também sobre a desvalorização sistemática do trabalho doméstico feminino, apresentado até hoje como expressão da “natureza” da mulher. Ao transformar cuidado, maternidade e trabalho do lar em obrigações invisíveis e gratuitas, o sistema garante sua própria reprodução.

Calibã e a Bruxa é um livro fundamental porque revela aquilo que a história oficial tentou apagar: o capitalismo nasceu da violência contra os corpos femininos, da destruição das formas comunitárias de vida e da separação radical entre produção e reprodução. Ler Federici é compreender que nada disso pertence apenas ao passado, e que o que hoje se chama “natural” é, na verdade, o resultado de uma longa história de terror, expropriação e silenciamento.

No entanto, faço uma crítica: o estudo concentra-se na Europa no mesmo período da escravização, o que não é abordado. Outro ponto é que a idealização da maternidade e do confinamento da mulher ao lar é exclusivo de mulheres da burguesia; as pobres continuaram a trabalhar nas fábricas.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


O COTIDIANO COMO ESPAÇO DA VIOLÊNCIA RACIAL


 

MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO: Episódios de racismo cotidiano

GRADA KILOMBA

COBOGÓ – 1ª ED. – 2019

249 páginas

Grada Kilomba nasceu em Lisboa e realizou seu doutorado em Berlim. Memórias da Plantação é fruto direto dessa pesquisa acadêmica, mas está longe de se limitar a um texto universitário: trata-se de uma obra que articula teoria, experiência, escuta e denúncia, rompendo com as formas tradicionais de produção do conhecimento.

Logo no início, Kilomba relata os inúmeros obstáculos enfrentados ao chegar à Alemanha para se inscrever no doutorado. Os entraves burocráticos, as exigências excessivas e os constrangimentos sucessivos não aparecem como coincidências, mas como estratégias veladas de exclusão. Ela era a única mulher negra de sua turma — na verdade, a única pessoa negra — e essa solidão racial atravessa toda a narrativa.

Para desenvolver sua pesquisa, Kilomba entrevista mulheres negras, e o livro se estrutura sobretudo a partir do relato de duas delas. São histórias de racismo cotidiano, marcado não por grandes explosões de violência explícita, mas por gestos, palavras, silêncios e “normalidades” que tentam se apresentar como inofensivas. Justamente por isso, são tão devastadoras.

Uma das entrevistadas tem mãe branca, que frequentemente ameniza ou relativiza os episódios de racismo vividos pela filha. Esse ponto é crucial: o apagamento da violência, quando vem de quem deveria proteger, aprofunda o trauma. Aos poucos, o livro revela como essas experiências repetidas produzem marcas psíquicas profundas, ainda que socialmente desautorizadas como sofrimento legítimo.

O trecho em que Kilomba aborda diretamente o trauma é um dos pontos mais fortes da obra. A conscientização de ser negra em uma sociedade estruturada pela branquitude aparece como um processo doloroso, mas também político. Kilomba desmonta a suposta normalidade do racismo e explicita como ele se reproduz justamente por não ser nomeado.

Nesse movimento, ela também dirige uma crítica incisiva ao feminismo ocidental, que frequentemente se mostra incapaz de lidar com o racismo de forma estrutural. O livro evidencia como o racismo é genderizado e como mulheres negras são sistematicamente excluídas das narrativas feministas hegemônicas, mesmo quando o discurso é de igualdade.

Um dos aportes teóricos mais importantes do livro é a análise do processo de descolonização do sujeito branco racista, articulado por meio dos mecanismos do ego. Kilomba descreve uma sequência recorrente: primeiro, a negação (“não somos racistas”); depois, a culpa, que tenta justificar ou suavizar o racismo; em seguida, a vergonha, marcada pelo olhar do outro; o reconhecimento da própria branquitude e do racismo estrutural; e, finalmente, a reparação — entendida não como gesto simbólico, mas como compromisso ativo com a transformação.

Memórias da Plantação é um livro necessário, perturbador e profundamente político. Ele nos obriga a abandonar o conforto da neutralidade e a reconhecer que o racismo não é um desvio da norma: ele é a própria norma, enquanto não for enfrentado.


Grada Kilomba nasceu em Lisboa, Portugal, em 1968. É psicóloga, teórica e artista interdisciplinar. 


QUANDO OUTRAS LÍNGUAS DO FEMININO SE IMPÕEM AO OLHAR OCIDENTAL

 


A OUTRA LÍNGUA DAS MULHERES

LÉONORA MIANO

PALLAS – 1ª ED. - 2024

184 páginas

Uma das melhores leituras de 2024, só perde para A mais recôndita memória dos homens.

Léonora Miano nasceu em Douala, nos Camarões. Escritora amplamente reconhecida, vencedora de diversos prêmios literários, ela nos apresenta aqui um ensaio fundamental sobre as mulheres africanas.

Aprendi muito com este livro. Nós, ocidentais, temos grande dificuldade em compreender as culturas africanas e, infelizmente, há uma tendência persistente de projetar o olhar ocidental sobre as questões das mulheres do continente africano. Miano nos desloca desse lugar confortável e equivocado: ela nos aproxima da realidade dessas mulheres e mostra como o feminismo ocidental, tal como foi formulado, muitas vezes não responde às suas experiências.

A autora evidencia que as mulheres africanas não se colocam no lugar da vitimização, embora tenham sofrido, e ainda sofram, inúmeras violências. São mulheres fortes, guerreiras, que constroem e acionam suas próprias ferramentas para lidar com as adversidades. Ao longo do ensaio, Miano apresenta também figuras centrais da história africana: rainhas, líderes, mulheres poderosas e guerreiras.

Ela defende que as mulheres negras invistam, ou melhor, reinvistam, em sua própria história, recuperando referências femininas que possam servir como modelos de luta, resistência e libertação frente às opressões.

Valeu cada página deste pequeno livro tão grande.

          Léonora Miano nasceu em Duala, Camarões, em 1973. É uma escritora franco-camaronesa. 




DESCOLONIZAR O FEMINISMO E A PRÓPRIA IDEIA DE MULHER

 


A INVENÇÃO DAS MULHERES

Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero

OYÈRÓNKẸ́ OYĚWÙMÍ

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2021

324 páginas

Neste livro fundamental, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí parte de uma constatação decisiva: ao iniciar uma pesquisa na Nigéria com o povo iorubá, percebeu rapidamente que não poderia utilizar a categoria “gênero” como ferramenta analítica. Aquilo que no pensamento ocidental aparece como evidente — a organização social a partir da diferença sexual — simplesmente não operava da mesma forma naquela sociedade antes da colonização europeia.

Oyěwùmí demonstra, de maneira consistente, que o gênero não organizava a sociedade iorubá pré-colonial. As hierarquias sociais não se estruturavam a partir do sexo biológico, mas de critérios como senioridade, linhagem, ancestralidade e posição relacional. A categoria “mulher”, tal como formulada no Ocidente moderno, não existia como eixo estruturante da vida social. Trata-se, segundo a autora, de uma imposição colonial que traduz violentamente uma ordem social que não era generificada.

Ao projetar o gênero como categoria universal, o olhar europeu não apenas interpreta mal a sociedade iorubá, mas ele a recria segundo seus próprios esquemas epistemológicos e esse gesto não é neutro. Ele reorganiza a experiência social, redefine papéis, institui hierarquias e, sobretudo, produz subordinação onde antes ela não existia da mesma forma.

O papel social das mulheres na sociedade iorubá era central, mas fundamentado em outros princípios. A maternidade, por exemplo, tinha grande relevância simbólica e social, mas não era compreendida nos termos ocidentais modernos: idealizados, essencializados e biologizados. Não se tratava de reduzir a mulher ao corpo ou à função reprodutiva, mas de situá-la em uma rede de relações ancoradas na ancestralidade e na continuidade da comunidade.

A crítica de Oyěwùmí ao pensamento ocidental é direta e profunda. Ao desmontar a lógica biológica e binária que sustenta a noção moderna de gênero, ela demonstra que existem outras formas de sociabilidade, outras racionalidades e outras maneiras de organizar o mundo que não se baseiam no corpo como destino social.

A leitura deste livro foi decisiva para responder a uma pergunta que atravessa meus estudos sobre as mulheres: a categoria gênero é universal? A resposta é clara — não, não é. O gênero pode ser uma ferramenta analítica potente em sociedades ocidentais patriarcais, onde ele é construído socialmente como mecanismo de subordinação feminina. Mas não pode ser aplicado indiscriminadamente a todas as culturas sem produzir distorções profundas.

Esse também não é o caso quando se estudam, por exemplo, as mulheres do Império Cuxe. A invenção das mulheres nos obriga, assim, a repensar não apenas a história das mulheres, mas os próprios fundamentos teóricos a partir dos quais essa história tem sido escrita. Trata-se de um livro que descoloniza o pensamento e, ao fazê-lo, nos desestabiliza de maneira necessária.


Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí nasceu na Nigéria em 1957. É uma pesquisadora oxunista nigeriana e professora. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COMPREENDER O RACISMO ESTRUTURAL


 

RACISMO BRASILEIRO: UMA HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DO PAÍS

YNAÊ LOPES DOS SANTOS

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

336 páginas

Racismo brasileiro: uma história da formação do país, de Ynaê Lopes dos Santos, conduz o leitor por um amplo e rigoroso percurso da história do racismo no Brasil, iniciando muito antes da invasão portuguesa e estendido até os dias atuais. A autora demonstra que o racismo não é um desvio pontual ou uma herança mal resolvida, mas um elemento estruturante da formação política, social e econômica do país.

O livro percorre o processo de escravização, a organização do sistema colonial, a chamada abolição e o destino das pessoas negras que, embora formalmente libertas, jamais foram incluídas na sociedade como cidadãs plenas. Ynaê evidencia como a ausência de políticas de integração após a abolição não foi um erro, mas um projeto, responsável por manter desigualdades profundas e persistentes. Nesse contexto, a autora analisa o ideal de embranquecimento e o papel do racismo científico, mostrando como essas teorias foram mobilizadas para justificar hierarquias raciais e orientar políticas de Estado.

Ao avançar no tempo, o livro revela as permanências dessas estruturas racistas no Brasil contemporâneo, conectando passado e presente de forma clara e contundente. A análise alcança acontecimentos recentes, como o assassinato de Marielle Franco, evidenciando como a violência racial segue operando no centro da vida política do país. Longe de oferecer uma narrativa linear ou conciliadora, Ynaê Lopes dos Santos constrói um texto que exige enfrentamento histórico e político.

Racismo brasileiro é uma leitura imprescindível para quem deseja compreender o país para além dos mitos da cordialidade e da democracia racial. Ao explicitar as raízes históricas do racismo estrutural, o livro fornece ferramentas fundamentais para entender o Brasil e suas desigualdades, tornando-se uma obra essencial para a reflexão crítica sobre nossa história e nosso presente.


Ynaê Lopes dos Santos nasceu em São Paulo em 1982. É historiadora e escritora.