quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O ARQUÉTIPO DA MULHER SELVAGEM

 

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.

CLARISSA PINKOLA ESTÉS

ROCCO – 1ª ED. – 1994

628 páginas

Em Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, Clarissa Pinkola Estés, constrói uma obra que atravessa psicologia, mitologia, folclore e espiritualidade para pensar o feminino a partir de uma dimensão arcaica, instintiva e simbólica. O livro propõe a recuperação daquilo que a autora chama de “mulher selvagem”, entendida não como figura primitiva ou desordenada, mas como fonte profunda de saber, intuição, criatividade e força vital.

A partir de mitos e contos tradicionais de diferentes culturas, Estés interpreta narrativas ancestrais como mapas psíquicos. Cada história funciona como um espelho simbólico das experiências femininas: perda, iniciação, ferida, silêncio, retorno e transformação. O lobo surge como metáfora central desse feminino instintivo: um ser que conhece os ciclos da vida, que vive em relação com o território, que sabe quando avançar e quando recolher-se. Correr com os lobos, nesse sentido, não é romper com a cultura, mas reconectar-se a um saber soterrado por séculos de repressão, moralização e domesticação do corpo e do desejo femininos.

O livro dialoga fortemente com a psicanálise junguiana, sobretudo com a noção de arquétipo, e propõe uma escuta atenta dos símbolos como linguagem da alma. No entanto, sua força não está apenas na teoria, mas na maneira como convoca a leitora a um processo de reconhecimento de si. Ao nomear feridas coletivas — como o silenciamento, a culpa, a perda da autonomia e o medo da própria potência —, Estés oferece imagens que auxiliam na reconstrução subjetiva e no resgate da integridade psíquica.

Ao mesmo tempo, Mulheres que correm com os lobos pode ser lido criticamente. Seu universalismo simbólico, ao falar de um arquétipo feminino comum, corre o risco de apagar diferenças históricas, culturais e materiais que atravessam as experiências das mulheres. Ainda assim, o livro permanece relevante como uma obra de escuta e cuidado, sobretudo em um mundo que continua exigindo das mulheres adaptação, docilidade e produtividade em detrimento da vitalidade e do desejo.

Mais do que um manual de autoajuda, o livro se apresenta como um percurso iniciático. Ele não promete respostas rápidas nem soluções fáceis, mas oferece narrativas que acompanham processos longos, dolorosos e, muitas vezes, solitários. Ler Clarissa Pinkola Estés é aceitar o convite para descer às camadas profundas da psique, reconhecer perdas e resgatar forças esquecidas. É um livro que fala de cura, mas não de uma cura pacificada: trata-se de uma cura que passa pelo enfrentamento, pela memória e pela reconciliação com aquilo que foi expulso da cultura dominante.


Clarissa Pinkola Estés nasceu em Gary, Indiana, EUA, em 1945. É uma psicóloga Junguiana


DO SUJEITO DISCIPLINAR AO SUJEITO DO DESEMPENHO

 

SOCIEDADE DO CANSAÇO

BYUNG-CHUL HAN

VOZES NOBILIS – 1ª ED. – 2024

128 páginas

Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han propõe uma leitura contundente das formas contemporâneas de dominação, deslocando o foco da repressão externa para a exploração internalizada. Já não vivemos, segundo o autor, sob o paradigma da disciplina, da proibição ou da negatividade, mas sob um regime de excesso: excesso de estímulos, de desempenho, de positividade e de exigência de produtividade.

Han descreve uma sociedade que não precisa mais impor limites pela força, porque os sujeitos passaram a se autoexplorar. O imperativo do “poder tudo” substitui o “não pode”, transformando a liberdade em um dispositivo de controle. O sujeito do desempenho acredita agir por vontade própria, quando na verdade está inteiramente capturado por uma lógica que exige eficiência permanente, flexibilidade absoluta e disponibilidade contínua. O resultado não é a emancipação, mas o esgotamento.

A partir desse diagnóstico, o autor relaciona o aumento de patologias psíquicas — como depressão, burnout e transtornos de ansiedade — a esse modelo social. O cansaço que marca nossa época não é apenas físico, mas existencial. Trata-se de um cansaço que corrói o desejo, empobrece a experiência e elimina o espaço da contemplação, do ócio e da negatividade, elementos fundamentais para qualquer forma de pensamento crítico.

Um dos pontos centrais do livro é a crítica à positividade compulsória. Ao eliminar o conflito, a alteridade e o limite, a sociedade do desempenho produz sujeitos isolados, incapazes de estabelecer relações verdadeiramente políticas. Tudo se torna projeto individual, inclusive o fracasso. A responsabilidade pelo esgotamento é deslocada do sistema para o indivíduo, que passa a se perceber como insuficiente, nunca produtivo o bastante.

Embora o livro seja breve, sua força está na capacidade de nomear sensações difusas do presente. O cansaço generalizado, a sensação de inadequação permanente e a dificuldade de sustentar a atenção encontram aqui uma interpretação filosófica que revela suas raízes estruturais. Ao mesmo tempo, a leitura suscita questões importantes: até que ponto esse diagnóstico não corre o risco de universalizar uma experiência que é atravessada por desigualdades de classe, gênero e raça? Quem pode, de fato, adoecer de cansaço em uma sociedade marcada por precariedade extrema?

Sociedade do Cansaço não oferece soluções fáceis. Sua contribuição está menos em indicar saídas e mais em interromper a naturalização do esgotamento como destino individual. Ao revelar a violência silenciosa da positividade e da autoexploração, Han nos convida a repensar o valor do limite, da pausa e da recusa, gestos cada vez mais raros, mas talvez indispensáveis, em um mundo que não sabe mais descansar.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coreia do Sul, em 1959. É um filósofo e ensaista sul-coreano. 


A MORTE COMO POLÍTICA

 


NECROPOLÍTICA

ACHILLE MBEMBE

N-1 EDIÇÕES – 1ª ED. – 2018

80 páginas

Em Necropolítica, Achille Mbembe, propõe um deslocamento radical da reflexão política contemporânea ao perguntar não apenas quem governa, mas quem tem o poder de decidir sobre a vida e, sobretudo, sobre a morte. Partindo e tensionando o conceito de biopolítica, Mbembe mostra que, em muitos contextos, o exercício do poder se manifesta principalmente como a capacidade de expor populações inteiras à morte, ao abandono e à violência contínua.

O autor localiza as origens da necropolítica na experiência colonial e escravista, entendendo o colonialismo como um laboratório de técnicas de dominação extrema. Nas colônias, o direito não protegia a vida, mas organizava a morte; certos corpos eram desde sempre matáveis, descartáveis, reduzidos a uma existência precária. A modernidade política, frequentemente celebrada como espaço de direitos e cidadania, revela assim seu lado mais sombrio, sustentado por regimes de exceção permanentes aplicados a populações racializadas.

Mbembe amplia essa análise ao observar como essas lógicas se atualizam no presente. Estados, milícias, forças paramilitares e até estruturas econômicas exercem poder necropolítico ao controlar territórios, corpos e mobilidades, criando zonas onde a vida é suspensa. Campos de refugiados, favelas, prisões, fronteiras militarizadas e territórios ocupados tornam-se espaços onde a morte não é um acidente, mas uma possibilidade sempre iminente, administrada politicamente.

Um dos aspectos mais perturbadores do livro é a articulação entre soberania, violência e racismo. A raça aparece como um operador central da necropolítica, definindo quais vidas merecem luto e proteção e quais podem ser eliminadas sem escândalo. Nesse sentido, Mbembe mostra que o racismo não é um desvio do sistema democrático, mas um de seus mecanismos constitutivos, sobretudo quando articulado à lógica colonial e capitalista.

Necropolítica exige uma leitura atenta e desconfortável. Não se trata de um texto introdutório ou conciliador, mas de uma intervenção teórica que obriga o leitor a confrontar a violência estrutural que sustenta o mundo contemporâneo. Em contextos como o brasileiro, marcados por genocídio da população negra, encarceramento em massa e militarização dos territórios pobres, o conceito de necropolítica revela sua potência explicativa e sua urgência ética.

O livro não oferece respostas fáceis nem caminhos de redenção. Sua força está em nomear o indizível, em tornar visível aquilo que o discurso político dominante tenta naturalizar ou ocultar. Ler Mbembe é reconhecer que, para muitos, a morte não é exceção, mas condição permanente, e que qualquer projeto político verdadeiramente emancipatório precisa começar por esse reconhecimento.


Achille Mbembe nasceu em Centro, Camarões, em 1957. É um filósofo, cientista político, historiador e professor camaronês. 


BOAS BRUXAS E SABERES FEMININOS

 

MULHERES DE MINHA ALMA

ISABEL ALLENDE

BERTRAND BRASIL – 1ª ED. - 2020

238 páginas

Em Mulheres de Minha Alma, Isabel Allende fala de sua própria vida a partir de um viés assumidamente feminista, mas também profundamente feminino. O livro não se organiza como um manifesto teórico, e sim como um relato atravessado por memória, afeto e experiência, no qual o feminismo surge como prática cotidiana antes mesmo de ganhar nome. Allende relata como, desde muito jovem, recusou a submissão das mulheres ao seu redor, especialmente a vivida por sua mãe, que, após a anulação do casamento, em um período em que o divórcio ainda não era permitido, permaneceu dependente do pai e dos irmãos, e posteriormente de um segundo marido.

A autora constrói uma crítica direta ao patriarcado, ao catolicismo conservador e ao machismo estrutural, refletindo sobre como essas forças moldaram não apenas sua trajetória pessoal, mas a vida de gerações de mulheres. Ao mesmo tempo, Allende insiste na ideia de transformação gradual: mudanças são possíveis, desde que não se abandone a luta. Há aqui uma clara aproximação com as gerações mais jovens, convocadas a dar continuidade a esse processo, especialmente diante do risco constante de perda de direitos já conquistados.

O livro também é atravessado pelas mulheres que marcaram sua vida — amigas, ancestrais, companheiras de caminhada — e pela presença simbólica das chamadas “boas bruxas”, figuras femininas associadas ao cuidado, à intuição, à liberdade e à transmissão de saberes. O amor, em suas múltiplas formas, aparece como força vital, não romântica no sentido ingênuo, mas como energia de vínculo, resistência e criação.

Mulheres de Minha Alma é, assim, um livro de afirmação e de alerta. Afirma a potência das mulheres e de suas histórias, e alerta para a fragilidade das conquistas quando a vigilância cede lugar ao conformismo. Um texto íntimo e político, no qual Isabel Allende transforma sua experiência pessoal em convite à escuta, à continuidade e à ação.


Isabel Allende nasceu em Lima, Peru, em 1942. É uma escritora chilena. 


A OPRESSÃO E AS HUMILHAÇÕES AOS PALESTINOS

 


VIAGEM À PALESTINA: PRISÃO A CÉU ABERTO

ADRIANA MABILIA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2013

224 páginas

Viagem à Palestina: Prisão a Céu Aberto, de Adriana Mabilia, aprofunda a compreensão sobre o complexo conflito entre Israel e Palestina, mostrando que, embora ambos os lados tenham suas reivindicações e dores, a pressão psicológica e as humilhações impostas aos palestinos para que abandonem suas casas e terras é terrível e desumana. A ideia de que os israelenses teriam direito à terra devido a seus antepassados é questionada: nenhum país pode reivindicar território apenas pelo fato de ancestrais terem vivido ali. Judeus, palestinos e árabes têm raízes na região, mas o tratado que criou o Estado de Israel não foi respeitado, e a disputa permanece marcada por injustiças históricas.

O foco do livro está na vida das mulheres palestinas, mostrando como elas enfrentam e resistem às condições de guerra, à falta de liberdade de locomoção, à perda de maridos e filhos, e aos bombardeios, como os realizados em Gaza. Mesmo diante da destruição, a criatividade e a resiliência dessas mulheres se destacam. Um exemplo marcante citado por Mabilia é o de duas engenheiras palestinas que, diante da proibição israelense de levar materiais de construção para reconstruir casas, criaram tijolos a partir dos escombros e das cinzas, demonstrando inteligência, amor e capacidade de resistência diante da opressão.

O livro nos convida a refletir sobre o impacto humano do conflito e sobre a força das mulheres em meio a situações extremas, ressaltando como a resistência, a criatividade e a solidariedade se tornam ferramentas essenciais para sobreviver e reconstruir vidas.

Este livro foi escrito muito antes do que está ocorrendo atualmente: a destruição e extermínio do povo em Gaza.


Adriana Mabilia é uma jornalista brasileira e editora internacional, especialista em assuntos do “Oriente Médio”. 


FILOSOFIA PARA ALÉM DO OCIDENTE


 

FILOSOFIAS AFRICANAS: UMA INTRODUÇÃO

NEI LOPES – LUIZ ANTONIO SIMAS

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 14ª ED. – 2020

144 páginas

Em Filosofias africanas: uma introdução, Nei Lopes e Luiz Antonio Simas enfrentam uma das afirmações mais naturalizadas do pensamento ocidental: a ideia de que a filosofia teria nascido exclusivamente na Grécia e que, desde então, seria um patrimônio essencialmente europeu e ocidental. O livro parte justamente da suspeita diante dessa narrativa, e a suspeita se revela mais do que justificada.

A pergunta que atravessa toda a obra é simples e profundamente política: se a filosofia é o exercício do pensamento crítico sobre o mundo, por que tantas tradições filosóficas foram apagadas da história oficial? O que se convencionou chamar de “origem” da filosofia parece menos um fato incontestável e mais o resultado de um longo processo de exclusão, silenciamento e epistemicídio.

Os autores mostram como o cânone filosófico foi construído a partir de critérios racializados, eurocêntricos e masculinos. A filosofia ensinada nas universidades permanece majoritariamente restrita a homens brancos europeus e, em menor medida, norte-americanos. Mesmo as mulheres foram sistematicamente apagadas dessa história, com raríssimas exceções, como a recorrente presença de Hannah Arendt, que acaba funcionando quase como álibi para a exclusão das demais.

O livro começa pelo Egito antigo, afirmando algo que ainda causa desconforto: o Egito é africano. E mais: filósofos gregos como Platão e Aristóteles dialogaram com saberes egípcios, africanos, orientais. Santo Agostinho, um dos pilares do pensamento cristão ocidental, era africano. No entanto, a narrativa dominante tratou de embranquecer essas heranças, deslocando-as de seus contextos históricos e geográficos.

Um ponto central da crítica apresentada por Lopes e Simas é a desqualificação das tradições orais. O Ocidente estabeleceu a escrita como critério de racionalidade e objetividade, ignorando que o próprio Sócrates — figura fundadora da filosofia grega — nada escreveu. Ainda assim, filosofias transmitidas oralmente foram classificadas como “primitivas”, “míticas” ou “pré-racionais”, enquanto o pensamento europeu era elevado à condição de universal.

Essa hierarquização dos saberes não pertence apenas ao passado. Ela continua operando nos currículos acadêmicos, nas bibliografias e na forma como se define o que é ou não filosofia. África, Índia, China, América Latina e “Oriente” seguem sendo tratados como margens do pensamento, quando, na verdade, possuem tradições filosóficas milenares, complexas e profundamente reflexivas.

O livro não pretende oferecer uma história total das filosofias africanas, e nem poderia, dado seu caráter introdutório. Seu mérito está em abrir fendas no discurso hegemônico, em deslocar certezas e em devolver dignidade filosófica a saberes que foram historicamente inferiorizados. Trata-se menos de substituir um cânone por outro e mais de questionar a própria ideia de cânone como dispositivo de poder.

Filosofias africanas: uma introdução é um livro pequeno em extensão, mas potente em implicações. Ele nos obriga a reconhecer que a filosofia não nasceu na Grécia, não pertence ao Ocidente e não é monopólio dos homens. Pensar filosoficamente é uma capacidade humana plural, situada e histórica. Descolonizar a filosofia é, antes de tudo, descolonizar nossas próprias mentes.


Nei Lopes nasceu em Irajá, Rio de Janeiro, em 1942. É um compositor, cantor e estudioso das culturas africanas.

Luiz Antonio Simas nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. É professor, historiador e compositor. 


 


TIAMAT E O APAGAMENTO DO FEMININO

 

ENUMA ELISH: O POEMA MESOPOTÂMICO DA CRIAÇÃO

Tradução: Sueli Maria de Regino

EBOOK – 1ª ED. – 2019

64 páginas

Em Enuma Elish: o poema mesopotâmico da criação, encontramos não apenas um mito cosmogônico, mas um texto profundamente político, que narra a origem do mundo ao mesmo tempo em que legitima uma nova ordem de poder. Diferente de mitologias centradas na geração da vida como processo relacional, o Enuma Elish funda o cosmos a partir da violência, do conflito e da vitória de um deus masculino sobre uma potência feminina primordial.

A narrativa apresenta Tiamat, divindade associada às águas caóticas e à matriz originária da vida, como ameaça que precisa ser eliminada. Sua derrota por Marduk não é apenas um episódio mítico, mas um gesto fundador: o mundo nasce do esquartejamento do corpo feminino, reorganizado segundo uma lógica hierárquica, centralizada e soberana. A criação, aqui, não é gestação nem continuidade, mas dominação e controle.

O poema reflete e legitima a transição histórica para sociedades estatais e patriarcais na Mesopotâmia. Ao elevar Marduk à condição de deus supremo, o Enuma Elish consagra uma estrutura de poder vertical, militarizada e masculina, na qual a ordem só se estabelece mediante a supressão do feminino caótico. O mito funciona, assim, como narrativa de fundação do Estado, da soberania e da autoridade central, naturalizando a violência como princípio organizador do mundo.

Há, nesse sentido, uma ruptura simbólica fundamental em relação a mitologias mais antigas, nas quais o feminino aparece como fonte da vida, da fertilidade e da continuidade cósmica. No Enuma Elish, o feminino deixa de ser potência criadora e passa a ser ameaça a ser vencida. Essa inversão não é apenas teológica, mas profundamente política e cultural, marcando o início de um imaginário que associa ordem à masculinidade e caos à feminilidade.

A leitura do poema hoje permite reconhecer como certos fundamentos do pensamento ocidental — a separação violenta entre natureza e cultura, a legitimação da guerra, a hierarquização dos corpos — encontram raízes antigas. O mito não explica apenas como o mundo foi criado, mas como uma determinada forma de poder passou a se apresentar como inevitável e sagrada.

Ler o Enuma Elish é confrontar o nascimento simbólico de uma civilização fundada na vitória, na exclusão e no silenciamento do princípio feminino. É perceber que a história da criação também é uma história de apagamentos — e que compreender esses mitos é essencial para questionar as estruturas que ainda hoje organizam nossas formas de pensar o mundo, o poder e o sagrado.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TESTEMUNHAR A CATÁSTROFE

 

HAITI, DEPOIS DO INFERNO: MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER NO MAIOR TERREMOTO DO SÉCULO

RODRIGO ALVAREZ

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2010

120 páginas

Em Haiti, depois do inferno: memórias de um repórter no maior terremoto do século, o jornalista Rodrigo N. Alvarez constrói um relato marcado pela experiência direta do horror. O livro nasce do que foi visto, vivido e sentido durante o terremoto de 2010, que atingiu de forma devastadora o Haiti, especialmente a capital Porto Príncipe, deixando milhares de mortos, feridos e desabrigados, em um cenário de escassez extrema de água, comida e socorro imediato.

A narrativa é atravessada por imagens de destruição absoluta, mas também por uma dimensão humana intensa: corpos sob os escombros, pessoas vagando sem destino, o desespero coletivo e a sensação de abandono. Alvarez escreve como repórter, mas também como alguém afetado profundamente pela tragédia, o que confere ao texto uma força testemunhal que ultrapassa a simples descrição factual.

O livro, porém, não se limita ao acontecimento sísmico. O autor amplia o olhar ao contextualizar a catástrofe dentro da história do Haiti, marcada por séculos de exploração colonial, primeiro sob domínio francês e depois sob forte interferência dos Estados Unidos. Ao retomar esse passado, Alvarez evidencia como o terremoto não atua sozinho: ele incide sobre um país já fragilizado por dívidas impostas, intervenções estrangeiras, pobreza estrutural e sucessivos processos de despossessão.

Nesse sentido, a tragédia natural revela também uma tragédia política. O modo como os Estados Unidos e a comunidade internacional atuam durante o desastre expõe relações de poder assimétricas, interesses geopolíticos e limites evidentes da chamada “ajuda humanitária”. O sofrimento haitiano aparece, assim, como resultado de uma longa história de violência colonial que não se encerra com o fim formal da dominação.

Curto e direto, o livro não pretende esgotar a complexidade do Haiti, mas cumpre um papel importante: introduz o leitor à história do país e às camadas profundas que tornam uma catástrofe natural ainda mais devastadora. É uma leitura rápida, mas incômoda, que nos obriga a confrontar a desigualdade global e a lembrar que desastres nunca são apenas naturais. Vale a leitura, sobretudo como exercício de memória, consciência histórica e responsabilidade ética.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro. 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

POR QUE OS EVANGÉLICOS CRESCEM NO BRASIL


 

POVO DE DEUS: QUEM SÃO OS EVANGÉLICOS E POR QUE ELES IMPORTAM

JULIANO SPYER

GERAÇÃO EDITORIAL – 1ª ED. – 2020

284 páginas

Este livro me ensinou muito. Para quem não é evangélico, esse universo costuma aparecer de forma difusa: ouvimos falar, convivemos com pessoas que pertencem a essas igrejas e, muitas vezes, diante de posições extremamente conservadoras, acabamos reproduzindo preconceitos. A questão que me atravessava, no entanto, era outra: por que tantas pessoas estão se convertendo ao evangelismo, muitas delas deixando o catolicismo? É justamente essa pergunta que o livro de Juliano Spyer ajuda a responder.

A leitura permite compreender que uma grande parcela dessas pessoas encontra nas igrejas evangélicas o acolhimento e o suporte que o Estado, e muitas vezes outras instituições religiosas, não oferecem. Trata-se de contextos marcados pela pobreza, pela violência cotidiana, pela convivência com o crime, pela atuação frequentemente brutal da polícia, pelo desemprego, pela falta de creches, de acesso à saúde, a medicamentos ou a apoio jurídico. As igrejas aparecem como redes concretas de apoio material e simbólico. A fé também ocupa um lugar central, pois essas pessoas se sentem vistas, escutadas e socorridas por Jesus.

Um ponto particularmente complexo, e que confesso ter me causado estranhamento inicial, é a questão do empoderamento feminino dentro dessas igrejas. No entanto, dentro desse contexto específico, ele de fato ocorre. São mulheres que sofrem violência doméstica, muitas vezes de companheiros alcoólatras, mulheres que nunca foram ouvidas, que acumulam dupla jornada ou que, por baixa escolaridade, não conseguem trabalho. Ao ingressarem na igreja, passam a falar, a ser escutadas, a receber apoio, a conseguir emprego. Em muitos casos, os maridos acabam se convertendo, deixam de beber e passam a se dedicar mais à família. O fato de o homem ser considerado o “chefe da casa” não aparece como um problema para essas mulheres, pois elas sabem que sua presença e transformação são resultado direto da atuação delas dentro da igreja. Há, aí, uma lógica própria de reconhecimento e pertencimento.

Por outro lado, se o livro explica com clareza as razões do crescimento das igrejas evangélicas e apresenta as diferenças internas do protestantismo e de suas múltiplas denominações, ele também faz uma crítica contundente à busca de poder político junto ao Estado e às consequências disso para quem não é evangélico. Se, em um primeiro momento, o protestantismo no Brasil lutou pela liberdade religiosa em um país majoritariamente católico, hoje parte de suas lideranças atua no sentido oposto: impor suas crenças, valores e dogmas à sociedade como um todo.

Essa postura está ligada à crença de que Jesus só retornará quando todos forem evangelizados. No entanto, do ponto de vista das lideranças, trata-se frequentemente de um jogo de poder que nem sempre corresponde ao pensamento ou às necessidades dos fiéis. O livro aborda ainda posições contrárias aos direitos humanos, ao meio ambiente e à ciência, bem como as tentativas de introduzir nas escolas visões neopentecostais, como o criacionismo ou uma leitura histórica baseada exclusivamente na Bíblia.

Spyer explica de forma didática o que é a teologia da prosperidade e como ela se articula à noção de meritocracia, em contraste com a ética protestante do trabalho presente nas igrejas históricas. Trata-se de uma chave fundamental para compreender tanto o discurso religioso quanto sua tradução política e econômica.

Considero uma leitura necessária para quem deseja compreender melhor o Brasil contemporâneo. Conhecer não significa concordar. O livro amplia o entendimento sobre um fenômeno central da nossa vida social e política, ainda que eu continue defendendo, sem ressalvas, o Estado laico e a liberdade religiosa para todos.


                         Juliano Spyer nasceu em São Paulo em 1971. É um antropólogo brasileiro. 


VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NOS LARES CRISTÃOS


 

O GRITO DE EVA

A violência doméstica em lares cristãos

MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR

THOMAS NELSON BRASIL – 1ª ED. - 2021

178 páginas


O grito de Eva, de Marília de Camargo César, parte de uma constatação incômoda: o machismo atravessa todas as esferas do patriarcado — sociedade, política, família e também a religião. Existe a ilusão de que pessoas religiosas seriam, por definição, amorosas e incapazes de praticar violência, mas o livro demonstra que essa expectativa não corresponde à realidade. A autora reúne relatos de mulheres cristãs que, ao buscarem ajuda dentro de suas igrejas, acabam sendo aconselhadas a rezar mais, a compreender, a relevar, a suportar. Esse tipo de orientação, longe de proteger, contribui para a perpetuação da violência doméstica.

Ao mesmo tempo, o livro não constrói uma crítica simplista ou homogênea às lideranças religiosas. Há também depoimentos e reflexões de pastores que discordam dessas práticas e reconhecem a violência como algo incompatível com o cristianismo. Fica evidente que tudo depende da interpretação dos textos sagrados e, sobretudo, do que se deseja extrair deles. A Bíblia oferece ensinamentos, mas a leitura desses textos exige responsabilidade histórica e ética: é fundamental distinguir aquilo que pertence a um contexto social específico daquilo que pode ser compreendido como princípio válido para outros tempos.

A autora lembra que, no período em que muitos textos bíblicos foram escritos, a mulher não tinha voz, era socialmente submissa e confinada ao espaço doméstico. Nesse sentido, a atuação de Jesus aparece como profundamente disruptiva: ele escuta as mulheres, conversa com elas, as acolhe, rompendo com o status quo de uma sociedade patriarcal. Marília também chama atenção para o fato de que o Gênesis apresenta dois relatos da criação — o primeiro e o segundo — e que é apenas no segundo que surge Eva a partir da costela de Adão, distinção frequentemente ignorada em leituras literalistas.

Um ponto especialmente instigante é a reflexão sobre o silêncio de Adão diante da cena da maçã e da serpente. Por que, tendo ouvido Deus, ele não interveio, não recusou, não aconselhou Eva? Esse silenciamento masculino, raramente problematizado, desloca a responsabilidade exclusiva atribuída à mulher e revela como certas leituras bíblicas operam seletivamente para reforçar a culpa feminina.

Em relação à submissão, o livro oferece uma explicação mais ampla do conceito, mostrando que ele não se refere apenas às mulheres. O problema surge quando essa ideia é aplicada de forma unilateral, enfatizando a submissão feminina e silenciando as exigências éticas dirigidas aos homens. Essa leitura parcial sustenta relações abusivas e legitima violências que nada têm de sagradas.

O grito de Eva é, acima de tudo, um livro de orientação e encorajamento. Ele afirma, com clareza, que mulheres cristãs não precisam se submeter à violência física ou ao abuso psicológico para serem fiéis à sua fé. Elas merecem amor, dignidade e vida plena,  e tomar uma atitude diante da violência não significa ir contra os ensinamentos sagrados, mas, ao contrário, reafirmar o valor da própria vida.

                   Marília de Camargo César nasceu em São Paulo em 1964. É jornalista e escritora. 




O QUE É LIBERDADE? ENTRE SOCIALISMO, DEMOCRACIA E CAPITALISMO

 

LIVRE: VIRANDO ADULTA NO FIM DA HISTÓRIA

LEA YPI

TODAVIA – 1ª ED. - 2022

304 páginas


PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - ALBÂNIA 

Em Livre: Virando Adulta no Fim da História, Lea Ypi constrói uma autobiografia profundamente atravessada pela história política da Albânia, acompanhando sua infância sob o regime socialista, a queda desse sistema, a guerra civil que se seguiu e, por fim, sua partida definitiva do país. Trata-se de um livro especialmente instigante também por seu cenário: a Albânia é um ponto quase cego da história europeia, apesar de ter sido apresentada, durante certo período, como modelo exemplar do socialismo/comunismo, o que torna a narrativa ainda mais potente ao deslocar o leitor de referências já cristalizadas.

Ypi relata uma infância aparentemente harmoniosa, marcada pela vida familiar, pela escola e pela rotina cotidiana. Para a criança que foi, tudo parecia funcionar de modo coerente e seguro, sem grandes motivos para questionamento. As fissuras surgiam apenas nas conversas entre adultos, fragmentos de falas que ela não conseguia compreender, mas que anunciavam algo silenciado. Somente após a queda do regime ela descobre a história real de sua família e compreende o silêncio que a cercava; um silêncio construído como forma de proteção, tanto dela quanto da própria família.

A partir dessa experiência, o livro avança para uma reflexão mais ampla sobre a ideia de liberdade. Ypi questiona se ela realmente existe nas democracias liberais, no capitalismo e no sistema neoliberal, mostrando como a coerção nem sempre é visível e como a liberdade pode operar como uma ilusão eficaz justamente por ser naturalizada e internalizada. Não se trata apenas de regimes políticos distintos, mas de formas diferentes de produzir obediência, adesão e consentimento.

A leitura provoca inevitáveis deslocamentos e ressonâncias com o contexto brasileiro. É impossível não pensar no silêncio que recai sobre a escravização e sobre a ditadura militar, silêncios que produzem a ignorância política que atravessa o presente. Assim como Lea, também crescemos acreditando no que nos foi ensinado na escola e na família, sem acesso às camadas ocultas da história e às violências que estruturaram o país.

O livro também conduz a uma reflexão sobre o eurocentrismo que nos legou uma ideologia branca, racista e patriarcal, ainda profundamente operante. Muitos continuam a pensar os povos indígenas como seres do passado, indolentes ou preguiçosos, e os negros como inferiores ou, pior, como inimigos sociais — imagens que seguem legitimando violências cotidianas amplamente visíveis no noticiário. A permanência dessas hierarquias revela o quanto a chamada liberdade democrática convive com formas profundas de exclusão e desumanização.

Por fim, o livro nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: qual é, afinal, a diferença? No Brasil, a palavra “comunismo” ainda provoca pânico, enquanto as formas de manipulação e coerção do sistema vigente passam quase despercebidas. Livre nos convida a percorrer o caminho inverso: se o capitalismo se apresenta como o oposto do comunismo, em que medida eles também se aproximam? Sabemos bem no que diferem, mas raramente nos perguntamos no que são semelhantes. É nesse espaço de reflexão, entre memória, silenciamento e ideologia, que o livro se inscreve com força.

Lea Ypi nasceu em 1979, em Tirana na Albânia. É escritora e professora de teoria política e filosofia. 



DA PERDA À LUTA POR JUSTIÇA


 

HEROÍNAS DESTA HISTÓRIA:  Mulheres em busca de justiça por familiares mortos pela ditadura

CARLA BORGESTATIANA MERLINO (ORGS.)

AUTÊNTICA – 1ª ED. – 2020

400 páginas.


São décadas de silêncio rompido, seja por autoproteção, pela necessidade de seguir em frente ou por uma política deliberada de esquecimento que encobriu os crimes da ditadura civil-militar brasileira. Um silêncio que não foi natural, mas construído, sustentado e imposto. É nesse terreno que se inscrevem as histórias reunidas em Heroínas desta História, um livro atravessado por relatos de mães, esposas e familiares que estiveram à frente da luta contra o regime militar.

São mulheres que perderam filhos, maridos, irmãs e irmãos; mulheres que sofreram, resistiram e enfrentaram o Estado em busca de notícias, de corpos, de respostas e, muitas vezes, do direito mínimo a uma certidão de óbito. Aqui, a dor não paralisa: ela se transforma em ação política. O luto converte-se em denúncia, e a ausência vira insistência. Essas mulheres recusaram o apagamento e fizeram da busca por seus familiares uma luta pública contra a violência de Estado.

Algumas dessas trajetórias tornaram-se mais conhecidas por não terem se calado, como Clarice Herzog, Eunice Paiva ou Zuzu Angel, esta última brutalmente silenciada pelo próprio regime. Outras tantas permanecem desconhecidas do grande público, o que torna sua escuta ainda mais urgente. São mulheres simples ou de classe média, com trajetórias distintas, mas unidas pelo fato de terem sido empurradas para o centro da história por uma violência que atravessou suas vidas privadas.

O livro mostra como essas mulheres se tornaram protagonistas de nossa história recente, ainda marcada por lacunas, negações e disputas de memória. Ao reunir esses relatos, Heroínas desta História não se limita a narrar o passado: afirma a memória como gesto político e como responsabilidade coletiva. Este não é apenas um livro para ser lido, mas para ser escutado. Ele nos apresenta algumas dessas mulheres — cabe a nós, agora, ouvi-las.