quinta-feira, 12 de maio de 2016

FILME: A GAROTA IDEAL - 2007


Direção: Craig Gillespie - 2007
Duração: 91 min
Título Original: Lars and the real girl
País de Origem: Estados Unidos e Canadá

Lars Lindstrom (Ryan Gosling) vive na garagem de seu irmão mais velho, Gus (Paul Schneider) e sua cunhada Karin (Emily Mortimer). Ele é introvertido, tenta escapar de todos os convites insistentes de sua cunhada para tomar café ou jantar com eles. Tem um emprego, frequenta a igreja, mas é distante apesar de educado e simpático com todos. 

Através da internet ele encontra Bianca. O problema é que Bianca é uma boneca inflável erótica, mas Lars a recebe como uma mulher de verdade, e diz a todos que ela é uma missionária religiosa. Quando ela chega fala com sua cunhada inclusive para que ela possa ficar na casa deles, uma vez que não é bem visto uma mulher solteira ficar junto de um homem sozinho em sua casa. Karin fica feliz com esta novidade até... descobrir que Bianca é uma réplica de uma mulher mas feita de silicone. 

Karin e Gus procuram ajuda com uma psicóloga Dra Dagmar (Patricia Clarkson)  que lhes diz que ela é real. Esta ali na sala de espera com Lars, e para ele se trata de alguém. 

O filme é muito interessante, uma vez que vemos que questões psíquicas que normalmente seriam tratadas através de medicação, internação aqui tomam outro rumo, com a sociedade local que é pequena fazendo parte da encenação de que ela existe e é real. Falam com ela, a levam passear, lhe arrumam até um emprego de manequim numa vitrine.  

Desta forma surge a possibilidade para que Lars consiga expressar o que sente, e principalmente o que lhe faltou em sua infância, com a morte de sua mãe por ocasião de seu nascimento. Aos poucos Lars irá passando de apaixonado por Bianca ao afastamento, como no Édipo, e começará a se interessar por outras pessoas. Em seus encontros com a Dra. Dagmar sob o pretexto de tratar de Bianca, ele irá se abrindo e falando. Mas somente ele mesmo poderá encontrar uma saída para isto, e ao final poder afastar Bianca de sua vida da forma que lhe é possível e inclusive necessário para que possa se libertar de suas angústias e dores da infância. 

O filme é de extrema sensibilidade e respeito ao ser humano em suas dores de viver. E nos mostra que nem sempre tudo é patológico como a psiquiatria e a sociedade considera, levando a um tratamento através de medicação e que não iria resolver a questão de Lars. 

Craig Gillespie nasceu em 1967 em Sidney, Austrália

DOCUMENTÁRIO: O GUIA PERVERTIDO DA IDEOLOGIA - 2012


Direção: Shopie Fiennes - 2012
Duração: 134 min
Titulo Original: The pervert's guide of ideology
País de Origem: Irlanda


Neste documentário o filósofo Slavoj Zizek aborda através de vários filmes usando ao mesmo tempo roupas e cenários que se referem aos filmes, as muitas faces da ideologia. Zizek analisa os filmes pelo viés da filosofia e da psicanálise. Também se utiliza de músicas e de comerciais ou de produtos bem conhecidos. 

O primeiro filme que ele aborda é "Eles Vivem" de 1988 do diretor John Carpenter sobre os óculos que o protagonista encontra e ao usá-los ele vê o que os outros não conseguem ver. Zizek então nos fala que a ideologia é nossa relação espontânea com o mundo social, é como percebemos seu significado. Gostamos da ideologia e sair dela machuca. Eis o porque da recusa das pessoas de usarem o óculos, pois têm consciência de que ao colocá-los irá ver a verdade que pode ser dolorosa e não querem passar pela violência extrema da libertação, a liberdade dói. 

Com o filme "A Noviça Rebelde" de 1963 do diretor Robert Wise ele nos fala de uma parte da música que em seu país foi censurado e fazendo uso da psicanálise fala do gozo, de distinguir o gozo dos prazeres corriqueiros. A lógica da igreja católica, não do cristianismo, é que protegido pelo grande Outro - goze! Se você fingir, renunciar poderá ter tudo. O gozo é um estranho dever perverso, o excesso está sempre conosco. 

Para falar do sublime ao excremento, Zizek toma uma coca-cola, de gelada à quente. A dialética elementar da mercadoria é o excedente ilusório. Já o Kinder Ovo é usado para demonstrar o objeto do desejo, o brinquedo que está dentro do ovo que preenche o espaço vazio do ovo. A surpresa é o excedente. 

Com o "Hino à alegria" de Beethoven - Nona Sinfonia ele mostra como esta música é usada por opostos, nazismo, comunismo, maoismo, é o hino não oficial da União Europeia. Cena perversa de fraternidade universal.

A ideologia funciona como invólucro vazio. 

O filme "Laranja Mecânica" de 1971 do diretor Stanley Kubrick nos diz sobre o discurso liberal quando justifica a delinquência pela pobreza, miséria, exclusão. O homem não é apenas um produto de circunstâncias objetivas, tem uma margem de decisão. 

Com o filme "Taxi Driver" de 1976 do diretor Martin Scorsese e "Rastros de ódio" de 1956 de John Ford sobre a vítima que de um modo perverso goza ou participa de sua vitimização. Não quer ser redimida, resiste. 

O filme "Tubarão" de 1975 do diretor Steven Spielberg, Zizek demonstra como este filme unifica todos os medos. Fala do racismo, que o outro tem um gozo , perverso, ele tenta roubar de nós o nosso gozo. Perturba o nosso estilo de vida. 

Além destes filmes também serão citados Titanic para o sagrado e o obsceno, A Queda de Berlim, Mash, Nascido para matar, Batman o Cavaleiro das trevas, A última tentação de Cristo, O segundo rosto entre outros.

Zizek falará ainda sobre o capitalismo ter uma estrutura religiosa, a inércia do Real, dos ritos obscenos que regulam as escolas na Inglaterra. Sobre o grande Outro - o stalinismo. Sobre a histeria e por sermos responsáveis por nossos sonhos que encenam nossos desejos. 

Trata-se de um  documentário denso, para assistir mais de uma vez, mas vale a pena!

Shopie Fiennes nasceu em 1967 em Ipswich, Reino Unido.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

FILME: EM TRÊS ATOS - 2015



Direção: Lucia Murat - 2015
Duração: 76 min

Este filme se baseia no livro "A Velhice"  e "Uma morte muito suave" de Simone de Beauvoir. 

O filme é poético e através da dança contrapõe uma bailarina de 85 anos (Angel Vianna) e uma jovem no auge de sua carreira (Maria Alice Poppe ) tendo como pano de fundo uma intelectual de 80 anos (Nathália Timberg) que se confronta com as questões da velhice e se recorda de quando tinha 45 anos (Andréa Beltrão) e enfrentou a morte de sua mãe. Os diálogos são inspirados nos livros de Simone de Beauvoir. 

As questões levantadas é como lidar com um corpo que envelhece, que caminha para a morte. A experiência de perde alguém amado e a própria morte que se aproxima. O filme trabalha com o corpo através da dança e com a palavra através dos textos de Beuavoir. 

No livro "Uma morte muito suave" Simone fala da morte de sua mãe. No "A Velhice" é um estudo profundo sobre a situação dos velhos quando ela mesma se defrontou com a questão. 

Lucia Murat nasceu em 1949 no Rio de Janeiro. 

FILME: POESIA - 2010


Direção: Lee Chang-Do - 2010
Duração: 139 min
Título Original: Shi
País de Origem: Coréia do Sul

Um belíssimo filme sobre a velhice, solidão e de como a arte pode ajudar a viver. Mija (Yun Jeong-Hie) vive com seu neto adolescente cuja mãe está distante em outra cidade. Ela trabalha para um senhor de idade como faxineira, além de lhe dar banho uma vez que ele supostamente deve ter sofrido um AVC já que tem dificuldades em falar e se locomover. 

Ao procurar um médico devido uma dor na coluna acaba descobrindo que tem alzheimer o que ela não conta para ninguém, nem mesmo para a filha com quem diz manter contato direto e que contam tudo uma para a outra. Mija resolve aprender a fazer poesia num centro cultural. 

Ela é ativa, dinâmica, mas é notório sua solidão. Passa pelas pessoas em sua rua e tenta falar com elas e não obtém respostas, conversa com a filha de seu patrão e esta mal lhe dá atenção. O neto por sua vez não quer saber de nada, somente de computador e dos amigos, é mal educado, não ajuda em nada, por mais que Mija o chame as suas responsabilidades. O que se nota é que não há protagonismo para os velhos, não são escutados, a médica acha estranho ter que falar para ela do que tem, pergunta se ninguém veio com ela, que preferia falar com outro, como se ela fosse incapaz, quase uma criança. 

O filme começa com um rio, o Han, e um corpo de uma jovem é encontrado. Mija ao ir ao hospital para ver sobre sua dor nas costas verá o desespero da mãe quando chegam com o corpo da jovem. Mal sabe ela o quanto isto irá interferir em sua vida e de seu neto. 

Mija inicia seu curso de como fazer poesia. Ela quer compreender de onde surge a inspiração para conseguir escrever um poema. Seu primeiro momento virá após um encontro com os pais dos meninos envolvidos no estupro de uma jovem na escola que se suicidou no qual seu neto está envolvido. Estes pais querem pagar à mãe da menina que é uma pobre camponesa para que não denuncie os garotos, ato com o qual a escola também é conivente. Mija ouve tudo aquilo com angústia, e sai do local, do lado de fora há uma flor vermelha, uma flor vermelha como sangue, algo sangra nela, é uma metáfora. 

Mija não parece concordar com o que os pais e a escola desejam. Ela está angustiada, ela recorda a mãe da menina, consegue se colocar no lugar dela. O Alzheimer progride lentamente, ela esquece nomes de coisas simples. Mas ela não desiste, e será a poesia seu veículo para falar, dizer o que sente, o ato poético é uma nomeação à algo interno, produzindo diferenças. O suicídio é a falta de palavras, vem dizer algo que não se pode falar. 

A doença não é igual à velhice, e Mija é uma protagonista de sua vida através da poesia. Ela irá tomar duas decisões fortes ao final do filme, e as expressará através de uma poesia, a canção de Agnes, nome da menina que se matou, dando voz a ela e fundindo sua trajetória com a dela. 

O filme é longo e denso, extremamente rico, há muito neste filme para ser dito, mas deixo a cada um que o assista suas possibilidades de interpretação e compreensão. 

Lee Chang-Do nasceu em 1954 em Daegu, Coreia do Sul 

terça-feira, 5 de abril de 2016

LIVRO: VIDAS E LENDAS DE JACQUES LACAN - CATHERINE CLÉMENT



Clément, Catherine. Editora Moraes, 1983
181 páginas
Tradução: Maria Clara Kneese
Título Original: Vies et Légendes de Jacques Lacan

Neste livro Catherine Clément fala de suas impressões sobre o psicanalista Jacques Lacan. Ela frequentou os seminários, e estava presente em muitos eventos que ocorreram e com este conhecimento ela nos fala da vida de Lacan.

Clément retrata o percurso efetuado por Lacan, desde quando estudou psiquiatria, seu contato com a psicanálise que o levaria a ser um dos grandes teóricos e analistas na França. Sobre o que ele suscitava nos outros, do amor ao ódio, das querelas em torno dele, das dificuldades que enfrentou. Em suma, é a história de um grande solitário que jamais deixou de falar do amor e que revolucionou a psicanálise.

Aos que se interessam pela psicanálise e também pela história recomendo o livro.

Catherine Clément 

quarta-feira, 9 de março de 2016

FILME: MARAVILHOSO BOCCACCIO - 2014


Direção: Vittorio Taviani e Paolo Taviani - 2014
Duração: 115 min
Título Original: Maraviglioso Boccaccio
País de Origem: Itália

O filme nos traz alguns dos contos de Boccacio do Decamerão. Em 1348 a peste negra atinge Florença, na Itália. Um grupo de dez jovens, 7 mulheres e 3 homens fogem para uma casa de campo onde irão contar histórias para passar o tempo. 

São histórias morais e muito boas. A primeira delas nos fala de um casal dominado pela mãe do rapaz. Ele ama sua esposa, mas ela está com sintomas da peste e é levada para morrer numa capela onde é recuperada por outro homem que a ama também. Ele lhe salva a vida. A questão é que ela é casada, e como resolver isto? Com engenhosidade e criatividade ele fará de tudo para poder viver com sua amada de maneira aceita pela sociedade. 

Outra nos fala de um rapaz que é sempre ridicularizado por seus amigos e colegas. Dois deles resolvem lhe pregar uma peça dizendo que uma pedra preta o deixa invisível, e vão a procura de tal pedra que obviamente já está colocada no local. Ele então passa a acreditar que é invisível, pois todos colaboram na brincadeira fingindo não vê-lo. Eis então que ele surpreende a todos mostrando seu lado cruel e irascível.

Todas as histórias refletem os sentimentos dos jovens que desejam viver, mas estão diante da morte, e também o contexto da época e a situação da mulher, e principalmente sobre o amor, que é o principal interesse do grupo. 

As paisagens visuais da Itália são belíssimas. 

Um filme que recomendo. 

Elenco: Riccardo Scamarcio, Kim Rossi Stuart, Jasmine Trinca, Rosabell Laurenti Sellers, Lello Arena, Paola Cortellesi, Carolina Crescentini, Flavio Parenti. 

Vittorio Taviani  nasceu em 1929 e Paolo Taviani em 1931, ambos em São Miniato, Itália. 

DOCUMENTÁRIO: LOUISE BOURGEOIS Une vie - 2008



Direção: Camille Guichard -
Duração: 52 min
País de Origem: França 

Louise Bourgeois nasceu em Paris em 1911, mas viveu em Nova Yorque a partir de 1938. É reconhecida internacionalmente por seu trabalho de escultas nos anos 70. 

Sou fã desta escultora. Sua obra traduz o feminino, a infância, a sexualidade. O documentário sob forma de entrevista com ela nos fala de seu percurso e de como cada obra se constituiu para ela, qual a essência de cada uma e é justamente nisto que vemos vir a tona o feminino. 

Sua infância foi dolorosa em função de ter um pai que era infiel a sua mãe chegando a levar suas amantes a viver com a família como preceptora das crianças. Ela nos relata também de forma bem freudiana, ela leu os livros de Freud, a castração da menina no complexo de Édipo. Seu pai descascava uma laranja com as mãos e ao retirar a casca por completo e segurá-la aberta nas mãos fica um formato de corpo de uma mulher com um pênis. Bourgeois se considerada desconstruída por seu pai e sua obra o reflete. Ela nos diz que o presente destrói o passado e é muito difícil recriá-lo. Seus traumas de infância são inseparáveis de sua obra, não há como não associá-los. É através da arte que ela passa do passivo da infância como vítima para o ativo reparador, realizando um trabalho de recriação de seu passado. As ameaças que sentimos não podemos mudar, mas sempre é possível negociar com elas. 

Trabalhando com vários materiais, Bourgeois faz esta reconstrução pela arte, suas figuras são deformadas ou mutiladas, as angústias viram totens, ela revive as emoções da mulher, do feminino. 

terça-feira, 8 de março de 2016

DOCUMENTÁRIO: JACQUES LACAN FALA - 1972




Direção: Françoise Wolff - 1972
Duração: 56 min
Título Original: Lacan Parle
País de Origem: França

Este é o terceiro documentário que assisto sobre o psicanalista francês Jacques Lacan. Trata-se da famosa e histórica gravação de sua palestra polêmica que ocorreu na Universidade Católica de Louvain em setembro de 1972, na Bélgica.

Ele fala sobre a psicanálise, sobre a morte, a linguagem, o amor, a alienação, a paranoia, entre outros temas. O interessante é que durante sua palestra um jovem sofre um surto e podemos ver Lacan lidando com esta situação.

O que mais me chamou a atenção é sua forma de falar, criando vazios, momentos onde o inconsciente pode atuar. Lembra quando estamos em uma sessão de análise e nos falta a palavra, ou não conseguimos dizer nada, há momentos de "silêncio".

Para quem gosta da psicanálise recomendo assistir.

Françoise Wolff 

FILME: PODEROSA AFRODITE - 1995



Direção: Woody Allen - 1995
Duração: 94 min
Título Original: Mighty Aphrodite
País de Origem: Estados Unidos

Após um casal, Lenny (Woody Allen) e Amanda (Helena Bonham Carter) adotarem um menino, o pai adotivo resolve saber quem é a mãe biológica do menino. Após algumas peripécias e persistência ele descobre que se trata de uma prostituta chamada Linda (Mira Sorvino) também conhecida pelo seu nome artístico em filmes pornos por Judy Cum. Após conhecer a mãe de seu filho adotivo ele resolve aconselha-la a mudar de vida. Linda não sabe quem é o pai de seu filho e sequer imagina que está diante do pai adotivo dele. 

Tudo começa num restaurante onde dois casais, sendo que um deles aguarda um filho, e o outro é Lenny e Amanda discutem sobre filhos, adoções, parricídio, pais. Paralelamente veremos no decorrer do filme um Coro, nos remetendo à Grécia e seus coros nas tragédias. Na verdade Woody allen traz para este filme as tragédias de Medeia e de Édipo, trazendo-as para o mundo atual. Lenny não quer ter filhos e muito menos adotar um pois teme que seu sangue seja ruim e ele se volte contra ele. 

O Coro nos fala então sobre as tragédias de Medeia, que matou seus filhos, de Édipo que matou o pai e de como todos são vítimas do desejo proibido. Quando Lenny parte em busca da mãe de seu filho, equipara-se a Édipo que busca o assassino de seu pai, e o coro o alerta. "Ó maldito destino. Certas ideias é melhor não tê-las". 

O Filme nos fala das relações incestuosas, da violação da lei, do destino, do desejo, a culpa, o adultério. Vale a pena assistir e o final é ótimo. 

Woody Allen 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

FILME: MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA - 2015


Direção: Justin Kurzel - 2015
Duração: 118 min
País de Origem: Reino Unido - França - Estados Unidos

Macbeth (Michael Fassbender) e Banquo (Paddy Considine) são generais do exército do Rei Ducan (David Thewlis) da Escócia. Eles vencem uma revolta chefiada por Macdonwald e pelo Barão de Cawdor o que muito agrada ao rei. No caminho de volta os dois encontram-se com as três feiticeiras que lhes fazem profecias, saudando Macbeth como Barão de Glamis, Barão de Cawdor. Elas então dizem: Salve Macbeth, ainda serás rei! Menor do que Macbeth e maior! Nem tão feliz, entretanto muito mais feliz! E para Banquo - Tu engendrarás reis, embora nunca o sejas. 

A primeira profecia logo se realiza quando chegam os emissários do rei e saúdam Macbeth como Barão de Cawdor. Lady Macbeth (Marion Cotillard) que sofre por não poder dar um herdeiro à Macbeth incitará o marido para que haja e seja rei, matando o Rei Ducan durante seu pernoite na vila onde moram. A partir deste feito o medo e a culpa irá atormentar Macbeth que passará a agir para eliminar qualquer um que possa se intrometer em seu caminho, a começar por Banquo. Aos poucos todos estes atos de morte, o sangue em suas mãos que ele nunca mais limpará o leva cada vez a atos mais infames, movido pelo medo, pela ambição e pela ganância. 

Chega o momento onde Lady Macbeth já não suporta mais, o marido enlouquece, tem visões de todos que assassinou. Ele procura as feiticeiras e novamente ouve previsões, desta vez vindo de fantasmas de mortos: Cuidado com Macduff! Ninguém nascido de mulher poderá vencê-lo! Macbeth só será vencido quando o grande bosque de Birnam, subindo a alta colina de Dunsinane, marchar contra ele. 

Macbeth então decide atacar Macduff (Sean Harris), mas este fugiu. Ele então mata toda sua família, esposa e filhos. Lady Macbeth já não suporta. Ela morre. Macduff retorna para se vingar. Cerca o castelo, o bosque de Birman é incendiado, e sobe ao castelo em fumaça. Chega o momento do confronto entre Macbeth e Macduff, que vence ao dizer que nasceu de uma cesariana, retirado de dentro de sua mãe, não tendo nascido pelas vias normais. 

Macbeth era um homem bom, honrado, mas ao ouvir as profecias ele se deixa levar pela ganância e desejo de poder. Sua esposa o confronta ao seu desejo e ao dela, que também deseja ser rainha. Eles cometem o primeiro crime hediondo, com barbaridade. Mas a crença de que farei isto somente para atingir o poder e depois viveremos em paz não funciona, a culpa e os fantasmas os perseguem. O medo de que outro se apodere do trono fazendo com que este ato criminoso se torne vão o leva a cometer outros na ilusão de desta forma ficar livre. Lady Macbeth é perseguida pelas manchas de sangue que não consegue limpar. Ele aos poucos enlouquece. 

Após vencerem a batalha ambos, Macbeth e Banquo, podem estar desejando a recompensa do feito, eles lutaram e venceram para que o reino da Escócia seja livre, então provavelmente inconscientemente desejavam a coroa. Isto se projeta nas feiticeiras que verbalizam o desejo. A questão é que um será rei e o outro pai de reis. Há um descompasso entre os dois que desejam a mesma coisa, mas se por um lado Banquo se ressente por nunca ser rei, Macbeth se angustia por não ter descendência, levando seu ato criminoso a um final, sem continuidade e que vai perdendo a razão de ser. O homem deseja a imortalidade. 

Se as feiticeiras não surgissem, o desejo inconsciente de ambos teria ficado adormecido, em sonhos, mas ao serem simbolizados pela palavra passam ao consciente, e daí para a ação. Por outro lado o rei Ducan é uma figura paternal, era um velho de barba branca. Aqui então temos o parricídio. Outro ponto é que no inicio do filme vemos um Macbeth temeroso, em dúvida, que quer desistir. É lady Macbeth quem o instiga, como uma mãe ao filho, mas depois ocorre a inversão, é ele quem comanda e ela aos poucos definha. 


Justin Kurzel nasceu em 1974 em Gawler, Austrália

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

FILME: VINCERE - 2009



Direção: Marco Bellocchio - 2009
Duração: 118 min
País de Origem: França - Itália

O filme relata a relação de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) com Benito Mussolini (Filippo Timi) quando este era um jovem militante socialista radical. Ida apaixona-se perdidamente por ele, absolutamente fascinada por este homem, ela se desfaz de tudo que possui para ajudá-lo a fundar o jornal Il Poppolo d'Italia, o início do Partido Fascista. Ela engravida e nasce um menino. 

Durante a 1ª Guerra Mundial, Benito se alista no exército e fica um tempo sem dar notícias. Ela irá reencontrá-lo num hospital onde também encontrará a nova esposa dele, Rachele (Michela Cescon). 

Trata-se de uma história real pouco conhecida. Ida morreu em 1937 num manicômio psiquiátrico, sozinha, devastada, após sua imensa luta para ser reconhecida como esposa  do Duce, antes do casamento com Rachele que permaneceu sua esposa oficial até o fim de sua vida, e ter seu filho reconhecido como primogênito. Ao longo do filme vemos flashes de mulheres internadas em hospícios e trechos de documentários sobre a época e a ascensão de Mussolini ao poder. 

Logo no início do filme, estamos em 1910 e Benito desafia os cristãos dizendo que irá provar a inexistência de Deus: " se Deus não me fulminar em 05 minutos será demonstrado que ele não existe." Ida está fascinada por este homem, como em breve estará o povo italiano, que será, como Ida, traído e subjugado. 

Ida após ter sido abandonada por Benito não consegue ultrapassar isto, irá destruir sua vida na tentativa de ser reconhecida. Era uma mulher independente, bonita, inteligente, com posses, dona de uma casa de moda feminina em Milão. Abre mão de sua vida por ele. As cenas de amor dos dois no começo do filme mostram seu olhar vidrado nele, e o dele distante, em outro lugar. Há uma falta de limites dela em relação à ele, lhe entrega tudo, corpo, alma, posses. Apesar de dar tudo como ela mesma diz com alegria, como se isto fosse uma felicidade para ela de poder ajudar, no fundo o que ela deseja é ser única para ele, é ser A mulher. 

Ela se fixará nisto por toda sua vida, neste lugar que deseja acima de tudo, sendo incapaz de aceitar o fato que ele a deixou e trocou por outra mulher. Abrirá mão de qualquer possibilidade de reinício de uma vida com seu filho (Filippo Timi), com isto levando a ambos para o trágico. Lembra Antígona, uma vez que também vai contra o Estado e sua lei. Sua obstinação em afirmar que era a esposa e que o filho foi reconhecido, o que nunca foi comprovado oficialmente. 

Ida não é louca, ela sabe onde está, quem é, mas se fixa na loucura deste amor, me lembrando Camille Claudel com Rodin, que também se fixa nele. Acaba sendo internada após gritar para todos ouvirem que já escreveu ao papa, ao primeiro-ministro, ao presidente do tribunal de Milão para que ele vá preso. Depois vai viver com sua irmã e seu cunhado tem a guarda de seu filho. O indício da erotomania, ela diz que só ela o compreende e que está convencida que ele também a ama. É um certeza delirante e que a impede de fazer algo diferente com sua vida. Acabara sendo subjugada pela polícia fascista, seu filho será afastado dela e entregue para outra pessoa criá-lo o que trará um grande sofrimento para ele. E ela dirá que ele está fazendo isto para testá-la, que quer ter certeza de que pode sacrificar tudo por ele, e que quando ele tiver esta certeza irá buscá-la e a apresentará à Itália como sua legítima esposa. 

Ela não pode dar uma outra vida a seu filho, uma nova família. Ele acabou internado em um manicômio e morreu aos 26 anos abandonado. 

Marco Bellocchio nasceu em 1939 em Bobbio, Itália.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

FILME: CAROL - 2015


Direção: Todd Haynes - 2015
Duração: 118 min
País de Origem: Reino Unido - Estados Unidos


Este filme é de uma delicadeza ímpar, e a parte o amor homossexual, o que mais me chamou a atenção foi o enfoque no amor feminino. Therese Belivet (Rooney Mara) trabalha numa loja de departamentos na sessão de brinquedos infantis, vive sozinha e tem um namorado. É época de natal, e Carol (Cate Blanchett), uma mulher elegante e refinada vai até a loja em busca de uma boneca para sua filha e é atendida por Therese. 

Carol é casada com Harge (Kyle Chandler) de quem está se divorciando. Há uma troca de olhares entre ela e Therese logo no início do filme, mas a aproximação das duas se dará pela solidão de ambas, pela insatisfação com suas vidas, pelas restrições que a sociedade impõe e pelo que espera da mulher, o que nem sempre está de acordo com ela deseja. 

Quando o marido de Carol a impede de passar o natal com sua filha, exigindo que ela vá junto passar com sua aristocrática família que condena o comportamento de Carol e sua amizade com Abby, madrinha da menina, ela se revolta e decide convidar Therese para fazer uma viagem com ela.

Carol está passando pelo processo de divórcio e a questão da guarda da filha, sendo que foi acusada de comportamento imoral devido sua relação com Abby. Esta viagem aproximará de vez ela com Therese, mas elas não sabem que estão sendo seguidas. 

O que toca é o singelo, a delicadeza, a busca de ser feliz, de poder viver sua vida. O que enfrentam, principalmente Carol, numa época onde o homossexualismo era condenado pela sociedade, o que talvez não difira muito de hoje no sentido do moralismo, uma vez que ainda é tabu. Sem apelos ao erótico, apesar de sua presença sutil, sem apelos ao vulgar, o filme nos traz duas mulheres apaixonadas que encontram uma na outra um sentido para suas vidas tão vazias até aquele encontro. O quanto esta relação transforma as duas. 


Todd Haynes nasceu em 1961 em Encino, Los Angeles, Califórnia, EUA. 

LIVRO: PECAR E PERDOAR Deus e o homem na história - LEANDRO KARNAL



Karnal, Leandro. 1ªed. HarperCollins Brasil, 2014
208 páginas

Karnal neste livro nos fala do pecado e do perdão e para tanto se utiliza dos sete pecados capitais fazendo uma análise laica em relação a vida e aos acontecimentos que ocorrem para todos nós. É muito interessante e válido. 

Ele começa nos falando sobre o perdão, quando muitos de nós ou penso que todos nós muitas vezes achamos que é fácil, que perdoamos, que ficamos bravos no momento, mas depois passa, porém Karnal fala de si próprio, de quando realmente se confrontou com uma situação onde era difícil perdoar. 

Um dos pontos que mais me chamou a atenção é a questão do orgulho, ao qual nenhum de nós escapa e que seria o maior pecado, o que está por trás de todos os outros. Ele nos conta a história de Santo Antão que o diabo faz de tudo para fazê-lo pecar, e após muitos anos de tentativas ele finalmente desiste, e ao sair da caverna onde estava o santo este diz: Deus, consegui!, e o diabo volta com um sorriso nos lábios, ele havia vencido, pois aí está o orgulho. Outro exemplo forte que Karnal nos dá é o de uma mãe que deixa de comer para dar ao filho, o que todos nós consideramos um ato de amor, sacrifício, mas no fundo, esta mãe se alimenta do orgulho de seu ato, há algo de egoísmo nisto. 

Para quem conhece Karnal e já assistiu os vídeos com ele, sabe como ele faz uso da palavra e sua forma de falar, e que se percebe também no livro, há pausas, há lucidez, há um choque muitas vezes. 

Um livro para pensar, analisar seus próprios atos e sentimentos em várias situações da vida. 

Leandro Karnal nasceu em 1963 em São Leopoldo, RS. É historiador e professor da Unicamp

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

FILME: 45 ANOS - 2015



Direção: Andrew Haigh - 2015
Duração: 95 min
Título Original: 45 Years
País de Origem: Reino Unido

O que faríamos se ao completar 45 anos de casados nos víssemos frente a um fantasma da juventude e nos confrontando com o real de qualquer relacionamento, por mais antigo que seja, de que nunca conhecemos ao outro. Kate (Charlotte Rampling) está diante desta situação quando seu marido Geoff (Tom Courtenay) recebe uma carta informando que o corpo de sua namorada e primeiro amor foi encontrado congelado nos Alpes Suíços reavivando algo nunca morreu de fato. 

Geoff era apaixonado por Katya e ela morreu ao cair numa fissura nos Alpes num momento onde Geoff se deparava com uma crise de ciúmes em relação ao guia. A carta mexe com Geoff que passa a se comportar de uma forma diferente enquanto Kate se dá conta de apesar de saber da história há muito que não lhe foi contado. 

O filme é belíssimo. Nos mostra o cotidiano deste casal que mora no campo, que estão casados há muitos anos e tem sua rotina estabelecida. Estão prontos para comemorar com uma festa seus 45 anos de casados. Mas esta carta mexe com toda esta estrutura de vida em comum. Kate se dá conta que Katya é um morto insepulto, que durante todos estes anos esteve presente não só na mente e coração de Geoff como em sua casa através de coisas guardadas no sótão ou de um perfume que ele gosta de usar. Ao decidir enfrentar Kate acaba descobrindo muito mais do que sabia e se no início consegue ouvir Geoff falar dela chega um momento em que não pode mais. 

Geoff enfrenta seu luto, sua perda, sua dor. Kate precisa encarar que este fantasma esteve sempre ali e obviamente as dúvidas surgem: quem ele ama? ele ainda a ama? ele me amou? 

Por mais que se fale há coisas que não se explicam, ou não convencem quando uma dúvida surge. A confiança de anos, a certeza de que sabemos tudo do outro, o que é ilusório, mas acreditamos nisto, que conhecemos nosso companheiro, e de repente não é nada disto. As certezas desmoronam, e estamos diante da falta de controle que gostamos de ter, ou imaginamos ter. Afinal, quem é este com quem estou casada há 45 anos? 

Geoff está diante de uma revivência? ou realmente passou todos estes anos se enganando? ou silenciado? A impressão que passa é que cristalizou o momento, o luto não foi feito, não havia corpo para sepultar. Então isto não havia se encerrado, ficou latente. Uma contingência que afeta toda sua vida. E é preciso continuar, fazer outras escolhas. Geoff escolheu Kate, Kate escolheu Geoff. Este é o momento deles, mas o que cada um traz em si permanece, algumas vezes elaborado, outras não. 

Há uma inversão no final do filme, quando talvez Geoff finalmente encerra este momento do passado e assume sua escolha, e Kate talvez passe a viver a dúvida do que tinha como certo. A cada um sua interpretação do final. 

Andrew Haigh nasceu em 1973 em Harrogate, Reino Unido.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

FILME: AS SUFRAGISTAS - 2015



Direção: Sarah Gavron - 2015
Duração: 106 min
Título Original: Suffragette
País de Origem: Reino Unido

1912 - Reino Unido, após 50 anos de luta pacífica para obter o direito de voto para as mulheres um grupo de militantes conhecidas como sufragistas decidem partir para a ação com atos mais violentos como quebrar vidraças de vitrines, explodir caixas de correio para chamarem a atenção sobre suas reivindicações. A líder do movimento é Emmeline Pankhurst (Meryl Streep), mas quem realmente luta são mulheres pobres, trabalhadoras, vítimas da opressão masculina e algumas mulheres que possuem educação como Edith Ellyn (Helena Bonham Carter) que tem o apoio de seu marido. 

Vemos um retrato da vida das mulheres na época. Destinadas ao casamento não tinham nenhum direito exceto o de trabalhar e ganhar menos que os homens, cuidar da casa, do marido e dos filhos. Além disto sofriam assédio sexual e não tinham como se defender disto. 

Maud Watts (Carey Mulligan) é uma destas mulheres, casada com Sonny (Ben Whishaw) tem um filho, Georgie, e trabalha numa lavanderia, no mesmo local onde seu marido trabalha, porém os homens tem trabalhos externos enquanto elas sofrem problemas respiratórios e de pulmão, além de ganhar bem menos. Maud não fazia parte das sufragistas até se aperceber do movimento, aos poucos ela começa a participar e pagará um preço alto por isto. Seu marido a expulsará de casa por se sentir desmoralizado, envergonhado com os atos dela, e depois ele irá dar o filho em adoção alegando que não tem como cuidar dele. Mas ao invés de com isto fazer Maud desistir, ela se dá conta do quanto não pode se defender nem ao seu filho, ou seja, que não tem direitos. É a partir deste momento que ela passa a se considerar uma sufragista e irá lutar junto as outras mulheres. 

Há cenas de violência contra as mulheres pela polícia e elas são presas, várias vezes. O inspetor Arthur Steed (Brendan Gleeson) é o responsável por contê-las o que ele tenta de todas as formas, mas apesar de tudo elas são persistentes e ousadas, e chegam ao ponto de chamar a atenção de todos através de um ato de Violet Miller (Anne-Marie Duff) diante do rei, o que acaba lhe causando a morte. Mas foi neste momento que a comoção foi geral e o passo maior está dado, mas o direito ao voto elas só obterão em 1918. 

A grande questão deste filme é que se ele se passa em 1912 ele trata de um assunto que é absolutamente atual. As mulheres conseguiram muitos avanços e conquistaram muitos direitos, mas mesmo nos países ocidentais até hoje elas ganham menos. Isto para não falar dos países onde ainda nem conseguiram o direito ao voto. Na Arábia Saudita somente no ano passado, em 2015, as mulheres votaram pela primeira vez. 

Sarah Gavron nasceu em 1970 no Reino Unido.