quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Entre o acolhimento e a opressão das tradições

 


UM AMOR DE FILHA

Hanaide Kalaigian

1ª ed. Editora Autêntica Contemporânea - 2023

144 páginas 

Meliné é uma mulher de meia-idade, casada, e mãe de Aline. O livro articula três eixos principais: as tradições e a cultura armênia — com um pouco da história da Armênia —; a comunidade armênia em São Paulo, profundamente patriarcal; e a relação de Meliné com sua filha.

As mulheres são matriarcas, mas vivem sob a opressão masculina. Entre elas há uma regra clara: as mais velhas mandam nas mais jovens. Dentro de suas casas e de suas cozinhas, elas reinam. Meliné cresceu nesse mundo, sendo subjugada por um patriarcalismo no qual as mulheres dependem dos homens em todos os sentidos. A mulher é vista como frágil, alguém que deve sempre ser protegida pelo homem. Já a filha de Meliné tem outras ideias, e isso inevitavelmente cria um atrito entre mãe e filha.

Surge então outra personagem, Amanda, uma curadora de arte que está em busca de artistas que sejam filhos, netos ou bisnetos de pessoas que passaram por guerras, genocídios e diásporas. Seu objetivo é investigar se há algo na arte produzida por essas pessoas que reflita, ainda que inconscientemente, o trauma herdado. Meliné é artista e tem seu ateliê em casa. Nunca foi reconhecida nem expôs suas obras, mas Amanda a descobre. A partir daí, começa a emergir a história do genocídio armênio e dos horrores vividos por seus antepassados, principalmente pelas mulheres. Não espere, no entanto, um aprofundamento maior nessa questão.

Após sofrer um revés em sua vida pessoal, Meliné passa a viver um conflito interno. Ela se vê dividida entre submeter-se à comunidade ou libertar-se “de uma tradição que a oprime, mas também a acolhe; que amarra, mas também afaga; que protege, mas também limita”.

É o medo que surge quando se dão os primeiros passos em direção à autonomia — um medo que faz gritar por socorro e remete novamente à proteção do conhecido, do familiar. Tudo isso acaba se refletindo no corpo de Meliné.

O livro é curto e este é o primeiro romance da autora, mas ele nos faz sentir toda a angústia da personagem: seus medos, seus conflitos, seu desconhecimento de muitas coisas — do mundo e da própria história. Torcemos para que a filha consiga seguir outro caminho, mas também acabamos gostando de todas essas mulheres, do cuidado que têm umas com as outras e do fato de serem elas as responsáveis por manter vivas as tradições de seus ancestrais dizimados.


Hanaide Kalaigian nasceu em São Paulo em 1962. Um amor de filha é seu primeiro romance. 


Os grandes debates — e as grandes ausências

 


A SAGA DOS INTELECTUAIS FRANCESES VOL I 1944 – 1989

A prova da história – (1944 – 1968)

François Dosse

Estação Liberdade – 1ª ed. 2021. 

701 páginas 

Este é o primeiro volume de A Saga dos Intelectuais Franceses e cobre o período logo após o fim da Segunda Guerra até 1968. O historiador François Dosse nos conduz pela filosofia, pela antropologia e pela literatura, mas principalmente pelas revistas e jornais onde se davam os grandes debates intelectuais na França.

Logo após o fim da guerra, temos o grande momento de Jean-Paul Sartre e do existencialismo, uma filosofia que devolve certa esperança após a total desolação. Em 1949, Simone de Beauvoir lança O Segundo Sexo. É também o momento em que a grande maioria dos intelectuais se volta para o comunismo e louva Stálin, até que a invasão da Hungria, em 1956, provoca um colapso dessas ilusões.

A antropologia e o estruturalismo passam então a ocupar o lugar do existencialismo — correntes incompatíveis entre si. É o momento de Lévi-Strauss e Lacan. Surge a semiologia com Roland Barthes. Na sequência, entram em cena a Guerra da Argélia, o Vietnã, o maoísmo, até chegarmos ao nouveau roman, ao cinema da nouvelle vague e ao início das revoltas estudantis.

O livro tem mais de 600 páginas, portanto não é possível fazer um resumo aqui. No entanto, é preciso fazer uma crítica: o livro fala muito pouco sobre as mulheres, o que revela a posição do autor ao relegar a maior parte das intelectuais ao esquecimento. Onde estão Simone Weil, Violette Leduc, Colette, Françoise Dolto? Apenas para citar algumas.



François Dosse nasceu em Paris em 1950. É um historiador e sociólogo francês, especialista em História dos Intelectuais

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A guerra vista por uma mulher

 

O MUNDO QUE ENLOUQUECEU

OS DIÁRIOS DA GUERRA 1939 – 1945

ASTRID LINDGREN

MADRAS EDITORA – 1ª ED. 2020

368 páginas 


Astrid Lindgren é uma escritora de livros infantojuvenis reconhecida internacionalmente, sobretudo por sua série “Pippi Meialonga”. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela manteve diários pessoais, e são justamente os registros desse período que nos são apresentados nesta publicação.  

Estamos acostumados a pensar a Segunda Guerra como a invasão nazista de territórios alheios, em busca do que Hitler denominava o “espaço vital” da Alemanha. Há inúmeras publicações sobre o tema; no entanto, elas geralmente se concentram na Inglaterra, França, Itália, Áustria, Polônia, Bélgica, no Holocausto e, ainda, nos Estados Unidos, no ataque a Hiroshima e Nagasaki e no efeito letal da bomba atômica. Publicações históricas, relatos pessoais e diários não faltam – o que falta, muitas vezes, é o olhar sobre outros países.  

A Segunda Guerra Mundial faz jus ao seu nome: de fato, atingiu muitos países diretamente e outros tantos de forma indireta. Neste livro, encontramos o relato de uma escritora sueca sobre o que aconteceu nos países nórdicos: Suécia, Finlândia e Noruega.

No primeiro momento da Guerra, Stálin firmou um pacto com Hitler e também passou a invadir países, entre eles a Finlândia. Somente quando Hitler rompeu o pacto e invadiu a Rússia ocorreu a reviravolta, levando Stálin a se unir aos aliados.

Costumamos pensar que, à exceção dos países do chamado Eixo – Itália, Alemanha e Japão –, todos estariam automaticamente contra Hitler. É justamente aí que este diário nos surpreende. Com a invasão da Finlândia pelos russos, o maior medo dos suecos era que o exército vermelho avançasse também sobre a Suécia, o que levou parte da população a preferir, paradoxalmente, uma invasão alemã. Não se tratava de adesão ao nazismo, mas de uma escolha pautada pela sobrevivência nacional. A Suécia foi, afinal, o único país da região que conseguiu se manter oficialmente neutro e não ser invadido por nenhuma potência durante a guerra.

O diário relata o cotidiano dos suecos durante o conflito. Por terem permanecido neutros, em comparação com outros países europeus, encontravam-se em uma situação relativamente privilegiada. Ainda assim, Lindgren demonstra uma percepção aguçada sobre o conflito mundial e sobre o que estava ocorrendo em outras partes da Europa. Ela lia jornais, recortava artigos e os guardava, compondo uma espécie de arquivo íntimo da guerra.

 Ao mesmo tempo, emergem as preocupações de uma mãe, esposa e amiga em tempos de conflito, quando ainda era uma dona de casa – não a escritora consagrada que viria a se tornar.  Trata-se do relato de uma civil que não esteve nos campos de batalha, não era judia, não foi perseguida nem presa em campos de concentração. Vivendo em um país que conseguiu se manter à margem da guerra, ela ainda assim registra, com intensidade, a angústia, o medo e a inquietação que atravessavam o cotidiano. Esses sentimentos permeiam os diários e revelam que, mesmo fora das frentes de combate, ninguém permaneceu ileso.



Astrid Lindgren nasceu em Vimmerby, Suécia, em 1907 e faleceu em Estocolmo em 2002. Foi uma autora de livros infantis traduzidos em 85 idiomas em mais de 100 países. 

1947


 

1947
Elisabeth Asbrink
Editora Âyiné - 2023

280 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS: SUÉCIA 

1947 é um livro que nos apresenta os acontecimentos desse ano no mundo. Normalmente focamos em 1945, o imediato pós-Segunda Guerra Mundial, e 1947 acaba ficando como um ano meio esquecido — e, no entanto, de importância vital.

Mês a mês, Asbrink relata os principais eventos que ocorreram ao longo de 1947, intercalando a questão da Palestina, a situação dos judeus na Europa após o fim da guerra, a posição dos árabes palestinos e as reuniões de um grupo de países neutros que avaliaram o conflito para apresentar uma solução para a questão judaico-sionista. Ao mesmo tempo, ela nos mostra o que aconteceu com os nazistas após o término do conflito.

É um erro de percepção pensar que, com a morte de Hitler, houve o fim do nazismo. O suicídio do líder não encerrou as ideias defendidas pelos nazistas, que se espalharam pelo mundo em fuga e que, até hoje, continuam atuando. Muitos nazistas presos foram libertados devido à falta de estrutura e às condições financeiras precárias da Europa para mantê-los encarcerados. Logo após o fim da guerra, já se reuniam em grupos, mantinham um jornal e se pronunciavam em vários lugares, principalmente na América Latina, para onde muitos migraram.

No meio disso tudo, a autora insere Simone de Beauvoir, que viaja para os Estados Unidos, onde conhece Nelson Algren, seu grande amor. É também o momento em que ela começa a escrever O Segundo Sexo. No entanto, o livro deixa explícita uma Beauvoir que vive em seu próprio universo, sem uma visão mais ampla do mundo e de tudo o que estava acontecendo. Ela reclama que os suecos são tediosos, mas que possuem um bom whisky  e, portanto, está tudo bem. Beauvoir se dizia engajada, mas esse engajamento parece ter se limitado à Argélia e a situações que ocorriam na França.

Asbrink demonstra, ao longo do livro, que a nossa época atual começa em 1947, quando os Estados Unidos passam a assumir uma postura imperial e a se colocar como guardiões do mundo ocidental. A extrema-direita, hoje novamente presente, começa a se reestruturar nesse período. Também se delineiam a criação do Estado de Israel e a questão palestina, que repercutem de forma dramática até os dias atuais, assim como o surgimento de movimentos que mais tarde desembocariam na formação do Estado Islâmico.

Ao mesmo tempo, temos Simone de Beauvoir escrevendo seu livro mais famoso, que ainda hoje repercute entre feministas. Christian Dior lança suas coleções, transformando a feminilidade, poder-se-ia dizer, em uma forma de tortura com suas cinturas finíssimas, em contraposição a Chanel, que buscava conforto e liberdade para o vestuário feminino. Giacometti, por sua vez, deseja destruir todas as suas obras por sentir que ainda não havia alcançado o que buscava artisticamente. Talvez não por acaso, George Orwell está em uma ilha isolada escrevendo “1984”.

Entrelaçando essas histórias públicas, Asbrink insere também a história pessoal de sua família, mostrando como as grandes transformações históricas atravessam existências privadas e subjetividades individuais.

Talvez a maior força de 1947 esteja justamente em nos obrigar a abandonar a ilusão de que a história se organiza por rupturas claras. O fim da guerra não significou o fim das ideologias que a sustentaram, assim como o nascimento de novas ordens políticas não trouxe estabilidade, mas sim novas tensões que ainda atravessam o presente. Ao reconstruir esse período de reorganização global, Asbrink demonstra que a história não é feita apenas por tratados, fronteiras e líderes políticos, mas também por continuidades silenciosas, disputas simbólicas e escolhas que moldam o mundo de forma profunda e duradoura.

Ler 1947 é compreender que o nosso tempo não surgiu de forma repentina. Ele foi lentamente gestado e talvez ainda estejamos vivendo as consequências de decisões tomadas naquele momento histórico, sem que tenhamos, de fato, conseguido superá-las.



Elisabeth Asbrink nasceu Gotemburgo, Suécia, em 1965. É jornalista e escritora. 


PALAVRA PERDIDA

 

PALAVRA PERDIDA

AUTOR – OYA BAYDAR

ORIGEM – TURCA

EDITORA – SÁ EDITORA -  2011

464 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS: TURQUIA 

Palavra Perdida, de Oya Baydar, é menos um romance sobre um escritor em crise do que uma investigação sobre as condições históricas, políticas e afetivas que tornam a palavra impossível. A perda da palavra não aparece como um bloqueio individual ou psicológico, mas como efeito de um mundo em que a linguagem foi capturada: pelo mercado editorial, pelo nacionalismo, pela violência de Estado e pelas expectativas normativas que atravessam a família.

O escritor protagonista perde sua palavra quando passa a escrever aquilo que se espera dele. A literatura deixa de ser espaço de escuta da própria voz e se transforma em produto. A pergunta que atravessa o romance — se a palavra morre quando a voz interior se cala ou quando o sentido desaparece — desloca a crise da escrita para uma dimensão ética e política: escrever torna-se impossível quando já não se pode dizer a verdade do mundo que se habita.

Essa crise atravessa também a família. A esposa, cientista reconhecida, carrega o ressentimento de uma modernidade sempre suspeita aos olhos do Ocidente: mesmo premiada, precisa reiteradamente provar que a Turquia pode produzir ciência “avançada”. O filho, por sua vez, é esmagado pelo imperativo do sucesso. Incapaz de corresponder às expectativas parentais, ele se lança à guerra como fotógrafo, expondo o corpo e o olhar à violência extrema. Aqui, o romance sugere que a falha na transmissão da palavra entre gerações abre espaço para outras formas de inscrição no mundo — frequentemente autodestrutivas.

Ao deslocar a narrativa para o leste da Turquia, Baydar torna explícito aquilo que já estava latente: a palavra perdida é inseparável da violência política. A questão curda não aparece como pano de fundo, mas como núcleo ético do romance. Onde a palavra é proibida, silenciada ou criminalizada, resta o grito — “Mataram a criança!” — que atravessa a narrativa como um chamado irrecusável. A criança morta funciona como figura limite: quando o futuro é destruído, a linguagem entra em colapso.

O exílio final, na Noruega, não oferece uma solução redentora. A tentativa de escapar da violência revela seus limites: não há refúgio absoluto enquanto o mundo continuar organizado pela guerra, pela exclusão e pela negação da alteridade. O romance recusa tanto a reconciliação fácil quanto a nostalgia. O que resta é uma pergunta insistente sobre a possibilidade de recuperar a palavra sem negar o real que a destruiu.

Nesse sentido, Palavra Perdida é um romance profundamente contemporâneo. Fala da Turquia, mas também do mundo globalizado, onde modernidade e tradição coexistem em tensão permanente, e onde a palavra — literária, política, afetiva — está sempre ameaçada de esvaziamento. Baydar escreve contra o silêncio, não para oferecer respostas, mas para expor o custo humano de um mundo que prefere calar a escutar.



Oya Baydar é uma socióloga e escritora turca. Nasceu em Istambul em 1940. 


 

Autobiografia do Algodão 

Cristina Rivera Garza 

Editora Autêntica Contemporânea - 1ª ed. 2025. 

336 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - MÉXICO 

Cristina Rivera Garza nos brinda com “Autobiografia do algodão”, um livro que não foi escrito para ressuscitar a história de seus avós e de suas lutas na fronteira do México com os EUA, mas para reescrevê-la. Sua escrita é híbrida, ela trabalha o algodão como organismo, matéria-prima e metáfora.

É uma autobiografia escrita no coletivo, não se trata de mais uma autobiografia focada no eu individual, e a pergunta é quem sou eu? E não o que me fizeram? Só aqui já temos algo precioso, pois ela foge de um certo vitimismo, mas vai em busca de suas origens, de suas raízes e que acabam demonstrando aspectos próprios dela, que ela assume com orgulho.

A história de sua família (particular) se encontra, se dá dentro do macropolítico (a história do algodão no capitalismo agrícola). O algodão e a terra são personagens dessa história particular, mas também da história de todos ali. Esse duplo movimento entre o particular e o social-político se dá porque as histórias de família na América Latina nunca estão separadas da história do colonialismo. Os corpos e memórias se organizam na escala do latifúndio, da migração, da violência econômica, e não apenas na esfera doméstica.

 Garza faz uso na escrita de documentos, registros históricos, telegramas. Mescla a ficção com a não ficção, com pitadas de realismo mágico, uma defesa do meio ambiente que é algo moderno, se baseia em um livro escrito por alguém que esteve presente nos acontecimentos, e as histórias contadas por familiares. O “eu” aparece de modo fraturado, poroso, às vezes investigativo, às vezes melancólico.

A fronteira é personagem, o rio Bravo, que divide o território na geografia política, mas que na verdade une. Durante muito tempo pensei no Oceano Atlântico como separando o Brasil da Europa, eu no Brasil, a família toda da Europa, até que me dei conta que ele unia os dois continentes. Garza traz Glória Anzaldúa, que também vivenciou esta fronteira, só que do lado de lá. A planta, o algodão, atravessa a fronteira, mas o corpo que a colhe nem sempre pode. Há um momento em que ela se refere às nuvens, que também não são barradas pela fronteira e seus controles.

A história da greve dos trabalhadores do algodão e a cidade ou vila onde ocorreu foram apagados da história, e com isso se apagou também a história dessas famílias. Se apagou a memória, ela nem sabia que era indígena, seus pais pouco falavam da família.



Cristina Rivera Garza nasceu em Heroica Matamoros, México, em 1964. Autora de novelas, contos, poesias e livros de não-ficção. É docente no Colégio de Artes Liberais e Ciências Sociais da Universidade Houston. 


 Após um longo tempo afastada do Blog testando o uso de redes sociais como Facebook e Instagram, tomo a decisão de retornar ao Blog com minhas postagens. 

Começa um movimento fora do Brasil para busca de conteúdos, de boas resenhas, de pequenos textos, ao invés de toda informação compactada, resumida devido ao espaço fornecido pelas redes sociais. Isso sem falar da quantidade de postagens, de "fakes" que se espalham, de conteúdo sem muita utilidade. 

Mas trago novidades. Este blog era dedicado a resenhas e impressões sobre leituras e filmes, agora vou expandir o conteúdo. 

No momento terminei de escrever dois livros, ainda não publicados, sobre a História das Mulheres. O primeiro volume é sobre a Epistemologia, Conceitos e Teorias para o estudo das mulheres. O Segundo volume parte da pré-história até os Persas, recuperando a historiografia feminina e a inserindo no contexto da História Oficial. O terceiro volume que estou escrevendo vai da Mesopotâmia até os Hebreus. 

Mas além deste percurso pela história das mulheres, também trarei outros textos sobre estudos que realizei em filosofia, antropologia e psicanálise. 

Espero que gostem!!! Bem vindos de volta a todos nós. 




domingo, 28 de maio de 2017

LIVRO: BELLA TOSCANA - A Doce vida na Itália - FRANCES MAYES


Mayes, Frances. L&pm pocket , 2010.
304 páginas
Tradução: Waldéa Barcellos 

Após escrever o conhecido "Sob o sol da Toscana" que virou filme (postado no blog) Mayes deu continuidade com este belo "Bella Toscana" onde nos conta com mais minúcias e detalhes sua vida no povoado de Cortona na Itália. 

A reforma da casa, o jardim, a horta, o pomar. Ela vai nos contando, como se fosse um diário, não se trata de um romance contínuo, seu dia a dia na Itália e suas vivências, experiências, nesta terra tão diferente dos Estados Unidos. 

Bramasole é seu refúgio, onde pode recuperar suas energias, sua paz, onde passa alguns meses para recuperar-se e enfrentar os outros meses de sua vida mais estressante, digamos assim. 

Claro que é perceptível que este sonho de poder fazer isto é para quem possui boas condições financeiras, inclusive para poder fazer a reforma não apenas de uma casa, mas de duas na Itália. Mas a leitura é algo relaxante e que nos inspira a fazer algo se não igual, pelo menos parecido em nossas vidas, porque podemos sim ter um jardim, uma horta, construir algo em nossa casa, decorar. Mas o que todos podemos fazer é cozinhar, e o livro traz as receitas

Gosto de ler Mayes quando não estou bem, quando preciso encontrar minha essência, reencontrar meu lar, minha casa, meu aconchego. Ela tem uma vida que muitos de nós desejamos, mas que não podemos ter. Mas podemos sim em nosso próprio universo fazer algo parecido. Ela nos incentiva com sua escrita e isto é muito bom. 

Frances Mayes nasceu em 1940 em Fitzgerald - Geórgia, EUA.

LIVRO: A COZINHA DAS ESCRITORAS - STEFANIA APHEL BARZINI


Barzini, Stefania Aphel. 1ª ed. Saraiva, 2013
240 páginas
Tradução: Rubia Sammarco 
Título Original: La scrittrice cucinava qui 

Este delicioso livro trata da relação de algumas grandes escritoras com a cozinha e a comida. São elas: Virginia Woolf, Gertrude Stein, Simone de Beauvoir, Elsa Morante, Karen Blixen, Agatha Christie, Grazia Deledda, Harriet Beecher Stowe, Pamela L. Travers e Colette. 

Além disto traz também as receitas.

É interessante acompanhar a relação que se estabelece com a comida de acordo com o estado de espírito que se encontra. Há momentos que comemos mais, outros menos, outros que nem comemos.
Neste livro vamos encontrar esta relação de grandes escritoras com a comida seja em sua vida ou em seus livros. A comida traduz emoções e prazeres, mas também o ódio e a tristeza.

A ligação feminina com a cozinha e comida é algo intenso, que reflete a mulher e seu ânimo. Outro exemplo magnifico disto é "Como água para chocolate" de Laura Esquivel, já postado aqui no Blog.
Uma das provas disto é a anorexia e a bulimia, mas também a obesidade.

Comida é vida, mas também é morte. É um ato de amor, é arte, é prazer, mas também uma forma de expressar ou desabafar.

Falo aqui do feminino, porém a relação com a comida se encontra também nos homens, e muitos são os que se dedicam a cozinha. Não falo aqui de chefs, mas da arte de cozinhar para os outros, para si mesmo.




Stefania Aphel Barzini nasceu em 1952 em Roma, Itália

segunda-feira, 8 de maio de 2017

FILME: EDVARD MUNCH - A vida do pintor de O Grito - 1974



Direção: Peter Watkins - 1974
Duração: 221 min
País de Origem: Noruega - Suécia

São 4 horas de duração que apreciei a cada minuto. A arte de Munch sempre me interessou e mesmo não sendo quadros que se poderia chamar de bonitos são de uma beleza imensa e intensa, retratando o interior do pintor, o que via e sentia. Acompanhamos toda a criação artística que reflete sua vida. Aliás o filme é considerado um dos melhores filmes já realizados sobre o processo de criação artística. 

Marcado pela infância que o persegue que o filme nos traz com constantes flash backs. Uma família puritana, a mãe morre quando ele era pequeno de uma hemorragia no pulmão. Neste momento antes de morrer ela o faz prometer que continuará seguindo e amando Jesus. Depois é a morte do mesmo modo de sua irmã Sophie. 

Os desencantos amorosos e com as mulheres que define serem de três tipos: a sedutora, a inocente e a mãe, mas que estão em uma só. 

O filme mostra sua trajetória e também um painel da história e dos artistas e intelectuais, escritores e filósofos. É o retrato de uma época onde os intelectuais se rebelam contra a burguesia e seus valores. Niilistas, anarquistas, Marx escreve "O Capital". A mulher e a sexualidade. 

A pintura de Munch é escura, melancólica, incomoda. Me lembram os quadros dos pacientes de Nise da Silveira. É o psiquismo que se projeta ali. Seu quadro mais famoso é "O Grito". 

Peter Watkins nasceu em 1935 no Reino Unido

06/06/16 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

RETORNO AO BLOG

Retomo a escrita após um bom tempo sem escrever. Não que durante este tempo eu não tenha lido ou assistido filmes, pelo contrário, porém com uma nova opção para viver com a reabertura do meu ateliê acabei me envolvendo muito com tudo isto e deixando de lado a escrita que é outra das minhas paixões. Mas estou retornando e em breve haverá novidades no blog. 

Agradeço a todas as últimas curtidas, principalmente sobre o filme Mucize que encontra-se finalmente disponível no Brasil na Netflix. Quando o assisti pela primeira vez foi em francês num canal de filmes da França. Já o vi duas vezes, e penso em rever, pois é um filme belíssimo e que vale a pena ver e rever. Traz uma bela lição de vida, do viver, dentro da simplicidade de uma aldeia no meio das montanhas, onde não deixam de ocorrer dramas, alegrias, ciúmes, invejas, competições, mas também onde encontramos a solidariedade, o amor, e a dedicação de um professor que é um exemplo. 

Um professor que sabe o que é preparar para a vida, que aceita as diferenças e para lidar com elas tem apenas uma técnica - atenção, amor e acreditar que todos tem potencial e direito a uma chance. Ele irá transformar a vida de várias pessoas na aldeia, entre elas a das meninas que passam a estudar também. Mas principalmente a de Aziz. 

Recomendo o filme. Vale cada minuto. 


sábado, 31 de dezembro de 2016

FELIZ 2017

2016 foi um ano em que postei pouco, mas espero recuperar o tempo neste ano que está chegando . Espero ter mais tempo também para leituras e filmes. Que venha 2017 com muito amor, paz e saúde!!!

domingo, 29 de maio de 2016

FILME: ELE ESTÁ DE VOLTA - 2015



Direção: David Wnendt - 2015 
Duração: 101 min
Título Original: Er ist wieder da 
País de Origem: Alemanha 

Baseado no livro Ele está de volta de Timur Vermes.

Um filme comédia e documentário que todos deveriam assistir.

O ano é 2014 e Hitler (Oliver Masucci) acorda perto de seu bunker em Berlim e tenta entender o que ocorreu ao mundo, para isto se vale de ler todos os jornais numa banca de um jornaleiro que o acolheu. Enquanto isto em uma grande emissora de TV uma mulher toma posse da diretoria e o vice que acreditava que seria promovido se torna seu inimigo. É ele quem demite um cinematógrafo, justamente quem irá encontrar Hitler.  Resolvem então rodar pela Alemanha para que Hitler possa ouvir as pessoas. 

O estarrecedor, ou não, já nem sei, é que as filmagens sobre Hitler falando com pessoas é real, e a reação que as pessoas tem assustam até mesmo o ator. Hitler ouve atentamente o que o povo tem a dizer sobre a Alemanha.   

A emissora de TV lhe dará espaço e o promoverá, tudo por audiência. Até mesmo quando o vice consegue tirar a nova diretora e lhe perguntam se então é a favor de Hitler ele responde - agora eu sou o diretor. Ou seja, a partir deste momento seus princípios, se é que tinha algum, deixam de valer, e o que importa é a audiência. 

O filme mostra claramente o que é a mídia, mas pior que isto, é ver como as pessoas buscam um herói que as livre de tudo aquilo que consideram estranho, diferente, pois uma das principais queixas dos alemães são os emigrantes, apenas trocam os judeus pelos muçulmanos, africanos e outros. 

Hitler sabe que o povo espera este salvador, e sabe fazer uso da propaganda. Interessa-se de imediato pela Televisão e pela internet. Mas também percebe que na TV só passa besteiras, entretenimento, o que evita que as pessoas pensem. As pessoas riem com o personagem Hitler, mas que no filme é o próprio. Hitler sabe que o melhor momento para ele é quando há crise, insatisfação, problemas econômicos. O discurso de salvar o país, a Alemanha para os alemães, recuperar a moral e a tradição, a família. Os alemães que aparecem no filme dizem que é necessário uma experiência nacionalista para que se recuperem os bons costumes, se combata os corruptos, haja emprego. Temas atuais e tão conhecidos nossos também. 

O filme que serviu de alerta para o povo alemão deve servir para outros países também. Há uma tendência para a extrema-direita seja na França, Áustria e outros países, inclusive o Brasil. O que fica visível no filme é a manipulação da mídia e da política, do discurso que vai de encontro ao que deseja o povo. Isto é impactante. O final do filme quando Hitler diz que não adianta matá-lo, que ele está em cada um de nós é uma verdade que é difícil de digerir. Ele lembra então que quem o elegeu foi o povo. 

Após a apresentação dos nomes dos participantes há cenas do mundo atual, que em nada diferem do que foi o fascismo. E o único que se deu conta e resolveu agir, bom este, acaba internado num hospital psiquiátrico.

Temos que ver este filme, pensar, se analisar. O racismo, o sexismo, a violência, o desejo de se livrar do diferente e estranho, a necessidade de que venha um salvador e resolva tudo isto, tudo isto ainda é atual. 

David Wnendt nasceu em 1977 em Gelsenkirchen, Alemanha

LIVRO: A AMIGA GENIAL - Infância, Adolescência - ELENA FERRANTE


Ferrante, Elena. 1ªed. Biblioteca Azul, 2015 .
336 páginas
Tradução: Maurício Santana Dias
Título Original: L'amica geniale: infanzia, adolescenza
Série Napolitana - Primeiro Romance

Confesso que sou atraída muitas vezes por capas, e neste caso o efeito foi contrário, me pareceu um daqueles romances bem água com açúcar, mesmo lendo a sinopse do livro. Mas, por sorte, li uma resenha de um psicanalista sobre os livros da tetralogia de Elena Ferrante que falava sobre as questões de identificações, édipo, e todo o conflito da infância e adolescência. A partir disto procurei um pouco mais de informações sobre os livros, que são quatro, porém lançados no Brasil até o momento foram dois. Este A Amiga genial que é o primeiro, e o segundo que é História do novo sobrenome.

A primeira coisa que me intrigou foi a autora. Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que se mantém fora do circuito da mídia, não se conhece seu rosto, nem quem é. Ela diz que após o livro estar escrito ele não precisa mais dela. Por outro lado isto lhe dá uma liberdade de escrever de uma forma real, indo a fundo nos sentimentos e na descrição de um bairro em Nápoles, pobre, violento, logo após a Segunda Guerra.

A autora tem o dom de colocar em palavras todo o universo interior feminino, começando pela infância que é o caso deste primeiro livro. Suas dúvidas, desejos, a raiva/ódio do pai ou da mãe, a competição, as identificações que fazemos, o corpo e suas modificações, a sexualidade, os sonhos, os medos. 

Este primeiro livro se passa praticamente dentro de um bairro em Nápoles, onde vivem várias famílias pobres e duas que possuem uma condição financeira um pouco melhor e por isto dominam o bairro seja pelo ódio ou pelo medo, mas ao mesmo tempo é explícito a inveja, o ciúme e o desejo de ser igual a eles, mesmo com todas as recriminações que lhes fazem. 

Ali vivem Lila e Lenu e todo o romance irá girar em torno delas. Logo no início, o tempo passou e Lenu recebe um telefonema do filho de Lila dizendo que ela desapareceu. Para impedir este desaparecimento, o apagar de todos os vestígios, a ausência, Lenu começa a escrever a história das duas. 

Ao longo do romance veremos como Lenu vai se identificando à Lila para escapar de sua mãe que é manca, isto me lembra a história de Édipo, mas versão feminina. Na família edipiana os homens tinham problemas nos pés. Lila é ágil, rápida, ativa, o contrário de uma pessoa que manca. Começa uma competição que se no livro é contada por Lenu, não deixa de ocorrer com Lila também. A saída de Lenu para competir com Lila são os estudos, mas virá a frustração, quando Lila se casar com um dos melhores partidos do bairro. Para que serve o estudo? o saber? Lenu ama Nino, que é muito estudioso também, mas deixou o bairro quando criança por seu pai ter se envolvido com Melina que ficou viúva. Nino odeia o pai.

A crueldade infantil não ficará de fora, aqui na competição entre Lila e Lenu, na maneira como elas querem ser melhor uma que a outra e na forma como se provocam. Mas uma não consegue ficar distante da outra, apesar de parecer que Lila o consegue, quando Lenu ler seus escritos verá a dor que ela também sentiu.

Ferrante nos desvenda o feminino desde a infância de uma forma feroz e honesta, talvez justamente por poder se ocultar ela pode falar como ninguém e mostrar o que realmente se passa no íntimo sem subterfúgios,  máscaras sociais.

Recomendo a leitura!!!! 

DOCUMENTÁRIO: SIMONE DE BEAUVOIR E O FEMINISMO - 1959/2007



- Uma mulher atual - Dominique Gros - 2007
- Porque sou feminista - Jean-Louis Servan-Schreiber - 1975
- Simone de Beauvoir fala - Wilfrid Lemoine - 1959 

Este DVD da Versátil nos traz três documentários de Simone de Beauvoir com raras entrevistas com a filosofa, escritor e ativista política francesa.

- Uma mulher atual eu já havia assistido e está postado aqui no Blog. 

- Porque sou feminista (Pourquoi je suis feministe)  - neste documentário Simone é entrevistada por Jean-Louis para o programa "Questionnaire". Fala sobre as mulheres, de como se deu conta da condição destas e sobre a escrita do Segundo Sexo. Lembra que mesmo os da esquerda não olham as mulheres como vulneráveis, uma vez que a luta deles é a de classes não de gênero, e a esquerda também é composta por homens. Diz que nunca se sentiu ela mesma tolhida, porém foi olhando ao seu redor que percebeu a opressão, a maneira como uma sociedade constitui o gênero. 

- Simone de Beauvoir fala - Esta é uma entrevista filmada em Paris pela Radio-Canada, que censurou sua difusão por pressão do arcebispo de Montreal. Aqui ela fala sobre suas ideias, sobre o existencialismo, religião, o casamento, o amor livre. 


Os três documentários nos trazem o perfil de Simone por ela mesma, sua liberdade, curiosidade, sua relação com Sartre e com os intelectuais franceses, a literatura, seus engajamentos políticos. 

Jean-Louis Servan-Schreiber nasceu em 1937 em Boulogne-Billancourt, França.

Wilfrid Lemoine nasceu em 1927 em Québec, Canadá e faleceu em 2003.