quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

FILME: UM SEGREDO EM FAMÍLIA - 2009


Direção: Claude Miller - 2009 
Duração: 100 min 
Título original: Un secret 
País: França 

Baseado no livro Um Segredo em família de Philippe Grimbert

A história é autobiográfica e ficcional na medida que o autor, o psicanalista Grimbert mescla sua própria experiência com ficção.

Talvez por ser um psicanalista ele relata já dizendo o que ocorre com ele, o que fez, mas se não precisamos perceber isto, o sentimos. É um relato de como os fatos se processam, é uma interpretação.

Um menino, franzino, pais esportistas, filho único, ele sente que não corresponde ao desejo do pai e nos relata sobre seu nascimento, de como era pequeno e do olhar decepcionado do pai que lhe deixa um traço por toda sua vida.
Ele cria para si mesmo um irmão que é o que ele não é, que faz o que ele não consegue fazer, que é forte e esportista. Um duplo, mas que não o espelha, atende ao seu desejo de atender ao desejo do pai, do outro. Foi assim que eu senti. Na realidade ele não quer ser como o pai, mas acha uma maneira de lidar com seu desejo de ser amado pelo pai.
Encontra um cachorrinho de pelúcia no sótão, mas sua mãe Tânia ( Cécile de France)  o proíbe de pegar alegando que tem ácaros, mas ele volta depois e o pega e agindo como seu irmão imaginado ele o joga pela janela e o pai quando o encontra fica muito mal.

O filme intercala o menino franzino, François (Valentin Vigourt) , com ele já adulto, psicanalista, quando seu pai Maxime (Patrick Bruel) desapareceu após ter levado seu cachorro para passear e não quis colocar a guia e com isto ele acaba atropelado e morto. Enquanto procura pelo pai ele vai recordando o passado e nos contando a história.

O interessante é o que o filme retrata o passado em cores e o presente está em preto e branco, mostrando com isto o quanto o passado é vivo, colorido e está presente, mais do que o próprio presente.

Justamente por não saber quase nada do passado dos pais é que François se baseando em uma frase e outra constrói este passado que é segredo. Mas chega um dia que na escola passam um filme sobre o holocausto e o seu colega debocha e ele se irrita e acabam brigando. A partir daí o segredo lhe será revelado por uma vizinha que não irei relatar para não antecipar a quem for assistir o filme.



Apesar de sua análise lacaniana, François nos diz que ter descoberto o segredo, ter simbolizado, nomeado e dado um lugar, não o libertou de seus fantasmas, que hoje o auxiliam a trabalhar com seus pacientes. A partir do momento que o segredo se revela o presente passa a ser filmado em cores, se iluminou, não é mais apagado por um segredo.



Há muitos detalhes no filme, e no que vai se revelando aos poucos e também no presente, quando encontra seu pai.
Os efeitos do silêncio, do segredo que muitos mantém e que de alguma forma se transformam em herança para os descendentes. Um filme sobre o holocausto, a Segunda Guerra e seus traumas e silêncios.

Vale a pena assistir.

Não irei postar sobre o livro que também li, pois é redundante, mas segue a dica:


Grimbert, Philippe. Record, 2009
Tradução: Tatiana Salem Levy
176 páginas

Claude Miller nasceu em 1942 em Paris , França e faleceu na mesma cidade em 2012.

Musica Les Valseuses - Laurent Korcia

Laurent Korcia nasceu em 1964 em Paris. É um violinista francês

FILME: O PONTO DE MUTAÇÃO - 1990


Direção: Bernt Amadeus Capra - 1990
Duração: 112 min 
Título original: Mindwalk 
País: Estados Unidos 

Baseado no livro O ponto de Mutação de Fritjof Capra, irmão do diretor. 


No filme temos o encontro no Mont Saint-Michel na França de três pessoas: um poeta Thomas (John Heard), um político Jack (Sam Waterston)  e uma física Sônia ( Liv Ullmann) que irão dialogar enquanto caminham pelo local sobre as questões que são abordadas no livro de Capra.


Jack após uma derrota política vai passar uma temporada com seu amigo o poeta Thomas na França que o leva até o Mont Saint-Michel, lá eles encontram casualmente Sônia que se hospeda ali para refletir sobre seu trabalho na física quântica.

É no diálogo dos três que veremos a discussão sobre os velhos paradigmas e a necessidade urgente de mudar algo.



Mont Saint-Michel - França 

Bernt Amadeus Capra nasceu em 1941 em Viena, Áustria. É irmão de Fritjof Capra. 

LIVRO: O PONTO DE MUTAÇÃO - A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente - FRITJOF CAPRA


Capra, Fritjof. Cultrix, 1982
Tradução: Álvaro Cabral
432 páginas

Li este livro a primeira vez em 1983 para um trabalho na Universidade. Depois voltei inúmeras vezes à ele e a última foi em 2012 para novamente fazer um trabalho, desta vez para a Faculdade de Filosofia. Também assisti ao filme.

Um livro que continua atual e que merece ser lido. Capra é Ph.D. em Física Teórica e sua tese é de que precisamos mudar nossos paradigmas. Faz uma análise destes  visitando o pensamento de Descartes, Newton e de como estas idéias atuam no mundo, dividindo, separando, ao invés de ver o todo. Para Capra o todo é maior que a soma das partes, e ele defende uma visão holística do mundo.
Segundo Capra todas as crises pelas quais passamos sejam políticas, econômicas, psicológicas e sociais se dão porque temos uma visão errônea das coisas, queremos separar cada coisa e na realidade tudo isto funciona junto. Não há como resolver uma questão econômica sem levar em conta o contexto político, o psicológico das pessoas, o sociológico e o ecológico.

Capra parte em direção de uma nova física, com Einstein e a teoria da Relatividade na qual espaço e tempo são inseparáveis. Defende uma visão sistêmica do mundo vendo a tudo como relações, uma teia, e não por partes. A visão holística pensa no futuro, em que possamos deixar algo para nossos descendentes e frear o consumo desenfreado, e desgaste e a destruição da natureza sem pensar ecologicamente. É uma mudança de valores, ética e em nossas crenças, ou seja, trocar de paradigma. Um ponto de mutação, de mudança.

Este livro é para ser lido e relido, estudado e para meditar sobre o que estamos fazendo com nosso planeta, como estamos vivendo, o que realmente tem valor e o que não tem, quais nossas reais necessidades. Vivemos num mundo onde o vazio, a solidão, a violência, a depressão impera, será que estamos agindo da melhor forma? Será que não vale a pena mudar?

Fritjof Capra nasceu em 1939 em Viena, Áustria. É um físico teórico doutorado pela Universidade de Viena.


Entrevista com Fritjof Capra : http://www.youtube.com/watch?v=P6-yuMpk6B8

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

ROTEIRO DE LEITURA: A LEBRE COM OLHOS DE ÂMBAR - EDMUND DE WAAL

Netsuquês são pequenos objetos esculpidos em madeira ou marfim, ou talhado em metal, atravessados por um orifício, usados pelos japoneses como adorno para prender uma pequena bolsa ou sacola à faixa do quimono.  Muito comum no período Edo, hoje é utilizado como enfeite em tiras de celulares. (Wikipédia).













Vamos seguir o livro de Edmund Waal na reconstrução da história de sua família e do trajeto dos netsuquês através da história mundial.

PARIS - 1871 - 1899  - Charles Ephrussi 






Rue de Monceau em Paris, nº 81 onde viveu Charles Ephrussi, é onde começa a jornada dos netsuquês.












Os quadros de Gustave Caillebotte - Le Pont de L'Europe e
Jeune homme à sa fenêtre citados na pág. 38.

 
Gustave Caillebotte                          Louise Cahen d'Anvers                  




Chalet Ephrussi na Suíça 






Pintura de Monet - La Japonaise - citado pág. 56 (esquerda)

Pintura de James Tissot - La japonaise au bain - citado pág. 62 (direita)














 
Berte Morisot e um dos seus quadros " A blusa vermelha" - citada pág. 78 
Edouard Manet - Une Botte d'asperges
                          Claude  Monet - Les Glaçons - citado pág. 81        
  Les Bains de la Grenouillère - Claude Monet - pág. 81
                                    Edgar Degas - Visconde Lepic  - pág. 82






Renoir - O almoço dos remadores - pág. 83- com Charles ao fundo de cartola.

Renoir - Rosa e Azul - pág. 86



Gustave Moreau - Salomé e Hércules - pág. 86


VIENA - 1899 - 1938 - Viktor Ephrussi 



PALAIS EPHRUSSI 


 


Edmund de Waal no Palais 

1- Quarto
2 - Salão das damas
3- Salão de dança
4 - Sala de recepção
5- Sala de fumantes e de bilhar
6- Sala de jantar 


Anna Von Lieben tia-avó de Emmy que foi paciente de Freud e é o caso Cecilie M. - uma mulher com uma psicose de negação histérica. 

TÓQUIO - 1947- 2001 - Iggie Ephrussi 


Elisabeth e Iggie 



ROTEIRO DE LEITURA: MUITO LONGE DE CASA - Memórias de um menino-soldado - ISHMAEL BEAH

Ishmael nasceu em Serra Leoa, República da Serra Leoa, um país localizado na África Ocidental.



De 1991 à 2002 o país esteve envolvido em uma Guerra Civil conhecida como "guerra dos diamantes de sangue"

Este vídeo que está no Youtube é sem áudio, mas retrata a guerra civil em Serra Leoa. Também temos o filme Diamantes de Sangue de Edward Zwick.




ENTREVISTA DE ISMAHEL BEACH - CBS News onde ele fala de sua experiência. Está no Youtube.

ROTEIROS DE LEITURA

Quando leio um livro normalmente busco informações sobre os locais ou fatos descritos. Ás vezes percorro os mesmos locais utilizando o Google maps, vendo o que o personagem descreve no livro e isto aumenta minha percepção do que está sendo contado.

Por isto resolvi colocar no Blog alguns roteiros de leituras dos livros que estão resenhados para os que desejarem visualizar a história contada no livro.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

LIVRO: MUITO LONGE DE CASA - Memórias de um menino-soldado - ISHMAEL BEACH


Beah, Ishmael. Ediouro, 2007
Tradução: Cecilia Gianetti
224 páginas
Título original: A long way gone: memoirs of Boysoldier

País: Serra Leoa 

Um relato doloroso e terrível de uma realidade que ocorre em vários locais, os meninos-soldados, crianças que perdem sua infância, ou melhor, tem sua infância literalmente roubada, perdem suas famílias, suas referências, se vêem sozinhas no meio de uma guerra, fugindo, com fome, apavorados e tem que aprender a sobreviver, lutar, fugir, até que em determinado momento ou são capturados ou se entregam em busca de um pouco de segurança e comida e se transformam em meninos-soldados.

Ishmael tinha 12 anos quando a guerra civil de Serra Leoa, África, o atingiu. Era um dia feliz, como outro qualquer na pré-adolescência, estava com amigos, havia passado pela casa da avó, quando de repente tudo se foi, a aldeia onde morava fora atacada pelos rebeldes.

O relato é doloroso, cruel, a luta pela vida, não poder mais olhar por ninguém a não ser salvar a si próprio, o medo, a desconfiança que se instala num povo antes hospitaleiro, tranquilo e pacífico. No meio de todo este horror ainda os resquícios desta vida de antes através das histórias que se contavam, sobre o porco selvagem, o Seu Aranha, que é um fio extremamente frágil com o que era e o que poderia ter sido a vida deles se não houvesse a guerra civil.

A lavagem cerebral com a incitação ao ódio efetuada pelos rebeldes ou pelos soldados do exército, o uso de drogas, até o momento em que ao invés de fugir do morticínio ele mesmo começa a perpetuá-lo, matando a sangue frio, planejando os ataques e rindo depois. O que se lê no livro é a transformação de uma criança feliz em um apavorado fugitivo que sente repulsa pelo o que vê  e depois se transforma ele mesmo em um assassino cruel.

Quando a Unicef entra no país ele será levado para um centro de reabilitação. Aos poucos será desintoxicado das drogas, mas o trauma, este permanecerá. Os pesadelos, o medo, a desconfiança, as enxaquecas. Será adotado por um tio, irmão de seu pai, irá aos Estados Unidos participar de uma conferência que reuniu crianças de vários países onde ocorrem coisas iguais ou piores, e ao retornar, quando acredita que está podendo retomar sua vida, a guerra o alcança novamente. Ele foge, deixa Serra Leoa para trás e consegue chegar aos Estados Unidos onde poderá escrever este livro num ato de coragem e de redenção.

A guerra civil teve início em 1991 com a derrubada do governo, a luta visava o poder e a posse dos diamantes em Serra Leoa, que também financiavam os golpes e os rebeldes. O país estava marcado pela corrupção e má administração e em nome disto eles lutavam, mas como sempre ocorre, o motivo é belo, mas a desgraça é pouca, a crueldade, os civis que são mortos sem motivo algum, apenas para diversão ou mostra de poder. Uma triste realidade do que o ser humano é capaz. A RUF, o grupo de extremistas passaram a controlar o leste do país, justamente a zona de mineração. O pai de Ishmael trabalhava na mineração. Para dominar a área eles invadiam as aldeias e matavam todos, mutilavam, ateavam fogo nas casas. Não queriam que as pessoas fugissem, mas se ficavam morriam, se fugiam eram mortos se alcançados. Ishmael conseguiu fugir. A guerra civil terminou em 2002. É triste ver um povo que era pacífico, alegre, que tinha seus rituais, hospitaleiro, que respeitava os velhos, ser destruído desta forma em nome do poder e do dinheiro. A dispersão, os refugiados que sofrem, a perda de referências e de sua família, amigos, de sua vida.


Ishmael Beach nasceu em 1980 em Mattru Jong em Serra Leoa. Chegou aos Estados Unidos em 1998 e graduou-se em Ciência Política em 2004. É membro do Comitê de Direitos da Criança da ONG Human Rigths Watch. Já falou várias vezes na ONU e vive em Nova Iorque.

Este livro tem Roteiro de Leitura no Blog.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

LIVRO: JAKOB VON GUNTEN - Um diário - ROBERT WALSER


Walser, Robert. Companhia das Letras, 2011
Tradução: Sergio Tellaroli
148 páginas

Jakob Von Gunten entra para o Instituto Benjamenta que forma pessoas para servir e esperar. O que estaria fazendo ali um filho de nobres? O que teria levado Jakob a fazer esta escolha?
O livro não é de fácil resenha, pelo contrário, cria desconforto ao mesmo tempo que é brilhante, mas como todo diário e toda vida não apresenta um final, mas fragmentos, deixa pistas, porém nada nos garante que será assim.
Um mistura de autobiografia e ficção, uma vez que ao me informar sobre a vida do autor vê-se que ele se coloca no lugar de Jakob em alguns momentos e talvez em outros apresente o que desejou, o que temia, o que percebia. Walser termina sua vida num Instituto Psiquiátrico. E aí eu retomo o que sempre digo, os chamados loucos estariam mais próximos do real do que os que se consideram normais? E talvez por isto não consigam lidar com isto, e escrevam, delirem, criem mundos à parte.
Há descrições neste diário do mundo que se perde sem viver por querer atender ao que todos esperam dos outros, por estarem baseados em aparência, sucesso, a suposta felicidade. Jakob estaria fugindo disto? ao buscar uma formação que o transformasse num criado? que saberia servir e sempre esperar, ter paciência, mas ao mesmo tempo se desenvolver interiormente? Não há respostas no livro, mas nos leva a refletir e muito sobre o mundo em que vivemos e sobre o que buscamos.

Wasel era o escritor preferido de Kafka, também apreciado por Elias Canetti, Walter Benjamin, aliás, assim que li Benjamenta, me veio Benjamin, mas em momento algum há algo que confirme isto.

Robert Walser nasceu em 1878 em Bienna na Suíça e faleceu em 1956 em Herisau - Suíça. Apesar de apreciado por grandes nomes da Literatura como Kafka ,Canetti, Walter Benjamin, Robert Musil entre outros ele mesmo não foi reconhecido. Foi internado numa clínica psiquiátrica e foi encontrado morto na neve no dia de Natal em 1956. Hoje é reconhecido como um dos escritores mais importantes do século XX.