quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

FILME: CINQUENTA TONS DE CINZA - 2015


Direção: Sam Taylor-Johnson - 2015 
Duração: 107 min
Título Original: Fifty shades of grey

Adaptação literária do livro homônimo de E L James. 

Não era minha intenção assistir a este filme, mas instigada por pessoas que o assistiram acabei me rendendo. Diziam haver uma charada e isto me atrai. Assisti e fiquei me perguntando qual era a charada, seria o óbvio? que Christian Grey (Jamie Dornan) tinha problemas e traumas de infância? que havia se transformado em um agressor? Sim, porque uma relação sadomasoquista só pode ser patológica. Mas e ela? a paixão seria suficiente para levar uma jovem a se submeter inclusive a dores físicas? 

E foi então que me retirei do filme em si e pensei na autora do livro e do por que de sua escrita. Deixo claro aqui que não li a trilogia, mas que o que me veio é uma opinião pessoal que eu pensei assistindo ao filme. Trata-se da fantasia erótica, até mesmo pornográfica de uma mulher e não de um homem sádico. Estaria diante de uma versão feminina de Sade moderna? 

O filme é leve nas cenas de sexo e de sadomasoquismo, muito diferente do que escreveu Sade. Mas não pude deixar de ver uma mulher fantasiando tudo isto o que me foi ficando mais claro em certas cenas, como a que ela discute com ele os parágrafos do contrato onde retira o que a incomoda e ele aceita numa boa, quando ele leva gelo para a cama, e todo o contexto do filme de Cinderela, um príncipe encantado que é rico, poderoso, e que lhe dá presentes, a apresenta à família, mas esconde dela o trágico de sua vida. Ora, isto existe na vida real? tudo de acordo com um sonho que de repente vai além e passa ao erótico e pornográfico, mas com o homem que ela ama e que aceita suas restrições? 

Quando chegamos ao final do filme, deste primeiro da trilogia, Anastacia (Dakota Johnson) percebe o que vai ter que passar, e pergunta por que ele é assim, o que o levou a ser assim e lhe diz que está apaixonada. Ela era virgem, sem nenhuma experiência em sexo, e entra nesta relação doentia por paixão, onde podemos perceber que a paixão também é algo doentio, que retira da pessoa seu ego e o transfere para outro, é estar a-mando! de alguém . Todos nos apaixonamos e passamos por um momento assim, mas daí a se envolver numa relação que cause abusos e submissão física e psíquica é outra coisa. Normalmente a paixão ou se transforma em amor ou acaba, e todos nós desejamos uma relação saudável, companheira, de amor. 

Não há relação sadomasoquista que seja saudável, ela sempre termina mal, e os envolvidos tem questões a serem resolvidas e curadas, e não é numa relação assim que isto acontece, e principalmente, amor não cura isto. Se Grey sofreu abusos na infância ele precisa se tratar para poder amar uma mulher  e quanto à Anastácia há também questões inconscientes nela, a começar por uma mãe que não comparece em sua formatura, que foi a única deixa do filme sobre ela. Mesmo que se trate de fantasias eróticas estamos diante de alguém que quer se autorizar a ser um objeto de outro. 

O que me preocupa é a reação das meninas e mulheres à este filme que ao invés de saírem indignadas ficam extasiadas com este homem doente, o que me leva a pensar no que é que este filme mexe inconscientemente? O que ele ativa? em qual desejo ele está tocando? o que está recalcado que é tocado? 

Ouvi de mulheres que ficaram com raiva dele quando ele bate nela, eu neste momento fiquei indignada com ela, por se submeter à isto. Sim, ela estava ali porque quis, e foi uma péssima escolha e não há carro, helicóptero ou beleza de um homem que justifique isto, não há paixão que justifique e aqui neste não existe amor, seria uma triste ilusão pensar isto. Para todo sádico há um masoquista, e ambos tem problemas, isto é importante frisar, não é apenas ele o que tem problemas neste filme e que precisa ser curado, ela também. 

Sam Taylor-Johnson nasceu em 1967 em Craydon, Reino Unido. 

FILME: INVENCÍVEL - 2014




Direção: Angelina Jolie - 2014
Duração: 137 min
Título original: Unbroken

Cinebiografia de Louis Zamperini - herói de guerra

Baseado no livro de Laura Hillenbrand - Invencível - Uma história de coragem.


O filme é sobre a história de Louis Zamperini que sobreviveu a Segunda Guerra Mundial após passar por provações extremamente difíceis. 

Zamperini (Jack O'Connell) quando jovem tendia a uma delinquência por ser excluído pelos outros meninos provavelmente pelo preconceito, ele vivia nos Estados Unidos, mas era filho de italianos. Como sempre o diferente assusta. Foi graças a seu irmão mais velho que ao notar que ele era muito bom em correr dos outros que ele se tornou um atleta olímpico em corridas. Isto lhe deu um lugar e um sentido em sua vida. Ele devia correr em Tóquio nas Olimpíadas mas a Segunda Guerra se iniciou. 

Em uma missão de busca de companheiros desaparecidos no Havaí, o avião onde ele estava cai no mar, e é o início de sua odisséia. Foram 47 dias no mar, dos três que se salvaram no acidente, sobreviveram dois. Mas as suas dificuldades estavam apenas começando, eles foram resgatados pela marinha japonesa e eram inimigos.

Zamperini ficou nas mãos dos japoneses durante dois anos e teve um carrasco em especial, Mutsuhiro Watanabe (Miyavi), que fez de tudo para derrotá-lo ao perceber seu grau de determinação. 

Todos os prisioneiros passaram por momentos difíceis e de extrema provação. Alguns não resistiram, outros desistiram e acabaram colaborando para ter uma situação melhor e outros conseguiram. Zamperini é um deles, com uma coragem imensa, um desejo de viver fortíssimo, e muita determinação ele supera todas as provas e situações inimagináveis para nós que não passamos por uma guerra.

A guerra é algo difícil de emitir qualquer julgamento. Os americanos sofreram muito nas mãos dos japoneses, por outro lado também se conscientizaram da destruição que seu país provocou entre os civis no Japão, e isto antes das bombas atômicas serem lançadas sobre Hiroshima e Nagazaki. Há um outro filme que fala do mesmo assunto que já postei aqui no Blog - Uma longa viagem.

Após a guerra Zamperini sofreu de stress pós-traumático, mas se recuperou. Ele morreu aos 97 anos. Watanabe foi julgado e condenado como criminoso de guerra pelos maus tratos que infligiu aos prisioneiros, porém ele fugiu. Ele era de uma família rica proprietária de hotéis e minas, estudou literatura francesa. Depois ele retornou a uma vida normal e quando Zamperini foi a Tóquio em 1998 ele declarou em uma entrevista que nunca se arrependeu e que tratou os americanos estritamente como inimigos do Japão e se recusou a receber Zamperini.

Esta é a grande diferença do que ocorreu com Lomax do filme Uma longa viagem que reencontrou seu torturador - Nagase Takashi e que após os dois falarem tudo que sentiam acabaram se tornando grandes amigos.

Louis Zamperini

Louis Zamperini

Mutsuhiro Watanabe

Mutsuhiro Watanabe

Angelina Jolie nasceu em 1975 em Los Angeles, Califórnia, EUA

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

LIVRO: LIVRE - A jornada de uma mulher em busca do recomeço - CHERYL STRAYED



Strayed, Cheryl. Objetiva, 2013
375 páginas
Tradução: Débora Chaves
Título Original: Wild 

Assisti ao filme recentemente e já postei no Blog. Ontem terminei a leitura do livro. 

O filme condensa todo o percurso de Cheryl pela PCT - Pacific Crest Trail, por 1770 quilômetros partindo do deserto de Mojave no sul da Califórnia até a Ponte dos Deuses no Estado de Washington, mas no livro podemos acompanhá-la mais vagarosamente em suas dificuldades, obstáculos, momentos especiais, alegrias, conquistas, e toda a transformação que se processa nela mesma. 

Após a morte de sua mãe aos 45 anos de idade de um câncer Cheryl não se recupera e cada vez se perde mais de si mesma até o dia que ao descobrir que está grávida, sem ao menos saber quem seria o pai, ela faz um aborto e reconhece que virou algo horrível, que não é mais possível continuar assim. Ela se divorcia do marido, e começa os preparativos para sua caminhada sozinha pela PCT.

O livro relata esta jornada, e apesar de termos a impressão de que nada ocorre internamente, uma vez que ela está focada no externo, na atenção que tem que ter na trilha devido cascavéis, animais, buracos, obstáculos, o cansaço físico, a constatação de seu despreparo para fazer isto, o tamanho de sua mochila que ela apelida de "a monstra", o descuido de que poderia haver vários imprevistos o que a coloca em situações difíceis como a falta de água, ter que fazer um desvio devido a neve excepcional naquele ano que a tira de sua rota e acaba deixando-a sem dinheiro em alguns momentos, aos poucos algo dentro dela vai se transformando, como se tudo o que ocorre no externo seja apenas uma metáfora de sua transformação interna, até o momento em que ela dá o salto psíquico.

Era o dia que sua mãe deveria completar 50 anos, e neste dia Cheryl consegue gritar e colocar em palavras tudo que sente, é o momento de sua libertação interna que irá possibilitar um renascimento. Lamento que o filme não tenha colocado este momento por completo como está no livro. Ao assistir senti falta deste momento, onde ocorreu a cura? a ultrapassagem? o momento decisivo para toda sua mudança? e o encontrei no livro.

Confesso que adoraria ter a coragem dela, é uma caminhada de crescimento, de percepção de si mesma, de enfrentamento, de superação. Eu prefiro fazer isto no divã de um analista. O processo interno ocorre da mesma forma, mas leva mais tempo. Eu não superaria o medo da noite, o medo do outro, de sofrer algum tipo de agressão, nunca faria isto sozinha como ela fez, mas adoraria fazê-lo.


Com sua família que constituiu após a trilha

Cheryl na trilha 

Mapa da PCT

PCT
PCT
PCT

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FILME: O DESTINO DE JÚPITER - 2015



Direção: Andy Wachowski e Lana Wachowski - 2015
Duração: 120min 
Título Original: Jupiter Ascending 

Dos mesmos criadores de Matrix, novamente estamos diante da Terra como um local onde se criam seres humanos para alimentar energeticamente outros seres da galáxia. No primeiro estavam presos em incubadoras, neste são semeados na terra para serem colhidos, como uma colheita. A diferença é que aqui ninguém acorda para a verdade, não há pílula a ser tomada, os terráqueos ficarão na ignorância. 

Júpiter (Mila Kunis)  sonha com um grande destino enquanto se sustenta fazendo faxinas e limpando banheiros. O que ela não sabe é que seu mapa genético é idêntico a rainha mãe morta em outro planeta, justamente aquele que usam os humanos para produzir um soro da juventude. Seus três filhos brigam entre si pela primazia da "plantação" e a presença da mãe que poderia reivindicar todas as plantações coloca em risco seus planos. 

Júpiter será protegida por Caine (Channing Tatum), um guerreiro interplanetário geneticamente modificado que foi enviado por um dos filhos para protegê-la, porém ele também tem outros planos, o de se livrar de ambos. 

Após muitas reviravoltas, perseguições, lutas, com muitos efeitos especiais, tudo termina com a volta da família de Júpiter para a terra e o completo esquecimento do que ocorreu. Aqui não há um despertar como em Matrix. 

Andy e Lana Wachowski . Andy nasceu em 1967 em Chicago, Illinois, EUA e Lana em 1965 na mesma cidade. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

FILME: JIMMY'S HALL - 2014





Direção: Ken Loach - 2014
Duração: 109 min
País: Irlanda - Reino Unido - França 

Indicado para Festival de Cannes 2014 para longa-metragem 

Uma cinebiografia de Jimmy Gralton (Barry Ward), um irlandês que desafiou a igreja católica e os latifundiários desafiando a censura e liberdade de expressão. 

Jimmy retorna à Irlanda após ter passado 10 anos nos Estados Unidos. De 1919 a 1921 a Irlanda lutou pela sua independência do Império Britânico. Em 1922 houve uma guerra civil entre os que aceitaram o tratado com os ingleses e os que não aceitaram. Os britânicos apoiaram os primeiros que venceram provocando uma grande amargura em todo país. Jimmy foi embora nesta época e agora retorna em 1932. Sua mãe está sozinha, seu irmão faleceu e seu grande amor Oonagh (Simone Kirby) está casada com outro e tem filhos. 


Os jovens da cidade o procuram e lhe pedem para reabrir seu salão. Jimmy e seus amigos acabam concordando e reabrem o salão que é um local onde se pode falar, trocar idéias, aprender com as aulas ofertadas e principalmente dançar. Jimmy irá ensinar a dançar o jazz, ele trouxe um gramofone e discos dos Estados Unidos. Nada de mais aparentemente, mas o padre católico não gosta nada disto e diz que somente a Igreja tem permissão para o ensino, e que o salão paroquial é suficiente para o entretenimento e para dançar.






A situação na Irlanda não está boa, os latifundiários dominam e expulsam os pobres de suas casas por não conseguirem pagar o aluguel. É o começo do IRA e eles procuram a ajuda do grupo de Jimmy pedindo a ele que discurse para o povo, que somente à ele irão ouvir e confiar. Os sacerdotes se colocam contra Jimmy e pregam contra ele na igreja além de ameaçar e subornar os fiéis para que se afastem dele. Oonagh sugere que ele tente trazer o padre para o salão o que ele tenta fazer, mas a condição do padre é a escritura do terreno e do salão em nome da igreja. Jimmy se retira dizendo que ele só escuta aos que estão de joelhos.



Após a retomada de posse de uma casa da qual um latifundiário havia expulsado uma mulher com seus filhos, haverá tiros contra o salão e na sequência o mesmo será queimado. A polícia prende Jimmy e ele é deportado, nunca mais podendo retornar à sua terra natal, morreu em Nova York em 1945. 

A intolerância, a ganância, o poder, o velho refrão que se repete sempre. Jimmy era considerado comunista porque lutava pelos pobres e pela liberdade, para que todos pudessem ter uma vida digna, alimentos e moradia, enquanto os latifundiários viviam na opulência e massacravam os trabalhadores. A igreja intolerante, querendo deter também o poder se coloca ao lado destes latifundiários e oprime qualquer tentativa do povo de se emancipar, estudar ou até mesmo de ter um simples prazer como dançar. 

Jimmy Gralton 

Ken Loach nasceu em 1936 em Nuneaton, Reino Unido 

DOCUMENTÁRIO - ESTAMIRA - 2004



Direção: Marcos Prado - 2004
Duração: 116 min

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a inteligência e o vocabulário de Estamira. Não conhecia sua história, aos poucos fico sabendo que antes ela tinha outra vida, foi casada com um italiano, teve filhos, mas devido a traição do marido que sempre tinha outras mulheres ela o deixou. Após isto foi estuprada duas vezes, e foi após o segundo estupro que se deflagrou o quadro de esquizofrenia, quando ela passa a desacreditar em sua vida de antes e em Deus.

Mas suas frases e apontamentos são extremamente lúcidos desde que se tenha escuta para eles. O trocadilho, uma inversão, é lógico. Sua consciência ambiental supera em muito as pessoas ditas normais. Que ela tenha raiva de Deus, diante de sua realidade e também do real que se apresenta, principalmente num estupro, e não foi só isto, ela foi abusada pelo avô, e sua mãe também sofreu incesto e depois deixada num prostíbulo com 12 anos por este avô.  Ela não era perturbada, era muito religiosa, achava que as dificuldades eram uma provação, até o momento que não deu mais conta do real e ao olhar um coqueiro disse que isto era o real e o poder. Começa o processo se sentindo perseguida pelo FBI.

Seus delírios, visões, o que ela ouve é a maneira que seu psiquismo encontrou para lidar com o real. O estupro é o real, não há palavras para o dizer. Ela não teve ajuda neste momento, não pode usar de uma forma alternativa se apegando a um Deus, por exemplo. Mas Estamira se relaciona com os outros, é falante, ela chora, ama seus filhos, sofre pelas traições que sofreu e principalmente chora porque colocou sua mãe no hospício Engenho de Dentro, não se perdoa por isto. Tem saudades de seu pai e fala dele com carinho.  Ela diz que é má, ruim, mas não é perversa.

Suas frases me tocam: " isto aqui é um depósito de restos. Às vezes é só restos e vem também descuido. " se referindo ao lixo. Ela diz que tem que conservar, proteger, lavar, limpar e usar mais, o quanto pode. Economizar é maravilhoso, quem economiza tem.
Diz- miséria não, regras sim. Ela aceita a Lei, a regra. Fala que quanto menos se tem mais menosprezam e jogam fora. Que os laços negativos sujam tudo. Que sacrifício é diferente de trabalho, ela defende o trabalho. E a frase que mais me tocou: " tudo que é imaginário existe".

Seu  discurso é místico,  ela tem revelações que avisa aos inocentes, ela já sabia de tudo antes de nascer. Faz uso de uma linguagem não compreensível aos outros para se comunicar com este outro mundo, mas que para ela faz sentido. É uma mística não religiosa, mas do mundo, do real. Ela mata Deus, assim como Nietzsche o fez.

Seu discurso busca colocar ordem no caos. Ela diz que as vezes sua mente é como água com gás, borbulha. Ela está gritando algo que ninguém consegue ouvir, precisa de alguém que o consiga.

Quando algo do real não é possível e falar ele atua de alguma forma, vai gritar, o corpo vai gritar, os atos vão gritar, é necessário o que a psicanalista Radmila Zygouris chama de transferência cruzada numa análise, quando é o analista que passa a falar, colocar ordem, dar palavras ao que não é possível dizer. Processo lento e doloroso. O analista repete o crime e o nomeia.

Tudo que é diferente e estranho nos assusta e logo é rotulado, é uma louca. Não, Estamira não é louca, ela tem coerência em sua fala, ela é humana, mas tem uma ruptura que precisa ser nomeada. Ela tem noção de quando fala através de suas visões e quando não, o percebe. Isto também lembra as místicas que relatam ou tentam relatar através de metáforas o que vêem ou sentem durante seus êxtases. O doente mental não separa o delírio da realidade. Ela sabe cuidar de si mesma, não depende de ninguém, tem amigos no aterro, construiu um barraco para si, vai sozinha às consultas médicas.

Sua ida para o aterro sanitário de Gramacho localizado em Duque de Caxias na Baixada Fluminense foi uma tentativa talvez de esquecer, ou de poder ser onde não a internariam. Ela ficou lá por mais de 20 anos. O fato de não cuidar muito de si mesma, de pegar conservas no lixo para fazer comida, isto não pode ser considerado loucura, é a vida dos catadores que ali vivem, é a realidade social deles.

Estamira faleceu no dia 28 de Julho de 2011 no Hospital Miguel Couto em consequência de uma septicemia.


Marcos Prado nasceu em 1961 no Rio de Janeiro. 

FILME: COISAS INSIGNIFICANTES - 2008


Direção: Andrea Martínez - 2008
Duração: 98 min
Título Original: Cosas insignificantes

País de Origem: México

Esmeralda (Paulina Gaitan) é uma adolescente que coleciona objetos que encontra em seu dia a dia e os guarda em uma caixa. São objetos esquecidos, perdidos ou descartados, insignificantes para ela, mas que possuem um significante em cada um para aqueles que os deixaram para trás. 

O filme nos mostra as histórias de cada uma dessas pessoas que tem em comum o fato de não conseguirem demonstrar e expressar o amor. Cada um destes objetos foram esquecidos, feitos ou descartados em momentos onde faltou a palavra, onde algo não pode ser dito. Um pai que passou 20 anos sem ver a filha, uma mãe que não consegue expressar seu amor pelo filho, um casal que tem problemas e a própria Esmeralda que não consegue expressar seu amor pela irmã e pela avó. 

Os pequenos objetos da caixa representam esta falta, ausência de comunicação, mas também a sua possibilidade. 

Quantas vezes não falamos através de algo? Quando guardamos uma flor que ganhamos de alguém que amamos, este gesto é um significante, fala de amor, que muitas vezes não foi dito, falado. Objetos que representam algo que nunca foi dito, que não chegou ao outro. 

No momento que Esmeralda consegue ultrapassar esta barreira e expressar seu amor pela irmã e pela avó, participando inclusive das alucinações desta, ela não precisa mais da caixa e a repassa ao médico que não consegue falar com sua filha. 

Ao assistir o filme me lembrei que também tenho uma caixa assim, com flores secas, um guardanapo de uma lanchonete, um maço de cigarros, uma bonequinha, um papel de bala, e que todos representam amores que tive em minha vida. Será que consegui expressar os significantes que estão ali? 


Andrea Martínez 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

LIVRO: O FEMININO E O SAGRADO - CATHERINE CLÉMENT e JULIA KRISTEVA



Clément, Catherine; Kristeva, Julia. Rocco, 2001
220 páginas
Tradução: Rachel Gutiérrez

Um livro escrito a duas mãos, duas vozes. Catherine Clément e Julia Kristeva através de cartas falam sobre o feminino e o sagrado.

O que é o sagrado para o feminino?

Não é fácil escrever sobre este livro que acabo de reler. Os temas são variados dentro do que ambas consideram como sagrado e nem sempre vai de encontro ao que eu mesma penso sobre isto, mas é muito interessante e enriquecedor. 

Kristeva fala do lado Ocidental, com sua formação psicanalítica e linguística, nasceu na Bulgária e vive na França, já Clément é  francesa, judia e viveu por muitos anos na Índia e África, romancista, estudou filosofia, professora e jornalista, tem uma visão mais antropológica. Elas concordam e discordam, há um momento no livro que se sente um pouco a tensão entre as duas que defendem seus pontos de vista, uma certa agressividade até, para depois se recomporem e continuar. Não há nada de conclusivo e nem era esta a intenção, o que elas fazem é levantar questões e falar sobre elas cada uma de seu ponto de vista e compreensão. 

Kristeva fala da Virgem Maria, das místicas ocidentais, de suas analisandas, da anorexia; Clément das africanas e do transe, sobre as tradições Indus, sobre o pudor e a sujeira. Pessoalmente me sinto mais atraída pela visão de Clément que está falando do que viu, viveu, do que acontece de fato na realidade que ela vive. Kristeva em um dado momento chama de sedução de terceiro mundismo, não gostei desta posição dela. Penso que para falar do sagrado a antropologia está mais habilitada do que a filosofia ou a psicanálise. Mas isto é uma opinião pessoal que não significa que Kristeva também não agrega pontos muito interessantes, principalmente sobre as místicas, as santas, sobre Catarina de Siena. Será ela que depois vai escrever um belíssimo livro sobre Teresa D'Ávila. Mas Clément escreveu a Louca e o Santo junto com um psicanalista hindu. 

Num ponto elas concordam, o sagrado é uma separação, ele separa, classifica, é uma maneira de se sair do profano, do mundano, do cotidiano, e viver algo diferente, recuperar-se, e voltar. O sagrado não é divino, há uma diferença, e por isto mesmo nem sempre está ligado à religião. É uma experiência privada, e o risco de se tornar coletiva é o fundamentalismo, a violência, pelo menos no mundo atual, uma vez que entre os povos ditos "primitivos" os rituais eram coletivos e cumpriam seu papel. As aldeias tinham seu espaço sagrado e era respeitado. No mundo atual para se encontrar um espaço sagrado realmente precisamos da privacidade e penso que se trata de uma experiência pessoal para cada um. O sagrado pode estar numa música, num lugar, na dança. Eu mesma considero minha casa um espaço sagrado e a rua o profano, mas também busco na natureza e na terra esta experiência. 

Catherine Clément 

Julia Kristeva nasceu em 1941 em Sliven, Bulgária 

sábado, 31 de janeiro de 2015

FILME: QUE MAL FIZ EU A DEUS? - 2014


Direção: Philippe de Chauveron - 2014 
Duração: 97 min 
Título Original: Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu? 

Um filme excelente, de um humor inteligente sobre o racismo, o preconceito e  a sociedade e suas expectativas  muito bem construído.

Claude (Christian Clavier) e Marie Verneuil (Chantal Lauby) são um casal francês tradicional e tem quatro filhas Isabelle, Odile, Ségolène e Laure. Para seu desespero e decepção as três mais velhas se casam com descendentes de estrangeiros, Rachid um advogado de origem argelina, David um empresário judeu e Chao um gestor chinês.


As reuniões familiares são um desastre, os pais tentam mas não conseguem esconder seu desconforto e os genros também reagem não só aos sogros mas também aos concunhados, resultando sempre num confronto e mal estar. A esperança de Claude e Marie é Laure, que ela se case com um francês e católico. 

Depois do último encontro eles não tiveram mais contato com as filhas e genros e netos, e isto levou Marie a uma depressão. Então todos resolvem se comportar e passar o Natal juntos. Tudo acaba indo bem, mas é nesta noite que Laure anuncia que vai se casar... com um católico o que deixa os pais muito felizes, mas o que eles não sabem é que Charles é africano. 

Quando o descobrem Marie acaba procurando ajuda com um psicanalista e Claude joga sua frustração em outras coisas, como cortar todas as árvores da propriedade, o que acaba preocupando as filhas casadas que pensam em falar com Laure, afinal ela é a única esperança de um casamento dito normal para os pais, agindo de forma egoísta em relação à irmã. Os genros por sua vez decidem ajudar e querem encontrar um ponto fraco em Charles e o seguem e pensam que fizeram um flagrante dele com uma mulher, porém, a mulher é a irmã dele. 

A família de Charles vive na Costa do Marfim, e seu pai também não está nada satisfeito com este casamento. A partir deste momento a briga é dos pais, sendo que Claude não aguenta Marie que depois de se analisar conseguiu vencer o preconceito e decide vender a casa e se divorciar. Vai ser preciso que os dois homens, Claude e o pai de Charles, se acertem, sendo ambos contra o casamento, para finalmente poderem superar suas diferenças.


Marie no seu processo de análise faz uma analogia de seu medo infantil de alguns animais que ela transfere para os genros, ou seja, ela concluiu que é o medo do estranho, do diferente que a assusta, e ao trazer isto a tona ela consegue vencer seus medos e aceitar o outro. 

Este filme com um humor inteligente vem mostrar que a convivência entre diferentes é possível, a aceitação do outro, o respeito, afinal somos todos humanos independente da religião ou da cor da pele. 

Philippe de Chauveron nasceu em 1965 na França

FILME - ADIEU AU LANGAGE - 2014



Direção: Jean-Luc Godard - 2014
Duração: 70 min
Título em português: Adeus à linguagem 
País: França 

Ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014 

Me deixei levar pelo filme de acordo com o que eu fui captando. Primeiramente gostaria de dizer que apesar das sinopses em português, não há nenhum cachorro que fala, que intervem devido a falta de comunicação de um casal. Há sim, um cachorro que anda por ali, no campo, na cidade e acaba no meio deles, é Roxy, e ao qual se empresta uma voz sobre o que seriam seus pensamentos. 

Uma mulher casada encontra um homem livre, eles não conseguem se comunicar, o marido dela aparece querendo explodir tudo, matar. O que temos é o masculino e o feminino, relação impossível apesar de toda nossa insistência. Logo no início, surge a frase:

" Todos aqueles que lhes falta imaginação se refugiam na realidade. Resta saber se o não-pensar contamina o pensamento" 

O filme nos mostra o mundo atual onde cada vez mais se perde a comunicação e se prende em fatos, mídia, no dia a dia corrido e sem sentido. Mas ele também traz o recalcado da Segunda Guerra, que não acabou, uma vez que se diz no filme: a guerra só acabou para os mortos. 

Se divide em A natureza e a metáfora, enquanto as estações do ano passam. Sim, a linguagem é o que nos faz sair da natureza e entrar na civilização, é o que nos diferencia do animal, mas será? aqui o cachorro se sai melhor do que os humanos. Para falar precisamos das metáforas, e o que usamos? principalmente a natureza. 

Outra frase do filme: " ninguém poderia pensar livremente se seus olhos não pudessem deixar outros olhos que o seguiriam. Desde que os olhares se encontram, se pegam, não somos mais deles." Como se desvencilhar do Outro? estamos sempre sendo seguidos por outros olhos, não só os externos, mas principalmente os olhares internalizados. E continua com o cachorro - "Há dificuldade de ficar sozinho. Não é o animal que está cego, mas o homem cegado pela consciência é incapaz de olhar o mundo. O que está no exterior escreveu Rilke nós o sabemos através do olhar de um animal, e então uma citação de Darwin que diz que o cachorro é o único ser na terra que te ama mais do que ama a si mesmo. "

Um deles diz: o face a face inventa a linguagem. Só os seres livres podem ser estranhos um dos outros. Eles tem uma liberdade comum, partilhada, mas exatamente isto os separa. Eu falo = sujeito. Eu escuto = objeto. 
Desde o nascimento somos vistos como um outro e somos forçados a entrar em nosso personagem. Eu posso saber o que pensa outra pessoa, mas não posso saber o que eu penso. É uma sorte que posso falar. 

O filme com seus cortes, montagens, sons, imagens, é como um bricolage. Mas se atentarmos que estes cortes, desencontros, faltas ocorrem constantemente na linguagem, onde um não escuta o outro, não compreende o outro, não há nada de estranho. O que é a linguagem? como ela atua atualmente? 

Uma frase que se repete: Você está repleto do desejo de viver. Eu estou aqui para lhe dizer não! E para morrer. 

Aqui é o real na voz do feminino, o que é viver? é morrer! Ela diz não! seria um não à ilusão? Ele lhe diz que ela reclama a igualdade, e responde que ela só é possível quando se defeca, o único lugar onde todos são iguais. 

É o primeiro filme de Godard que assisto, portanto não falo sobre sua arte, não a conheço, mas sobre uma versão pessoal do que o filme me afetou. 

Cada vez mais estamos sujeitos ao outro e ao Outro, a liberdade só é possível com a consciência deste Outro que nos domina, o personagem que habita em nós e nos foi dado, seja pela família, seja pelo social, pela religião, pelo Estado, pela moral, pelos costumes. Nos iludimos no amor, queremos agradar para sermos amados e não tomamos consciência que uma relação entre um homem e uma mulher é impossível, eles não se encontram, vivem juntos, convivem, mas são diferentes, e acho que o mérito deste filme é isto, mostrar que o masculino e o feminino não se encontram, nem mesmo a linguagem o possibilita, ao contrário, ela possibilita a ilusão deste encontro, o que não ocorre no filme, uma vez que eles não se entendem, não conseguem se comunicar, o cachorro faz o elo, e mais tarde quem sabe filhos. 

Por outro lado o mundo está se estranhando. A cada dia vemos mais preconceitos, racismos, xenofobia, e a grande dificuldade de aceitar o outro, o estranho, que não fala sua linguagem, que fala diferente. E isto começa no menor núcleo, ou seja, na relação de um casal, seja ele homossexual ou heterossexual, não importa, é sempre um outro que está ali. 

Não é um filme que agrade a muitos, não é filme para entretenimento, ele não é linear, não tem uma história com começo meio e fim, são pedaços, montagens, como um blá blá blá que é o que mais ouvimos atualmente, como a fala que não se encontra, e que vai de uma coisa à outra sem criar laços. 


Jean-Luc Godard nasceu em 1930 em Paris, França 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

FILME: GRANDES OLHOS - 2014


Direção: Tim Burton - 2014 
Duração: 105 min
Título Original: Big Eyes 

Cinebiografia da pintora  Margaret Keane 

Anos 50, EUA, Margaret (Amy Adams) acaba de se separar de seu primeiro marido. Ela sobrevive trabalhando numa fábrica de móveis e expõe suas pinturas de crianças com olhos grandes num parque onde conhece Walter Keane ( Christoph Waltz) que também está ali vendendo quadros. 

Fragilizada diante de uma sociedade machista onde uma mulher não é levada em conta como artista, ao receber uma carta informando que seu ex-marido requer a guarda da filha por considerá-la incapaz de cuidar da criança, Walter propõe casamento e ela aceita sem ao menos conhecê-lo direito. Sua vida irá mudar a partir daí. Ele começa a expor os quadros dele e dela, e se inicialmente ele informa que são quadros de sua esposa, aos poucos ele vai se apoderando da arte dela com a desculpa de poderem ganhar muito dinheiro. Ao fim ela desapareceu, as obras são dele. Ela pinta escondido, até mesmo de sua filha. 

O que Margaret não sabia é que estava diante de uma pessoa que mentia o tempo todo dentro do seu delírio. Os quadros que ele dizia serem dele, não eram. Ele nunca esteve em Paris, nem estudou arte. Foi casado e também tem uma filha. Diante de tudo isto ela começa a rever sua situação, mas ainda não tem coragem de tomar uma decisão, se sentia cúmplice na farsa e ele se aproveitava disto, dizendo que eles eram cúmplices numa fraude, até o dia que ele é criticado num jornal e perde as estribeiras numa festa e depois a culpa por isto, mostrando seu lado que não suporta frustrações, ser contrariado, e seu sonho megalomaníaco. Mais uma vez Margaret foge com sua filha e vai viver no Havaí. 

Ela pede o divórcio e ele a chantageia, quer os direitos sobre suas obras e mais 100 quadros ao que ela novamente cede. Sua vida é isolada, até mesmo sua melhor amiga foi afastada devido ao fato da mentira não poder ser revelada, nem mesmo no Havaí ela pode receber pessoas, pois seus quadros estão pela casa e ela está pintando para cumprir o acordo do divórcio. Somente quando certo dia ela acaba recebendo em sua casa duas mulheres que foram ali para pregar sobre sua religião é que ela começa a enxergar uma possibilidade de se libertar. E o faz, acabará levando Walter ao tribunal e onde o juiz para poder determinar a autoria decide que eles terão que pintar, ali mesmo. Obviamente Walter não consegue. Ela ganha a causa, e ele nunca se conformou dizendo sempre que os quadros são dele. 

Os quadros de crianças de olhos grandes marcaram uma época, eram encontrado em todos os lugares como Posters, cartões postais e reproduções. Keane abriu uma galeria e revolucionou a venda da arte. Quando a fraude veio a tona não causou polêmica, uma vez que os quadros não eram considerados obras de arte, mas Kitsch. 

O diretor precisou convencer Margaret a ter sua vida exposta no cinema, hoje com 88 anos. Walter Keane morreu em 2000 pobre e esquecido. Ele não era o pintor, mas era um gênio em vendas e marketing, só que desejava ser um pintor, e seu ego se apoderou, introjetou a arte de Margaret e a deixou totalmente de lado, para Walter ela era como uma fábrica, uma linha de montagem de seus quadros. 

Margaret Keane 
Margaret Keane 



Walter Keane 


Tim Burton nasceu em 1958 em Burbank, Califórnia, EUA. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

FILME: LIVRE - 2014



Direção: Jean-Marc Vallée - 2014
Duração: 115 Min
Título Original: Wild 

Baseado na autobiografia homônima de Cheryl Strayed

Cheryl (Reese Witherspoon) perdeu sua mãe (Laura Dern) que morreu de câncer aos 45 anos e entra num luto patológico e selvagem, entregando-se ás drogas e a sexo descontrolado. Com isto acaba com seu casamento e se divorciando. Após um aborto, sem nem saber quem era o pai,  ela percebe que se transformou em algo ruim, se tornou autodestrutiva e que precisa fazer algo, pois estava longe de ser a mulher que sua mãe criou para ser. 

Sem saber porque quando ela foi à farmácia comprar um teste de gravidez um livro sobre a trilha Pacific Crest Trail, um percurso na costa do Oceano Pacífico, atraiu seu olhar, fazendo com que ela retornasse para comprá-lo. Ela decide então que é preciso mudar e resolve fazer o percurso, uma trilha de 1770 quilômetros, partindo do deserto de Mojave na Califórnia.  

O filme retrata esta caminhada ao mesmo tempo que traz as lembranças de Cheryl e de tudo que ela passou. Aos poucos ela vai se reencontrando, superando seus traumas. Enfrenta vários obstáculos e dificuldades como a falta de água, ter que comer comida fria, o medo, a solidão, os animais selvagens, e também vai encontrando várias pessoas diferentes pelo caminho, muitos que a acolhem. Ao terminar a trilha ela terá apenas vinte centavos e terá que recomeçar sua vida, o que me lembra o que sua mãe sempre lhe dizia, que eram ricos, eram ricos em amor, quando não tinham boas condições financeiras. 

Comprei o livro, mas apenas iniciei sua leitura. No livro sua mãe está casada novamente e ela também tem uma irmã, o que não aparece no filme. O que penso que faltou dizer no filme foi o que ela frisou no livro, que sua decisão de fazer esta caminhada havia sido tomada inconscientemente no dia que sua mãe foi diagnosticada com câncer e lhe foi dado um ano de vida. Um mês e pouco depois ela havia morrido.

É uma caminhada que é a metáfora de um percurso de crescimento enfrentando sozinha os obstáculos, sem sua mãe, é uma caminhada de libertação, de passagem para a vida adulta, de rompimento do cordão umbilical, sem o uso de muletas como a droga ou o sexo. Uma caminhada que também é o enfrentamento da dor, do luto, sentir esta dor, aceitar e continuar. 

Alguns falam da semelhança de sua busca com o filme Na Natureza Selvagem. Ela também troca seu sobrenome, para Strayed, que tem vários significados como não ter pai ou mãe, se desviar da rota certa, perder-se. É uma caminhada longa, mas diferente de Na Natureza Selvagem ela não se afasta tanto da civilização, apesar de grandes trechos solitários onde não cruza com ninguém, e das dificuldades que enfrenta, mas sempre surge alguém ou um saída. Ela também não se alimenta da natureza, não caça, ela está bem munida do que precisa, e mesmo para a água ela possui filtro e purificador para poder usar a água que encontra na natureza. De tempos em tempos ela faz uma parada, descansa, se alimenta e retoma a caminhada. Recebe os pacotes com a reposição do que precisa nestas paradas. Se no filme Natureza Selvagem há uma contestação dos valores dos pais e da sociedade, em Livre é a dor da perda da mãe, a dificuldade de viver sem ela, e a incapacidade de estar a altura do que lhe ensinou a mãe que a faz percorrer a trilha. Em ambos é necessário crescer, se desprender, mas felizmente Cheryl sai renovada desta caminhada para poder retomar sua vida, o que não ocorre com Christopher McCandless que ao tentar regressar já não o consegue e acaba morrendo. 

Jean-Marc Vallée 

LIVRO: UMA VOZ FEMININA CALADA PELA INQUISIÇÃO - A religiosidade no final da Idade Média, As Beguinas e Margarida Porete - RUTE SALVIANO ALMEIDA


Almeida, Rute Salviano. Hagnos, 2011
218 páginas

O projeto que venho desenvolvendo em busca da voz feminina, do pensar feminino me levou às Beguinas, e entre elas Marguerite Porete que escreveu "O espelho das almas simples e Aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do amor". Se inicialmente pensei que havia pouca informação aos poucos vou encontrando livros, teses, estudos sobre estas mulheres que entre a opção de casar ou entrar para um convento encontraram uma alternativa, a de criar uma comunidade onde viviam e trabalhavam sem prestar votos ou serem ligadas à uma instituição religiosa, o que obviamente acabou desagradando o clero que as oprimiu obrigando-as a se tornarem ligadas à igreja. 

Algumas resistiram e entre elas Marguerite Porete que acabou condenada como herege relapsa, ou seja, reincidente na heresia, e condenada à fogueira sendo queimada viva junto com seu livro. Para nossa sorte alguns volumes escaparam, mas levou um longo tempo para que viessem à luz novamente. 

Antes de iniciar a leitura do livro de Marguerite estou lendo um pouco sobre seu contexto, sobre a situação da mulher na idade média, e este pequeno livro de Rute Salviano Almeida está sendo muito bom.

Inicia dando um panorama da Idade Média, da espiritualidade e do secular, a luta entre o clero e os reis pelo poder. Em seguida nos traz uma visão misógina dos homens sobre as mulheres. Nesta época o casamento não era valorizado, apenas o primogênito buscava o casamento em função de preservação de riquezas e descendência, os outros filhos preferencialmente iam para a igreja, eram monges. O casamento era realizado na porta das igrejas, e não dentro delas. Em torno de 1268 se defendeu que era essencial uma cerimônia religiosa para o casamento e foi apenas depois do Concílio de Trento em 1563 que se exigiu a presença de um sacerdote para a cerimônia. Apenas pelo casamento um mulher tinha acesso a existência social, porque antes como moça era designada como "mesquinha", porque antes de casar ela não era nada, o que significa que fora do casamento ela estava numa posição perigosa.

O interessante é que antes do Concílio de Trento o que validava um casamento era a relação sexual entre os noivos que desde que fosse completa validava o casamento como autêntico, para o direito canônico. Era o pai quem entregava a noiva ao noivo e que normalmente oficializava a união, e não o sacerdote.

A mulher na idade média possuía apenas dois espaços: sua casa ou o convento, mas algumas delas não desejavam isto, possuíam uma vocação cristã que queria exercer no mundo e não na clausura. Na época existiam dois movimentos em quais elas criam: o misticismo de Bernard de Clairvaux e a vida apostólica de São Francisco de Assis.

O místico Bernard de Clairvaux declarou na época: " O amor não requer nenhum outro motivo, além de si mesmo, e não busca frutos. Seu fruto é o gozo de si próprio." Ele foi um dos responsáveis pela mudança da concepção do amor.

A partir dos anos 1200 "a devoção feminina que não foi mera cópia da masculina, evoluiu de modo discreto, mas crescente, ao ligar salvação ao amor, à contrição e partindo, então, para uma busca profunda de comunhão com Deus."

O livro traz um breve relato dos principais místicos da Idade Média e depois temos um capítulo sobre as Beguinas. A diferença delas para com as religiosas é que não vivem no mundo mas também não fora dele. O principal objetivo era permanecer neste mundo para fazer nele uma diferença, cuidando das pessoas, mas não apenas do físico, mas também dando um alimento espiritual. Elas se colocam no liminar, e como todos os que estão na margem acabam sendo marginalizadas. As freiras viviam no claustro, no convento, as esposas estavam submissas aos seus maridos e família, mas as beguinas não estavam submissas a ninguém e isto incomodava a sociedade medieval e principalmente a igreja católica.

As beguinas são mulheres cultas, elas escrevem e falam ao público, e isto não era admitido. A igreja tem medo de perder seu poder. Elas atacam o clero devido sua ganância e desejo de poder.

Marguerite de Porette é uma beguina errante, ela não vive nas comunidades. Ela prega e escreve um livro, suprema heresia, ainda mais para uma mulher. É condenada, mas não obedece. Seu destino é a fogueira. Temos um relato no livro sobre a inquisição.

O livro serve como uma introdução ao tema. Não falo muito aqui de Marguerite de Porette pois vou ler o livro dela antes.

Rute Salviano Almeida nasceu em Belo Jardim, PE.